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quarta-feira, 1 de março de 2023

Comércio do ouro Yanomami explodiu sob Bolsonaro

Por Amazônia Real – O comércio do ouro prosperou tanto em Roraima que foram abertas sete novas fábricas de joalheria e ourivesaria para cada 100 mil habitantes nos últimos quatro anos. Foram 44 novas fábricas criadas no estado desde 2019. Em São Paulo, o estado mais populoso do Brasil e de renda per capita 75% maior, foi aberta uma única empresa do gênero para cada 300 mil paulistas no mesmo período. A população de Roraima é de 643.805, segundo prévia do Censo do IBGE de 2022. A atividade de compra e venda de joias também explodiu. Em 2019, foram abertas 200 lojas, grande parte na capital Boa Vista. Em 2020, foram 297; em 2021, 398; e em 2022, 376. Ou seja, nos últimos quatro anos, foram criados 1.315 novos negócios (incluindo fábricas e comércio varejista), a maioria esquentando ouro extraído ilegalmente das terras indígenas. Já não há mais uma “rua do Ouro” em Boa Vista, mas várias delas. Nos últimos anos, elas se espalharam para outros pontos comerciais além da região do entorno do monumento aos garimpeiros na Praça do Centro Cívico. A venda do metal precioso se expande velozmente para a zona oeste. Na avenida do comércio para os bairros periféricos, curiosamente chamada de General Ataíde Teive, há dezenas de joalherias. Em alguns pontos, desta que é a maior via de Boa Vista (11,29 quilômetros de extensão), as lojas ficam coladas umas nas outras. No centro, são 38 comércios do ouro. Os dados foram obtidos pela Amazônia Real em consulta à Junta Comercial do Estado de Roraima. Eles mostram que o número de empresas voltadas para o comércio do ouro nos últimos quatro anos, período em que Jair Bolsonaro (PL) era presidente do Brasil e Antonio Denarium (PP), seu fiel escudeiro como governador em primeiro mandato, expandiu. Foi nesse período que o garimpeiro Francisco Oliveira, de 43 anos, decidiu montar a própria joalheria e ourivesaria na avenida Ataíde Teive, no bairro Alvorada, zona oeste de Boa Vista. De fora, a loja tem uma estrutura que chama a atenção pela ostentação. Na fachada, é exibida a foto de uma modelo que tampa a boca com os dedos cheios de joias. Nos textos da Joalheria Imperial, são informados os tipos de peças fabricadas e que se compra e vende ouro. A porta da Joalheria Imperial fica sempre fechada na chave. Para entrar é necessário apertar a campainha. Um jovem, que faz o papel de segurança, abre o local e pede para esperar em um sofá. Por dentro, o cheiro de produtos químicos incomoda. Na vitrine ao lado, ficam expostas joias, algumas sem preço, contendo apenas um número de referência. O rapaz que abriu as portas, discreto e sem uniforme, entra para o escritório onde acompanha o patrão enquanto ele negocia com outros homens que já estavam no local. Na sala de Francisco Oliveira, é possível observar tudo que acontece dentro e fora da loja por meio de câmeras de segurança. A três passos da mesa onde ele normalmente despacha com os garimpeiros, há uma fornalha com materiais, equipamentos e produtos para desmanche e fabricação de joias. Para o nordestino do Maranhão, não há ilegalidade na sua atividade comercial. Oliveira culpa o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e demonstra preocupação com o negócio. Devido às operações da Polícia Federal (PF), afirma que o movimento caiu cerca de 20%. A Joalheria Imperial movimenta cerca de 50 mil reais brutos por mês. “Agora que começou né [as operações]. Aí eu acho que vai começar mesmo a crise daqui uns 15 dias, talvez”, disse o comerciante, complementando que vai faltar ouro e o produto, ficar mais caro. “Tem que reunir todo mundo e buscar uma saída”, concluiu. Francisco Oliveira não demonstrou preocupação com os Yanomami. Para ele, o atual “governo faz só politicagem” com a situação indígena. Ouro do sangue Yanomami Lanchas tipo voadeiras usadas por garimpeiros sendo transportadas na Rua do Ouro em Boa Vista (Foto: Felipe Medeiros/Amazônia Real) Nas outras ruas e avenidas do ouro, aumenta a sensação de carência do minério a cada dia que passa desde que foi deflagrada a operação federal na TIY. Na quarta-feira (15), um homem estacionou o carro em frente às joelheiras e ourives localizadas no Centro de Boa Vista. Foi difícil achar uma vaga para o veículo que guinchava uma embarcação maior que o veículo, com motor de potência 25 HPs. A reportagem acompanhou esse homem que desceu do veículo e foi a uma das lojas. Ele tentava vender uma pepita de ouro e agiu de forma discreta. Segurava a pedra sem deixar que outros clientes e funcionários pudessem ver o que tinha em suas mãos, mostrava aos donos e rapidamente a escondia com os dedos. Os empresários do ouro de sangue Yanomami, como já denunciado na série publicada pela Amazônia Real em parceria com a Repórter Brasil, transitam livremente entre as lojas fechando negócios com outros homens e mulheres. Nas portas, ficam funcionários convidando potenciais vendedores de ouro in natura. “Quer vender ouro? Eu compro ouro. Tem pra vender aí?”, perguntou um deles. O momento atual parece ser o de evitar o prejuízo, e a ação mais visível nos últimos dias tem sido a dos donos de joalherias. São eles que praticamente fixam o preço do ouro no comércio local. Na última quarta-feira (15), o grama do metal precioso custava cerca de 310 reais, mas nas ruas do ouro do Centro ofereciam a 175 reais para os vendedores. O valor do ouro, 310 reais o grama, atrai diversas camadas da sociedade de Roraima. São empresários, políticos, fazendeiros, traficantes e servidores públicos que mantêm uma mão de obra de trabalhadores explorados, os garimpeiros. Existem lojas e ruas do ouro em abundância em Boa Vista, porque eles são apenas uma das pontas de uma cadeia que envolve um esquema onde quem mais lucra são empresas com faturamentos milionários e sede em bairros nobres da capital paulista. Para que tudo funcione corretamente, o bilionário negócio do ouro no Brasil inclui as chamadas DTVMs (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), empresas do sistema financeiro autorizadas a comprar o metal no Brasil e são pouco fiscalizadas. Esse é um dos motivos que fazem com que, entre 2019 e 2020, mais de 4 toneladas de ouro ilegal de várias terras indígenas da Amazônia, segundo o Ministério Público Federal (MPF). Comércio escancarado Comércio ligado ao garimpo na Avenida Ataíde Teive, zona oeste de Boa Vista (Foto: Felipe Medeiros/Amazônia Real) O comércio do ouro extraído ilegalmente da Terra Indígena Yanomami (TIY) ocorre de forma escancarada em Roraima. Em Boa Vista, é visível a expansão de empresas que vendem os chamados “carotes”. Os objetos são utilizados para transporte de combustíveis, oficinas de embarcações, manutenção e venda de motores de barcos, distribuidoras de bebidas e alimentos, lojas de materiais de construção com itens usados no garimpo expostos nas calçadas, além das joalherias e ourivesarias. “Existe um discurso que naturaliza a atividade do garimpo, criada desde a época da ocupação e desenvolvimento da região Norte com os governos militares. Na verdade, a atividade de garimpo em Roraima se inicia na década de 1930. E esse discurso de que o garimpo é a cultura local, porque tem monumentos que simbolizam garimpo, é [vista] como uma coisa natural”, explicou o antropólogo Lauro Prestes, especializado em educação indígena e que já esteve à frente de formação de agentes de saúde que atuam na Terra Indígena Yanomami. Mas ele alerta: nunca foi natural, mas uma construção intencional para forjar uma nova realidade. “Um discurso como esse não se mantém por muito tempo se ele não for rentável, se ele não beneficiar um grupo. E no caso do problema do garimpo em Roraima está muito ligado a questões políticas.” Em Boa Vista, impera a lei do silêncio. Até mesmo a PF jamais prendeu um político ou empresário do estado. Esta semana a Justiça Federal negou pela sexta vez, a prisão do empresário Rodrigo Martins de Mello, vulgo Rodrigo Cataratas, de 46 anos. Ele é investigado por dar apoio à exploração ilegal de ouro na TIY. Na tentativa de abrir ainda mais as portas do garimpo ilegal, ele se candidatou ao cargo de deputado federal nas últimas eleições e, segundo fontes ouvidas pela reportagem, ele tem uma relação próxima com Disney Mesquita, ex-secretário da Casa Civil no primeiro mandato de Denarium, de quem também ele é amigo. Políticos pró-garimpo Antônio Denarium chega à Basse Aérea de Boa Vista para reunião com os representantes garimpeiros e da FAB (Foto: Felipe Medeiros/Amazônia Real) “Essa cultura garimpeira e essa valorização da cultura do Eldorado estão muito ligadas à forma como a classe política roraimense se utiliza do garimpo para perpetuar os seus privilégios. A grande questão é quando se vai fazer uma análise do garimpo, porque outras atividades rentáveis que preservam o meio ambiente, como o turismo, não estão no discurso político. Quando se fala de desenvolvimento do estado, o que se levanta é a bandeira do garimpo”, criticou Prestes. Horas antes da operação da PF que mirava na irmã do governador e o sobrinho dele, ambos investigados, Denarium se reuniu às escondidas com garimpeiros. Foi na sexta-feira (10), e a Amazônia Real foi a única equipe jornalística que soube do encontro e divulgou com exclusividade. Denarium nunca negou sua relação com a classe de garimpeiros e mineradores. Na sexta-feira (17), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) vieram a público condenar a escolha do senador Chico Rodrigues (PSB) como presidente da Comissão Temporária externa criada para acompanhar a situação na TIY. Não se sabe se por provocação, conivência, espírito de corpo ou ignorância, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), aceitou a indicação de Chico Rodrigues, e ainda incluiu os colegas Hiran Gonçalves (PP) e o senador Mecias de Jesus (Republicanos). Eles e Denarium formam a tropa de choque pró-garimpo. Chico Rodrigues era o dono do avião que circulava no garimpo ilegal da TIY e em 2020 foi flagrado pela PF com 33 mil reais na cueca. Na visão dele, em entrevista à Globonews, o povo Yanomami é “a “última etnia do planeta no século 21 que ainda é primitiva, totalmente primitiva”. Já Mecias de Jesus se tornou peça-chave do bolsonarismo em Roraima: partiu dele as indicações para a coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena, que deveria cuidar da saúde dos Yanomami e Ye’kuana. O garimpo é tão comum para a população roraimense que, faltando apenas um dia para o início da megaoperação para começar a pôr fim à exploração ilegal, o comércio do ouro não parou em Boa Vista. Estiveram na cidade no dia 8 de fevereiro, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, e os três comandantes das Forças Armadas: general Tomás de Paiva (Exército); brigadeiro Marcelo Damasceno (Aeronáutica); e o almirante Marcos Sampaio Olsen (Marinha). As “ruas do ouro” funcionaram normalmente durante toda a estadia da comitiva interministerial em Roraima. “Vão fechar o garimpo?” Nos últimos dias, a Amazônia Real tem visitado joalherias em Boa Vista. Elas possuem um forte esquema de proteção, com um, ou até dois, homens disfarçados e sistema de monitoramento por câmeras. Em uma das lojas, uma atendente informou que eles recebem muitas encomendas diariamente e algumas vezes ficam sem o ouro. Quando isso acontece, precisam aguardar que os garimpeiros tragam a matéria-prima para a fabricação das jóias, o que, segundo ela, não demora mais que cinco dias para ser restabelecido o comércio do ouro. Um empresário do ramo de bebidas, na zona oeste de Boa Vista, diz estar preocupado com o fim do garimpo, que girava a economia local. “Será que vão fechar o garimpo? Eu vendo muito aqui para os garimpeiros, tem semanas que eu vendo 200, 300 mil”, disse. O antropólogo Lauro Prestes propõe uma autoanálise: “Até que ponto “nós [sociedade que vive em Roraima] estamos com as mãos sujas do sangue Yanomami? Dizer que o indígena é um entrave da sociedade roraimense, que o indígena atrapalha o desenvolvimento do estado, é um discurso que possibilita e evidencia essa situação que vivenciamos com a crise humanitária dos Yanomami”, analisou. As lideranças indígenas já haviam se manifestado antes mesmo da visita do presidente Lula (PT) a Roraima. O que houve segundo a HAY foi uma estratégia do governo Bolsonaro para enfraquecer a saúde dos indígenas, desmantelando a rede de saúde pública e a fiscalização, facilitando e estimulando o ingresso de não-indígenas nos territórios, levando mais doenças para dentro das aldeias. “O governo passado [do Bolsonaro] sequer nos atendeu em Brasília. Então, essa é uma situação que está acontecendo e nós já avisamos há muito tempo. Nós fizemos o nosso trabalho de documentar, fizemos relatório, as mortes estavam crescendo em 2019”, disse Dário Kopenawa, vice-presidente da HAY, que estava presente com seu pai Davi Kopenawa, em uma entrevista exclusiva para Amazônia Real em janeiro. Nos diálogos travados com os responsáveis pelos atendimentos e os próprios donos das lojas do comércio do ouro, o repórter da Amazônia Real, que nem sempre se identificou como jornalista, não ouviu em momento algum uma frase de solidariedade ao drama enfrentado pelos Yanomami. Dário Yanomami, vice-presidente da Associação Hutukara (Foto: Felipe Medeiros/Amazônia Real) Crédito da imagem destacada: Nos últimos quatro anos, Roraima registrou a abertura de 44 fábricas de artefatos de joalheria e ourivesarias e acumulou mais de 1.200 negócios de compra e venda do metal precioso, boa parte extraído da TI Yanomami (Foto: Pixabay). #Envolverde

Fragmentação da Amazônia prejudica interações entre espécies

Por Fauna News – Fragmentos florestais provocados pela ação humana na Amazônia não conseguem manter as mesmas interações ecológicas das áreas de vegetação contínua. Ou seja, a biodiversidade dessas áreas isoladas não funciona da mesma maneira como uma floresta contínua. É o que mostra estudo publicado nesta quarta-feira (28) no periódico Current Biology, com a participação de pesquisadores das universidades estaduais de Campinas e de Santa Cruz, com outros pesquisadores brasileiros em instituições dos Estados Unidos e do Reino Unido. Os resultados são de uma análise da biodiversidade presente nas ilhas formadas pela inundação do reservatório da Usina Hidrelétrica Balbina, localizada em Presidente Figueiredo, no Amazonas. O estudo reanalisa um conjunto de dados obtidos pela pesquisadora Maíra Benchimol em 2012. Ela utilizou armadilhas fotográficas e percorreu trilhas dentro de 37 ilhas com remanescentes de floresta amazônica a fim de entender quais espécies ocorreram em cada local e o número de indivíduos. Assim, os autores do artigo combinaram os dados empíricos com modelos matemáticos para gerar as possíveis redes de interação entre predadores e suas presas. “Balbina é uma hidrelétrica da década de 80. A construção foi marcada por controvérsias devido ao seu impacto social e ambiental: uma área gigantesca foi inundada. A área de mata contínua foi fragmentada pela água. Assim, surgiram ilhas artificiais”, detalha o pesquisador Mathias Pires, um dos autores. Ele informa que algumas espécies foram extintas pela falta de indivíduos suficientes nessas ilhas. Dessa forma, as interações vão sendo perdidas à medida em que a área de hábitat diminui, e a rede de interações perde suas características. O estudo analisou as consequências da criação de ilhas artificiais, mas a fragmentação da Amazônia também ocorre por outras formas, como pelo avanço descontrolado da agricultura e das pastagens. A coleção de pequenos fragmentos provocados pelo isolamento territorial dificulta a funcionalidade ecológica. “Pequenas ilhas não conseguem manter, por exemplo, a função dos predadores que controlam as populações de presas”, explica Pires. Consequências para a biodiversidade As consequências para a biodiversidade são inúmeras, conforme prevê o cientista: nos locais em que os predadores não atuam muito, algumas espécies podem apresentar um aumento descontrolado em sua abundância. E esse excesso implica mudanças na vegetação. Por exemplo, as cutias favorecem algumas plantas por dispersarem suas sementes, mas podem prejudicar outras quando estão em alta densidade alterando a vegetação. Além disso, “os predadores como onças e jaguatiricas podem nadar e visitar algumas ilhas apenas para comer, assim reduzindo as populações de presas em alguns locais a níveis muito baixos”. Os autores esperam que a divulgação do estudo mostre a importância das políticas públicas para evitar a fragmentação da Amazônia. Para Pires, as medidas precisam ir além de garantir a existência das espécies, ou seja, é necessário preservar áreas maiores de florestas que permitam um número de indivíduos suficiente para manter as interações e funções ecológicas. #Envolverde

De cada 10 brasileiros que perderam renda na pandemia, 6 ainda não recuperaram os ganhos

Pesquisa C6 Bank/Ipec mostra ainda que dificuldade para recuperar a renda é maior entre os mais velhos A maior parte (62%) dos brasileiros das classes ABC com acesso à internet que perdeu renda durante a pandemia da Covid-19 ainda não conseguiu recuperá-la, segundo pesquisa C6 Bank/Ipec. O levantamento também mostra que 30% reconquistaram os ganhos que costumavam ter e 8% não souberam avaliar. A dificuldade em recuperar a renda perdida é mais comum entre os brasileiros mais velhos. Entre os que têm mais de 60 anos, 77% relatam que não conseguiram retomar o nível de ganhos. O percentual é de 69% na faixa etária de 45 a 59 anos e de 64% entre os que têm de 35 a 44 anos. A economista do C6 Bank Claudia Moreno explica que o forte recuo da atividade econômica durante a crise sanitária e o aumento da inflação afetaram diretamente o rendimento médio do brasileiro entre 2020 e 2021. “Houve uma recuperação no ano passado, mas a renda média em termos reais – descontando a inflação – ainda não conseguiu retomar o patamar pré-pandemia”, afirma. “Como a taxa de desemprego diminuiu, vimos a massa salarial da população crescer, mas a fatia que vai para cada um segue menor do que antes porque a geração de emprego se deu com salários mais baixos.” Durante a pandemia, a perda de renda atingiu quase metade da população (43%) das classes ABC com acesso à internet. Outros 40% mantiveram os ganhos e 6% tiveram aumento de rendimento. Por outro lado, 11% não tinham renda nem antes nem durante esse período. A pesquisa foi feita com 2000 brasileiros entre os dias 7 e 16 de fevereiro, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. #Envolverde

Adaptação climática no Brasil: sobram leis, falta implementação

Por ClimaInfo – A adaptação climática é uma pauta que precisa avançar no Brasil. Isso é claro e, depois dos desastres naturais dos últimos anos, tem que estar na ordem do dia dos governos. O problema é que o país já conta atualmente com centenas de leis e normas relativas ao tema climático. O que falta é implementação. Um levantamento divulgado por O Globo apontou que o Brasil conta hoje com 234 determinações legais sobre clima, entre leis, decretos, normas e portarias, distribuídos nos três níveis do poder público – municípios, estados e União. Apesar disso, a maior parte dessas regras segue no papel, sem aplicação prática por parte dos governos. “Há bons planos para proteger as encostas e preveni-las de chuvas fortes. Mas quando chegam ao Executivo, muitas vezes, falta orçamento. Até onde sabemos, não há rubrica [orçamentária] específica para mudanças climáticas em nenhum estado”, afirmou Ully Sant’Anna, da entidade Clima de Eleição, responsável pelo mapeamento. A falta de implementação dessas leis e normas se reflete na continuidade da ocupação de áreas de risco por populações mais pobres, desassistidas pelo poder público. No Fantástico (TV Globo), Marcelo Canellas mostrou como a ocupação urbana sem planejamento no litoral norte de São Paulo contribuiu para o desastre causado pelas fortes chuvas da semana passada. Ainda sobre as chuvas em SP, o Estadão explicou como a intensidade anormal do temporal “liquefez” o solo no topo dos morros, causando verdadeiras ondas de lama que destruíram tudo o que estava pela frente. Na Vila do Sahy (São Sebastião), área que concentrou a maior parte das mais de 60 mortes confirmadas, a lama acumulada nas ruas ultrapassou um metro de altura. O Estadão também abordou como funcionam os sistemas de alerta para desastres naturais em outras áreas de risco no Brasil e no mundo. Um instrumento que vem sendo destacado é o sistema de alerta sonoro por sirene, que não existe no litoral norte de SP e poderia ter salvado vidas. Ainda assim, especialistas ressaltaram a importância de medidas complementares, como planos de contingências, com rotas de fuga seguras e locais de abrigo, além de treinamentos regulares. Em tempo: Vale a pena conferir a reportagem do Fantástico que explica como a mudança do clima está afetando a ocorrência de eventos extremos, como as chuvas que castigaram o litoral norte paulista na semana passada. *Crédito da imagem destacada: Poder 360 #Envolverde

Preparar cidades para eventos climáticos extremos é possível e há exemplos no Brasil

Por Nara Lacerda para o Brasil de Fato – Soluções tecnológicas, sociais e ambientais já são aplicadas em diversos países e podem diminuir chances de catástrofes Com milhares de pessoas desabrigadas e mais de 60 óbitos, a tragédia que atingiu o litoral norte de São Paulo com a chuva já é um marco cruel na história da região, mas levanta um debate que precisa ser nacional. Os eventos climáticos de grande proporção estão ocorrendo com cada vez mais frequência e o preparo das cidades brasileiras para essas situações ainda é muito precário. Exemplos de que é possível fazer diferente são aplicados em diversos países do mundo, a maior parte em nações com maior poder econômico. Mas há iniciativas também no chamado sul global, algumas delas inclusive no Brasil. Para que possam ser implementadas e replicadas, no entanto, elas esbarram em três obstáculos muito presentes em território nacional: vontade política, desigualdade e ações ambientais, urbanas e sociais alinhadas. Em São Paulo, a chuva trouxe consequências enormes principalmente para as famílias mais pobres. Cenário que se repetiu no ano passado nas chuvas em Petrópolis (RJ), nos temporais que assolaram a Bahia em 2021 e, historicamente, nos eventos climáticos que atingem o país. Para mudar o cenário é preciso agir em frentes de preparação e resposta, mas também reavaliar a ocupação do solo e a configuração das cidades. O secretário executivo da Organização ICLEI, Rodrigo Perpétuo, afirma que o caminho passa por uma política de habitação nacional, formalização e urbanização de áreas periféricas e reconciliação das cidades com a natureza. “Grande parte da população que está exposta à vulnerabilidade e ao risco climático é uma população que habita áreas informais e de risco, não porque queira, mas porque a dinâmica socioespacial e socioeconômica Brasileira de ocupação das grandes e médias cidades fez com que essas pessoas tivessem que morar ali.” O que fazer? Diminuir a ocorrência de tragédias na prática exige um esforço que começa nos planejamentos das cidades e em como cada região é ocupada. É preciso atenção especial ao crescimento urbano em áreas de risco, como encostas e morros e dar condições para que famílias com menor poder econômico habitem lugares seguros. Entender os riscos e identificar cenários que possam causar potenciais danos são ações essenciais, com mapeamento das vulnerabilidades físicas e sociais e que leve em consideração os tipos de solo, vegetação, construção e localização geográfica. A Coordenadora de Resiliência e Baixo Carbono da organização ICLEI, Keila Ferreira, ressalta que a importância de um sistema de defesa civil que dialogue com as políticas para o meio ambiente e de desenvolvimento urbano. “O ponto de partida é entender o risco. Identificar esse cenário de risco. Qual é a probabilidade? Qual é o potencial? A partir dessa identificação de cenários, fazer uma análise de risco e vulnerabilidade climática. Outra coisa a ser feita é um plano local de ações climáticas. Isso é uma forma também de mitigar a ocorrência de eventos extremos.” No planejamento dos municípios, a natureza precisa ser levada cada vez mais em consideração. “É pensar a cidade com planejamento estratégico, desenvolvimento sustentável. De que forma está se lidando com a questão das unidades de conservação, os jardins filtrantes. É preciso diminuir essa impermeabilização das cidades”, alerta ela. O modelo de gestão da defesa civil, segundo a especialista, precisa ser sistêmico, participativo, proporcionar controle urbano e dialogar com a política habitacional. “Vemos que existe um descompasso muito grande entre a política de proteção e defesa civil e o sistema habitacional de interesse social. Esse sistema habitacional de interesse social precisa chegar junto, assim como o desenvolvimento social, segurança alimentar. Tudo se comunica. Esse plano de proteção trabalha com os cinco eixos da defesa civil, a prevenção, preparação, mitigação, resposta e recuperação.” Keila Ferreira afirma ainda que pensar de forma preventiva é essencial, mas destaca que a resposta à tragédia também exige detalhamento. Se o preparo não foi suficiente para evitar perdas, a reação deve prever cada etapa da assistência que as famílias vão receber. “Esse plano de contingência tem que ter contido nele quem são os responsáveis por cada problema que ocorra na cidade, quem vai aportar através é recurso financeiro, quem vai cuidar dos abrigos. Tudo isso tem que estar desenhado nesse plano.” Exemplos a serem seguidos O crescimento das ocorrências de eventos climáticos extremos tem obrigado países a repensar as articulações de defesa civil. No Japão, uma das nações mais preparadas do mundo para evitar desastres, as políticas de proteção foram melhoradas ainda mais nas últimas décadas. Em 2013, após a implementação de um sistema de alertas por mensagens SMS e evacuação antecipada, a região de Tóquio teve condições de proteger milhares de vidas durante a passagem de um tufão. Historicamente, o Japão viveu grandes tragédias naturais e chegou a perder milhares de vidas em eventos climáticos violentos. Atualmente, o país é visto como o melhor do mundo em respostas a situações dessa natureza. Mas, com as ocorrências cada vez mais frequentes, ainda perde vidas e dinheiro com a destruição. A nação encara também um debate público sobre a necessidade de destinar mais verbas para a prevenção. Atualmente mais de 90% do investimento é direcionado para reconstrução. A cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos também direcionou o olhar para o tema após perdas históricas. Em 2005, o município teve 80% de sua área inundada na passagem do furacão Katrina. Mais de 1.800 pessoas morreram e milhares ficaram desabrigadas. A tempestade causou danos materiais estimados em mais de US$ 100 bilhões (mais de R$ 550 bilhões). A população negra e periférica foi a mais atingida e famílias lutam para se recuperar até hoje. A economia da cidade, que tem grande participação do turismo e da produção de petróleo, ainda sofre as consequências do desastre. Mas o Katrina também impulsionou uma série de ações que fizeram com que Nova Orleans conseguisse enfrentar melhor eventos climáticos em anos posteriores. Em 2015 um projeto de infraestrutura iniciou investimentos de US$ 14,5 bilhões na construção de paredes contra inundações, reforço dos diques e fundações e instalação de estações de bombeamento para drenar água durante tempestades. Ações de recuperação dos pântanos do Golfo do México também foram colocadas em prática. Essas áreas atuam como amortecedoras naturais de grandes volumes de água. Com um custo total de US$ 50 bilhões, a iniciativa foi financiada pelo governo do estado de Louisiana e teve aporte de US$ 6,8 bilhões pagos pela empresa de petróleo britânica BP. A companhia foi responsável por um vazamento de óleo na região em 2010. Rodrigo Perpétuo cita exemplos do Brasil e na América Latina, que podem ser potencializados e replicados. Com objetivo de minimizar os riscos de enchentes, deslizamentos e outras ocorrências extremas, essas cidades têm investido em projetos de urbanização, recuperação de áreas degradadas e valorização dos serviços ecossistêmicos. Em Belo Horizonte, o programa Vila Viva, iniciado há quase vinte anos, deu origem PAC das Favelas, uma versão do Programa de Aceleração do Crescimento implementado durante os primeiros mandatos do presidente Lula. Com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas que habitavam áreas de risco, o programa urbanizou becos, abriu avenidas e tratou áreas de encosta, integrando a cidade e devolvendo segurança habitacional a áreas antes informais. Já em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, os jardins filtrantes do Parque Orla Piratininga são um exemplo de reconciliação do ambiente urbano com a natureza. As áreas verdes são projetadas para tratar e filtrar água da chuva antes que ela atinja rios, córregos ou oceanos. Compostos por diferentes camadas de solo e plantas que absorvem a água e removem poluentes, como sedimentos, óleos e metais pesados, os jardins filtrantes ajudam a reduzir a poluição da água e prevenir enchentes. Essa solução é capaz de reter e infiltrar grandes quantidades de água, evitando alagamentos e deslizamentos de terra, o que contribui para a prevenção de desastres naturais. Barranquilla, na Colômbia, por sua vez, iniciou um programa em parceria com o banco de desenvolvimento da América Latina, o Cassi. A cidade tem aumentado as áreas de designação para proteção, como parques urbanos e parques lineares, favorecendo cursos de água e valorizando seus ativos ambientais. Rodrigo Perpétuo ressalta que o sucesso de políticas dessa natureza depende de articulação entre diferentes níveis e setores governamentais, capacitação técnica para que os municípios possam fazer seus projetos e recursos financeiros. “Muitas cidades brasileiras estão tampando os seus rios. Então, solapando os seus córregos. As cidades precisam reaprender e se reconciliar. Reaprender a viver com a sua natureza e reconciliar o meio urbano com os ativos ambientais que permeiam a sua cidade.” “Isso tem a ver com a recuperação ou regeneração de áreas degradadas e recomposição de ecossistemas naturais, fazendo isso de forma articulada com o desenvolvimento urbano. Porque quando a cidade está, de fato, bem assentada com a sua natureza e ocorrências extremas acontecem, os danos vão ser muito menores. A cidade vai estar mais preparada e é essa a essência das políticas.” Edição: Rodrigo Durão Coelho *Crédito da imagem destacada: Regiões do litoral norte de São Paulo foram devastadas pela chuva – ©Fernando Marron / AFP #Envolverde

Mais de 2,3 mil ribeirinhos recebem atendimento via telessaúde na Amazônia

Além dos atendimentos, iniciativa da FAS promove a capacitação de profissionais de saúde Cuidar das pessoas que cuidam da floresta é a missão da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), organização que completou, em 2023, 15 anos de atuação em prol da melhoria da qualidade de vida das populações da floresta. A saúde é um dos aspectos dessa missão e, para isso, um dos projetos que a FAS executa é o de telessaúde, que já atendeu 2.373 moradores de comunidades remotas, além de capacitar 1.216 profissionais de saúde que ali atuam e comunitários. Esse trabalho é realizado com a ajuda da tecnologia, por meio de 97 pontos de conectividade, instalados pela FAS e parceiros em 22 municípios, 22 Unidades de Conservação (UCs) e 18 Terras Indígenas (TIs) na Amazônia. Os locais são equipados com estrutura de atendimento e acesso à internet para consultas online, e tem à disposição as especialidades de medicina, enfermagem e psicologia. “Os pontos de teleatendimento são um dos grandes avanços da FAS. Antes, quando chegava atendimento médico na comunidade, era apenas uma especialidade, geralmente um clínico geral. Hoje, eles já conseguem ter atendimento psicológico, médico e de enfermagem. Foi um avanço considerável, porque essa plataforma também possibilitou qualificar os agentes comunitários de saúde e levar um atendimento mais adequado a esses locais”, afirma a superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da FAS, Valcléia Solidade. Os agentes comunitários de saúde e comunitários recebem formação continuada em temas como vacinação, fisiologia, primeiros socorros, saúde da mulher e infantil. No total, 1.216 profissionais da região, de agentes a médicos, e comunitários já foram receberam conhecimentos ou atualizações em oficinas e treinamentos da FAS. A instituição também atua na implementação de sistemas de energias limpas e renováveis, como as de origem solar, que garantem o funcionamento de unidades de atendimento em áreas ribeirinhas e rurais da região. “A falta de energia é um problema muito grande para nós como profissionais. Quando a gente tem uma criança, por exemplo, com pneumonia, é uma doença que a gente pode tratar aqui mesmo no polo, só que devido à falta de energia, não tem como fazer a nebulização, então a gente tem que remover a criança para o município mais próximo”, explica a enfermeira do Polo Base do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Médio Rio Solimões e Afluentes (MRSA), Claudia Mariscal. Em 2020, placas solares foram instaladas no polo, que atende mais de 105 famílias do povo Madija Kulina. Sobre a FAS Fundada em 2008 e com sede em Manaus/AM, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é uma organização da sociedade civil e sem fins lucrativos que dissemina e implementa conhecimentos sobre desenvolvimento sustentável, contribuindo para a conservação da Amazônia. A instituição atua com projetos voltados para educação, empreendedorismo, turismo sustentável, inovação, saúde e outras áreas prioritárias. Por meio da valorização da floresta em pé e de sua sociobiodiversidade, a FAS desenvolve trabalhos que promovem a melhoria da qualidade de vida de comunidades ribeirinhas, indígenas e periféricas da Amazônia. #Envolverde

Desmatamento na BR-319 cresce 122% após anúncio de asfalto

Por Claudio Angelo por Observatório do Clima – Dados inéditos do Inpe mostram que destruição no entorno da estrada subiu de 215 km2 em 2020 para 479 km2 em 2022; alta em 1 ano foi de 110% O desmatamento no entorno da rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho) cresceu 122% entre 2020 e 2022. O pico coincide com o anúncio do governo Bolsonaro de que a rodovia seria asfaltada. Dados coligidos pelo Inpe a pedido do Observatório do Clima mostram que a devastação numa faixa de 50 quilômetros no entorno da rodovia entrou em tendência de alta após 2014, acelerou após 2017 e explodiu entre 2020 e 2021: de 215 quilômetros quadrados, a área desmatada saltou para 453 quilômetros quadrados, uma alta de 110% em apenas um ano – a maior da série histórica iniciada em 2001. Em 2022 o desmate cresceu mais 6%. Especialistas ouvidos pelo OC e o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho (PSB-SP), apontam correlação direta entre a explosão do desmatamento no entorno da BR em 2021 e a decisão do governo federal de levar a obra adiante – mesmo contra recomendações técnicas do órgão ambiental. Em setembro de 2020, o então ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, do Republicanos (hoje governador de São Paulo), disse a governadores da Amazônia que a pavimentação da 319 era prioridade do governo e que esperava ter toda a obra contratada até 2022. Na ocasião, Tarcísio estreou a tática de fatiar o asfaltamento para torná-lo fato consumado, começando por um trecho de 52 km conhecido como Lote C. Em 2022, o hoje governador paulista (que na verdade é carioca) obteve do então presidente do Ibama, Eduardo Bim, a licença prévia para a porção mais ambientalmente sensível da obra, o chamado “trecho do meio”, de 405 quilômetros de extensão. O governo chama o asfaltamento de “reconstrução”, já que a 319 foi pavimentada por um breve período durante a ditadura militar – sem licenciamento ambiental – e depois engolida pela selva. “Com o anúncio da pavimentação do trecho do meio e após a concessão da licença prévia, estamos assistindo a uma ação forte de tentativa de grilagem na região. Qualquer pessoa que se deslocar pela estrada vai ver placas vendendo terras localizadas em áreas públicas”, afirmou Rodrigo Agostinho. “O Ibama irá tomar medidas duras para conter esse processo.” A licença prévia contrariou pareceres técnicos do próprio Ibama. Ainda em 2008, o Ministério do Meio Ambiente havia estabelecido uma série de “pré-condicionantes” para o licenciamento da BR-319. A mais importante delas era a instalação de 16 Unidades de Conservação, abrangendo os dois lados da estrada, o que não foi feito. O governo Bolsonaro não criou nenhuma Unidade de Conservação em seu mandato, e a licença prévia da BR-319 sequer obriga a instalação de postos de fiscalização na área de construção. As obras de pavimentação da estrada começaram em novembro, antes mesmo da emissão da licença definitiva pelo Ibama. Sem surpresa, o Amazonas foi o único Estado a registrar alta no desmatamento em 2022. Como é regra na Amazônia, o mero anúncio do asfaltamento pôs em marcha um surto especulativo na região, com uma corrida às terras. O mesmo já havia sido observado nos anos 1980 quando o governo anunciou a pavimentação da BR-364, em Rondônia – não havia medições anuais por satélite na época, mas o projeto causou o que provavelmente foi a perda mais acelerada de um ecossistema em qualquer momento da história da humanidade. Mais recentemente, em 2002, o anúncio da pavimentação da BR-163, entre Cuiabá e Santarém, fez a destruição crescer 500% em volta da rodovia. “A mera perspectiva de uma obra de infraestrutura movimenta o mercado da grilagem e incentiva a ocupação, em busca de anistia futura. Essa é uma constante na história da Amazônia”, diz Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. Mesmo a maior tentativa de alterar essa maldição histórica fracassou. Em 2004, o governo Lula iniciou um plano para garantir que o asfaltamento da BR-163 fosse feito sem prejudicar a floresta: um mosaico de unidades de conservação foi criado em 2006 no entorno da estrada, mas nem isso conseguiu evitar a pressão dos grileiros. Hoje a unidade de conservação mais desmatada da Amazônia é a Floresta Nacional do Jamanxim, criada justamente para proteger a floresta em volta da rodovia. A BR-319 é um caso potencialmente mais grave que o da 163, pois ela corta o maior trecho de florestas intactas de toda a Amazônia. Em novembro de 2020, dois meses após o anúncio da pavimentação, os pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais Britaldo Soares Filho, Raoni Rajão e Juliana Leroy Davis publicaram uma nota técnica estimando que o asfaltamento faria o desmatamento quadruplicar na zona de influência da rodovia nas próximas três décadas. As emissões de gases-estufa decorrentes disso seriam de 8 bilhões de toneladas, quatro vezes o que o Brasil emite por ano. Os dados do Inpe dão razão à estimativa. É também um caso em que as pressões de grileiros e madeireiros se aliam a uma demanda social: a população de Manaus, que se sente ilhada por não ter conexão por terra com o resto do Brasil, exige a pavimentação há anos. Comunidades no eixo da rodovia, embora esparsas, também se ressentem da impossibilidade de tráfego na época das chuvas. O estudos de impacto da BR-319, porém, já mostraram que não há justificativa econômica para a estrada: todo o transporte de cargas entre as duas capitais pode ser atendido pela hidrovia do rio Madeira ou por avião. No passado, o governador do Amazonas Eduardo Braga chegou a defender que a estrada fosse substituída por uma ferrovia – um modal menos impactante, já que não estimula a ocupação no entorno. O presidente do Ibama disse que sua equipe está analisando a licença prévia da 319. “Caso sejam detectadas ilegalidades na concessão dessa licença, ou de qualquer outra, medidas serão tomadas.” *Crédito da imagem destacada: Incêndio florestal sobre área de floresta degradada, em processo de desmatamento, em Novo Aripuanã, no sul do Amazonas, zona de influência da BR-319, em setembro de 2021. (Foto: Victor Moriyama / Amazônia em Chamas) #Envolverde