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sábado, 3 de setembro de 2022
Nova linha Risqué Bio traz fórmula com ingredientes naturais, cores inspiradas na natureza e conceito vegano
Com sete cores exclusivas e uma base, a nova linha é aprovada pelo programa Leaping Bunny da Cruelty Free International, vegana e com composição livre de 16 ingredientes com potencial alergênico.
Como uma marca de beleza preocupada com o planeta e com o impacto que causa no meio ambiente, Risqué — líder no mercado de esmaltes e pertencente ao Grupo Coty no Brasil, apresenta sua nova linha Risqué Bio, vegana e com ingredientes naturais. O lançamento, que contempla uma base e sete cores exclusivas inspiradas na natureza, ainda é livre de 16 ingredientes com potencial alergênico.
A nova linha contém produtos que não utilizam ingredientes de origem animal e também é aprovada pelo programa Leaping Bunny da Cruelty Free International e 16 free (livre de 16 ingredientes com potencial alergênico). Todas as cores e nomes dos esmaltes foram inspirados na natureza, e são eles: Lírio Branco, Canela, Pimenta Caiena, Girassol, Oceano Azul, Chá Verde, Rosa do Himalaia.
Seguindo as iniciativas sustentáveis da companhia, foi desenvolvido um processo exclusivo para a produção da embalagem da nova linha Risqué Bio: com tampa confeccionada com plástico
reciclado a partir de resíduos industriais e as cerdas do aplicador de origem vegetal, contribuindo ainda mais para o compromisso da marca com um mundo mais sustentável, sem perder a performance e a qualidade dos esmaltes Risqué já conhecidas em todo o país.
“Risqué é a primeira marca de esmaltes que traz uma proposta de produto mais sustentável cuidando do planeta. Com novas cores que serão ferramentas de expressão para os nossos consumidores. Além disso, sabemos do desejo de terem cada vez mais produtos conscientes e alinhados com propósitos que impactam positivamente o meio ambiente. Como marca, temos ESG como um pilar prioritário entre os nossos compromissos. O lançamento de Risqué Bio vem para inaugurar um novo momento para a marca, combinando nossos valores com as necessidades do mercado”, comenta Regiane Bueno, vice-presidente de Marketing do Grupo Coty.
Ingredientes naturais permeiam toda a linha:
Toda a linha conta com ingredientes naturais, como a Couve Kale, Óleo de Melaleuca e pigmentos também naturais.
O Couve Kale é um superfood que vêm amplamente sendo utilizado em cosméticos, conhecido por ser rico em vitaminas e minerais. Já o óleo de Melaleuca é um composto amplamente utilizado pela indústria de beleza, muito conhecido por sua ação antisséptica.
A composição também leva pigmentos naturais, como o Carvão Vegetal Ativado (Charcoal Powder) e Extrato da Flor de Carthamus Tinctorius (Cathamus Tinctorius (Safflower) Flower Extract).
16 free
A fórmula dos esmaltes da nova linha de Risqué Bio é livre de 16 ingredientes com potencial alergênico, hipoalergênica e com ingredientes naturais. Como líder no mercado de esmaltes, Risqué sempre busca trazer inovações em primeira mão para seu portfólio. Trabalhar com fórmulas hipoalergênicas em todos os produtos foi uma prática pioneira da marca, pensando no bem-estar dos consumidores.
Sobre Risqué l site l @risqueoficial l Marca líder no segmento de esmaltes no País, com mais de meio século de história no mercado de produtos de beleza. A marca é pioneira em lançar tendências e hoje é referência de categoria para milhões de consumidores em todo o Brasil. Além disso, a marca disponibiliza uma cartela fixa de cores e uma linha completa de produtos de tratamento para pés, mãos e unhas.
Sobre a Coty l Fundada em Paris em 1904, a Coty é uma das maiores empresas de beleza do mundo. Com portfólio de marcas consagradas em fragrâncias, maquiagens e esmaltes, cuidados com pele e corpo, a empresa atende clientes em todo o mundo e está presente em cerca de 130 países. A Coty e as suas marcas estimulam o empoderamento das pessoas para que se expressem livremente, criando suas próprias visões de beleza; além de serem comprometidas em fomentar positivo impacto no planeta. Saiba mais no site ou no LinkedIn e Instagram.
No Brasil, o Grupo Coty atua com marcas globais do portfólio da companhia, como no segmento de fragrâncias. E possui como diferencial várias marcas locais, entre as quais Monange, Risqué, Bozzano, Paixão e Cenoura & Bronze. No País, a operação conta com aproximadamente 2,4 mil funcionários alocados em suas empresas, localizadas no Estado de São Paulo (área de Pesquisa e Desenvolvimento e sede administrativa); no Estado de Goiás (fábrica Savoy e o principal centro de distribuição); e no Estado do Rio de Janeiro (centro de distribuição). Acesse nossos canais locais no LinkedIn e Instagram.
#Envolverde
Em 37 anos, Amazônia perdeu 12% de florestas
Agropecuária avança e passa a ocupar 15% do bioma, que também perdeu superfície de água e coberturas naturais não florestais
De acordo com o mais recente levantamento do MapBiomas, que atualizou os dados sobre uso e cobertura da terra de 1985 a 2021, a Amazônia perdeu 12% da sua área de floresta em 37 anos. Isso significa uma perda líquida de floresta de 44 Mha, equivalente a dez vezes aárea de todo o estado do Rio de Janeiro. Até o ano passado, a área de floresta ocupava 78,7% do bioma.
O MapBiomas também avaliou o que aconteceu com as áreas desmatadas: entre 1985 e 2021, 44,5 Mha de vegetação nativa – que incluem formações florestal, savânica e campestre, áreas úmidas e mangue – foram convertidos para agropecuária. Em 2021 essa atividade ocupava 15% do bioma, constituindo-se como seu principal vetor desmatamento.
Nos últimos 37 anos, as pastagens triplicaram, passando a ocupar 13% do
bioma. De todos os nove estados da Amazônia, o mais afetado foi o Pará: 35,2% das florestas do estado foram convertidas em áreas de agricultura ou pastagem.
“O atual modelo de desenvolvimento econômico, baseado na conversão descontrolada de áreas de vegetação natural, coloca o Brasil frente a graves problemas no atual cenário de mudanças do clima”, explica Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas. “Não se trata apenas de implementar ações de comando e controle: o Brasil precisa de políticas públicas e modelos de negócio que compatibilizem a conservação dos biomas com o desenvolvimento do país ao mesmo tempo em que cooperam com o enfrentamento da crise climática”, ressalta.
Além da perda de vegetação nativa, a Amazônia também está perdendo água. Em 20 anos, a Amazônia perdeu 1,7 Mha de superfície de água, uma diminuição de 14,5%. O estado mais afetado foi Roraima: em 25 anos foram 317 mil ha perdidos – uma redução de 53%.
Amazonas e Pará, onde ficam grandes bacias hidrográficas, como dos rios Amazonas e Tapajós, concentram 84,2% de toda a superfície de água do bioma.
Outro ponto de atenção é o avanço do garimpo. Em 2021, a atividade respondeu por três em cada quatro hectares (74%) mapeados como mineração na Amazônia. Dos pouco mais de 217 mil ha de área minerada no bioma, 64% foram mapeados no estado do Pará. Esse estado é também o que registrou maior expansão urbana nos últimos 37 anos.
Em toda a Amazônia, as áreas urbanas continuam se expandindo e já ocupavam 339 mil ha no ano passado.
O MapBiomas também avaliou as mudanças nas coberturas naturais não florestais da Amazônia. Em 2021, 3,7% do bioma (15,7 Mha) eram de formações não florestais, e outros 2,7% de corpos d’água (11,4 Mha). O levantamento mostra ainda que apenas 1% da cobertura vegetal natural da Amazônia em 2021 era de formação savânica ou mangue.
“Esses ecossistemas são relevantes do ponto de vista biológico, social e econômico e estão sob forte pressão antrópica, que se soma aos crescentes riscos impostos pela crise climática.
Estão também fora do radar do monitoramento. O MapBiomas permitiu entender a extensão e as mudanças nestas áreas”, reforça Carlos Souza Jr., cientista que coordena o mapeamento do bioma Amazônia.
Amazonas, Pará e Mato Grosso, os três maiores estados do bioma, são os que detêm maior área florestal. Juntos, eles respondem por 81% das florestas da Amazônia. As formações savânicas, por sua vez, ocupavam 2 Mha em 2021, ficando concentradas principalmente nos estados de Mato Grosso, Pará e Roraima, que juntos detêm 87% do total. Entre 1985 e 2021, aproximadamente 1 Mha de savana foram convertidos para uso agropecuário.
Pouco mais da metade (54,3%) das áreas florestais remanescentes estão em áreas legalmente protegidas, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação (exceto APA) – percentual semelhante ao das formações campestres que estão dentro de áreas protegidas (58,7%). Quando se considera toda a vegetação nativa do bioma, florestal ou não, nota-se que 4% (12,8 Mha) eram de vegetação secundária em 2020, ou seja, já foram desmatadas pelo menos uma vez. “Os recentes recordes de desmatamento e de queimadas comprovam que a Amazônia não está protegida. É importante ressaltar que não se trata apenas de desmatamento: parte da floresta remanescente está degradada. Esse processo coloca a floresta mais perto do ponto de inflexão a partir do qual ela entra em colapso”, alerta Luis Oliveira Jr., que integra a equipe Amazônia do MapBiomas.
Sobre MapBiomas: iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia,focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública egratuita no site da iniciativa: mapbiomas.org.
#Envolverde
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
Pensando como uma árvore – um tributo aos sustentadores da vida
Por Jan Lundius –
ESTOCOLMO, de agosto de 2022 (IPS) – Quando eu era criança, um amigo me perguntou: “Como você descreveria uma árvore para alguém que nunca viu uma?” Olhei para as árvores ao nosso redor e percebi que era impossível, considerando sua versatilidade, beleza e total estranheza. Desde aquela época, muitas vezes me perguntei sobre as árvores, assim como me preocupei com a destruição indiscriminada de árvores e florestas.
As árvores são um pré-requisito para a vida e estão intimamente ligadas à existência humana. Nestes tempos de mudança climática, muitos de nós estão se tornando cada vez mais conscientes da função de promoção da vida das árvores. Como eles produzem oxigênio, fixam o teor de carbono da atmosfera, limpam e resfriam o ar, regulam a precipitação, purificam a água e controlam o fluxo de água.
Ao longo da história, os humanos estiveram entrelaçados com as árvores. Nossa história cultural compartilhada testemunha o fascínio que a humanidade sentiu quando se trata do poder e do mistério das árvores. As árvores estão presentes em muitas mitologias e religiões: – Yggdrasil , a árvore cósmica da mitologia nórdica, Yaxche , a árvore do mundo dos povos maias, o sicômoro, Ísis (deusa de todos os poderes divinos femininos) árvore sagrada no antigo Egito, Asvattha , a figueira sagrada no sul da Índia, a árvore Bodhi , Árvore do Despertar, entre os budistas, o Kien Mou , Árvore da Renovação, entre os chineses, e a Sidrat al-Muntaha , Árvore do limite mais distante, no Islã.
A forma da árvore para a mente humana passou a representar sistemas lógicos e nos ajudou a trazer ordem ao caos. Como modelos de pensamento, ainda usamos árvores para representar a genealogia ou explicar o curso da evolução, a gramática e as origens das línguas. Até nossa estrutura corporal parece imitar as árvores; esqueleto, pulmões, vasos sanguíneos, vasos linfáticos e vias neurais. Respiramos através da rede em forma de árvore dos pulmões – os bronquíolos .
Um passeio por uma floresta pode, de maneira misteriosa, confirmar nossa conexão íntima com as árvores. Se estivermos suficientemente atentos, podemos ser tomados pela sensação de outra presença; incompreensível, embora poderoso e completo. É como se a floresta nos abraçasse, nos observasse, nos falasse. O vento faz falar a folhagem da floresta. Árvores e arbustos alimentam e protegem pássaros canoros e outros animais. As árvores contêm assim o poder milagroso da música – a maioria dos instrumentos musicais são feitos de madeira.
Existem várias indicações de que nossos ancestrais eram criaturas arbóreas. Algo que nossa maneira de pensar e não menos nossa constituição física testemunham – uma coluna flexível, braços estendidos e mãos altamente eficientes. Garras se transformaram em unhas e dedos delicados. Nosso conjunto de dentes e órgãos digestivos foram adaptados aos alimentos encontrados entre as árvores – nozes, frutas, ovos, pequenos animais. Tornamo-nos onívoros e, ao contrário do gado que sente a terra firme sob seus pés e cujos corpos foram adaptados a ela, os seres humanos desenvolveram seu pensamento, audição, visão e olfato para a realidade instável das copas das árvores.
As criaturas das quais descendemos corriam constantemente o risco de erros que levassem a quedas fatais, algo que aguçava suas mentes e os fazia planejar a incerteza, o perigo e o inesperado. Eles aprenderam a notar mudanças sutis no ambiente e observar como outras criaturas se adaptaram a elas. Eles não se sentiam seguros em paisagens abertas, temiam o vazio e só se sentiam relativamente seguros se cercados pelo recinto tranquilizador da vegetação. Ainda preferimos caminhar entre as árvores do que por vias de transporte estéreis, cheias de ruído e poluição do ar, ladeadas por fachadas feias, supermercados, indústrias e estacionamentos.
A presença das árvores agrada-nos e acalma-nos. Um passeio pela floresta, ou um tempo de descanso passado num parque arborizado, revigoram-nos. Estudos realizados em consultórios e hospitais comprovam que as pessoas que não têm vista e/ou acesso ao entorno arborizado são mais propensas ao estresse e à depressão, enquanto as pessoas doentes cercadas por um ambiente estéril, sem visão aberta para o verde, recuperam-se mais lentamente do que aqueles que percebem a proximidade da natureza. Talvez uma razão pela qual os hospitais e sanatórios mais antigos geralmente eram cercados por parques ricos em árvores e plantações de flores. É energizante encontrar-se dentro de um reino natural, longe de telas de computador, plástico e concreto.
Ao contrário dos humanos, que geralmente exploram a natureza para seu próprio benefício, as árvores tomam e dão. Eles recebem energia e nutrição do calor e da energia do sol, que através da fotossíntese é convertido em oxigênio e matéria orgânica. O sistema radicular conecta as árvores aos nutrientes da terra, que ao ar livre são convertidos em folhas, madeira e fertilizantes.
As árvores constituem a maior parte da biomassa da Terra, tanto acima como abaixo do solo. Através de galhos e folhas, eles criam uma superfície de contato máximo com o ar e suas raízes largas proporcionam uma ancoragem firme, ajudando-os a assimilar nutrientes. As árvores sustentam e sustentam a si mesmas, ao mesmo tempo que sustentam e sustentam o mundo inteiro.
Uma árvore nunca está sozinha, ela se funde com seu ambiente. Adapta-se à mistura de gases da atmosfera e às águas subterrâneas da Terra. Através de uma simbiose constante com seu ambiente, uma árvore contribui para a criação e manutenção de suas substâncias que preservam a vida.
Cada galho e folha se adaptam à presença de seus vizinhos. As plantas se apoiam. Eles unem a morte e a vida. Ramos e folhas mortas fertilizam o solo, enquanto raízes e capilares bombeiam água para fora do solo. Um ciclo vivificante que transforma, regula e cria. Através da evapotranspiração as áreas florestais carregam a atmosfera com vapor de água e assim criam chuvas, nutrindo a vegetação e reabastecendo os lençóis freáticos. As folhas captam parte da energia solar, que transformam em matéria orgânica saturada de energia cósmica. O ciclo de vida das árvores é determinado pela duração dos dias e temperaturas variadas. Constituem uma fonte viva, cujo fluxo de oxigênio e nutrientes é consumido por animais e humanos. Além disso, as árvores contribuem para a formação de uma camada de ozônio,
Raízes se entrelaçam/comunicam com outras raízes. Juntamente com os filamentos miceliais dos fungos, cria-se uma biosfera subterrânea promotora da vida – a micorriza, onde as bactérias fixam nitrogênio e fornecem às árvores minerais que de outra forma seriam difíceis de obter, como fósforo, magnésio, potássio, cobre, zinco e manganês. Se você der às plantas suplementos nutricionais na forma de fertilizantes artificiais, elas param de alimentar os fungos simbióticos, que morrem e desaparecem. Uma árvore em crescimento torna-se cada vez mais complexa. Cheia como a sua coroa está de botões e novos rebentos, é constantemente renovada. Ele se espalha e protege a terra. Flores, folhas e frutos florescem dentro de sua coroa. As árvores são sempre direcionadas para o futuro. Eles nunca são concluídos, crescendo e se desenvolvendo em uníssono com o tempo
ciclos do Cosmos. Silenciosamente, eles se comprometem com as forças que os cercam. A adaptabilidade paciente das árvores é completamente diferente da vida cotidiana dos humanos, que cada vez mais é construída a partir de fragmentos na forma de e-mails, mensagens de texto e tweets, processos de comunicação que nos alienam da vida, da proximidade com a natureza e com nossos semelhantes.
A árvore tem um tempo interior, manifestado através de seus anéis anuais. Quando experimentamos como uma árvore que plantamos começa a crescer, sentimos o futuro e ganhamos confiança nele. As árvores se adaptam a condições difíceis e podem nos dar vida e beleza. Eles atendem às nossas expectativas.
As folhas são a unidade elementar, estrutural e funcional de uma árvore. Uma grande árvore carrega milhões de folhas que transformam diligentemente luz e água em matéria e não menos frutos e sementes. As árvores estão firmemente enraizadas na terra, embora isso não as tenha impedido de se espalharem pelo mundo. Suas sementes se libertam do ancoradouro de raízes e galhos, para serem levadas por animais, pessoas, vento e água.
Embora as árvores sustentem a vida e nos forneçam alegria e inspiração, não as reverenciamos. Em vez disso, abusamos deles, os exploramos impiedosamente, matando-os para ganho e lucro pessoal. Deixamos para trás a época geológica do Holoceno e entramos no Antropoceno (quando tudo é alterado pelos humanos). Mesmo que nós, contra todas as probabilidades, experimentássemos um declínio populacional e se a agricultura se tornasse dependente de métodos agrícolas sustentáveis, alteramos irreversivelmente nossas condições de vida – a atmosfera, a hidrosfera e a biosfera. Existe alguma esperança para a humanidade sobreviver? As árvores podem nos dar esperança?
Muitos de nós supomos que as florestas tropicais geram sua abundância a partir de solos férteis. Mas o solo em que crescem é geralmente bastante pobre e constantemente lavado por chuvas abundantes. Não é no solo que encontramos a maior fertilidade, mas nas copas das árvores. As selvas que se acredita serem florestas primitivas muitas vezes ocuparam terras anteriormente usadas para agricultura. Grandes partes da Floresta Amazônica já foram povoadas por fazendeiros que morreram e desapareceram devido à varíola e outras doenças mortais trazidas a eles pelos europeus. Muitas das florestas tropicais exuberantes e abundantes de hoje crescem em terras que foram esgotadas pela chuva ou pela agricultura intensiva.
A adaptabilidade das árvores é incrível. Terras desertas, mesmo que tenham sido devastadas por monocultivos industriais/nocivos e/ou florestas outrora abrigadas sujeitas a depredação imprudente, demonstraram uma notável capacidade de se reviver, criando ecossistemas híbridos onde a vida do tipo antigo se mistura com plantas recém-introduzidas ao mesmo tempo em que se adaptam a condições ambientais que mudam drasticamente. Essas florestas regeneradas e auto-plantadas exibem uma inesperada diversidade de espécies que protegem o solo e a vida vegetal, fixam o carbono atmosférico e começam a produzir madeira, madeira e carvão. Por exemplo, no distrito brasileiro do Pará, 25% da área retirada da selva amazônica tornou-se novamente floresta e, estranhamente, sua capacidade de reter dióxido de carbono é vinte vezes maior que a das florestas antigas,
No entanto, isso não pode significar que podemos continuar exterminando os mantenedores essenciais da vida da Terra. ou seja, árvores e florestas. Em breve será tarde demais para salvá-los, nós mesmos e nossos descendentes.
Fonte principal: Tassin, Jacques (2018) Pensando como uma árvore. Paris: Odile Jacob .
Escritório das Nações Unidas do IPS
Jan Lundius tem trinta anos de experiência em pesquisa social e antropológica, avaliação de projetos de desenvolvimento rural, avaliação de impacto de projetos em comunidades rurais, bem como negociações de programas de cooperação técnica para capacitação local em ciências sociais e humanas na América Latina e África.
(IPS/Envolverde)
Milhões passam fome – enquanto bilhões em alimentos vão para o lixo
Por Thalif Deen –
NAÇÕES UNIDAS, 22 de agosto de 2022 (IPS) – As advertências ameaçadoras não param: algumas das nações em desenvolvimento do mundo, principalmente na África e na Ásia, caminham para a fome e a fome em massa.
O Programa Alimentar Mundial (PAM) alertou na semana passada que até 828 milhões de pessoas vão para a cama com fome todas as noites, enquanto o número de pessoas que enfrentam insegurança alimentar aguda aumentou – de 135 milhões para 345 milhões – desde 2019. Um total de 50 milhões pessoas em 45 países estão à beira da fome .
Mas, no que parece ser um paradoxo cruel, o Departamento de Agricultura dos EUA estima que US$ 161 bilhões em alimentos são despejados anualmente em aterros sanitários nos Estados Unidos.
O déficit foi agravado pela redução da oferta de trigo e grãos da Ucrânia e da Rússia desencadeada pelo conflito em andamento, além dos efeitos posteriores da crise climática e do efeito negativo da pandemia de Covid-19 de três anos.
Embora as necessidades sejam altas, os recursos atingiram o fundo do poço. O PMA diz que são necessários US$ 22,2 bilhões para atingir 152 milhões de pessoas em 2022. No entanto, com a economia global sofrendo com a pandemia do COVID-19, a lacuna entre necessidades e financiamento é maior do que nunca.
Controlar a perda e o desperdício de alimentos é um fator crucial para alcançar a meta de erradicar a fome no mundo. Crédito: FAO
“Estamos em uma encruzilhada crítica. Para evitar a catástrofe da fome que o mundo está enfrentando, todos devem se unir aos doadores governamentais , cujas generosas doações constituem a maior parte do financiamento do PAM. Empresas do setor privado podem apoiar nosso trabalho por meio de assistência técnica e transferência de conhecimento, além de contribuições financeiras. Indivíduos de alta renda e cidadãos comuns podem desempenhar um papel, e jovens , influenciadores e celebridades podem levantar suas vozes contra a injustiça da fome global”, disse a agência com sede em Roma.
Em 2019, a Rússia e a Ucrânia exportaram juntas mais de um quarto (25,4%) do trigo do mundo, de acordo com o Observatório da Complexidade Econômica ( OEC ).
Danielle Nierenberg, presidente e fundadora do Food Tank , disse à IPS que a quantidade de alimentos desperdiçados no mundo não é apenas um grande problema ambiental – se o desperdício de alimentos fosse um país, seria o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa.
Mas o desperdício e a perda de alimentos também são enigmas morais. É absurdo para mim que tanto alimento seja desperdiçado ou perdido por causa da falta de infraestrutura, má formulação de políticas ou regulamentações de marketing que exigem que os alimentos sejam jogados fora se não atenderem a certos padrões.
Isso é especialmente terrível agora que enfrentamos uma crise alimentar mundial – não apenas por causa da agressão russa contra a Ucrânia, mas por vários conflitos em todo o mundo.
“Fizemos um bom trabalho na última década de conscientização sobre o desperdício de alimentos, mas não fizemos o suficiente para realmente convencer os formuladores de políticas a tomar medidas concretas. Agora é a hora do mundo abordar o problema do desperdício de alimentos, especialmente porque conhecemos as soluções e muitas delas são baratas”, disse ela.
Melhor regulamentação sobre datas de validade e melhor compra, políticas que separam matéria orgânica nos municípios, multas empresas que desperdiçam muito, melhor coleta de datas em torno do desperdício de alimentos, mais infraestrutura e inovações práticas que ajudam os agricultores.
“E há ainda mais soluções. Podemos resolver este problema – e temos o conhecimento. Só precisamos implementá-lo”, disse Nierenberg.
A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA disse em novembro passado que o desperdício de alimentos nos Estados Unidos é estimado entre 30% e 40% do suprimento de alimentos.
“O desperdício de alimentos é a maior categoria de material colocado em aterros municipais e representa um alimento que poderia ter ajudado a alimentar famílias necessitadas. Além disso, a água, a energia e o trabalho usados para produzir alimentos desperdiçados poderiam ter sido empregados para outros fins’, disse o FDA.
A redução efetiva do desperdício de alimentos exigirá cooperação entre governos federais, estaduais, tribais e locais, instituições religiosas, organizações ambientais, comunidades e toda a cadeia de suprimentos.
O professor David McCoy, chefe de pesquisa do Instituto Internacional de Saúde Global da Universidade das Nações Unidas (UNU-IIGH), disse à IPS que a imagem comovente de alimentos sendo despejados em aterros sanitários, enquanto a fome e a insegurança alimentar crescem, também deve ser justaposta aos danos ecológicos causados pela os modos dominantes de produção de alimentos que, por sua vez, só aprofundarão ainda mais a crise de insegurança alimentar generalizada.
“A necessidade de transformação radical e global na forma como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos é reconhecida há anos . No entanto, atores poderosos – principalmente instituições financeiras privadas e as gigantescas corporações oligopolistas que obtêm grandes lucros com os setores agrícola e alimentar – têm interesse em manter o status quo. Sua resistência à mudança deve ser superada se quisermos evitar um maior agravamento da fome e das crises ecológicas, alertou”.
Frederic Mousseau, diretor de políticas do Oakland Institute, disse à IPS que, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), a produção e os estoques globais de alimentos estão em níveis históricos altos em 2022, com apenas uma ligeira contração em relação a 2021.
“Os preços vertiginosos dos alimentos observados este ano devem-se mais à especulação e ao lucro do que à guerra na Ucrânia. É escandaloso que o PAM tenha sido forçado a expandir suas operações de ajuda alimentar em todo o mundo devido à especulação, além de ter que arrecadar mais fundos, pois os custos de fornecer ajuda alimentar aumentaram em todos os lugares”, disse ele.
Mousseau destacou que os custos do PAM aumentaram em US$ 136 milhões somente na África Ocidental devido aos altos preços de alimentos e combustíveis, enquanto, ao mesmo tempo, as maiores corporações de alimentos anunciaram lucros recordes de bilhões.
Louis Dreyfus e Bunge Ltd tiveram, respectivamente, salto de 82,5% e 15% nos lucros até agora este ano. A Cargill teve um salto de 23% em sua receita. Os lucros de um punhado de corporações de alimentos que dominam os mercados globais já ultrapassam US$ 10 bilhões este ano – o equivalente a metade dos US$ 22 bilhões que o PMA está buscando para atender às necessidades alimentares de 345 milhões de pessoas em 82 países.
Em uma coletiva de imprensa em Istambul, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, mostrou um vislumbre de esperança quando disse a repórteres em 20 de agosto que mais de 650.000 toneladas métricas de grãos e outros alimentos já estão a caminho de mercados em todo o mundo.
“Acabei de voltar do Mar de Mármara, onde equipes ucranianas, russas, turcas e das Nações Unidas estão realizando inspeções conjuntas nos navios que passam pelo Mar Negro a caminho dos portos ucranianos. Que operação notável e inspiradora.”
“Acabei de ver um navio fretado pelo Programa Mundial de Alimentos – Brave Commander – que está esperando para navegar até o chifre da África para trazer alívio urgentemente necessário para aqueles que sofrem de fome aguda. Ainda ontem, eu estava no porto de Odesa e vi em primeira mão o carregamento de uma carga de trigo em um navio.
Ele disse que ficou “tão emocionado vendo o trigo encher o porão do navio. Foi o carregamento de esperança para tantos ao redor do mundo.”
“Mas não esqueçamos que o que vemos aqui em Istambul e em Odesa é apenas a parte mais visível da solução. A outra parte deste pacote é o acesso desimpedido aos mercados globais de alimentos e fertilizantes russos, que não estão sujeitos a sanções”.
Guterres destacou que é importante que todos os governos e o setor privado cooperem para trazê-los ao mercado. Sem fertilizantes em 2022, disse ele, pode não haver comida suficiente em 2023.
Obter mais alimentos e fertilizantes da Ucrânia e da Rússia é fundamental para acalmar ainda mais os mercados de commodities e reduzir os preços para os consumidores
“Estamos no início de um processo muito mais longo, mas vocês já mostraram o potencial desse acordo crítico para o mundo.
E assim, estou aqui com uma mensagem de parabéns para todos os que estão no Centro de Coordenação Conjunta e um apelo para que esse trabalho vital de salvar vidas continue.
Você pode contar com o total empenho das Nações Unidas para apoiá-lo”, declarou.
Relatório do Escritório das Nações Unidas do IPS
(IPS/Envlverde)
A jornada em defesa dos direitos humanos nunca termina
Por Michelle Bachelet –
GENEBRA, 26 de agosto de 2022 (IPS) – Como sabem, depois de quatro anos como Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, meu mandato termina na próxima semana, em 31 de agosto.
O mundo mudou fundamentalmente ao longo do meu mandato. Eu diria que o profundo impacto da pandemia de COVID-19, os efeitos cada vez maiores das mudanças climáticas e os choques reverberantes da crise de alimentos, combustíveis e finanças resultantes da guerra contra a Ucrânia foram as três principais questões.
A polarização dentro e entre os Estados atingiu níveis extraordinários e o multilateralismo está sob pressão.
Importantes movimentos de protesto ocorreram em todas as regiões do mundo exigindo o fim do racismo estrutural, respeito aos direitos econômicos e sociais e contra a corrupção, déficits de governança e abuso de poder – em muitos casos acompanhados de violência, ameaças e ataques contra manifestantes e direitos humanos defensores e, às vezes, contra jornalistas.
Alguns levaram a uma mudança real no país. Em outros casos, em vez de ouvir as vozes do povo, os governos responderam diminuindo o espaço para debate e dissidência.
Nos últimos meses – uma vez que a situação do COVID me permitiu retomar as visitas oficiais aos países – estive em Burkina Faso, Níger, Afeganistão, China, Bósnia, Peru e Bangladesh. Pude ver em primeira mão o impacto das mudanças climáticas, do conflito armado, da crise do financiamento de alimentos e combustíveis, retórica de ódio, discriminação sistemática e os desafios dos direitos humanos em torno da migração, entre outras questões.
O Escritório de Direitos Humanos da ONU trabalhou, de várias maneiras, para ajudar a monitorar, engajar e defender a proteção e a promoção dos direitos humanos. Como eu disse antes, na ONU, o diálogo, o engajamento, a cooperação, o monitoramento, a denúncia e a advocacia pública devem fazer parte do nosso DNA.
Temos trabalhado para tentar ajudar a preencher a lacuna entre o governo e a sociedade civil, para apoiar a implementação nacional das obrigações de direitos humanos e aconselhar sobre reformas para tornar as leis e políticas em conformidade com os padrões internacionais, para expandir nossas presenças no país para que sejamos um em melhor posição para trabalhar em estreita colaboração com as pessoas no terreno. Falamos em público e privado sobre questões específicas de cada país e mais amplas. E temos visto alguns progressos.
O reconhecimento do direito humano a um ambiente limpo, saudável e sustentável pela Assembleia Geral da ONU no mês passado marcou o culminar de muitos anos de advocacia da sociedade civil. Estou orgulhoso do apoio do meu Gabinete e do forte apoio a este movimento ao longo do meu mandato.
Os eventos climáticos extremos dos últimos meses trouxeram novamente para casa, poderosamente, a necessidade existencial de ações urgentes para proteger nosso planeta para as gerações atuais e futuras. Atender a essa necessidade é o maior desafio de direitos humanos desta era – e todos os Estados têm a obrigação de trabalhar juntos nisso e de fazer o que falar, para implementar plenamente o direito a um meio ambiente saudável.
A resposta à tríplice crise planetária de poluição, mudança climática e perda de biodiversidade deve ser centrada nos direitos humanos, incluindo os direitos à participação, acesso à informação e justiça, e abordando o impacto desproporcional dos danos ambientais sobre os mais marginalizados e desfavorecidos.
Também houve um progresso constante em direção à abolição da pena de morte – cerca de 170 Estados aboliram ou introduziram uma moratória, na lei ou na prática, ou suspenderam as execuções por mais de 10 anos. A República Centro-Africana, Chade, Cazaquistão, Serra Leoa e Papua Nova Guiné estão entre aqueles que tomaram medidas para abolir totalmente a pena de morte.
Outros Estados, incluindo a Libéria e a Zâmbia, também estão considerando a abolição. A Malásia anunciou que abolirá a pena de morte obrigatória do país, inclusive para delitos relacionados a drogas. Até hoje, 90 Estados ratificaram o Segundo Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, o principal tratado internacional que proíbe o uso da pena de morte.
Persistem, no entanto, preocupações sobre o aumento do uso ou retomada da pena capital em outros países, incluindo Irã, Arábia Saudita, Mianmar e Cingapura, e outros como China e Vietnã continuam a classificar dados sobre seu uso como segredo de Estado, limitando a possibilidade de escrutínio.
Desde o início do meu mandato, defendo um maior reconhecimento da indivisibilidade e interdependência dos direitos económicos, sociais e culturais com os direitos civis e políticos. Os efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia colocaram em foco essa interdependência.
Os Estados devem tirar lições da pandemia e da atual crise de financiamento de alimentos e combustíveis, projetando medidas de longo prazo para construir sistemas universais de saúde pública e proteção social melhores e mais fortes.
A cobertura da proteção social deve facilitar o acesso aos cuidados de saúde, proteger as pessoas contra a pobreza e garantir os direitos económicos e sociais essenciais, incluindo alimentação, água, habitação, saúde e educação. Também exorto os Estados a adotarem medidas proativas, incluindo subsídios a alimentos, agricultura e combustíveis, para mitigar o impacto das crises.
Tudo isso precisa ser pensado com as pessoas como parte da solução, por meio do investimento em canais inclusivos, seguros e significativos de debate e participação em todos os níveis.
Governar é difícil – eu sei porque fui duas vezes presidente do meu país, o Chile. Há sempre muitas demandas, desafios e problemas urgentes a serem enfrentados. Mas governar é priorizar – e os direitos humanos devem sempre ser uma prioridade. Em muitas situações que meu Gabinete vem cobrindo, há falta de vontade política para tomar as medidas necessárias para realmente enfrentar uma situação de frente. A vontade política é fundamental – e onde há vontade, há um caminho.
Os Estados muitas vezes invocam seu próprio contexto particular quando são confrontados com alegações de violações de direitos humanos e quando são chamados a tomar medidas para abordá-las. O contexto é realmente importante – mas o contexto nunca deve ser usado para justificar as violações dos direitos humanos.
Em muitos casos, a advocacia sustentada em questões-chave de direitos humanos, fundamentada em leis e padrões internacionais de direitos humanos, dá frutos. Na Colômbia este mês, o novo governo prometeu uma mudança em sua abordagem sobre a política de drogas – de uma abordagem punitiva para uma abordagem mais social e de saúde pública.
Ao abordar uma das causas profundas da violência na Colômbia, essa abordagem pode ser fundamental para proteger melhor os direitos dos camponeses, comunidades indígenas e afro-colombianas e das pessoas que usam drogas, tanto na Colômbia quanto no mundo.
Meu Escritório tem defendido – globalmente – uma abordagem baseada em direitos humanos na política de drogas e está pronto para ajudar.
A mobilização mundial de pessoas pela justiça racial, principalmente em 2020, forçou um acerto de contas há muito atrasado com a discriminação racial e deslocou os debates para um foco no racismo sistêmico e nas instituições que o perpetram.
Apelo a todos os Estados para que aproveitem este momento para alcançar um ponto de virada para a igualdade e justiça racial. Meu Escritório está trabalhando em seu segundo relatório ao Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre esta questão, a ser apresentado no próximo mês.
Sempre procurei – mesmo nas questões mais desafiadoras – encorajar o diálogo, abrir as portas para novas trocas. Isso significa ouvir e falar, manter nossos olhos e ouvidos no contexto, identificar pontos de entrada e obstáculos e tentar construir confiança de forma incremental, mesmo quando parece improvável.
Durante meus quatro anos como Alto Comissário, tive o privilégio de falar com tantos defensores de direitos humanos corajosos, espirituosos e extraordinários:
As corajosas e indomáveis defensoras dos direitos humanos no Afeganistão;
As mães determinadas dos desaparecidos no México;
A equipe inspiradora que trabalha em um centro de saúde em Bunia, na República Democrática do Congo, atendendo vítimas de violência sexual;
A sabedoria e a força dos povos indígenas do Peru, que estão na linha de frente do impacto das mudanças climáticas, mineração e extração ilegal de madeira e defendem seus direitos diante de sérios riscos;
E a empatia e generosidade das comunidades que acolhem deslocados internos em Burkina Faso.
Encontrei aliados em líderes de aldeias tradicionais no Níger, que trabalhavam à sua maneira para promover os direitos humanos em suas comunidades; Conheci jovens da Malásia, Suécia, Austrália, Costa Rica e outros lugares cuja desenvoltura, criatividade e ambição eram palpáveis;
Compartilhei a dor do pai na Venezuela que me mostrou as medalhas esportivas que seu filho adolescente ganhou, antes de ser morto durante os protestos em 2017;
E compartilhei as lágrimas da mãe que conheci em Srebrenica, que carregava esperança de que, 27 anos após o desaparecimento de seu filho, ela um dia encontraria seus restos mortais e o colocaria para descansar ao lado do túmulo de seu pai.
Na semana passada, conversei com refugiados rohingyas em Cox’s Bazar.
Um professor que conheci me disse que havia recebido distinções em todas as suas aulas na escola em Mianmar e que sonhava em ser médico. Em vez disso, ele passou os últimos cinco anos em um campo de refugiados, tendo que fugir de seu país – porque ele é rohingya. “Ainda choro à noite quando me lembro do meu sonho”, ele me disse, acrescentando que “meus amigos budistas agora são médicos em Mianmar”.
Minha própria experiência como refugiado foi muito mais confortável, com os meios para continuar minha educação e com um bom padrão de vida – mas o anseio pela pátria, o desejo de muitos rohingyas de voltar para casa ressoaram profundamente em mim. Infelizmente, ainda não existem as condições necessárias para que possam regressar às suas casas de forma voluntária, digna e sustentável.
Hoje faz cinco anos que mais de 700.000 mulheres, crianças e homens rohingyas foram forçados a fugir de Mianmar para Bangladesh – e a catástrofe dos direitos humanos de Mianmar continua a piorar, com os militares (o Tatmadaw) mantendo operações militares em Kayah e Kayin no sudeste; Estado de Chin no noroeste; e as regiões de Sagaing e Magway no coração de Bamar.
O uso do poder aéreo e da artilharia contra vilarejos e áreas residenciais se intensificou. Picos recentes de violência no estado de Rakhine também parecem indicar que a última área razoavelmente estável do país pode não evitar o ressurgimento do conflito armado. As comunidades rohingyas foram frequentemente apanhadas entre os combatentes do Exército Tatmadaw e Arakan ou foram alvos diretos das operações. Mais de 14 milhões precisam de assistência humanitária.
Continuamos a documentar diariamente violações graves dos direitos humanos e violações graves do direito internacional humanitário, incluindo repressão contra manifestantes e ataques contra civis que podem constituir crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
Exorto a comunidade internacional a intensificar a pressão sobre os militares para interromper sua campanha de violência contra o povo de Mianmar, insistir na pronta restauração do regime civil e na responsabilização pelas violações cometidas pelas forças de segurança.
Ontem marcou seis meses desde o ataque armado da Rússia. Seis meses inimaginavelmente aterrorizantes para o povo da Ucrânia, 6,8 milhões dos quais tiveram que fugir de seu país. Milhões de outros foram deslocados internamente. Documentamos pelo menos 5.587 civis mortos e 7.890 feridos. Destas vítimas, cerca de 1.000 são crianças.
Seis meses depois, os combates continuam, em meio a riscos quase impensáveis para os civis e o meio ambiente, já que as hostilidades são conduzidas perto da Usina Nuclear de Zaporizhzhia.
Apelo ao Presidente russo para que suspenda o ataque armado contra a Ucrânia. A fábrica de Zaporizhzhia precisa ser imediatamente desmilitarizada.
Ambas as partes devem respeitar, em todos os momentos e em todas as circunstâncias, o direito internacional dos direitos humanos e o direito internacional humanitário.
A comunidade internacional deve insistir na responsabilização pelas muitas violações graves documentadas, algumas das quais podem constituir crimes de guerra.
Estou alarmado com a retomada das hostilidades no norte da Etiópia. Os civis já sofreram o suficiente – e isso só irá exacerbar o sofrimento dos civis que já estão em necessidade desesperada. Imploro ao Governo da Etiópia e à Frente de Libertação do Povo Tigray que trabalhem para desescalar a situação e cessar imediatamente as hostilidades.
Apelo também a um foco renovado da comunidade internacional em crises prolongadas – muitas vezes esquecidas – incluindo a situação no Iémen, Síria, Sahel e Haiti.
E peço apoio contínuo ao Escritório de Direitos Humanos da ONU, aos órgãos de tratados de direitos humanos da ONU e ao mecanismo de Procedimentos Especiais da ONU, que trabalham incansavelmente em defesa das leis e padrões internacionais de direitos humanos.
A jornada para defender os direitos humanos nunca termina – e a vigilância contra retrocessos de direitos é vital. Eu honro todos aqueles que, à sua maneira, estão trabalhando para defender os direitos humanos. Como mulher e feminista ao longo da vida, quero prestar uma homenagem especial às mulheres defensoras dos direitos humanos, que estiveram na vanguarda dos movimentos sociais que beneficiaram a todos nós. Muitas vezes foram eles que trouxeram à mesa as vozes não ouvidas dos mais vulneráveis. Continuarei ao seu lado quando voltar para casa no Chile.
Para terminar, gostaria de agradecer a vocês, jornalistas, aqui em Genebra e em todo o mundo, pelo trabalho indispensável que fazem. Quando nós, no Escritório de Direitos Humanos da ONU, damos o alarme, é crucial que soe alto, e isso só é possível quando a mídia mundial divulga as histórias.
Michelle Bachelet é a atual Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. Este artigo é baseado em seu discurso aos repórteres em 25 de agosto. Ela foi eleita Presidente do Chile em duas ocasiões (2006 – 2010 e 2014 – 2018). Ela foi a primeira mulher presidente do Chile e atuou como Ministra da Saúde (2000-2002), bem como a primeira Ministra da Defesa do Chile e da América Latina (2002-2004).
Escritório das Nações Unidas do IPS
O protagonismo das energias renováveis urgente e inadiável
Ricardo Galvão* para o Congresso em Foco-
São cada vez mais visíveis e incontestáveis os efeitos das mudanças climáticas em face do progressivo aquecimento global. As consequências seguem sendo mais severas do que previsto nos já cada vez mais dramáticos relatórios divulgados pelo IPCC (o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).
Portanto, trilhar o caminho das energias limpas e renováveis é proporcional aos objetivos de manter a sobrevivência humana no planeta, por mais que tenhamos inúmeros obstáculos a ultrapassar.
Questões pontuais como a guerra da Ucrânia desequilibram a geopolítica internacional adiando esforços conjuntos rumo à transição energética da Europa, por exemplo, que diante dos novos desafios tem apostado no carvão e no petróleo como solução imediatista para fazer frente às suas necessidades sem contar com o gás natural russo, que, bem ou mal emite menos gases de efeito estufa que outras fontes fósseis.
Mas a questão de fundo e que impede esforços conjuntos é a que coloca os países competindo entre si e deixando de fazer investimentos necessários para reduzir satisfatoriamente suas emissões. Fato é que ano após ano as Conferências Climáticas, as conhecidas COPs, promovidas pelas Nações Unidas clamam por maior entendimento quanto a urgência de ações para se alcançar uma economia verdadeiramente de baixo carbono.
Mesmo com todos esses problemas, o que tem feito a diferença é um prolífico e constante avanço tecnológico que torna a eletricidade limpa produzida pelo sol e pelos ventos a cada dia mais barata. Hoje esse custo já é menor que a gerada pela energia fóssil.
Entre os anos de 2010 e 2020, o preço dos painéis solares, por exemplo, caiu 90% tornando cada vez mais acessível a que podemos considerar a energia mais democrática existente. Isso em razão de suas múltiplas possibilidades deuso seja num pequeno painel instalado numa luminária até uma mega usina capaz de abastecer uma cidade.
Outros fatores como a maior eficiência energética e avanços tecnológicos tornaram as energias limpas muito mais atrativas, com enorme potencial para gerar postos de trabalho aumentando ainda mais a sua aceitação na sociedade e sendo um fator importante de crescimento econômico. Não é por outra razão que mais e mais empresas têm participado de encontros em que se discute aquecimento global, afinal mudanças climáticas são um sério fator de risco para os negócios.
Portanto, já que os governos não têm sido capazes de agir de maneira eficiente nessa transição colocando políticas públicas à serviço do combate ao aquecimento global, outros atores têm feito esse trabalho e fatores puramente de lógica econômica são protagonistas desse cenário.
Agora há de se perguntar: isso será suficiente para reduzirmos as emissões globais que evitem o aumento constante da temperatura no planeta? Difícil responder, mas inicialmente a resposta é não.
O fundamental trabalho da iniciativa privada precisará estar alinhado com as necessidades de toda a sociedade, bem como, receber apoios de políticas públicas capazes de atender as demandas, desobstruir os gargalos e, fundamentalmente, contribuir para o desenvolvimento e crescimento econômico.
O potencial brasileiro
No Brasil o cenário não é diferente ao encontrado no resto do mundo, mas com algumas características puramente nacionais. A energia elétrica produzida no país já é uma das mais limpas do mundo. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) 74,55% da energia elétrica brasileira tem como origem fontes renováveis somando a isso a energia produzida pela queima do bagaço e resíduos de cana de açúcar esse número sobe para 79%.
As condições para que o Brasil atinja um lugar ainda mais privilegiado nesse cenário são, simplesmente, fantásticas, pois temos um enorme potencial para o aproveitamento da energia solar e dos ventos.
Quando se fala em energia eólica, a potência instalada cresceu de 932 MW, em 2010, para 16.979 MW, em 2020, o que já é maior do que a potência instalada da Usina de Itaipu, a segunda maior usina hidrelétrica do mundo. Segundo as previsões da Associação Brasileira de Energia Eólica, a ABEEólica. a potência instalada deve alcançar 28 GW até 2024. Só no ano passado, a energia dos ventos foi responsável por evitar a emissão de 34 milhões de toneladas de CO2 correspondente ao gás carbônico emitido por 34 milhões de carros movidos à gasolina ou diesel. A energia eólica possui 12,7% de participação na matriz elétrica brasileira e já alcançou o sexto lugar no Ranking Global de Capacidade Instalada onshore, segundo a Global Wind Energy Council (GWEC) e continua a se expandir.
Em relação a solar, como já disse antes o custo da energia fotovoltaica se reduziu de maneira formidável em dez anos. Hoje, ela custa menos do que a energia eólica, e as duas custam menos do que a eletricidade de fonte hidráulica, fóssil ou nuclear.
Mas o Brasil ainda é o 13º produtor de energia fotovoltaica mesmo tendo um dos maiores potenciais de geração solar no mundo. Na matriz energética ela representa em torno de 2% sendo o uso residencial o mais difundido responsável por 72,6% de todas as instalações existentes e atingiu 30 mil imóveis, depois seguem empresas de comércio e serviços com 17,99% e o setor rural com 6,25%. Apesar de ainda pequeno a potência instalada de 4.460MW representa um crescimento de 45% em relação a 2018.
Por fim e não menos importante, o Brasil foi pioneiro no mundo por desenvolver um consistente programa de biocombustíveis desde os anos 70 do século passado com o Próálcool. De lá pra cá, o projeto só se consolidou. Recentemente novas iniciativas buscam promover ainda mais o uso desses combustíveis ao buscar dar viabilidade econômica do etanol e biodiesel celulósico, também chamado de segunda geração, que são produzidos a partir de resíduos agroindustriais que se encontram em abundância em nosso país.
Políticas públicas e ação coordenada
Para avanço dessas energias limpas e renováveis é preciso que além de esforços privados, sejam estabelecidas políticas públicas que incentivem a pesquisa e o desenvolvimento; formar cientistas especializados e criar infraestrutura que dê condições de trabalho para esses profissionais.
O fortalecimento da pesquisa dará condições para abordar todos os aspectos da transição energética, principalmente, para projetar redes de transmissão e distribuição inteligentes de eletricidade, projetadas para dar estabilidade ao sistema de geração distribuída que comportem as inúmeras novas ligações propiciadas pelos painéis fotovoltaicos. Aumentar no país a produção local de equipamentos e insumos responsáveis por essa transição criando valor e gerando milhares de empregos e mão de obra especializada. E, por fim, garantir políticas de longo prazo para o setor energético capazes de dar previsibilidade e confiança aos investidores que estarão seguros e comprometidos com o crescimento do país.
Por essa razão as eleições que se aproximam serão fundamentais para a construção do país que queremos a partir do ano que vem. Um Brasil mais próspero, sustentável e admirado em todo o planeta.
*Ricardo Galvão é cientista e ex-diretor do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e candidato a deputado federal (REDE-SP)
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Preservação do oceano é tema de exposição gratuita no Caminho Niemeyer
Programação terá cinco frentes: a exposição de quadros, artes digitais, instalação com esculturas feitas com materiais recicláveis, performances e extensa programação de oficinas e palestras
O Caminho Niemeyer recebe em sua cúpula a exposição “Niterói na Década do Oceano”, de 9 de setembro a 9 de outubro, com entrada gratuita. A programação é dividida em cinco frentes: a exposição de quadros da série “Mares e Corais”, com 37 pinturas da artista visual niteroiense Cris Duarte, além de suas artes digitais, uma área imersiva com projeções de imagens e sons do oceano, instalação de esculturas feitas com materiais recicláveis, a apresentação de uma performance, onde artistas irão reverberar a experiência oceânica da exposição através de seus corpos, além de extensa agenda de palestras e oficinas sobre ciência oceânica.
Promovida pela Prefeitura de Niterói e pela Secretaria Municipal das Culturas, com produção do Centro de Investigação Artística, a mostra que chega ao Caminho Niemeyer é parte integrante de um projeto maior: “Cidades na Década do Oceano”, que integra a agenda global da “Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável”, coordenada pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
Cris Duarte acredita que a arte assume importante papel nesta empreitada, como um dos canais eficazes para transmitir ideias e informações, despertando no público a conscientização sobre a questão da preservação dos oceanos. Em suas obras, a artista explora temas como uma praia, o mar revolto, um céu incrível, um recife de corais, o reflexo da água ou um veleiro em alto-mar.
“A ideia é que as pinturas gerem no público um sentimento de amor pelos oceanos. Quero usar a arte para chamar a atenção para este tema maior, que é a sustentabilidade, e que envolve ciência, política, tecnologia e ações governamentais”, destaca Cris Duarte.
De acordo com Marcia Marschhausen, responsável pela curadoria da exposição, neste trabalho Cris promove um diálogo com a realidade mundial, provocando a reflexão sobre os limites de atuação do artista e sobre o conceito de vanguarda.
A presidente do Grupo Executivo do Caminho Niemeyer, Bárbara Siqueira, lembra que esta é a segunda vez que a cúpula receberá uma exposição. Ela reforça que o espaço está de portas abertas para as artes.
“O Caminho Niemeyer é um espaço público, localizado no Centro da cidade, e tem como principal objetivo atrair não só os niteroienses, como também os turistas, levando entretenimento, cultura e lazer para todos”, diz.
Sobre a artista:
Cris Duarte (1968) é artista plástica radicada em Niterói/RJ. Advogada, abraçou um novo projeto de vida, mais feliz e leve: a arte. Com formação artística adquirida na adolescência, retomou à pintura e se integrou ao coletivo de artistas do Espaço BB Artes Visuais, mergulhando de uma vez por todas neste universo.
Em sua recente trajetória, participou da Exposição Coletiva “Modernistas”, no Museu Casa dos Contos, em Ouro Preto/MG; Exposição Individual “Mares & Corais”, no Espaço Cultural CEPERJ; Exposição Coletiva “Bonde 21”, na Fundação de Arte de Niterói/RJ, Sala José Cândido de Carvalho; Exposição Coletiva “Bonde 21”, na Fábrica Bhering; Exposição Coletiva no 6º Circuito de Artes Búzios RJ e Exposição Individual “Arte para quem ama o mar”, no Teatro Claro Rio/RJ.
Serviço:
Visitação:
de 09 de setembro a 09 de outubro de 2022
Local:
Cúpula do Caminho Niemeyer
Endereço:
Rua Jornalista Rogério Coelho Neto, s/n – Centro, Niterói
Horário:
De terça a sexta-feira, das 10h às 19h
Sábados e domingos, das 09h às 17h
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