quinta-feira, 12 de maio de 2016

Ecologismo e antiespecismo: discrepância científica ou moral? artigo de Roberto Naime FacebookTwitterGoogle+LinkedInWhatsAppGoogle GmailYahoo MailPrintFrie

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[EcoDebate] Catia Faria reflete sobre a existência de uma discrepância científica entre o ecologismo e o anti-especismo. Se pensa que somente a partir de uma posição ecologista é possível ter um ponto de vista informado de acordo com o que nos dizem as ciências naturais. Esta ideia assenta num erro.
É possível, manter, com o mesmo rigor científico, uma posição antiespecista que estenda a consideração moral a todos os animais não humanos.
É necessário, antes de mais, fazer uma distinção fundamental entre a ecologia e o ecologismo. A ecologia é uma ciência descritiva sobre as relações biológicas que se dão no seio dos ecossistemas.
O ecologismo, engloba posições morais sobre como deve ser a interação com o meio natural, dados valores que devem ser conservados.
Quem defende uma posição ecologista nem sempre considera os dados das ciências empíricas como a ecologia. A ciência da ecologia é um requisito necessário a toda a investigação racional.
Partindo da mesma base científica podemos usar para procurar fazer aquilo que é melhor para os animais.
A discrepância entre ambas posições ocorre no plano estritamente moral. De acordo com a posição antiespecista os interesses de todos os animais sencientes dão razões para atuar de forma a prevenir os danos que estes possam sofrer.
De acordo com a posição ecologista, pelo contrário, os interesses dos animais sencientes estão subordinados à preservação de outros valores, em particular, a evitar alterações significativas nos ecossistemas ou a conservar certas espécies.
Isto é assim porque para o ecologismo as entidades moralmente consideráveis não são os indivíduos sencientes, mas os ecossistemas e as espécies, no seu conjunto.
Em termos práticos, isto implicará que sempre que exista um conflito entre os interesses de indivíduos sencientes não humanos e a preservação dos referidos valores ecologistas. O anti-especismo e o ecologismo manterão posições irreconciliáveis. Enquanto o anti-especismo se oporá a aquelas intervenções que suponham a morte e o sofrimento de todos aqueles animais que podem desfrutar das suas vidas sejam humanos ou não humanos.
Já o ecologismo estará disposto a defender. Sempre que isso promova a estabilidade dos ecossistemas e a conservação das espécies ou da biodiversidade e os indivíduos afetados não sejam seres humanos.
A posição ecologista acaba por sucumbir ao especismo. Recusando promover os valores ecologistas quando isso frustra os interesses em não sofrer e em viver dos seres humanos, mas admitindo fazê-lo quando se trata de interesses similares de não humanos.
De um ponto de vista antiespecista isto é inaceitável. Não existe nenhuma característica moralmente relevante que todos os humanos exibam e que nenhum não humano possua que permita estabelecer essa diferença.
Assim, a consideração desigual de interesses similares de humanos e não humanos é moralmente injustificada e qualquer posição que reflita isto, também será.
A preservação dos ecossistemas, das espécies ou da biodiversidade tem um valor instrumental para a diminuição do sofrimento na natureza. Isto está longe de ser adequado e correto.
Consideremos um caso célebre da chamada “espécie invasora” os patos-de-rabo-alçado americanos na Europa. Esta espécie, introduzida nos anos 60 pelo ser humano naquele continente, coexistem com os patos-de-rabo-alçado autóctones e desempenham funções ecológicas similares.
Contudo se recomendou a erradicação da espécie americana, como forma de impedir a hibridação com os europeus e conservar as características específicas dos europeus.
Neste caso, a preservação da biodiversidade não tem um valor instrumental para a vida dos animais, dado que muitos animais são prejudicados e parece não haverem benefícios relevantes pela intervenção. Alguém poderia afirmar que o pato-de-rabo-alçado europeu ocorre beneficiado.
No entanto, as espécies são entidades abstratas, insuscetíveis de ser beneficiadas ou prejudicadas em nenhum sentido para além do metafórico. Apenas os indivíduos sencientes, com a capacidade para sofrer e desfrutar, podem ser beneficiados ou prejudicados pelo que lhes acontece.
O que se pretende é conservar a biodiversidade como um valor em si mesmo, independentemente dos danos ou benefícios que de tal se derivem para as vidas dos animais.
As conseqüências que se derivariam de aceitar tal cenário para a consideração de cenários humanos são claramente inaceitáveis. Isto é, aceitar a erradicação de seres humanos com determinados características físicas de forma a evitar a miscigenação com os indivíduos autóctonos, preservando, assim, a pureza destes. Melhor que isto nem o nazismo imaginaria. Hitler se revira em sua tumba.
A analogia com o caso humano mostra o que é moralmente relevante quando não é a preservação das espécies ou dos ecossistemas o fator mais importante ao menos sob o aspecto moral.
O que é relevante são os interesses em não sofrer dos indivíduos sencientes e que podem ser frustrados quer pela ação humana quer por eventos naturais.
É, por este motivo, arbitrário intervir na natureza com fins ecologistas de formas que causam enorme dano a outros animais sencientes quando nunca o faríamos aos humanos. Do mesmo modo, é arbitrário intervir na natureza para ajudar a seres humanos, e se recusar a fazer quando os beneficiários são animais não humanos.
Se poderia argumentar que intervir na natureza de forma a beneficiar os animais que sofrem por causas naturais não poderia ser realizado, dadas as atuais limitações científicas do ser humano. Contudo, se houver reflexão se conclui que o mesmo raciocínio não ocorre quando estão em jogo interesses humanos.
É certo que não se dispõe atualmente do conhecimento científico necessário para erradicar doenças, que podem ser mortais para os seres humanos. No entanto, temos claro que se ocorressem tais meios, seriam usados para salvar vidas humanas.
A questão é que no momento em que seja possível atuar em beneficio dos animais não humanos que sofrem por motivos naturais não haveria razoes para recusar a fazer.
Dado o conhecimento científico atual, não se dispõe de meios para atender os interesses da maioria dos animais sencientes que vivem na natureza. Mas isso não significa que não se deva consiiderar os mesmos.
O que implica em se abster de todas as ações que, em vez de reduzir o sofrimento na natureza, incrementam este estado, como acontece com a erradicação das chamadas espécies invasoras.
É uma questão complexa e que merece reflexão. Espécies invasoras podem ser muito danosas a ecossistemas locais. É um debate que merece múltiplas abordagens para que se atinjam consensos reais.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 12/05/2016
"Ecologismo e antiespecismo: discrepância científica ou moral? artigo de Roberto Naime," inPortal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/05/2016,https://www.ecodebate.com.br/2016/05/12/ecologismo-e-antiespecismo-discrepancia-cientifica-ou-moral-artigo-de-roberto-naime/.

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