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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Pesquisadores estudam floresta Amazônica a partir de sons de animais

Por Fauna News – O cricrió (Lipaugus vociferans) é quem dá as boas-vindas na Floresta Nacional de Carajás, área protegida da Amazônia no sudeste do Pará. “O cricrió é bem característico de florestas conservadas porque é bem sensível a perturbações. Às vezes, eles são tão abundantes e cantam tão alto que acabam mascarando outras vocalizações”, conta o pesquisador Leonardo Miranda. “Você escuta esse passarinho em toda a região, então esse é um exemplo super interessante do que a gente chama na literatura de espécies que caracterizam o local”, diz Tereza Giannini, pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale. “Quando você chega no lugar, você reconhece: ah bom, estou dentro de Carajás”. Há, contudo, momentos em que uma sonoridade se sobrepõe: é a da araponga-da-amazônia (Procnias albus), que tem a voz mais eloquente dentre os animais mais barulhentos já pesquisados. Alcançando os 125 decibéis, a ave supera uma banda de rock e até uma motosserra. Pesquisadores se preocupam, inclusive, com eventuais danos que tais decibéis poderiam causar aos ouvidos da fêmea durante as canções de acasalamento. Os cantos do cricrió e da araponga-da-amazônia são significativos na paisagem sonora de Carajás e são os favoritos de Leonardo, biólogo que atua na pesquisa liderada por Tereza Giannini sobre a paisagem sonora da região. Para além do fascínio que a comunicação entre os animais exerce — são quase 10 mil espécies de aves, 7 mil espécies de anuros, 6 mil espécies de mamíferos e número desconhecido de peixes e insetos vocalizando mundo afora —, conhecer a sonoridade da floresta é uma maneira de dar voz à biodiversidade e, assim, identificar a mudança de comportamento dos animais a partir do avanço das mudanças climáticas, avaliar os efeitos do clima sobre os serviços ecossistêmicos e embasar programas de sustentabilidade. Esses são os objetivos da pesquisa que usou gravadores para captar cerca de 16 mil minutos de som, instalados em árvores a aproximadamente dois metros do solo em 14 locais diferentes da área protegida. A análise da paisagem sonora é um dos estudos de fauna pertencente ao projeto Capital Natural da Floresta Nacional de Carajás, que analisa os recursos naturais da floresta e sua contribuição para a absorção do carbono, regulação do clima, proteção da água e da própria biodiversidade. Cricrió (Lipaugus vociferans) – Foto: Nereston de Camargo/Mongabay Música da floresta Dentre os 16 mil minutos de som gravados, mais de 7 mil minutos já foram analisados por um ornitólogo especialista do Museu Paraense Emílio Goeldi, que reconheceu o canto de cerca de 230 espécies de aves. Até fevereiro de 2024 será analisada também a biodiversidade de mamíferos, anfíbios e insetos – já se sabe que as cigarras são bastante assíduas — presente nas gravações. Além de contar com a escuta de especialistas, também serão usados acervos ou bibliotecas de som, que armazenam registros acústicos de diferentes espécies. Estes registros poderão ser, então, comparados com a gravação em programas de computador. O Global Biodiversity Information Facility é um exemplo de rede internacional que disponibiliza sons da biodiversidade. Entre as curiosidades que as gravações na Floresta Nacional de Carajás revelaram até o momento está o fato de que os sons na Amazônia mudam ao longo do dia. Perto do meio-dia o som é forte, e quando chega o entardecer a mata vai silenciando. A floresta, contudo, não dorme. Na biodiversidade amazônica cada um tem seu ritmo circadiano e, depois que a curva de sons cai um pouco por volta de 17 horas, a música vai novamente aumentando de volume e permanece animada noite adentro. “Isso não indica que a floresta é barulhenta, mas que tem muitos bichos vocalizando à noite”, explica Tereza. Outra curiosidade foi que os 14 locais distintos de amostragem de som trouxeram paisagens sonoras semelhantes. Mesmo considerando localizações com perfis diferentes, seja numa área estacional seca ou numa área de ombrófila densa, os sons produzidos parecem homogêneos. Boa surpresa para os pesquisadores foi escutar o canto da curica-urubu (Pyrilia vulturina), ave endêmica que ocorre no sul do Amazonas, no Pará e no Maranhão e é considerada vulnerável no Brasil. Além das espécies de aves, já foram identificados nas gravações o cachorro-vinagre (Speothos venaticus), a ariranha (Pteronura brasiliensis), a suçuarana (Puma concolor), os macacos cuxiú (Chiropotes satanás) e guariba-de-mãos-ruivas (Alouatta belzebul). Escutar para conservar “As mudanças ambientais causadas pelo ser humano, como a degradação ambiental, o desmatamento e a exploração dos recursos naturais, ocorrem numa velocidade e a nossa capacidade de obter informações é bem reduzida”, avalia Leonardo. “Essas ferramentas modernas que trazem a inovação são muito vantajosas para a gente tentar andar no mesmo passo que a mudança ambiental.” Para coletar os sons da floresta, aparelhos foram programados para gravar por 24 horas, captando um minuto a cada hora. Leonardo vê o uso de gravadores como recurso seguro, ágil e econômico, permitindo monitoramento em longo prazo. “Para a gente cobrir 14 horas durante 7 dias simultaneamente, por exemplo, como foi o caso com os gravadores, eu precisaria de 14 biólogos em campo por 24 horas escutando os sons e anotando quem está vocalizando”, considera. Ainda que simples, o uso do recurso na gravação dos sons da floresta parece não ser tão frequente nas pesquisas. “Aqui na Amazônia talvez seja uma das primeiras, especialmente pensando na Amazônia Oriental”, diz Tereza. Araponga-da-amazônia (Procnias albus) – Foto: Brendan Ryan/CC BY-NC-SA 2.0 Outras pesquisas já mostraram a relevância do monitoramento acústico para avaliação da biodiversidade na Amazônia, como foi o caso do estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) em abril deste ano, analisando a biodiversidade em florestas degradadas por incêndios ou exploração madeireira. “Na hora que a gente pensa em conservação de uma floresta como a amazônica, a gente está pensando também em conservar as contribuições que essa floresta traz para o ser humano”, diz Tereza, que pesquisa há 15 anos os impactos das mudanças climáticas. “A gente chama isso de serviços ecossistêmicos, que é o quanto a floresta regula a mudança climática, o quanto ela protege a água, ou o quando ela sequestra o carbono.” “Você não conserva aquilo que você não conhece e você precisa de dados numéricos”, afirma Vera Lucia Imperatriz-Fonseca, professora da Universidade de São Paulo que já realizou diversas pesquisas na região de Carajás. Segundo os especialistas, os dados sobre a biodiversidade que estão sendo revelados pela pesquisa poderão ser usados de diversas maneiras para colaborar com medidas de conservação. Há a possibilidade, por exemplo, de cruzar as informações com outras pesquisas já realizadas na região, como é o caso do estudo realizado por Leonardo, Vera e Tereza e publicado em 2019 na revista Plos One, que mostra os serviços ambientais prestados pelas aves de Carajás e a tendência de declínio de espécies até 2050 por causa das mudanças climáticas. “Pensar que em 30 anos a gente pode perder grande parte dos serviços da floresta por causa do clima… Biodiversidade e clima são questões sérias e através dos sons da floresta você pode fazer um biomonitoramento muito importante”, conclui Vera. *Crédito da imagem destacada: Guariba-de-mãos-ruivas (Alouatta belzebul) – Foto: Nick Athanas/CC BY-NC-SA 2.0 #Envolverde

COP27: o que você precisa saber sobre a Conferência do Clima da ONU

Por ONU Brasil – Uma nova Conferência do Clima das Nações Unidas terá início em 6 de novembro, em Sharm el-Sheikh, no Egito. A COP27 deve unir representantes oficiais de governos e da sociedade civil para discutir maneiras para enfrentar e se adaptar às mudanças climáticas. A seguir, veja um guia com informações para se preparar para o evento, que terá como pano de fundo as consequências causadas pela guerra na Ucrânia. Em 2022, a Conferência do Clima das Nações Unidas será realizada em Sharm el-Sheikh, no Egito, em um cenário de eventos climáticos extremos em todo o mundo, além de uma crise de energia impulsionada pela guerra na Ucrânia e dados mostrando que o mundo não está fazendo o suficiente para combater as emissões de carbono e proteger o futuro do planeta. O secretário-geral da ONU, António Guterres, destacou que a COP27 deve resultar em soluções climáticas que correspondam à escala do problema. A seguir, veja um guia com informações importantes do evento, que começa oficialmente em 6 de novembro. História – As COPs são as maiores e mais importantes conferências anuais relacionadas ao clima do planeta. Tudo teve início há 20 anos, em 1992, quando a ONU organizou a ECO-92, no Rio de Janeiro. O evento marcou a adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). Na ocasião também foi criado o Secretariado de Mudanças Climáticas da ONU. Através desta convenção, as nações concordaram em “estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera para evitar interferências perigosas da atividade humana no sistema climático”. Até agora, 197 partes assinaram o documento. Desde 1994, quando o tratado entrou em vigor, todos os anos a ONU vem reunindo quase todos os países do planeta para cúpulas climáticas globais ou “COPs”, que significa “Conferência das Partes”. Este ano marca a 27ª cúpula anual, ou COP27. Durante essas reuniões, as nações negociaram várias extensões do tratado original para estabelecer limites juridicamente vinculativos para as emissões. Por exemplo, o Protocolo de Kyoto em 1997 e o Acordo de Paris adotado em 2015, no qual todos os países do mundo concordaram em intensificar os esforços para tentar limitar o aquecimento global a 1,5°C acima das temperaturas pré-industriais e aumentar o financiamento da ação climática. Conferência de 2021 – A COP26, no ano passado, que marcou cinco anos desde a assinatura do Acordo de Paris, culminou no Pacto do Clima de Glasgow, que manteve viva a meta de conter o aquecimento global a 1,5 º C. Avanços foram feitos para tornar o Acordo de Paris totalmente operacional, finalizando os detalhes para sua implementação prática, também conhecido como Livro de Regras de Paris. Também durante a COP26, os países concordaram em entregar compromissos mais fortes em 2022, incluindo planos nacionais atualizados com metas mais ambiciosas. No entanto, apenas 23 dos 193 países apresentaram seus planos à ONU até agora. Em Glasgow também houve muitas promessas feitas dentro e fora das salas de negociação em relação a compromissos para zerar emissões (net-zero), proteção de florestas e financiamento climático, entre muitas outras questões. Participantes sentados na plenária principal na COP26 em Glasgow, Escócia. Legenda: Participantes sentados na plenária principal na COP26 em Glasgow, Escócia. Foto: © Kiara Worth/UNFCCC COP27 – De acordo com a declaração de visão presidencial, a COP27 será sobre sair das negociações e “planejar a implementação” de todas essas promessas feitas. O Egito pediu uma ação completa, oportuna, inclusiva e em grande escala. De acordo com especialistas, além de revisar como implementar o Livro de Regras de Paris, a conferência também terá negociações sobre alguns pontos que permaneceram inconclusivos após Glasgow. Essas questões incluem o financiamento de “perdas e danos” para que os países na linha de frente da crise possam lidar com as consequências das mudanças climáticas que vão além do que podem se adaptar e o cumprimento da promessa de US$ 100 bilhões todos os anos de financiamento de adaptação, de nações desenvolvidas, para países de baixa renda. As negociações também incluirão discussões técnicas, por exemplo, para especificar a maneira pela qual as nações devem medir suas emissões de forma prática para que haja igualdade de condições para todos. Todas essas discussões abrirão caminho para o primeiro Balanço Global na COP28, que em 2023 avaliará o progresso coletivo global na mitigação, adaptação e meios de implementação do Acordo de Paris. Objetivos – Entre os grandes objetivos desta COP está a mitigação das emissões de gases do efeito estufa, que geram as mudanças climáticas. A mitigação pode significar o uso de novas tecnologias e fontes de energia renováveis, tornando os equipamentos mais antigos mais eficientes em termos energéticos ou mudando as práticas de gestão ou o comportamento do consumidor. Espera-se que os países mostrem como estão planejando implementar a chamada do pacto de Glasgow, revisar seus planos climáticos e criar um programa de trabalho relacionado à mitigação. Isso significa apresentar metas de emissões mais ambiciosas para 2030, já que a UNFCCC destaca que os planos atuais ainda não são suficientes para evitar um aquecimento catastrófico. Adaptação – Além de fazer todo o possível para reduzir as emissões e diminuir o ritmo do aquecimento global, os países também devem se adaptar às consequências climáticas para que possam proteger seus cidadãos. Os efeitos variam de acordo com a localização. Podem significar o risco de mais incêndios ou inundações, secas, dias mais quentes ou mais frios ou aumento do nível do mar. Na COP26, os delegados adotaram um programa de trabalho sobre a meta global de adaptação estabelecida no Acordo de Paris. O plano foi implementado para equipar comunidades e países com o conhecimento e as ferramentas para garantir que as ações de adaptação que eles realizam estejam de fato movendo o mundo em direção a um futuro mais resiliente ao clima. A Presidência da COP27 espera que as nações capturem e avaliem seu progresso para aumentar a resiliência e ajudar as comunidades mais vulneráveis. Isso implica que os países assumam compromissos mais detalhados e ambiciosos nos componentes de adaptação de seus planos climáticos nacionais. No ano passado, os países desenvolvidos concordaram em pelo menos dobrar o financiamento para adaptação, e muitas partes interessadas estão pedindo níveis ainda maiores de financiamento de adaptação para corresponder aos valores que agora estão sendo gastos em mitigação, conforme estabelecido no Acordo de Paris. Este será definitivamente um grande tópico de conversa em Sharm el-Sheikh. A UNFCCC deixa claro que para responder aos riscos climáticos presentes e futuros é necessário aumentar significativamente a escala do financiamento da adaptação, de todas as fontes, públicas e privadas. Todos devem participar – governos, instituições financeiras e o setor privado. Financiamento – O financiamento climático também será tema principal, mais uma vez, na COP. Muitas discussões relacionadas a finanças já estão na agenda, com os países em desenvolvimento fazendo um grande apelo aos países desenvolvidos para garantir apoio financeiro suficiente e adequado, particularmente aos mais vulneráveis. Provavelmente muito será ouvido sobre a promessa anual de US$ 100 bilhões das nações desenvolvidas que não está sendo cumprida. Em 2009, em Copenhague, os países ricos se comprometeram com esse financiamento, mas os relatórios oficiais ainda mostram que essa meta está sendo perdida. Especialistas esperam que a COP27 realmente torne essa promessa uma realidade finalmente, em 2023. A presidência egípcia pretende dar seguimento a este e outros compromissos e promessas assumidos em COPs anteriores. Perdas e danos – As mudanças climáticas, por meio de fenômenos climáticos extremos, como ciclones tropicais, desertificação e elevação do nível do mar, causam danos financeiros aos países. Como a intensificação desses “desastres naturais” está sendo causada pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa, principalmente de países ricos industrializados, os países em desenvolvimento, muitas vezes os mais afetados, argumentam que deveriam receber compensação. A Dinamarca, por exemplo, ganhou manchetes durante a última semana da Assembleia Geral da ONU, depois de ser o primeiro país a anunciar que doará US$ 13 milhões aos países em desenvolvimento que sofreram danos devido às mudanças climáticas. A questão desses pagamentos, conhecidos como “perdas e danos”, provavelmente será um grande tema de discussão na COP27, mesmo que ainda não tenha sido colocado oficialmente na agenda. O grupo dos 77 e China, que inclui essencialmente todas as nações em desenvolvimento, pediu para adicioná-lo à agenda, o que exigirá consenso com todos os países no primeiro dia das negociações. Até o momento, houve discussões sobre o estabelecimento de um fundo de perdas e danos, mas nada concreto. Especialistas como o relator especial da ONU sobre Direitos Humanos e Clima, Ian Fry, esperam ganhar mais impulso para conclusão. “Existem grandes países desenvolvidos que estão bastante preocupados com isso e olhando para essa questão sob a ótica de que o poluidor paga. Agora, os países mais afetados pelas mudanças climáticas e que sofrem os custos estão tendo que lidar com esses custos. Então, é hora dos grandes países, os grandes emissores, se levantarem e dizerem: ‘temos que fazer alguma coisa, temos que dar uma contribuição para esses países vulneráveis’”, disse ele durante uma entrevista recente. Rahim, de quatro anos, nos escombros de sua casa destruída pelas inundações no Paquistão. Legenda: Rahim, de quatro anos, nos escombros de sua casa destruída pelas inundações no Paquistão. Foto: © Asad Zaidi/UNICEF Ucrânia – Segundo o representante permanente do Palau nas Nações Unidas e negociadora do clima, Ilana Seid, esta COP vai ser “confusa” diante do atual cenário sociopolítico e da crise energética. Ela explicou que “a guerra na Ucrânia aconteceu, então há tantas coisas que tantos países concordaram e agora eles não podem fazer. Com a guerra, o cenário mudou”. De fato, a invasão da Ucrânia pela Rússia causou uma crise global de inflação, energia, alimentos e cadeia de suprimentos. Países como a Alemanha tiveram que reduzir suas metas climáticas no curto prazo, enquanto o histórico Grupo de Trabalho Climático China-EUA anunciado em Glasgow foi suspenso. A COP27 provavelmente verá um retrocesso nas promessas e compromissos que alguns países fizeram no ano passado. No entanto, Fry considera que a guerra também pode ser um “despertar” para que as nações se tornem autossuficientes em energia. Ele argumenta que a maneira mais barata de fazer isso é por meio de energias renováveis, que são fundamentais para reduzir as emissões. “Estamos vendo Portugal caminhar para 100% de energias renováveis, sabemos que a Dinamarca também está fazendo o mesmo, e penso que isso levará outros países a verem a necessidade de serem renováveis ​​e autossuficientes em energia”, disse. Sociedade civil – O evento principal da COP será realizado no Centro Internacional de Convenções de Sharm el-Sheikh, de 6 a 18 de novembro. Até agora, são mais de 30 mil pessoas inscritas para participar representando governos, empresas, ONGs e grupos da sociedade civil. As 197 partes do tratado UNFCCC, muitas vezes se reúnem em grupos ou “blocos”, para negociar juntos, como o G77 e a China, o Grupo África, os Países Menos Desenvolvidos, o Fórum Guarda-Chuva, os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e a Aliança Independente da América Latina e Caribe. As negociações também incluem observadores, que não têm participação formal nelas, mas fazem intervenções e ajudam a manter a transparência. Os observadores incluem agências das Nações Unidas, organizações intergovernamentais, ONGs, grupos religiosos e a imprensa. Mas além das negociações oficiais, haverá salas de conferências, uma seção de pavilhão e milhares de eventos paralelos acontecendo, divididos em dias temáticos, Os temas deste ano são: Finanças, Ciência, Jovens e Gerações Futuras, Descarbonização, Adaptação e Agricultura, Gênero, Água, Sociedade Civil, Energia, Biodiversidade e Soluções, o mais novo tema desta COP. Zonas – Como de costume, a conferência acontecerá em duas zonas: a Zona Azul e a Zona Verde, que este ano estão localizadas uma em frente à outra. A Zona Azul é um espaço administrado pela ONU onde as negociações acontecem e, para entrar, todos os participantes devem ser credenciados pelo Secretariado da UNFCCC. Este ano, serão 156 pavilhões dentro da Zona Azul, o dobro do que em Glasgow. Muitas agências da ONU, países e regiões estarão representados, e também haverá pela primeira vez um pavilhão da Juventude e um Pavilhão Agroalimentar. A Zona Verde é administrada pelo governo egípcio e aberta ao público registrado. Incluirá eventos, exposições, workshops e palestras para promover o diálogo, a conscientização, a educação e o compromisso com a ação climática. Segundo a presidência, a Zona Verde será a plataforma onde a comunidade empresarial, a juventude, as sociedades civil e indígena, a academia, os artistas e as comunidades de todo o mundo poderão se expressar e suas vozes poderão ser ouvidas. Este ano, a Zona Verde também incluirá uma “zona de protesto” especial e um enorme lounge ao ar livre e um terraço. *Crédito da imagem destacada: Legenda: A silhueta das montanhas em Sharm El-Sheikh, no Egito, onde acontece em novembro a COP27. Foto: © Juanma Clemente-Alloza/Unsplash #Envolverde

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Outubro registra 13.911 focos de queimadas na Amazônia

Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nesta terça-feira (1º) revelam que o mês de outubro, de 1º a 31 de outubro, registrou 13.911 focos de queimadas no bioma Amazônia, um aumento de 20,4% em relação ao mesmo mês de 2021. Os maiores números de focos foram registrados no estado do Pará com 7.469 (54% do total), seguido pelo Amazonas com 1.503 (11% do total), Maranhão que registrou 1.269 (9% do total), Acre com 1.127 (8% do total) e Mato Grosso com 903 (6%). Já no acumulado do ano, até o dia 31 de outubro, foram 101.215 focos de queimadas registrados. Para Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, os números são mais um reflexo do “padrão Bolsonaro”, de destruição, resultado de uma visão retrógrada de desenvolvimento que acredita no usufruto dos recursos naturais de forma predatória e que não conversa com a necessidade de frear o desmatamento na Amazônia para conter a crise climática “É icônico que um dia antes do 2° turno das eleições foram atingidos 100.000 focos de queimadas na Amazônia. Isso é o reflexo de todo o descaso do atual governo com a floresta e seus povos. Agora com um novo governo eleito continuaremos trabalhando e cobrando, como fizemos durante todos os governos anteriores, para que a Amazônia, nossa maior riqueza seja protegida, seus povos respeitados e que a paz seja soberana na floresta.” Os desafios que o governo eleito tem pela frente não são triviais e exigirão a absoluta reconstrução de tudo aquilo que foi enfraquecido pelo atual governo. Também sabemos que boa parte dos parlamentares eleitos para o Congresso Nacional continua representando ameaças à pauta social e ambiental. Será preciso que os compromissos assumidos pelo governo Lula saiam do campo das promessas e sejam concretizados. Dentre esses desafios, está a reconstrução dos órgãos e as políticas ambientais de fiscalização, preservação e regeneração das nossas florestas e demais ambientes naturais; a garantia dos direitos, territórios e proteção dos povos indígenas e das comunidades tradicionais; a produção, distribuição e acesso dos brasileiros à comida de verdade, a um preço justo e sem veneno e recriação de espaços de participação da sociedade civil e a retomada do diálogo com os movimentos sociais. #Envolverde

O PRÓXIMO PASSO PARA A HUMANIDADE

Por Daniel Sega – Nos últimos 50 anos têm se tornado cada vez mais comum a publicação de reportagens e artigos alertando que novas espécies têm entrado para a lista da IUCN, União Internacional para a Conservação da Natureza. Essa instituição é responsável por alertar ao público leigo o estágio de conservação das mais variadas espécies. É inegável que a extinção tem se tornado uma realidade para todos os seres vivos. A extinção é um fenômeno considerado natural pelos biólogos, todo ano um número pequeno de espécies acaba desaparecendo do meio ambiente em que costumeiramente habitavam. Para este fenômeno, se dá o nome de extinção de fundo, ou seja, faz parte de um processo esperado no desenvolvimento de novas espécies. A vida na Terra pode ser comparada a uma peça de teatro, na qual, os papéis são sempre os mesmos. No entanto, nessa peça, os atores estão constantemente sendo substituídos. Em termos técnicos pode-se alegar que os habitats raramente são modificados, porém os nichos ecológicos são constantemente substituídos. Nicho ecológico é um termo utilizado para se referir a um conjunto de hábitos de uma determinada espécie, assim como os atores da analogia. Diferentes organismos podem substituir uns aos outros em seus papéis. Por exemplo caso a onça-pintada fosse extinta, em um habitat ideal outros predadores poderiam competir para se tornarem o predador de topo deste ecossistema. A extinção de fundo como um processo natural abre espaço para diferentes animais ocuparem novos nichos, mantendo um considerável equilíbrio ecológico. Isso acontece de tal forma que está extinção nem mesmo pode ser percebida para um observador desatento. A humanidade observava de forma tão desatenta as extinções de fundo, que até meados de 1790, considerava-se impossível uma espécie chegar a extinção. Em 1798 o paleontólogo francês Georges Cuvier revolucionou a ciência da época, ao concluir que algumas espécies já haviam se extinguido. A partir da análise de fósseis vindos da América do Norte, principalmente dentes de mamutes e mastodontes, percebeu que eram anatomicamente diferentes de qualquer ser vivo atual. Os estudos revolucionários de Cuvier revelaram que nenhuma espécie é fixa, e possuem a capacidade de desaparecer completamente caso ocorresse alguma mudança, mínima que seja, em suas condições básicas de vida. Por fim concluiu que em algum dado momento, diferentes espécies habitaram, se reproduziram, morreram, e se preservaram por meio dos fósseis. A extinção de criaturas gigantescas do passado, tal como os dinossauros e mamíferos da megafauna ocorreu devido a eventos rápidos de extermínio das condições básicas. Esses eventos, em sua maioria, ocorreram devido a questões como o vulcanismo, queda de asteroides, e mudanças climáticas, estes desastres recebem o nome de extinções em massa. Uma extinção em massa se caracteriza por ser rápida e mortal, na qual as espécies envolvidas não são capazes de se adaptar ao novo meio. Por exemplo, à 66 milhões de anos, após a queda do asteroide na península de Yucatán, novas condições mortais foram criadas como tsunamis, inverno nuclear, terremotos e tempestades de materiais sólidos como o irídio, elemento químico raro no planeta, porém comum em rochas extraterrestres. Como resultado da colisão, boa parcela da fauna e flora foi afetada, tanto que até mesmo os gigantes dinossauros não foram capazes de se proteger ou mesmo se adaptar ao novo ambiente. Durante a história da vida têm se conhecimento de 5 grandes extinções em massa, sendo a maior delas ocorrida no permiano, por volta de 252 milhões de ano. Isso resultou no desaparecimento de 95 por cento de todas as espécies viventes, este foi o momento em que a vida esteve mais próxima de desaparecer por completo. A humanidade com sua dominância tecnológica tem agido em prol da extinção de milhares de espécies, a ganância cega do Homo sapiens criou uma ilusão de que todos os recursos são inesgotáveis, e cada novo espaço conquistado o impacto pode ser sentido. Basta recordar a caça direta e desfreada – muito comum no passado – e que dizimou as grandes aves como os dodôs e araus-gigantes, caçadas exaustivamente para alimentação até sua extinção. Atualmente, a ação humana sobre a extinção não vem somente da caça, mas também pela importação de espécies invasoras, destruição de habitats ricos em biodiversidade, mudanças climáticas, poluições diversas, como a por plásticos, e emissões de carbono em prejuízo do clima. Oceanos vem se acidificando devido a absorção de carbono, e com isso destruindo a base do ecossistema, como os recifes de corais. Fontes de água na Costa Rica tem se tornado áreas desabitadas por anfíbios devido a doenças trazidas por espécies invasoras. Aves uma vez abundantes estão simplesmente desparecendo, neste cenário é inegável a ação para uma sexta extinção em massa está em curso. Uma nova extinção em massa está se fundamentando, e diferente de todas as outras extinções já ocorridas, a causa deste evento é pelas ações de uma única espécie: o Homo sapiens. Ele está destruindo o habitat comum a outras espécies, a vida moderna traz uma falsa ilusão de independência da natureza. No entanto, caso a ação humana continue da mesma forma, a próxima espécie a ser alvo da sexta extinção em massa será o homem. #Envolverde

Proteger o estoque natural de CO2 das florestas é vital para atingir o net-zero

Mesmo que se consiga substituir os combustíveis fósseis por fontes renováveis, será praticamente impossível zerar as emissões de carbono até 2050 sem proteger o sistema natural de estocagem de CO2 das florestas tropicais, principalmente a Amazônia, pois são elas que detêm o maior estoque de CO2 do planeta. O alerta foi feito pelo cientista Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e autor-líder de um capítulo do mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), na última quinta-feira (27/10), em uma palestra na conferência anual do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI). Artaxo é um dos mais influentes pesquisadores do mundo na área de meio ambiente e mudanças climáticas, e está a caminho do Egito, onde participará da 27ª Conferência da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 27. Segundo ele, vários estudos, de diferentes laboratórios do mundo, com estratégicas científicas distintas, apontam que as mudanças climáticas em curso que já estão próximas de um ponto sem volta, e que o desmatamento e a degeneração das florestas são alguns dos seus principais motores. “Daqui 10, 15 anos, as mudanças que se se instalarem é que determinarão como será o clima nos próximos séculos”, disse. E as conclusões dos estudos científicos mais recentes, apresentados por ele, não são boas. A questão climática, segundo Artaxo, é complexa e seus fatores estão extremamente conectados uns com os outros. “Dois meses atrás, foi publicado um estudo mostrando que o que se faz aqui, na Amazônia, afeta criticamente a precipitação no Himalaia, que provê água para um 1,6 bilhão de pessoas. Portanto, isso mostra que a atmosfera é uma entidade única e tudo está conectado”, afirmou. Na Amazônia, ponto de inflexão é a capacidade da floresta de se sustentar por si própria. O processo de transição, levado pelo desmatamento, mudança do clima, já alterou vários aspectos do seu ecossistema. Um deles é a fotossíntese, processo realizado pelas plantas para a produção de energia, no qual a captura de CO2 é essencial. “Sob o estresse de temperaturas mais elevadas, a quantidade de gás carbônico assimilada pela fotossíntese da floresta está diminuindo drasticamente”, disse. O que está sendo observado em vários estudos, segundo Artaxo, é que o fluxo líquido de carbono da Amazônia está diminuindo. “Quando eu comecei os estudos na região, 30, 35 anos atrás, a Amazônia estava absorvendo 1.5 toneladas de carbono. Agora, esse fluxo é praticamente zero. É zero por causa, principalmente, da morte das árvores que está aumentando. E está aumentando por quê? Por causa do crescimento dos extremos do clima, do aumento da temperatura e da menor precipitação de chuvas.” Enquanto na Sibéria, exemplifica ele, o sistema de captura e remoção de CO2 na atmosfera é muito dinâmico, com diferenças no inverno e no verão, na Amazônia e na floresta tropical da África o reservatório de CO2 é permanente. Ou seja, uma vez dispersado, o CO2 ficará permanentemente na atmosfera. A temperatura do planeta tende a aumentar entre 3.3 graus Celsius e 4 graus Celsius, e o IPPC estima uma média 4 graus Celsius. “Mas a média da temperatura não diz nada, pois ninguém vive numa temperatura média. No Brasil, uma média de temperatura como essa significa que teremos temperaturas aumentadas em 6.6 graus. No Ártico, na Sibéria, na tundra canadense a elevação poderá ser e até 7 graus. Isso é um aumento imenso”, destacou. Processo de desertificação — Outra mudança importante é sobre a precipitação de chuvas. “Muitas áreas do nosso planeta já estão começando a ficar muito mais secas, e uma delas é a área central do Brasil e a parte oriental da Amazônia, onde há decréscimo muito significativo da precipitação. Já a área mediterrânea da Europa (sul da Espanha, Portugal e Itália) está em processo acelerado de desertificação, assim como na América Central e na parte central dos EUA. “Isso traz um ingrediente crítico para a produção de alimentos. E não se trata de uma previsão para o futuro. Isso já está acontecendo.” Ele destaca que o sistema de produção de alimentos é responsável por 32% das emissões globais de CO2, e nas próximas décadas as emissões estimadas desse setor indicam um aumento de 50%. “Como o planeta será capaz de produzir comida para 10 bilhões de pessoas e ao mesmo tempo alcançar o net-zero. Parando de comer? Então, basicamente, essa situação é muito mais do que uma questão de sistema de energia, estamos falando da necessidade de uma sociedade sustentável.” ‘Savanização’ da Amazônia — Segundo Artaxo, na Amazônia o desmatamento é cerca de 13.500 quilômetros quadrados por ano [dados de 2021]. E esse número tende a ser 27% maior em 2022. Essa mudança no ecossistema é crítica. “Um ponto de inflexão seria uma mudança de um ecossistema florestal para um tipo de savana, com 10% do carbono original estocado”, disse ele. Como nessa trajetória vários fatores têm influência, a pergunta que fica é: “Essa transição entre os ecossistemas será suave, abrupta, e será reversível? São questões críticas e nós ainda não temos uma resposta clara.” A ciência, segundo ele, já tem alguma noção sobre a questão da reversibilidade. Áreas desmatadas na Amazônia há 40, 50 anos e que foram abandonadas voltaram a se regenerar, mas somente com 55% a 60% da biomassa original e com um terço da biodiversidade anterior. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) correlaciona o nível de precipitação, de árido para úmido, com a biomassa da Amazônia, da floresta da África e do sudeste da Asia. “As três florestas são surpreendentemente muitos diferentes, mas elas têm um padrão. Onde tem mais chuva, tem mais biomassa.” Outro aspecto é que, entre as três florestas, a Amazônia é a que mais libera carbono pela perda da vegetação. “Estamos falando de cerca de 5,1% de carbono de um total de 120 bilhões de toneladas de carbono estocado.” Ele lembra que a perda de carbono não está relacionada apenas às áreas desmatadas, pois as áreas próximas ao desmatamento são responsáveis por 36% das emissões de carbono na Amazônia. Risco extremo — Segundo Artaxo, a maior parte da área da Amazônia está se tornando mais inflamável. Isso é expresso pelo déficit de pressão de vapor, que é a quantidade de água que as plantas soltam na atmosfera. “Também estamos observando mudanças significativas no ciclo hidrológico da Amazônia, com um crescimento na quantidade de quantidade de água nos rios da Amazônia nos últimos 120 anos. E se está crescendo, isso significa que menos água está sendo reprocessada pelo ecossistema.” Outra mudança é no sistema de precipitação em cascata, que é, em síntese, quando a água vaporizada do oceano atlântico vai para a Amazônia e de lá para o restante do país, levando as chuvas necessárias às plantações. “Um estudo mostra que estaríamos próximos do ponto de inflexão se a precipitação for maior de 1 mil mililitros e se a temperatura for maior que 2.5 graus”, disse. “Outro estudo, de Carlos Nobre, traz uma estimativa que se houver um aumento de temperatura de 4 graus ou se houver um desmatamento de 40% do total das áreas de floresta, todas as áreas florestais remanescentes serão perdidas. E nós estamos no meio do caminho dessa previsão.” Para Artaxo, o Brasil tem uma tremenda oportunidade, protegendo o estoque natural de carbono, de reduzir em 44% as emissões de carbono em cinco anos. É importante lembrar que, embora historicamente EUA e China sejam grandes emissores de CO2, o Brasil não está muito longe. Em 2021, o país foi o sétimo maior emissor em termos globais, o quarto em emissões per capita, e o sexto em emissões históricas. Apesar disso, na revisão dos acordos de meta de redução de emissões do ano passado, o Brasil foi o único país que aumentou as emissões permitidas. “Nós temos um grande programa de biocombustível, que nenhum outro país tem; um grande potencial para absorver carbono, mas ao mesmo tempo várias vulnerabilidades, com um setor agrícola muito sensível ao clima, uma geração de energia por hidrelétricas, que depende da chuva, e 8,5 mil quilômetros de área de costa vulneráveis ao aumento do nível do mar. Para analisar o presente e o futuro, é essencial olhar para o passado, disse Artaxo. Uma séria histórica mostra que ao logo de 500 milhões de anos o clima da terra oscilou muito, para mais quente ou mais frio, com períodos glaciais e interglaciais. “Nos últimos 10 milhões de anos, a terra permanece no período interglacial quente, que é onde estamos agora, e isso permitiu que a civilização humana prosperasse. Toda a vida na terra apareceu nos últimos 4 milhões de anos. E toda a vez que ocorreram extinções de espécies associadas ao clima, e isso ocorreu várias vezes, foram necessários milhões de anos para o ecossistema se recuperar. Então, qualquer dano, é muito difícil de ser recuperado, e isso deveria ser uma lição para nós”, destacou. Segundo ele, análises dos últimos 800 mil anos mostram que a oscilação entre os períodos glaciais e interglaciais estão conectadas com os gases de efeito estufa e a temperatura global. O problema é que esse ciclo de oscilação está sendo rompido agora. “Nos últimos 60, 70 anos, a terra saiu deste ciclo, que vinha ocorrendo há 800 mil anos. Então, estamos trazendo a terra para fora desse sistema climático dinâmico, e não sabemos para onde estamos indo”, disse. ************ Sobre o RCGI — O Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) é um Centro de Pesquisa em Engenharia, criado em 2015, com financiamento da FAPESP e da Shell. As pesquisas do RCGI são focadas em inovações que possibilitem ao Brasil atingir os compromissos assumidos no Acordo de Paris, no âmbito das NDCs — Nationally Determined Contributions. Os projetos de pesquisa — 19, no total — estão ancorados em cinco programas: NBS (Nature Based Solutions); CCU (Carbon Capture and Utilization); BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage); GHG (Greenhouse Gases) e Advocacy. Atualmente, o centro conta com cerca de 400 pesquisadores. Saiba mais aqui. #Envolverde

Plantio de 272 árvores nativas da Mata Atlântica homenageia vítimas da barragem

Cada planta recebeu o nome de uma vítima. Ação foi realizada pela em parceria com o Instituto Camila e Luiz Taliberti e apoio da Brigada Carcará e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Brumadinho, em área verde da cidade Uma atividade ao ar livre chamou a atenção dos moradores de Brumadinho na manhã deste sábado (29/10). Na área verde do Bairro Salgado Filho, nas proximidades do Cemitério Parque da Rosas – onde várias vítimas da tragédia-crime do rompimento da barragem da Vale foram sepultadas – a AVABRUM (Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão) plantou, em conjunto com o Instituto Camila e Luiz Taliberti, 272 mudas de árvores, de variadas espécies nativas da Mata Atlântica, tais como aroeira, pau-brasil, ipê amarelo, ipê roxo, paina e cedro. O plantio foi uma homenagem às vítimas da tragédia, e cada muda ganhou uma plaquinha de identificação com o nome de uma delas, as Joias, como são chamadas pelos familiares. Quatro vítimas ainda não foram localizadas. O local escolhido para a atividade – a área verde, na rua Érico Veríssimo, s/nº, no Bairro Salgado Filho – está sob a tutela da Brigada Carcará, que já promove ali uma ação de reflorestamento e vai oferecer todo suporte técnico para a manutenção das plantas. Já o Instituto Camila e Luiz Taliberti foi fundado, com apoio de amigos, por Helena Taliberti, que perdeu seus dois filhos na tragédia-crime – Luiz e Camila -, além da nora, Fernanda, que estava grávida de 5 meses, de Lorenzo Taliberti. Os irmãos eram de São Paulo e estavam em Brumadinho com o pai e a madrasta hospedados na Pousada Nova Estância, que foi totalmente destruída pela lama de rejeitos no fatídico 25 de janeiro de 2019. Todos morreram. Uma das participantes da atividade, Tida Andrade, mãe de uma vítima, falou pela primeira vez sobre a tragédia-crime. Ela disse que resolveu participar da ação de plantio para que surja uma vida em forma de árvore. “Eu perdi minha filha Natália. Nós havíamos conversado sobre a possibilidade de um rompimento da barragem e ela me dizia que não tinha medo, pois a mineradora Vale pregava a vida em primeiro lugar e prezava pela segurança. Hoje, após quase 4 anos, vir prestar uma homenagem não somente a ela, mas a diversas pessoas que conhecíamos, é uma forma de lembrarmos de todos com muito amor”, disse. Morador de Brumadinho, Jaime Eustáquio, que é técnico agrícola e biólogo aposentado, participou da ação como voluntário e auxiliou no plantio. Para ele, a sociedade de Brumadinho precisa participar e zelar pelo local. “Todos devem fazer parte deste local de homenagem às nossas Joias, fazendo com que seja um lugar de bom convívio para todos. Sou morador de um outro bairro e pretendo voltar aqui mais vezes para ajudar a cuidar do espaço,” finaliza. De acordo com a presidente da AVABRUM, Alexandra Andrade, a ideia do plantio de 272 árvores na área urbana de Brumadinho surgiu em conjunto com o Instituto Camila e Luiz Taliberti, e teve um significado muito grande. “Eles [o Instituto] já plantaram 272 mudas em São Paulo. Já tínhamos a ideia de fazer aqui também. A participação dos familiares e da comunidade é muito importante para a gente conseguir manter a memória, honrá-los e homenageá-los, além de contribuir para a recuperação do meio ambiente. Poder contribuir com um mundo melhor por meio desse plantio em homenagem a eles alivia um pouco a nossa dor”, disse. A AVABRUM acredita que as árvores serão um importante legado e farão com que a luta dos familiares das vítimas nunca caia no esquecimento. ‘Tentaram nos enterrar, não sabiam que éramos sementes’ Para Helena Taliberti, plantar 272 mudas é manter o legado dos seus filhos e contribuir para a preservação do meio ambiente. “É a construção de um memorial vivo e a certeza de que a morte de todos eles não foi em vão! Assim como o plantio em Brumadinho, plantamos 272 mudas em parceria com a SOS Mata Atlântica, em Itu (SP), e com o Projeto Plantar, na cabeceira do Rio São Francisco. O projeto do Instituto Camila e Luiz Taliberti é expandir para outros locais, porque tentaram nos enterrar, não sabiam que éramos sementes”. Segundo a AVABRUM, a intenção é expandir o plantio das 272 árvores para toda cidade onde nasceu uma joia, a fim de homenageá-la. A iniciativa do plantio deste sábado contou ainda também com apoio do Projeto Legado de Brumadinho*, do Departamento de Educação Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura Municipal, da Defesa Civil Municipal e da ONG Carcará. *Projeto realizado com recursos destinados pelo Comitê Gestor do Dano Moral Coletivo pago a título de indenização social pelo rompimento da Barragem em Brumadinho, em 25/01/2019, que ceifou 272 vidas. #Envolverde

Emissões por desmatamento crescem 20% no Brasil

Principal vetor para o aumento registrado em 2021 é o desmate na Amazônia, indicam dados do SEEG lançados nesta terça-feira As emissões brutas causadas por desmatamento no Brasil cresceram 20% entre 2020 e 2021, indicam dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases do Efeito Estufa) lançados nesta terça-feira, 1°. O desmate na Amazônia é o principal vetor para o aumento, sendo responsável por 77% das emissões por mudanças de uso da terra, setor analisado em recorte por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) no SEEG e que envolve emissões ligadas às alterações nos padrões do território, majoritariamente, por desmatamento e fogo associado. O aumento nas emissões por mudanças de uso da terra registrado em 2021 é maior que o observado entre 2017 e 2018, de 18%, e em todos os anos anteriores. Só é superado pela alta que houve entre 2002 e 2003, de 20%. Todos os biomas cresceram em emissões causadas por desmatamento em 2021, com maior expressividade na Mata Atlântica (65%), na Amazônia (17%) e no Pantanal (15%). No Cerrado o aumento foi de 4%, na Caatinga e no Pampa, de 3%. “A taxa de desmatamento em 2021 na Amazônia Legal foi de 13.038 km², o maior nível desde 2006, quando o desmatamento estava em franco decrescimento desde 27.772 km² em 2004. Isso demonstra que o aumento das emissões atualmente está refletindo esse retrocesso e a redução das ações de combate e fiscalização de desmatamento no país”, explica Bárbara Zimbres, pesquisadora no IPAM e no SEEG, responsável pelo cálculo de emissões por mudanças de uso da terra no Brasil, citando dados do Prodes, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O SEEG também apresenta como dado adicional o impacto das queimadas não associadas ao desmatamento nas emissões, que são os incêndios florestais em vegetação nativa, por exemplo. Essas emissões ocorrem por conta da degradação da vegetação nativa atingida pelo fogo, mas atualmente não são contabilizadas no Inventário Nacional de Emissões do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. O destaque é que a consideração desse tipo de queimada elevaria em 8% em média as emissões anuais do país. “O Brasil agora tem a chance de voltar a ser um dos protagonistas globais na redução das emissões de gases efeito estufa, reduzindo o desmatamento em todos os biomas e cumprindo os compromissos assumidos internacionalmente”, diz Julia Shimbo, pesquisadora no IPAM e no SEEG. Além do setor de mudanças de uso da terra, o SEEG calcula as emissões brasileiras por agropecuária, energia, processos industriais e resíduos. Praticamente todos os setores tiveram alta nas emissões: 3,8% na agropecuária, setor que costuma ter flutuações pequenas nos gases de efeito estufa; 12,2% no setor de energia, a maior alta desde 1973; e 8,2% no setor de processos industriais e uso de produtos. O setor de resíduos foi o único com emissões estáveis de 2020 para 2021. Os dados estarão disponíveis para consulta e download no site do SEEG. O lançamento ocorre nesta terça (1°/11) às 10h30, horário de Brasília, em transmissão ao vivo. Sobre o SEEG Foi criado em 2012 para atender a uma determinação da PNMC (Política Nacional de Mudanças Climáticas). O decreto que regulamenta a PNMC estabeleceu que o país deveria produzir estimativas anuais de emissão, de forma a acompanhar a execução da política. O governo, porém, não as produziu. Os inventários nacionais, instrumentos fundamentais para conhecer em detalhe o perfil de emissões do país, são publicados apenas de cinco em cinco anos. O SEEG foi a primeira iniciativa nacional de produção de estimativas anuais para toda a economia. Ele foi incorporado ao Observatório do Clima em 2013. Hoje, em sua 10ª edição, é uma das maiores bases de dados nacionais sobre emissões de gases estufa do mundo, compreendendo as emissões brasileiras de cinco setores (Agropecuária, Energia, Mudança de Uso da Terra, Processos Industriais e Resíduos). As estimativas são geradas segundo as diretrizes do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), com base nos Inventários Brasileiros de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases do Efeito Estufa, do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações). Sobre o IPAM O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia é uma organização científica, não governamental, apartidária e sem fins lucrativos que desde 1995 trabalha pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia. #Envolverde