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terça-feira, 1 de setembro de 2015

ONU lança e-livro sobre uso de águas residuais


Foto: PNUMA
De acordo com o PNUMA, o tratamento de águas residuais está provando ser um bom investimento, com exemplos em todo o mundo mostrando que os benefícios vão além da saúde humana.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou na quarta-feira (26),em parceria com a organização WaterLex, um livro eletrônico intitulado “Boas Práticas para a regulação do tratamento de águas residuais: legislação, políticas e normas”, que detalha exemplos de sucesso na conservação das águas residuais.
O tratamento de águas residuais está provando ser um bom investimento, com exemplos em todo o mundo mostrando que os benefícios vão além da saúde humana, como a prestação de irrigação para a silvicultura e indústria, o biogás, água doméstica, calor, eletricidade e fertilizante.
O livro eletrônico, divulgado em Estocolmo (Suécia), como parte das comemorações da Semana Mundial da Água, é uma resposta dentro do prazo para a diminuição de um terço da biodiversidade dos rios, lagos e terras úmidas causada pela deterioração da qualidade da água.

Informe da ONU Brasil, in EcoDebate, 01/09/2015

Com 6.183 MW de capacidade instalada, Brasil duplica produção de energia eólica


Geração média nos seis primeiros meses deste ano foi de 1.831 MW. Foto: Divulgação/Governo do Piauí

As usinas eólicas brasileiras aumentaram em 114% a produção de energia no primeiro semestre de 2015, quando comparado com o mesmo período do ano passado
As usinas eólicas brasileiras aumentaram em 114% a produção de energia no primeiro semestre de 2015, quando comparado com o mesmo período do ano anterior. No fim de junho do ano passado, essa matriz era responsável por 1,4% do total gerado de energia no ano no Sistema Interligado Nacional (SIN). Atualmente, ela representa 3% de toda a energia produzida no Sistema Integrado Nacional.
De acordo com dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), a geração média nos seis primeiros meses deste ano foi de 1.831 MW médios, diante de 856 MW médios alcançados no mesmo período do ano anterior.
A capacidade instalada de usinas eólicas no Brasil chegou a 6.183 MW ao final do primeiro semestre de 2015, quase o dobro em relação ao mesmo período do ano passado, quando a capacidade era de 3.106 MW.
Atualmente, o Rio Grande do Norte segue na liderança em capacidade instalada da fonte, com 2.243 MW, seguido por Ceará (1.233 MW), Rio Grande do Sul (1.300 MW) e Bahia (959 MW).
No primeiro semestre de 2015, as usinas eólicas do Rio Grande do Norte geraram 642 MW médios de energia, montante 142% maior do que o produzido nos seis primeiros meses do ano passado.
O Rio Grande do Sul, com 288 MW médios, registrou aumento de 91% em relação ao montante gerado no mesmo período de 2014. Já no Ceará foram 363 MW médios, aumento de 48% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Já a Bahia quase triplicou sua geração eólica, com 391 MW médios (+283%).
Relevância
De janeiro a julho de 2015, entraram em operação cerca de 1.437 MW de usinas eólicas, e ainda estão previstos cerca de 1.636 MW até o final do ano. Para o ano 2016 já estão previstos cerca de 3.100 MW e para 2017 cerca de 1.985 MW, contribuindo para ampliação da fonte eólica e a diversificação da matriz de energia elétrica brasileira.
Fonte: Ministério de Minas e Energia

in EcoDebate, 01/09/2015

Lei da Biodiversidade: povos tradicionais poderão negar acesso a plantas e animais


Na Aldeia Mata Verde Bonita, 20 famílias Guarani Mbyá se comunicam na língua materna, um idioma indígena do tronco tupi-guarani (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Povos indígenas e tradicionais poderão decidir como e se determinado conhecimento tradicional poderá ser usado. Na foto, a aldeia guarani Mata Verde Bonita. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
A Lei da Biodiversidade, sancionada em maio, prevê que comunidades tradicionais, povos indígenas e agricultores familiares possam negar o acesso de pesquisadores e representantes de indústrias ao conhecimento e a elementos da biodiversidade brasileira. De acordo com o gerente de projetos do Departamento de Patrimônio Genético do Ministério do Meio Ambiente, Henry Novion, o consentimento prévio informado será o instrumento usado para condicionar os acessos e no documento constarão todas as regras a serem seguidas pelos setores acadêmicos e produtivos.
“A lei reconhece quem vai dizer como determinado conhecimento vai ser usado e não é o governo, não é universidade, não é a empresa. A lei diz que quem vai dizer como, segundo usos, costumes e tradições, o conhecimento pode ou não ser usado é o povo que detém aquele conhecimento. É o povo que dá o consentimento”, explicou Novion.
O gerente acrescentou que, na regulamentação da lei, estará previsto o responsável legal por dar esse consentimento, se será uma associação local, por exemplo, ou uma organização ou federação que represente as comunidades e povos. A regulamentação tem prazo de 180 dias para ficar pronta, a partir da sanção da lei.
Manoel da Silva Cunha é extrativista na Reserva Extrativista do Médio Juruá e diretor do Conselho Nacional das Populações Extrativistas e, de acordo com ele, a comunidade já discute alguns conhecimentos que não tem interesse em compartilhar com a indústria e a academia. “Temos alguns tipos de uso de plantas, que têm rituais que o poder não é só nosso, foi o espírito que ensinou e não temos interesse de repassar. Mas têm muitos conhecimentos e muito patrimônio genético que estão aí para ter uma função social e ambiental e não estão tendo. A pesquisa e as empresas precisam chegar e a comunidade precisa abrir esse conhecimento. Eu não tenho dúvida de que a cura do câncer está aí, que a cura da aids está aí, só precisa pesquisar.”
Para ele, entretanto, as comunidades tradicionais e povos indígenas precisam ter autonomia e soberania sobre esse conhecimento. “Se ela [a comunidade] não quer abrir, que não sofra nenhum tipo de represália ou pressão nenhuma, que sejamos soberanos nessa decisão. Que não seja o governo que diga o que a gente abre ou não, que a lei não dê esse privilégio às empresas.”
O procurador da República no Distrito Federal Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, representante do Ministério Público no Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen), destaca que aregulamentação da lei deve garantir a paridade na composição do conselho, a conformação do comitê gestor do Fundo de Repartição de Benefícios. Entretanto, segundo ele, o conceito de consentimento prévio informado deve ser muito bem apropriado pelos povos e comunidades tradicionais.
“Ele [o consentimento] é que condicionará o acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado, dando aval para pesquisa, desenvolvimento tecnológico e exploração comercial e industrial. Se as comunidades não souberem o que é o consentimento prévio informado, não saberão qual o seu principal direito, direito de ser consultado e poder de dizer sim ou não, de forma bem esclarecida e que seja o melhor para a comunidade”, disse Lopes.
O índio Alberto Terena, da Aldeia Buriti, de Mato Grosso do Sul, explica que será um processo muito complexo para seu povo dividir seus conhecimentos de forma comercial, mas espera que possam assegurar o direito de negar esse acesso. “Há algumas coisas para nós que não se mede em valor. Qualquer medicamento não envolve só o remédio em si, mas toda uma espiritualidade de um povo, uma crença. A lei, às vezes, não vem pra dar uma segurança, ela vem pra ser infringida, burlada. E, a partir de agora, vamos lidar com influências muito poderosas, da indústria de cosméticos e farmacêutica. Queremos, com a regulamentação, que aquilo venha em nosso benefício, mas percebemos que vamos entrar na briga do mercado.”
Segundo o diretor do Departamento de Patrimônio Genético do Ministério do Meio Ambiente, Rafael Marques, o estado deve trabalhar na fiscalização para que o consentimento seja respeitado. “A legislação não foi feita pautada pelas empresas, o direito deles [dos povos e comunidades] está assegurado, de ser consultado antes que o acesso seja feito.”
Representantes de comunidades tradicionais e povos indígenas estiveram reunidos, na última semana, em uma oficina de capacitação para a regulamentação da Lei da Biodiversidade, em Rio Branco, no Acre. O próximo dos seis encontros regionais ocorre esta semana em Belém, no Pará, de 2 a 4 de setembro, e uma oficina nacional está programada para em Brasília, em outubro. Os eventos são organizados por um grupo de trabalho da Comissão Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais e, conduzidos pelo Departamento de Patrimônio Genético do Ministério do Meio Ambiente.
Desde o dia 12 de junho está aberta, na página do ministério, a consulta pública sobre a regulamentação da lei e, a partir da primeira semana de setembro até 16 de outubro, a minuta do texto do decreto será inserida para críticas e sugestões.
*A repórter viajou a convite do Ministério do Meio Ambiente.
Por Andreia Verdélio*, da Agência Brasil, in EcoDebate, 01/09/2015

O Príncipe, os Sábios e os Loucos, artigo de Daniel Clemente

opiniao
[EcoDebate] Paris, “maio” de 1968, estudantes universitários e secundaristas erguem barricadas pelas largas e belas avenidas, isolam a cidade do governo central, expulsam os velhos burocratas, em plena disputa ideológica mundial entre capitalismo e socialismo anunciam o nascedouro de uma terceira via, aquecendo a Guerra Fria sob o lema“sejamos realistas, peçamos o impossível”. Para neutralizar futuras, possíveis e previsíveis traições ao movimento revolucionário, decretam: “não confiem em ninguém com mais de trinta anos”.
As possibilidades de enxergar além do horizonte sempre estiveram aos olhos dos jovens, onde a conformidade ao mundo que se impõe diante de sua face ainda não foi digerido, causa mal-estar sufocante, é necessário fazer uma mudança de rota, de acordo com vontades e desejos estimulados por seus sentimentos mais nobres. Ernesto Che Guevara, durante décadas ícone das juventudes rebeldes, que substituíram livros e canetas por armas, pronunciava: “Deixe-me dizer-lhe, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor”.
Antes loucos, hoje sábios, as gerações que envelhecem trocam a loucura do amor pela razão. Entende-se razão como compreensão do ser em harmonia com o que lhe é previamente oferecido socialmente, isto é, basta adaptar-se a realidade imposta para obter uma vida sadia. Séculos atrás, mais precisamente no ano de 1511, Erasmo de Roterdã em sua principal obra “Elogio da Loucura” dizia: “ser sábio é tomar a razão como guia e ser louco é deixar-se levar ao sabor das paixões”
Os loucos de ontem que se tornaram os sábios de hoje querem matar O Pequeno Príncipe, acusando-o de pertencer a uma geração doentia. A obra de Antoine de Saint-Exupéry continua a mesma desde 1943, portanto, o que mudou não foi o conteúdo e sim o olhar do leitor, o sábio de hoje entra em contradição com o louco de ontem. A razão dos sábios julga que O Pequeno Príncipe cultivava sua rosa como os religiosos cultuam seus ídolos, digna de admiração, preenchendo a triste vidinha que levava. Oh pobre sábio, a flor nunca foi o ídolo do Pequeno Príncipe, mas a representação do seu horizonte, de sua utopia, o olhar jovem sobre o seu mundo. Faço das palavras do sociólogo Eduardo Galeano a clareza desse evento: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.
Sempre que lembrava da flor, O Pequeno Príncipe desejava continuar caminhando, pois as decepções obtidas em suas experiências vividas remetia-o ao mundo utópico, onde tudo é perfeito, mas não se sabia ao certo o caminho para conquistá-lo. O educador Rubem Alves em seu livro “Um Céu Numa Flor Silvestre” nos alertou que “as crianças vivem no mundo dos sentidos. Para elas, o real é aquilo que entra pelos olhos, pelos ouvidos, pelo nariz, pela boca, pela pele. Elas são seu corpo, inteiramente, entidades paradisíacas.”. O Pequeno Príncipe sempre foi uma criança, um louco, tomado por suas paixões, o julgamento dos homicidas é estimulado pela razão, pelos adultos, que reduziram o sentido da palavra amor, tornando-a insuficiente para explicar causalidades da vida, o que lhes resta é o uso da razão. “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”, a banda Legião Urbana cantava em versos a agonia dos tristes.
Faço de uma experiência pessoal a conclusão dessa reflexão. Sou professor, e diariamente vou de encontro com dezenas de pequenos príncipes e princesas, todos vestidos pelas loucuras e utopias, colorindo o mundo que se apresenta em preto e branco. Em uma declaração de amor, digna dos loucos, confraternizaram meu aniversário com um bolo, e sobre ele duas velas que indicavam quinze anos de idade. Será que foi uma referência a minha aparência? Claro que não, isso o espelho faz questão de gritar todos os dias que passei dos trinta, o que já me colocaria sob suspeita aos revolucionários franceses de 1968. Na verdade, os príncipes e princesas ali diziam que o professor era um louco, parecido com eles, que rejeita a razão, movido por amor.
O Pequeno Príncipe Vive!
Daniel Clemente
Professor de História e Sociologia
Colégio Adventista de Santos

in EcoDebate, 01/09/2015
"O Príncipe, os Sábios e os Loucos, artigo de Daniel Clemente," in Portal EcoDebate, 1/09/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/09/01/o-principe-os-sabios-e-os-loucos-artigo-de-daniel-clemente/.

COP21: Uma conferência extraordinária, conto de Laís Vitória Cunha de Aguiar


opiniao

[EcoDebate] Em uma fria tarde em Paris, um fenômeno é visto pelos cidadãos: os maiores pensadores do mundo estão a caminho da COP 21, em uma marcha que eles intitulam Marcha da Esperança.
As mídias mundiais correram para ver o fenômeno disseminado nas redes sociais, mas quando chegaram era tarde: todos haviam entrado na COP 21, afinal, quem iria barrar a entrada de daquelas personalidades?
O silêncio perpetuou-se na conferência com a entrada silenciosa dos fantasmas: todos queriam saber qual seria a próxima atitude dos desencarnados.
O ilustre morto mais recente, Nelson Mandela, tomou a iniciativa de ser o líder e falar por todos:
-Presidente; Vossas Excelências, Embaixadores junto à Organização das Nações Unidas; damas e cavalheiros, aqui estamos, há poucos passos de uma nova era: a do desenvolvimento sustentável. Meus colegas e eu nos fazemos presentes para relembrá-los dos motivos reais que os trouxeram até aqui, a luta pelo respeito ao meio ambiente, pela paz e erradicação da pobreza, entre tantos outros motivos. Em vida, nós lutamos pelos mesmos objetivos que trouxeram os senhores aqui, alguns como meu colega Gandhi, até morreram por esse objetivo. Não joguem pela janela a luta de todas as gerações antes de vocês por sentimentos tão vazios e líquidos como a ganância, a vida passa, mas não as lutas. Em cada um existe a semente da humanidade, sentimento que irá perseverar mesmo depois da morte. Não deixem para a próxima geração o que pode ser feito pela sua própria, façam com que seus netos tenham orgulho das suas atitudes, olhem para trás e vejam o mundo melhor que seus antepassados construíram para eles. O orgulho não fará com que recebam o que há de melhor em todas as dimensões: a gratidão. Recebi a graça da gratidão de todo um povo, e não há melhor sensação do que a do trabalho cumprido. Não permitam que as diferenças culturais, econômicas, os empeçam de construir um mundo sustentável, sem miséria e com respeito ao meio ambiente. Nós temos muitas línguas, mas apenas um mundo para todas elas.
Depois de muitos aplausos, alguns daqueles espíritos se dirigiram aos diálogos que os interessavam, outros foram conversar com os líderes, embaixadores e outros representantes. Eles se diziam Embaixadores do Além, e como embaixadores ninguém poderia contestar seus votos ou falas.
Aliás, ninguém teve coragem de fazer isso, afinal a situação apresentada era única, ninguém fazia a menor ideia de como agir, estavam pasmos.
Keynes até convocou uma reunião entre os embaixadores e economistas, que segundo ele necessitavam de um puxão de orelha.
– Anos atrás eu escrevi que ” desde os primeiros tempos de que temos o registro, volto a dizer há 2.000 anos antes de Cristo, até o início do século 18, não houve grande mudança no padrão de vida do homem médio que vivem em centros civilizados da Terra. Altos e baixos, certamente. Visitações de pragas, fome e guerra, intervalos de ouro, mas nenhuma mudança violenta progressiva. O ritmo lento de progresso ou falta de progresso deveu-se a duas razões, a notável ausência de melhorias técnicas importantes e ao fracasso da acumulação do capital. ” Também disse que a economia poderia crescer 4 a 8 vezes mais em relação a situação econômica da época. Nisso acertei, e agora existe uma sociedade com capital acumulado e melhoras tecnológicas, mas vocês precisam ter coragem para entrar em um novo tempo, do desenvolvimento sustentável, a economia se baseia em riscos, e tenho certeza que é um risco enorme para a humanidade não se desenvolver tendo como base a economia sustentável. Infelizmente vocês já entraram em uma época geológica chamada de Antropocene, e a única era em que a humanidade obteve crescimento econômico e tecnológico foi na Holocene, assim consequências de suas escolhas podem liderar o mundo de volta aos tempos anciãos ou a caminho do crescimento, tanto econômico quanto cultural, porém o econômico será mais moderado do que hoje. Há duas escolhas: o crescimento moderado ou a falta dele. Será necessário desenvolver a resiliência, pois a temperatura continuará aumentando, assim como o nível dos oceanos, e é necessário estar preparado para o que virá. E mais do que isso, eu sei que vocês entendem que cada Meta do Milênio, agora evoluídos para Metas Sustentáveis do Milênio dependem um do outro, e vocês dependem deles.
Os economistas e embaixadores não souberam como reagir em frente ao balde de água fria que receberam, junto de uma sacudida para a realidade, pois aquelas não eram apenas bonitas palavras, mas sim uma análise de um grande economista.
Enquanto isso, Stéphane Hessel estava assistindo uma palestra sobre direitos humanos quando a palestrante pediu que contasse um pouco de sua história para os jovens presentes, que não conheciam sua luta. Assim, o senhor se levantou, sorrindo, e falou:
-Meu nome é Stéphane Hessel, judeu nascido na Alemanha, mas me naturalizei francês e me considero cidadão do mundo. Cresci no intervalo das duas guerras, e quando a segunda Guerra Mundial aconteceu fiz parte da Resistência Francesa. Todavia, não estou aqui para contar a minha história, e sim falar um pouco sobre a história e futuro do mundo. Vivi em uma época em que não havia seriedade ao tratar dos direitos humanos, como hoje, em que existe uma preocupação em relação a isso, naquele tempo muitas pessoas acharam bobagem, e como resultado tivemos o Holocausto. Se vocês não levarem a sério a sustentabilidade, algo similar poderá ocorrer, e não apenas com a espécie humana, mas com muitas outras, tanto de plantas quanto animais. Não apenas uma pessoa, e sim a humanidade inteira será responsável por um novo genocídio. Cada um de vocês será responsável, não adianta colocar a responsabilidade nas mãos dos líderes, como diria Saint Exupery: ‘tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.’ Cuidar do meio ambiente também é questão de direitos humanos. Passem das palavras as atitudes, das leis as ações: andem mais de bicicletas, economizem água, comprem produtos orgânicos, plantem árvores, exijam que suas cidades tenham a maior parte da energia limpa, que as escolas tenham educação ambiental. Façam da sustentabilidade uma ideologia para suas vidas.
Um pouco depois, madre Teresa de Calcutá andava pelos corredores, escutando trechos de palestras. Todas estavam muito interessantes, mas procurava em especial uma em especial sobre medicina.
Quando encontrou, ficou parada na porta escutando, interessada. Um senhor atrasado mal pôde acreditar ao ver a pequena senhora grudada na porta. Mas como pode ser ela? Nossa, será que a mídia sensacionalista não estava sendo sensacionalista dessa vez ou eu enlouqueci? – Refletiu o médico.
Para tirar a prova, resolveu chamá-la:
– Teresa de Calcutá? – Disse receoso.
-Sim? – Respondeu.
Desconcertado, decidiu tomar uma atitude, não a deixaria de fora da reunião.
-A senhora poderia me acompanhar? – Falou enquanto indicava o seu braço para ela segurá-lo e abria a porta.
– Tudo bem. Sem problemas. Muito obrigada. – Respondeu com um sorriso que valia por mil palavras, e para aquele médico, um admirador do trabalho dela, valia pela vida inteira.
Ele retribuiu o sorriso e entraram. Havia poucas cadeiras livres, então os dois se dirigiram ao fundo da sala e ficaram escutando.
Quando entraram a sala encontrava-se em rebuliço, por isso ninguém percebera a entrada deles, todavia agora um moço vira Madre Teresa, e ficou sem palavras.
Como o moço ficara sem palavras ao olhar para trás, todos seguiram seu olhar, e igualmente ficaram sem fala.
– Será que a Madre gostaria de participar mais ativamente da discussão?
-Claro, em um momento oportuno. Obrigada.
O moço afirmou seu entendimento com um gesto de cabeça. Em um momento, Teresa resolveu participar:
– Tenho certeza de que vocês têm ótimas ideias e trabalhos, mas esse não seria o caso de uni-las? Ninguém é melhor que ninguém, vocês não precisam demonstrar que suas técnicas, suas teses, são melhores que a do outro. Nada disso é necessário para a verdadeira medicina, somente a humildade para enxergar o outro e abnegação para ajudá-lo. Todas as teses são inúteis sem as duas virtudes, e todas estarão certas se realizadas com amor… O básico todos sabem, e para um mundo sustentável são necessários médicos que salvem as pessoas pobres de doenças como diarreia, diabetes… Um exemplo é o médico indiano Davi Shetty, que abriu um hospital do coração que atende a população por menos de um terço do que custa a cirurgia em países como USA. Ele pode não ter um lucro monetário tão grande, mas tem lucro em seu coração que supera qualquer dinheiro. Vocês não precisam ser freiras para ajudar, apenas homens. -Primeiro o silêncio, depois as palmas.
Vejamos também o que disse Einstein conversando com alguns cientistas:
– Olha: para a ciência ser útil a humanidade ela precisa ser útil ao meio ambiente, não sei se vocês perceberam, mas vocês, os vivos, habitam um planeta. A ciência pode ser a chave para muitos problemas, mas vocês não podem agir sozinhos, as melhores soluções são construídas em comunidade. Temos muitas línguas e culturas, mas apenas um mundo para abrigar todas as diferenças, e precisamos lutar pelo que temos em comum: nosso planeta e o amor que rege nossas vidas, pois para amar não importa onde é aqui ou lá. Ama-se e ponto: ‘ o amor é a força mais humilde, mas a mais poderosa que se dispõe ao ser humano. ´- Gandhi.
Com a minha própria voz, digo aos senhores: se os maiores pensadores da humanidade pudessem conversar conosco, eles nos diriam algo similar, pois compreenderiam que a sustentabilidade é um ato de amor com a humanidade e com o planeta.
Por Laís Vitória Cunha de Aguiar, Adopt a Negotiator.
in EcoDebate, 01/09/2015
"COP21: Uma conferência extraordinária, conto de Laís Vitória Cunha de Aguiar," in Portal EcoDebate, 1/09/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/09/01/cop21-uma-conferencia-extraordinaria-conto-de-lais-vitoria-cunha-de-aguiar/.

Aquicultura, artigo de Roberto Naime


artigo

[EcoDebate] O Brasil é grande produtor de proteína originada de vários animais terrestres, e de grãos, mas ainda não deu o mesmo passo para se tornar grande “player” também de produtos advindos da aquicultura, embora seja um país muito bem aquinhoado de recursos hídricos de águas doces ou águas salobras e de condições geográficas e paisagísticas para isto. A aquicultura é o desenvolvimento de todo e qualquer tipo de organismo cujo ciclo evolutivo que ocorra em condições naturais, seja registrado total ou parcialmente em meio aquático.
O Brasil ainda tem que despertar, e isto está ocorrendo lentamente, para seu potencial de aquicultura. A aquicultura tem enorme potencial. Sobre o território de 1 hectare de terra, normalmente se produz de 800 a 900 kg de carne ao ano, como normalmente se denomina, de proteína animal. Mas por exemplo, o potencial de cultivo de tilápia em tanques com aproximadamente a mesma área, pode chegar a 10 toneladas, ou seja mais de 10 vezes o que se produz em campos secos.
Existem registros que os chineses já dominavam estas técnicas há muito tempo e que a civilização egípcia por exemplo, já tinha conhecimento do ciclo de produção de tilápia em aquicultura há 4 ou 5 milênios da época atual. A denominação de aquicultura é utilizada mais classicamente para a produção a partir de água doce, enquanto o termo maricultura é usada para produção a partir de água salgada em ambientes litorâneos ou em mar aberto.
VALENTI (2.002) define a aquicultura sustentável como sendo “A aquicultura sustentável pode ser definida como a produção lucrativa de organismos aquáticos, mantendo uma interação harmônica duradoura com os ecossistemas e as comunidades locais”. A aquicultura envolve as atividades de piscicultura que é a criação de peixes em tanques ou redes em ambiente marinho ou lacustre. A malacocultura que envolve a produção de moluscos como ostras, mexilhões, caramujos e vieiras. A carcinicultura que é o cultivo de camarões em viveiros. A algicultura que é a produção de algas ou microalgas. A ranicultura que compreende o cultivo de rãs, e finalmente a atividade de criação de jacarés.
VALENTI (2.002) aprofunda a abordagem de sustentabilidade na aquicultura, destacando que “entende-se por sustentabilidade, o gerenciamento e conservação da base de recursos naturais e a
orientação tecnológica e institucional, de modo que assegure a contínua satisfação das necessidades humanas para as gerações presentes e futuras”.
Em atividades profissionais desenvolvidas há tempos, ocorreu registrar que um dos maiores impactos ambientais da atividade de piscicultura se relacionava com contaminações que podiam ser perpetradas pelo uso intensivo de antibióticos próprios para utilização com esta finalidade e que pudessem sofrer alguma forma de descontrole que gerasse contaminação. As atividades vinculadas a aquicultura são múltiplas utilizando tanto recursos naturais como manufaturados e exigindo ampla preparação e treinamento de recursos humanos e adequadas estruturas e procedimentos de segurança que enaltecem a utilização de boas práticas em todos os tipos de procedimentos.
Para perenização da atividade e manutenção da lucratividade é fundamental a manutenção do equilíbrio homeostático e ecossistêmico em paisagens, biomas e condições inter-relacionais, que são bastante sensíveis e vulneráveis sempre. VALENTI (2.002) adverte que a sustentabilidade tão necessária em qualquer empreendimento, pode ser ampliada em eventos de aquicultura, “com a utilização de sistemas integrados de produção, como o policultivo e o consórcio, com o aproveitamento dos resíduos do beneficiamento para a produção de embutidos, silagem, e hidrolisados proteicos e com a racionalização do uso de insumos (principalmente ração)”. Estas práticas podem viabilizar economicamente sistemas que integrem relações originalmente inviáveis entre fatores e variáveis mobilizados para produção.
Já se registrou e não é difícil de imaginar que mais do que em outras situações, a aquicultura é muito mais dependente da manutenção de equilíbrio nos ecossistemas nas quais ocorre e está inserida. Por isto são necessárias análises de impactos ambientais muito refinadas, de forma que possam determinar procedimentos adequados, impedindo a redução da biodiversidade, esgotamento de recursos naturais e alterações na estrutura de funcionamento do meio ambiente local afetado. Mais do que nunca, não se pode adotar ou desenvolver nova tecnologia que amplie a produção, sem cuidadosa avaliação de impactos ambientais.
O uso de antibióticos, embora seja um dos maiores fatores impactantes não é o único. As potencialidades geradas pelos climas e disponibilidades hídricas do país tornam a atividade muito atrativa. Mas, na fase de implantação, são necessários cuidados permanentes com as remoções de cobertura vegetais na construção de estruturas, a remoção de mata ciliar sempre que ocorre e a erosão com alteração nos regimes hídricos de deposição de sedimentos.
Na fase de operação, além dos efluentes contaminados com antibióticos, deve se ter preocupação com eutrofização, gerada por efluentes ricos em nutrientes, como Nitrogênio e Fósforo e os excessos de carga orgânica e sólidos em suspensão. A introdução de espécies exóticas e a ampliação de doenças nos ambientes deve ser objeto de cuidadosos estudos, da mesma forma que as substâncias tóxicas e as drogas bioacumulativas devem merecer especial atenção.
Especialistas podem trabalhar melhor, particularmente as possibilidades de policultivos, que são divididas em 5 níveis de abordagem conforme a complexidade encontrada. O que deve ficar registrado é que a atividade agropecuária que sustenta a balança de pagamentos do país e se trata de inegável mola propulsora da pujança econômica do país, ainda está apenas viabilizando as primeiras iniciativas no que pode ser determinado como grande potencial do país, que é a utilização mais intensiva de suas potencialidades para o incremento da aquicultura em todas as suas dimensões.
VALENTI, W. C. 2002. Aquicultura sustentável. In: Congresso de Zootecnia, 12o, Vila Real, Portugal, 2002, Vila Real: Associação Portuguesa dos Engenheiros Zootécnicos. Anais…p.111-118.
Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 01/09/2015
"Aquicultura, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, 1/09/2015,http://www.ecodebate.com.br/2015/09/01/aquicultura-artigo-de-roberto-naime/.

EcoDebate - Edição 2.375 de 01/ setembro / 2015

Aquicultura, artigo de Roberto Naime

“Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]