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sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Queimadas e secas frequentes ameaçam a capacidade de recuperação do Pantanal

Um estudo estima que quase 60% dos 22 mil focos de queimadas detectados pelo Inpe no Pantanal em 2020 foram provocadas por atividades agropastoris Com a seca extrema enfrentada pelo Pantanal em 2021, o fogo já começa a preocupar especialistas. Embora o número de queimadas no primeiro semestre ainda seja bem mais baixo que no mesmo período do ano passado, o bioma está enfrentando uma estiagem ainda mais severa, que deixa a comunidade científica em alerta para evitar que se repita a tragédia de 2020. Depois de uma temporada excepcionalmente seca em 2019, os incêndios bateram recordes inimagináveis no ano passado, produzindo a maior devastação já registrada na história do Pantanal. O fogo provocado pela estiagem faz parte da dinâmica natural do bioma, cujo equilíbrio depende da alternância entre períodos de alagamento e de seca. As espécies que prosperam na temporada úmida têm estratégias que lhes permitem sobreviver à estação seca, recuperando rapidamente o espaço perdido quando cessam as queimadas e voltam as chuvas. Mas esse ciclo de regeneração natural pode ser comprometido, alertam especialistas, caso queimadas tão intensas quanto as de 2020 ocorram por anos consecutivos – um risco bastante real, considerando as mudanças climáticas. Um estudo feito pelos Ministérios Públicos de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso estima que quase 60% dos 22 mil focos de queimadas detectados pelo Inpe no Pantanal em 2020 foram provocadas por atividades agropastoris. O ano passado foi especialmente catastrófico para o bioma porque o número de focos superou a soma de 2019, 2018 e 2017. Nunca se viu nada igual. Até então, o recorde, alcançado em 2005, era de 12,5 mil focos. A área afetada pelo fogo em 2020 também não tem precedentes: mais de 40 mil km² ou mais de 27% da cobertura vegetal do bioma no Brasil. O recorde anterior havia sido também em 2005, quando 27 mil km² foram destruídos. O impacto na fauna ainda não foi inteiramente mensurado, mas estimativas realizadas ainda no auge das queimadas do ano passado sugeriam que, em setembro, o fogo já havia atingido ao menos 65 milhões de animais vertebrados e 4 bilhões de invertebrados. Mesmo após um impacto dessa magnitude, de acordo com especialistas, o Pantanal tem grande capacidade de regeneração – ao menos em algumas partes do bioma, que tem ambientes com características muito diversas, como explica Christine Strüssmann, professora de Ecologia e Conservação da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). “A fauna do Pantanal tem grande capacidade de recuperação em alguns ambientes, como as áreas de campo inundável, que são sujeitas anualmente aos ciclos de cheias e seca acompanhada de fogo. Ali, a fauna se regenera com muita rapidez. Em outras áreas que não estão sujeitas ao fogo recorrente, como as matas ciliares, dificilmente haverá recuperação”, diz. Segundo ela, muitos animais têm estratégias para escapar, mesmo onde há o chamado “fogo subterrâneo”, que arde sob a cobertura de turfa quando as chamas já parecem ter cessado. Christine relata que é comum observar roedores em atividade dentro de buracos onde o chão ainda está fumegante – um exemplo dessas estratégias. Ainda assim, uma enorme quantidade de animais não resiste. “O problema é que o tempo de duração do fogo foi muito grande em algumas áreas e, nesses casos, tanto a fauna quanto a flora têm mais dificuldades de recuperação. Nos campos inundáveis, logo após os incêndios, observamos intensa atividade de peixes, sapos e caranguejos. Mas em cada área do bioma a resposta é diferente”, afirma a professora. Impactos na fauna. Christine coordenou uma das equipes de campo que realizou o primeiro grande inventário sobre a magnitude do impacto das queimadas de 2020 na fauna vertebrada pantaneira. O trabalho, resultado de uma parceria entre diversas instituições de pesquisa que atuam no Pantanal – incluindo a UFMT, que teve apoio do WWF-Brasil –, permitiu estimar a mortalidade de animais em grandes áreas do Pantanal logo após a passagem do fogo. “Várias equipes de pesquisadores percorreram longos trechos atingidos por queimadas, em áreas que vão do norte do Pantanal ao Mato Grosso do Sul, contando e registrando as carcaças de animais mortos, em períodos de 24 a 48 horas após a passagem do fogo”, explica Christine. Nunca havia sido realizado um estudo dessa magnitude, com uma metodologia única, em uma área tão grande do Pantanal, salienta ela. Esse trabalho é importante também porque fornece uma base para que novas pesquisas possam revelar a dimensão do impacto global do fogo no ecossistema. Embora a falta de dados prévios impeça uma análise precisa dos impactos sofridos pela fauna em 2020, os pesquisadores verificaram que algumas populações foram mais atingidas. “O número de serpentes que conseguimos ver foi maior que dos outros grupos. Não temos uma base prévia para comparação – e as populações de serpentes podem ser muito maiores que as de outros grupos. Porém, mesmo entre as serpentes, o impacto foi desigual. As aquáticas foram especialmente atingidas”, afirma. De acordo com o estudo, a taxa de mortalidade foi alta principalmente entre os répteis, concentrando mais de 79% do total de animais mortos. Destes, mais de 95% eram serpentes, sendo que 97% delas eram aquáticas. Os mamíferos foram pouco mais de 15% do total e os anfíbios, 4%. O número de aves mortas encontradas foi baixo. De acordo com a bióloga Paula Valdujo, especialista em conservação do WWF-Brasil que acompanhou a realização do estudo, a grande diversidade de ambientes do Pantanal, com determinadas espécies adaptadas a cada um deles, ajuda a explicar o impacto heterogêneo. “Áreas que nos anos anteriores ficaram submersas estão expostas por conta da estiagem. O Pantanal tem grande abundância de espécies aquáticas e semiaquáticas de vertebrados, que foram as mais impactadas. A seca extrema seguida de fogo foi uma receita pavorosa para os animais que vivem na água, alimentam-se de peixes, mas sobem para utilizar a vegetação marginal”, destaca Paula. Estratégias de sobrevivência. Apesar de o impacto na fauna ter sido imenso e preocupante, de acordo com Paula, não significa a extinção total. “Os ecossistemas pantaneiros têm grande resiliência. Assim como no Cerrado, a vegetação retorna após as queimadas e as espécies da fauna voltam a habitá-las, ainda que muitos fatores possam tornar esse processo demorado”, pondera. É provável que a fauna atingida pelo fogo em 2020 se regenere completamente, acredita Paula, mas tudo vai depender do que acontecer daqui em diante. “O impacto do fogo é cumulativo. A vegetação volta após a queimada, mas, se a chuva for reduzida por mais um ou dois anos consecutivos, com grandes incêndios se repetindo, certamente essa resiliência pode ser comprometida “, alerta a bióloga. Infelizmente, essa é uma perspectiva real. O período de secas no Pantanal começa em maio e tem seu auge em setembro. Mas, após chuvas fracas em dezembro do ano passado e janeiro de 2021, a estiagem já teve início e a seca deste ano parece ainda mais severa que a de 2020. “Tivemos secas intensas por dois anos seguidos e a de 2021 é recorde, com o Rio Paraguai próximo ao nível mais baixo da série histórica iniciada em 2016. É provável que a seca seja pior que as dos últimos anos, que foram intensas”, explica Paula. “Áreas que normalmente ficam submersas já estão muito expostas. Com as secas intensas e repetidas, a vegetação de áreas que normalmente já estariam inundadas se acumula, formando tufos secos de capim altamente inflamável”. Nesse contexto, o impacto das mudanças climáticas representa uma grave ameaça ao bioma. Apesar da relevância do fogo para o ecossistema pantaneiro e para o processo ecológico, as queimadas frequentes e em grande escala podem levar a impactos negativos cumulativos. Paula explica ainda que o desmatamento no Pantanal – mas também na Amazônia e no Cerrado – podem, de fato, tornar mais recorrentes os eventos extremos de estiagem, desequilibrando o complexo ciclo natural que garante o “pulso” de alagamento e seca característico do bioma. “Não adianta nada termos uma política extremamente restritiva no Pantanal se as cabeceiras dos rios não forem conservadas no Cerrado”, afirma. Tudo o que acontece na Bacia do Alto Paraguai, salienta ela, afeta o Pantanal e alterações ambientais produzidas no planalto têm impacto nas partes baixas. “Por outro lado, sabemos que parte das chuvas do Pantanal dependem da Amazônia, onde o desmatamento também piora a situação climática. Por isso, o planejamento territorial é fundamental, assim como a conservação de áreas protegidas e o cumprimento do Código Florestal. As políticas públicas para o Pantanal não podem se limitar ao bioma”, frisa Paula. Ciclos sobrepostos. Os impactos das mudanças climáticas nos ciclos do Pantanal certamente já estão sendo sentidos, mas a complexidade desses fenômenos torna muito difícil saber até que ponto eles determinaram a seca atual e os incêndios extremos de 2020, segundo a professora Catia Nunes da Cunha, especialista em ecologia de áreas alagáveis do Instituto de Biociências da UFMT. “O Pantanal é uma moeda com duas caras, a fase seca e a fase inundada. Mas, além do ciclo anual que conhecemos, há também grandes variações plurianuais. Isto é, a longo prazo, o ciclo anual se sobrepõe a grandes períodos mais úmidos, alternados por grandes períodos de estiagem mais forte, com muito fogo”, diz a pesquisadora. De acordo com ela, os últimos 40 anos corresponderam a um ciclo plurianual úmido. Em contrapartida, entre 1963 e 1973, houve um longo período seco, sem inundações. “Sabemos que no período seco da década de 1960, a vegetação adaptada à inundação regrediu, expandindo-se novamente nos últimos 40 anos e dominando a paisagem. Mas ainda não podemos afirmar com certeza se estamos entrando em um novo período de grandes estiagens”, pontua Catia. Essa hipótese está sendo estudada. Catia coordena uma equipe de campo da UFMT que está avaliando o efeito do fogo sobre a vegetação pantaneira. Os pesquisadores trabalham em nove parcelas permanentes que são estudadas desde 2006. As árvores são etiquetadas e o grupo analisa o grau de mortalidade e a capacidade de regeneração das diversas espécies da flora após os incêndios. “Verificamos que, no Pantanal, apesar da presença ocasional do fogo, a vegetação não era dramaticamente afetada, havia uma considerável capacidade de regeneração, mesmo nas matas secas e cerradões. Nossa hipótese é que, nos anos úmidos, algumas espécies, como o cambarazal, se expandem e ocupam grandes áreas que antes eram secas e começaram a inundar”, explica. Prós e contras. A seca e as queimadas de 2020, relata Catia, levaram muitas árvores a morrerem com a falta de água, mesmo em áreas que não foram atingidas pelo fogo. Por outro lado, em áreas de florestas secas, há espécies que se beneficiam das chamas. “Vimos que nas áreas queimadas o impacto depende da intensidade do fogo. Uma antiga floresta de cambarás, com árvores grandes e bem estabelecidas que estudávamos há vários anos – e que sempre se recuperava após as queimadas -, foi totalmente destruída após os incêndios de 2019 e 2020. Quando as labaredas são muito altas, em um horário muito quente do dia, o impacto é mais grave”, diz. A alternância entre a fase seca e úmida é o que controla a vegetação, destaca Catia. “Os períodos plurianuais fazem expandir ou regredir a tipologia da vegetação em função de quem tem afinidade com a umidade e quem não suporta a inundação. O maior problema do fogo é a reincidência. Se realmente estivermos entrando em um longo período seco, muitas espécies vão se alastrar e outras vão se retrair, mudando a cara do Pantanal por vários anos”, diz. Embora a seca de 2021 esteja ainda pior que a de 2020, até o início de julho o número de focos de queimadas no acumulado do ano era equivalente a um décimo do que foi detectado no mesmo período em 2020. Isso aconteceu provavelmente porque o tempo foi muito curto para que o emaranhado de vegetação se desenvolvesse – e, portanto, há menos biomassa para ser queimada, de acordo com Catia. Para o professor Geraldo Damasceno, do Laboratório de Botânica e de Ecologia Vegetal da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o que chamou a atenção em 2020 foi o tamanho da área queimada. “Foi um ano muito seco e áreas que dificilmente estariam disponíveis para pegar fogo acabaram se incendiando”, diz o biólogo. Boa parte do Pantanal é composta por vegetação herbácea, que tem uma dinâmica resistente a queimadas. Quando o fogo passa, destrói a vegetação exposta, mas um “banco de sementes” de plantas terrestres e aquáticas permanece nas camadas subterrâneas. Quando a inundação volta, a tendência é que a vegetação herbácea se recupere. “Sempre há espécies mais sensíveis que reduzirão sua cobertura. Outras, beneficiam-se do fogo e se alastram, incluindo espécies arbóreas. Os bancos de sementes são muito resistentes e é possível que esteja tudo verde novamente no ano que vem”, explica Damasceno. De acordo com ele, todo o sistema é altamente resiliente, contanto que não se perca o pulso de cheias e secas. “Se um período seco permanecer por muitos anos, aí sim é bastante complicado para a sobrevivência de diversas plantas. Se o Pantanal parar de pulsar, temos realmente um problema. Esse pulso também é afetado pelo desmatamento nas bordas do bioma.” Manejo do fogo. O professor destaca a importância do manejo integrado do fogo no bioma e menciona o estudo feito pelos Ministérios Públicos (MPs) de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que atribui à ação humana a maior parte das queimadas ocorridas no Pantanal em 2020. “Os pesquisadores do MP fizeram um levantamento das áreas onde os principais focos de fogo aconteceram, mapearam algumas fazendas e descobriram que a maior parte do fogo teve origem na prática de limpeza do terreno. Esse manejo pode e deve ser feito, mas é preciso ter cuidado. Provavelmente usaram o fogo como costumavam fazer sempre, mas devido às condições da seca, os incêndios se espalharam. Se houvesse um sistema de prevenção do fogo atuante, um alarme geral teria sido dado”, diz Damasceno. Colega de Damasceno, o agrônomo Arnildo Pott, professor do Departamento de Biologia da UFMS que estuda a biologia vegetal do Pantanal há várias décadas, explica que, uma vez que os incêndios saem do controle, é muito difícil deter seu alastramento quando as condições são muito secas. “As turfeiras, muitas vezes, formam mais de um metro de solo orgânico e inflamável, acumulado eventualmente por 20, 30 ou 40 anos. Nessas áreas, depois da passagem do fogo, quando o incêndio já parece debelado, tudo está queimando por baixo, como uma brasa de cigarro. Assim, o fogo que foi apagado em uma área, pode incandescer durante a noite e se espalhar por outras áreas”, explica Pott. Ele conta que, dependendo da força do fogo, ele não pode ser detido nem mesmo por aceiros – faixas nas quais a vegetação é suprimida de forma a isolar uma parte da floresta e evitar o alastramento de incêndios. “Já vimos fagulhas atravessando o Rio Paraguai e incendiando a outra margem. Seria impraticável instalar um aceiro maior que o rio”, analisa. Fogo até na água. O fogo planejado e controlado pode reduzir os incêndios, de acordo com Pott. “As queimadas diminuíram depois que o fogo passou a ser regulamentado. O problema é que, em condições muito secas, é preciso muito cuidado para fazer esse manejo. Dependendo das condições, o fogo pode até mesmo passar por cima de corpos d’água. O rabo-de-burro, que é um capim alto, cresce dentro das lagoas e fica com a parte superior seca acima da água, permitindo que o fogo se alastre sobre a lagoa”, afirma. Pott faz uma distinção entre a seca atmosférica e a seca no solo. “No ano passado, as duas se somaram. Não choveu muito e não houve inundações. O manejo do fogo não foi modificado e o resultado foi catastrófico”, lembra. O professor começou a trabalhar no Pantanal no início da década de 1980 e conta que, naquela época, os moradores locais ainda estavam adaptados ao período seco que predominou até 1974. “Eles contam que atravessavam o Rio Paraguai a pé, a cavalo, de jipe e de trator. A seca foi tão prolongada que as pessoas construíram casas em locais que hoje são completamente alagados”, declara Pott. Ainda não é possível saber, segundo Pott, se essa situação vai perdurar, como na década seca iniciada em 1963, e se, com isso, incêndios como os de 2020 se tornarão mais frequentes, comprometendo o equilíbrio do bioma. Mas, pelo menos por enquanto, o Pantanal deve conseguir se regenerar. “Um mês após a passagem do fogo em 2020 eu fui de carro até a ponte do Rio Paraguai para observar a regeneração. A rebrota e a germinação já estavam acontecendo em níveis impressionantes”, afirma. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/08/2021

Investidores estrangeiros recebem alerta sobre risco da pauta antiambiental no Congresso brasileiro

Projetos de lei em curso no Congresso brasileiro, com consequências irreversíveis à floresta Amazônica e aos povos indígenas, podem gerar graves riscos às operações de instituições financeiras. Alerta da Coalizão e aliados se soma à agenda de denúncias de povos indígenas. Em carta enviada hoje a 80 instituições financeiras nacionais e internacionais, a Coalizão Florestas & Finanças, juntamente com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Apib, Observatório do Clima e outras 45 organizações aliadas, alertam sobre os riscos de investimentos no Brasil diante do conjunto de mudanças legislativas em curso no Congresso brasileiro. Se aprovadas, essas mudanças resultarão em consequências irreversíveis à proteção de ecossistemas críticos como a Floresta Amazônica, Pantanal e Cerrado e à garantia dos direitos dos povos indígenas, representando para muitas instituições graves riscos às suas operações no Brasil. O alerta da Coalizão tem o objetivo de pressionar essas instituições a se posicionar publicamente e de forma contundente contra a agenda de retrocessos, e a soar o alerta junto aos seus pares e às empresas que contam com seus financiamentos e operam no Brasil. “A Coalizão Florestas e Finanças pressiona há algum tempo as instituições financeiras para tomarem medidas com relação a seus investimentos que ameaçam as florestas e os direitos dos povos indígenas no Brasil. Entre estas medidas estão critérios claros para exclusão de seu portfólio das empresas que cometem essas violações e a adoção de políticas contra o desmatamento e pela proteção dos direitos dos povos indígenas” afirma Merel Van der Merk, coordenadora da Coalizão. “Mas diante de uma ameaça dessa magnitude às garantias legais de proteção do meio ambiente, precisamos de uma ação concreta agora, um posicionamento muito claro de que essas instituições não vão ser cúmplices de mais destruição, desmatamento e degradação dos ecossistemas brasileiros e da violação dos direitos dos povos indígenas”, ela ressaltou. Dentre as ameaças legislativas descritas na carta, estão os projetos de lei 2633/2020, também conhecido como PL da Grilagem; o 3729/2004 que afrouxa as regras para o licenciamento ambiental no Brasil – ambos aprovados com larga vantagem na Câmara dos Deputados, aguardando apreciação no Senado; o PL 191/2020 que libera a mineração e outras atividades extrativas dentro de terras indígenas e remove o poder de veto dessas comunidades; o Decreto Legislativo 177/2021, que permite a retirada do Brasil da Convenção 169 da OIT e o PL 490/2007, que pode reverter as proteções constitucionais aos Territórios Indígenas, inviabilizando novas demarcações e ameaçando as atuais. A carta reforça a agenda de mobilizações de povos e organizações indígenas entre os meses de agosto e setembro deste ano. Na segunda-feira (16/08), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) lançou um dossiê internacional de denúncias para chamar atenção à ofensiva contra os povos indígenas e o meio ambiente liderada pelo governo Bolsonaro e seus aliados. A Apib assina a carta liderada pela Coalizão, além de outras 45 organizações. “Com essa carta, nos somamos às centenas de lideranças indígenas e defensores do meio ambiente marchando agora até Brasília para defender suas florestas e territórios. Se aprovadas, essas medidas terão resultados catastróficos não apenas para eles, mas para todo o aparato de proteção socioambiental no Brasil – já esvaziado pelo atual governo – e para todos nós”, afirmou Rosana Miranda, assessora de campanhas da Amazon Watch, integrante da coalizão. “Essas mudanças ameaçam as próprias instituições do setor financeiro, pois representam um aumento dos riscos sociais, legais, ambientais e climáticos para operar no Brasil. Elas precisam agir”, concluiu. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/08/2021

EcoDebate - Edição 3.730 de 20 / agosto/ 2021

Mix Sustentável – Consumidor Relatório do IPCC reforça a influência humana nas mudanças climáticas É necessário compreender a luta pela terra enquanto pedagogia de emancipação humana Rios são a maior fonte global de mercúrio nos oceanos e o Amazonas lidera a lista Queimadas e secas frequentes ameaçam a capacidade de recuperação do Pantanal Investidores estrangeiros recebem alerta sobre risco da pauta antiambiental no Congresso brasileiro Queimadas dão prejuízo para agricultores e ameaçam a saúde da população Relatório do IPCC (AR6 WGI): entenda a análise e as principais conclusões Refluxo gastroesofágico na gravidez: o que fazer?

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Afeganistão: 20 anos de progresso para as mulheres prestes a desaparecer

Azadah Raz Mohammad e Jenna Sapiano para o The Conversation/IPS – À medida que o Talibã assume o controle do país, o Afeganistão tornou-se novamente um lugar extremamente perigoso para ser mulher. Mesmo antes da queda de Cabul no domingo, a situação estava se deteriorando rapidamente , exacerbada pela retirada planejada de todos os militares estrangeiros e pelo declínio da ajuda internacional . Só nas últimas semanas, houve muitos relatos de vítimas e violência. Enquanto isso, centenas de milhares de pessoas fugiram de suas casas. A Agência das Nações Unidas para os Refugiados afirma que cerca de 80% dos que fugiram desde o final de maio são mulheres e crianças. O que o retorno do Taleban significa para mulheres e meninas? A história do Talibã O Taleban assumiu o controle do Afeganistão em 1996, impondo condições e regras severas, seguindo sua interpretação estrita da lei islâmica. Centenas de milhares de pessoas fugiram de suas casas. A Agência das Nações Unidas para os Refugiados afirma que cerca de 80% dos que fugiram desde o final de maio são mulheres e crianças. O que o retorno do Taleban significa para mulheres e meninas? Sob sua regra, as mulheres tinham que se cobrir e apenas sair de casa na companhia de um parente do sexo masculino. O Taleban também proibiu as meninas de frequentar a escola e as mulheres de trabalhar fora de casa. Eles também foram proibidos de votar. As mulheres estavam sujeitas a punições cruéis por desobedecer a essas regras, incluindo serem espancadas e açoitadas, e apedrejadas até a morte se fossem consideradas culpadas de adultério. O Afeganistão tinha a maior taxa de mortalidade materna do mundo. Nos últimos 20 anos Com a queda do Taleban em 2001, a situação das mulheres e meninas melhorou muito, embora esses ganhos tenham sido parciais e frágeis. As mulheres agora ocupam cargos como embaixadoras, ministras, governadoras e policiais e membros das forças de segurança. Em 2003, o novo governo ratificou a Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, que exige que os Estados incorporem a igualdade de gênero em sua legislação interna. A Constituição afegã de 2004 afirma que “os cidadãos do Afeganistão, homens e mulheres, têm direitos e deveres iguais perante a lei”. Enquanto isso, uma lei de 2009 foi introduzida para proteger as mulheres do casamento forçado e de menores, e da violência. De acordo com a Human Rights Watch, a lei viu um aumento na denúncia, investigação e, em menor medida, condenação por crimes violentos contra mulheres e meninas. Embora o país tenha passado de quase nenhuma menina na escola para dezenas de milhares na universidade , o progresso tem sido lento e instável. Relatórios da UNICEF de 3,7 milhões de crianças afegãs fora da escola, cerca de 60% são meninas. Um retorno aos dias sombrios Oficialmente, os líderes do Taleban disseram que querem garantir os direitos das mulheres “de acordo com o Islã”. Mas isso foi recebido com grande ceticismo, inclusive por mulheres líderes no Afeganistão. Na verdade, o Talibã deu todas as indicações de que irá reimpor seu regime repressivo. Em julho, as Nações Unidas relataram que o número de mulheres e meninas mortas e feridas nos primeiros seis meses do ano quase dobrou em comparação com o mesmo período do ano anterior. Nas áreas novamente sob controle do Taleban , as meninas foram proibidas de ir à escola e sua liberdade de movimento foi restringida. Também houve relatos de casamentos forçados. As mulheres estão colocando as burcas novamente e falam em destruir evidências de sua educação e vida fora de casa para se proteger do Taleban. Como uma mulher afegã anônima escreveu no The Guardian: “Eu não esperava que fôssemos privados de todos os nossos direitos básicos novamente e viajaríamos de volta para 20 anos atrás. Que depois de 20 anos lutando por nossos direitos e liberdade, deveríamos estar caçando burcas e escondendo nossa identidade”. Muitos afegãos estão irritados com o retorno do Taleban e com o que consideram seu abandono pela comunidade internacional. Houve protestos nas ruas . As mulheres até pegaram em armas em uma rara demonstração de desafio. Mas isso por si só não será suficiente para proteger mulheres e meninas. O mundo olha para o outro lado Atualmente, os EUA e seus aliados estão envolvidos em operações frenéticas de resgate para retirar seus cidadãos e funcionários do Afeganistão. Mas e quanto aos cidadãos afegãos e seu futuro? O presidente dos EUA, Joe Biden, permanece praticamente indiferente ao avanço do Taleban e ao agravamento da crise humanitária. Em uma declaração de 14 de agosto , ele disse: “Uma presença americana interminável no meio do conflito civil de outro país não era aceitável para mim”. Mesmo assim, os EUA e seus aliados – incluindo a Austrália – foram ao Afeganistão há 20 anos com a premissa de remover o Taleban e proteger os direitos das mulheres. No entanto, a maioria dos afegãos não acredita que experimentou paz em suas vidas. À medida que o Taleban reafirma o controle total sobre o país, as conquistas dos últimos 20 anos, especialmente aquelas feitas para proteger os direitos das mulheres e a igualdade, estão em risco se a comunidade internacional mais uma vez abandonar o Afeganistão. Mulheres e meninas imploram por ajuda enquanto o Talibã avança. Esperamos que o mundo ouça.A conversa Azadah Raz Mohammad , estudante de PhD, The University of Melbourne e Jenna Sapiano , Australia Research Council Associado e professor de pós-doutorado, Monash Gender Peace & Security Center, Monash University Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original . (IPS/#Envolverde)

Código Vermelho para a Humanidade e o Planeta

Por Felix Dodds e Chris SpenceReimprimir para a IPS – O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, está absolutamente certo em chamar o último relatório climático da ONU de “Código Vermelho para a Humanidade”. Sem ação imediata e séria, estamos condenando as gerações futuras a um futuro sombrio. Já perdemos muito tempo. No próximo ano, fará meio século desde que a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano em Estocolmo nos alertou sobre os riscos ao meio ambiente causados ​​pelas atividades humanas. Mais de 30 anos se passaram desde que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU publicou seu primeiro relatório (o último relatório é o sexto). Mesmo aquele primeiro relatório em 1990 alertou sobre o impacto da humanidade nas concentrações de gases de efeito estufa e no aquecimento do planeta. Mais uma vez, nossas ações nas décadas subsequentes foram terrivelmente inadequadas. Se permitíssemos um aumento de 2 ° C na temperatura, então as temperaturas recordes registradas recentemente nos Estados Unidos e inesperadamente no Canadá teriam 14 vezes mais probabilidade de acontecer novamente no futuro, tanto lá quanto em outros lugares Este ano nos deu as percepções mais vívidas sobre como será o novo mundo, sejam secas e incêndios na Califórnia ou os últimos trágicos incêndios florestais na Grécia, já que as temperaturas ficam tão altas que até mesmo uma pequena faísca as acende. O relatório do IPCC também analisa as ondas de calor. Se permitíssemos um aumento de 2 ° C na temperatura, as temperaturas recorde registradas recentemente nos Estados Unidos e inesperadamente no Canadá teriam 14 vezes mais probabilidade de ocorrer novamente no futuro, tanto lá quanto em outros lugares. Já houve um aumento no número e na força de. As inundações estão acontecendo com mais frequência e novamente em lugares inesperados, pois a chuva cai de uma maneira diferente de como antes. Essas fortes chuvas, mais recentemente na Alemanha, mostram que as defesas contra inundações foram construídas para um tipo diferente de chuva e exigirão uma grande infraestrutura revisões se este for o novo normal. Depois, há o efeito em cascata, se as florestas e a vegetação se incendiarem. Quando a chuva voltar, não haverá mais nada para conter a água, o que significa que as enchentes terão um impacto maior nas comunidades já devastadas. A chave aqui é a água. As negociações climáticas da ONU apenas adicionaram a água como uma questão-chave para as negociações em 2010 devido à campanha dos esforços de múltiplas partes interessadas da Coalizão Água e Clima. A abordagem das metas de efeito estufa perdeu uma grande oportunidade de abordar os setores-chave que estavam contribuindo para o problema ou seriam impactados por ele. Sem ferimentos leves Por que tantos líderes políticos estão negando a necessidade de uma ação urgente ou simplesmente dizendo isso da boca para fora? O atual senso de negação é perturbadoramente reminiscente do filme de comédia Monty Python e o Santo Graal . Em uma cena dolorosamente engraçada, um misterioso cavaleiro das trevas bloqueia o caminho de nosso herói, o Rei Arthur. Os dois lutam e o Rei Arthur espera que o cavaleiro fique de lado quando ele corta o braço do cavaleiro. Mas o cavaleiro se recusa, alegando a princípio que é apenas um “arranhão”. A luta recomeça e o cavaleiro perde o outro braço. Novamente, ele se recusa a se submeter ou se afastar, alegando que é “apenas uma ferida na carne”. É aqui que nos posicionamos com relação às mudanças climáticas. Já infligimos grandes ferimentos em nosso planeta e precisamos responder de acordo. Não podemos fingir que o globo sofreu apenas alguns pequenos cortes e arranhões. Se nosso mundo fosse o cavaleiro das trevas, você poderia argumentar que, por meio de nossas ações, já cortamos um membro. Devemos cessar nossos ataques e tratar isso como uma emergência global para nossa saúde global. Nenhuma solução de band-aid ou gesso sobre o dano fará. A inação não vai resolver isso. Em uma emergência de saúde, o tempo é essencial. Você não pode esperar para chamar uma ambulância ou tentar continuar normalmente. Se o fizer, o paciente pode não sobreviver. O último relatório do IPCC mostra que devemos agir imediatamente e tomar as medidas mais enérgicas possíveis. Uma frase de chamariz Então, o que pode ser feito com o novo alerta do IPCC da ONU? Em primeiro lugar, os países que ainda não apresentaram novas metas de Contribuição Determinada Nacionalmente sob o acordo de Paris da ONU devem fazê-lo imediatamente. Em segundo lugar, os países desenvolvidos devem aumentar sua contribuição prometida em 2015 para o financiamento de US $ 100 bilhões por ano para trabalhos climáticos para pelo menos US $ 200 bilhões pela Cúpula do Clima no Egito em 2022. Em terceiro lugar, e ainda mais importante, os governos precisam se concentrar agressivamente no setor corporativo e em suas responsabilidades. Isso deve incluir a exigência de que todas as empresas listadas em qualquer Bolsa de Valores produzam sua estratégia de sustentabilidade e seu Relatório Ambiental, Social e de Governança (ESG) todos os anos. Este deve ser um requisito para permanecer na bolsa de valores. Isso também deve exigir que eles produzam metas baseadas na ciência para atingir zero líquido de gases de efeito estufa até 2050. As metas voluntárias e autocriadas das empresas não são mais suficientes. Talvez valha a pena considerar que as Bolsas de Valores publiquem o carbono total de seus membros e começar a considerá-las colocando um teto no que a Bolsa permitiria e qual será sua contribuição para o zero líquido. Em quarto lugar, o papel dos governos locais e subnacionais precisa ser apoiado e aprimorado. Atores nos níveis local e regional são essenciais para entregar o que precisamos. Eles precisam ser apoiados para definir suas próprias metas para 2030 e estratégias de zero líquido para 2050. Para permitir que eles alcancem isso, os governos centrais precisarão apoiá-los e fornecer o financiamento extra. Todas as decisões de planejamento devem ser baseadas nas novas projeções de mudanças climáticas e a construção em planícies de inundação deve ser interrompida. Em quinto lugar, os governos devem revisar os impactos sobre as mudanças climáticas de todas as políticas existentes e não prosseguir, a menos que estejam dentro da estratégia para entregar o NDC e as estratégias de Zero Zero para 2030 e 2050. Resumindo, os governos precisam começar a incorporar as mudanças climáticas em todas as suas formas de pensar, em todos os setores. O problema é muito vasto e muito urgente para fazer o contrário. Em sexto lugar, todos os governos precisam revisar urgentemente suas estratégias de redução de risco de desastres antes de uma grande conferência da ONU sobre este assunto, marcada para maio próximo em Bali. Em todos os níveis de governo, precisamos revisar as interligações entre água, agricultura, energia e mudanças climáticas para garantir que o planejamento seja à prova de clima. Sem contabilizar cada um desses setores, as soluções não serão grandes o suficiente para enfrentar o desafio. Por fim, como eleitores, contribuintes e cidadãos, precisamos pressionar nossos líderes políticos a colocar a mudança climática no topo de sua lista de prioridades. Eles precisam ser lembrados de que não são apenas as gerações futuras que os julgarão e suas políticas – nós também podemos fazer isso. Uma Emergência Código Vermelho Temos uma década para reverter isso. Já vimos as temperaturas globais subir 1,09 ° C. O IPCC sugere que podemos ultrapassar o importante limite de 1,5 ° C até 2034-2040. Na verdade, as coisas podem ser ainda mais urgentes. O relatório que saiu na segunda-feira foi o “resumo para os formuladores de políticas”, o que significa que foi um documento negociado tanto com as nações progressistas quanto com os países mais céticos e cautelosos quanto ao clima, negociando o texto exato. Embora as descobertas fossem certamente cientificamente sólidas, é bem provável que a linguagem pudesse ter sido – e provavelmente deveria ter sido – ainda mais urgente. Faríamos bem em lembrar o que alguns políticos disseram nos últimos anos; se eles negaram a ciência no passado, então agora é certamente a hora de abrirem caminho para outros que estão dispostos a dar a essa questão o peso que ela claramente merece. Felix Dodds é professor adjunto do Water Institute da University of North Carolina, onde é investigador principal do projeto Re-Energize, financiado pela Belmont. Ele co-coordenou a Coalizão de Água e Mudança Climática nas Negociações Climáticas (2007-2012). Seu novo livro é Tomorrow’s People and New Technology: Changing How We Live Our Lives (outubro de 2021). Chris Spence é consultor ambiental, escritor e autor do livro Global Warming: Personal Solutions for a Healthy Planet. Ele é um veterano de muitas cúpulas do clima e outras negociações das Nações Unidas nas últimas três décadas. (IPS/#Envolverde)

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Degradação florestal e incêndios afetam toda a América Latina

Um novo estudo liderado pela Universidade Nacional da Colômbia (UNAL) e publicado recentemente na revista Science Advances , avaliou os efeitos devastadores de incêndios cada vez mais frequentes nas florestas da América Latina, que foram acompanhados por 15 anos. Universidad Nacional de Colombia (UNAL) No início do século 21, cerca de 1,1% das florestas da América Latina sofreram um incêndio florestal. Em 2003, foram perdidos quase 8,5 milhões de hectares, assim distribuídos: 4,7 milhões no Brasil, 1,4 milhão na Bolívia, quase 1 milhão no México, 436 mil no Paraguai e o restante, cerca de 1,4 milhão, entre Guatemala, Venezuela, Honduras, Argentina , Chile, Colômbia, Belize, Peru, Nicarágua, Panamá e Guiana e Suriname. “Durante 15 anos acompanhamos essas florestas para ver qual a trajetória que estavam tomando desde os danos causados CO2 pelo fogo até o presente (2018). Metade delas, que só foram queimadas uma vez no início do século, acabaram se perdendo em poucos anos apenas com um incêndio ”. “Por outro lado, mais da metade das florestas que queimaram no início do século foram queimadas novamente até duas ou três vezes mais, e em poucos anos tornaram-se principalmente pastagens, savanas e pastagens, o que implica que as reservas de carbono foram perdidos ”. A explicação é a professora Dolors Armenteras, diretora do Laboratório de Ecologia da Paisagem e Modelagem de Ecossistemas (Ecolmod), do Departamento de Biologia da UNAL Sede de Bogotá, e os pesquisadores Liliana Dávalos, Joan Barreto, Alejandro Miranda, Ángela Hernández, Carlos Zamorano, Tania González , María Meza e Javier Retana. Os autores do estudo observam que Argentina, Brasil, Chile e Paraguai perderam florestas rapidamente; em 2004, 37, 38, 42,5 e 38% foram registrados, respectivamente. Enquanto isso, no México, Guatemala e Honduras, a transformação das florestas foi mais gradual: em 2004, apenas 6, 12 e 9%, respectivamente. “Na verdade, uma proporção muito baixa de florestas queimadas consegue se manter em pé como floresta durante todo o período; Nossas análises mostram que alguns resistem e podem persistir se apenas sofrerem um incêndio, pois embora se degradem até certo ponto, podem ser recuperados e continuar cumprindo seu papel essencial de conservação da biodiversidade e da funcionalidade dos ecossistemas ”, destaca o professor Armenteras. . Também destaca que “detectamos que em alguns países o fogo pode estar associado à conversão para florestas mistas ou plantadas, prática que deve ser avaliada com cuidado devido às implicações que pode ter nas emissões de gases e particulados da biomassa queimada . na floresta “. O estudo revela uma devastação em escala até agora desconhecida em toda a região latino-americana que tem implicações não só para a perda de biomassa vegetal e as emissões de gases emitidos, mas também compromete as reservas de carbono da região e a prestação de serviços. às populações que o habitam. Os pesquisadores alertam que “é urgente reduzir os incêndios florestais, seja qual for sua origem. Apelamos urgentemente aos tomadores de decisão para investir em práticas de gestão de terras que busquem paisagens mais seguras e resilientes, e para implementar pagamentos por serviços ecossistêmicos para proteger florestas, processar e punir crimes ambientais, desencorajar práticas agrícolas ruins que aumentam o risco de incêndios, promover tanto incentivos quanto investimentos em práticas sustentáveis CO2e manejo integrado do fogo, entre outros ”. “É inegável que as florestas queimadas não se recuperam, são degradadas e perdem a capacidade de prestar serviços ecossistêmicos, e em outras latitudes vemos a consequência da imprevisibilidade e da falta de planejamento preventivo, incêndios que não podem ser apagados pelo seu tamanho” eles observam. Este estudo surge de uma colaboração liderada pela UNAL Bogotá Headquarters com o Centro de Pesquisa em Ecossistemas da Patagônia no Chile, o Centro de Ecologia Florestal e Aplicações da Espanha e a Universidade de Stony Brook nos Estados Unidos. Referência: Fire-induced loss of the world’s most biodiverse forests in Latin America Dolors Armenteras, Liliana M. Dávalos, Joan S. Barreto, Alejandro Miranda, Angela Hernández-Moreno, Carlos Zamorano-Elgueta, Tania M. González-Delgado, María C. Meza-Elizalde, Javier Retana Science Advances 13 Aug 2021: Vol. 7, no. 33, eabd3357 DOI: 10.1126/sciadv.abd3357 https://doi.org/10.1126/sciadv.abd3357 Article has an altmetric score of 133 * Henrique Cortez, tradução e edição. in https://www.ecodebate.com.br/“>EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/08/2021 A manutenção da revista eletrônica EcoDebate é possível graças ao apoio técnico e hospedagem da Porto Fácil.

Quase 20% do território brasileiro pegou fogo ao menos uma vez entre 1985 e 2020

Iniciativa pioneira de mapeamento histórico das cicatrizes do fogo no Brasil gera o mais abrangente banco de dados sobre áreas queimadas e incêndios florestais do País, com dados inéditos – e preocupantes Uma casa que pega fogo todos os anos: esse é o retrato do Brasil obtido pelo MapBiomas após analisar imagens de satélite entre 1985 e 2020 para entender o impacto do fogo sobre o território nacional. Na média, em cada um desses 36 anos, o Brasil queimou uma área maior que a Inglaterra: foram 150.957 km² por ano, ou 1,8% do país. O acumulado do período chega a praticamente um quinto do território nacional: 1.672.142 km², ou 19,6% do Brasil. “Analisar as cicatrizes do fogo ao longo do tempo permite entender as mudanças no regime de fogo e seu avanço sobre o território brasileiro”, destaca Ane Alencar, Coordenadora do MapBiomas Fogo. Quase dois terços (65%) do fogo ocorreram em áreas de vegetação nativa, sendo que os biomas Cerrado e Amazônia concentram 85% de toda a área queimada pelo menos uma vez no país. No caso do Cerrado, a área queimada por ano desde 1985 equivale a 45 vezes a área do município de São Paulo. “Um dado preocupante é que cerca de 61% das áreas afetadas pelo fogo entre 1985 e 2020 foram queimadas duas vezes ou mais, ou seja, não estamos falando de eventos isolados. No caso da Amazônia, 69% do bioma queimou mais de uma vez no período, sendo que 48% queimou mais de três vezes”, ressalta. Os estados com maior ocorrência de fogo foram Mato Grosso, Pará e Tocantins. Formações savânicas foram o tipo de vegetação nativa com mais ocorrência de fogo; pastagens foram o tipo de uso antrópico com mais ocorrência de fogo. Embora os grandes picos de área queimada no Brasil tenham ocorrido principalmente em anos impactados por eventos de seca extrema (1987, 1988, 1993, 1998, 1999, 2007, 2010, 2017), altas taxas de desmatamento principalmente na Amazônia e antes de 2005 e depois de 2019 tiveram um grande impacto no aumento da área queimada nesses períodos. A estação seca, entre julho e outubro, concentra 83% da ocorrência de queimadas e incêndios florestais. A análise por bioma mostra que o Pantanal é o que mais queimou nos últimos 36 anos: 57% de seu território foi queimado pelo menos uma vez no período, ou 86.403 km². Ele é seguido pelo Cerrado (733.851 km², 36%) e pela Amazônia (690.028 km², 16,4%). “O caso da Amazônia é preocupante. Os dados do MapBiomas Fogo revelam que as florestas do bioma têm queimado em grandes proporções e alta frequência, o que não é esperado em um bioma que não é naturalmente adaptado ao fogo”, explica Ane Alencar. Na média anual, o bioma Cerrado assume a liderança, com 67.833 km²/ano – mais que a Amazônia, cuja média ficou em 64.955 km²/ano. ” O Cerrado é um bioma com vegetação o nativa onde o fogo faz parte de sua ecologia”, explica Vera Arruda, da equipe do MapBiomas Fogo responsável pelo mapeamento do Cerrado. “Entretanto a extensão e frequência da área queimada no bioma nas últimas quase quatro décadas revela que algo está errado com o regime de fogo no bioma”, ressalta. No bioma Pantanal é possível identificar os anos de 1999 e 2020 com os recordes de áreas queimadas. Foram anos secos e de grande acúmulo de biomassa. “O Pantanal tem uma vegetação adaptada ao fogo, mas em regime de frequência muito grande, ele torna-se prejudicial à biodiversidade de flora e fauna. O combate ao fogo no Pantanal é especialmente desafiador, portanto, ações de manejo integrado e preventivo do fogo, devem ser discutidas para proteção do bioma”, explica Eduardo Rosa, do MapBiomas. No caso da Mata Atlântica, os meses de agosto, setembro e outubro constituem o período em que mais ocorrem queimadas, sendo que mais de 80% das queimadas ocorreram em áreas agropecuárias ou campestres, “É possível observar uma queda após 2004, quando começam a entrar em vigor leis para regulamentar a queimada em lavouras”, explica Marcos Rosa, Coordenador da equipe do MapBiomas Fogo responsável pelo mapeamento da Mata Atlântica. Para chegar a esses números, inéditos, a equipe do MapBiomas processou mais de 150 mil imagens geradas pelos satélites Landsat 5, 7 e 8 de 1985 a 2020. Com a ajuda de inteligência artificial, foi analisada a área queimada em cada pixel de 30 m X 30 m dos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro ao longo dos 36 anos entre 1985 e 2020, em todos os tipos de uso e cobertura da terra. Ao todo, foram 108 terabytes de imagens processadas, revelando áreas, anos e meses de maior e menor incidência do fogo. O método também permite identificar a área queimada em cada mês em todo o período, bem como o tipo de uso e cobertura do solo que queimou. Os dados de áreas queimadas e incêndios florestais estão disponibilizados em mapas e estatísticas anual, mensal e acumulada em para qualquer período entre 1985 e 2020 na plataforma https://mapbiomas.org/, aberta a todos. Ela também inclui dados de frequência de fogo, indicando as áreas mais afetadas nos últimos 36 anos. A resolução é de 30 m, com indicação do tipo de cobertura e uso do solo que queimou, permitindo recortes territoriais e fundiários por bioma, estado, município, bacia hidrográfica, unidade de conservação, terra indígena, assentamentos e áreas com CAR. Sobre MapBiomas: iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa: mapbiomas.org in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/08/2021