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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Moradores transformam terreno abandonado no Rio em referência de horta urbana

Por Mídia Ninja – Moradoras e moradores do bairro Jardim Sulacap, na zona oeste carioca, transformaram um terreno abandonado em espaço sociocultural e de produção de alimentos saudáveis, sem agrotóxicos e sem transgênicos, para a população local. A agricultura urbana tem sido um elemento fundamental no projeto, que conta, desde 2016, com uma horta comunitária criada por voluntárias/os e, hoje, tem muitas hortaliças, árvores, arbustos e frutíferas. O ambiente se tornou também um ponto de encontro, onde são realizadas muitas atividades socioculturais. Batizada de Horta da Praça Quincas Borba, que produz cerca de 450 mudas por mês e atende centenas de pessoas do bairro, a ideia iniciou com alguns moradores mais antigos buscando um bairro mais sustentável. O terreno tem cerca de 15 mil metros quadrados e, segundo as/os pioneiras/os do projeto, foi utilizado para recuperar um hábito antigo de cultivar horta, pomar, quintal produtivo e jardim, desde quando a região era parte do sertão carioca, chamado Fazenda dos Afonsos. Até os anos de 1940, quando a SulAmérica Capitalização comprou as terras para construir um bairro-jardim, o lugar era ocupado por vários sítios e pequenas fazendas. O movimento de cidade-jardim de Ebenezer Howard, um urbanista inglês, surgiu em resposta aos problemas urbanos e rurais de Londres no fim do século XIX, para melhoria da qualidade de vida. De acordo com Emilson Moreira, um dos idealizadores e coordenador das ações do grupo Jardim Sulacap pelo Bairro Sustentável (JSBS), houve uma evolução significativa na região nos últimos anos e o local está aumentando ainda mais. O espaço público, que antes da horta estava degradado, com lixo, entulhos e resíduos de escavações, segundo ele, está agora em processo de regularização junto à Fundação Parques e Jardins, da Prefeitura do Rio de Janeiro. Ele também é diretor de sustentabilidade da Associação de Moradores do Jardim Sulacap (Amisul) e está, juntamente com outras/os 12 colaboradoras/es, intermediando o diálogo com o poder público em busca da regularização do terreno. “O lugar é mais do que uma horta comunitária: podemos ficar e conversar com outras pessoas, ter contato com a terra, bichos, ver práticas culturais que zelam pelas pessoas e constroem o presente pensando no amanhã. Acontecem festas populares – junina e primavera – que misturam histórias orais, passeios, reciclagem de resíduos orgânicos, jardinagem, instalação de brinquedos, trabalhos de manutenção, comidas típicas e populares, danças, músicas, brincadeiras antigas ao ar livre, oficinas e outras atividades mescladas no projeto de tornar o bairro melhor para todos”, afirmou Moreira. Horta comunitária no bairro Jardim Sulacap, Rio de Janeiro / RJ, se transformou em espaço para produção de alimentos saudáveis e para realização de atividades socioculturais. (Foto: Associação de Moradores do Jardim Sulacap – Amisul) Atualmente, existe um grupo em uma rede de mensagens online envolvendo cerca de 70 pessoas. O projeto também conta com o apoio da organização AS-PTA (Agricultura Familiar e Agroecologia), que presta assistência técnica à iniciativa. A organização se aproximou da Associação há alguns anos para realizar o Projeto Comunidades Verdes, que atendia os bairros no entorno da transcarioca (sistema de transporte público metropolitano que liga a Barra da Tijuca ao Aeroporto Galeão), e instalou hortas verticais experimentais. Mais recentemente, o Projeto Sertão Carioca, patrocinado pela Petrobras, viabilizou recursos para suporte técnico, disponibilização de sementes, materiais e assessoria para acesso a políticas públicas e estímulo a redes de agroecologia na cidade. A iniciativa buscava desenvolver espaços públicos na área de amortecimento no entorno do Parque Estadual da Pedra Branca, na zona oeste. De acordo com Márcio Mattos, da AS-PTA e integrante do Coletivo Nacional de Agricultura Urbana (CNAU), a destinação de um terreno mal aproveitado foi muito interessante ao dar uso ambiental, de produção de alimentos, ervas medicinais e outras coisas, além da convivência com trabalhos educativos com crianças e festivos com os moradores. Segundo ele, os moradores, ao se organizarem em coletivo, fortalecem a experiência, que por sua vez ganha força, e aumentam a capacidade de diálogo com o poder público em defesa de suas demandas. Crianças participam de trabalhos educativos na Horta da Praça Quincas Borba, localizada na zona oeste carioca. (Foto: Associação de Moradores do Jardim Sulacap – Amisul) “Esse grupo participou, por exemplo, do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural. A gente fortaleceu essas relações mostrando para a sociedade e para o poder público a importância que a agricultura tem na cidade. A ocupação dos espaços com agricultura, florestamentos, praças públicas com uso agrícola têm um papel muito importante. Essas redes acontecem aqui no Rio de Janeiro, mas estão também em outros lugares no Brasil. Buscamos que essas interações ganhem mais escala para discutir políticas em nível nacional, como o Projeto de Lei de uma Política Nacional de Agricultura Urbana”, afirmou Mattos. *Crédito da imagem destacada: Moradoras e moradores do bairro Jardim Sulacap, Rio de Janeiro, aproveitam o espaço da horta comunitária para conversar e trocar experiências de cultivo. (Foto: Associação de Moradores do Jardim Sulacap – Amisul) #Envolverde

Ribeirinhos do Xingu alimentam Altamira com produtos da floresta

Coalizão de 27 organizações pede que Brasil apoie inclusão de bem-estar animal como política essencial no programa de meio ambiente da ONU

Grupo enviou carta ao Ministério do Meio Ambiente pedindo que o país vote a favor de resolução em assembleia internacional entre 28 de fevereiro e 2 de março Vinte e sete organizações da sociedade civil, que juntas representam mais de 1 milhão de membros e apoiadores no Brasil, enviaram uma carta ao Ministério do Meio Ambiente pedindo apoio à resolução que introduz o bem-estar animal como preocupação política essencial no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O tema será discutido na 5ª Assembléia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, entre 28 de fevereiro e 2 de março, de forma online e em Nairobi, no Quênia. Ele foi submetido inicialmente à ONU por Gana, Senegal, Burkina Faso, Etiópia, República Democrática do Congo, Paquistão e Sudão do Sul. Para ser validada, a resolução sobre o nexo entre bem-estar animal, meio ambiente e desenvolvimento sustentável precisa do aval da maioria dos 193 países-membros. “Há crescentes evidências que demonstram que a melhoria do bem-estar animal pode ajudar a prevenir futuras pandemias, promover a conservação e proteção ambiental e ajudar a preservar meios de subsistência ​​- além de ser uma importante preocupação de cidadãos no Brasil e ao redor do mundo”, cita a carta. O pedido ao governo brasileiro é endossado por representantes de 350.org, Alianima, AMPARA Animal, Mercy For Animals Brasil, Clima de Eleição, Conscient – Laboratório de Estudos em Consumo Sustentável, Delibera Brasil, Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Greenpeace Brasil, Humane Society International, ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, Instituto Akatu, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), Instituto Comida do Amanhã, Instituto Luisa Mell de Assistência aos Animais e Meio Ambiente, Instituto Sea Shepherd Brasil, Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Ame o Tucunduba, Observatório de Justiça e Conservação, Princípio Animal, Proteção Animal Mundial (World Animal Protection), Santuário Vale da Rainha Resgate a Conscientização, SCORAI Brazil (Iniciativa de Pesquisa e Ação em Consumo e Produção Sustentáveis), Sinergia Animal, Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), The Climate Reality Project Brasil e The Good Food Institute Brasil. A aprovação da resolução significa o comprometimento dos países em proteger os animais e seus habitats, além de cumprir requisitos de bem-estar animal. Outro pedido é que o PNUMA faça um estudo sobre a conexão entre bem-estar animal, meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Entre os principais motivos para a aprovação, estão deter a perda da biodiversidade, restaurar ecossistemas, mitigar as mudanças climáticas, prevenir a poluição, reduzir o risco de novas doenças zoonóticas infecciosas, promover a transição para sistemas alimentares sustentáveis e agroecológicos e alcançar o desenvolvimento sustentável. “A resolução reconhece a necessidade de ação imediata e concreta para proteger os animais, a saúde humana e o meio ambiente. Também oferece à comunidade global uma oportunidade de avanços significativos para o bem-estar animal e que também ajudará a endereçar a degradação ambiental causada pela agropecuária e pela pesca industriais”, afirma Cristina Mendonça, diretora executiva da Mercy For Animals no Brasil, uma das signatárias da carta. Pesquisa do instituto Datafolha, encomendada pela ONG Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e divulgada em dezembro de 2021, mostra que 9 em cada 10 brasileiros se preocupam com a forma como os animais são tratados na indústria. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 2015, vislumbra um mundo onde a “humanidade vive em harmonia com a natureza e em que a vida selvagem e outras espécies vivas são protegidas”. “Entretanto, as ações dedicadas para proteger os animais e seu bem-estar nas políticas da ONU têm sido insuficientes até o momento, com consequências devastadoras à saúde pública e ambiental do planeta, como a perda de biodiversidade, as mudanças climáticas e a poluição “, observa Cristina. #Envolverde

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

A cooperação entre golfinhos e pescadores artesanais pelo mundo

Por Elisa Ilha* para o Fauna News – A pesca cooperativa entre botos-de-Lahille e pescadores artesanais para capturar tainhas, no sul do Brasil, tem sido um tema recorrente na coluna Aquáticos. Essa interação de cooperação, se caracteriza por inúmeras singularidades que estão associadas aos estuários onde ocorrem (em Laguna, Santa Catarina, e na barra do rio Tramandaí, Rio Grande do Sul), aos pescadores artesanais de tarrafa (que através de gerações aprendem e compartilham saberes sobre ela) e aos botos-de-Lahille (que são uma espécie endêmica de águas costeiras e estuarinas do oceano Atlântico Sul Ocidental). A pesca cooperativa no sul do Brasil é considerada única por ser antiga e ritualizada, sempre iniciada pelos botos e dependente do conhecimento mútuo entre eles e os pescadores. Além disso, os pescadores artesanais de tarrafa reconhecem cada boto pelo seu “jeitão”, dão nomes a eles e identificam as relações de parentesco entre as gerações de botos que pescam junto com eles. Mas será que, além dessas duas localidades no Brasil, existem outras interações de cooperação entre pescadores artesanais e odontocetos (botos e golfinhos)? Onde e como será que elas ocorrem? Apesar de existirem há centenas de anos, são poucos os registros de interações de cooperação entre odontocetos selvagens e seres humanos registradas ao longo do mundo. Além do Brasil, existem registros em Mianmar, no sudeste asiático (onde ainda é frequentemente observada); na Mauritânia, no noroeste da África (onde é considerada praticamente extinta); na Índia (onde, na verdade, não pode ser considerada cooperativa); e na Austrália (onde existem apenas registros históricos). Essas interações envolvem diferentes espécies de odontocetos e diferentes artes de pesca artesanais para capturar diferentes presas. Austrália Na Austrália, as evidências da pesca cooperativa entre golfinhos e povos originários desse continente são antigas e principalmente associadas a mitologia, lendas e histórias orais desses povos (como os Bundjalung). Elas foram amplamente relatadas por autores no século 19. De acordo com as regiões onde ocorreram e as descrições dos odontocetos, acredita-se que a espécie envolvida nas interações cooperativas era o golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), sendo a tainha (Mugil spp.) a presa mais comumente capturada (existem várias espécies de tainha ao redor do mundo). Essas interações se davam a partir do posicionamento dos pescadores na água, que observavam o mar, aguardando a presença dos cardumes. Quando os grupos de peixes eram detectados, os pescadores começavam a bater com as suas lanças ou redes na superfície da água ou no solo arenoso para chamar a atenção dos golfinhos. Os golfinhos, por sua vez, começavam a conduzir os cardumes em direção aos pescadores que, então, lançavam suas redes ou lanças. Assim como ocorre no sul do Brasil, esses golfinhos pareciam se beneficiar com a dispersão dos peixes, ocasionada pelo impacto dos instrumentos de pesca na superfície da água, sobre os cardumes. Ainda na Austrália, existem evidências da cooperação entre povos originários e orcas (Orcinus orca) para capturar baleias-verdadeiras, descritas a partir da perspectiva dos povos originários e da perspectiva dos colonizadores. Essa interação foi documentada entre 1840 e 1930. Nessa “caça cooperativa”, as orcas alertavam os povos originários sobre a presença de baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) durante a temporada migratória, conduzindo-os até elas. Enquanto as orcas assediavam as baleias, os baleeiros artesanais matavam as baleias com seus arpões. Diferente da cooperação com os golfinhos-nariz-de-garrafa, onde a interação era iniciada pelos povos originários, aqui eram as orcas que sinalizavam o início da interação. Uma das orcas cooperativas, conhecida por Old Tom, nadando ao lado de um bote baleeiro e um filhote de baleia-jubarte entre eles, na década de 1900, em New South Wales, Austrália – Fonte: Charles Eden Wellings/domínio público A perda dessas interações cooperativas na Austrália é principalmente atribuída a ações diretas dos colonizadores (como a morte deliberada de golfinhos-nariz-de-garrafa por espingardas, assustando-os de maneira que os golfinhos não regressaram mais), assim como pela saída dos povos originários dos territórios tradicionais (quando eles saíram de Twofold Bay, no sul da Austrália, as orcas parecerem ter migrado para a região norte do país). Mauritânia Na Mauritânia, no continente africano, populações do povo Imraguen interagiam cooperativamente com os golfinhos-nariz-de-garrafa. Em um registro de vídeo de 1970 (no YouTube), é possível assistir a essa interação. Na presença de cardumes, os pescadores entram na água com suas redes. Ao bater na água com troncos de madeira, eles chamam a atenção dos golfinhos. Os golfinhos criam, então, uma barreira para os cardumes nas águas rasas, conduzindo os peixes para as margens onde estão os pescadores. As mulheres, também pescadoras, são as responsáveis por realizar todo o processamento da tainha após a captura. Um dos trabalhos que descreveu essa interação, interpreta que o “splash” na água (causado pelos troncos para chamar a atenção dos golfinhos) poderia ser uma tentativa de imitar o som das tainhas que saltam na água. Entretanto, a interação entre os Imraguen e os golfinhos-nariz-de-garrafa, assim como outros métodos tradicionais de pesca, tem desaparecido devido à pressão exercida pela pesca industrial (principalmente ilegal) nos territórios tradicionais, levando a perda desse conhecimento. Atualmente, os Imraguen são apenas mil pessoas, que vivem em dentro do Parque Nacional Banc d’Arguin, na costa atlântica da Mauritânia. Índia Já no sudoeste da Índia, mais recentemente, foi documentado, no estuário de Ashtamudi, uma pesca artesanal de tarrafa que aproveita o padrão de comportamento alimentar do golfinho-corcunda-do-Indo-Pacífico (Sousa chinensis) para avaliar a disponibilidade de peixes. Contudo, diferentemente das demais, essa interação não pode ser entendida como cooperativa. Isso se dá porque é o movimento dos golfinhos em busca das suas presas que sinaliza para os pescadores qual é o melhor momento para lançarem suas tarrafas. Porém, apesar dos benefícios para os pescadores (como a maior eficiência na pesca e a maior riqueza de presas), não há nenhum indício de que os golfinhos se beneficiem dessa interação. Pescador lançando a tarrafa em frente ao golfinho-corcunda-do-Indo-Pacífico: a interação entre eles não é entendida como cooperativa – Fonte: Kumar et al. (2012) Mianmar Por último, chegamos em Mianmar, no sudeste asiático, onde até hoje se observa de forma ativa e frequente a pesca cooperativa entre pescadores artesanais de tarrafa e uma espécie de golfinho endêmica dessa região, conhecida como golfinho-do-Irrawaddy (Orcaella brevirostris). Essa espécie recebeu o nome do rio Irrawaddy, onde ela aprendeu a pescar de maneira mutuamente benéfica com os pescadores. Atualmente ameaçados de extinção, vivem menos de 70 indivíduos no rio Irrawaddy. A comunicação entre pescadores e golfinhos é feita através de sinais e foi construída a partir de anos e anos de prática, coordenando a habilidade de arremesso das redes pelos pescadores com a confiança dos golfinhos. Os golfinhos-do-Irrawaddy conduzem os cardumes em direção aos pescadores, que estão posicionados em seus barcos com as tarrafas em mãos. Quando os cardumes estão próximos aos barcos, os golfinhos sinalizam o momento de lançar as tarrafas. A Área Protegida dos golfinhos-do-Irrawaddy (Myanmar’s Irrawaddy Dolphin Protected Area) é o único lugar onde se pode observar a pesca cooperativa com essa espécie (e você pode assisti-la no YouTube). Essa foi a primeira área aquática protegida do país e abriga sete vilas de pescadores cooperativos, que também ajudam a proteger o golfinho-do-Irrawaddy. No rio Irrawaddy, a Área Protegida dos golfinhos-do-Irrawaddy é cenário da pesca cooperativa com os pescadores artesanais de tarrafa – Fotos: brumadolphins.com e medium.com Entretanto, assim como na Mauritânia e no Brasil, em Mianmar também são poucos os pescadores artesanais que mantêm viva a prática da pesca cooperativa nos dias de hoje. Ela é ameaçada por práticas modernas de pesca (como a pesca elétrica ilegal que, por vezes, eletrocuta os golfinhos-do-Irrawaddy) e pelo desenvolvimento econômico na região, dificultando a perpetuação dessa prática tradicional interespecífica ao longo do tempo. Em todos os locais onde a pesca cooperativa entre pescadores artesanais e odontocetos acontece ou aconteceu, ela fez e faz parte da cultura das comunidades locais. Entre os relatos do leste da Austrália, por exemplo, sabe-se que a relação entre humanos e golfinhos tinha um significado mais profundo para os participantes humanos que apenas retornos econômicos vinculados à pesca. Na Mauritânia, por sua vez, há relatos de que os golfinhos podiam ser entendidos como “uma divindade próxima” e em Mianmar, eles são considerados “como parentes da família”. O afeto e a proteção com os golfinhos são também inúmeras vezes relados no sul do Brasil: “todo mundo deveria saber o que acontece aqui, sobre os botos e da pesca com eles. Saber como eles ajudam o pescador…”, “o boto é tudo para nós aqui na Barra. já salvou muito a comida na panela.” Portanto, salvaguardar as interações de pesca cooperativa em nosso país e no mundo é salvaguardar patrimônios culturais materiais e imateriais, que refletem a riqueza do contínuo entre natureza e cultura. Garantir o direito aos territórios tradicionais e as territorialidades dos povos e comunidades tradicionais é, assim, uma das formas mais efetivas de assegurar a conservação da biodiversidade e de toda a cultura a ela associada. * Bióloga, mestra em Biologia Animal pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É pesquisadora colaboradora do Laboratório de Sistemática e Ecologia de Aves e Mamíferos Marinhos (Labsmar/UFRGS) e do Projeto Botos da Barra (Ceclimar/UFRGS) aquaticos@faunanews.com.br #Envolverde

Restaurar 10% de áreas degradadas da Amazônia pode gerar receita de R$ 132 bilhões

Aproximadamente 2,6 bilhões de toneladas de CO2 podem ser retirados da atmosfera com a restauração otimizada A Amazônia pode salvar a própria Amazônia. Isso é o que aponta o estudo sobre a restauração de áreas prioritárias da floresta, desenvolvido pelos pesquisadores Bernardo Strassburg, Paulo Branco e Álvaro Iribarrem. A pesquisa mostra que, se apenas 10% da área degradada da Amazônia fosse restaurada de forma otimizada, uma receita de até R$ 132 bilhões poderia ser gerada. Abrindo a possibilidade de novos financiamentos com essa receita. Isso ocorreria porque, com a restauração priorizada, cerca de 2,6 bilhões de toneladas de Co2 seriam retirados da atmosfera. “Se você comercializa esse potencial crédito de carbono vindo dessas áreas, por exemplo, você tem um cenário que é bom para muita coisa ao mesmo tempo. Ou seja: você gera receita a partir de carbono obtido com a restauração”, explica Strassburg, que é diretor executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS). Ele ainda argumenta que é possível usufruir desse dinheiro em benefício da própria floresta. “A gente sabe que mais ou menos metade desse valor seria destinado aos fazendeiros por custo de restauração, para os locais e para quem faz essa restauração. Mas ainda sobra 50%, são R$ 66 bilhões. Esse valor poderia ser usado para investir em política pública, para financiar programas de desenvolvimento sustentável, para buscar caminhos mais sustentáveis para o desenvolvimento da própria Amazônia”, defende o pesquisador. Prioridades A recuperação de áreas desmatadas e degradadas é uma prioridade para a superação de desafios globais, como a mitigação das mudanças do clima. No Brasil, a meta estabelecida através do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg, 2017) é de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa em todos os biomas brasileiros até 2030. Se considerarmos que a Amazônia Legal brasileira ocupa quase 60% do território nacional (IBGE, 2019), a recuperação florestal da região deve ser vista como uma questão, sobretudo, estratégica, tendo em vista as elevadas taxas de desmatamento e o alto potencial de regeneração natural do bioma. Os resultados do estudo, entretanto, mostram que a restauração isolada, sem o planejamento de áreas prioritárias, pode ser uma escolha nada inteligente. “Um estudo anterior ao nosso mostra que se restaurar 10% da Amazônia sem priorização, sem planejamento, o processo é muito menos eficiente. O custo é até 10 vezes mais efetivo se você seguir a priorização”, ressalta Strassburg. Ele ainda aponta que, se os gestores escolherem apenas pelo fator de custo, ou seja, por onde seria mais barato restaurar, ao invés de ir para fatores como clima ou biodiversidade, o resultado dessa restauração pode ser oito vezes menor. “Então, com o mesmo trabalho, ao invés de retirar 2,6 bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera, como se fôssemos pelas áreas prioritárias, conseguiríamos apenas 330 milhões de toneladas. Estamos falando da mesma área, ainda restaurando os 10% do que foi perdido, a mesma dimensão de esforço, mas em locais diferentes por conta da prioridade”, destaca o diretor do IIS. Critérios Três critérios são utilizados para definir quais são as áreas prioritárias para recuperação florestal no Bioma Amazônia: 1. Conservação da biodiversidade, que visa a redução no risco de extinção das espécies ameaçadas e/ou endêmicas da Amazônia; 2. Mitigação de mudanças do clima, que busca otimizar o potencial de sequestro de carbono; 3. Retorno socioeconômico, que tem como objetivo desenvolver a restauração por meio de baixos custos e, ao mesmo tempo, aumentar a geração de emprego e renda na região. A ideia, então, é encontrar soluções balanceadas, simultaneamente, entre os três benefícios. Nos casos de mudanças climáticas e potencial de retorno socioeconômico, as áreas prioritárias se concentram, em grande parte, no “arco do desmatamento” (região em que o desmatamento se concentra historicamente –território que vai do Oeste do Maranhão e sul do Pará, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre). Por outro lado, para a redução do risco de extinção de espécies, as áreas prioritárias estão concentradas mais ao Norte e nas margens do rio Amazonas. Isso acaba por evidenciar uma relação de “perde-e-ganha” entre os critérios utilizados e aponta a necessidade de um cenário multicritério, como o utilizado pela pesquisa, que leva em consideração todas essas relações juntas. Ao comparar os custos desse cenário com outros, ele se mostrou extremamente vantajoso, representando uma economia de aproximadamente R$ 43 bilhões por ano. Além disso, a priorização ‘multicritério’ oferece subsídios para a tomada de decisão para definir por qual área começar a recuperação florestal. Como consequência, se torna de grande utilidade no processo de construção e aprimoramento de políticas públicas e também em processos de tomada de decisão no âmbito do poder público, do setor privado e da sociedade civil. “O interessante desse estudo é que ele reforça, realça e quantifica o impacto gigantesco que a restauração pode trazer para esses desafios locais e globais quando feita de forma planejada. Além disso, a gente consegue quantificar e mapear e, a partir disso, atuar diretamente nas escolhas que os tomadores de decisão devem ter quando forem restaurar uma área. Isso porque a gente consegue quantificar os benefícios de cada área, ver qual, juntando os fatores, é mais benéfica de ser restaurada. Você mapear ajuda demais na tomada de decisão, porque mostra as prioridades e sai de algo genérico para algo concreto. Você passa a argumentar com dados”, defende Strassburg. E quais são as áreas prioritárias? Como resultado, a pesquisa conclui que há áreas prioritárias por toda a Amazônia. Algumas são mais importantes para a conservação da biodiversidade, clima, impacto social e, em alguns casos, são importantes para todos esses fatores juntos. “Os resultados mostram que a restauração em regiões próximas a calha e foz do rio Amazonas, Bragantina no Pará e Colíder no Mato Grosso são de altíssima importância para a conservação da biodiversidade, enquanto que o Sudeste Paraense, Nordeste Mato-grossense e região de Ji-Paraná em Rondônia, tem alto potencial para sequestro de carbono”, destaca Strassburg, acrescentando que “tais regiões também seriam prioritárias para impactos socioeconômicos”. Os mapas elaborados pela pesquisa também apontam por onde começar a implementação da recuperação, levando em conta os diferentes cenários descritos. É possível perceber, a partir da delimitação por estados, que há regiões de alta prioridade em toda a Amazônia. “É interessante notar que todos os estados Amazônicos possuem regiões de altíssima prioridade para estes três critérios, reforçando a mensagem de que todos podem contribuir e se beneficiar de um programa de restauração em larga escala em áreas prioritárias”. Sobre o Amazônia 2030 Como desenvolver a Amazônia, aproveitando de forma sustentável os recursos naturais? Para responder a essa pergunta, quatro reconhecidas organizações de pesquisa brasileiras se juntaram para fazer o mais completo plano de ações para a Amazônia dar um salto de desenvolvimento humano e econômico preservando seus recursos naturais até 2030. Trata-se do projeto Amazônia 2030. O projeto é uma iniciativa conjunta do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, ambos situados em Belém, com a Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da PUC-Rio, localizados no Rio de Janeiro. Pesquisadores tem gerado conhecimento a partir das experiências dos povos da floresta, empresários, empreendedores e agentes públicos. Esses documentos reunirão recomendações práticas, que poderão ser aplicadas por agentes privados e públicos. #Envolverde

Ibama só agiu sobre 1,3% dos alertas de desmate

Por Observatório do Clima – Estudo do MapBiomas mostra que apenas 6,1% da área desmatada da Amazônia em 2020 teve embargos ou multas do órgão ambiental Um artigo divulgado na semana passada e que será publicado no periódico Environmental Reserach Letters traz mais uma evidência do processo de desmonte da política ambiental em curso no país. O estudo mostra que apenas 1,3% dos 115.688 alertas de desmatamento na Amazônia publicados pela plataforma MapBiomas Alerta entre os anos de 2019 e 2020 foi alvo de fiscalização e resultou em embargos ou autos de infração do Ibama. Isso representa 6,1% do total da área desmatada detectada. Em maio do ano passado, o MapBiomas já havia indicado que o total de alertas de desmatamento atendidos pelo Ibama em cinco municípios prioritários da Amazônia era de 2%. O governo não pode alegar nem que não sabia sobre as áreas desmatadas, nem que não tinha recursos para agir. Isso porque um dos sistemas de monitoramento utilizados pelo MapBiomas para registro dos alertas é o Deter, do Inpe, que gera dados para o Ibama. Além disso, o governo já possui tecnologia para fiscalizar à distância pelo menos parte do território amazônico, o que libera trabalho de campo e agiliza o processo de fiscalização. Desde 2017, a operação Controle Remoto cruza imagens de satélite com dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR) para detectar os desmatamentos recentes e enviar por correio as multas ou embargar automaticamente determinadas áreas. Só que no atual governo nada disso acontece como deveria. Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, destaca que os dados disponíveis atualmente permitem uma atuação relevante do Ibama por via remota, viabilizando que a ida a campo priorize terras indígenas, Unidades de Conservação e outras áreas nas quais não se consegue identificar o proprietário ou ocupante dos imóveis. “O problema é que o projeto político em curso é de desmantelamento da fiscalização ambiental, seja nas operações de campo, seja nas remotas. O governo Bolsonaro nunca teve a mínima intenção de controlar o desmatamento na Amazônia ou em outros biomas”. De acordo com o artigo, nem mesmo os 11 municípios definidos pelo Conselho Nacional da Amazônia como prioritários para receber operações militares (na fracassada tentativa do vice-presidente Hamilton Mourão de responder às críticas pelo descaso com a Amazônia) mostram uma fiscalização satisfatória, já que apenas 3% dos alertas detectados nestes locais receberam autos de infração e/ou embargos do Ibama, o que representou 12% da área desmatada. “Isso é resultado do enfraquecimento do Ibama, que fragiliza o processo de controle e faz com que o sentimento de impunidade passe a tomar conta. O crime passa a valer a pena”, explica Marcondes Coelho, principal autor do estudo e analista do ICV (Instituto Centro de Vida). Essa impunidade se reflete diretamente na floresta. Apenas entre agosto de 2020 e julho de 2021, a Amazônia perdeu 13.235 km2 – a maior taxa de desmatamento em 15 anos, de acordo com o Inpe. Em novembro do ano passado, o Fakebook.eco mostrou que a destruição coincidiu com uma queda histórica das multas aplicadas pelo Ibama nos nove Estados da região por crimes contra a flora. Nos três anos de governo Bolsonaro, o desmatamento aumentou 53% e as multas caíram 39% na comparação com o mesmo período anterior à atual gestão (governos Temer e Dilma). “A grande questão é fazer com que os órgãos responsáveis implementem os meios para que todo e qualquer desmatamento ilegal seja embargado ainda que de forma preventiva”, resume Coelho. #Envolverde

Livro relata os 30 anos de esforços para a conservação das jubartes

Por Alice Sales para o Eco Nordeste– Já imaginou quantas histórias marcam os esforços de um projeto de décadas voltado para salvar baleias? O Projeto Baleia Jubarte lançou um livro que compila esses relatos e imagens de 30 anos dedicados à conservação da espécie na costa brasileira. O lançamento da publicação conta com exposição itinerante de fotografias e celebra também o apoio prestado pela Petrobras ao projeto, que perdura com êxito desde 1996. O livro “Salvas da Extinção: A História do Projeto Baleia Jubarte”, comemora a dedicação de pessoas empenhadas a conservar o ecossistema marinho. Entre tantos momentos marcantes, como o reconhecimento nacional e internacional do projeto, naufrágios, expedições e dificuldades, a publicação ressalta principalmente uma bonita jornada por lugares e acontecimentos que marcaram profundamente a conservação marinha no Brasil. “A produção deste livro foi um mergulho com as baleias e com a história de nossa organização. Durante a seleção das fotos e a elaboração dos textos, 30 anos de memórias vieram à tona. Foi muito prazeroso lembrar de nosso ponto de partida e de tudo que construímos até aqui. Muitos colaboradores, amigos e parceiros ajudaram na missão que resultou na recuperação da população de jubartes brasileiras e seguirão conosco enfrentando desafios tão grandes como os efeitos das mudanças climáticas nas baleias e nos oceanos do mundo”, ressaltou a bióloga Márcia Engel, que é a autora principal da obra e co-fundadora do Projeto. Salvas da extinção Tudo teve início em 1988, em Caravelas, no extremo sul da Bahia, quando naquela região remota da costa baiana, um grupo de cientistas iniciou trabalhos para a implementação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e se depararou com a grata surpresa da existência de baleias nos mares do arquipélago. Essas baleias eram sobreviventes da população de baleias-jubartes ocorrentes no Brasil. A espécie à época corria sérios riscos de extinção em decorrência da caça indiscriminada. Animados com a descoberta, os pesquisadores se interessaram em estudá-las e protegê-las. Assim, nasceu o Projeto Baleia Jubarte, que atualmente é uma das principais referências de esforços para a conservação dos oceanos em nome da sociedade civil brasileira. De poucas centenas que restavam como sobreviventes no início do Projeto, hoje contamos com mais de 20 mil exemplares de jubartes na costa brasileira. Para os pesquisadores e gestores do Projeto, o livro comemora os primeiros 30 anos de um trabalho que segue firme e cada vez mais relevante na pesquisa e conservação marinha do País, o que é considerado como um marco de um dos mais longos programas de pesquisa e conservação de baleias do Planeta. Lançamento do livro O livro “Salvas da Extinção – A História do Projeto Baleia Jubarte” foi lançado na Praia do Forte (BA), em evento para convidados no último dia 8. Na sequência, será apresentado no Museu Náutico da Bahia, no Farol da Barra, em Salvador, no dia 9 de março. O evento contará com um momento para autógrafos da autora principal da obra e com uma exposição fotográfica acompanhada de uma réplica em tamanho natural da cauda de uma das baleias mais antigas do catálogo brasileiro de Jubartes. Logo após, a exposição ficará disponível para visitação nas seguintes datas locais: 9 a 21 de fevereiro – Espaço Baleia Jubarte – Praia do Forte 22 de fevereiro a 6 de março – Shopping Paralela – Salvador 9 a 20 de março – Museu Náutico da Bahia (Farol da Barra) – Salvador 22 a 31 de março – Shopping Salvador Norte Passadas essas datas, a exposição seguirá para Itacaré, Porto Seguro e Caravelas na Bahia; Vitória, no Espírito Santo; para a capital do Rio de Janeiro; e Ilhabela, em São Paulo. Projeto Baleia Jubarte Atuante há mais de 30 anos na pesquisa e conservação das baleias jubarte e do ambiente marinho no Brasil, o Projeto Baleia Jubarte, patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, integra a Rede Biomar juntamente com outros projetos patrocinados pela empresa (Albatroz, Coral Vivo, Golfinho Rotador e Meros do Brasil), que atuam de forma integrada para a conservação da biodiversidade marinha do Brasil. A iniciativa é realizada pelo Instituto Baleia Jubarte a partir de suas sedes na Praia do Forte e em Caravelas, Bahia, e em Vitória, no Espírito Santo. Por meio deste projeto são realizadas ações de pesquisa científica, turismo responsável e educação ambiental, bem como atividades de conservação que contribuem para o sucesso da recuperação da população de Jubartes do Atlântico Sul Ocidental. *Créditos da imagem destacada: O livro “Salvas da Extinção: A História do Projeto Baleia Jubarte”, comemora a dedicação de pessoas empenhadas a conservar o ecossistema marinho | Foto: Projeto Baleia Jubarte #Envolverde