terça-feira, 23 de julho de 2019

Os muito ricos e o meio ambiente no Brasil. (Parte I)

por Samyra Crespo – 
Escrevo aqui em caráter exploratório.
A questão é mais complexa do que parece. Tem a ver com o caráter de nossa elite e com o processo histórico de sua formação. Parte de nossa riqueza é fundiária, opõe há décadas o agronegócio à conservação do patrimônio ambiental. Oposição burra mas persistente. Basta ver os embates entre a área ambiental e os ruralistas na atualidade.
Vamos portanto falar da outra metade da laranja. Da parte que se importa com o meio ambiente e com o uso responsável dos recursos naturais.
A mídia noticiou estes dias que Leonardo Di Caprio, figurinha carimbada na causa, juntou -se à outros bilionários para criar uma fundação totalmente dedicada ao meio ambiente e à questão climática. Não é o primeiro na tradição americana e lembro aqui da Adubon Society entre outras. Mas ele é celebridade, como antes dele o roqueiro Sting e tem os holofotes. Na linguagem de hoje é um influencer global.
E no Brasil? Tivemos recentemente um aperitivo quando o Museu Nacional queimou até o talo e o dinheiro da Lili Safra foi pra Notre Dame. Dizem que lá as obras vão céleres. Aqui repasses não são feitos e pesquisadores espanam cinzas, juntando literalmente os “cacos”.
Diz a minha amiga Aspásia Camargo, uma paladina da Agenda 21 – que bilionários pra valer são os banqueiros, todos com nomes e sobrenomes conhecidos. Não tenho tanta certeza. O modelo concentrador de renda que vigora no Brasil produziu muitos bilionários – mas eles em geral não gostam de exposição. Temem sequestro, investigações desconfortáveis sobre sua vida e a origem do seu dinheiro.
Mas o fato é que a filantropia não é o forte deles.
Há várias versões sobre o fraco desempenho da nossa filantropia.
Primeiro o próprio conceito, demonizado pela esquerda e visto como mera “esmola dada aos pobres pela consciência burguesa culpada dos ricos”. Segundo, a forte atmosfera de desconfiança que cerca as grandes riquezas no País – como se todas elas tivessem um grau de ilicitude em suas credenciais. Espoliação e corrupção. Dinheiro limpo? Raro. É uma opinião corrente – que se fortalece no presente com os fatos revelados pela força-tarefa da LavaJato.
Em terceiro, ronda nos círculos dos muitos ricos o receio de que o dinheiro doado não chega integralmente às suas finalidades. Sem contar que não há incentivos atraentes, por parte do Fisco, às doações individuais.
O Marco Legal do Terceiro Setor – que regula o funcionamento das organizações sociais no Brasil é recente (ONGs, Fundações e também igrejas). Leis como a Rouanet têm por base a renúncia fiscal e portanto distribuem dinheiro dos contribuintes, não das empresas como se pensa.
As centenas de organizações criadas e mantidas por empresas aliás são um capítulo à parte, mas bebem da mesma fonte.
Fundações como Vale, Itaú, Alcoa, Wallmart, CocaCola e outras tantas, são mantidas com recursos da renúncia fiscal. Impostos que deixam de ser pagos.
Nos anos 90, insistimos, o país viveu uma onda de otimismo em relação ao tema do fortalecimento da sociedade civil. Surgiram milhares de organizações: as boas e as ruins. À filantropia sucedeu a ideia do engajamento social e a da responsabilidade empresarial. E até editais governamentais disponibilizaram recursos para o terceiro setor. Surgiram muitas ONGOVs neste cenário – organizações que atuam como braço supletivo do Estado. Legitimamente provendo serviços à população, principalmente na cultura, saúde e educação.
Não conheci muitos ricos atuando na área ambiental, mas com certeza alguns se destacaram.
Os Mesquitas, Rodrigo e João, irmãos – membros da tradicional família do Estadão. Rodrigo Lara Mesquita à frente da Agência de Notícias Estado e Joao Lara Mesquita dirigindo a Rádio Eldorado. Além de colocar estes meios na promoção da causa ambiental, foram presentes em várias organizações sendo a mais conhecida a S.O.S. Mata Atlântica onde também encontramos o Roberto Klabin – outro rico estrelado.
Um outro Klabin, o Israel também deixa seu nome na calçada dos ambientalistas milionários. Playboy na juventude, prefeito biônico na Ditadura, vive no Rio e fundou a FBDS – organização que atua desde a articulação empresarial que lhe deu origem no período prévio à Rio 92. Klabin se afastou desta origem – contarei depois a interessante história desta dissidência. Por agora basta dizer que dela nasceu o CEBDS – Conselho Empresarial para o desenvolvimento Sustentável.
Aqui importa lembrar que, além de uma atuação própria, Klabin deu por anos suporte às campanhas políticas dos “ecojudaicos”, entre eles Alfredo Sirkis e Carlos Minc, dois medalhões do ambientalismo carioca.
No Rio destaca-se também José Roberto Marinho – o Zé Roberto – um dos dirigentes da Vênus Platinada (As Organizações Globo).
Dele e de outros dignos de nota, escondidos ou não no sigilo ou voluntário anonimato, falarei no próximo post.
Não são muitos. Mas inspiram e deveriam mobilizar mais pares para esta causa que se afasta, cada vez mais, do conceito de filantropia tradicional para expressar uma consciência lúcida e urgente.
Aguardem a segunda parte. Volto já, já.
Este texto pertence à série que escrevo, desde março, para o site Envolverde/Carta Capital sobre o ambientalismo brasileiro em anos recentes.
Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo “O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.


(#Envolverde)

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