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terça-feira, 17 de agosto de 2021
EcoDebate - Edição 3.728 de 17 / agosto/ 2021
Ultrapassar pontos de não retorno aumentaria impactos econômicos da mudança climática
Declínio global de polinizadores ameaça os ecossistemas e a humanidade
Amazônia: Agropecuária demite trabalhadores enquanto aumenta a área de pastagens e cultivos
Amazônia pode gerar 1,1 TWh de eletricidade com biogás
Crianças suportarão na saúde os efeitos negativos da mudança climática
Degradação florestal e incêndios afetam toda a América Latina
Quase 20% do território brasileiro pegou fogo ao menos uma vez entre 1985 e 2020
sábado, 14 de agosto de 2021
"O GRITO DO BICHO" - Boletim Informativo do dia 14.8.2021
Publicamos matérias superinteressantes e selecionadas que levam vocês a terem conhecimento das questões ligadas aos animais e meio ambiente no mundo todo. Podem ler no nosso blog www.ogritodobicho3.com ou diretamente nos títulos abaixo.
• Vídeo: cachorro ajuda tutora a empurrar carro em enchente na Escócia
• Vinte e dois gatos entram na Justiça contra condomínio que quer impedir presença de animais
• Abrigo provisório trata animais após incêndios florestais na Grécia
• Homem funda santuário e salva a vida de centenas de animais que seriam mortos para consumo
• Incêndio criminoso mata animais silvestres em Campo Grande (MS)
• Gato reaparece na casa dos tutores depois de quase 13 anos desaparecido
• Gata entra em supermercado, abre sacos de ração e dorme em camas que estavam à venda
• Polícia fecha rinha de galo e resgata 70 animais em Parintins, no Amazonas
• Secretaria de Proteção e Defesa dos Animais anuncia doação de ração para a Suipa
• Extinção: tamanduá-bandeira é encontrado atropelado em rodovia de Minas Gerais
Abração a todos e obrigado pelo carinho com nosso trabalho.
sheila moura
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
Aquecimento global atinge níveis sem precedentes e dispara “alerta vermelho” para a humanidade
O novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) liberado hoje (9) fala sobre tendências irreversíveis no que diz respeito à mudança climática global. Pela primeira vez, o IPCC quantificou o grau de influência das mudanças climáticas à frequência e à intensidade de eventos extremos, como secas prolongadas, ondas de calor, tempestades e furacões. Segundo a entidade, que reúne os maiores especialistas no tema, a temperatura média do planeta tende a elevar em 1,5ºC nas próximas duas décadas, trazendo devastação generalizada.
Com quase mil páginas de extensão e anos de desenvolvimento, o documento sistematiza trabalhos científicos disponíveis sobre a crise climática e projeta o que deve acontecer com o planeta nas próximas décadas. Uma das maiores revelações do relatório é que mudanças climáticas induzidas pelo comportamento humano já estão influenciando em eventos climáticos extremos em todas as regiões do planeta. Os cientistas também estão observando a confirmação de previsões no impacto na atmosfera, nos oceanos, calotas de gelo e na terra.
Um dos pontos de maior destaque na série de estudos publicados pelo IPCC é que muitas das mudanças descritas são sem precedentes. Algumas estão em andamento agora, enquanto outras — como o aumento contínuo do nível do mar — permanecerão “irreversíveis” por séculos a milênios.
Abrindo brecha para a esperança, especialistas do IPCC deixam claro que ainda há tempo para limitar as mudanças climáticas no que de mais devastador elas acarretam. Reduções radicais e constantes nas emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa, por exemplo, poderiam melhorar rapidamente a qualidade do ar. Caso isso seja feito, de 20 a 30 anos as temperaturas globais poderiam se estabilizar.
Para ler o relatório completo em inglês, acesse aqui.
Alerta vermelho – Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, o relatório do IPCC é um alerta vermelho para a humanidade. “O documento deve ser uma sentença de morte para o carvão e os combustíveis fósseis antes que eles destruam o planeta”, disse. Em resposta aos novos dados, Guterres acionou a comunidade internacional a tempo da COP 26, a Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU, que acontecerá de 31 de outubro a 12 de novembro na cidade escocesa de Glasgow.
“Os alarmes de emergência estão soando, e a evidência é irrefutável”, disse Guterres, assim que o relatório foi liberado. O chefe da ONU também observou que o teto estabelecido no Acordo de Paris, que limita o aumento médio das temperaturas globais até 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais, está “perigosamente próximo”.
“Corremos o risco iminente de atingir 1,5 grau no curto prazo. A única maneira de evitar ultrapassar
esse limite é com urgência intensificando nossos esforços e perseguindo o caminho mais ambicioso.”
Ainda reagindo ao relatório, o chefe da ONU disse que as soluções eram claras. “Economias inclusivas e verdes, prosperidade, ar mais limpo e melhor saúde são possíveis para todos, se respondermos a esta crise com solidariedade e coragem”, resumiu ele.
Guterres também reiterou o papel central da Conferência global em Glasgow, em novembro, a COP26. Na ocasião, todas as nações — especialmente as economias mais prósperas — serão instadas a se juntar à coalizão de emissão zero, e reforçar a promessa de desacelerar e reverter o aquecimento global por meio das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, da sigla em inglês), uma série de diretrizes que detalham os passos de acordo com a realidade de cada país.
O que diz o estudo – Preparado por 234 cientistas de 66 países, o relatório destaca que a ação humana foi responsável por aquecer os sistemas climáticos até níveis sem precedentes em pelo menos 2 mil anos. Em 2019, as concentrações de CO2 na atmosfera estavam mais altas do que em qualquer outro momento durante os últimos dois milênios, e as concentrações de metano e óxido nitroso eram mais altas do que em qualquer momento nos últimos 800 mil anos.
A temperatura da superfície global aumentou em um ritmo mais acelerado desde 1970 do que em qualquer outro período de 50 anos em pelo menos dois mil anos. Para exemplificar, o relatório mostra que as temperaturas durante a década mais recente (2011-2020) excederam aquelas do período mais quente de vários séculos, há cerca de 6.500 anos.
Enquanto isso, o nível global médio dos mares aumentou mais rápido desde 1900 do que em qualquer outro século precedente em pelo menos 3 mil anos.
O relatório do IPCC também mostra que as emissões de gases do efeito estufa derivadas de atividades humanas foram responsáveis por um aumento de temperatura de aproximadamente 1.1° entre os anos de 1850 e 1900 e constata que, em média nos próximos 20 anos, a temperatura global deve atingir ou ultrapassar 1,5°C de aquecimento.
O tempo está acabando – Um dos pontos de preocupação imediata levantado pelos cientistas do IPCC é que o aquecimento global, originalmente previsto para 2°C, vai ser extrapolado antes mesmo do fim deste século. A menos que sejam promovidas nas próximas décadas reduções dramáticas e rápidas na emissão de CO2 e de outros gases do efeito estufa, cumprir a meta estabelecida no Acordo de Paris, em 2015, está “fora de alcance”.
“Há décadas está claro que a temperatura da terra está mudando, e o papel da influência humana no sistema climático é indiscutível”, defendeu a vice-presidente do Grupo de Trabalho I do relatório, Valérie Masson-Delmotte. “Ainda assim, o novo relatório reflete avanços enormes na ciência da atribuição, que se debruça sobre o entendimento do papel da mudança climática na intensificação de eventos climáticos específicos”, concluiu.
A avaliação é baseada em dados aprimorados sobre o aquecimento histórico, bem como no progresso na compreensão científica da resposta do sistema climático às emissões causadas pelo homem.
Mudanças extremas – Os especialistas do IPCC revelam que a ação humana afeta todos os principais componentes do sistema, sendo que alguns respondem a essas atividades há décadas e, outros, há séculos. Mudanças extremas documentadas recentemente, como ondas de calor, precipitações pesadas, secas e ciclones tropicais, estão mais recorrentes, e não há dúvidas quanto à atribuição humana desses fenômenos.
Os cientistas também alertam que à medida que avança o aquecimento global as mudanças no sistema climático se acentuam. Isso inclui aumentos na frequência e intensidade de extremos de calor, ondas de calor marinhas e precipitação intensa; secas agrícolas e ecológicas em algumas regiões; a proporção de ciclones tropicais intensos; bem como reduções no gelo do mar Ártico.
O relatório deixa claro que, embora os fatores naturais modulem as mudanças causadas pelo homem, especialmente em níveis regionais e no curto prazo, eles terão pouco efeito no aquecimento global de longo prazo.
Um século de mudanças – As projeções dos cientistas do IPCC indicam que, nas próximas décadas, a mudança climática vai se intensificar em todas as regiões. Ondas de calor crescentes, estações quentes mais longas e estações frias mais curtas acompanharão os 1,5°C de aumento de temperatura. Ao atingir 2°C de aumento de temperatura é provável que a humanidade ultrapasse os limites críticos de tolerância para agricultura e saúde.
Mas as mudanças climáticas não se limitam ao aumento de temperatura. Elas estão intensificando, por exemplo, a produção natural de água. Isso traz chuvas mais intensas e inundações associadas, bem como secas mais drásticas em muitas regiões.
O relatório também alerta que o aumento de temperatura também afeta os padrões de precipitação. Em altas latitudes, é provável que a precipitação aumente, enquanto se prevê que diminua em grandes partes das regiões subtropicais. Além disso, as áreas costeiras verão o aumento contínuo do nível do mar ao longo do século 21, contribuindo para inundações costeiras mais frequentes e severas em áreas baixas e erosão costeira.
Eventos extremos relacionados ao nível dos mares que antes aconteciam uma vez a cada cem anos podem acontecer uma vez ao ano até o fim deste século.
O relatório também indica que o aquecimento adicional ampliará o degelo dos solos congelados, ou permafrost, e a perda da cobertura de neve sazonal, o derretimento das geleiras e mantos de gelo e a perda do gelo marinho do Ártico no verão.
As mudanças nos oceanos, incluindo o seu aquecimento, ondas de calor marítimo mais frequentes, a acidificação das águas e a redução dos níveis de oxigênio afetam tanto esses ecossistemas quanto as pessoas que dependem dele, e vão progredir até pelo menos o fim deste século.
Além disso, o relatório alerta que a ocorrência de eventos de baixa probabilidade, como o colapso do manto de gelo ou mudanças abruptas na circulação do oceano, não podem ser descartados.
Cidades em risco – Os especialistas do IPCC alertam que para as cidades alguns aspectos das mudanças climáticas serão intensificados, incluindo o calor, alagamentos devido à chuva e aumento dos níveis do mar em comunidades costeiras.
A respeito do que pode ser feito para limitar as mudanças climáticas em seus efeitos devastadores, o vice-presidente do Grupo de Trabalho I do IPCC, Panmao Zhai, é taxativo:
“A estabilização do clima exigirá reduções fortes, rápidas e sustentadas nas emissões de gases de efeito estufa
e alcançar emissões líquidas zero de CO2. Limitar outros gases de efeito estufa e poluentes do ar, especialmente
o metano, pode trazer benefícios tanto para a saúde quanto para o clima.”
O relatório explica que, da perspectiva das ciências físicas, limitar o aquecimento global induzido pelo homem a um nível específico requer a limitação das emissões cumulativas de dióxido de carbono, atingindo pelo menos zero emissões líquidas de CO2, junto com fortes reduções em outras emissões de gases de efeito estufa.
“Reduções fortes, rápidas e consistentes nas emissões de metano também limitariam
o efeito de aquecimento resultante do declínio da poluição por aerossol”, destacam
os cientistas do IPCC.
Sobre o IPCC – O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima é o organismo da ONU promotor da ciência relacionada às mudanças climáticas. Ele foi criado em 1988 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) para equipar líderes políticos com avaliações científicas periódicas sobre as mudanças climáticas, suas implicações e riscos, bem como a proposição de estratégias de adaptação e mitigação.
No mesmo ano, a Assembléia Geral da ONU endossou a ação da OMM e do PNUMA quando os 195 estados-membros estabeleceram conjuntamente o IPCC.
Milhares de pessoas de todo o mundo contribuem para o trabalho do IPCC. Para os relatórios de avaliação, cientistas do painel disponibilizam o seu tempo para estudar o milhares de artigos científicos publicados todos os anos capazes de contribuir com uma compilação sobre o que sabemos a respeito da mudança climática e quais são suas causas, impactos e riscos, além de sinalizar como a adaptação e mitigação podem reduzi-los.
Entidades da ONU envolvidas nesta atividade
PNUMA – Programa das nações Unidas para o Meio Ambiente
OMM – Organização Mundial de Meteorologia
Imagem de destaque: Mudanças climáticas induzidas pelo comportamento humano já estão influenciando em eventos climáticos extremos em todas as regiões do planeta
Foto: © William Bossen/Unsplash
#Envolverde
IPCC: se nada for feito, colapso climático é iminente
por Herton Escobar – Arte: Lívia Magalhães/Jornal da USP –
Novo relatório de painel internacional de cientistas diz que influência humana no clima é “inequívoca” e que aumento de temperatura pode superar 1,5 ºC já em 2040. Muitos efeitos são irreversíveis, mas ainda há tempo de evitar o pior
As mudanças climáticas são reais, causadas pelo homem, estão se intensificando numa velocidade espantosa, sem precedentes nos últimos 2 mil anos (pelo menos) e com consequências potencialmente gravíssimas para os seres humanos e o planeta, incluindo a intensificação de tempestades, secas e ondas de calor extremo. Muitas dessas consequências — como o derretimento de geleiras e o aumento do nível do mar — são irreversíveis, até mesmo numa escala de milhares de anos; mas ainda há tempo de evitar uma calamidade climática global, desde que a espécie humana reduza imediatamente, e de forma bastante significativa, suas emissões de gases de efeito estufa para a atmosfera. Sem isso, é “extremamente provável” (95% a 100% de probabilidade) que o aquecimento global ultrapasse a perigosa marca de 2 graus Celsius até o final deste século, com grandes chances de chegar a 1,5°C já nos próximos 20 anos, caso as emissões de carbono permanecerem no nível atual. Num cenário mais pessimista de aumento de emissões, o aquecimento poderia ultrapassar 4°C antes de 2100.
Essas são algumas das mensagens trazidas pelo Sexto Relatório de Análise (AR6, em inglês) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC), cuja primeira parte foi divulgada nesta segunda-feira, em Genebra. É um documento de milhares de páginas, com 234 autores principais (mais 517 colaboradores), oriundos de 66 países (sete deles do Brasil), que destrincha textualmente e graficamente todo o conhecimento científico disponível no mundo sobre as mudanças climáticas globais — uma verdadeira enciclopédia científica, com peso mais do que suficiente para esmagar qualquer resquício de negacionismo que ainda circule por aí.
“É inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra. Ocorreram mudanças rápidas e generalizadas na atmosfera, no oceano, na criosfera e na biosfera”, diz a primeira mensagem do Sumário para Tomadores de Decisão (Summary for Policy Makers), um resumo executivo dos resultados, que acompanha o relatório. “A mudança climática induzida pelo homem já está afetando muitos extremos climáticos e meteorológicos em todas as regiões do globo”, conclui outro trecho do documento.
Os relatórios completos do IPCC são divididos em três partes, produzidas por diferentes Grupos de Trabalho (GTs), com diferentes enfoques. O que foi divulgado agora é o relatório do GT1, que analisa as evidências científicas da mudança do clima. Os relatórios do GT2, que analisa os impactos da crise climática, e do GT3, que analisa possíveis medidas de combate e adaptação a esse fenômeno, estão previstos para o início de 2022.
Trocando em miúdos, o que está sendo dito é que a culpa pelo aquecimento global é do ser humano, sim, e que não há nenhuma dúvida pendente com relação a isso. Tecnicamente falando, isso não é uma novidade — há muitos anos já existe um consenso científico muito bem estabelecido de que atividades humanas estão superaquecendo o planeta, e que essa elevação de temperatura é responsável pelas mudanças climáticas, cada vez mais intensas, que temos vivenciado nas últimas décadas. Ainda assim, o uso do termo “inequívoco” agrega uma camada adicional de certeza e contundência ao fato. Comparativamente, o relatório anterior (AR5), divulgado em 2013, dizia ser “extremamente provável que a influência humana seja a causa dominante do aquecimento observado desde meados do século 20”.
Não se trata de uma opinião, mas de uma constatação científica. Mais de 14 mil estudos foram analisados na elaboração do novo relatório, e as evidências não deixam dúvidas nem sobre o papel do homem nem sobre a gravidade do problema. O que muda nesse novo documento, em relação ao anterior é, principalmente, o grau de refinamento das análises sobre o que está acontecendo e das projeções sobre o que pode vir a acontecer no futuro, com base nos novos conhecimentos acumulados ao longo desses últimos oito anos. Essa primeira parte do relatório não propõe soluções nem avalia a efetividade de políticas públicas; apenas apresenta as evidências científicas necessárias para embasar a tomada de decisões sobre o enfrentamento da crise climática.
A coletiva de imprensa do IPCC para a divulgação do relatório foi acompanhada ao vivo por mais de sete mil pessoas. A diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e secretária-geral adjunta das Nações Unidas, Inger Andersen, abriu sua fala ressaltando que as mudanças climáticas são um problema do presente, não do futuro, e que “ninguém está seguro”. “Precisamos encarar as mudanças climáticas como uma ameaça imediata”, destacou ela. “É hora de sermos sérios, porque cada tonelada de CO2 emitida agrava o aquecimento global.”
“É hora de agir, imediatamente”, reforçou o físico brasileiro Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), em um seminário online realizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) sobre o relatório. Sem uma reação imediata de todos os países, no sentido de reduzir significativamente suas emissões de gases de efeito estufa, segundo ele, a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C pode se tornar “impossível”. As emissões globais de dióxido de carbono, por exemplo, teriam de ser reduzidas cerca de 7% ao ano até 2050. “A receita está dada”, pontuou Artaxo. “O IPCC já colocou claramente o que precisa ser feito.” (Assista ao seminário da Fapesp no final desta reportagem.)
Limite à vista
Uma mudança que chama a atenção no novo relatório é o recálculo da quantidade de carbono já emitida pelo homem e o encurtamento da janela de tempo dentro da qual os pesquisadores estimam que o aquecimento global ultrapassará a marca de 1,5°C acima da temperatura “normal” da era pré-industrial.
Segundo os cientistas, os seres humanos lançaram à atmosfera 2.390 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) entre 1850 e 2019, sendo que a maior parte dessas emissões (entre 80% e 90%) foi gerada pela queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão mineral). Para limitar o aquecimento global a 1,5 °C, esse total não poderia ultrapassar a marca de 2.900 bilhões de toneladas; o que nos deixa um “saldo remanescente” de 400 a 500 bilhões de toneladas de CO2 para serem emitidas nas próximas décadas. No ritmo atual de 40 bilhões de toneladas emitidas por ano, esse limite seria ultrapassado já por volta de 2040, segundo o relatório. A estimativa anterior, publicada em um relatório especial sobre o tema de 2018, era de que essa marca seria superada entre 2030 e 2050.
Ou seja, temos menos tempo ainda do que imaginávamos para reduzir emissões e frear o avanço do aquecimento global. Um aumento de 1,5°C não deixa de ter impactos significativos sobre o clima — tanto é que as mudanças climáticas já estão em curso e causando problemas gravíssimos em todo o planeta —, mas especialistas consideram que este é um limite minimamente seguro, no sentido de evitar mudanças climáticas mais severas, e minimamente factível, do ponto de vista das ações políticas e econômicas que precisam ser tomadas para o seu cumprimento. O objetivo do Acordo de Paris, firmado em 2015 (com base nas conclusões do último relatório do IPCC), é justamente manter o aquecimento global “bem abaixo de 2°C” e, preferencialmente, até um limite máximo de 1,5°C.
“A temperatura global da superfície continuará a aumentar até pelo menos meados deste século em todos os cenários de emissões considerados. As taxas de aquecimento global de 1,5°C e 2°C serão excedidas durante o século 21, a não ser que reduções profundas nas emissões de CO2 e outros gases de efeito estufa ocorram nas próximas décadas”, é outra das mensagens centrais do novo relatório, incluídas no Sumário para Tomadores de Decisão.
“A mensagem do IPCC é cristalina: mudar agora e preparar para o impacto. As piores previsões dos cientistas estão se tornando realidade mais rápido do que o esperado, os pontos de ruptura estão se aproximando e o único nível aceitável de emissões é zero”, declarou a especialista em políticas climáticas do Observatório do Clima, Stela Herschmann.
Até agora, segundo o IPCC, esse aumento foi de 1,1°C em comparação com a temperatura média do período 1850-1900, que é usada como linha de base para representar a temperatura “normal” (natural) do planeta na era pré-industrial, antes da interferência humana. A velocidade de aquecimento observada nas últimas cinco décadas é sem precedentes nos últimos 2 mil anos, segundo os cientistas, e a última vez que a Terra esteve tão quente foi cerca de 125 mil anos atrás. Tudo isso impulsionado, principalmente, pelo aumento da concentração de CO2 na atmosfera, que em 2019 atingiu 410 partes por milhão (ppm) — a concentração mais alta nos últimos 2 milhões de anos, segundo o relatório.
“A escala das mudanças recentes no sistema climático como um todo e o estado atual de muitos aspectos do sistema climático não têm precedentes num período de muitos séculos a muitos milhares de anos”, escrevem os cientistas. (Veja ao final deste texto a lista das 14 declarações-chave do relatório.)
Artaxo ressalta que essa marca de 1,5°C já foi ultrapassada nos continentes, que aquecem muito mais rápido do que os oceanos. Em áreas terrestres, o aumento já está em 1,6°C, comparado a 0,9°C nos oceanos (o que dá uma média de 1,1°C de aquecimento global total, comparado à era pré-industrial). Além disso, em escala global, esse limite só não foi superado, ainda, por causa de um outro problema gerado pelo homem: a poluição do ar urbana, que contém partículas (aerossóis e fuligem, por exemplo) que refletem a energia solar de volta ao espaço e, dessa forma, causam um efeito de resfriamento — oposto ao causado pelos gases de efeito estufa. Segundo o relatório, essa poluição reduziu o aquecimento global até agora em 0,5°C. “Estamos mascarando cerca de um terço do aquecimento que já ocorreu”, ressalta o pesquisador, que é um dos sete autores brasileiros do relatório.
Mapa elaborado pela Nasa mostra o acúmulo de anomalias térmicas registradas no planeta de 2016 a 2020, em comparação com a temperatura média registrada no período 1951-1980 (usada como referência de “temperatura normal”). As manchas vermelhas representam áreas onde a temperatura ficou acima do normal, enquanto que as manchas azuis representam temperaturas abaixo do normal. 2020 e 2016 foram os anos mais quentes já registrados no planeta e 2017, 2018 e 2019 também estão entre os mais quentes da série histórica – Vídeo: NASA’s Scientific Visualization Studio
Eventos extremos
O excesso de CO2 (e outros gases de efeito estufa) produzido pelo homem transforma a atmosfera numa espécie de cobertor mais grosso, que acaba aquecendo o planeta além do desejado. É um cobertor transparente, que permite a passagem da radiação solar mas impede que o calor gerado por ela na superfície do planeta se dissipe no espaço, tal qual os vidros de uma estufa (daí o nome “efeito estufa”, que é um fenômeno natural e essencial à vida, mas que está sendo exacerbado pela ação humana).
Um ou dois graus a mais de temperatura pode parecer pouca coisa, mas é algo que altera profundamente o funcionamento do sistema climático do planeta como um todo. As consequências práticas, segundo os cientistas, não são nada agradáveis: aumento na ocorrência e na intensidade de tempestades, secas, ondas de calor e outros eventos climáticos extremos; derretimento acelerado de geleiras e da calota polar do Ártico; aumento do nível e da temperatura do mar; mudanças drásticas nos padrões de precipitação (chuvas) ao redor do mundo; e várias outras. Tudo isso, claro, com implicações imensas para a produção de alimentos, a segurança hídrica, a conservação da biodiversidade, a qualidade de vida nas cidades, a saúde, a produção de energia e várias outras atividades essenciais à sobrevivência da espécie humana no planeta Terra.
“Olhando especificamente para o Brasil, o que salta aos olhos é uma redução drástica na projeção da precipitação, particularmente no Nordeste e no Brasil central, o que pode ter impactos muito importantes sobre a produtividade agrícola brasileira. Além disso, o aumento do nível do mar terá impactos muito importantes nas áreas costeiras do País”, destaca Artaxo.
Uma das principais inovações deste relatório, segundo ele, é a maneira como ele quantifica a ocorrência de eventos climáticos extremos e os relaciona às mudanças climáticas induzidas pelo homem de forma muito mais clara do que nos relatórios anteriores. De uma forma geral, a projeção é que quanto maior o aquecimento, maiores a frequência e a intensidade de eventos extremos, e maior a probabilidade de eventos que hoje são raros se tornarem relativamente comuns. Eventos de seca que, antes da interferência humana no clima, só ocorriam uma vez a cada dez anos, por exemplo, poderão passar a ocorrer duas a três vezes no mesmo período, num planeta 2 graus mais quente. Eventos de calor extremo que só ocorriam uma vez a cada 50 anos, poderão ocorrer 14 vezes no mesmo período de tempo.
“Não está se mudando apenas o clima médio, mas também os extremos climáticos”, disse o pesquisador Lincoln Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que também é autor do relatório do IPCC e foi um dos responsáveis pela elaboração de um atlas digital interativo, que permite visualizar todas essas alterações climáticas. Muitos dos eventos extremos que têm ocorrido nos últimos anos ao redor do mundo, segundo ele, seriam “muito improváveis” de acontecer sem o aquecimento global induzido pelo homem.
“É praticamente certo que extremos de temperatura quente (incluindo ondas de calor) se tornaram mais frequentes e mais intensos na maioria das regiões terrestres desde 1950, enquanto extremos de temperatura fria (incluindo ondas de frio) tornaram-se menos frequentes e menos severos, com alta confiança de que a mudança climática induzida pelo homem é o principal motivador dessas mudanças. Alguns extremos de calor recentes observados na última década teriam sido extremamente improváveis de ocorrer sem a influência humana no sistema climático. As ondas de calor marinhas dobraram de frequência aproximadamente desde a década de 1980, e a influência humana muito provavelmente contribuiu para a maioria delas desde pelo menos 2006”, diz o resumo executivo do relatório.
O relatório reforça também a mensagem de que todos esses efeitos são consideravelmente mais graves com 2°C de aquecimento do que 1,5°C. “Cada meio grau tem uma diferença muito grande em termos de impactos”, pontuou Thelma Krug, pesquisadora do Inpe e vice-presidente do IPCC, no seminário da Fapesp.
Para entender melhor os resultados do relatório, veja os gráficos abaixo, que resumem algumas das principais conclusões e previsões do documento.
Fonte: IPCC AR6 WGI / Jornal da USP (adaptado da versão original em inglês)
Influência humana comprovada
O aquecimento da Terra nos últimos 120 anos é um fato inequívoco, como mostram os gráficos acima. O gráfico da esquerda (a) mostra como a temperatura da superfície do planeta variou ao longo dos últimos dois mil anos, com base em registros paleoclimáticos extraídos de rochas, gelo e sedimentos marinhos. Notem que a temperatura oscila para cima e para baixo, mas não se descola muito da média observada entre 1850 e 1900, que é a linha de base do gráfico (representada pelo 0.0 na barra vertical do gráfico), usada como referência de temperatura normal do planeta, antes do início da interferência humana no clima.
A partir de 1850, as temperaturas deixam de ser “reconstruídas” por meio de registros paleoclimáticos e passam a ser medidas diretamente, por meio de termômetros. A partir daí, o que acontece nesses últimos 170 anos é assustador: a linha do gráfico sobe violentamente a partir do início do século 20, até ultrapassar a marca de 1ºC de aquecimento, no início do século 21. Agora, segundo o relatório, está em torno de 1,1ºC; e continua subindo.
Como se pode ver no gráfico, não há precedentes para um aquecimento tão abrupto e tão elevado nos últimos dois mil anos, pelo menos. A última vez que a Terra esteve tão quente foi há cerca de 100 mil anos atrás, segundo os pesquisadores, por conta de processos naturais (em que a elevação da temperatura ocorreu de forma muito mais lenta e gradual, ao longo de milhares de anos, e não de décadas, como está ocorrendo agora). Não por acaso, esse superaquecimento recente coincide com a intensificação das atividades industriais e do aumento das emissões de gases de efeito estufa para a atmosfera ao redor do mundo, principalmente em função da queima de combustíveis fósseis para a geração de energia; pois é justamente o acúmulo desses gases na atmosfera que faz a Terra esquentar.
O gráfico à direita (b) mostra uma simulação de como a temperatura superficial do planeta teria se comportado ao longo desses últimos 170 anos com base apenas em fatores naturais (faixa verde), como atividades vulcânicas e incidência de radiação solar — ou seja, como seria a temperatura natural da Terra atualmente, sem a interferência humana. Já a faixa marrom mostra uma simulação de como a temperatura teria se comportado com a somatória de fatores naturais e humanos. Notem como as duas faixas se descolam uma da outra a partir do início do século 20 (ano 1900), e como a faixa da simulação marrom se encaixa perfeitamente com a linha preta, que representa as temperaturas reais, registradas a cada ano desse período — o que indica que a simulação está correta e corresponde à realidade, tanto daquilo que aconteceu quanto daquilo que poderia ter acontecido.
Esse é o primeiro gráfico que aparece no Sumário para Tomadores de Decisão do relatório, e por um bom motivo: ele solidifica uma conclusão que a comunidade científica internacional já defende há muito tempo, de que o aquecimento global que estamos presenciando é um fenômeno antrópico — ou seja, causado pelo homem — e não um fenômeno natural. A culpa é da espécie humana, sim, e dos gases de efeito estufa que ela vem lançando na atmosfera (principalmente dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e gases fluorados), em quantidades cada vez maiores, desde o início da era industrial.
Como se pode ver no gráfico, não há precedentes para um aquecimento tão abrupto e tão elevado nos últimos dois mil anos (talvez nem mesmo nos últimos 125 mil anos, se compararmos com reconstruções climáticas ainda mais antigas). Não por acaso, esse superaquecimento coincide com a intensificação de atividades industriais e o aumento das emissões de gases de efeito estufa para a atmosfera ao redor do mundo, principalmente em função da queima de combustíveis fósseis para a geração de energia; pois é justamente o acúmulo desses gases na atmosfera que faz a Terra esquentar.
Fonte: IPCC AR6 WGI / Jornal da USP (adaptado da versão original em inglês)
Cenários futuros
Por mais sofisticadas que sejam as simulações feitas pelos cientistas, não há como prever exatamente o que vai acontecer no futuro — porque esse futuro, obviamente, é influenciado por uma enormidade de variáveis, não apenas climáticas, mas também econômicas, políticas e sociais. Por isso, em vez de fazer uma única previsão, o cientistas sempre trabalham com diversos cenários, buscando projetar o que pode acontecer no futuro em diferentes circunstâncias.
Para este relatório, o IPCC elaborou cinco novos cenários de emissões de gases de efeito estufa para o período 2015-2100, incluindo: dois cenários mais otimistas, em que as emissões decaem rapidamente nas próximas décadas; um cenário intermediário, em que as emissões permanecem estáveis até 2050 e diminuem gradativamente a partir daí; e dois cenários mais pessimistas, em que as emissões continuam a crescer até o fim do século. (Esses cenários são identificados pela sigla SSP, que significa Trajetória Socioeconômica Compartilhada, em inglês.)
No cenário mais otimista de todos (linha azul clara do gráfico), as emissões antrópicas de dióxido de carbono decairiam rapidamente nas próximas décadas, chegando a “emissões líquidas zero” por volta de 2050, e tornando-se negativas a partir daí — o que exigiria não só a redução de emissões, mas também a implementação de medidas capazes de remover o excesso de carbono já acumulado na atmosfera, como o plantio de árvores em larga escala por todo o planeta; ou seja, o homem passaria a tirar mais carbono do atmosfera do que acrescenta. No segundo cenário otimista (azul escuro), isso também aconteceria, mas só a partir de 2080.
No cenário intermediário (amarelo), as emissões ainda cresceriam um pouco nos próximos anos e começariam a diminuir só a partir de 2050, mas não o suficiente para chegar a zero antes de 2100. Nos dois cenários mais pessimistas (vermelho e violeta) as emissões continuariam subindo nas próximas décadas, porém em intensidades diferentes.
O gráfico acima mostra como a quantidade de CO2 emitido por ano evoluiria nesses diferentes cenários. Os números à direita indicam o aumento de temperatura projetado para cada cenário no curto prazo (período 2021-2040), médio prazo (2041-2060) e longo prazo (2081-2100). Em todos eles, na melhor estimativa dos cientistas, o aquecimento atinge ou ultrapassa a marca de 1,5ºC já nos próximos 20 anos — o que não significa que isso seja um futuro inexorável, pois a probabilidade de acerto das previsões não é de 100%, mas é um indicativo fortíssimo de que esse limite será rapidamente ultrapassado já nas próximas décadas, a não ser que haja uma ação imediata e contundente da espécie no sentido de mudar essa trajetória.
No cenário intermediário, o mundo ultrapassaria 2ºC de aquecimento por volta de 2050 e, mesmo reduzindo suas emissões a partir daí, chegaria ao final deste século com 3,6ºC de aquecimento, o que implicaria mudanças climáticas extremas e potencialmente catastróficas para a espécie humana e todos os ecossistemas da Terra. (A temperatura continua aumentando mesmo após a redução das emissões por causa do acúmulo histórico de gases-estufa na atmosfera, que tem efeitos de longa duração.)
O cenário que melhor representa a trajetória atual do mundo, segundo Artaxo, é o SSP3-7.0 (linha vermelha do gráfico), no qual o aquecimento global ultrapassaria 2ºC por volta de 2050 e chegaria a 3,6ºC no fim do século — com potencial para chegar a 4,6ºC.
Mar em fúria
Uma das consequências mais impactantes e mais irreversíveis do aquecimento global é a elevação do nível do mar, causada por uma combinação de aumento da temperatura da água (que aumenta o volume dos oceanos, por um processo físico de expansão térmica) e do derretimento em massa de geleiras, tanto em terra quanto nos oceanos.
Segundo o relatório, o nível global do mar aumentou 20 centímetros entre 1901 e 2018, e é “muito provável” (90% a 100% de probabilidade) que esse aumento é resultado do aquecimento global causado pelo homem, principalmente nos últimos 50 anos. A velocidade com que essa elevação está ocorrendo é sem precedentes nos últimos 3 mil anos, segundo os pesquisadores; e mesmo que os seres humanos zerassem imediatamente suas emissões de gases-estufa, essa elevação continuará em curso por pelo menos mais alguns séculos ou milênios, por causa do tempo que o calor leva para ser absorvido e se dissipar no oceano. Os cientistas estimam que o nível do mar subirá de 2 metros a 3 metros nos próximos 2 mil anos, se o aquecimento global for limitado a 1,5ºC; ou até 6 metros, num cenário de 2ºC.
“É praticamente certo que o nível médio global do mar continuará a se elevar ao longo do século 21”, diz o relatório. O gráfico acima mostra o grau de elevação projetado (em metros) para cada um dos cinco cenários analisados pelo IPCC, até 2100. No cenário intermediário, esse aumento ficaria entre 44 e 76 centímetros. É uma mudança expressiva, que, combinada com o aumento do número e da intensidade de chuvas e tempestades, pode ter efeitos devastadores sobre as zonas costeiras continentais (onde vive a maior parte da população brasileira, por exemplo).
Num cenário mais pessimista (linha pontilhada no gráfico), o nível do mar poderia subir até 2 metros em 2100, e 5 metros até 2150, dependendo de como os mantos de gelo das regiões polares responderem ao aumento da temperatura. É um cenário pouco provável, mas não impossível, e que não pode ser ignorado, segundo os cientistas.
A previsão é que as geleiras continentais e os mantos de gelo polar continuarão a derreter por centenas de anos, assim como o solo congelado (permafrost) da Sibéria, que contém uma quantidade imensa de carbono armazenada dentro dele. Outros efeitos irreversíveis nos próximos séculos incluem o aquecimento, a acidificação e a desoxigenação das águas oceânicas, com impactos gravíssimos para a biodiversidade marinha global.
Ainda que não seja possível frear completamente esses processos que já estão em curso, os cientistas ressaltam que a diminuição das emissões de gases de efeito estufa (e, consequentemente, do aquecimento global) pode reduzir bastante a magnitude e duração dos seus efeitos a médio e a longo prazo. “Existe solução”, pontua Artaxo.
Panorama global
O aquecimento global não se manifesta de forma homogênea em todo o planeta. Segundo o relatório do IPCC, a temperatura de superfície global da Terra aumentou cerca de 1,1ºC desde o início da era industrial, mas esse aquecimento foi maior sobre áreas terrestres (1,6ºC) do que sobre os oceanos (0,9ºC) e algumas regiões estão aquecendo muito mais rápido do que outras. A região do Ártico é a mais preocupante, pois está aquecendo duas vezes mais rápido do que o resto do planeta, e a cobertura de gelo marinho durante o verão vem diminuindo significativamente nas últimas décadas. Até 2050, os pesquisadores estimam que já haverá verões completamente sem gelo marinho na região.
“O relatório é mais incisivo e claro quanto aos cenários nas regiões polares”, diz o glaciologista brasileiro Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O gráfico acima mostra as mudanças previstas nos padrões de temperatura, precipitação e umidade do solo em grande escala, para todo o planeta, sob diferentes níveis de aquecimento global. Vejam que a região central da América do Sul — que inclui a Amazônia e todo o Centro-Oeste brasileiro — se torna gradativamente mais quente e seca à medida que a temperatura global aumenta.
Consequências regionais
Esse gráfico mostra como cada região do planeta deverá ser afetada por uma combinação de eventos extremos, num cenário de 2ºC de aquecimento global. Olhando para o Brasil, a previsão é que a região Norte se torne mais quente e seca, o que poderá alterar gravemente o equilíbrio ecossistêmico da Amazônia como um todo. O mesmo aconteceria na região Nordeste, que já é naturalmente muito seca, o que traria impactos gravíssimos para a segurança hídrica, energética e alimentar da região. A região Centro-Oeste, onde está concentrada a maior parte do agronegócio brasileiro, também ficaria mais quente e seca, enquanto que o Sudeste ficaria, além de mais quente, sujeito a mais extremos climáticos de natureza hídrica.
Mensagens principais
Veja abaixo as 14 grandes conclusões listadas no Sumário para Tomadores de Decisão do sexto relatório do Grupo de Trabalho 1 do IPCC (cada uma delas é explicada de forma detalhada no documento):
1. É inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra. Ocorreram mudanças rápidas e generalizadas na atmosfera, no oceano, na criosfera e na biosfera.
2. A escala das mudanças recentes no sistema climático como um todo e o estado atual de muitos aspectos do sistema climático não têm precedentes num período de muitos séculos a muitos milhares de anos.
3. A mudança climática induzida pelo homem já está afetando muitos extremos climáticos e meteorológicos em todas as regiões do globo. Evidências de mudanças observadas em extremos, como ondas de calor, precipitação forte, secas e ciclones tropicais e, em particular, sua atribuição à influência humana, fortaleceram-se desde o Quinto Relatório de Análise (AR5).
4. O conhecimento melhorado dos processos climáticos, evidências paleoclimáticas e a resposta do sistema climático ao aumento da forçante radiativa fornecem uma melhor estimativa da sensibilidade climática de equilíbrio de 3°C, com uma faixa mais estreita em comparação com a do AR5.
5. A temperatura global da superfície continuará a aumentar até pelo menos meados deste século em todos os cenários de emissões considerados. As taxas de aquecimento global de 1,5°C e 2°C serão excedidas durante o século 21, a não ser que reduções profundas nas emissões de CO2 e outros gases do efeito estufa ocorram nas próximas décadas.
6. Muitas mudanças no sistema climático tornam-se maiores numa relação direta com o aumento do aquecimento global. Elas incluem aumentos na frequência e na intensidade de extremos de calor, ondas de calor marinhas e fortes precipitações, secas agrícolas e ecológicas em algumas regiões, proporção de ciclones tropicais intensos, bem como reduções no gelo do mar Ártico, cobertura de neve e permafrost.
7. Projeta-se que a continuidade do aquecimento global irá intensificar ainda mais o ciclo global da água, incluindo sua variabilidade, precipitação global das monções e a gravidade dos eventos de chuva e seca.
8. Em cenários com emissões crescentes de CO2, projeta-se que os sumidouros de carbono oceânicos e terrestres se tornem menos eficazes na redução do acúmulo de CO2 na atmosfera.
9. Muitas mudanças devido a emissões passadas e futuras de gases de efeito estufa são irreversíveis por séculos a milênios, especialmente mudanças no oceano, nos mantos de gelo e no nível global do mar.
10. Os fatores naturais e a variabilidade interna irão modular as mudanças causadas pelo homem, especialmente em escalas regionais e no curto prazo, com pouco efeito no aquecimento global centenário. É importante considerar essas modulações no planejamento de toda a gama de mudanças possíveis.
11. Com o aumento do aquecimento global, projeta-se que cada região experimentará cada vez mais mudanças simultâneas e múltiplas nos fatores de impacto climático. Mudanças em vários fatores de impacto climático seriam mais difundidas a 2°C, em comparação com o aquecimento global de 1,5°C, e ainda mais difundidas e/ou pronunciadas para níveis de aquecimento mais elevados.
12. Consequências de baixa probabilidade, como colapso do manto de gelo, mudanças abruptas na circulação oceânica, alguns eventos extremos compostos e aquecimento substancialmente maior do que a faixa muito provável avaliada de aquecimento futuro, não podem ser descartadas e fazem parte da avaliação de risco.
13. Do ponto de vista das ciências físicas, limitar o aquecimento global induzido pelo homem a um nível específico requer a limitação das emissões cumulativas de CO2, atingindo pelo menos zero emissões líquidas de CO2, junto com fortes reduções de emissões de outros gases de efeito estufa. Reduções fortes, rápidas e sustentadas nas emissões de CH4 (metano) também limitariam o efeito de aquecimento resultante do declínio da poluição por aerossol e melhorariam a qualidade do ar.
14. Cenários que preveem baixas ou muito baixas emissões de gases de efeito estufa (SSP1-1.9 e SSP1-2.6) levam a efeitos perceptíveis, num prazo de anos, nas concentrações de gases de efeito estufa e aerossóis e na qualidade do ar, em comparação com cenários de alta e muito alta emissão (SSP3-7.0 ou SSP5-8.5). Sob esses cenários contrastantes, diferenças discerníveis nas tendências da temperatura da superfície global começariam a emergir da variabilidade natural em cerca de 20 anos, e em períodos de tempo mais longos para muitos outros fatores de impacto climático.
Jornal da USP/#Envolverde
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
Mudança climática ameaça várias espécies de peixes de extinção
Muitos peixes comumente consumidos podem estar em risco de extinção, pois o aquecimento dos oceanos devido às mudanças climáticas aumenta a pressão sobre sua sobrevivência, ao mesmo tempo em que prejudica sua capacidade de adaptação.
University of Reading*
Uma nova pesquisa sugere que peixes como a sardinha e o arenque terão dificuldade em acompanhar a aceleração da mudança climática à medida que as águas mais quentes reduzem seu tamanho e, portanto, sua capacidade de se deslocar para ambientes mais adequados.
O estudo, publicado na Nature Climate Change , também fornece a primeira evidência para contrariar a teoria científica de que a diminuição do movimento resultará em mais espécies, sugerindo que o oposto é verdadeiro. Isso significa que muitas espécies também serão menos capazes de evoluir para lidar com temperaturas mais altas, aumentando o risco de morrer.
‘IMPLICAÇÕES GRAVES’
O professor Chris Venditti, biólogo evolucionário da Universidade de Reading e coautor do estudo, disse: “O aquecimento das águas é um golpe duplo para os peixes, pois não só faz com que eles evoluam para um tamanho menor, mas também reduzem seu tamanho. capacidade de se deslocar para ambientes mais adequados.
“Nossa pesquisa apoia a teoria de que os peixes ficarão menores à medida que os oceanos aquecerem com as mudanças climáticas, mas revela a notícia preocupante de que eles também não serão capazes de evoluir para lidar com a situação de forma tão eficiente quanto se pensava. Com as temperaturas do mar subindo mais rápido do que nunca, os peixes serão rapidamente deixados para trás em termos evolutivos e lutarão para sobreviver.
“Isso tem sérias implicações para todos os peixes e nossa segurança alimentar, já que muitas das espécies que comemos podem se tornar cada vez mais escassas ou até mesmo inexistentes nas próximas décadas”.
O estudo, liderado pelo Centro de Estudos Avançados em Zonas Áridas (CEAZA) no Chile e pela Universidade de Reading, no Reino Unido, usou análises estatísticas de um grande conjunto de dados de espécies de peixes globalmente distribuídas para estudar sua evolução nos últimos 150 milhões de anos. O estudo fornece a primeira evidência sólida de como as flutuações históricas da temperatura global afetaram a evolução dessas espécies.
Ele se concentrou em Clupeiformes – um grupo altamente diversificado de peixes encontrados em todo o mundo, que inclui espécies importantes para a pesca, como anchovas, arenque do Atlântico, sardinha japonesa, arenque do Pacífico e sardinha sul-americana. No entanto, as descobertas têm implicações para todos os peixes.
Até agora, os peixes só tiveram que lidar com um aumento máximo da temperatura média do oceano de cerca de 0,8 ° C por milênio. Isso é muito menor do que as taxas de aquecimento atuais relatadas pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional de 0,18 ° C por década desde 1981.
UMA DESCOBERTA INESPERADA
As descobertas apoiam a antiga expectativa entre os cientistas de que os peixes geralmente ficarão menores e se moverão menos com o aquecimento mundial, devido ao aumento do metabolismo e, portanto, à necessidade de mais oxigênio para sustentar suas funções corporais. Isso afetará as espécies de peixes porque os peixes maiores são capazes de viajar por distâncias maiores devido às suas maiores reservas de energia, enquanto os peixes menores são menos capazes de buscar novos ambientes com condições favoráveis CO2 conforme o clima muda.
No entanto, a pesquisa contradiz a suposição de que um aumento em peixes menores significará mais novas espécies emergindo devido à concentração de variações genéticas dentro de áreas locais.
Em vez disso, os cientistas descobriram que águas mais quentes levariam ao desenvolvimento de menos novas espécies, privando os peixes de outra de suas principais armas para lidar com a mudança climática.
A sobrepesca também diminui o tamanho dos peixes, então o novo estudo aumenta a lista de pressões que eles enfrentam como consequência das ações humanas.
Referência:
Avaria-Llautureo, J., Venditti, C., Rivadeneira, M.M. et al. Historical warming consistently decreased size, dispersal and speciation rate of fish. Nat. Clim. Chang. (2021). https://doi.org/10.1038/s41558-021-01123-5
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Henrique Cortez *, tradução e edição.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/08/2021
Emergência Climática: Os ‘megaincêndios’ florestais são o novo normal?
Os enormes incêndios florestais na Austrália, na Amazônia, na Califórnia, na bacia do Congo e na Indonésia chamaram a atenção do mundo para os riscos de longos períodos de clima excepcionalmente quente e seco — um dos efeitos das mudanças climáticas.
A temperatura média global está agora 1,1°C mais alta do que no início do século passado. Temperaturas mais altas criam, em algumas partes do mundo, condições mais secas, aumentando a probabilidade e a intensidade de incêndios florestais e megaincêndios.
ONU
Os enormes incêndios florestais na Austrália, na Amazônia, na Califórnia, na bacia do Congo e na Indonésia chamaram a atenção do mundo para os riscos de longos períodos de clima excepcionalmente quente e seco — um dos efeitos das mudanças climáticas.
A temperatura média global está agora 1,1°C mais alta do que no início do século passado. Temperaturas mais altas criam, em algumas partes do mundo, condições mais secas, aumentando a probabilidade e a intensidade de incêndios florestais e megaincêndios.
Megaincêndios são tipicamente definidos como aqueles que cobrem mais de 40 mil hectares ou 400 quilômetros quadrados, e são acelerados pela combinação de secas e temperaturas altas. Eles são extremamente difíceis de conter, geralmente limitados apenas pela quantidade de vegetação disponível.
Até o final de 2019, o Brasil, a República Democrática do Congo, a Rússia e os Estados Unidos registraram megaincêndios em escalas sem precedentes.
Em 2019, o Global Forest Watch contabilizou mais de 4,5 milhões de incêndios em todo o mundo que atingiram mais de 1 quilômetro quadrado. São 400 mil incêndios a mais que 2018 e mais de duas vezes o número de incêndios de 2001. Quase todos — 96% dos 500 megaincêndios mais desastrosos da última década — ocorreram durante períodos de clima excepcionalmente quente e/ou seco.
Restam mais de dez semanas para o final da temporada de seca (dezembro a março) na Austrália, e esta temporada de incêndios florestais já está caminhando para ser uma das piores já registradas.
Relatórios do país mostram que mais de 10 milhões de hectares (100 mil quilômetros quadrados, uma área do tamanho da Inglaterra) queimaram na segunda semana de janeiro, provocando mortes humanas e destruindo casas. É provável que 1 bilhão de animais tenha morrido direta ou indiretamente por conta dos incêndios, que provocaram prejuízos para a economia australiana e tiveram impactos nas indústrias da agricultura e do turismo, entre outras.
O aumento da temperatura global foi marcado por sucessivas ondas de calor no verão australiano. A temperatura máxima média em todo o continente ultrapassou 40°C em 11 dias do mês, superando o recorde anterior de sete dias, em 2018. Apenas quatro dias entre 1910 e 2017 tiveram uma média superior a 40°C — dois em 1972 e dois em 2013.
Os fenômenos climáticos de seca e de ondas de calor extremos apenas aumentam o risco de mais incêndios catastróficos na Austrália.
“Os megaincêndios podem muito bem tornar-se o novo normal à medida que as temperaturas globais continuarem subindo”, diz Niklas Hagelberg, Especialista em Mudanças Climáticas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
“Governos, empresas, indústria e a sociedade civil nos países do G20, responsáveis por 78% das emissões de gases de efeito estufa, devem estabelecer metas e prazos para a descarbonização”, diz Hagelberg. “Precisamos abraçar o potencial e as oportunidades de um mundo alimentado por energia renovável, tecnologias de eficiência, sistemas alimentares inteligentes e transportes e edifícios com emissão zero”.
A realidade é que vivemos em um mundo com aquecimento de 1,1ºC. Essas temperaturas recordes, ondas de calor e secas não são anômalas, elas são o começo de uma nova norma.
Como serão as coisas daqui a algumas décadas quando atingirmos aquecimento de 1,5ºC? Nas comunidades já devastadas, as ameaças permanecem. À medida que a assistência internacional foi urgentemente convocada para a Austrália, um país acostumado a incêndios sazonais, a humanidade parece estar despreparada para enfrentar sua nova realidade.
Dois mil e vinte é o ano em que os governos se reunirão para fazer um balanço e aumentar a ambição de seus compromissos com a ação climática. É o ano em que as emissões globais devem cair 7,6% a cada ano até 2030, a fim de limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC.
Esses incêndios ilustram o estado das catástrofes humanitárias, ecológicas e econômicas de um clima em mudança. O aquecimento é um sombrio acerto de contas, não apenas para a Austrália, mas para o mundo inteiro que os assiste.
Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/01/2020
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