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segunda-feira, 13 de setembro de 2021
Desmatamento e queimadas na Amazônia ameaçam a saúde pública
Por Elizabeth Thompson*, EOS
Na América do Sul, os incêndios podem causar quase 17.000 mortes evitáveis de outra forma a cada ano. A frequência dos incêndios na bacia amazônica tem sido associada ao clima – condições mais secas resultam em mais incêndios – mas a ação humana direta, como o desmatamento, também aumenta a frequência dos incêndios.
O desmatamento pode causar incêndios florestais que se espalham fora de controle por causa da queima da vegetação pelos humanos. A fumaça desses incêndios também interage com as nuvens e o Sol para reduzir o aumento das chuvas, o que cria condições secas e propensas ao fogo. Talvez de forma mais sutil, o desmatamento quebra o enorme ecossistema da floresta tropical, interrompendo o efeito da floresta no clima e criando um ambiente mais seco com maior risco de incêndio .
O número de incêndios – e a quantidade de poluição do ar gerada pelo fogo – na Amazônia Legal brasileira acompanhou de perto a taxa de desmatamento nas últimas 2 décadas. No início dos anos 2000, as altas taxas de desmatamento levaram a incêndios frequentes e poluição do ar. Com o tempo, o governo brasileiro promulgou políticas para proteger grandes áreas da floresta tropical e a taxa de desmatamento caiu. Na última década, porém, a taxa de desmatamento voltou a subir lentamente , trazendo consigo maiores riscos de incêndio e saúde.
Em um novo estudo, Butt et al . modela o ano de 2019 sob diferentes cenários de desmatamento para entender a ligação entre esses eventos na floresta tropical e a saúde pública.
Os pesquisadores descobriram que se 2019 tivesse correspondido o ano das últimas 2 décadas com o menor desmatamento, a poluição do ar regional teria sido substancialmente menor naquele ano, resultando em 3.400 mortes prematuras a menos na América do Sul. Se, por outro lado, as taxas de desmatamento em 2019 tivessem se igualado às do início dos anos 2000, antes que as regulamentações governamentais reduzissem as taxas, o número de incêndios teria aumentado 130% e o número de mortes teria mais do que dobrado para 7.900 .
Esses modelos demonstram a ligação entre a ação humana direta como o desmatamento e os riscos ambientais e, consequentemente, a saúde pública. Eles também mostram como as proteções ambientais do governo podem ter um impacto substancial na saúde humana. ( GeoHealth , https://doi.org/10.1029/2021GH000429, 2021)
Elizabeth Thompson, escritora de ciências
Referência:
Thompson, E. (2021), Amazon deforestation and fires are a hazard to public health, Eos, 102, 2021, https://doi.org/10.1029/2021EO162680
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Henrique Cortez *, tradução e edição.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/08/2021
Incêndios florestais e queimadas já impactaram 95% das espécies da Amazônia
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)
O fogo na Amazônia, provocado pela ação humana, pode ter atingido 95,5% das espécies de plantas e animais vertebrados conhecidas da Amazônia, como revela um estudo publicado nesta quarta-feira pela revista científica “Nature”. Com a participação de cientistas brasileiros, a pesquisa demonstra em números como incêndios e queimadas atingem o bioma, que guarda 10% da biodiversidade do planeta.
Os incêndios na Amazônia já afetaram o habitat de 85,2% das espécies de plantas e animais ameaçadas de extinção na região. As espécies não ameaçadas tiveram 64% de seu habitat impactado pelas chamas. Quase 190 mil quilômetros quadrados da floresta amazônica queimaram entre 2001 e 2019, período analisado pela pesquisa.
Das espécies listadas como ameaçadas de extinção na Amazônia pela IUCN (International Union for Conservation of Nature), foram atingidas pelo fogo 236 das 264 espécies de plantas, 83 das 85 espécies de pássaros, 53 das 55 espécies de mamíferos, 5 das 9 espécies de répteis e 95 das 107 espécies de anfíbios.
Ainda que o desmatamento leve a grandes perdas de área de habitat natural, o fogo que vem depois da derrubada exacerba esse impacto. “O desmatamento é o principal vilão da biodiversidade da Amazônia, com os incêndios florestais logo atrás”, explica o pesquisador Paulo Brando, do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e da Universidade da Califórnia em Irvine, um dos autores do estudo.
Essa é a primeira análise feita sobre o impacto de políticas ambientais contra desmatamento e fogo na diversidade de plantas e animais. Para chegar nos resultados, os pesquisadores combinaram mapas de distribuição de espécies conhecidas com registros de satélite dessas ações provocadas pelo homem no período analisado.
“Muitas espécies de plantas e animais da Amazônia possuem distribuições restritas, o que aumenta as chances desses incêndios florestais causarem grandes perdas em biodiversidade”, diz Brando. Os autores ressaltam que os números apresentados estão provavelmente subestimados, por não considerarem outras espécies do reino animal nem a perda de biodiversidade ocorrida antes de 2001, além de outros fatores.
Impactos das decisões
O trabalho ainda destaca a influência das políticas ambientais na região, e divide a história recente da Amazônia em três períodos: antes de 2008, quando medidas de controle do desmatamento estavam enfraquecidas ou em processo de efetivação; entre 2009 e 2018, quando uma série de políticas para reduzir o desmatamento e os incêndios foi implementada e bem-sucedida; e 2019, ano em que o aumento da área queimada nos primeiros oito meses coincide com o relaxamento do governo brasileiro na aplicação dessas políticas. “As mudanças de 2019 mostram um retrocesso gigantesco na conservação da Amazônia; se fizermos um paralelo com a indústria automotiva, seria como se tivéssemos retirado o cinto de segurança dos nossos carros em pleno século 21”, diz Brando.
Mesmo que a área impactada pelo fogo na Amazônia tenha oscilado ao longo do tempo, novas áreas queimadas por ano não ficam abaixo da média de 3 mil km² – notadamente, alerta o estudo, tanto o acumulado do território do bioma atingido por incêndios quanto o impacto no habitat de espécies continuaram a crescer em ritmo constante durante todo o período observado. E a cada novos 10 mil km² de floresta queimada, calculam os pesquisadores, até 40 espécies a mais podem ser prejudicadas.
“Se reduzirmos o desmatamento na Amazônia, podemos também reduzir o número de incêndios florestais e as perdas em biodiversidade associadas”, afirma Brando. “Ao perdermos a biodiversidade por incêndios, perdemos vários serviços ecossistêmicos; perdemos também um dos pilares da resiliência de florestas amazônicas.”
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/09/2021
QUEIMADAS NA AMAZÔNIA INTENSIFICAM
A alta dos focos de calor registrada confirma o 3° pior mês de agosto dos últimos 11 anos e comprova que a prioridade do governo atual nunca foi proteger o meio ambiente
Dados divulgados hoje pelo sistema de monitoramento do INPE mostram que, neste mês de agosto, o fogo na Amazônia registrou o número alarmante de 28.060 focos de calor. É o terceiro maior índice para o mês desde 2010, perdendo apenas para 2019 e 2020, sendo que todos esses anos foram marcados pelo governo Bolsonaro e sua política antiambiental. A alta segue, mesmo com o Decreto nº 10.735 em vigor desde 29 de junho, que proíbe o uso do fogo, portanto todas as queimadas registradas em agosto são ilegais.
“Desde 2019, a quantidade de focos de calor registrada em agosto tem atingido patamares absurdos. É como se o governo tivesse criado um “padrão Bolsonaro” de destruição, onde os focos de calor e desmatamento são bem superiores em comparação ao período anterior à gestão de Bolsonaro. Tamanha destruição é resultado de uma visão retrógrada de desenvolvimento que não conversa ou beneficia a maioria dos brasileiros, além de seguir na direção contrária dos esforços para conter a emergência climática”, declara Cristiane Mazzetti, Gestora Ambiental do Greenpeace.
O estado do Amazonas, pela primeira vez no mês de agosto desde ao menos o ano 2000, concentrou o maior número de focos, foram 8.588, 30% do total, seguido do Pará (28%) e de Rondônia (15%). Os números refletem a preocupante escalada do desmatamento na região do sul do Amazonas, que já vinha sendo identificada pelos sistemas de monitoramento.
“Estamos vivendo uma crise na saúde e uma crise climática, ambas agravadas com os recordes de queimadas e desmatamento. Mas ao invés de combater o crime ambiental e garantir o bem-estar dos mais impactados pelos incêndios florestais, o governo federal opta pelo enfraquecimento deliberado das políticas de proteção ambiental, enquanto o Congresso Nacional discute projetos que ameaçam as terras indígenas e que vão estimular mais grilagem, desmatamento e queimadas – PL 2633, PL 490 e outros – expondo ainda mais a saúde do povo brasileiro e contribuindo para novas crises hídricas que deixam a conta de luz dos brasileiros cada vez mais cara”, completa Cristiane.
A ameaça às nossas florestas e seus povos vêm de todos os lados, a tese do Marco Temporal, que propõe que povos indígenas só teriam direito ao território a partir de ocupação física deste no dia de promulgação da Constituição Federal, está em discussão essa semana no STF. O julgamento do caso será decisivo para o futuro dos povos e terras indígenas de todo o país, e portanto, a tese do Marco Temporal precisa ser rejeitada. A demarcação e proteção de territórios indígenas são fundamentais na proteção da Amazônia e no combate às mudanças climáticas.
Fonte: Greenpeace Brasil
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/09/2021
domingo, 12 de setembro de 2021
Mudança Climática pega no seu bolso
por Claudia Visoni, ambientalista e codeputada estadual, Raquel Marques, sanitarista e codeputadas estadual e Duda Alcântara, arquiteta e coordenadora da Comissão Parlamentar do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo –
O clima mudou e as secas, enchentes, ondas de calor e de frio se tornarão cada vez mais numerosas e intensas daqui para frente. Isso é o que os cientistas estão avisando faz tempo, mas agora ficou impossível discordar, pois estamos vendo desastres climáticos todos os dias. No hemisfério norte o verão de 2021 tem sido arrasador. A Itália registrou a temperatura recorde de 48,8ºC, os termômetros chegaram a 49ºC no Canadá e a 52ºC no Iraque. China e Alemanha tiveram enchentes devastadoras, a Sibéria incendiou e os Estados Unidos vivem uma seca terrível, muitos incêndios e ondas de calor. Agora em agosto, 10 estados norte-americanos estão entrando em racionamento de água.
Aqui no Brasil também estamos passando por uma seca histórica. Os reservatórios ficam mais vazios a cada dia, o que coloca em risco a produção de energia, de alimentos e o abastecimento de água. Tivemos uma onda de frio muito intensa, que levou neve e geada a locais onde isso não é usual, reduzindo as safras agrícolas. A crise do clima já está doendo no bolso das brasileiras e dos brasileiros, pois energia elétrica e comida encareceram por causa da seca.
Temperaturas extremas não prejudicam apenas as colheitas. Elas são um grave problema de saúde pública. Nas ondas de calor recentes da Europa, Estados Unidos, Canadá e Iraque, por exemplo, milhares de pessoas morreram subitamente e muito mais gente teve sua situação de saúde agravada. Idosos e crianças pequenas correm mais riscos. Como os problemas climáticos não vão desaparecer e tendem a piorar, quanto antes começarmos a nos preparar para essas situações, melhor.
Tudo está por fazer e nossas leis ainda não levam em conta a nova realidade do planeta. Nós três, autoras desse artigo, participamos da política no Estado de São Paulo e decidimos escrever o Projeto de Lei da Segurança Climática, que representa um primeiro passo nessa necessária transformação. E qual é o local que precisa ser mais protegido para que as pessoas tenham condições de vida? A residência, certo? Em casa dormimos, nos alimentamos e nos refugiamos quando necessário. Então a prioridade na adaptação dos ambientes deve ser das moradias. Pensando nisso, a proposta da nova lei é muito simples: que os condomínios sejam obrigados a discutir os riscos climáticos e a criar planos para cuidar melhor de seus moradores diante da possibilidade de temperaturas elevadíssimas ou muito baixas, falta d’água, apagão e avanço do mar. Decidimos focar nas moradias coletivas, os condomínios, pois os habitantes de casas individuais têm mais liberdade de construir suas soluções sem estarem amarrados aos desejos de outras pessoas.
Não queremos ditar o que precisa ser feito para que cada condomínio se prepare para os problemas do clima. Os diferentes agrupamentos de residências vivem realidades próprias, o que inclui a disponibilidade de mais ou menos dinheiro para investir em obras. Há algumas décadas, incêndios terríveis em grandes edifícios deram origem a normas de construção e procedimentos de emergência que hoje são regras que todas as construções precisam cumprir. Não queremos esperar tragédias e mortos para iniciar a era das adaptações climáticas. Já é certeza que as condições atmosféricas e hídricas ficaram mais hostis, então não podemos adiar as precauções. E tudo começa com colocar nas pautas das reuniões de condomínio a avaliação dos riscos e as providências que precisam ser tomadas.
A ONU acaba de lançar o manual chamado “Um Guia Prático para Construções e Comunidades Resilientes ao Clima” que pode ser encontrado na internet e tem muitas sugestões de baixo custo. Além disso, recomendamos avaliar a possibilidade de implantar soluções como cisternas e reúso de água, estratégias de resfriamento passivo (ventilação natural, beirais e sombras nas fachadas), energia solar, biogás, telhados verdes, jardins e arborização, lagos artificiais, pisos permeáveis e semipermeáveis, telhados verdes e uso de materiais de construção com melhor desempenho térmico. É preciso lembrar que não poderemos confiar totalmente em soluções que dependam da energia elétrica, uma vez que o Brasil está vivendo a possibilidade de racionamento e nos locais onde acontecem eventos climáticos extremos muitas vezes o abastecimento de energia é interrompido.
Diante de um desafio tão gigantesco como a mudança do clima no planeta inteiro, nossa tendência é a negação ou o pânico. Mas há muito o que fazer para amenizar a situação. As adaptações, um caminho importante para que nossas vidas sigam em relativa normalidade, demandam tempo e algum dinheiro. Por isso precisam começar o quanto antes. Cada pode iniciar com as pequenas atitudes e intervenções que sejam possíveis agora.O importante é agir.
(#Envolverde)
Restauração – O caminho para re-equilibrar a presença humana na Terra
Por Neuza Árbocz, especial para Envolverde –
As atividades humanas ganharam uma escala sem precedentes, capaz de alterar o equilíbrio climático no planeta. Diversos estudos científicos mostram ano a ano evidências desta conexão. Inclusive o mais recente relatório do Painel de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, resultado de dois anos de trabalho de 103 peritos de 52 países, divulgado em agosto deste ano.
“Influência humana aqueceu o clima a uma taxa sem precedentes, ao menos nos últimos 2000 anos” – Mudanças nas temperaturas globais desde 1850 – IPCC, 2021.
https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/downloads/report/IPCC_AR6_WGI_SPM.pdf
Além da emissão de gases poluentes, o desmatamento constante é um dos fatores que mais influenciam a crise climática e ambiental atual. A supressão de florestas não elimina apenas árvores e animais, mas também seu papel crucial no ciclo hidrológico, na proteção do ar e dos solos, e na manutenção da biodiversidade de micro e macro organismos, vitais para a manutenção da vida na Terra.
Esta influência passou despercebida por séculos, a ponto da prática de “eliminar o mato” ser sinal de progresso para boa parte da humanidade. Os apreciadores apenas de ambientes urbanizados e industrializados ignoraram, por longo tempo, a dependência destes das áreas naturais ao seu entorno.
Povos originários, tachados como “selvagens”, foram expulsos ou dizimados para dar lugar a estradas, ferrovias, usinas, cidades, lavouras e pastos. Em 2007, um levantamento do Greenpeace apurou que a Europa Ocidental havia perdido 99,7% de suas florestas primárias; a Ásia, 94%; África, 92%; Oceania, 78%; América do Norte, 66% e América do Sul, 54%. Em 2010, o relatório da FAO, Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, elaborado por 900 especialistas de 178 países, identificou que restavam pouco mais de 4 bilhões de hectares de floresta no mundo, isto é, 31% da área de terra do globo.
Prioridade mundial
À medida que a compreensão do papel das matas nativas nos ciclos hidrológicos e climáticos do planeta cresceu, conter a destruição das florestas se tornou uma prioridade mundial. Iniciativas como o Observatório Global das Florestas, https://www.globalforestwatch.org/, utilizador de alta tecnologia em seu monitoramento desde o princípio dos anos 2000, mostraram ser insuficiente apenas proteger o que restou.
É preciso restaurar, se quisermos evitar mais e mais secas, geadas, inundações, tornados e outros eventos climáticos que destroem vidas.
Trocar pastos e monoculturas que exaurem o solo e requerem cada vez mais terras e terras para manter seus lucros míopes, por florestas nativas e/ou consorciadas, tem se provado um caminho viável para trazer resiliência à existência humana neste planeta.
O nível de produção em áreas junto às matas é maior. A presença de árvores variadas, assim como de maior biodiversidade de plantas, insetos e da fauna em geral, dificulta a propagação de pragas, torna o solo mais permeável e vivo, o clima mais ameno, retém mais água no subsolo, protege nascentes e cursos d’água, assim como incentiva ciclos de chuva mais regulares. Isso graças à maior umidade no ar e às partículas formadoras de nuvens emitidas na evapotranspiração das florestas, como comprovado por estudo da USP, em conjunto com cientistas de Harvard, de Berkeley e do Instituto Max Planck, da Alemanha, já em 2012, entre outros.
“Para a formação de nuvens, é essencial não apenas que as árvores transpirem umidade, mas também que as flores e folhas produzam seus perfumes,” destacou Carlos Nobre, cientista da Universidade de São Paulo, conhecido mundialmente por seus estudos sobre a ligação entre os biomas e a atmosfera. O especialista detalha que os aromas são transformados, pelo contato com a luz solar, em uma partícula sólida. Em torno dela, forma-se uma pequena gota d’água. “Estas partículas microscópicas são o núcleo de condensação das gotículas de água das nuvens. Quando a floresta desaparece, essa formação diminui muito”, explicou o pesquisador, a convite da Climatempo, empresa de previsão meteorológica engajada no combate às mudanças climáticas.
A própria Embrapa estuda e recomenda a adoção da Integração de Lavoura, Pasto e Floresta (ILPF) pois documentou maior engorda do gado neste sistema, menor uso de insumos químicos e uma compensação climática indireta pela captura de gás carbônico pelas árvores em crescimento, como contraponto aos danos causados pelo metano expelido pelo gado. Árvores são incapazes de reter metano; contudo ao sequestrarem o CO2 em seu crescimento, reduzem a pressão, como um todo, dos gases de efeito estufa (GEEs) na atmosfera. Até 2020, o Brasil somava 15 milhões de hectares convertidos para o sistema ILPF e pode chegar a pelo menos o dobro até 2030, segundo a estatal.
Biomimética florestal
A Integração Lavoura, Pasto e Floresta (ILPF) é bastante diferente, contudo, de uma restauração com todos os benefícios ambientais (ou os chamados ‘serviços’ ambientais) que matas nativas provêm. “Existe a restauração da forma – isto é, onde havia árvores, replantam-se árvores. Sem distinção nem estudo da paisagem originária. Pode ser apenas uma monocultura para madeira, por exemplo”, diferencia o agrônomo, Géza de Faria Árbocz, especialista em estudos de Impacto Ambiental e projetos de recuperação ambiental. “E existe a restauração de função. Onde buscam-se todas as condições de biodiversidade, tanto vegetal quanto animal, como características de solo, para recuperar os ciclos naturais então existentes, com todos os benefícios que geravam antes do desmatamento”.
Guto Freitas, engenheiro florestal responsável por grandes viveiros de mudas arbóreas no estado de São Paulo e por projetos restaurativos de grande porte, concorda. “Precisamos olhar mais para a natureza. Entender as correlações ali existentes. Tanto entre as plantas entre si, como com animais, insetos e fungos. Restaurar um bioma é uma operação que requer perspicácia e observação aprofundada”, comenta o responsável por mais de 20 mil hectares recuperados nos últimos dez anos. “A restauração pode ter foco nos serviços ecossistêmicos, e pode também, a depender da área e situação legal, ser mista, com espécies de potencial comercial, tanto frutíferas, como aromáticas ou de madeira, com o manejo adequado”, esclarece.
Uma espécie como o pau rosa, por exemplo, muito valorizada pelo uso na perfumaria, só pode ter uma muda inserida a cada 2 ou 3 hectares de restauração. “Esta é uma árvore de crescimento lento e que tem mais aroma na maturidade. Mas não adianta plantar várias, próximas umas das outras, pois o equilíbrio florestal para seu crescimento fica prejudicado. Toda restauração deve iniciar com um estudo ambiental detalhado do território”, conclui Freitas.
O Brasil reafirmou seu compromisso assinado no Acordo de Paris em 2015, de restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. Para isso, teria que investir de R$ 31 bilhões e R$ 52 bilhões por 14 anos, segundo estudo de 2016 do Instituto Escolhas, em conjunto com a Fundação Getúlio Vargas, a pedido da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, movimento formado por mais de 120 empresas, associações setoriais, organizações da sociedade civil e centros de pesquisa em busca de soluções produtivas e ecológicas para o país.
O estudo também apontou que esta atividade geraria de 138 mil a 215 mil empregos e a arrecadação de R$ 3,9 a R$ 6,5 bilhões em impostos. Apesar do país ter ido na contramão desta direção – voltamos a registrar recordes de desmatamentos nos últimos anos – ainda é possível recuperarmos o tempo perdido e consolidarmos uma moderna indústria de recuperação florestal no país.
“A floresta recuperada será fonte de atividades econômicas, por meio das cadeias produtivas dos seus produtos, movimentando dezenas de bilhões de dólares nas próximas décadas”, previu o levantamento acessível neste link: https://www.escolhas.org/wp-content/uploads/2016/09/Quanto-o-Brasil-precisa-investir-para-recuperar-12-milhoes-de-hectares-de-floresta_SUMARIO-EXECUTIVO.pdf
De 2000 a 2019, um total de 27 milhões de hectares de florestas foram restauradas em todo o mundo. Isto alcança 18% da meta de 150 milhões de hectares abraçada pelos 61 países participantes do Desafio de Bonn, em 2011. Um avanço que pode acelerar, quanto mais governos e produtores olharem para os benefícios alcançados por quem saiu à frente.
#Envolverde
quinta-feira, 9 de setembro de 2021
EcoDebate - Edição 3.742 de 09 / setembro / 2021
Campanha do Mix de Comunicação Sustentável
A dimensão humanista dos profissionais da engenharia
Mudanças climáticas impactam cada vez mais nossas vidas
Estudo global de poluição por incêndios florestais revela aumento na taxa de mortalidade
Mais de 48 mil brasileiros hospitalizados anualmente por exposição à poluição de incêndios florestais
Limitar a extração de combustível fóssil para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C
Em seu centenário, Paulo Freire é mais necessário do que nunca
Infraestrutura verde: um caminho para a sustentabilidade hídrica
EcoDebate - Edição 3.741 de 08 / setembro / 2021
O Afeganistão e o declínio do Império Americano
Brasil, colônia de superexploração?
Mudanças no clima já afetam a reprodução dos ipês
Aquecimento do clima está fazendo com que os animais ‘mudem de forma’
Expansão da infraestrutura global ameaça áreas protegidas
Pesquisador analisa criticamente o Projeto de Lei Geral do Licenciamento Ambiental
Perda de superfície de água no Brasil não é culpa da ausência de chuva
Oceano Ártico no verão provavelmente estará livre de gelo antes de 2050
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