Powered By Blogger

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Demanda chinesa por soja ligada a 223 mil hectares de desmatamento no Brasil

por  – 
Risco de desmatamento se concentra em 8% do volume de soja importado por chineses, aponta relatório
A importação de soja brasileira pela China pode estar ligada a duas Nova Yorks de desmatamento no Brasil, ou 223 mil hectares, entre 2013 e 2017. O número é resultado de um levantamento inédito sobre a cadeia produtiva da soja exportada pela China feita pela Trase, plataforma global independente que monitora cadeias produtivas de commodities. O relatório foi divulgado nesta segunda-feira.
Uma fazenda de soja no Mato Grosso vista de cima (Image: Sentinel Hub)
Para calcular a exposição da soja comprada pela China ao desmatamento, a Trase multiplicou o total de desmatamento relacionado a soja nos locais que produzem para exportar para a China pela proporção da soja produzida nessas áreas que foi efetivamente comprada pelos chineses.
Os números fazem da China o país importador mais exposto ao risco de desmatamento, segundo a Trase. Mas isso só ocorre porque são também os chineses os maiores compradores da soja brasileira. No período de 2013 a 2017, a China comprou 42% da produção nacional de soja — quase três vezes o volume compraod pela União Europeia.
“A China é o principal comprador e realmente promove alterações de grandes regiões no Brasil”, afirma André Vasconcelos, pesquisador da América Latina da Global Canopy, responsável pela Trase junto com o Stockholm Environment Institute.
O Brasil plantou três Holandas de soja, ou 128.600 quilômetros quadrados, para entregar as 54 milhões de toneladas compradas pela China em 2017. No ano passado, a importação cresceu ainda mais, para 84 milhões de toneladas.

Desmatamento localizado

Embora a soja exportada para a China venha de mais de 2 mil municípios pelo Brasil, o levantamento da Trase mostra que o risco de desmatamento associado a exportações para a China está concentrado em poucas delas, responsáveis por apenas 8% do volume comprado.

“Como está bem, concentrado, acreditamos que seja uma oportunidade para a China reduzir esse impacto”, calcula Vasconcelos.
O volume com maior risco sai do coração do Matopiba, como é chamada a região composta por quatro estados brasileiros, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O bioma da região, o Cerrado, é o mais ameaçado pelo desmatamento no Brasil — e também onde mais se expandem as plantações de soja. Entre 2001 e 2017, mostrou o Atlas Agropecuário do Imaflora, a produção de soja no Matopiba cresceu 310%.
O risco de desmatamento associado na região é de 80%. O cálculo é feito a partir de dados de produções de commodities, padrões de compra e desmatamento. Por exemplo, se um país compra metade da soja de um município brasileiro onde 800 hectares de desmatamento estão diretamente ligados à produção de soja, o risco de desmatamento de soja para aquela empresa é de 400 hectares, ou 50% do total.
Apesar dos riscos associados aos grandes volumes de exportação, a China compra, proporcionalmente, menos soja de lugares com alto risco de desmatamento do que a União Europeia. Isso ocorre porque, enquanto a China compra a maior parte da sua produção da região Sul do Brasil, a Europa concentra suas compras exatamente na região do Matopiba, onde há mais risco.

Empresas responsáveis

O levantamento feito pela equipe da Trase mostrou, ainda, que apesar de centenas de empresas estarem envolvidas na cadeia produtiva da soja Brasil-China, apenas seis empresas são responsáveis por 70% do volume exportado para a China do Matopiba: Agrex, Amaggi, LD Commodities, Multigrain, Cargill, Bunge e ADM.
A COFCO, maior empresa chinesa envolvida na cadeia, também está entre as maiores exportadoras de soja para a China — com 7% do volume exportado. No Matopiba, é responsável por 6% das exportações, sendo a sétima maior exportadora.
Em janeiro deste ano, o presidente da COFCO, Jun Lyu, surpreendeu no Fórum Econômico Mundial em Davos ao publicar um artigo em que conclamou a comunidade internacional a unir esforços para combater o desmatamento. Em seu texto, o executivo chamou atenção às vulnerabilidades da cadeia produtiva da soja e à necessidade de proteger o Cerrado brasileiro em especial.
“Os esforços contra o desmatamento ganhariam um impulso significativo se mais participantes de mercados emergentes, tanto nos países produtores quanto nos de consumo, ficassem atrás de commodities sustentáveis”, escreveu. “Vamos usar esta oportunidade em Davos para levar esta colaboração à frente”.
Vasconcelos vê uma preocupação crescente entre as empresas chinesas com desmatamento na cadeia produtiva. “Vemos com muito entusiasmo o posicionamento que a Cofco adotou. É importante que o setor se posicione e que trabalhe para combater o desmatamento”, disse.
Empresas como a COFCO também estão preocupadas com danos às suas reputações, junto a acionistas e consumidores. Especialistas acreditam que a associação da soja brasileira a este tipo de dano pode impactar o crescimento do Brasil em novos mercados se parceiros deixarem de comprar em razão do risco.
Pesquisas mostram que não é necessário desmatar para aumentar a produção. Entre 1991 e 2017, a produção de grãos subiu 312%, enquanto a área plantada, 61%, segundo dados do Observatório do Clima. O uso de áreas já degradadas é uma opção defendida por pesquisadores. Juntas, as áreas degradadas na Amazônia e no Cerrado ultrapassam 30 milhões de hectares.
“É mais ou menos o tamanho de uma agricultura brasileira que está abandonada e em processo de degradação”, afirma Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

As consequências

 O desmatamento já está provocando alterações no regime de chuvas. Segundo a Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprasoja), o Brasil perdeu 11 milhões de toneladas de grãos, algo em torno de R$ 17 bilhões, por conta de eventos climáticos, como chuvas fortes e estiagens longas. Para Assad, o problema é conhecido.
Sem florestas em pé, a capacidade de captar e bombear água para atmosfera, a chamada evapotranspiração, diminui drasticamente. As chuvas que vêm da Amazônia vão se diluindo e não chegam ao Cerrado, por exemplo, comprometendo as safras por deficiência hídrica. Chuvas concentradas prejudicam igualmente.
A vegetação desmatada também é combustível para a emissão de gases de efeito estufa. Em 2016, o Brasil alcançou o sexto lugar na lista de maiores emissores de gases do mundo. Naquele ano, 51% dos 2.278 bilhões de toneladas emitidas entraram na conta do desmatamento.
(#Envolverde)

quarta-feira, 17 de abril de 2019

GREENPEACE BRASIL 2019 : Jornada pelos oceanos


Olá, JAMESPIZARRO! Tudo bem?

De abril de 2019 a abril de 2020, o Greenpeace fará com o seu navio uma grande jornada pelos oceanos!
🌊🌊🌊

Navegaremos do polo Norte ao Polo Sul, do Ártico passando pelos Corais da Amazônia  até a Antártida, registrando as belezas naturais que habitam as profundezas do oceanos, e principalmente mostrando as ameaças e trabalhando para que a gente se una na proteção do nosso planeta azul! 
🌎



Mudanças climáticas, plásticos, pesca desenfreada e exploração de petróleo e minérios são algumas das ameaças nos oceanos, que estão cada dia mais graves.

Temos a chance de mudar esse caminho que parece sem volta, JAMESPIZARRO! Precisamos proteger  nossos oceanos, essa expedição vai mostrar para governos e empresas que não estamos brincando quando o assunto é o planeta azul.


Helena Spitirus
Greenpeace Brasil | Fique ao nosso lado em 2019


terça-feira, 16 de abril de 2019

Comentando comentários: por que é importante qualificar o ambientalismo no debate político atual

por Samyra Crespo –
Lendo os comentários às minhas publicações na série sobre o Ambientalismo, vejo críticas (bem vindas) de três ordens: “biografias” incompletas ou injustas; pessoas/ atores, operadores que não são citados; saltos quânticos no tempo dos fatos e olhar reducionista sobre, por exemplo, os ecossocialistas.
Insisto, embora goste e até aprenda com as críticas: meu debate não é acadêmico nem tem a pretensão de recorrer todos os meandros de um movimento que é amplo, mundial e multifacetado.
Ao contrário, desejo questionar justamente o reducionismo ideológico-político a que o governo atual pretende nos aprisionar, enfraquecer nossos argumentos e coibir nossa ação.
E está enfraquecendo de fato. Basta ver os 100 dias do Sinistro do Meio Ambiente(não foi erro de digitação) e o desmonte em curso. E Abrolhos indo pro saco.
Conto uma história longa, e pouco conhecida, que não se restringe ao “modo petista de governar” nem pode caber no rótulo de marxista, esquerdista ou equivalentes.
Não estou desqualificando nenhum nem outro. Trabalhei no MMA no primeiro escalão, ao lado dos ministros Carlos Minc e Izabella Teixeira. Não sou petista e ter esse protagonismo deveu -se à minha trajetória profissional e ao fato de que a presidente Dilma optou por ter um ministério técnico.
Quanto ao marxismo: reconheço que os ecossocialistas existem desde os anos 60 e que estiveram em voga nos 70, aproveitando o clima de efervescência política pós 68. Nomes como René Dumont (que como Marina concorreu à Presidência na França), Serge Moscovici, e André Gorz bem como Morin ( muito influente junto às elites universitárias brasileiras) são alguns dos expoentes do pensamento desse grupo. Mas a importância que tiveram na França, ou em outros países da Europa – assim como os Verdes – não se reproduziu no Brasil.
Por uma razão bem simples: a Ditadura atrasou o aggiornamento de nossa esquerda democrática. As novas ideias corriam por lá e aqui, sob censura, nos virávamos como podíamos para sustentar uma frente democrática.
E porque nos anos 80 o papo político era outro: a globalização e seus supostos benefícios ou malefícios.
Para culminar essa mudança de ótica, as reuniões preparatórias à Rio 92 tentaram minimizar as diferenças ideológicas e criar um clima mais cooperativo a fim de fazer prosperar os acordos do clima e de floresta, em pauta na época.
O próprio Fórum das ONGs criado no Brasil, às vésperas da Rio 92 – espelha esse esforço de união.
Com a incorporação do ideário do Nosso Futuro Comum (1987) – relatório coordenado pela médica e ministra de meio ambiente da Noruega Gro Bruntdland – começou a vigorar o framework do Lifeboat. Trocando em miúdos a teoria do Lifeboat é a seguinte: seja você operário ou patrão, rico ou pobre, africano ou sueco, preto ou branco, judeu ou budista – se a Terra for pro buraco, vamos todos. Não adianta você ser rico e morar nos Jardins. Se o ar de São Paulo estiver envenenado você será uma vítima tanto quanto alguém da periferia.
Essa ideologia que iria ganhar terreno na Rio 92 enterrou qualquer tentativa de protagonismo dos ecossocialistas.
E o cientista politico brasileiro, Roberto Guimarães, burocrata da CEPAL, que coordenou o relatório brasileiro para a Conferência, alertava sobre a ideologia subjacente à ideia do desenvolvimento sustentável, explodindo o conceito de classe. Tive ocasião de entrevistá-lo na época e ouvir dele que a esquerda estava sendo naif.
Enfim, história.
Os ecossocialistas ganharam algum respiro na vigência plena do SOCIOAMBIENTALISMO (mandatos do Lula) tema ao qual retorno no próximo post.
Grata aos que comentaram meus textos. Como disse, aprendo muito com vocês.


Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo ” O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.
(#Envolverde)

O ambientalismo nos anos de chumbo

por  Samyra Crespo – 
Você pode odiar a Ditadura Militar (1964-1985) pelos seus excessos e por carregar apreço pela democracia no coração. Você também a execra porque teve parentes vitimados, ou foi pessoalmente afetado ou ainda porque leu os pungentes relatos fartamente divulgados pelas redes sociais. Não importa.
Mas saiba que o primeiro parque nacional do país foi criado em 1934 (regime getulista) e que foi sob o domínio dos militares que a primeira onda de criação de áreas protegidas ocorreu.
Eram os anos 70 – e estava em curso um projeto de integração física do país, com o maior projeto de estradas e rodovias já visto.
O objetivo maior era a integração da Amazônia, vista então como um “deserto geográfico do ponto de vista humano” (os índios obviamente não contavam). Temia-se que se permanecesse isolada poderia ser parcialmente anexada por vizinhos ou reclamada internacionalmente. Já não tinha havido uma tentativa de se criar um estado judeu na Amazônia? Sim, logo no pós Guerra quando Israel foi criado.
Além disso a teoria em voga na geopolítica da época era: nação poderosa é aquela que têm população e território grandes e soberanos. A Amazônia é nossa alimentou uma ideologia verde-oliva principalmente por parte de generais que serviram nas fronteiras.
Por isso a criação do primeiro órgão ambiental do Brasil, embrião do futuro Ministério, foi confiado a um civil “confiável”: cientista, católico praticante, rico e que tinha como missão identificar as áreas a serem protegidas e a representar nosso País nas conferências internacionais. Seu nome? Paulo Nogueira Neto, o “Dr. Paulo”, atuante até este ano quando morreu com quase 90 anos. Mas dele falaremos adiante em outro texto desta série.
Nestes mesmos anos 70 uma segunda contribuição à causa ambientalista foi dada pelos militares, desta feita involuntariamente.
Todos sabem que os jornais foram censurados. Havia um censor oficial em cada redação dizendo o que podia e o que não podia ser publicado.
O Estadão, seguido por outros jornais, começou então a dar espaço para os assuntos urbanos e ecológicos, dando visibilidade aos debates em torno da poluição do ar e a dos rios Pinheiros e Tietê, ao monstruoso processo de destruição da vida humana em Cubatão, polo industrial onde crianças nasciam sem cérebro. A discussão em torno de um aeroporto – Caucaia do Alto – que implicava em significativo desmatamento.
Neste caudal, membros da família dona do jornal O Estado de São Paulo tornaram-se ambientalistas. Meu colega na USP Rodrigo Lara Mesquita e seu irmão João Lara Mesquita. Tiveram papel importante no núcleo original da criação da SOS Mata Atlântica, primeira ONG de feição contemporânea de defesa de um bioma. João Lara Mesquita que dirigiu a Rádio Eldorado por anos também inaugurou a cobertura de rádio de questões ambientais.
Tive a ocasião de entrevistar três militares quando coordenei, junto com Pedro Leitão o primeiro survey brasileiro, ” o que o Brasileiro pensa da Ecologia” ((CNPq/MAST, 2991) – profundamente engajados na questão ambiental: Ibsen de Gusmão Câmara, Orlando Valverde e Henrique Brandão Cavalcante. Podemos dizer, sem medo de errar, que foram conservacionistas e que nas Forças Armadas contavam com simpatizantes.
Então a fila andou e a história da redemocratização do País, a partir de 1985 – trouxe um novo cenário de desenvolvimento do nosso ambientalismo. Tratarei disso também.
Mas que fique registrado aqui quão longe estão estas origens do marxismo militante. Nesta época, inclusive, nos hostilizavam. Situação que irá se modificar radicalmente nos anos 90. O marco decisivo dessa mudança será a Rio-92 com uma parada quase cardíaca no episódio da morte do Chico Mendes.
Chegaremos lá.
Obs. Este texto faz parte de um conjunto que venho publicando desde a semana passada, desconstruindo o estereótipo de que os ambientalistas são marxistas e participantes de uma conspiração global contra os interesses da sociedade brasileira, uma impostura ideológica do governo atual.
Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo ” O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.

Brasil e EUA pretendem criar fundo de US$100 milhões para desenvolvimento econômico na Amazônia

por Marcos Colón e Sandro Schütt – 
Uma carta de intenção entre o Ministério do Meio Ambiente e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), foi divulgada em 18 de março. Nela, os dois países afirmam ter colaborado para a preservação da Amazônia durante décadas e que “ambos os países compartilham a noção de que o engajamento e a parceria com o setor privado são pontos críticos para o desenvolvimento de um modelo de produção sustentável e voltado para o mercado na região da Amazônia”. Enfatizam que a falta de acesso ao crédito e financiamento impedem o empreendedorismo, o surgimento de cadeias de produção, inovação e start-ups na região. Para isso, pretendem criar um fundo de investimento com US$100 milhões provenientes do setor privado, que servirão para financiar empreendimentos que promovam a sustentabilidade, o crescimento econômico, a preservação das florestas e da biodiversidade, assim como o bem-estar de povos tradicionais.
Segundo o site da agência, sua presença no Brasil data de 1962, promovendo ações pela melhora da saúde, educação, segurança alimentar, saneamento básico, direitos das crianças e adolescentes, combate ao tráfico humano, desenvolvimento de micro empreendimentos e preservação do meio ambiente. O trabalho de maior destaque desenvolvido no Brasil pela USAID foi o auxílio à consolidação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), criada em 1972 para combater a fome no país. A agência afirma ter colaborado com o aumento de aptidões da EMBRAPA para o desenvolvimento de pesquisas.
A carta de intenção surge em um momento polêmico para a política ambiental brasileira – a demarcação de terras indígenas e quilombolas passou para o Ministério da Agricultura, em um claro desvio de competência; o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é acusado pelo Ministério Público de São Paulo de alterar ilegalmente o plano de manejo de uma área de proteção ambiental durante seu mandato como Secretário de Meio Ambiente do estado; as taxas de desmatamento e a degradação do meio ambiente na Amazônia têm batido recordes ano após ano. Vista a cadeia de fatos, é necessário compreender os motivos por trás dessa intenção de investimento na Amazônia Legal.
A USAID
USAID leva ajuda humanitária à Guatemala. Foto: divulgação.
Criada em 1961 durante o governo de John F. Kennedy, a USAID nasce do sucesso do plano Marshall, que consistia em dar suporte financeiro para que a Europa se reerguesse dos escombros após a Segunda Guerra Mundial. Operando nessa lógica, a agência diz captar verba do setor privado para levar ajuda humanitária e promover o desenvolvimento econômico e social de países alinhados aos Estados Unidos, criando mercados que possam absorver a produção americana e sociedades funcionais pautadas no capitalismo.
Classificada como uma agência não governamental, levou ajuda humanitária para diversas regiões ao redor do mundo, mais recentemente, aos conflitos no Oriente Médio.
Nos últimos 25 anos, esteve presente na América Central e Latina – dois casos muito polêmicos. Em 1996, durante o governo de Alberto Fujimori, no Peru, a USAID colaborou com as políticas de controle demográfico estabelecidas pelo estado. Proporcionou um fundo de US$40 milhões captados do setor privado para ONGs peruanas envolvidas no plano de emergência. Disfarçada de ação humanitária, ajudou essa política a esterilizar cerca de 300 mil mulheres – existem relatos de mulheres forçadas a fazer a operação. A USAID forneceu treinamento para médicos militares e civis para que estivessem aptos a executar as operações de vasectomia e laqueadura, além de suprir os materiais necessários.
O envolvimento com a campanha de esterilização de Fujimori foi negado e rebatido pela agência, classificando as acusações contidas no documento produzido pela investigação do Ministério da Saúde do país como “oficialmente descreditadas”. O relatório, porém, foi publicamente aceito e aprovado pela Comissão de Direitos Humanos do Congresso peruano.
Em 2009, a USAID esteve envolvida na criação de uma rede social semelhante ao Twitter voltada para Cuba. Segundo reportagem da Associated Press, a rede ZunZuneo tinha como objetivo influenciar seus usuários a organizar manifestações em oposição ao governo. O projeto executado na administração Obama durou cerca de dois anos e angariou dezenas de milhares de usuários, numa tentativa de contornar o rígido controle da internet feito pelo regime cubano. Primeiro, a rede levantaria público na ilha e depois incentivaria a dissidência – uma das estratégias usadas foi a suspeita aquisição de 500 mil números de celulares cubanos para compor as bases da rede social.
Os usuários do ZunZuneo, no entanto, não estavam cientes de que a rede estava vinculada ao Departamento de Estado Americano, e nem mesmo que “empreendedores” estavam coletando suas informações demográficas na esperança de um dia usá-las para fins políticos. É incerto se o projeto foi levado a cabo dentro das leis estadunidenses, que requer autorização presidencial por escrito de atividades sob cobertura e notificação ao congresso. Representantes da USAID se negaram a dizer de quem partiu a autorização e se a Casa Branca estava ciente da operação.

Amazônia internacional

Parauapebas, Pará (PA), 2017 – Complexo Carajás. Vista aérea da Mina N4E. Foto: Ricardo Teles
Em março, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, instituição internacional que tem como objetivo promover o pensamento crítico por meio de uma perspectiva emancipatória em prol das aspirações dos povo, publicou o dossiê Amazônia Brasileira: a pobreza do homem como resultado da riqueza da terra, onde expõe a atuação do setor privado na Amazônia e afirma que há um grande projeto para reeditar o papel da América Latina na geopolítica mundial como exportadora de matéria prima bruta, subordinada aos interesses de grandes centros industriais.
O documento aborda a questão em três tópicos: mineração, agricultura e biodiversidade. No quesito mineração, mostra que, de acordo com a receita líquida do ano de 2017, as maiores mineradoras no Brasil são: Vale (BR), HydroNorte (BR/HO), CBMM (BR), Magnesita (EUA), Anglo American (ING), Albras (BR/JP), Alcoa (EUA), Mineração Maracá (CAN), Kinross (HO/BR), Hydro Paragominas (NOR/AUS) e MRN (BR). As maiores exportações correspondem às commodities de ferro (44,4%), seguida pelo cobre (11,1%), que são vendidos em grande escala para China e Japão. A maior parte (78,3%) é vendida in natura, sem qualquer beneficiamento que possa agregar valor ao produto, sendo a Vale do Rio Doce responsável pela maior fatia das exportações no Norte do país (62%). A atuação da Vale reforça o papel do Brasil enquanto fornecedor de matéria prima, deixando para trás apenas barragens de rejeitos de minério, protagonistas das piores tragédias ambientais do país na atualidade.
O governo brasileiro tem tentado facilitar a ação dessas empresas nos últimos anos. Em 2017, o governo federal, através do Decreto 9.142, tentou extinguir a Reserva Nacional de Cobre e Associados (RENCA), criada durante o período da ditadura militar (1964-1985), para garantir a soberania brasileira sobre as reservas de minério na Amazônia. O documento do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social relata que a intenção de entregar os recursos naturais ao capital privado também ficou evidente por meio de diversas medidas para flexibilizar o licenciamento ambiental, autorizar mineração em terras indígenas e em áreas de fronteira. Em 2018, o decreto 9.142/2017, de Temer, foi revogado devido à grande repercussão internacional e pressão de movimentos ambientalistas e sociais, mantendo-se, de forma originária, o decreto que criou a reserva da Renca.
O agronegócio na Amazônia tem crescido em ritmo acelerado desde a década de 1970, segundo informações do dossiê. A produção de madeira na região amazônica, por exemplo, saltou de 3% em 1960 para 27% em 1990, resultado das políticas de industrialização do Norte durante a ditadura militar. Entre outros dados alarmantes, o documento aponta para a destruição de 50 mil km² do cerrado brasileiro na última década. Em 2011, a parcela de terra agrícola ocupada na Amazônia era de 9,5 milhões de hectares, sendo 68% destinado ao cultivo de soja. Em 2016 havia mais de 85 milhões de cabeças de boi, três para cada habitante da Amazônia brasileira. Por outro lado, existem cerca 100 milhões hectares protegidos em Unidades de Conservação e 110 milhões de hectares demarcados ou em processo de identificação como território indígena – locais onde os índices de desmatamento giram em torno de 2%.
As multinacionais Cargill, Bunge, ADM, entre outras, são os grandes monopólios presentes no setor de exportação, o que faz da região uma grande importadora de alimentos, já que toda produção de soja e da pecuária é voltada para fora. O dossiê também relata que, dos 350 milhões de hectares destinados ao agronegócio no Brasil, as lavouras ocupam 64 milhões de hectares, enquanto a pecuária corresponde a 159 milhões de hectares, dos quais 50 milhões são pastagens degradadas, altamente improdutivas.
Em contrapartida, parcerias como o Fundo Amazônia, firmada durante a 12ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-12), em 2006, tem apresentado bons resultados. O Fundo Amazônia capta recursos de países desenvolvidos – atualmente, Noruega e Alemanha – para projetos de prevenção, monitoramento, combate ao desmatamento e promoção da conservação e uso sustentável no bioma amazônico. Criado em 2008 a partir do Decreto Nº 6.527, contribui para o alcance das metas do Plano Nacional sobre Mudanças do Clima, com foco principal em reduzir o desmatamento em 42% até 2020, capta recursos através do BNDES, que também é responsável por gerir os investimentos. As doações são voluntárias e podem ser feitas por qualquer empresa, instituição multilateral, organização não-governamental e governos. Ao receber uma doação o BNDES emite diplomas nominais e intransferíveis, reconhecendo a contribuição dos doadores.
Segundo o site do Fundo Amazônia, desde sua consolidação houve uma redução de 11% na taxa de desmatamento da Amazônia no período de 2009-2017, em paralelo a uma redução de 17% da área desmatada. Em outras áreas, afirma ter contribuído para uma maior participação da Amazônia no PIB brasileiro (2009-2015); aumento de 19% no volume produzido e 18% da receita gerada pelo conjunto dos produtos do extrativismo monitorados (2009-2016); aumento de 90% na área de Unidades de Conservação federais e Terras Indígenas com instrumento de gestão territorial entre 2009 e 2017; e piora do indicador que monitora o desmatamento em áreas protegidas entre 2009 e 2016 (incremento de 12% da taxa anual de desmatamento), devido ao substancial aumento do desmatamento em unidades de conservação estaduais.
Diferente do Fundo Amazônia, que tem como principal objetivo a conservação do meio ambiente na região amazônica, a carta de intenção firmada entre o Ministério do Meio Ambiente brasileiro e a USAID pretende investir no desenvolvimento econômico da região como alternativa ao desmatamento e à degradação dos biomas. Mas tendo em vista atuação da USAID nos dois casos mencionados e a ação do capital estrangeiro na Amazônia, cabem questões e monitoramento sobre as implicações desse possível investimento de US$100 milhões para a Amazônia – como será gerido, quem serão os investidores e como será integrado à região em paralelo aos projetos já existentes?
Você pode conferir a  carta em inglês clicando aqui.
A ilustração em destaque retrata a visita do governo Bolsonaro à Washington, onde firmaram diversas parcerias comerciais. A arte é de Sandro Schutt, editor e ilustrador da casa.

Quem são os inimigos dos ambientalistas

por Samyra Crespo – 
Mia Couto filósofo e escritor moçambicano, diz que em vez de produzir riquezas, estamos produzindo ricos
Posso afirmar sem medo de errar que os ambientalistas, em sua maioria, acreditam na possibilidade de reformar o capitalismo, dando a ele uma feição inteligente (mais eficaz nas suas promessas de prosperidade) e mais ecológica. Os teóricos chamam a essa tendência majoritária hoje, cujos operadores são os sustentabilistas, de “A modernização ecológica do capitalismo”. Assim, longe de ser revolucionário este movimento vem abraçando o reformismo como ideologia politico-econômica.
Este veio de crenças e sua diligente tradução em práticas de “negócios sustentáveis” se configurou nas primeiras duas décadas deste século, ainda em curso. O mote principal dos sustentabilistas é mainstreamming the ecology(colocar a ecologia no coração da economia capitalista).
Portanto não venham com esse papo de que somos marxistas e anticapitalistas ferrenhos. Há os que discordam do status-quo. São antes anti-establishment. E representam hoje grupos minoritários.
Vamos aprofundar isto. E vou precisar de dois posts para o mesmo assunto. Um texto muito grande ninguém lê e aqui é um embate público, não acadêmico.
Quando eu estava na faculdade um professor que estudara a formação da classe industrial paulista e a formação das novas fortunas originadas na commodity da época – o café – se espantava com os alunos da pós graduação que só tinham apetite para falar dos movimentos sociais, dos pobres e oprimidos. Inclusive eu que naquele momento desenvolvia meu mestrado estudando os integristas católicos envolvidos no Golpe de 64.
Vocês devem estudar os ricos, o poder econômico por eles constituído pois a opressão e a pobreza estão aí como resultado, dizia nosso professor de estudos agrários.
Essas reminiscências me vêm à mente quando vejo diariamente as cotações do dólar dar taquicardia e os colunistas políticos e econômicos se referirem ao Deus MERCADO. O mercado pensa assim, o mercado pensa assado.
Olho para o voo solo e torpedeado de Thomas Piketty, o economista francês – que se utilizando de base de dados sistemáticas e séries históricas, longitudinais, nos mostrou didaticamente como ao longo de séculos – e mesmo enfrentando grandes guerras, as fortunas se mantém nas mãos de algumas poucas famílias. Também explica como a ciranda financeira torna novas pessoas tidas como empreendedores exemplares, tipo Bill Gates e Slim o magnata mexicano muito, muito ricas.
Ao final do século XX vimos dois fenômenos intimamente ligados ocorrer: a expansão do capitalismo (territorial e culturalmente falando) e a concentração brutal da riqueza. Como substrato, massa de pobres e mesmo bolsões de miséria em países tidos como desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos.
Pena, diz Mia Couto filósofo e escritor moçambicano, que em vez de riqueza estamos produzindo ricos, riqueza esta que só é distribuída com escândalo. Basta ver os debates em torno da “renda minima”, não só no Brasil. Faz-se brutais mudanças tecnológicas que destroem milhões de empregos e mesmo as migalhas que serão distribuídas aos que “sobram” desta transição são alvo de controvérsia.
A pergunta que não quer calar é: de onde vêm as fortunas do Brasil?
Respondo que se você quer saber quem são os inimigos dos ambientalistas, siga o dinheiro. Para abrir o apetite para o próximo post, eu adianto:
A riqueza no Brasil tem base fundiária, rentista e imobiliária. Extração de madeira, mineração e comércio do solo urbano. O industrialismo sempre contou com proteção de mercado e as commodities com largos subsídios. O avanço sobre terras públicas, o desmatamento, as Serras Peladas, o avanço do boi e da soja. Sacaram?
Volto com mais detalhes.
Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo ” O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.