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sábado, 26 de março de 2022

Pegada Hídrica: qual o impacto ambiental do nosso consumo?

Pegada Hídrica foi um conceito criado pelo pesquisador holandês Arjen Hoaektre, há cerca de 20 anos, como um modelo para mensurar o volume de água utilizado ao longo de toda a cadeia de produção de um bem ou serviço Por Naiana Madureira No Dia Mundial da Água, Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água (ALADYR) chama atenção para ao uso indireto de água ligado aos nossos hábitos de consumo e convoca sociedade civil, poder público e empresas a pensarem em alternativas sustentáveis que garantam o fornecimento de recursos hídricos para as próximas gerações. De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), um brasileiro consome, em média, cerca de 152,1 litros de água por dia para realizar tarefas básicas como escovar os dentes, tomar banho e limpar a casa. Esse dado contempla apenas o uso direto, ou seja, a água que usamos para beber, lavar e cozinhar; ele deixa de lado o uso indireto, a “água virtual” incorporada nos processos produtivos de bens e mercadorias que fazem parte do nosso dia a dia. Para confeccionar a calça jeans que vestimos foram utilizados mais de 5 mil litros de água, na xícara de café consumida nas primeiras horas da manhã foram gastos 132 litros de água para sair das plantações e chegar a nossa mesa, o bife que acompanha o tradicional PF brasileiro utilizou 15.415 litros de água para cada quilo de carne comercializada. A plataforma Water Footprint Network, especializada em contabilizar a pegada hídrica de mercadorias e atividades comerciais, estima que cada brasileiro consuma em média 5.600 litros de água por dia, considerando o uso direto e o indireto. Pegada Hídrica foi um conceito criado pelo pesquisador holandês Arjen Hoaektre, há cerca de 20 anos, como um modelo para mensurar o volume de água utilizado ao longo de toda a cadeia de produção de um bem ou serviço, da matéria prima ao produto final. O assunto saiu do mundo acadêmico e ganhou aderência de empresas dos mais diversos segmentos, que estão apostando em embalagens reutilizáveis e inciativa de economia circular da água, bem como de consumidores atentos, que estão dispostos a repensarem seus hábitos de consumo. Para o cálculo da pegada hídrica de um produto, são considerados três tipos de consumo de água: a Pegada Hídrica Verde, que considera apenas a água de precipitações (chuvas e neve) utilizada na evaporação, transpiração ou que é incorporada pelas plantas; Pegada Hídrica Azul, toda água proveniente de recursos hídricos subterrâneos ou superficiais que evapora ou é agregada durante a produção de um bem, ou ainda disposta no mar; por fim temos a Pegada Hídrica Cinza, que se refere apenas a água limpa utilizada para diluir água poluída oriunda dos processos de produção, até que se alcance os padrões de potabilidade estabelecidos em legislação. “Se consideramos que a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que em 2050 teremos quase 10 bilhões de habitantes no planeta, faz cada vez mais sentido nos preocuparmos com a quantidade de água consumida em nosso dia a dia, utilizada para a produção dos bens de consumo e para desenvolvimento da economia, bem como discutirmos alternativas sustentáveis para aumentar a oferta de água, seja através de projetos de reúso de água ou dessalinização da água do mar ou salobra”, destaca Juan Miguel Pinto, engenheiro e presidente da Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água (ALADYR). Águas subterrâneas Criado em 1992 pela ONU, o Dia Mundial da Água é celebrado em 22 de março de cada ano, como um esforço da comunidade internacional para conscientizar todas as pessoas sobre a importância deste recurso natural e inspirar ações em prol do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 – água e saneamento para todos. Em um relatório apresentado no 8º Fórum Mundial da Água, realizado em Brasília, a ONU afirmou que a falta d’água pode afetar 5 bilhões de pessoas até 2050. Neste ano o tema escolhido é “Águas subterrâneas: Tornando o invisível visível”, uma vez que quase toda a água doce do mundo está disponível em reservas subterrâneas. Segundo citações do Ministério do Meio Ambiente, as reservas de água subterrânea brasileiras estão estimadas em 112 mil quilômetros cúbicos, enquanto que a contribuição multianual média à descarga dos rios é da ordem de 2.400 quilômetros cúbicos por ano. Enquanto isso, na Argentina, a contribuição multianual média à descarga dos rios é da ordem de 128 km³/ano, no Paraguai, de 41 km³/ano e no Uruguai, de 23 km³/ano. Um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo está situado no centro-sul do Brasil e em parte dos territórios da Argentina, Paraguai e Uruguai. O Aquífero Guarani abrange parte dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, uma área maior que 1 milhão de quilômetros quadrados e comporta aproximadamente 33 trilhões de litros de água A água subterrânea é um tesouro escondido sob nossos pés e que está sob ameaça iminente, tanto pela intensificação das mudanças climáticas, como pela ação humana. Entre as principais fontes de contaminação dos mananciais subterrâneos estão os lixões e aterros mal operados; uso incorreto de agrotóxicos e fertilizantes; vazamentos de esgoto e efluentes; armazenamento, manuseio e descarte inadequado de produtos e resíduos oriundos da atividade industrial; entre outros. Segundo o Programa Mundial de Avaliação da Água da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o consumo de água no mundo deve crescer entre 20% e 30% nos próximos 28 anos. Em virtude disso, se faz ainda mais necessário pensar na preservação dos mananciais e reservatórios subterrâneos. Para Marcelo Bueno, diretor da ALADYR para o Brasil, os cenários projetados para as próximas décadas confirmam a urgência em passarmos de um status de discussão para a real aplicação de tecnologias de reúso de água e dessalinização como modelos de complementação do abastecimento de água. “As tecnologias existem e os seus benefícios são múltiplos. Estamos falando de plantas de dessalinização que podem garantir água potável em regiões que antes era impensável ter água, ou mesmo iniciativas que promovam o tratamento de efluentes e reúso de água para abastecer grandes complexos industriais e, assim, reduzir a captação de águas superficiais e subterrâneas”, destacou o engenheiro. O projeto Aquapolo Ambiental mostra que as iniciativas apontadas pela ALADYR já são uma realidade. A maior planta de produção de água industrial da América Latina, resultado de uma parceria entre a GS Inima Industrial e a SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), fornece água de reúso para o Polo Petroquímico de Capuava e indústrias da Região do ABC Paulista, utilizando como insumo o esgoto tratado pela Estação de Tratamento de Esgoto ABC da Sabesp (ETE-ABC). Para Márcio José, diretor presidente do Aquapolo Ambiental, projetos que buscam um melhor aproveitamento dos recursos hídricos tem um papel fundamental tanto econômico, como social. “Esse papel é muito claro, pois a cada litro de água reciclada utilizado por nossos clientes do segmento industrial, outro litro de água potável é liberado para usos mais nobres como o consumo humano”, destaca Márcio. Com nove clientes atendidos diretamente, 14 plantas industriais utilizando a água de reúso produzida, o AQUAPOLO tem capacidade para fornecer 1 mil litros de água de reúso por segundo, volume suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes. Os representantes da ALADYR fazem um chamado não só para este dia, mas em todos, para que sejamos mais conscientes em nossas casas, indústrias, trabalhos, escolas e em qualquer ação sobre o consumo e uso da água. Faz-se necessário conhecer a origem e o trabalho despendido para que todos tenham acesso a esse recurso, observar se estamos contribuindo ou não para a poluição de rios, lagos e reservas subterrâneas; bem como entender como podemos melhorar a forma de devolução dos recursos hídricos utilizados aos mananciais e bacias hidrográficas. É vital tomarmos ações que previnam os cenários alarmantes que estão previstos. Fontes: https://www.waterfootprint.org/en/resources/interactive-tools/product-gallery/ http://www.snis.gov.br/painel-informacoes-saneamento-brasil/web/painel-abastecimento-agua in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/03/2022

Entenda aquecimento global e mudança climática

Nesta matéria, você vai entender melhor a diferença entre o que acontece hoje e outros momentos em que houve alteração no clima e conhecer o debate científico atual sobre o tema Por Cátia Guimarães – EPSJV/Fiocruz Quando esta matéria chegar a você, provavelmente isso não será mais notícia nem post nas redes sociais. Mas no exato momento em que esta reportagem estava sendo escrita, mais de 200 pessoas tinham morrido em Petrópolis, município serrano do estado do Rio de Janeiro, em função das chuvas, que geraram deslizamentos e enchentes. O debate midiático sobre o desastre ressaltava dois fatos principais: foi a maior chuva da cidade em 90 anos (quase 250 milímetros em 24 horas) e uma parte da população, mais atingida, morava em encostas ou áreas de risco. Pois na interseção dessas duas justificativas, e na origem dessa e de muitas outras tragédias semelhantes, está um problema que ameaça muito mais do que uma cidade: o aquecimento global, um sintoma contemporâneo das chamadas mudanças climáticas. Antes de tudo, é preciso alertar que essas expressões não são sinônimas. Enquanto o aquecimento global é um (grande) um problema dos nossos tempos, as mudanças climáticas precisam ser entendidas como um fenômeno esperado da natureza. “Mudança climática é um termo que se refere a alterações no comportamento médio do tempo meteorológico. Se uma região como o Ártico estivesse esfriando, a gente estaria falando de uma mudança climática regional. O termo ‘mudança climática’ vale para qualquer alteração desses padrões. Já o aquecimento global se refere especificamente ao aumento da temperatura média global”, explica o físico Alexandre Araújo, doutor em Ciências Atmosféricas e professor da Universidade Estadual do Ceará. Andrei Cornetta, doutor em Geografia Humana e autor do verbete sobre esse tema no recém-lançado ‘Dicionário de Agroecologia e Educação’, publicado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) em parceria com a Expressão Popular, completa: “A mudança está na essência do que é o clima porque os fenômenos atmosféricos são dinâmicos. Então, a questão é discutir os fatores que levam às mudanças climáticas”. E é aí que mora o problema. Como um processo natural, a Terra absorve calor do Sol e reflete, para o ‘espaço’, radiação infravermelha. Acontece que alguns gases, como o metano, mas principalmente o dióxido de carbono, têm propriedades que impedem a passagem de boa parte dessa radiação, fazendo com que ela fique presa por aqui e aqueça a superfície do planeta. É a isso que se chama de ‘efeito estufa’. De acordo com Alexandre Araújo, parte dessa ‘estufa’ é de fato necessária, mas o excesso, como se vê hoje, gera um aumento da temperatura média da Terra, facilitando a existência ou a ampliação de fenômenos como ondas de calor, chuvas violentas, furacões e ciclones, entre vários outros. Isso sem contar os efeitos sobre as condições de saúde: segundo Alexandre Pessoa, professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz e um dos organizadores do ‘Dicionário’, não apenas os efeitos do aquecimento global geram “alterações na distribuição de vetores e doenças infectoparasitárias” como a redução da biodiversidade gerada por essas mudanças amplia a “mobilidade e disseminação de vírus selvagens”, aumentando o “risco de saltos zoonóticos, a exemplo da Covid-19”. Ação humana A relação entre natureza e ação humana está presente em todo o debate sobre mudanças climáticas. De fato, uma parte do CO2 que existe na atmosfera da Terra é emitida naturalmente, por exemplo, pelos oceanos e florestas. Mas o excesso que gerou os problemas atuais vem da queima dos chamados combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural – exatamente aqueles que estão na base da atividade industrial, além de muitas outras ações que são parte do nosso cotidiano, como o simples ato de andar de carro. E não é só: processos de destruição ambiental, como o desmatamento e as queimadas nas florestas, também contribuem significativamente para a concentração desses gases e o consequente aquecimento global. Para se ter uma ideia, dados do Observatório do Clima divulgados em outubro passado mostraram que, ao longo de 2020, a emissão de gases do efeito estufa aumentou 9,5% no Brasil – na contramão dos números globais, que apontaram uma redução de 7% no mundo. A aparente contradição de um crescimento desse tipo ocorrer num ano marcado pela redução da circulação de pessoas, transporte e atividade industrial, em função da pandemia, se explica com uma informação adicional: 46% dessas emissões se deveram ao desmatamento. “Fala-se muito no processo de ‘savanização’ da Amazônia, mas, mais do que a questão da elevação da temperatura terrestre, é preciso entender que isso tem sido impulsionado em grande medida pelo avanço do desmatamento em função do modelo de agricultura que nós adotamos no país, a partir de monoculturas e ampliação de pastagens”, explica Cornetta. Araújo lembra que o planeta já passou por vários períodos de aquecimento e resfriamento: nos últimos 2,5 milhões de anos, houve intervalos “relativamente quentes”, chamados interglaciais, e outros “relativamente frios”, conhecidos como glaciais. Isso significa que o clima já mudou muitas vezes. “Mas sempre houve uma razão física para isso”, alerta, explicando que essa é uma das grandes diferenças em relação à manifestação de mudança climática que nós experimentamos hoje, que é prioritariamente antropogênica, ou seja, causada pela ação humana. Ainda assim, Alexandre Pessoa alerta: “A crise ecológica não é gerada pelo homem genérico, mas pelas corporações que lucram com a exploração e degradação ambiental. E a consequência também não será igual para todos”. A outra diferença em relação às mudanças climáticas do passado é a escala. “Nos últimos 800 mil anos, até o período pré-industrial, a concentração de dióxido de carbono oscilou entre 173 partes por milhão, que é o mínimo a que se chegou em um dos glaciais, até 298 partes por milhão, que foi o máximo que ela havia chegado em algum dos interglaciais. E essa mudança na concentração de CO2 veio acompanhada de uma oscilação de temperatura da ordem de quatro a cinco graus na escala global”, conta Araújo. O “ritmo natural do processo”, portanto, indicava que uma alteração desse porte levava dezenas de milhares de anos para ocorrer. Acontece que essa velocidade mudou: em pouco mais de 200 anos, desde meados do século 18 até agora, essa concentração subiu de 278 partes por milhão para 420. E, segundo Araújo, “o grosso” desse aumento aconteceu na segunda metade do século passado, num período de aproximadamente 70 anos. “São processos muito acelerados. Não há paralelo na história”, diz, ressaltando que a última vez que o planeta experimentou uma atmosfera como a de hoje foi há cerca de 5 milhões de anos, quando os seres mais próximos dos humanos que circulavam por aqui ainda nem eram hominídeos. “A humanidade que a gente conhece, com cultura [de alimentos], pecuária, cidades e assentamentos humanos gigantescos, é toda filha do holoceno. Ou seja, nós aproveitamos muito bem a generosidade de 11.700 anos de uma estabilidade climática associada a um interglacial, que introduziu o clima ameno. Foi isso que permitiu que se domesticassem animais, que se passasse a produzir alimento em escala capaz de sustentar uma quantidade cada vez maior de pessoas”, conta. Mas lamenta: “Nós somos os filhos mais ingratos do holoceno”. O que diz o debate científico Apesar disso, uma das narrativas que tem tentado relativizar os alertas sobre o aquecimento global é exatamente a que retira ou reduz o peso das ações humanas sobre esse fenômeno. Segundo Andrei Cornetta, embora muito minoritários, no campo específico da meteorologia física, há “cientistas céticos” produzindo estudos que apontariam outros fenômenos naturais como principais razões do aquecimento, deixando de focar na emissão de gases do efeito estufa. Ele diz que essas pesquisas têm sido apropriadas por grupos políticos conservadores e vinculados a interesses econômicos, mas não deixa de reconhecê-las como parte do debate científico. Alexandre Araújo discorda. Segundo ele, a última controvérsia realmente científica sobre esse tema remete aos anos 1980. “A ideia de que existe qualquer grau de disputa sobre esse tema é fabricada propositalmente há quase três décadas”, diz, defendendo que os autores que promovem essa aparente polêmica não são apropriados por grupos que defendem o negacionismo em função dos seus interesses econômicos, mas sim financiados e produzidos por eles. Hoje, a fonte que mais alimenta o debate acadêmico e as decisões políticas internacionais sobre o assunto, produzindo previsões e propondo diretrizes científicas, é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Ele foi criado em 1988, como resultado de grande volume de pesquisas que evidenciavam a relação entre a emissão de gases do efeito estufa e o aquecimento global – embora as primeiras e fundamentais descobertas sobre essa cadeia tenham se dado ainda no século 19. Já o “reconhecimento mundial dessas questões”, expresso num conjunto de eventos, como a 2ª Conferência Mundial sobre o Clima e a Convenção Quadro sobre Mudanças Climáticas, promovida no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), se dá, segundo Andrei Cornetta, em fins dos anos 1980. “A partir desse momento a questão climática passa a ser incorporada nas agendas políticas”, diz. Em meados da década seguinte, em 1997, pela primeira vez os países estabeleceram metas de redução dos gases do efeito estufa, compromissos esses firmados a partir do chamado Protocolo de Kyoto. Uma das estratégias possíveis para essa mudança é adotar o que Cornetta caracteriza como “mecanismos de desenvolvimento limpos”, com a substituição de combustíveis fósseis. “Um exemplo é uma usina de cana de açúcar que passou a produzir energia com o aproveitamento das sobras da sua produção, com o bagaço da cana e com o vinhoto e, a partir disso, passou a gerar energia elétrica, tornando-se autossustentável e, em alguns casos, vendendo o excedente de energia para empresas concessionárias”, ilustra. Araújo completa: “Uma transição energética implica não apenas mudar as fontes de energia, mas também mexer na demanda energética. Quanta energia a gente gasta sem necessidade, com a obsolescência programada, produção de descartáveis, consumo de bens individuais que seriam atendidos de forma muito mais racional e eficiente através de saídas compartilhadas?”. Como exemplo desse questionamento, no caso do Brasil, ele cita a prioridade do uso de automóveis no lugar do investimento em transporte público. “Ninguém está querendo voltar para a caverna. Nós estamos querendo garantir as condições para que o conjunto da humanidade siga em uma situação de dignidade, de proteção de maneira coletiva, o que implica reduzir desigualdades e frear a irracionalidade dos nossos impactos sobre a natureza”, diz. O problema é que esses não têm sido os principais caminhos adotados. “A economia de baixa emissão de carbono é um modelo econômico que envolve a redução e a gestão de emissão de gases de efeito estufa, baseado em grande medida na substituição de fontes energéticas fósseis. Mas não só isso: envolve um rearranjo produtivo industrial, rearranjos de uso e ocupação do solo. A questão é que isso vem sendo feito muito pelos chamados mecanismos de mercado compensatórios”, explica Cornetta. Na prática, isso significa que grandes empresas e países ricos passaram a comprar o que ele chama de “direito de poluir”. Cornetta exemplifica com o projeto de Sequestro Florestal de Carbono, que foi implementado no Acre, no Brasil. A ideia, diz, é “gerar receita com a floresta em pé”. Significa garantir que a vegetação de uma determinada área não seja derrubada, fazer uma série de cálculos para descobrir quanto CO2 teria sido emitido se ela tivesse sido desmatada e transformar esse número hipotético num papel com valor que possa ser negociado numa espécie de bolsa de valores. Assim, empresas e governos que não conseguiram (ou nem tentaram) reduzir as próprias emissões de CO2 compram esses créditos de carbono para melhorar seus indicadores em relação às metas assumidas em acordos internacionais. Se tem a vantagem de manter a floresta de pé por aqui, por outro lado a estratégia alivia a ‘culpa’ de empresas e países que não deixaram suas próprias florestas em pé ou, o que é mais comum, que não alteraram suas fontes prioritárias de energia. Segundo Cornetta, esses são “rearranjos produtivos que desencadeiam novos canais de acumulação de capital”, muito valorizados inclusive neste momento de tentativa de retomada da economia dos países em função da pandemia. Não por acaso, desde o ano passado, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei (nº 528/2021) que visa criar o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões, que regularia a compra e venda de créditos de carbono. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/03/2022

O descaso com que o saneamento básico é tratado no Brasil

A degradação das comunidades onde o esgoto corre a céu aberto é um dos impactos mais chocantes do descaso com que o saneamento básico é tratado no Brasil O Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, é uma data também para lembrar que o ciclo deste insumo vital à vida inclui a forma como tratamos o esgoto. É o saneamento adequado que garante o retorno não poluente ao meio ambiente e mais saúde a todos. Serviço básico que, em falta, retira retirada a dignidade especialmente de famílias moradoras de regiões carentes, as maiores vítimas do descaso. Por Thiago Kern Copetti “O gestor público deveria ter entre suas prioridades tratar o esgoto adequadamente. Ofertar água potável e devolvê-la ao ambiente de forma não poluente. Um sistema de saneamento básico abarca tudo isso e atende plenamente a sigla do momento: ESG. É ambiental, social e depende de boa governança”, explica Yves Besse, presidente da Cristalina. A degradação das comunidades onde o esgoto corre a céu aberto é um dos impactos mais chocantes do descaso com que o saneamento básico é tratado no Brasil. É causa de milhares de mortes de crianças, especialmente, mas também de graves doenças em adolescentes e adultos, de gastos com saúde que não seriam necessários, de prejuízos ao desenvolvimento educacional adequado e para a economia como um todo. Até mesmo a produtividade aumentaria e as faltas ao trabalho poderiam ser reduzidas se esse sistema funcionasse minimamente bem. O Brasil teria menos adultos com problemas gastrointestinais e outras doenças oriundas do consumo de água sem tratamento ou da convivência com o esgoto na porta de casa — e menos pais faltando o serviço pela necessidade de cuidar filhos com diarreia e outras moléstias mais graves. A captação, o tratamento e o fornecimento de água potável assim como a coleta, tratamento e devolução ao meio natural do esgoto é um sistema único e deve ser tratado de forma adequada em todas as fases. “A falta de saneamento básico é um claro exemplo da forma como a água é cuidada no Brasil, já que o sistema de saneamento é como uma sinfonia entre todas as partes relacionadas e basta uma delas estar desafinada para prejudicar todas as demais”, compara Daniela Pinho, diretora de finanças sustentáveis da Cristalina . Os afetados pelo sistema precário de saneamento e esgoto são muitos. O Instituto Trata Brasil (ITB) aponta que quase 35 milhões de brasileiros vivem em locais sem acesso à água tratada, 100 milhões não têm acesso à coleta de esgoto e somente 49% dos esgotos no país são tratados, segundo dados fornecidos pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) relativos a 2019. Negligência que avança sobre o sistema de saúde. Ainda de acordo com o ITB, com dados do Datasus, em 2019 foram 273.403 internações por doenças de veiculação hídrica – um aumento de 30 mil hospitalizações comparativamente ao ano anterior. A incidência foi de 13,01 casos por 10 mil habitantes gerando gastos ao país de R$ 108 milhões. “De um lado estão gestores públicos que deveriam dar atenção a tudo isso, e não o fazem. Do outro, os pró-saneamento, aqueles que são a favor da melhoria da saúde pública, do combate à mortalidade infantil, da produtividade no trabalho e da dignidade de uma vida sem falta de água e sem poluição dos rios, lagos e praias”, compara o presidente da Cristalina. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/03/2022

Práticas sustentáveis de povos indígenas conservam de 114 milhões de árvores na Amazônia

Iniciativas de manejo sustentável de produtos da sociobiodiversidade fortalecem a proteção de 6 terras indígenas contribuindo para a captura de carbono Por meio de iniciativas de manejo sustentável de produtos da sociobiodiversidade, os povos indígenas Apurinã, Paumari, Jamamadi e Deni, que vivem em 6 terras indígenas no sul e sudoeste do Amazonas, contribuíram, em 2021, para a conservação de um estoque de carbono equivalente a 114 milhões de árvores em pé. É o que mostra o relatório de quantificação de carbono das atividades do projeto Raízes do Purus, que apoia o manejo sustentável de pirarucu, castanha, copaíba e açaí, e implementação de Sistemas Agroflorestais nestes territórios, com patrocínio da Petrobras. O documento, elaborado com o objetivo de avaliar as emissões e remoções de gases de efeito estufa (GEE) promovidas pelo projeto durante o ano passado, comprova a eficácia destas iniciativas para a proteção de terras indígenas, e para a mitigação da mudança climática. Estudos científicos desenvolvidos por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) mostram que, em média, uma floresta madura de terra firme, captura algo em torno de 500 quilos a 1 tonelada de carbono por hectare. O estudo analisou 246 mil hectares de florestas onde ocorrem as atividades de manejo apoiadas pelo Raízes do Purus. “A ideia foi quantificar as emissões de gases efeito estufa que foram evitadas pelas ações de conservação do projeto, desenvolvidas por meio de vigilância, monitoramento territorial e proteção de ambientes aquáticos que são manejados. Esse conjunto de formação subsidia a avaliação de como está a saúde da região e da floresta e o quanto essas atividades contribuem para o benefício do clima”, afirma o autor do relatório e especialista em clima e ambiente, Rogério Ribeiro Marinho, da Universidade Federal do Amazonas. O relatório estima, ainda, que durante os quatro anos em que o projeto será executado, entre 2021 e 2024, sejam removidos da atmosfera mais de 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e). O projeto contribui de forma direta e indireta na conservação de mais de 2,3 milhões de hectares de floresta amazônica. Os valores utilizados como referência para o relatório de quantificação de carbono do Raízes do Purus foram baseados em dados georreferenciados (imagens de satélite e mapas temáticos), séries estatísticas e informações de literatura científica, seguindo as recomendações do Guia de Quantificação de Carbono de Projetos Socioambientais e as definições do Padrão VCS/VERRA (verified carbon standard). Uso sustentável da floresta contribui para o aumento do estoque do carbono O manejo sustentável de produtos da sociobiodiversidade, uma das principais estratégias do projeto Raízes do Purus, tem se mostrado um excelente aliado da conservação das terras indígenas. Isso porque toda a iniciativa deste tipo depende, em primeiro lugar, da organização coletiva das comunidades para vigiar seus territórios. “O manejo possibilitou que os povos indígenas envolvidos no projeto retomassem o controle sobre suas terras, impedindo atividades predatórias e expulsando invasores, com a vigilância feita pelas próprias comunidades”, explica Leonardo Kurihara, coordenador do Raízes do Purus. Com sistemas de vigilância comunitários bem estruturados e comunidades engajadas na proteção dos territórios, os povos indígenas apoiados pelo Raízes do Purus estão conseguindo evitar o desmatamento dentro das terras indígenas, que tornam-se grandes reservas de carbono, e contribuem de forma importante para reduzir os impactos da mudança climática. Entre os anos de 2015 e 2020, a taxa de desmatamento na região do entorno destas terras indígenas foi de 502 hectares por ano, resultando em um volume médio de 235 mil toneladas de carbono emitidos para a atmosfera por ano. O projeto desenvolve, junto com as comunidades, ações para garantir que as populações das terras indígenas tenham condições de manter a floresta em pé. “O desmatamento e as queimadas são as principais formas de agravar o aquecimento global e os efeitos dos gases de efeito estufa na atmosfera. As florestas costumam ser desmatadas com fogo, o que libera grandes quantidades de gás carbônico e reduz o número de árvores disponíveis para absorvê-lo por meio da fotossíntese. Então, quanto maior o número de árvores saudáveis em pé, maior será a quantidade de carbono armazenado na floresta e a sua capacidade de absorver o carbono da atmosfera. A coleta de castanha, o manejo do pirarucu, as atividades produtivas de maneira sustentável, todas elas dependem da floresta viva”, explica Gustavo Silveira, coordenador técnico da OPAN. Sobre o Raízes do Purus O projeto Raízes do Purus é uma iniciativa da OPAN, com patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, que visa a contribuir para a conservação da biodiversidade no sudoeste e sul do Amazonas, fortalecendo iniciativas de gestão e o uso sustentável dos recursos naturais das terras indígenas Jarawara/Jamamadi/Kanamanti, Caititu, Paumari do Lago Manissuã, Paumari do Lago Paricá, Paumari do Cuniuá e Banawa, na bacia do rio Purus, e Deni e Kanamari, no rio Juruá. www.raizesdopurus.com.br Sobre a OPAN A OPAN foi a primeira organização indigenista fundada no Brasil, em 1969. Nos últimos anos, suas equipes vêm trabalhando em parceria com povos indígenas no Amazonas e em Mato Grosso, desenvolvendo ações voltadas para a garantia dos direitos dos povos, gestão territorial e busca de alternativas de geração de renda baseadas na conservação ambiental e no fortalecimento das culturas indígenas. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/03/2022

Rio Tocantins, o Cerrado que banha a Amazônia

Podemos dizer que o abastecimento de água e a produção de alimentos no país está ameaçado enquanto o Cerrado estiver sob pressão da aceleração do desmatamento Nascido no Planalto de Goiás, a cerca de mil metros de altitude, o rio Tocantins é o segundo maior rio que se encontra totalmente em território brasileiro – sendo o primeiro, o rio São Francisco. Neste 22 de março, Dia Mundial da Água, contamos o curso de um rio que nasce no Cerrado e vai banhar a Amazônia, o Tocantins. Por Bibiana Garrido¹ Colaboração Dhemerson Conciani² Com seus 2,6 mil quilômetros de extensão, o rio Tocantins corre pelos Estados de Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará, além do Distrito Federal. Na altura do Bico do Papagaio, extremo-norte do Estado de Tocantins – região de transição entre os biomas Cerrado e Amazônia – une-se ao Araguaia para formar a principal bacia hidrográfica do Brasil e um dos maiores sistemas fluviais da América Latina: a bacia Tocantins-Araguaia. Como se selasse a conexão Cerrado-Amazônia, é na Ilha de Marajó, no norte do Estado do Pará, que encontra o rio Amazonas, até chegar à foz no Oceano Atlântico. “O rio Tocantins sustenta há milhares de anos as atividades humanas em seu entorno. Por onde quer que passe, é historicamente responsável pelo abastecimento de água potável, provisão de recursos alimentares, agricultura irrigada e, nas últimas décadas, geração de energia hidrelétrica. Com nascentes no coração do Cerrado e foz na Amazônia, atua como um ‘corredor’ que conecta esses biomas, permitindo o fluxo gênico e favorecendo processos evolutivos de ganho de biodiversidade”, explica o pesquisador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do MapBiomas, Dhemerson Conciani. Por onde leva suas águas, beneficia a população. De acordo com o Plano Estadual de Recursos Hídricos do Governo de Tocantins, são aproximadamente 3.600 rios ligados ao Tocantins. É ainda atrativo turístico e meio de transporte: na época de cheia, chega a ser a maior parte navegável, no trecho entre as cidades de Lajeado (TO) e Belém (PA). Também leva água para cerca de 2,5 milhões de pessoas, em 453 municípios, nos mais de 938 mil km² por onde se estende a bacia Tocantins-Araguaia no Cerrado e na Amazônia. Essa área equivale a duas vezes o tamanho do Paraguai ou a quase 11% do território brasileiro. Uso da terra e da água A região hidrográfica do Tocantins dentro do Cerrado compreende as bacias do rio Tocantins e, em parte, do rio Araguaia. Aproximadamente 373 mil km², ou 62,3% de sua área de vegetação nativa está conservada, enquanto que a área ocupada por atividades humanas é de 226 mil km², ou 37,7% da região. O tipo de vegetação predominante é a formação savânica, característica cerratense, com arbustos e árvores espaçadas, seguida por formações naturais não florestais – formações campestres e áreas úmidas – e por formações florestais, com árvores mais altas e em maior densidade. Arquipélago do Tropeço, no rio Tocantins Arquipélago do Tropeço, no rio Tocantins, é o 3° maior arquipélago fluvial do mundo, com 366 ilhas (Foto: Secretaria de Turismo/Governo de Tocantins) Entre as ações humanas que alteram a cobertura de áreas nativas está o desmatamento. Juntas, as regiões hidrográficas do Tocantins e do São Francisco perderam 56,8%, ou 4.841 km², do total de 8.523 km² desmatados no Cerrado entre agosto de 2020 e julho de 2021. A bacia do Tocantins foi a mais afetada: concentrou 23% do total desmatado, ou 1.961 km², uma área maior que a capital do Maranhão, São Luís. De 1985 a 2020, segundo dados do MapBiomas, a região hidrográfica do Tocantins foi a que mais perdeu vegetação nativa. Foram 84 mil km², mesma área de São Félix do Xingu, no Pará. A perda impacta a manutenção de recursos hídricos, uma vez que a vegetação nativa ajuda a abastecer os aquíferos e a rede de drenagem subterrânea, que alimenta os rios. Ao contrário de práticas da agricultura, como a monocultura, que consomem água e bloqueiam a infiltração no solo pelo manejo que o compacta, as raízes profundas do Cerrado são o que permite a circulação de água no bioma e o coloca em conexão com os demais biomas brasileiros. “Podemos dizer que o abastecimento de água e a produção de alimentos no país está ameaçado enquanto o Cerrado estiver sob pressão da aceleração do desmatamento. Toda a vegetação nativa é atingida, inclusive aquela que está nas regiões hidrográficas que nascem no bioma e que são responsáveis pela distribuição hídrica em todo o território nacional. É pensando na qualidade e oferta de água, no ciclo da chuva e no equilíbrio térmico, também na proteção à sociobiodiversidade, que precisamos incentivar e colocar em prática modos de produção que mantenham o Cerrado de pé e, consequentemente, tudo o que está conectado a esse bioma central do Brasil”, diz a pesquisadora no IPAM e coordenadora científica no Mapbiomas, Julia Shimbo. Somente no Cerrado, conforme o MapBiomas, a agricultura irrigada tem mais de 2,3 mil km² que dependem dos cursos d’água da região hidrográfica do Tocantins – um crescimento de mais de 20 vezes em comparação aos 107 km² de 1985 – sendo a captação hoje, em maior parte (1,3 mil km²), por uso de pivôs centrais. Também cresceram as áreas de pastagem da agropecuária, ocupando em 2020 cerca de 84 mil km², o equivalente à área de vegetação nativa perdida. De um lado as usinas, de outro, os atingidos Usinas hidrelétricas ocupam 38,2% da cobertura total de água da região hidrográfica do Tocantins, apontam dados do MapBiomas. Outros usos por atividades humanas, como barramentos para irrigação e consumo, estão em 16,1%. De 1985 a 2020, o ganho da cobertura de água por hidrelétricas na região foi o maior entre todas as regiões hidrográficas do Cerrado: 2,4 mil km², área maior que a da capital Palmas (TO) . O potencial de geração de energia elétrica instalado na bacia Tocantins-Araguaia chega aos 11 mil megawatts, segundo a ANA (Agência Nacional de Águas), o que corresponde a 15,7% da potência instalada no Brasil. No rio Tocantins fica a usina hidrelétrica de Tucuruí, no Estado do Pará, entre as maiores do mundo em potência instalada – no Brasil, a segunda maior depois de Belo Monte, também no Pará. Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará (Foto: Rui Faquini/Banco de imagens ANA) Inaugurada em 1984, a usina de Tucuruí tem uma capacidade geradora de 8,3 mil megawatts e um reservatório de quase 3 mil km² no leito do rio Tocantins. É responsável pelo abastecimento de redes de energia nos Estados do Pará, Maranhão e Tocantins. A inundação para sua construção, no entanto, provocou problemas ambientais e atingiu populações tradicionais de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais e agricultores familiares. Entre os danos relatados pelos atingidos, além dos impactos socioambientais da alteração no regime de uso e ocupação do território, da poluição, do desmatamento e da favelização, há os prejuízos à saúde física e mental, com acréscimo de violências e ameaças. Quase 40 anos depois da instalação de Tucuruí, a população teme pelo rompimento da barragem. Berço das águas O Cerrado é o bioma berço das águas do Brasil porque abriga nascentes de oito das 12 principais regiões hidrográficas do país: a Tocantins-Araguaia e as bacias do São Francisco, Paraná e Paraguai. Também têm nascentes importantes no Cerrado as bacias Amazônica, Parnaíba, e as do Atlântico Nordeste Ocidental e Leste. Uma pequena parte da bacia do Atlântico Sudeste poderia se inserir no grupo, com poucas nascentes no bioma. Nascem no Cerrado 8 das 12 principais bacias hidrográficas do Brasil Nascem no Cerrado 8 das 12 principais bacias hidrográficas do Brasil (Imagem: MapBiomas/Reprodução) Parnaíba, Atlântico Nordeste e Leste são as bacias com maior cobertura de vegetação nativa conservada – 86,7%, 79,4% e 72,8%, respectivamente. Já as com menor cobertura nativa são Paraná (21,2%), Paraguai (46%) e São Francisco (55,5%). Somadas, as oito bacias perderam 260 mil km² de área de vegetação nativa de 1985 a 2020, de acordo com o MapBiomas. Em toda a extensão de água das bacias no Cerrado, há 7,6 mil km² ocupados por usinas hidrelétricas – matriz que é a principal fonte de energia elétrica no Brasil. É quase sete vezes a área da Baía de Todos os Santos, no Estado da Bahia. A EPE (Empresa de Pesquisa Energética), que atua na prestação de serviços ao Ministério de Minas e Energia, indica, no Plano Nacional de Energia 2030, que 70% do potencial hidrelétrico ainda a aproveitar em território nacional está no Cerrado e na Amazônia. O texto do documento destaca que “pode-se antever grandes dificuldades para a expansão da oferta hidrelétrica. Dificuldades que são ampliadas por uma abordagem que se apoia em uma ótica ultrapassada, na qual projetos hidrelétricos, por provocarem impactos socioambientais, não podem constituir-se em elementos de integração e inclusão social, e também de preservação dos meios naturais.” Depois da região hidrográfica do Tocantins, as que mais ganharam áreas ocupadas por hidrelétricas no Cerrado de 1985 a 2020, segundo o MapBiomas, foram as do Paraná, do Paraguai e do Atlântico Leste. A bacia do Paraná tem, ao todo, 73,1% de sua cobertura de água em hidrelétricas, e apenas 6,5% de cobertura de água natural. Na bacia do Paraguai, os números são 47,5% e 21,3%, respectivamente, e na do Atlântico Leste, 67,3% e 12,5%. “O Cerrado tem uma importância central para abastecimento de alimentos, água e energia do país, mas para isso precisamos da sua cobertura nativa conservada”, completa Shimbo. Novos dados na plataforma do MapBiomas Água Participe do webinário “Explorando as conexões das águas superficiais e subterrâneas“, do MapBiomas Água, nesta terça (22) às 10h (horário de Brasília). No evento, serão lançados na Plataforma MapBiomas Água os novos dados de superfície de água do território brasileiro incluindo 2021, bem como seus números mensais, além de novas funcionalidades. Sobre o MapBiomas Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. Na rede MapBiomas, o IPAM é a instituição responsável pelo mapeamento da vegetação nativa do Ceerado. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa: mapbiomas.org. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/03/2022

quinta-feira, 24 de março de 2022

Bolsonarismo inventou “Amazônia paralela”, diz estudo

Por Observatório do Clima – Pesquisa detalha estratégia de grupos de extrema direita para defender o desmatamento gerando excesso de dados para confundir o público O processo de destruição da fauna e flora brasileiras durante o governo Bolsonaro não se dá apenas por meio do enfraquecimento de legislações e desmantelamento dos órgãos ambientais, mas também pela implementação de um discurso alternativo sobre a Amazônia, que vem sendo construído ao longo dos últimos anos por grupos de extrema direita. Em um estudo publicado na última semana na revista Earth System Governance, uma dupla de pesquisadores do IASS (Instituto de Estudos Avançados em Sustentabilidade), na Alemanha, e da Unimes (Universidade Metropolitana de Santos) detalhou como grupos de apoiadores do atual governo vêm reproduzindo discursos que contestam e descreditam sistemas de monitoramento por satélite, com o utilizado pelo Inpe, que há décadas geram dados confiáveis sobre o avanço do desmatamento e outras mudanças no uso da terra, para impor uma “verdade alternativa” sobre o bioma, na qual o desmatamento seria um preço aceitável a pagar pelo desenvolvimento econômico. “Ao chegarem ao poder, os grupos de extrema-direita se deram conta que para desmatar mais não adianta negar que há desmatamento. Perceberam que, além de desqualificar o que dizem boa parte dos cientistas, é preciso construir uma verdade segundo a qual ainda há muita árvore para ser derrubada. Aprenderam também que para sustentar essa verdade palavras não bastam e dados são imprescindíveis”, afirma o pesquisador Leandro Siqueira, um dos autores do estudo. Os pesquisadores explicam que esses grupos trabalham não somente pela disputa do que seria falso e verdadeiro, dentro da lógica das fake news, mas sim por meio de uma lógica de “hipertransparência”, caracterizada pelo excesso de informação, que confunde ao invés de explicar. De acordo com Cecília Oliveira, principal autora da pesquisa, ações como o desmantelamento do Inpe, o corte de investimentos em pesquisa, auditoria sobre a veracidade dos dados sobre desmatamento, em especial após as fortes queimadas de 2019, a compra de satélite privado e controle estatal dos dados são iniciativas que, ao serem propagadas, vão produzindo um “outro processo de manifestação da verdade da floresta que legitima as subjetividades dos grupos envolvidos. É o discurso de uma Amazônia apta a ser explorada economicamente, adversa às regras de proteção ambiental”. As conclusões da pesquisa são resultado de estudos que vêm sendo realizados pelos autores desde 2018 sobre o uso dos satélites e sobre a governança das políticas de mudanças climáticas. Eles realizaram um estudo genealógico da digitalização da floresta e cartografaram como esses processos estão sendo incorporados pelo Estado brasileiro desde o governo Lula (2003). Destacam que, com a abertura dos dados de satélite para uso da sociedade civil, quando Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente, iniciou-se a formação de um regime de transparência ligado ao investimento no ativismo. “Os grupos que participaram desse processo foram, em sua maioria, ONGs, movimentos sociais, think tanks de tecnologia, entre outros”, afirma Oliveira. Ao continuar esse estudo genealógico, os autores identificaram uma ruptura no processo após o início do governo Bolsonaro, com a emergência do regime de hipertransparência, “que insiste em um processo de auditoria constante e superprodução de informação por vias alternativas, composto por diferentes grupos econômicos e políticos”, diz o estudo. De acordo com Siqueira, enquanto os ativismos sempre agiram no sentido de ampliar o acesso às imagens de satélite e a participação de outros grupos (populações indígenas, ribeirinhos, quilombolas, seringueiros etc.) na governança da floresta, o governo investe em contra-ativismos: mais informação e menos escrutínio público. “O estudo mostra que a articulação negativa do governo contra dados do desmatamento se faz no nível de um discurso agressivo que viola os preceitos tradicionais do argumento científico. A conclusão do estudo é que o negacionismo pode funcionar, uma vez que existe a ciência e também o discurso sobre a ciência. Esse discurso tem um peso tão grande quanto a ciência em si, pois é como a sociedade se relaciona com ela. E esse discurso não precisa ser baseado em fatos reais, mas sim em factoides. O Inpe, por exemplo, contribui há anos para o debate público, e o que o atual governo faz é contestar esses dados com base em um outro discurso sobre eles”, comenta o ex-diretor do Inpe Gilberto Câmara. De acordo com Siqueira, o estudo serve como um alerta de que é urgente avançar no entendimento desse instrumento utilizado pelos grupos de extrema-direita e autoritários. “Percebemos que o negacionismo não se reduz à rejeição da realidade, ou de uma verdade científica, mas que o projeto desses grupos autoritários é mais amplo, buscando produzir uma nova verdade ou realidade. Neste sentido, fica mais do que claro como a ciência e a produção de conhecimento científico estão no alvo das disputas que vemos hoje e se acirrarão cada vez mais”, conclui. O Observatório do Clima entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), mas não obteve retorno até o fechamento da matéria. Este post será atualizado tão logo haja resposta. (JAQUELINE SORDI) #Envolverde

Frutos do cerrado são superalimentos e podem colaborar no combate a insegurança alimentar

Por Anelize Moreira para o Brasil de Fato – Pequi e castanha de baru são alguns dos frutos do bioma que melhoram o aporte nutricional Ainda pouco conhecidos, os frutos do Cerrado são considerados superalimentos pela variedade de nutrientes e, por isso, podem ser usados para melhorar a segurança nutricional, principalmente em comunidades tradicionais que vivem em regiões rurais por estarem mais próximos da mesa dessas famílias. Entre as principais descobertas, há no Cerrado aproximadamente 600 plantas que são reconhecidas pelo valor medicinal, alimentício e também pela capacidade de recuperar áreas degradadas. Esses frutos têm o potencial de ser incorporados à dieta alimentar das famílias rurais e também na alimentação escolar, como é o caso do espécies como pequi, castanha de baru, babaçu e buriti. Esses alimentos são aproveitados na safra, mas tem uma potencial uso na alimentação escolar A castanha de baru é apontada como possível substituta da castanha-de-caju e do pará por sua qualidade proteica e valor nutricional. Segundo Vinicius Barbosa Pereira, analista de conservação da ONG WWF-Brasil, essas espécies do Cerrado ainda são subutilizadas mesmo sendo ricas em minerais e vitaminas. “A castanha de baru hoje está sendo vista como uma das principais espécies de comercialização do Cerrado e pode ser inserida na alimentação escolar e também para ser consumida pelas famílias que não tem essa tradição de comer baru. Já o buriti, que é muito rico em vitamina A, é um excelente alimento para fazer suco”, diz. Rica em minerais, proteínas, fibras e lipídios, o consumo de baru associado a outras oleaginosas, pode ajudar a satisfazer as necessidades de nutrientes em uma alimentação saudável. É o que mostra o estudo “Qualidade nutricional e valor protéico da amêndoa de baru em relação ao amendoim, castanha-de-caju e castanha-do-pará”, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). O baruzeiro, árvore nativa do Cerrado / Embrapa Outro alimento é o pequi é rico em vitamina C, sendo igual ou superior a uma laranja. A polpa pode ser congelada para consumo durante todo o ano. Além das propriedades nutricionais, tem fama na sabedoria popular de melhorar a libido por ser rico em vitamina E. “O pequi também é rico em vitamina A e em carotenóides é um alimento muito tradicional da cultura do Cerrado, mas que as pessoas só aproveitam basicamente na safra, mas tem que uma potencialidade grande, podendo ser estocado e beneficiado nas agroindústrias e na alimentação escolar. É um prato tradicional da região, o arroz com pequi”. Terena Peres de Castro, assessora técnica do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) ressalta que é extremamente importante resgatar o valor desses alimentos em período de aumento da fome. Ela explica que esses superalimentos são pouco conhecidos porque a alimentação é restrita a poucas espécies. Uma das consequências de não ter diversidade nas refeições é o empobrecimento da dieta, em casos mais graves pode levar a desnutrição e problemas de saúde, mas também podem ter impactos socioeconômicos para as famílias locais. “Hoje sabemos que espécies como, milho, trigo e a soja são a base da composição da maioria dos produtos alimentícios consumidos por boa parte da população mundial. Essa restrição da diversidade alimentar tem diversas consequências”, avalia. De acordo com a especialista, a longo prazo, por exemplo, a perda da biodiversidade relacionada à alimentação pode ser acelerada, comprometendo a produção das sementes crioulas e os saberes associados a essas espécies, como os aspectos produtivos e culturais que fazem parte dos sistemas alimentares. ::Alergia alimentar: direito à informação nos rótulos avançou, mas outros desafios permanecem:: Novas espécies usadas pelos povos tradicionais do bioma foram descobertas mais recentemente, a exemplo da bocaiúva, mangaba, cagaita, murici, mama-cadela, araticum, guabiroba e jatobá, e estão se popularizando em outras regiões do país. O analista de conservação da ONG WWF-Brasil fala sobre outras espécies que já vem sendo utilizadas no Maranhão e no Pará. É o caso do babaçu um tipo específico de palmeira que produz um coco pequeno e pode ser consumido por crianças desnutridas devido à alta concentração de nutrientes. “O babaçu pode ser trabalhado para ser comercializado no Brasil todo. Como farinha, o babaçu e o jatobá também podem ser utilizados em receitas de pães, bolachas, biscoitos, e consumidos por crianças e estudantes. Outro benefício é para que as famílias que coletam e manejam esses frutos tenham uma remuneração com o comercialização dessas espécies e contribuindo para manter o Cerrado em pé”, afirma Pereira. No site centraldocerrado.org.br você consegue fazer a compra dos frutos direto com o produtor. Outra dica é buscar produtores da sua região e buscar entidades que comercializam alimentos além dos convencionais, contemplando outras variedades do Cerrado. *Créditos da imagem destacada: A polpa do pequi tem o dobro de vitamina C de uma laranja e é rico também em vitaminas A, E e carotenóides – André Dib/WWF-Brasil Edição: Douglas Matos #Envolverde