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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Cubatão (SP) substitui árvores para readequar floresta urbana
Todo plantio em área urbana deve ser solicitado, nunca realizado sem autorização. Estudos apontam a melhor espécie para o local

Pensando em readequar sua floresta urbana. a Prefeitura de Cubatão, por meio da Cursan e Secretaria de Serviços Públicos (SESEP), vem substituindo gradativamente algumas espécies que são suscetíveis aos ataques de fungos e insetos como cupins, formigas e orelhas de pau. No lugar são colocadas espécies nativas da Mata Atlântica como Manacá, Pitanga, Aldrago, Guanandi e Quaresmeira. Já que são espécies regionais, têm maior facilidade de adaptação ao clima e solo, além de aceitarem poda, gerando menor conflito junto aos equipamentos públicos e causando menos problemas como à estrutura da calçada, por exemplo.
Os serviços de poda e remoção são pautados sempre pelas questões de segurança do pedestre e a situação do vegetal. As equipes alertam sobre o plantio indevido e aleatório de mudas e plantas nas ruas e avenidas da Cidade. Algumas espécies, popularmente conhecidas como Comigo Ninguém Pode, Coroa de Cristo, Alamandas e Figueiras por exemplo, contém substâncias tóxicas e espinhos que podem causar queimaduras, alergia e até cegueira, sendo perigosas principalmente às crianças e animais domésticos.
Todo plantio urbano deve ser solicitado pelo munícipe. Caso o morador queira mudar a arborização em frente à sua casa ou rua, deve entrar em contato com a Secretaria de Serviços Públicos (Sesesp), por meio do número 3372-8980. Uma equipe especializada irá ao local realizar um estudo e verificar quais mudas são adequadas.
Poda de árvores, serviço importante de manutenção – Segundo o engenheiro agrônomo da Cursan, Maykon Canesin Clemente, “o processo mais comum para a manutenção das árvores urbanas é a poda. Por meio dessa técnica, conseguimos conduzir a formação das mudas, eliminar ramos mortos, adequar a estrutura do vegetal e prover mais segurança para os pedestres, veículos, edificações e equipamentos urbanos. As árvores têm todas suas características morfológicas já definidas geneticamente. São características comuns aos indivíduos de mesma espécie, como, por exemplo, a arquitetura do vegetal, ou seja, altura e tipo de crescimento”.
Maykon esclarece também que os vegetais mantêm seu crescimento contínuo, porém, muitas vezes, os espaços no qual estão confinados são bem reduzidos, criando interferências, como por exemplo: cobrir equipamentos de trânsito (placas e semáforos); atrapalhar na iluminação pública, reduzindo o “cone” de luz; alcançar edificações (sacadas, janelas, casas, prédios, etc); interferir na rede de distribuição das concessionárias de energia elétrica (neste caso, somente a empresa poderá realizar a poda). “Para todas as interferências citadas, a poda consegue minimizar o conflito”, finaliza o engenheiro agrônomo.
Fonte de informações: Cursan
Texto de Melissa Caldeira, in EcoDebate, 01/02/2016
Poda de árvore. Foto: Prefeitura Municipal de Cubatão
Pensando em readequar sua floresta urbana. a Prefeitura de Cubatão, por meio da Cursan e Secretaria de Serviços Públicos (SESEP), vem substituindo gradativamente algumas espécies que são suscetíveis aos ataques de fungos e insetos como cupins, formigas e orelhas de pau. No lugar são colocadas espécies nativas da Mata Atlântica como Manacá, Pitanga, Aldrago, Guanandi e Quaresmeira. Já que são espécies regionais, têm maior facilidade de adaptação ao clima e solo, além de aceitarem poda, gerando menor conflito junto aos equipamentos públicos e causando menos problemas como à estrutura da calçada, por exemplo.
Os serviços de poda e remoção são pautados sempre pelas questões de segurança do pedestre e a situação do vegetal. As equipes alertam sobre o plantio indevido e aleatório de mudas e plantas nas ruas e avenidas da Cidade. Algumas espécies, popularmente conhecidas como Comigo Ninguém Pode, Coroa de Cristo, Alamandas e Figueiras por exemplo, contém substâncias tóxicas e espinhos que podem causar queimaduras, alergia e até cegueira, sendo perigosas principalmente às crianças e animais domésticos.
Todo plantio urbano deve ser solicitado pelo munícipe. Caso o morador queira mudar a arborização em frente à sua casa ou rua, deve entrar em contato com a Secretaria de Serviços Públicos (Sesesp), por meio do número 3372-8980. Uma equipe especializada irá ao local realizar um estudo e verificar quais mudas são adequadas.
Poda de árvores, serviço importante de manutenção – Segundo o engenheiro agrônomo da Cursan, Maykon Canesin Clemente, “o processo mais comum para a manutenção das árvores urbanas é a poda. Por meio dessa técnica, conseguimos conduzir a formação das mudas, eliminar ramos mortos, adequar a estrutura do vegetal e prover mais segurança para os pedestres, veículos, edificações e equipamentos urbanos. As árvores têm todas suas características morfológicas já definidas geneticamente. São características comuns aos indivíduos de mesma espécie, como, por exemplo, a arquitetura do vegetal, ou seja, altura e tipo de crescimento”.
Maykon esclarece também que os vegetais mantêm seu crescimento contínuo, porém, muitas vezes, os espaços no qual estão confinados são bem reduzidos, criando interferências, como por exemplo: cobrir equipamentos de trânsito (placas e semáforos); atrapalhar na iluminação pública, reduzindo o “cone” de luz; alcançar edificações (sacadas, janelas, casas, prédios, etc); interferir na rede de distribuição das concessionárias de energia elétrica (neste caso, somente a empresa poderá realizar a poda). “Para todas as interferências citadas, a poda consegue minimizar o conflito”, finaliza o engenheiro agrônomo.
Fonte de informações: Cursan
Texto de Melissa Caldeira, in EcoDebate, 01/02/2016
Hidrelétricas na Amazônia podem emitir mais gases de efeito estufa que usinas a carvão, óleo e gás
O Brasil orgulha-se de ter usinas hidrelétricas como principal matriz
energética por serem “fontes limpas”, de baixo impacto ao meio
ambiente. Mas esse traço nacional está sendo questionado. Hidrelétricas
instaladas ou previstas para serem construídas na Amazônia podem ser tão
ou mais poluentes que usinas termelétricas. Dezoito novos reservatórios
poderão emitir, em cem anos, até 21 milhões toneladas de metano e 310
milhões de dióxido de carbono – dois dos principais gases de efeito
estufa, responsável pelo aquecimento do planeta. Como o metano é 32
vezes mais potente no efeito estufa que o gás carbônico, o montante de
emissões pode chegar a até 982 milhões de toneladas de “gás carbônico
equivalente”. Em cenário mais otimista, o valor é de 369 milhões de
toneladas.
A constatação é do estudo desenvolvido por cinco pesquisadores, incluindo o professor do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFJF Nathan Barros. O artigo foi publicado na revista britânicaEnvironmental Research Letters, de alto impacto científico relacionado a pesquisas em meio ambiente. Na próxima edição do periódico, será publicada resenha sobre o trabalho por um dos principais pesquisadores sobre Amazônia Philip Fearnside, ressaltando a relevância do estudo.
“Seis das 18 hidrelétricas analisadas apresentaram número significante de simulações que apontam emissões comparáveis a usinas termelétricas. São elas: Cachoeira do Caí, Cachoeira dos Patos, Sinop, Bem Querer, Colider e Marabá. E a maioria das simulações para três delas – Cachoeira dos Patos, Caí e Sinop – estima emissões mais altas até mesmo do que usinas termais”, aponta o estudo.
A hidrelétrica de Sinop, em Mato Grosso, emitirá anualmente, pelo menos, 250 quilos de gás carbônico equivalente por megaWatt-hora (CO2eq MWh) de energia produzido ao longo de cem anos – que é o tempo aproximado de vida útil de uma hidrelétrica. Em seus primeiros 20 anos de implantação, quando as emissões são mais intensas, o volume poderá ser de 1,1 tonelada anual. Essa é a perspectiva otimista. Na versão mais poluente, o montante pode chegar a 5 toneladas de CO2eq por MWh anuais nas primeiras duas décadas e a 3 toneladas anualmente em um século. “Os valores são superiores a usinas à base de carvão, que emitem, em geral, 1 tonelada de CO2eq por MWh, e também mais altos que usinas de gás natural, responsáveis por 470 quilos”, explica Nathan. Usinas eólicas, que emitem pouca quantidade de gases de efeito estufa, liberam apenas 46 quilos. Veja mais comparações nos gráficos abaixo.

Medidas
Os pesquisadores destacam que barragens com maior área são mais poluentes que hidrelétricas menores e a fio d’água, ou seja, que utilizam predominantemente a correnteza para gerar energia e assim estocam menos volume líquido. A sugestão dos autores é adotar reservatórios com alta densidade energética – com alto potencial de produzir energia em menor área alagada – para reduzir a emissão de gases de efeito estufa.
A pesquisa também sugere melhoria nos procedimentos de limpeza da vegetação da região inundada para reduzir o volume de matéria orgânica, que favorece a liberação de carbono. O estudo critica a tendência de o governo brasileiro investir em grandes reservatórios, mais poluentes, para tê-los como garantia em caso de seca ou alta demanda energética.
Traços da Amazônia e pioneirismo
Ao se construir uma usina, é obrigatória a retirada da vegetação da área a ser inundada, mas a decomposição da matéria orgânica que sobra do corte das árvores e do carbono presente no solo ocasiona a formação de gás carbônico e metano. Além disso, o rio continuará trazendo sedimentos e matéria orgânica para o reservatório. “A produção desses gases torna-se mais intensa na Amazônia devido à presença abundante de matéria orgânica e da alta temperatura, que favorece a decomposição”, afirma Barros. O metano é formado em zonas sem oxigênio, geralmente áreas mais profundas do reservatório, por bactérias produtoras do gás, as chamadas metanogênicas.
“Vale ressaltar que este estudo foca em hidrelétricas na Amazônia. Isso não significa que usinas no Cerrado ou em outras áreas tenham o mesmo comportamento e sejam tão poluentes, porque as características são diferentes, como a abundância de vegetação e de carbono no solo”, destaca Nathan Barros.
“Considerando o alto número de barragens planejadas na região amazônica e em outros países como a China, é imperativo desenvolver modelos para estimar o equilíbrio de carbono de projetos de grandes hidrelétricas para dar suporte na tomada de decisão antes da construção de barragens”, afirmam os pesquisadores. Atualmente só há metodologias para os cálculos a partir de hidrelétricas existentes, e não para estimar futuras emissões – foco inédito do estudo.
Caso a perspectiva de aumento na emissão de gases de efeito estufa por hidrelétricas seja considerada, ela influenciará a meta de redução de níveis de carbono adotadas pelo Brasil. Já o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) poderá exigir que projetos de hidrelétricas em busca de financiamento informem o potencial de emissão de gases e se o local de construção é em floresta tropical.
10 mil simulações
Para calcular o quanto as futuras hidrelétricas na Amazônia podem contribuir para o efeito estufa, foram adotadas duas metodologias a partir de dados publicados: uma que subestima o potencial de emissão de gases pelos reservatórios (considera apenas a emissão de gás derivada da decomposição do material orgânico existente na biomassa e no solo antes da inundação) e outra que superestima a capacidade poluidora (leva em conta também o fluxo decorrente da decomposição da matéria orgânica trazida pelos rios e produzida pelas algas). “Ambas as metodologias fornecem uma gama plausível de emissões por esses reservatórios”, afirmam os pesquisadores.
Foram realizadas 10 mil simulações estatísticas para cada reservatório e cada metodologia (superestimação ou subestimação). A quantidade de cenários simulados é explicada pelos múltiplos fatores, como tamanho do reservatório, suas características bioquímicas e limpeza da área a ser inundada, “os quais podem interferir na produção, consumo e emissão de gases de efeito estufa em reservatórios tropicais e também pela alta variabilidade espacial e temporal dos dados analisados”.
Assinam também o artigo Felipe de Farias e Paulina Jaramillo da Universidade Carnegie Mellon (EUA), Henrique Sawakuchi da Universidade de São Paulo e Jeffrey Richey da Universidade de Washington (EUA). Foram estudadas as hidrelétricas de Belo Monte, Bem Querer, Cachoeira do Caí, Cachoeira do Caldeirão, Cachoeira dos Patos, Colider, Ferreira Gomes, Jamamxim, Jatobá, Jirau, Marabá, Santo Antônio, Santo Augusto de Baixo, São Luís do Tapajós, Sinop, São Manoel, São Simão Alto e Teles Pires.
Leia o artigo (em inglês).
Fonte: Universidade Federal de Juiz de Fora
in EcoDebate, 01/02/2016
A constatação é do estudo desenvolvido por cinco pesquisadores, incluindo o professor do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFJF Nathan Barros. O artigo foi publicado na revista britânicaEnvironmental Research Letters, de alto impacto científico relacionado a pesquisas em meio ambiente. Na próxima edição do periódico, será publicada resenha sobre o trabalho por um dos principais pesquisadores sobre Amazônia Philip Fearnside, ressaltando a relevância do estudo.
“Seis das 18 hidrelétricas analisadas apresentaram número significante de simulações que apontam emissões comparáveis a usinas termelétricas. São elas: Cachoeira do Caí, Cachoeira dos Patos, Sinop, Bem Querer, Colider e Marabá. E a maioria das simulações para três delas – Cachoeira dos Patos, Caí e Sinop – estima emissões mais altas até mesmo do que usinas termais”, aponta o estudo.
A hidrelétrica de Sinop, em Mato Grosso, emitirá anualmente, pelo menos, 250 quilos de gás carbônico equivalente por megaWatt-hora (CO2eq MWh) de energia produzido ao longo de cem anos – que é o tempo aproximado de vida útil de uma hidrelétrica. Em seus primeiros 20 anos de implantação, quando as emissões são mais intensas, o volume poderá ser de 1,1 tonelada anual. Essa é a perspectiva otimista. Na versão mais poluente, o montante pode chegar a 5 toneladas de CO2eq por MWh anuais nas primeiras duas décadas e a 3 toneladas anualmente em um século. “Os valores são superiores a usinas à base de carvão, que emitem, em geral, 1 tonelada de CO2eq por MWh, e também mais altos que usinas de gás natural, responsáveis por 470 quilos”, explica Nathan. Usinas eólicas, que emitem pouca quantidade de gases de efeito estufa, liberam apenas 46 quilos. Veja mais comparações nos gráficos abaixo.
Emissão de gases de efeito estufa por hidrelétricas e termelétricas (linhas 470, 840 e 1.000)
Medidas
Os pesquisadores destacam que barragens com maior área são mais poluentes que hidrelétricas menores e a fio d’água, ou seja, que utilizam predominantemente a correnteza para gerar energia e assim estocam menos volume líquido. A sugestão dos autores é adotar reservatórios com alta densidade energética – com alto potencial de produzir energia em menor área alagada – para reduzir a emissão de gases de efeito estufa.
A pesquisa também sugere melhoria nos procedimentos de limpeza da vegetação da região inundada para reduzir o volume de matéria orgânica, que favorece a liberação de carbono. O estudo critica a tendência de o governo brasileiro investir em grandes reservatórios, mais poluentes, para tê-los como garantia em caso de seca ou alta demanda energética.
Traços da Amazônia e pioneirismo
Ao se construir uma usina, é obrigatória a retirada da vegetação da área a ser inundada, mas a decomposição da matéria orgânica que sobra do corte das árvores e do carbono presente no solo ocasiona a formação de gás carbônico e metano. Além disso, o rio continuará trazendo sedimentos e matéria orgânica para o reservatório. “A produção desses gases torna-se mais intensa na Amazônia devido à presença abundante de matéria orgânica e da alta temperatura, que favorece a decomposição”, afirma Barros. O metano é formado em zonas sem oxigênio, geralmente áreas mais profundas do reservatório, por bactérias produtoras do gás, as chamadas metanogênicas.
“Vale ressaltar que este estudo foca em hidrelétricas na Amazônia. Isso não significa que usinas no Cerrado ou em outras áreas tenham o mesmo comportamento e sejam tão poluentes, porque as características são diferentes, como a abundância de vegetação e de carbono no solo”, destaca Nathan Barros.
“Considerando o alto número de barragens planejadas na região amazônica e em outros países como a China, é imperativo desenvolver modelos para estimar o equilíbrio de carbono de projetos de grandes hidrelétricas para dar suporte na tomada de decisão antes da construção de barragens”, afirmam os pesquisadores. Atualmente só há metodologias para os cálculos a partir de hidrelétricas existentes, e não para estimar futuras emissões – foco inédito do estudo.
Caso a perspectiva de aumento na emissão de gases de efeito estufa por hidrelétricas seja considerada, ela influenciará a meta de redução de níveis de carbono adotadas pelo Brasil. Já o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) poderá exigir que projetos de hidrelétricas em busca de financiamento informem o potencial de emissão de gases e se o local de construção é em floresta tropical.
10 mil simulações
Para calcular o quanto as futuras hidrelétricas na Amazônia podem contribuir para o efeito estufa, foram adotadas duas metodologias a partir de dados publicados: uma que subestima o potencial de emissão de gases pelos reservatórios (considera apenas a emissão de gás derivada da decomposição do material orgânico existente na biomassa e no solo antes da inundação) e outra que superestima a capacidade poluidora (leva em conta também o fluxo decorrente da decomposição da matéria orgânica trazida pelos rios e produzida pelas algas). “Ambas as metodologias fornecem uma gama plausível de emissões por esses reservatórios”, afirmam os pesquisadores.
Foram realizadas 10 mil simulações estatísticas para cada reservatório e cada metodologia (superestimação ou subestimação). A quantidade de cenários simulados é explicada pelos múltiplos fatores, como tamanho do reservatório, suas características bioquímicas e limpeza da área a ser inundada, “os quais podem interferir na produção, consumo e emissão de gases de efeito estufa em reservatórios tropicais e também pela alta variabilidade espacial e temporal dos dados analisados”.
Assinam também o artigo Felipe de Farias e Paulina Jaramillo da Universidade Carnegie Mellon (EUA), Henrique Sawakuchi da Universidade de São Paulo e Jeffrey Richey da Universidade de Washington (EUA). Foram estudadas as hidrelétricas de Belo Monte, Bem Querer, Cachoeira do Caí, Cachoeira do Caldeirão, Cachoeira dos Patos, Colider, Ferreira Gomes, Jamamxim, Jatobá, Jirau, Marabá, Santo Antônio, Santo Augusto de Baixo, São Luís do Tapajós, Sinop, São Manoel, São Simão Alto e Teles Pires.
Leia o artigo (em inglês).
Fonte: Universidade Federal de Juiz de Fora
in EcoDebate, 01/02/2016
Em Santarém, mais de 500 pessoas debatem usinas na bacia do Tapajós, mas governo não manda representante
Hidrelétricas na bacia do rio Tapajós. Mapa: Agência Eletronorte
Pesquisadores, líderes indígenas, beiradeiros, procuradores da República e movimentos sociais debateram por mais de seis horas os problemas dos projetos de barragens na região. Pelo governo federal, foram convidados mas não participaram representantes do Ministério de Minas e Energia, Ibama, Funai, Eletrobras e ICMBio
Os projetos do governo para barragens na bacia do Tapajós mobilizaram a cidade de Santarém, no oeste do Pará, durante mais de seis horas de audiência pública realizada nesta sexta-feira, 29 de janeiro, na sede da Associação Comercial da cidade. Promovida pelo Ministério Público Federal (MPF), a audiência atraiu mais de 500 pessoas para ouvir pesquisadores, lideranças indígenas, procuradores da República e lideranças ribeirinhas que trataram dos inúmeros riscos e falhas dos projetos, que impactam com gravidade um dos corredores ecológicos mais importantes da Amazônia e também uma das áreas de ocupação humana mais antiga, milenar, na região.
Era tanta gente que logo no começo um grupo que não conseguiu entrar no auditório provocou um pequeno tumulto na tentativa de cancelar ou mudar a audiência de local. Mesmo assim, com atraso de cerca de uma hora, os debates transcorreram normalmente. Foram convidados representantes de vários órgãos do governo envolvidos nos projetos de barragens, mas ninguém compareceu. “De nove empresas interessadas na construção de São Luiz do Tapajós, oito são empreiteiras investigadas na operação Lava Jato”, disse o procurador Camões Boaventura ao iniciar sua explanação sobre as irregularidades até agora encontradas pelo MPF nos projetos de barragens no Tapajós.
Ao todo, são 43 barragens de vários tamanhos, projetadas pelo governo para o Tapajós e seus três afluentes, Teles Pires, Juruena e Jamanxim. Algumas, no Teles Pires e no Juruena, já estão em construção. No Tapajós, o governo anunciou que vai licenciar ainda em 2016 a usina de São Luiz do Tapajós, que alaga uma terra indígena Munduruku e algumas comunidades ribeirinhas. O projeto já enfrenta pelo menos quatro menos processos judiciais. Um deles, por não ter respeitado o direito de consulta prévia, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), já tem decisão do Superior Tribunal de Justiça que obriga o governo a fazer a consulta. Mesmo tendo anunciado o licenciamento para os próximos meses, o governo não tomou nenhuma providência para consultar os povos afetados.
“Queremos ser consultados”, disse Ageu Pereira, liderança da comunidade ribeirinha Montanha e Mangabal. No Tapajós, os ribeirinhos se chamam beiradeiros. Como o nome indica, a beira do rio é essencial para seu modo de vida. Se as usinas forem construídas, eles deixarão de ser beiradeiros. A pesquisadora Camila Jericó-Daminello estimou em mais de R$ 1 bilhão as perdas das comunidades ribeirinhas só em produtos florestais e pesqueiros dos quais hoje se sustentam, em caso de construção da usina.
Outra comunidade beiradeira que vive há séculos no Tapajós e deve sumir do mapa com as barragens é Pimental. “Nós já somos impactados desde agora, pelo desrespeito. Os pesquisadores de barragem chegam na nossa terra e querem fazer estudos à força. Se não queremos, eles chamam a Força Nacional para nos obrigar. Vocês não imaginam como é doído”, disse José Odair Cak, liderança do Pimental.
Além do uso de força contra a população afetada já no período de estudos de impacto e da absoluta ausência da consulta prévia obrigatória, a população da região questiona a necessidade das usinas, já que entendem que a energia gerada não vai beneficiar a população amazônica. Um dos debatedores, o professor Célio Bermann, da Universidade de São Paulo (USP), foi categórico: “eu afirmo agora que o Brasil não precisa de usinas no Tapajós”, sendo longamente aplaudido.
“Vivemos numa civilização elétrica. É verdade que precisamos de energia elétrica. Mas a hidroeletricidade não é a única opção. O nosso país tem as maiores tarifas de energia elétrica do mundo, com 70% da geração vindo de hidrelétricas. Então é preciso se pensar seriamente se essa opção é mesmo correta”, disse Bermann. “Cada usina é apresentada pelo governo como uma solução para a ameaça de apagão. Não é verdade. Até porque o apagão é muito mais causado pela falta de manutenção da rede elétrica brasileira do que pela falta de usinas. Existem alternativas e elas não incluem grandes usinas na Amazônia. Só que o Ministério Público e os pesquisadores não são considerados pelo governo no planejamento elétrico. Isso precisa mudar”.
Ricardo Baitelo, do Greenpeace, também reivindicou durante a audiência que a sociedade possa participar do planejamento elétrico e apresentou modelagens em que o Brasil aumenta significativamente a energia instalada sem a construção de nenhuma barragem na Amazônia, com diversificação da matriz energética e investimento em eficiência. “Com isso, é sim possível ao Brasil estocar vento”, disse Baitelo.
Mesmo com tantas alternativas apresentadas, o pesquisador Phillip Fearnside, um dos maiores especialistas em barragens tropicais, fez um alerta sombrio de que os planos verdadeiros do governo preveem um total de 69 grandes barragens na Amazônia, do porte de São Luiz do Tapajós ou da usina Teles Pires, alagando um total de 10 milhões de hectares.
Os maiores interessados, os povos que vivem nos rios e nas florestas da região, parecem ter entendimento profundo das consequências desse modelo. O cacique-geral do povo Munduruku explicou com economia de palavras. “Não só Munduruku vai sofrer, vai sofrer o mundo todo. Nós estamos defendendo o povo brasileiro”, disse, sobre a resistência contra as usinas. Pesquisadores que falaram durante a audiência concordaram com o cacique: danos na região do Tapajós podem prejudicar não só a região amazônica, como o Brasil inteiro e ter impactos mundiais, já que a Amazônia funciona como um regulador mundial do clima, assegurando a umidade em São Paulo, por exemplo. Sem a floresta, pesquisas apontam, a maior cidade brasileira seria um deserto.
E a floresta está severamente ameaçada pelos projetos. Segundo Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), que usou as taxas de desmatamento provocadas por Belo Monte para projetar o desmatamento que as usinas causarão no Tapajós, aponta potencial de perda de mais de 3,2 milhões de hectares de florestas na área.
Metilmercúrio – Uma das apresentações que teve mais impacto sobre o público foi do médico Erik Jennings, que apontou o risco de uma catástrofe na saúde humana na região, por causa do potencial das usinas se transformarem em verdadeiras fábricas de metilmercúrio, que é extremamente tóxico e causa danos ao sistema nervoso central, além de malformações fetais. “O solo amazônico é rico em mercúrio, na forma inerte, mas com a formação de lagos de usinas, esse mercúrio assume a forma tóxica e passa a ser absorvido pelos peixes, principal fonte de alimentação da população em toda a região”.
Jennings mencionou uma pesquisa feita com mulheres de cabelos longos na região da instalação da usina de Balbina, no Amazonas. A partir do comprimento dos cabelos e medindo a concentração de mercúrio ao longo dos fios, os pesquisadores conseguiram provar que quando a usina foi instalada houve uma explosão na concentração de mercúrio nos organismos das mulheres.
“Por que não se trata desse tema nos estudos? Temos uma falsa sensação de não envenenamento na Amazônia. Em Minamata (região no Japão onde houve graves casos de contaminação por mercúrio) foram precisos 24 anos para se reconhecer a contaminação, porque os efeitos do mercúrio têm um ciclo longo para se manifestar. Não podemos esperar que isso ocorra na Amazônia”, disse o médico. Os estudos da usina chegaram a descartar o risco de contaminação por mercúrio, mas fizeram exames na água e não nos peixes, que é por onde o mercúrio é absorvido pelas pessoas.
Patrimônio arqueológico – A ocupação humana no Tapajós, milenar, foi destacada pelos professores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) Bruna Rocha e Raoni Valle. Bruna mostrou como é antigo o discurso governamental de que a Amazônia é uma floresta virgem. Mostrou exemplos da ditadura militar e uma fala bem mais recente, do presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, que disse acreditar que as usinas do Tapajós não teriam impactos porque não moram pessoas na região.
“A arqueologia mostra que a região do Tapajós é povoada milenarmente. Sítios arqueológicos mostram ocupação humana datada dos séculos 800 a 900 d.C., em áreas que serão destruídas pelas usinas”, disse Bruna Rocha. Raoni Valle, que vem desenvolvendo uma pesquisa junto com os índios Munduruku, reivindicou a importância de se proteger os locais sagrados como ação fundamental para assegurar a sobrevivência física e cultural dos povos indígenas, de acordo com resolução da Organização das Nações Unidas (ONU).
“A expropriação do território dessas populações é a expropriação da memória delas, porque as memórias estão nos locais sagrados, nas paisagens do Tapajós. Destruir essa região é destruir a identidade dessas pessoas que estão nele enraizadas há tantos séculos”, disse Bruna Rocha.
Belo Monte – A usina hidrelétrica de Belo Monte, quase concluída no rio Xingu, a cerca de mil quilômetros de Santarém, também foi assunto da audiência pública. A procuradora da República Thais Santi, que atua no MPF em Altamira, fez uma fala de alerta sobre a situação que vivem os moradores do Xingu. “A obra de Belo Monte foi aceita com promessa e o compromisso do Estado com a região. Depois das promessas, o Estado foi embora e quem assume a concessão é uma empresa que além de não ter conhecimento da região deliberadamente descumpriu sua obrigações. Condicionante é obrigação. É requisito de viabilidade da obra. Não se permitam acreditar em falsas promessas”, pediu.
Marcelo Salazar, do Instituto Socioambiental (ISA), enumerou inúmeras condicionantes descumpridas de Belo Monte. “Eles fizeram a maior obra de engenharia do mundo e até agora não foram capazes de colocar um único hospital para funcionar em Altamira. É puro descaso”, afirmou. “No Xingu, a Funai está quase fechando as portas. Nunca houve escritório do Ibama na região de Belo Monte. O Estado abandonou aquela população”, disse Thais Santi.
Documentos citados na audiência pública ou relacionados a eles
Fonte: Ministério Público Federal no Pará
in EcoDebate, 01/02/2016
Vistoria do MPF flagra novo deslizamento de lama na barragem Fundão, da Samarco em Mariana
A
catástrofe socioambiental provocada pelo rompimento de barragem da
mineradora Samarco em Mariana (MG), no último dia 5/11, atingiu 663 km
de rios, com a destruição de 1.469 hectares de terras, incluindo Áreas
de Preservação Permanente (APP), aponta laudo técnico preliminar do
Ibama
Em vistoria realizada nessa quarta-feira, 27, no complexo minerário pertencente à empresa Samarco, em Mariana/MG, o Ministério Público Federal (MPF) constatou que a segurança da Barragem Fundão ainda está longe de se confirmar.
No exato instante em que a equipe do MPF estava no mirante da ombreira direita da Barragem Fundão, houve uma erosão gigantesca no dique Sela e uma massa impressionante de rejeitos surgiu no vale. “Ouvimos nos rádios dos funcionários da Samarco aviso para evacuar a área da barragem”, relata a procuradora da República Walquiria Picoli, que estava acompanhada por dois peritos, um engenheiro e um geólogo, que auxiliam os trabalhos da Força-Tarefa.
Informada pelos funcionários da empresa de que não havia riscos à segurança, já que eles se encontravam sobre uma estrutura natural (morro), a equipe pôde permanecer no local e assistir à descida da massa de rejeitos, que teria ocorrido em função do acúmulo da água de chuvas no fundo do reservatório.
Segundo a procuradora da República, a vistoria, que abrangeu minas, barragens e concentradores, com visita por terra e sobrevoo, demonstrou que “o problema continua com proporções inimagináveis. Embora a empresa esteja monitorando e adotando algumas medidas emergenciais nas estruturas remanescentes, ficou nítido que há uma ilusão de controle. As estruturas estão bastante saturadas com a intensa chuva e isso compromete a estabilidade, conforme pudemos presenciar”.
Na semana passada, o MPF questionou os autores da Ação Civil Pública nº 69758-61.2015.4.01.3400 a respeito de noticiado acordo judicial a ser firmado com a Samarco, inclusive com possibilidade de liberação para o retorno das atividades da empresa.
Para a Força-Tarefa, persistem muitas dúvidas sobre a segurança das barragens e, principalmente, sobre quais teriam sido as melhorias promovidas pela empresa em seu modo de produção que autorizariam o retorno das atividades.
“Está claro que o monitoramento por si só não tem eficácia alguma se as intervenções não forem eficientes”, conclui Walquiria Picoli.
Diante desses fatos, o MPF analisa a propositura de medidas judiciais para que as empresas e o Poder Público adotem medidas emergenciais efetivas para garantir a segurança das pessoas e a mitigação de eventuais novos deslizamentos de rejeitos.
Vídeo 1 – Em terra
Vídeo 2 – Sobrevoo
Fonte: Ministério Público Federal em Minas Gerais
in EcoDebate, 01/02/2016
Escoamento permanente de lama da Samarco no Rio Doce durante chuvas preocupa Ibama
Barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana (MG), após o rompimento. Foto: Ibama
Após inspeção emergencial de técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) à Barragem de Fundão, em Mariana (MG), por causa de um novo deslizamento de resíduos registrado na quarta-feira (27), o órgão reforçou h, na sexta-feira (29), que a maior preocupação, do ponto de vista ambiental, é conter o escoamento permanente de lama para a Bacia do Rio Doce durante o período de chuvas.
Os especialistas do Ibama constataram que os cerca de 1 milhão de metros cúbicos de lama que se deslocaram essa semana a partir do ponto em que a barragem se rompeu (veja vídeo abaixo) foram, em grande parte, contidos antes ou pela Barragem de Santarém, que também pertence à mineradora Samarco, e armazena água.
O maior temor era que ocorresse um transbordamento em Santarém ou que a estabilidade do Dique de Sela, na Barragem de Germano, tivesse sido comprometida. Segundo o Ibama, no entanto, os equipamentos de monitoramento instalados nas barragens não registraram grandes distúrbios, indicando estabilidade nas estruturas, mesma informação divulgada pela Samarco.
Ainda assim, o Núcleo de Combate a Crimes Ambientais do Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) determinou ontem (28) que a mineradora refaça os cálculos do índice de estabilidade tanto em Santarém como em Germano. De acordo com os últimos dados conhecidos, ambas se encontram com índice abaixo de 1,5, o mínimo exigido pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).
Para o Ibama, a prioridade da empresa deve ser a contenção do escorrimento paulatino e contínuo dos 16 milhões de metros cúbicos de lama que ainda restam na Barragem de Fundão. Mais de 60 milhões de metros cúbicos de lama foram liberados no rompimento da barragem, grande parte ficou espalhado ao longo das margens nos rios da Bacia do Rio Doce.
“Para nós, o desastre ainda não cessou, ainda está em curso, visto que a fonte poluidora ainda não foi interrompida”, disse o coordenador de emergências ambientais do Ibama, Marcelo Amorim. “Toda essa lama, com essa época de chuvas, continua a ser continuamente carreada. É preciso cessar essa fonte. Se fosse um incêndio, estaríamos ainda no rescaldo, como diriam os bombeiros”, comparou.
Para solucionar o problema, a Samarco propôs a construção de quatro diques de filtragem no Alto Rio Doce, assim como o plantio de espécies vegetais de vida curta ao longo das margens para conter a lama. Ambas as soluções estão em fase de testes, segundo Amorim.
Plano de Recuperação Ambiental será refeito
Ontem (28), o Ibama rejeitou o Plano de Recuperação Ambiental apresentado no dia 18 de janeiro pela Samarco, mais de dois meses após o rompimento da Barragem de Fundão.
Em nota técnica, o Ibama disse que o documento de 76 páginas, elaborado por uma consultoria ambiental, apresenta um diagnóstico “extremamente superficial” dos danos ambientais. Os técnicos do órgão federal afirmaram que o plano sequer considera os impactos sociais do desastre, assim como não faz uma estimativa da área afetada ao longo das margens e tampouco um levantamento das espécies de fauna e flora afetadas. Ações de longo prazo também não foram detalhadas.
Em resumo, “pode-se observar que o levantamento dos impactos foi feito de maneira genérica e superficial, sem considerar o imenso volume de informações produzidas e disponíveis até o momento”, avaliou a equipe técnica do Ibama.
Além da nota técnica, foram realizadas reuniões entre especialistas do Ibama e representantes da mineradora para esclarecer os pontos que devem constar em um novo Plano de Recuperação, cujo prazo de prazo entrega termina dia 17 de fevereiro. “Sentamos com a empresa para discutir com grande riqueza de detalhes, para não haver dúvidas sobre o que deve estar no plano”, disse o coordenador de emergências ambientais do Ibama.
Por Felipe Pontes, da Agência Brasil, in EcoDebate, 01/02/2016
Estudo aponta fragilidade da caatinga devido a desertificação
Por Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)
Na Bahia, quase a metade das cidades da caatinga no entorno do Rio São Francisco têm alto risco de sofrer danos provocados pelas mudanças climáticas nos próximos 25 anos. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que mapeou a vulnerabilidade às alterações do clima em 84 municípios que fazem parte da bacia hidrográfica do Velho Chico e estão localizados na região do bioma caatinga. Coordenada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz Minas), a pesquisa utiliza uma metodologia desenvolvida na Fiocruz que já foi aplicada para mapear a vulnerabilidade nas cidades do Rio de Janeiro. O trabalho foi financiado pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, por meio de edital, e contou com o apoio da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz.

Clique para ver o mapa ampliado da região estudada (imagem: IOC/Fiocruz)
A gravidade das alterações climáticas previstas para a região foi um dos fatores que levaram os pesquisadores a realizar o estudo. “Esta será uma das áreas mais afetadas pelas mudanças do clima. Além disso, o bioma da caatinga é muito peculiar e característico do nosso país. É importante preservá-lo”, afirma a pesquisadora do IOC Martha Barata, coordenadora-geral do projeto. Especialista em mudanças do clima e cidades, Martha é coordenadora do núcleo da Rede de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Urbanas (UCCRN, na sigla em inglês) para a América Latina, anunciado no ano passado.
Mais calor e menos chuva
Com base em dados do Instituto Nacional de Estudos Espaciais (Inpe), os pesquisadores identificaram as possíveis alterações de temperatura e de volume de chuvas para cada um dos 84 municípios nos próximos 25 anos considerando dois cenários de futuro: um cenário com redução nas emissões de gases do efeito estufa e menor aquecimento global, e outro que considera a progressão contínua dessas emissões e maior impacto no clima. Para 2040, a previsão é de que a média de temperatura na região suba no mínimo 0,98°C e no máximo 1,75°C. Ao mesmo tempo, o volume de chuvas anual deve cair entre 101 mm e 172 mm no conjunto dos municípios. Além da tendência geral de clima mais quente e seco, os índices apontam para a possibilidade de mudanças extremas. A cidade de Buritirama pode ficar 2,13°C mais quente. Já em Urandi, a queda na precipitação pode ser de 438 mm.
Calcular o impacto das alterações de chuvas e temperatura em cada cidade é apenas uma das etapas para determinar a vulnerabilidade da população às mudanças climáticas. Segundo Martha, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (chamado de IPCC, na sigla em inglês) define a vulnerabilidade como “a propensão a sofrer danos”. Esta é influenciada pelo nível de exposição, pela sensibilidade e pela capacidade de adaptação da população ao fator de perigo. “No estudo, consideramos que o nível de exposição é apontado pelas características ambientais, a sensibilidade pode ser percebida pela ocorrência de certas doenças, a capacidade de reação é indicada pelo perfil socioeconômico do município e o fator de perigo é a possível mudança do clima”, enumera a pesquisadora.

Clique e confira o mapa ampliado do Índice de Vulnerabilidade Municipal no cenário climático com redução nas emissões de gases do efeito estufa (imagem: IOC/Fiocruz)
Fatores de vulnerabilidade
Dessa forma, seguindo a metodologia desenvolvida na Fiocruz, o Índice de Vulnerabilidade Municipal é calculado a partir de quatro fatores. A situação da saúde é avaliada pela ocorrência de doenças de notificação obrigatória na área de estudo que podem sofrer impactos do clima, incluindo os registros de dengue, leishmanioses, esquistossomose e acidentes com animais peçonhentos, além das mortes causadas por diarreia em crianças menores de cinco anos. Os aspectos ambientais são analisados considerando a preservação da biodiversidade, a disponibilidade de recursos hídricos, a situação do solo e a frequência de eventos hidrometeorológicos extremos, como secas e enchentes, com e sem vítimas fatais. Já as características socioeconômicas são apontadas por indicadores oficiais, além de informações sobre as condições de saneamento local, incluindo rede de esgoto e coleta de lixo. Por fim, as previsões climáticas são inseridas na fórmula, dando origem ao Índice de Vulnerabilidade Municipal, que varia de zero a um de acordo com a padronização realizada pelos pesquisadores e aponta o risco de danos para a população devidos às mudanças do clima. “O objetivo é que este indicador seja um alerta para os gestores. Eles podem observar os fatores mais relevantes para a vulnerabilidade em cada cidade e direcionar investimentos que previnam ou minimizem os problemas”, explica a pesquisadora da Ensp Diana Marinho, coordenadora-executiva do trabalho.
Entre os 84 municípios analisados na Bahia, 34 foram classificados nas faixas de maior vulnerabilidade mesmo no melhor cenário climático. Já considerando as piores previsões para o clima, o número de cidades com vulnerabilidade alta ou muito alta chegou a 40. A maioria das cidades nesta situação está concentrada entre o oeste e o sul da região estudada, em uma área que vai de Campo Alegre de Lourdes até Mortugaba. Neste trecho, os cientistas preveem os maiores impactos do aquecimento global, tornando o clima extremamente quente e seco. Entre as cidades mais vulneráveis estão os municípios de Urandi e Rio do Pires, que revelam como os diferentes fatores contribuem para o problema: de um lado as falhas na saúde e a degradação ambiental deixam a população exposta, de outro as fortes mudanças do clima representam uma grande ameaça. O resultado é uma população com muito alta propensão a sofrer danos no futuro caso medidas de adaptação, que reduzam a vulnerabilidade da população, não sejam adotadas.

Clique para ver o mapa ampliado do Índice de Vulnerabilidade Municipal no cenário climático com progressão das emissões de gases do efeito estufa (imagem: IOC/Fiocruz)
Contribuição para enfrentar os riscos
Além de oferecer um panorama geral sobre a situação futura dos municípios, o estudo traz detalhes de cada indicador, o que pode ajudar as autoridades a orientar suas ações. Na saúde, seis cidades apresentaram valores muito altos de vulnerabilidade: Uibaí, que registra a maior taxa de esquistossomose; Barra do Mendes, que possui altos índices de esquistossomose e leishmaniose visceral; Mulungu do Morro, que contabiliza casos de todas as doenças pesquisadas; Guanambi, que tem a maior taxa de leishmaniose visceral; Irecê, que registra altos índices de dengue e esquistossomose; e Urandi, que tem o maior número de acidentes com animais peçonhentos. Para o perfil socioeconômico, as cidades com maior vulnerabilidade são Pedro Alexandre, Pilão Arcado e Bonito, enquanto os municípios em menor vulnerabilidade são Paulo Afonso, Irecê, Guanambi, Jaguarari e Juazeiro. Já em relação às condições ambientais, os municípios de Abaré e Gentio do Ouro apresentaram problemas em todos os critérios analisados e são considerados em situação crítica de vulnerabilidade.
Os pesquisadores ressaltam que combater os fatores de vulnerabilidade é uma forma de preparar as cidades para enfrentar as mudanças climáticas no futuro. “Problemas de saúde e de condições socioeconômicas que já existem devem ser agravados pelas mudanças do clima. As cidades precisam de investimentos para dar à população condições de lidar com eventos extremos, como a seca que deve se intensificar na região”, avalia Diana. Além disso, embora os efeitos das mudanças climáticas devam ser mais graves na parte oeste e sul da área estudada, os autores destacam que condições de vulnerabilidade foram identificadas de forma disseminada. “O município menos vulnerável da região é Paulo Afonso, que constitui um pólo econômico por causa da hidrelétrica. No entanto, ao lado deste município, está Jeremoabo, que tem alta vulnerabilidade considerando as condições socioeconômicas, ambientais e de saúde. Esse é um ponto relevante porque o poder público pode trabalhar para que as áreas mais desenvolvidas influenciem as cidades do entorno”, relata Martha.
in EcoDebate, 01/02/2016
Na Bahia, quase a metade das cidades da caatinga no entorno do Rio São Francisco têm alto risco de sofrer danos provocados pelas mudanças climáticas nos próximos 25 anos. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que mapeou a vulnerabilidade às alterações do clima em 84 municípios que fazem parte da bacia hidrográfica do Velho Chico e estão localizados na região do bioma caatinga. Coordenada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz Minas), a pesquisa utiliza uma metodologia desenvolvida na Fiocruz que já foi aplicada para mapear a vulnerabilidade nas cidades do Rio de Janeiro. O trabalho foi financiado pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, por meio de edital, e contou com o apoio da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz.

Clique para ver o mapa ampliado da região estudada (imagem: IOC/Fiocruz)
A gravidade das alterações climáticas previstas para a região foi um dos fatores que levaram os pesquisadores a realizar o estudo. “Esta será uma das áreas mais afetadas pelas mudanças do clima. Além disso, o bioma da caatinga é muito peculiar e característico do nosso país. É importante preservá-lo”, afirma a pesquisadora do IOC Martha Barata, coordenadora-geral do projeto. Especialista em mudanças do clima e cidades, Martha é coordenadora do núcleo da Rede de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Urbanas (UCCRN, na sigla em inglês) para a América Latina, anunciado no ano passado.
Mais calor e menos chuva
Com base em dados do Instituto Nacional de Estudos Espaciais (Inpe), os pesquisadores identificaram as possíveis alterações de temperatura e de volume de chuvas para cada um dos 84 municípios nos próximos 25 anos considerando dois cenários de futuro: um cenário com redução nas emissões de gases do efeito estufa e menor aquecimento global, e outro que considera a progressão contínua dessas emissões e maior impacto no clima. Para 2040, a previsão é de que a média de temperatura na região suba no mínimo 0,98°C e no máximo 1,75°C. Ao mesmo tempo, o volume de chuvas anual deve cair entre 101 mm e 172 mm no conjunto dos municípios. Além da tendência geral de clima mais quente e seco, os índices apontam para a possibilidade de mudanças extremas. A cidade de Buritirama pode ficar 2,13°C mais quente. Já em Urandi, a queda na precipitação pode ser de 438 mm.
Calcular o impacto das alterações de chuvas e temperatura em cada cidade é apenas uma das etapas para determinar a vulnerabilidade da população às mudanças climáticas. Segundo Martha, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (chamado de IPCC, na sigla em inglês) define a vulnerabilidade como “a propensão a sofrer danos”. Esta é influenciada pelo nível de exposição, pela sensibilidade e pela capacidade de adaptação da população ao fator de perigo. “No estudo, consideramos que o nível de exposição é apontado pelas características ambientais, a sensibilidade pode ser percebida pela ocorrência de certas doenças, a capacidade de reação é indicada pelo perfil socioeconômico do município e o fator de perigo é a possível mudança do clima”, enumera a pesquisadora.

Clique e confira o mapa ampliado do Índice de Vulnerabilidade Municipal no cenário climático com redução nas emissões de gases do efeito estufa (imagem: IOC/Fiocruz)
Fatores de vulnerabilidade
Dessa forma, seguindo a metodologia desenvolvida na Fiocruz, o Índice de Vulnerabilidade Municipal é calculado a partir de quatro fatores. A situação da saúde é avaliada pela ocorrência de doenças de notificação obrigatória na área de estudo que podem sofrer impactos do clima, incluindo os registros de dengue, leishmanioses, esquistossomose e acidentes com animais peçonhentos, além das mortes causadas por diarreia em crianças menores de cinco anos. Os aspectos ambientais são analisados considerando a preservação da biodiversidade, a disponibilidade de recursos hídricos, a situação do solo e a frequência de eventos hidrometeorológicos extremos, como secas e enchentes, com e sem vítimas fatais. Já as características socioeconômicas são apontadas por indicadores oficiais, além de informações sobre as condições de saneamento local, incluindo rede de esgoto e coleta de lixo. Por fim, as previsões climáticas são inseridas na fórmula, dando origem ao Índice de Vulnerabilidade Municipal, que varia de zero a um de acordo com a padronização realizada pelos pesquisadores e aponta o risco de danos para a população devidos às mudanças do clima. “O objetivo é que este indicador seja um alerta para os gestores. Eles podem observar os fatores mais relevantes para a vulnerabilidade em cada cidade e direcionar investimentos que previnam ou minimizem os problemas”, explica a pesquisadora da Ensp Diana Marinho, coordenadora-executiva do trabalho.
Entre os 84 municípios analisados na Bahia, 34 foram classificados nas faixas de maior vulnerabilidade mesmo no melhor cenário climático. Já considerando as piores previsões para o clima, o número de cidades com vulnerabilidade alta ou muito alta chegou a 40. A maioria das cidades nesta situação está concentrada entre o oeste e o sul da região estudada, em uma área que vai de Campo Alegre de Lourdes até Mortugaba. Neste trecho, os cientistas preveem os maiores impactos do aquecimento global, tornando o clima extremamente quente e seco. Entre as cidades mais vulneráveis estão os municípios de Urandi e Rio do Pires, que revelam como os diferentes fatores contribuem para o problema: de um lado as falhas na saúde e a degradação ambiental deixam a população exposta, de outro as fortes mudanças do clima representam uma grande ameaça. O resultado é uma população com muito alta propensão a sofrer danos no futuro caso medidas de adaptação, que reduzam a vulnerabilidade da população, não sejam adotadas.

Clique para ver o mapa ampliado do Índice de Vulnerabilidade Municipal no cenário climático com progressão das emissões de gases do efeito estufa (imagem: IOC/Fiocruz)
Contribuição para enfrentar os riscos
Além de oferecer um panorama geral sobre a situação futura dos municípios, o estudo traz detalhes de cada indicador, o que pode ajudar as autoridades a orientar suas ações. Na saúde, seis cidades apresentaram valores muito altos de vulnerabilidade: Uibaí, que registra a maior taxa de esquistossomose; Barra do Mendes, que possui altos índices de esquistossomose e leishmaniose visceral; Mulungu do Morro, que contabiliza casos de todas as doenças pesquisadas; Guanambi, que tem a maior taxa de leishmaniose visceral; Irecê, que registra altos índices de dengue e esquistossomose; e Urandi, que tem o maior número de acidentes com animais peçonhentos. Para o perfil socioeconômico, as cidades com maior vulnerabilidade são Pedro Alexandre, Pilão Arcado e Bonito, enquanto os municípios em menor vulnerabilidade são Paulo Afonso, Irecê, Guanambi, Jaguarari e Juazeiro. Já em relação às condições ambientais, os municípios de Abaré e Gentio do Ouro apresentaram problemas em todos os critérios analisados e são considerados em situação crítica de vulnerabilidade.
Os pesquisadores ressaltam que combater os fatores de vulnerabilidade é uma forma de preparar as cidades para enfrentar as mudanças climáticas no futuro. “Problemas de saúde e de condições socioeconômicas que já existem devem ser agravados pelas mudanças do clima. As cidades precisam de investimentos para dar à população condições de lidar com eventos extremos, como a seca que deve se intensificar na região”, avalia Diana. Além disso, embora os efeitos das mudanças climáticas devam ser mais graves na parte oeste e sul da área estudada, os autores destacam que condições de vulnerabilidade foram identificadas de forma disseminada. “O município menos vulnerável da região é Paulo Afonso, que constitui um pólo econômico por causa da hidrelétrica. No entanto, ao lado deste município, está Jeremoabo, que tem alta vulnerabilidade considerando as condições socioeconômicas, ambientais e de saúde. Esse é um ponto relevante porque o poder público pode trabalhar para que as áreas mais desenvolvidas influenciem as cidades do entorno”, relata Martha.
in EcoDebate, 01/02/2016
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