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sábado, 21 de janeiro de 2023
O 8 de janeiro, os militares e a Amazônia
por Ricardo Abramovay –
Ao fantasma do comunismo, elite das Forças Armadas agregou novo inimigo: a sustentabilidade –
O exercício reflexivo e autorreflexivo necessário à superação da tentativa de golpe do 8 de Janeiro passa por uma pergunta crucial: o que o Brasil quer de seus militares? Até aqui, e desde 1985, o país fortaleceu sua democracia — não apenas sem acertar as contas com os crimes cometidos por representantes do Estado durante a ditadura, mas, sobretudo, sem jamais entrar no mérito daquilo que os mais expressivos comandos militares pensam, como se as bases político-culturais da formação e da atuação dos militares fossem assunto corporativo interno. O problema é que essa autonomia pesa como espada de Dâmocles sobre a sociedade. [Segundo a lenda grega, Dâmocles era um conselheiro que cobiçava o lugar do rei — que um dia o cedeu. Dâmocles observou então que sobre o assento real pairava permanentemente uma espada.]
A questão central se inverte e recebe formulação ameaçadora: o que os militares querem do Brasil?
A pergunta é impertinente e absurda numa democracia, mas é radicalmente legitimada pelos comandos militares. Sua resposta não se limita à ideia de que todos queremos um país soberano, próspero, cada vez menos desigual e democrático. Inúmeros seminários, declarações e lives realizadas durante a pandemia mostram que os comandos militares mais próximos ao Palácio do Planalto difundiram uma visão alucinada de mundo, que as redes sociais amplificaram e que não seria tão grave se não viesse da burocracia armada que tem como função constitucional defender o país.
Mas defender o país contra o quê? Por incrível que pareça, a mais importante inspiração do comando militar que esteve junto ao Palácio do Planalto nos últimos anos para responder a esta pergunta é um conjunto de trabalhos do general Golbery do Couto e Silva, publicados nos anos 1950, cuja ideia básica é que, no mundo posterior à Segunda Guerra Mundial, as fronteiras físicas foram substituídas por fronteiras ideológicas. Por essa concepção, a missão da burocracia armada não é tanto proteger o país de invasões externas, mas sim de guardá-lo contra um inimigo interno que acabou se materializando, após o golpe de 1964, nas organizações de resistência à ditadura. Nessa narrativa, tortura, assassinatos, sequestros e outras formas de violência amplamente documentadas justificam-se pela missão cívica de impedir a vitória do comunismo.
Grandes corporações só perduram no tempo se forem capazes de perceber as mudanças nos ambientes em que atuam. Mas a elite de nossa corporação armada fez como se a queda do Muro de Berlim nada significasse em sua estratégia de atuação e para os valores básicos que a orientam.
O inimigo continua sendo interno. O delírio de que paira sobre o país uma ameaça comunista no início da terceira década do século XXI não é um puro produto das redes sociais. É uma ideia que a direção da burocracia militar não cessou de propagar, seja quando insistia em comemorar o golpe de 1964 seja em declarações cotidianas. Os acampamentos em frente aos quartéis foram admitidos por fortalecerem essa fantasia com a qual a elite militar brasileira, ao menos a que esteve junto ao Palácio do Planalto nos últimos anos, se identifica. E isso não foi objeto de debate público em que essas fantasias pudessem receber algum teste de realidade. Ao contrário, formou-se, por meio das redes sociais, o que a professora Zeynep Tufekci, da Universidade Columbia, chama de “esfera pública oculta”, em que a visão conspirativa de mundo se espalha, mas sob a forma de bolhas de pertencimento, o que impede que ela se submeta a qualquer forma sensata de verificação empírica e, muito menos, de discussão pública e aberta.
Mas, nos dias de hoje, o maior inimigo interno, além desse fantasma comunista, é a sustentabilidade. Quem o afirma é o general, e agora senador, Hamilton Mourão. Em Webinar realizado por ocasião dos duzentos anos da independência, no dia 25 de agosto de 2021, no Instituto General Villas Bôas, ele explicava: “neste século XXI, uma das maiores questões que ameaçam a soberania é a sustentabilidade. Dessa forma, a questão do desenvolvimento da Amazônia, onde diversos atores não estatais limitam nossa soberania, é algo que tem que ser abraçado pela Nação como um todo…” Ao comunismo somam-se, como inimigos internos, os ativistas, os cientistas e os empreendedores que defendem a floresta e os povos que nela vivem.
Já o general Augusto Heleno, na audiência pública sobre o Fundo Clima, convocada pelo ministro Luís Roberto Barroso, no STF, pontificava, em 2020: “As razões do aquecimento são discutidas por cientistas famosos com teses antagônicas.”
Estes não são casos isolados: ainda em 2021, em conversa com o Instituto Defesa & Segurança, o general Luiz Eduardo Rocha Paiva criticava “governos submissos” que comprometeram a soberania nacional, particularmente em áreas de fronteira, por terem promovido a demarcação e assinado a “Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas”.
Estes desvarios estão fortemente relacionados às prioridades que o comando da burocracia militar estabeleceu, juntamente com o Palácio do Planalto e parte significativa do Parlamento, para a maior floresta tropical do mundo: legalizar o que o bom senso e a democracia tornaram ilegal (invadir territórios indígenas, fortalecer o garimpo, extrair madeira ilegalmente e grilar de terras públicas) e impedir o fortalecimento das organizações e das atividades ligadas ao desenvolvimento sustentável. Paralisar o Fundo Amazônia e denunciar o multilateralismo democrático são expressões desse desatino que fez do Brasil um pária global.
É claro que as pessoas têm o direito de acreditar no que quiserem. O que não é admissível é que as ideias e as bases político-culturais da formação e da atuação de um corpo burocrático tão importante e custoso sejam tratadas como um tema de interesse interno, inacessível e insensível ao debate democrático. O 8 de Janeiro não irá para o passado enquanto o Brasil não discutir ampla e abertamente os valores ético-normativos que norteiam a burocracia militar.
Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo
Ricardo Abramovay – Professor Titular da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP e Professor Sênior do PROCAM/IEE/USP. Autor de Infraestrutura para o desenvolvimento sustentável da Amazônia (Ed. Elefante, 2022).
Beija-flor com plumagem rara é registrado em reserva de proteção no Sul da Bahia
A Reserva Particular do Patrimônio Natural, localizada no Sul da Bahia e mantida pela Veracel Celulose, é a maior RPPN de Mata Atlântica do Nordeste e tem papel fundamental para a conservação da biodiversidade da região
– O ano começou de forma especial para a analista ambiental Regina Damascena, que atua na RPPN Estação Veracel, reserva particular localizada no sul da Bahia. Foi dela o olhar atento na identificação de uma ave de plumagem completamente diferente: um beija-flor praticamente branco: “parecia uma fadinha”, segundo Regina.
O que ela não sabia era que a “fadinha” se tratava de um achado inédito no mundo entre beija-flores do gênero Chlorestes. Ali estava um beija-flor com mutação genética, o que fez com que apresentasse a coloração exuberante da espécie, sendo raro em todo o planeta. Os estudiosos não possuem certeza se trata-se de um beija-flor-de-garganta-azul (Chlorestes notata) ou um beija-flor-roxo (Chlorestes cyanus).
“Estamos presenciando algo inédito. Trata-se do primeiro beija-flor gênero Chlorestes do mundo com uma mutação genética que o torna praticamente todo branco”, explica Luciano Lima, ornitólogo do Observatório de Aves da EVC. “Essa mutação provavelmente trata-se de uma diluição, chamada também por alguns pesquisadores de leucismo, e provoca, como o nome indica, uma diluição da pigmentação em partes da plumagem do animal”, complementa ele. “Não é possível identificar as causas da alteração sem um estudo genético mais aprofundado”, informa o especialista. “É importante esclarecer que não se trata de um beija-flor albino. A diferença principal é que ele possui olhos pretos e tem um leve tom acinzentado nas penas e patas. Para ser albino, ele precisaria ser totalmente branco e não ter pigmentação em outras partes do corpo além da plumagem, como os olhos, que acabam ficando com uma coloração rosada”, explica Lima.
São conhecidas seis espécies de beija-flores do gênero Chlorestes, que são encontrados no México, América Central e América do Sul. Na Mata Atlântica, o beija-flor-de-garganta azul habita principalmente ‘florestas de baixada’ ou ‘florestas de tabuleiro’. Essa formação florestal é rara no bioma Mata Atlântica e é justamente ali que está localizada a Estação Veracel. A ave também ocorre na Amazônia e em outras áreas da América do Sul.
De acordo com Luciano Lima, o papel da RPPN Estação Veracel para a conservação da biodiversidade é fundamental para que se possa observar e estudar um fenômeno raríssimo como esse. “Estamos dentro de uma grande área de Mata Atlântica protegida, o que colabora para a sobrevivência desse beija-flor. Sua coloração esbranquiçada atrai predadores e provoca a rejeição de outros beija-flores, além de dificultar sua reprodução”, explica o ornitólogo.
Virgínia Camargos, coordenadora de estratégia ambiental e gestão integrada da Veracel, responsável pela EVC, destaca que a reserva tem papel fundamental para a manutenção de polinizadores naturais para o entorno, preserva ecossistemas e contribui para o equilíbrio climático na região. A reserva abriga grande variedade de espécies de fauna e flora, além de 115 nascentes.
“Nestes 25 anos de criação, a RPPN Estação Veracel se consolidou como uma referência em conservação ambiental. O trabalho realizado na reserva está inserido e amplamente conectado ao compromisso da Veracel Celulose com a sustentabilidade e com o desenvolvimento de sua região de atuação”, afirma a gestora da reserva.
Não se sabe se o beija-flor encontrado é uma “fadinha” como foi carinhosamente chamado, já que não foi possível identificar ainda se a ave é macho ou fêmea. Os pesquisadores estimam que tenha cerca de um ano de vida, ou seja, é um pássaro jovem, já que o recorde de tempo de vida para um beija-flor é de 12 anos, embora seja mais comum que vivam em média entre 3 e 5 anos. Uma coisa é certa: apesar de estar em um dos biomas mais ameaçados – a Mata Atlântica, esse beija-flor prova que a biodiversidade brasileira está viva.
Educação ambiental, reconhecimento internacional e apoio a pesquisas
A área também oferece atividades de educação e interpretação ambiental, com a aplicação da técnica de vivências com a natureza. E, desde 2017, a RPPN mantém um programa para a observação de aves, contribuindo mais ainda para o ecoturismo na região.
A reserva conta também com parcerias com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação De Mamíferos Carnívoros (CENAP/ICMBio). Nessas parcerias, estão em foco a conservação de dois animais topo da cadeia alimentar: a onça-pintada (Panthera onca) e a harpia (Harpia harpyja), sendo essa última uma espécie com alto risco de extinção. Na RPPN, foram identificados dois ninhos de harpia ativos que são monitorados periodicamente, demonstrando o alto nível de conservação da área.
A RPPN Estação Veracel foi criada em 1998 e é mantida pela Veracel Celulose. Reconhecida pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Sítio do Patrimônio Mundial Natural, é considerada uma área chave para conservação de aves pela BirdLife International, organização com sede no Reino Unido. Foi também reconhecida no protocolo de Serviços Ecossistêmicos do Forest Stewardship Council® — FSC® C017612, emitido no Brasil pela certificadora Imaflora, pela conservação da biodiversidade.
Visite a Estação Veracel
A RPPN recebe visitantes do mundo todo. Está localizada a aproximadamente a 15 quilômetros do centro histórico de Porto Seguro. O programa de visitas é realizado mediante agendamento e formação de grupos, pelo e-mail estacaoveracel@veracel.com.br ou pelo telefone (73) 3166-8755.
Sobre a Veracel
A Veracel Celulose é uma empresa de bioeconomia brasileira que integra operações florestais, industriais e de logística, que resultam em uma produção anual média de 1,1 milhão de toneladas de celulose, gerando mais de 3,2 mil empregos próprios e de terceiros, na região da Costa do Descobrimento, sul da Bahia e no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Além da geração de empregos, renda e tributos, a Veracel é protagonista em iniciativas socioambientais no território. O ranking Great Place to Work (GPTW) validou a Veracel como uma das melhores empresas para trabalhar do Brasil pelo 5º ano consecutivo.
Além dos mais de 100 mil hectares de área protegida ambientalmente, é guardiã da maior Reserva Particular do Patrimônio Natural de Mata Atlântica do Nordeste brasileiro, a Estação Veracel, que recebeu o Certificado de Serviços Ecossistêmicos do Forest Stewardship Council® – FSC® C017612, emitido no Brasil pela certificadora Imaflora.
*Crédito da imagem destacada: O beija-flor é do gênero Chlorestes de cor branca e foi avistado na Estação Veracel. Não há registro de outro indivíduo com essa mutação em todo o mundo. Crédito da foto: Jailson Souza
#Envolverde
Pesquisa identifica resíduos de pesticidas em papinhas infantis
Por Mônica Tarantino para a Agência Fapesp –
Análise feita na Espanha usou metodologia desenvolvida por pesquisadores da Unicamp para rastrear grande variedade de compostos de uma só vez
Estudo conduzido por cientistas do Brasil e da Espanha rastreou a presença de 21 agrotóxicos (incluindo fungicidas, inseticidas e herbicidas) e quatro toxinas produzidas por fungos do gênero Aspergillus (aflatoxinas) em 50 amostras de alimentos industrializados para bebês comercializados em supermercados no Estado de São Paulo.
A boa notícia é que não foram encontradas nas amostras selecionadas as temidas aflatoxinas, que são tóxicas ao organismo humano e de animais e podem surgir em cereais, grãos e outros cultivos. A aflatoxina B1, por exemplo, é comprovadamente carcinogênica.
A pesquisa foi conduzida pela engenheira de alimentos Rafaela Prata, com apoio da Fapesp, e divulgada na revista Food Control.
Quanto aos agrotóxicos, o estudo revelou inicialmente a presença de sete dos 21 compostos rastreados. “Encontramos resíduos de pesticidas em 68% das amostras analisadas de alimentos infantis. No recorte por composição e sabor, 47% das papinhas com frutas apresentaram pelo menos um resíduo de agrotóxico, índice que foi de 85% para as comidas de bebês à base de carne e vegetais”, descreve a pesquisadora.
As concentrações dos agrotóxicos identificados ficaram abaixo dos limites máximos de resíduos estabelecidos pela legislação europeia desde 2006, que foi usada como padrão no estudo. De modo geral, na União Europeia, o limite é de 10 microgramas por quilo de alimento para diferentes agrotóxicos. Limites ainda mais baixos foram determinados para agrotóxicos específicos, como fipronil (4 microgramas por quilo). “Não existe, no Brasil, uma legislação própria para limitar a concentração de resíduos de agrotóxicos em alimentos infantis”, diz Prata. “O que existe são monografias sobre agrotóxicos no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa], que consultamos para ver em quais cultivos o uso de determinado produto é autorizado, bem como os limites máximos em alimentos, mas nada sobre as papinhas”, diz Prata.
Para a pesquisadora, falta uma regulamentação específica para esses produtos. “Os bebês são um grupo populacional sensível e vulnerável porque ingerem mais alimentos por quilograma de peso corporal do que os adultos e seus sistemas de desintoxicação e vias metabólicas não estão totalmente desenvolvidos. É importante conhecer a composição dos alimentos oferecidos a eles”, justifica a pesquisadora.
“Ainda que estejam dentro dos limites preconizados pela legislação europeia, o ideal é que essas substâncias não sejam encontradas em alimentos infantis”, afirma o pesquisador espanhol Roberto Romero-González. Referência internacional no estudo de contaminantes e supervisor deste projeto de pesquisa no exterior, González é um dos líderes do Laboratório de Química Analítica e Contaminantes do Research Centre for Mediterranean Intensive Agrosystems and Agri-Food Biotechnology (Ciaimbital), na Universidade de Almeria, na Espanha, onde foi realizada parte das análises das papinhas brasileiras, com financiamento da Fapesp.
Faltam estudos
A presença de pesticidas e de toxinas produzidas por fungos em alimentos infantis ainda é pouco estudada no Brasil, embora avance em países europeus. “Somos um dos maiores consumidores dessas substâncias do mundo. Precisamos investir nesse tipo de pesquisa”, defende Prata. “Até onde sabemos, foi a primeira análise feita com uma metodologia desenvolvida para identificar pesticidas de classes diferentes e micotoxinas em alimentos infantis à base de carnes e vegetais.”
Parte da investigação foi conduzida no Laboratório de Análises de Alimentos I da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob a coordenação da professora Helena Godoy, que estuda contaminantes em alimentos infantis e validação de métodos com apoio da Fapesp. Anteriormente, o país dispunha apenas de dados sobre a contaminação por agrotóxicos em papinhas feitas com frutas.
Logo depois dessa análise, o grupo submeteu as mesmas amostras a uma nova triagem para rastrear a presença de 2.424 contaminantes não abordados a princípio, entre eles outros pesticidas, hormônios, medicamentos veterinários e seus metabólitos (substâncias derivadas da metabolização desses compostos químicos pelo organismo humano).
“Encontramos mais dez agrotóxicos e um metabólito, demonstrando que o método que desenvolvemos é sensível e eficaz”, diz Prata. Ela se refere ao processo de inovação, com uso de novos materiais, para adaptar metodologias usadas para identificar um único composto à detecção simultânea de um conjunto de resíduos de agrotóxicos e micotoxinas. “Nós conseguimos desenvolver um método analítico multirresíduos confiável e validá-lo totalmente. Pode ser uma ferramenta útil para programas de vigilância de alimentos”, afirma.
Segundo a pesquisadora, o metabólito sulfóxido de aldicarbe foi encontrado em três sabores de papinhas: caldo de feijão, arroz e carne; legumes e carne; e abóbora, feijão preto e peito de frango. O teste não mediu a quantidade de resíduos.
O aldicarbe é um pesticida proibido no Brasil desde 2012. Por sua alta toxicidade, era usado ilegalmente como raticida (o popular “chumbinho”). Segundo o toxicologista Daniel Junqueira Dorta, professor de química forense na USP de Ribeirão Preto, trata-se de pesticida que se degrada rapidamente no solo, em cerca de duas ou três semanas. A presença de resíduos no alimento sugere, portanto, o uso irregular nas lavouras. Da mesma forma, o composto se degrada rapidamente no organismo e é eliminado.
“O efeito pior do aldicarbe é agudo, por concentração mais alta”, diz o toxicologista. “De todo modo, não deveria haver resíduo desse tipo de jeito nenhum”, diz o toxicologista. Para a professora Helenice de Souza Spinosa, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, que analisou a toxicidade do composto em cães e gatos, o achado é relevante e precisa ser mais bem investigado e detalhado. Ela lembra ainda que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), além das próprias empresas, faz o monitoramento da presença de contaminantes nos alimentos por amostragem regularmente.
“Se você pensar que a criança vai se alimentar com pequena quantidade e nesse estudo nem está quantificado, ou seja, podem ser apenas traços, isso não vai causar intoxicação aguda. Mas o achado é importante: embora proibido, pode ser que estejam usando e não sabemos”, diz Spinosa.
Procurada pela reportagem, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) sugeriu, por meio de sua assessoria de imprensa, que a Agência Fapesp entrasse em contato com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins e Congêneres (Abiad). Em nota, a Abiad afirmou que as empresas a ela associadas seguem todas as normas e legislações nacionais vigentes e que têm restritas políticas para garantir a qualidade dos produtos aos consumidores.
“Os alimentos passam por diversos e rígidos processos de controle de vigilância sanitária, sendo aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e só então liberados para o consumo do público. A Abiad também reforça que nenhuma das empresas associadas foi informada por órgãos que regulamentam a qualidade dos produtos no Brasil sobre substâncias irregulares encontradas em alimentos infantis.”
Acesse o artigo Targeted and non-targeted analysis of pesticides and aflatoxins in baby foods by liquid chromatography coupled to quadrupole Orbitrap mass spectrometry
#Envolverde
Áreas de lazer em São Paulo se concentram em regiões mais ricas
Foram identificadas lacunas importantes, uma vez que as facilidades de lazer, que já são em número insuficiente, ainda são mal distribuídas
Ricardo Muniz | Agência FAPESP – Artigo publicado na revista Cities & Health aponta mudanças importantes no ambiente construído para a promoção de atividade física na cidade de São Paulo entre 2015 e 2020.
Os incrementos mais significativos verificados no estudo longitudinal foram em número de academias ao ar livre (109%), ciclovias (67%), estações de trem, metrô e ônibus (15%) e instalações esportivas (12%). Esse crescimento, porém, apresentou diferentes padrões considerando as regiões da cidade e a renda dos setores censitários.
Estudo longitudinal é um método de pesquisa que objetiva avaliar variações nas características dos mesmos elementos amostrais ao longo de um período de tempo mais dilatado.
Utilizando dados de bibliotecas públicas on-line e secretarias municipais e estaduais, foram mensurados praças públicas, parques, instalações esportivas, clubes comunitários, academias ao ar livre, ciclovias e ciclofaixas, estações de trem e metrô, terminais de ônibus e unidades de saúde.
Regiões mais pobres da cidade tinham menos ciclovias e ciclofaixas (28,9 km) e foram também as menos favorecidas pela criação de novas estruturas (24,2 km). No outro extremo, as áreas mais ricas, que antes já contavam com 178,9 km de ciclovias e ciclofaixas, foram as que mais tiveram aumento também em valores absolutos (111,5 km de novas estruturas).
“A partir dos resultados do estudo uma série de aplicações práticas pode ser tomada. É possível notar que, mesmo sabendo que existem diversos critérios para definir o local de criação dessas estruturas, aspectos relacionados à equidade podem estar sendo subconsiderados”, destaca Inaian Pignatti Teixeira, que fez a análise como parte de seu projeto de pós-doutorado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), com apoio da FAPESP.
Segundo Alex Antonio Florindo, professor da EACH-USP que supervisionou o projeto, foram identificadas lacunas importantes, uma vez que as facilidades de lazer, que já são em número insuficiente, ainda são mal distribuídas. “Precisamos ampliar esse acesso principalmente para os extremos da cidade, como zonas sul e leste. São necessárias políticas mais fortes para implementar essas estruturas onde residem as pessoas de menor nível socioeconômico, pois pelos estudos epidemiológicos sabemos que, quanto menor o nível socioeconômico e a escolaridade, menos chance a pessoa tem de praticar atividade física como lazer”, relata Florindo, que coordena um Projeto Temático sobre estudos longitudinais em atividade física.
As praças também são mais frequentes em áreas de maior renda, mas seu número vem crescendo nos locais menos favorecidos, assim como os clubes esportivos e as estações de trem, metrô e terminais de ônibus, que podem estimular a caminhada como forma de transporte.
Essas estruturas facilitam o engajamento em atividade física, especialmente se estão localizadas a até 500 metros de onde as pessoas residem. “Identificamos que o ambiente construído pode contribuir muito fortemente para melhorar as práticas de atividades físicas, seja como lazer ou meio de transporte, como utilizar bicicleta ou caminhar”, completa Florindo. Os dados ainda estão sendo analisados e os pesquisadores também verificarão a influência do ambiente e a relação com fatores como obesidade, depressão e doenças cardiovasculares.
Plano diretor
As políticas e os planos da cidade desempenham um papel importante na promoção da atividade física por meio de mudanças no desenho urbano e nos sistemas de transporte. Verificar se estão sendo executados de forma eficaz ajuda a destacar as melhorias necessárias. Os resultados desse estudo podem servir para fomentar uma discussão sobre os efeitos das ações implementadas e de projetos futuros.
“Essas grandes políticas começaram em São Paulo a partir da implantação do Plano Diretor, em 2014, que preconizava aumento e maior distribuição de áreas verdes e outras estruturas. Isso aconteceu, como verificamos no estudo”, observa Florindo. Contudo, o aumento ainda é pouco expressivo em muitos dos aspectos analisados. “De acordo com o Plano Diretor de São Paulo, deveria ser priorizada a criação de novos parques, mas nossos resultados apontam para um aumento discreto, de apenas 2%”, adverte Teixeira.
Para o pesquisador, o tipo de estudo realizado, longitudinal, é uma importante ferramenta de monitoramento. “Esses estudos, que acompanham as mudanças do ambiente ao longo do tempo, são necessários para inferir uma relação causal, além de serem mais robustos, uma vez que excluem variações temporais e diferenças individuais.”
Os pesquisadores explicam que existem inúmeros trabalhos que relacionam o ambiente onde as pessoas moram e as práticas de atividade física, principalmente como forma de lazer ou transporte. Contudo, a maioria foi realizada em países de alta renda, adotando um desenho transversal, revelando uma lacuna notável entre o ambiente e a atividade física a partir de pesquisas longitudinais, especialmente para países de baixa e média renda.
O artigo Built environments for physical activity: a longitudinal descriptive analysis of Sao Paulo city, Brazil pode ser lido em: www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/23748834.2022.2127173.
Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.
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in EcoDebate, ISSN 2446-9394
Marina Silva cobra pelo compromisso das nações desenvolvidas
Em Davos, Marina Silva cobra pelo compromisso das nações desenvolvidas pelo repasse de US$ 100 bilhões para a proteção ambiental
Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), mostram um crescimento de 23% nos índices de desmatamento da Amazônia em novembro de 2022
Por Giovanna Montagner
O fórum de Davos que acontece nesta semana, entre os dias 16 e 20 de janeiro, na Suíça, contou com discurso do Ministro da Economia, Fernando Haddad. O político afirmou nesta segunda-feira, 16, que pretende levar recados do Brasil ao mundo, como a retomada do crescimento com atenção às contas públicas e à sustentabilidade ambiental. Além do Haddad, o Brasil também estará representado pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
Segundo o Ministro da Fazenda, estão previstos mais de uma dúzia de encontros por dia. Com a participação de Marina, o Brasil busca estreitar as relações e impulsionar a agenda ambiental brasileira entre líderes internacionais.
Segundo análises da plataforma de inteligência artificial PrevisIA, se o ritmo de derrubada de florestas não for interrompido, estima-se uma perda de 11.805 km² de mata nativa. Do tamanho de 10 cidades do Rio de Janeiro, a devastação causará mais emissões de gases do efeito estufa, além de chuvas fortes, ondas de frio e calor e secas prolongadas.
O Brasil tem um longo caminho pela frente. Com uma conduta marcada pela degradação ambiental e do seu ecossistema, é esperada uma mudança para os próximos anos. Desde o inícios dos anos 2000, o acelerado processo de desmatamento do cerrado, que ameaça a oferta de água e a geração de energia no país, coloca também em risco as comunidades tradicionais da região, que, na maioria dos casos, não foram reconhecidas como tais.
Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), mostram um crescimento de 23% nos índices de desmatamento da Amazônia em novembro, o correspondente a 590 km² da floresta. Com isso, no acumulado do ano, 2022 desponta como a pior taxa dos últimos 15 anos. Em meio a recordes negativos, o Pará lidera a lista dos estados que mais devastaram a região amazônica no período analisado, o que representa quase metade (47%) do desmatamento total durante o mês de novembro.
Para Fernando Silva, CEO da PWTech, startup de purificação de água contaminada, o desmatamento de florestas está estritamente ligado às atividades humanas. “O aumento das atividades econômicas, devido ao processo de globalização, e o desenvolvimento de novas tecnologias, têm aumentado esse processo de forma descontrolada em algumas regiões. Atualmente, áreas ocupadas por florestas vão dando lugar à agropecuária, à mineração e à urbanização e, excluindo populações nativas da área visada”, explica o especialista.
Hoje, a expansão do agronegócio é considerada uma das principais causas do desmatamento no mundo todo. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), só na América Latina, a expansão da agricultura e da pecuária comercial é responsável por aproximadamente 70% do desmatamento. Dados da FAO revelam que a prática agrícola, por meio de produções em escala industrial, e a pecuária, por meio do aumento dos pastos extensivos, fomentam o desmatamento em vários países do mundo.
“Em decorrência desta ocupação, algumas fontes de captação de água usadas por estes povos originários podem ter sido contaminadas, principalmente pelos garimpos que operavam ilegalmente e utilizam mercúrio como uma forma rápida para separar o ouro do cascalho. O problema é que esse metal pesado tem um custo altíssimo para o meio ambiente e para a saúde humana. Ele contamina as águas que bebemos e os peixes que comemos. No nosso corpo, o mercúrio pode afetar a coordenação motora, a visão e até mesmo a memória”, afirma o especialista.
Em seu primeiro painel em Davos, Marina Silva explicou que “a sustentabilidade não é só economia ou ambiental”, mas também “social e política”. Por isso, é preciso que os governos sejam “eticamente constrangidos” para agir em momentos difíceis, como no caso do aumento do desmatamento. Em sua segunda aparição, vista nesta terça-feira, dia 17, a ministra cobrou o compromisso das nações desenvolvidas de repassarem aos países em desenvolvimento US$ 100 bilhões para a proteção ambiental.
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Mudança climática aumentará a mortalidade de árvores amazônicas
Um novo estudo que conecta tempestades extremas e mortes de árvores sugere que os trópicos verão mais grandes eventos de destruição em um mundo em aquecimento.
Por Lauren Biron*
As florestas tropicais são cruciais para sugar o dióxido de carbono da atmosfera. Mas também estão sujeitas a fortes tempestades que podem causar o “windthrow” – arrancamento ou quebra de árvores. Essas árvores derrubadas se decompõem, potencialmente transformando uma floresta de um sumidouro de carbono em uma fonte de carbono.
Um novo estudo descobriu que tempestades mais extremas da mudança climática provavelmente causarão um número maior de grandes eventos de vento na floresta amazônica. Esta é uma das poucas maneiras pelas quais os pesquisadores desenvolveram uma ligação entre as condições de tempestade na atmosfera e a mortalidade florestal em terra, ajudando a preencher uma grande lacuna nos modelos.
“Construir esse vínculo entre a dinâmica atmosférica e os danos na superfície é muito importante em todos os aspectos”, disse Jeff Chambers, cientista sênior do corpo docente do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley do Departamento de Energia (Berkeley Lab) e diretor do Next Generation Ecosystem Experiments. (NGEE)-Tropics project, que realizou a pesquisa. “Não é apenas para os trópicos. É latitude alta, latitude baixa, latitude temperada, aqui nos EUA”
Os pesquisadores descobriram que a Amazônia provavelmente experimentará 43% mais grandes eventos de desmonte (de 25.000 metros quadrados ou mais) até o final do século. A área da Amazônia que provavelmente verá tempestades extremas que provocam grandes ventos também aumentará em cerca de 50%. O estudo foi publicado na revista Nature Communications em 6 de janeiro.
“Queremos saber o que essas tempestades extremas e ventanias significam em termos de balanço de carbono e dinâmica de carbono, e para sumidouros de carbono nas florestas”, disse Chambers. Enquanto as árvores derrubadas liberam carbono lentamente à medida que se decompõem, a floresta aberta torna-se hospedeira de novas plantas que extraem dióxido de carbono do ar. “É um sistema complicado e ainda há muitas peças do quebra-cabeça em que estamos trabalhando. Para responder à pergunta de forma mais quantitativa, precisamos construir as ligações terra-atmosfera nos modelos do sistema terrestre”.
Para encontrar a ligação entre o ar e a terra, os pesquisadores compararam um mapa de mais de 1.000 grandes ventos com dados atmosféricos. Eles descobriram que uma medida conhecida como CAPE, a “energia potencial convectiva disponível”, era um bom indicador de grandes descargas. CAPE mede a quantidade de energia disponível para mover parcelas de ar verticalmente, e um alto valor de CAPE geralmente leva a tempestades. Tempestades mais extremas podem vir com ventos verticais intensos, chuvas fortes ou granizo e raios, que interagem com as árvores desde a copa até o solo.
“As tempestades representam mais da metade da mortalidade florestal na Amazônia”, disse Yanlei Feng, primeira autora do artigo. “A mudança climática tem muito impacto nas florestas amazônicas, mas até agora, grande parte do foco da pesquisa tem sido a seca e o fogo. Esperamos que nossa pesquisa traga mais atenção para tempestades extremas e melhore nossos modelos para trabalhar em um ambiente em mudança devido às mudanças climáticas”.
Embora este estudo visse um futuro com altas emissões de carbono (um cenário conhecido como SSP-585), os cientistas poderiam usar os dados projetados do CAPE para explorar os impactos do vento em diferentes cenários de emissões. Os pesquisadores agora estão trabalhando para integrar a nova relação floresta-tempestade nos modelos do sistema terrestre . Modelos melhores ajudarão os cientistas a explorar como as florestas responderão a um futuro mais quente – e se elas podem continuar sugando o carbono da atmosfera ou, em vez disso, se tornarão um contribuinte.
“Este foi um estudo de mudança climática muito impactante para mim”, disse Feng, que concluiu a pesquisa como pesquisador de pós-graduação no projeto NGEE-Tropics no Berkeley Lab. Ela agora estuda captura e armazenamento de carbono na Carnegie Institution for Science da Universidade de Stanford. “Estou preocupado com o aumento projetado de distúrbios florestais em nosso estudo e espero poder ajudar a limitar as mudanças climáticas. Agora estou trabalhando em soluções para as mudanças climáticas.”
mortalidade de árvores da floresta amazônica
Os pesquisadores mapearam mais de 1.000 grandes eventos de vento de 1990 a 2019. Cada uma dessas grandes explosões cobria mais de 25.000 metros quadrados. Ao comparar a localização dos ventos com dados sobre as condições atmosféricas, os pesquisadores descobriram uma relação que pode ser incorporada em futuros modelos climáticos. (Crédito: Robinson I. Negrón-Juárez e Yanlei Feng)
NGEE-Tropics é um projeto multi-institucional de dez anos financiado pelo Escritório de Ciências do Departamento de Energia dos Estados Unidos, Escritório de Pesquisa Biológica e Ambiental
Referência:
Feng, Y., Negrón-Juárez, R.I., Romps, D.M. et al. Amazon windthrow disturbances are likely to increase with storm frequency under global warming. Nat Commun 14, 101 (2023). https://doi.org/10.1038/s41467-022-35570-1
Lauren Biron*, Escritora de Ciências, Berkeley Lab
Henrique Cortez *, tradução e edição.
Transição de florestas para monocultura interfere no funcionamento de riachos tropicais
Artigo premiado indica que as teias tróficas são simplificadas nos locais mais impactados, potencialmente gerando instabilidade no fluxo de energia
Que impactos a transição de florestas para plantações de monoculturas causa no funcionamento de riachos tropicais? Essa foi a questão central de uma pesquisa de mestrado na área de Ciências Ambientais desenvolvida na UFSCar. O estudo verificou que as mudanças no uso do solo alteram a estrutura das comunidades biológicas, os organismos presentes, suas redes de interações, consequentemente, fragilizando o funcionamento dos fluxos de energia, que considera o potencial energético que todo organismo possui para ser usado por outro organismo.
A pesquisa foi desenvolvida por Giovanna Collyer, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCAm), sob orientação de Victor Satoru Saito, professor do Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Collyer recebeu o prêmio Harald Sioli de melhor artigo do biênio 2021-2022 no Congresso Brasileiro de Limnologia (CBLimno), promovido pela Associação Brasileira de Limnologia (ABLimno) entre 21 e 25 de novembro de 2022. O prêmio Harald Sioli presta uma homenagem ao pesquisador alemão Harald Sioli, que atuou no Brasil e se tornou referência em estudos de Ecologia Aquática.
A pesquisa de mestrado teve como objetivo estudar as comunidades de invertebrados aquáticos em riachos no estado de São Paulo, com o foco no gradiente de mudança de uso do solo, indo de florestas bem preservadas até riachos dentro de plantações de cana-de-açúcar. “Especificamente, analisamos o tamanho corpóreo dos organismos, considerando que em teias tróficas [cadeias alimentares], os organismos maiores se alimentam dos organismos menores; então, compreender quantos e quais os tamanhos dos organismos nos possibilita entender o funcionamento dessas teias tróficas”, explica o professor da UFSCar. “Muitos desses organismos atuam no fluxo de energia e matéria, dentro e entre ecossistemas, processando a matéria orgânica que adentra os riachos e exportando energia para ecossistemas terrestres também (por exemplo, insetos que emergem dos riachos e servem de alimento para aves)”, complementa o docente.
A partir dessa análise, o artigo mostra dois principais resultados interligados. O primeiro é que existe uma perda de diversidade nos riachos de monocultura, ou seja, menos espécies são encontradas. O segundo mostra que essas comunidades simplificadas (menos diversas) são compostas por uma teia trófica com menor quantidade de organismos grandes, predadores de topo. “Esses resultados sugerem que as teias tróficas são simplificadas nos locais mais impactados, potencialmente gerando instabilidade no fluxo de energia. Imagine que uma rede trófica é uma malha de blusa. Em uma malha complexa, a retirada de um fio da blusa não impacta a estrutura da roupa, mas em uma blusa feita por poucas linhas interligadas, a retirada de uma só linha pode colapsar a roupa toda! É dessa forma que vemos fragilizada a rede trófica em locais impactados. Por serem menos diversas, o fluxo de energia deve ser mais instável, o que pode ocasionar em menos predadores de topo, que dependem do fluxo de toda a rede para receberem energia”, elucida Saito.
Para o docente da UFSCar, são muitos os estudos sobre impactos da intensificação do uso do solo, porém não houve investigações à luz da estrutura de tamanho dos organismos das comunidades, o que elucida processos importantes de transferência de energia nesses sistemas. Para ele, o aspecto que mais chamou a atenção dos pesquisadores “foi o fato de que o padrão de mudança na estrutura de tamanho é bastante claro ao longo do gradiente, fortalecendo bastante a ideia de utilizar a estrutura de tamanho como uma fonte interessante de informação sobre o funcionamento energético do sistema”.
O trabalho de mestrado foi desenvolvido em São Paulo, onde a monocultura prevalente é a cana-de-açucar. “O artigo foi desenvolvido no Brasil, porém as implicações não se restringem ao Brasil em especifico. Acreditamos que as generalidades encontradas sejam abrangentes para sistemas aquáticos sob a influência da intensificação do uso do solo”, conta o orientador do estudo.
Mestrado e artigo
O artigo intitulado “Land-use intensification systematically alters the size structure of aquatic communities in the neotropics” (“A intensificação do uso do solo altera sistematicamente a estrutura de tamanho das comunidades aquáticas nos Neotrópicos”) tem autoria de Giovanna Collyer, Daniel M. Perkins, Danielle K. Petsch, Tadeu Siqueira e Victor Saito. O prêmio Harald Sioli é dado ao artigo submetido ou publicado em 2022; o artigo premiado foi submetido e está na segunda rodada de revisões.
O mestrado de Giovanna Collyer foi desenvolvido entre abril de 2021 e abril de 2022. Nesse período, a aluna foi bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), mas conquistou também uma bolsa do Ministério da Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia (MEXT), do Japão, motivando a aluna a completar o seu mestrado em menos tempo. “Foi a defesa mais rápida do Programa e imagino que uma das mais rápidas da UFSCar”, ressalta o orientador.
O material biológico utilizado no trabalho foi coletado dentro de um projeto da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), coordenado pelo professor Tadeu Siqueira – na época docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), atualmente na Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia. “Como a pesquisa foi desenvolvida durante a pandemia, tivemos um grande desafio de fazer um trabalho de ecologia, sem chances de ir para campo. No fim, decidimos por utilizar um material já coletado, reaproveitando o investimento feito no projeto original. Entendo que foi uma forma criativa e produtiva de desenvolver um mestrado durante o pico da pandemia”, explica Saito.
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in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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