Blog com notícias de Ecologia atualizado diariamente. Publica notícias de outros blogs similares, ONGs, instituições ambientalistas, notícias jornalísticas e oficiais, fotos, críticas, poemas, crônicas, opiniões. A FONTE e o AUTOR são rigorosamente citados sempre.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
Barragem de Belo Monte: eletricidade ou vida na floresta amazônica do Brasil
por Mario Osava, IPS –
“Não conhecemos mais o rio Xingú”, cujas águas regem “nosso modo de vida, nossa renda, nossa alimentação e nossa navegação”, lamentou Bel Juruna, jovem indígena da floresta amazônica do Brasil.
“A água não está mais no nível normal, natural, é controlada pelas comportas”, explica. As gigantescas comportas são administradas pela Norte Energia, consórcio público-privado dono da hidrelétrica de Belo Monte e cujo interesse é aproveitar a vazão do rio para obter lucro.
Construída entre as seções média e baixa do rio Xingú, na Amazônia oriental, Belo Monte aproveita uma curva em U de 130 quilômetros do rio, chamada Volta Grande.
Um canal artificial de 20 km desvia a maior parte do fluxo, em um atalho que se conecta ao final da curva, em uma cachoeira de 87 metros. O atalho evitou que a Volta Grande – onde vivem 25 comunidades, incluindo duas terras indígenas legalmente protegidas – seja inundada.
O novo projeto substituiu a ideia inicial datada da década de 1970 – que teria criado um reservatório convencional de 1.225 quilômetros quadrados que teria submerso Volta Grande inteira – por dois reservatórios menores, totalizando 478 quilômetros quadrados. A primeira retém água antes da curva e a desvia para o canal que forma o reservatório que alimenta a principal usina, que produz 11 mil megawatts de eletricidade.
A segunda barragem, com usina que gera até 233 megawatts, retém as comportas que lançam água no Volta Grande, que quase secou, trazendo outros tipos de impactos para a população ribeirinha.
O complexo de Belo Monte, com a terceira maior usina do mundo, está planejado para gerar apenas 4.571 megawatts de energia firme em média.
Esse baixo nível de produtividade, de apenas 40% da capacidade instalada, é explicado pelo fato de se tratar de uma usina a fio d’água cuja vazão varia de mais de 20.000 metros cúbicos por segundo no período das chuvas – que dura alguns meses no primeiro semestre do ano – para menos de 1.000 metros por segundo em alguns dos meses mais secos.
As águas do rio, divididas entre o seu curso natural e o canal, mostraram-se ineficazes para manter o nível de geração de eletricidade pretendido pela Norte Energia e as autoridades energéticas e, ao mesmo tempo, suprir as necessidades vitais da população de. o Volta Grande.
“Não sabemos mais navegar no Rio Xingú, que canais passar, porque Belo Monte fecha e abre as comportas quando quer”, disse Bel, indígena Juruna, que se autodenominam Yudjá. que significa “o povo indígena do rio”.
Um grupo de operárias parecia formigas pelo tamanho do local, em 2015, durante a construção da principal usina da hidrelétrica de Belo Monte, quando foram instaladas máquinas e turbinas para gerar 11 mil megawatts de energia elétrica. A usina produz apenas 40% de sua capacidade instalada e pode limitar ainda mais sua produtividade diante do desmatamento da bacia do rio Xingu, que cobre cerca de 531 mil quilômetros quadrados. CRÉDITO: Mario Osava / IPS
O Xingú, um dos maiores afluentes do Amazonas, com 1.815 quilômetros de comprimento, é particularmente acidentado em sua seção intermediária, com muitas rochas visíveis e submersas, ilhas e ilhotas, e canais profundos e rasos. A navegação é perigosa e requer conhecimento prático e familiaridade, que foram lançados no caos pelos níveis das águas baixas e as mudanças nos ciclos naturais das águas baixas e altas.
“Queremos água suficiente para inundar os igapós (florestas pantanosas de água negra sazonalmente inundadas com água doce) onde peixes e tartarugas podem se reproduzir e se alimentar no inverno, para engordar e manter o peso no verão”, exigiu Bel, que a levou o nome de etnia como sobrenome, costume comum entre os indígenas do Brasil.
Os peixes e a tartaruga-amarela (Podocnemis unifilis), espécie de tartaruga de água doce abundante na Amazônia, são importantes fontes de proteína para o povo de Volta Grande, principalmente o povo Juruna, pescadores e trabalhadores de barcos.
“Mas é a própria vida que está em risco, não apenas nós, indígenas; é a natureza que está privada do ciclo da água – as árvores, os peixes e outros animais ”, disse Bel à IPS em um diálogo no Whatsapp de sua aldeia, Miratu, na margem esquerda do Volta Grande.
A luta do povo Juruna, que dizem estar travando pela humanidade como um todo, ganhou impulso graças a uma nova avaliação do órgão ambiental do governo, o Ibama, em dezembro de 2019.
A agência reconheceu que a escassa água liberada pela hidrelétrica não garante “a reprodução da vida” no ecossistema de Volta Grande ou “a sobrevivência da população local”.
Um galinheiro na aldeia Miratu, habitada por índios Juruna, foi inundado junto com outras edificações quando a empresa Norte Energia, dona da hidrelétrica de Belo Monte, despejou o excesso de água no trecho Volta Grande do rio Xingu. “Hoje as comportas controlam o fluxo”, e não os ciclos naturais do rio, explica a liderança indígena Bel Juruna. CRÉDITO: Mario Osava / IPS
Por esse motivo, o IBAMA quer aumentar a água no “trecho de vazão reduzida”, onde é cerca de 20% da vazão normal anterior, conforme delineado no chamado “hidrograma de consenso”, que define as vazões mensais no natural do rio canal, com base no que foi considerado necessário para manter o ecossistema vivo em 2009.
Citando dados analisados desde 2015, quando Belo Monte encheu seus reservatórios, técnicos do Ibama apontaram a necessidade de uma melhor distribuição da água entre a produção de energia elétrica e o sustento da vida.
Analistas ambientais do Ibama recomendaram um hidrograma provisório para este ano com grande aumento de volume para a Volta Grande no período de janeiro a maio, principalmente em fevereiro (de 1.600 para 10.900 metros cúbicos por segundo), março (de 4.000 para 14.200 m3 / s) e abril (de 8.000 a 13.400 m3 / s).
Para o futuro, a Norte Energia apresenta estudos para a construção de um hidrograma definitivo.
Mas os altos funcionários do Ibama atrasaram as medidas propostas e, depois disso, a empresa as contestou na justiça. Perdeu na primeira e na segunda instância e não atendeu às demandas vigentes em outubro e novembro.
A Procuradoria Geral da República decidiu intervir e ordenou ao IBAMA que elaborasse sanções contra a Norte Energía por descumprimento do hidrograma provisório, vazões necessárias para 2021 para fazer cumprir o princípio da precaução e providências para que a empresa realizasse os estudos complementares para a criação o hidrograma de longo prazo.
É necessário um fluxo forte de água nos primeiros meses do ano e “por pelo menos três meses” para que peixes e tartarugas possam se reproduzir e se alimentar, disse Juarez Pezzuti, professor de biologia da Universidade Federal do Pará que é um especialista em tartarugas.
Bel Juruna é um líder da aldeia Miratu, pertencente ao povo Juruna, na Volta Grande do rio Xingú, na parte leste da floresta amazônica do Brasil. A jovem protesta contra as mudanças no rio que atrapalham a vida das comunidades ribeirinhas desde a construção da hidrelétrica de Belo Monte. E, ironicamente, a planta começou a mostrar que é ineficiente em termos de energia. CRÉDITO: Mario Osava / IPS
“Aumentar o fluxo apenas em abril não é solução. É fundamental ter um volume de água que inunde extensas áreas florestais, no nível necessário e no tempo adequado, por exemplo, para que as larvas se transformem em alevinos e que a cadeia alimentar se desenvolva normalmente ”, explicou à IPS por telefone de Ananindeua, onde mora, no estado amazônico do Pará.
Para a vida ao longo do rio Xingú, mais grave do que as secas severas na estação seca, ou “verão” na Amazônia, é “um baixo nível de chuvas no inverno”, disse ele.
A batalha passa por um momento crucial, pois as ações do Ibama – inesperadas no governo de extrema direita do presidente Jair Bolsonaro, que tem trabalhado contra o ambientalismo – têm sido contestadas pela agência reguladora do setor elétrico e pelo Ministério de Minas e Energia , que afirmam que modificar o hidrograma causaria insegurança energética e custos mais elevados para os consumidores.
Pezzuti acredita que seja qual for o desfecho dessa disputa, Belo Monte está fadada a enfrentar dificuldades crescentes em termos de viabilidade econômica devido ao agravamento das secas na bacia do Xingu devido às mudanças climáticas e ao intenso desmatamento rio acima.
A crise de 2016, quando os índios Juruna reclamaram que havia cada vez menos peixes e que estavam “magros” por conta da seca causada pelo fenômeno climático El Niño, foi um alerta para o futuro, afirmou.
Desde a aprovação do megaprojeto hidrelétrico em 2009, inúmeros críticos, entre autoridades ambientais, indígenas, pesquisadores universitários e especialistas em energia, alertaram para os riscos do próprio negócio, além dos danos sociais e ambientais.
O empreendimento, inaugurado em 27 de novembro de 2019, com a conclusão das 18 unidades geradoras da usina principal, tem sido muito elogiado pelo inovador canal. Mas acabou sendo uma solução enganosa, tanto para a empresa quanto para a população atingida, que sofreu danos irreversíveis.
“Para o povo Juruna, o impacto não é só na alimentação, mas tem um impacto forte na nossa cultura, que é a pesca, o cuidado com o rio que oferece alimentação, renda e navegação para ir às cidades, visitar os vizinhos comunidades e se divertir. É o que traz alegria às nossas vidas ”, disse Bel Juruna.
Imagem de Destaque: A usina principal da hidrelétrica de Belo Monte tem capacidade de 11.000 megawatts, aos quais são adicionados mais 233 megawatts da usina secundária. O complexo custou o dobro do orçamento inicial, o equivalente a mais de 10 bilhões de dólares quando foi construído. Também enfrenta dificuldades como o atraso na construção da linha de transmissão que levará energia para o sudeste do Brasil, ineficiência na geração e custos socioambientais acima do esperado. CRÉDITO: Marcos Corrêa / PR-Agência Brasil
#Envolverde
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
O algoritmo que lute!
Por Marília Moreira, de AzMina –
Criadoras negras revelam estratégias para driblar racismo dos algoritmos (e seguir falando do que importa)
“Minha filha, se você encontrar uma porta fechada, meta o pé, porque você tem que entrar!”. O conselho que a humorista Jacy Lima, 28 anos, ouve da mãe desde criança e que sempre seguiu à risca ganhou ainda mais força há três anos, quando começou a produzir conteúdo nas redes sociais.
Na época, o objetivo dela era um só: ser notada para seu primeiro trabalho enquanto atriz. Começou, então, publicando vídeos de um quadro chamado Papo de Quinta no Instagram, no qual trata com humor temas como masturbação, orgasmos, hipersexualização do corpo preto e saúde da mulher. Para garantir, mandou o episódio de estreia também para uma agente.
“Ela achou o vídeo horroroso, disse que eu nunca conseguiria nada com aquele conteúdo. Só que eu fiz desse limão uma limonada”, emenda Jacy, lembrando tudo que conquistou de lá para cá: mais de 140 mil seguidores no @thejacy, onde segue falando justamente de sexo e autoestima com muita atitude; trabalhos com grandes marcas e contrato com a Wolo TV (o primeiro streaming brasileiro voltado para população negra), onde estreia este mês na websérie Casa da Vó — sem falar no fato de que voltou a ser procurada pela mesma agente que a desencorajou lá no início.
O problema é que essa trajetória não foi — nem é — simples. Assim como tantas outras mulheres negras, Jacy ainda enfrenta muitas dificuldades para converter seus trabalhos em dinheiro e contratos — ainda mais se comparado à rentabilidade de criadoras brancas com a mesma base de seguidores.
Por mais que hoje ela já consiga atrair um público diversificado, bancar esse tipo de conteúdo segue sendo difícil. Até mesmo aumentar a base de seguidores é um enorme desafio. E por trás dessas dificuldades está uma nova forma que o racismo adquire na internet: a dos algoritmos.
“É um lugar ambíguo de frustração e coragem o tempo todo, pois há milhares de barreiras. Os obstáculos são estruturais da sociedade (a exemplo do colorismo, já que quanto mais retinta mais difícil conquistar seguidores), mas da própria rede também. Os algoritmos funcionam como uma cortina de ferro e não permitem que pessoas pretas alcancem mais pessoas”, desabafa Jacy. Ela se preocupa ainda com a limitação de alcance das postagens por conta do uso de determinadas palavras e conteúdos considerados pornográficos pelo Instagram.
O que criadoras como Jacy e tantas outras estão fazendo, porém, é aprendendo a entender e driblar esses algoritmos e o racismo por trás deles para atingir seus objetivos.
Se o Instagram recompensa quem posta imagens com pouca roupa, Jacy se vale do corpo para engajar na rede e atrair seguidores para o conteúdo que produz. “Infelizmente dentro da internet, seja uma pessoa dentro ou fora do padrão, todos os vídeos sobre autoestima são sobre o corpo. Eu também estou lá [de maiô], sendo obrigada a mostrar meu corpo, mas a chave da minha autoestima e do meu conteúdo está em outro lugar”.
Jogando sempre na linha tênue do que funciona melhor na plataforma, Jacy bombou na quarentena ao publicar vídeos de exercícios físicos com paródias sexuais explícitas. “Isso me rendeu muitos seguidores. Por mais que as pessoas julguem, elas gostam de ver”, avalia.
CORAGEM E FRUSTRAÇÃO
Os algoritmos são comandos programados por humanos, em sua maior parte homens e brancos, para que sistemas e máquinas realizem tarefas automaticamente.
São esses algoritmos que, dentre outras coisas, decidem o que vai aparecer ou não na sua timeline das redes sociais ou quais resultados uma busca no Google vai mostrar ou que fazem as recomendações dos vídeos relacionados nos Reels e Youtube. Como a maior parte dos códigos desses comandos são fechados, não é possível afirmar com precisão como funciona o viés racista – mas há uma série de experimentos e testes que denunciam sua existência.
Além disso, ações tomadas pelos próprios usuários de redes sociais interferem no comportamento da tecnologia, que também se baseia nisso para construir seu aprendizado, o chamado machine learning (aprendizado de máquina). Por exemplo: se muitas pessoas buscam no Google por “cabelo ruim” e clicam em fotos de cabelos afro no resultado, o buscador vai entender que essa é a resposta mais “correta” e vai passar a mostrar mais desse resultado, que é racista.
“Todo mundo acha nosso rosto bonito de ser visto no Carnaval e em novembro [mês da Consciência Negras], mas quer ter férias desse rosto e corpo no resto do ano. Isso é ainda mais fácil na internet, onde se pode fugir da realidade garimpando o que você quer seguir ou não. Conforme você vai curtindo, o algoritmo vai entendendo o que você gosta de ver e normalmente não são pessoas pretas e demais grupos minoritários”, complementa Jacy.
Os dilemas que essa indecifrável estrutura impõe a todas essas criadoras negras são os mesmos enfrentados por elas no dia a dia fora das redes e, por isso, as consequências são tão complexas.
Quem também entrou no universo da criação de conteúdo para internet motivada a divulgar seus serviços foi a faxineira Veronica Oliveira. Em 2016, ela publicou em sua conta pessoal no Facebook, na época com 300 amigos, anúncios divertidos com montagens inspiradas em filmes e séries, como “Kill Bill”, “Better Call Saul” e “Orange Is the New Black”.
Em poucos dias, as publicações acumularam milhares de curtidas e compartilhamentos e garantiram muitas faxinas. Dali para a frente, a @faxinaboa (que logo migrou para o Instagram) cresceu tanto que hoje Veronica trabalha como produtora de conteúdo e “inspiradora digital” com mais de 230 mil seguidores.
Mas ela ressalta que os algoritmos e comportamentos racistas são um desafio constante e diz que os temas que mais geram engajamento são também aqueles que mais a incomodam e afetam sua saúde mental. “O ódio gera um engajamento absurdo, então se eu eu compartilho uma situação de injustiça ou de violência, sofrida por mim ou por outra pessoa, isso gera uma repercussão imensa, mas não é algo que me faz bem”, pondera.
CONSEQUÊNCIAS NO BOLSO
Em setembro, a pesquisa Black Influence mostrou que influencers negros têm menor participação em campanhas publicitárias e recebem menos por essas ações que infuencers brancos – a pesquisa não especificou gênero. A análise comparativa da média de ganhos por número de seguidores mostra que a diferença é mais evidente nos influenciadores que têm mais de 50 mil seguidores, chegando a mais de 50%.
“É frustrante ver influencer com 20 mil seguidores ganhando um monte [de dinheiro] e você com 130 mil sendo chamada para trabalhar de graça. Trabalhar de graça ficou na época da escravidão” – Jacy Lima
Tweet
Sem falar que, ainda hoje, sociedade e empresas parecem limitar a mulher preta produtora de conteúdo a dois assuntos: racismo e negritude ou cabelo, afirma a atriz e apresentadora Luana Xavier, que tem cerca de 233 mil seguidores no Instagram. “É como se a gente não pudesse falar de outros assuntos, como se a gente não tivesse outro tipo de conhecimento. Esquecem, inclusive, que temos trabalho, formação e vivências específicas. O que esperam de nós é isso, mas o que a maioria de nós gostaria era poder falar sobre tudo que mexe com a gente e é importante levantar”, desabafa.
Luana começou a usar as redes como forma de mostrar os bastidores da vida de atriz, mas logo percebeu que o que interessava às pessoas era seu jeito simples, seu dia a dia junto aos tios, avós e pais, moradores da Zona Oeste do Rio de Janeiro, além da relação com o próprio corpo e com o axé. Para ela, a dosagem entre a militância combativa e as besteiras cotidianas é o que gera identificação. “As pessoas meio que botam um limite na militância. Você pode ser militante, mas nem tanto. Então, talvez eu seja a pessoa que se encaixa nessa ideia de que a militância não pode ser completamente combativa”, avalia.
O PROBLEMA SÃO OS ALGORITMOS OU OS USUÁRIOS?
É fato que o racismo está sendo filmado e vem se reinventado junto com a sociedade, que está cada vez mais digital. Para Luana Xavier, as redes sociais refletem exatamente o que acontece no mundo real. “Isso não só em relação ao comportamento do algoritmo, mas na busca e preferência da audiência por conteúdo branco”, pondera.
A pesquisadora e hacker antirracista Nina da Hora defende que é necessário pensar o ambiente digital não como algo novo, mas como continuidade e extensão da realidade que já vivemos no mundo físico.
Se as pessoas que criam os algoritmos são racistas, isso vai se refletir na forma como a tecnologia se comporta. E se usuários racistas treinam inteligências artificiais racistas, como é que as empresas que produzem essas tecnologias podem enfrentar esse problema?
Para Nina, a mudança cabe também às próprias plataformas. “Já é um lugar comum o de que os algoritmos são racistas e que as redes lucram com todo tipo de ataque, mas como é que a gente faz para sair do denuncismo? Quais soluções empresas, sociedade civil e pesquisadores podem pensar?”, questiona, ao ressaltar que as pessoas que enfrentam as piores dificuldades desses sistemas são as que mais precisam ser ouvidas.
Em nota, o Google afirma que construir uma experiência de busca é um desafio complexo, dinâmico e em constante evolução e, que, eventualmente a busca pode espelhar estereótipos existentes na internet e no mundo real em função da maneira como alguns autores criam e rotulam seu conteúdo. A empresa diz estar empreendendo esforços para melhorar tais resultados, de modo que representações negativas não afetem pessoas de determinadas raças, gêneros e grupos.
Já o Instagram diz estar revisando, desde junho, aspectos como distribuição de conteúdos, verificação de contas e viés algorítmico, a partir das experiências e desafios que pessoas pretas enfrentam na plataforma. Parte dos resultados desse movimento podem ser conferidos aqui.
“Por mais que não tenhamos respostas, a gente tem se provocado a fazer boas perguntas para as respostas que queremos ter um dia. Pensar o impacto que o racismo tem no meio digital é um avanço e a gente só vai avançar quando tivermos mais pessoas entendendo que isso é um problema. Essa discussão precisa chegar à sociedade como um todo, não só ficar nas bolhas da alta tecnologia e da militância negra”, acredita Silvana Bahia, co-diretora executiva da Olabi, organização social que há cinco anos busca democratizar a produção de tecnologia. Ela também coordena o PretaLab, projeto que procura mapear a produção, em tecnologia, de mulheres negras e indígenas.
Silvana é uma das muitas mulheres pretas brasileiras que estão somando esforços para construir um mundo digital em que as plataformas geridas pelas grandes corporações sejam mais transparentes sobre seus métodos. “A internet é muito maior que as redes sociais, mas há uma força econômica poderosa nos forçando a ficar nesse território e isso nada tem a ver com burrice ou ingenuidade. É só parar para pensar que operadoras nos dão as redes sociais ‘de graça’, mas não dão possibilidade de checar uma notícia em um portal jornalístico”, exemplifica.
O ANO DO ANTIRRACISMO
No ano em que o mundo inteiro usou a internet para se comunicar como nunca antes, as desigualdades estruturais da sociedade ficaram ainda mais evidentes no ambiente online. O racismo foi assunto onipresente ao longo dos meses, impulsionado pelas inúmeras denúncias e casos de repercussão mundial.
Nas redes sociais, a discussão assumiu formas de hashtag com o #BlackLivesMatter, se transformou em um card preto no feed do Instagram durante a campanha Blackout Tuesday, virou ocupação de perfis de pessoas brancas e, mais recentemente, uma série de experimentos para denunciar o viés algorítmico.
A movimentação foi tão intensa que 2020 foi o ano em que os brasileiros mais buscaram por “racismo” no Google — a procura pelo assunto subiu 40% em relação ao ano passado. O Brasil também foi um dos cinco países com mais interesse de busca pelo assunto antirracismo em todo o mundo. Globalmente, as consultas ao tema tiveram uma alta de 70% frente a 2019.
DRIBLANDO ALGORITMOS
Programadoras, ativistas, influencers e empreendedoras negras sabem que não há respostas fáceis ou soluções rápidas, mas divergem sobre se os avanços da luta antrirracista têm sido de fato significativos nas redes sociais.
“Foi um ano de muita conversa e pouca atitude. Na internet, as pessoas buscam a onda do momento e começam a reproduzir aquilo que todo mundo está fazendo. Isso vende bastante. Para ser bem sincera, foi algo que não me comoveu. Achei até graça pela coragem de muita gente branca que indicava perfis de pretos, convidava para lives ou para ocupar a rede social, mas sequer seguia ou conhecia o trabalho da pessoa”, avalia Jacy.
Fotografia de Jacy Lima seguida do comentário feito por ela: "Isso é a resposta da sociedade racista não assumida em que vivemos, e, claro, repercute no algoritmo, que é feito, majoritariamente, por pessoas racistas"
Em junho, Luana Xavier recebeu o convite da amiga Fernanda Paes Leme para ocupar suas redes, num formato similar ao que foi anunciado por Paulo Gustavo e Djamila Ribeiro dias depois. Pelo menos três aspectos pesaram para ela declinar do convite: o primeiro, foi que quando recebeu o convite ainda estava tentando acompanhar o tanto de discussão que rolou naqueles dias; o segundo foi que, uma vez começadas as ocupações, viu o esvaziamento de lives e percebeu que as pessoas não estavam dispostas a escutar; por último, a falta de remuneração.
“Ou seja, a gente sempre fica em desvantagem e fiquei me perguntando até que ponto valia distribuir meu conhecimento de graça. Eu acho que eu toparia fazer uma ocupação se tivesse uma troca rentável, se me pagassem, porque inclusive nosso debate sobre igualdade, representatividade e liderança passa principalmente pela questão de grana”, pondera.
O caminho que Nina da Hora tem feito é o de “hackear” as redes sociais transformando-as em ferramentas de crítica às próprias redes, divulgação científica e educação digital. Apesar de ser crítica das plataformas, ela escolhe seguir usando-as – mas para mostrar os problemas que existem, sugerindo melhorias em postagens acessíveis ao público em geral.
“O termo hackear ficou preso à tecnologia, mas se aplica a tudo, porque é você ressignificar um padrão. É pegar um que já existe e dar novo sentido para melhorar algo. A educação é a melhor forma de hackear todos os sistemas [quebrando padrões que estimulam a desigualdade]”, afirma.
#Envolverde
Mourão e a Amazônia: paranoia e mistificação
por Marcio Astrini e Suely Araújo*, do Observatório do Clima –
Quem esperava que 2021 pudesse trazer uma mudança nas atitudes do governo brasileiro sobre a Amazônia certamente se frustrou com o artigo do general Hamilton Mourão em O Estado de S.Paulo, no último dia 27. A fim de justificar a política antiambiental de Jair Bolsonaro, que nos últimos dois anos colocou o Brasil em desgraça perante o mundo, o vice-presidente cometeu fraudes intelectuais. Em vez de ter a humildade de reconhecer erros e se propor a corrigir rumos, a missiva dobra a aposta na criação de uma realidade paralela, esperando quiçá que a repetição da mentira a torne verdade.
Mourão ataca as supostas “crenças ambientais plantadas na mente dos brasileiros”, comparando-as a “ervas daninhas” que sufocaram a pobre população da Amazônia, impedindo seu desenvolvimento e trazendo “danos incalculáveis”. Em dois parágrafos, o general faz com a história recente do Brasil o que o herói do Presidente, Brilhante Ustra, fazia com os cadáveres de suas vítimas: vilipendia e oculta.
Se tivesse a honestidade para olhar para o passado, Mourão saberia que o nascedouro dos níveis de miséria, violência e devastação vistos hoje na Amazônia foram os anos de políticas desastradas implementadas pela ditadura militar. Dos incentivos da Sudam à entrega de vastas terras públicas a multinacionais, passando pela Transamazônica, em 1972, e o desastre da ocupação de Rondônia, nos anos 1980, os planos de integração dos militares produziram inchaço populacional, corrupção e caos fundiário. Seu maior legado são as cinzas nas quais 20% da floresta amazônica (e não 16%, como o general afirma) foi transformada, principalmente a partir do governo Médici.
A ideologia que justificou o avanço da ditadura sobre a floresta é a mesma que Mourão ora busca resgatar com o Conselho da Amazônia. Trata-se de noções geopolíticas cozinhadas há décadas na Escola Superior de Guerra, que veem terras indígenas como cabeças-de-ponte de uma “internacionalização”, ONGs como “antagonistas” e a pata do boi como “progresso”. Tal paranoia já era lixo ultrapassado nos anos 1980. Não tem lugar no século 21.
Os governos civis, com maior ou menor ênfase, buscaram desde 1988 enfrentar a problemática herança deixada pelos militares na região. Tiveram maior sucesso entre 2004 e 2012, quando um conjunto inédito de políticas públicas permitiu expressiva redução do desmatamento. O que o general vice-presidente chama de “crenças equivocadas” cortou a devastação em 83% no mesmo período em que o Brasil cresceu em média 4,1% ao ano — a maior arrancada do PIB desde a redemocratização. O agronegócio na Amazônia também cresceu nesse período: como mostrou um importante estudo publicado na revista Science em 2014, a produção de soja quase duplicou e a de carne cresceu mais de 50% nesse mesmo período. Em tempos normais, ninguém deveria precisar lembrar ao vice-presidente da República sobre a história recente da Amazônia. Mas infelizmente, não vivemos tempos normais.
Mourão mente quando diz que a Amazônia “sofria com a ausência do Estado”: o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, de 2004, que Bolsonaro enterrou assim que assumiu o governo, significou justamente a presença do Estado combatendo ilícitos. Ausência do Estado, essa sim, é vista desde 2019. De lá pra cá, saqueadores de florestas, madeireiros ilegais, grileiros de terras e invasores de áreas públicas vivem seus melhores momentos, sabedores que da esplanada dos ministérios partem as ordens para passar boi e boiada, diminuir a fiscalização e cortar as operações de campo.
Fiscais que ousam aplicar a lei ambiental são perseguidos e afastados de suas funções. Não à toa, em dois anos de governo Bolsonaro, o desmatamento subiu por duas vezes consecutivas, tal qual os incêndios florestais. Aumentaram também as invasões de terras indígenas e as emissões nacionais de gases que provocam as mudanças climáticas. Já o fundo Amazônia, que conta com quase R$ 3 bilhões de reais e deveria ser utilizado para o combate ao desmatamento, encontra-se convenientemente engavetado pela atual gestão. Os retrocessos são tantos e tamanhos que, em apenas 24 meses de mandato, o governo do qual Mourão faz parte conseguiu a façanha de ser reconhecido mundialmente como um exemplo de conduta antiambiental.
Mourão seleciona evidências quando recita números da fracassada Operação Verde Brasil 2. Pensada primeiramente para enfrentar as queimadas, a operação que já está em seu sétimo mês produziu a extraordinária cifra de 15% de aumento nos focos de calor em 2020 em relação aos índices escandalosos de 2019. Com cinco vezes mais efetivo e seis vezes mais orçamento que o Ibama, multou, nos primeiros seis meses, 18% menos que o Ibama sozinho no mesmo período do ano passado, e isso num momento em que o crime ambiental disparou. Pior ainda, eliminou a transparência dos dados de fiscalização, computando como seus resultados as ações de órgãos estaduais e das polícias.
Para complementar o quadro, os processos administrativos para julgamento dos novos autos de infração aplicados pelos órgãos federais se encontram paralisados desde outubro de 2019, eliminando-se o poder dissuasório das multas aplicadas por eles. O desmatamento durante a operação é o triplo da média dos cinco anos anteriores ao governo Bolsonaro para o período janeiro-novembro — só é menor do que o próprio recorde de Bolsonaro de 2019.
A verdadeira erva daninha a assolar a Amazônia e o Brasil é o governo de Jair Bolsonaro. Os únicos projetos do Presidente para a Amazônia são aqueles que ele já impõe ao resto do país: negação da ciência e do conhecimento, desmonte de políticas públicas, inação governamental e destruição.
*Marcio Astrini é secretário-executivo do Observatório do Clima
Suely Araújo é especialista-sênior em Políticas Públicas do Observatório do Clima. Foi presidente do Ibama (2016–2018)
Foto gal. Mourão: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Publicado originalmente no Medium
Vozes dos Biomas: a importância da cidadania ambiental à conservação de espaços públicos, por Samyra Crespo
Por Sucena Shkrada Resk –
A história nos fornece elementos imprescindíveis para que construamos uma cultura de conservação dos biomas. Quem sabe bem disso, é Samyra Crespo, Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo, que tem uma trajetória diversificada no terceiro setor e no poder público, e como coordenadora de pesquisas importantes ao longo das últimas décadas. Ela é a nossa 52ª convidada, no Vozes dos Biomas/Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk e nos traz sua leitura sobre a mobilização cidadã pelos biomas e o papel fundamental de espaços como o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, na trajetória do ambientalismo brasileiro.
Divulgação - Jardim Botânico do RJ
Samyra nos traz um repertório diversificado, proveniente de atuações em diferentes fases de sua vida, como jornalista, secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, presidente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e diretora do Programa de Meio Ambiente e Desenvolvimento do Instituto de Estudos da Religião (ISER). Atualmente é pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins e do ISER.
Entre importantes iniciativas que coordenou ao longo de sua carreira, está a pesquisa “O que o brasileiro pensa sobre o Meio Ambiente” (inicialmente Ecologia), elaborado no período da Rio-92, que teve cinco edições até 2012; como também contribuições importantes a políticas públicas, como na elaboração do Plano Nacional do Consumo Sustentável.
Ficha técnica:
• 52ª Entrevista – Vozes dos Biomas/ Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada
– Tema: A importância da cidadania ambiental à conservação de espaços públicos
– Entrevistada: Samyra Crespo, ambientalista e Doutora em História Social
– Pauta, produção, mediação e edição: jornalista Sucena Shkrada Resk
– Quando: 29/12/2020 (no ar em 05/01/2021)
– Onde: Canal Youtube – jornalista Sucena Shkrada Resk
https://www.youtube.com/c/SucenaShkradaResk
-Link:
Inscrevam-se por aqui! Todos são bem-vindos! Saibam mais sobre o Blog Cidadãos do Mundo e o Projeto Vozes dos Biomas – jornalista Sucena Shkrada Resk em: https://www.cidadaosdomundo.webnode.com e https://cidadaosdomundo.webnode.com/projeto-vozes-dos-biomas-sucena-s-resk/
Também curtam e sigam em: https://www.facebook.com/BlogCidadaosDoMundoJornalistaSucenaShkradaResk/
#Envolverde
Brasil se afasta da luta contra a emergência climática; como será em 2021?
por Ricardo Abramovay* –
2021 será o ano da retomada do multilateralismo, que permitiu ao mundo o mais importante compromisso internacional de todos os tempos: o Acordo Climático de Paris. Em dezembro de 2015, 192 países selaram a ambição de limitar a elevação da temperatura global média a um patamar entre 1,5ºC e 2ºC. Agora, a vitória de Joe Biden nos EUA, a formulação de um Green Deal europeu e os compromissos recentemente assumidos pela China aproximam o mundo deste objetivo. Os anúncios feitos pela Índia, pelo Japão, pela Grã-Bretanha e pela Coreia do Sul vão exatamente na mesma direção.
O Acordo de Paris contém uma cláusula que parecia inviabilizá-lo, mas que se mostrou, ao que tudo indica, eficiente. Cada país se comprometia com metas voluntárias, estabelecidas sem a interferência de qualquer outro país ou de uma autoridade internacional. São as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês). Era um mecanismo inédito.
O resultado foi que, se todos cumprissem suas metas, a elevação da temperatura global média até 2100 seria bem superior ao objetivo internacional de limitá-la a dois graus. A estimativa era que se chegaria a catastróficos 3,6ºC de aumento da temperatura global média. Muita gente viu esse número como expressão da inocuidade do Acordo de Paris e da impossibilidade de uma colaboração internacional construtiva.
Mas o Acordo contém um mecanismo que se mostrou inteligente. Ele postula que, a cada cinco anos, todos os países signatários se comprometeriam a ampliar sua ambição, estabelecendo objetivos nacionais de redução de emissões maiores que os de cinco anos atrás. Claro que nenhum país é obrigado a fazer isso e alguns, como o Brasil, a Arábia Saudita, a Indonésia, o México e a Austrália, não ampliaram e até reduziram sua ambição.
Na celebração dos cinco anos do Acordo de Paris, líderes de setenta países reuniram-se virtualmente com dirigentes empresariais, prefeitos e organizações da sociedade civil, na Cúpula da Ambição Climática. Os resultados são promissores. Conforme relatório da Carbon Action Tracker, está claro que a “transição para uma sociedade de emissão zero já começou”.
Isso não quer dizer que a luta contra o que Antonio Guterrez chamou de “emergência climática” esteja ganha. A saída de Trump do Acordo de Paris, a explosão do desmatamento na Amazônia sob Bolsonaro, a continuidade da abertura de usinas a carvão na China e a pressão que os interesses fósseis vão exercer contra os planos do governo Joe Biden são sinais claros dos riscos atuais.
O dado novo é que já são 127 os países que se comprometem com a neutralidade de suas emissões de gases de efeito estufa até meados deste século. Se estes países cumprirem suas metas, a elevação da temperatura global média até 2100 será bem menor do que a prevista inicialmente no Acordo de Paris cinco anos atrás. O estudo da Carbon Action Tracker calcula que o aumento da temperatura global média seria de 2,1ºC e não mais de 3,5ºC, como apontava a ambição estabelecida em 2015.
É claro que promessas podem ser simplesmente palavras. O importante é que estas novas metas se materializam em planos cuja ambição se apoia em inovações que, pouco a pouco, se convertem no padrão global dominante. Os países que se recusam a adotar metas mais ambiciosas são aqueles cuja economia concentra-se em recursos fósseis, ou que estão distantes da fronteira científica e tecnológica que vai marcar os setores mais importantes da economia contemporânea, ou seja, a energia, a mobilidade e a produção de materiais.
A China, por exemplo, vai instalar daqui até 2050 o correspondente a mais de cinquenta usinas de Itaipu em energia solar e eólica. Índia, Japão, Coreia do Sul e a própria China estão investindo pesado na total eletrificação de seu sistema de transportes terrestres. Joe Biden, que recoloca os EUA dentro do Acordo de Paris no primeiro dia de seu governo, quer tornar o sistema energético dos Estados Unidos neutro em carbono até 2035. O conjunto da economia norte-americana deve ser descarbonizado até 2050.
Estas metas só podem ser atingidas com transformações profundas na vida social. Uma sociedade com mobilidade terrestre eletrificada significa a supressão dos postos de gasolina e das oficinas mecânicas. As residências hoje aquecidas por gás ou óleo terão que converter seus equipamentos para a eletricidade. Estes são apenas alguns exemplos que mostram a profundidade do impacto que o combate à emergência climática terá sobre a vida dos cidadãos.
Ao mesmo tempo, a oportunidade é extraordinária, pois está aberto um caminho fértil para o aprofundamento da inovação científica e tecnológica em todos os campos da vida social.
O Brasil, que era líder climático, foi colocado pelo atual governo como adversário deste movimento. Junto com a Indonésia, somos os únicos países do mundo em que metade das emissões de gases de efeito estufa deriva de desmatamento. Combater o desmatamento não exige ciência, tecnologia, nem tampouco transformações econômicas, sociais e culturais como as necessárias para a luta climática nos países em que o grosso das emissões vem da queima de combustíveis fósseis.
A diplomacia da próxima década será, cada vez mais, regida por questões socioambientais. Erosão da biodiversidade e emergência climática serão os temas das duas mais importantes conferências globais de 2021, a da biodiversidade, a ser realizada na China, e a climática, que ocorrerá em Glasgow, na Escócia. E o Brasil, que poderia se apresentar ao mundo como potência ambiental, protegendo a Amazônia, patrimônio essencial para enfrentar a emergência climática e valorizando sua sociobiodiversidade, está optando por se afastar da mais importante fronteira científica e tecnológica da inovação contemporânea. Ser pária internacional hoje não traz apenas consequências diplomáticas. É uma condição que condena a própria economia à retaguarda daquilo que o mundo tem hoje de mais avançado.
Os votos só podem ser de que em 2021 cresça a mobilização democrática contra a seita fundamentalista que desperdiça os benefícios que o Brasil pode tirar de sua contribuição à luta global contra a emergência climática e a erosão da biodiversidade.
Imagem de destaque Anja🤗#helpinghands #solidarity#stays healthy🙏 por Pixabay
Ricardo Abramovay é professor Sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP. Foi Autor de “Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza” (Ed. Elefante/Terceira Via, São Paulo).
Lições e oportunidades perdidas para o meio ambiente no 2020 do Covid
“Se em 2021 os líderes políticos da comunidade internacional aprenderem com a lição de 2020, uma crise global, aquela do coronavírus, poderia servir para reduzir ou resolver outra, a do aquecimento do planeta”, escreve Enrico Franceschini, em artigo publicado por La Repubblica, 30-12-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.
IHU
Eis o artigo.
O lockdown global causado pelo Covid foi uma oportunidade perdida de nos salvar das mudanças climáticas?
Quem faz a pergunta é o The Guardian, em um longo artigo publicado no dia 30 em sua página inicial. A resposta é sim e não, ou melhor: depende. Nos dois ou três meses da última primavera do hemisfério norte, quando as cidades se esvaziaram e a atividade humana desacelerou como nunca antes desde a Segunda Guerra Mundial, os benefícios para a Terra rapidamente se tornaram evidentes: ar menos poluído, águas mais límpidas, a natureza capaz de recuperar espaços. Mas quando as pessoas saíram de suas casas e o trabalho foi retomado, esses progressos foram rapidamente eliminados. Porém, se em 2021 os líderes políticos da comunidade internacional aprenderem com a lição de 2020, uma crise global, aquela do coronavírus, poderia servir para reduzir ou resolver outra, a do aquecimento do planeta.
O experimento involuntário
Os cientistas definiram o lockdown como “um experimento involuntário”. Durante a primavera do hemisfério setentrional, quando as restrições impostas pela pandemia atingiram o auge, os efeitos da presença humana caíram a um nível que não era visto há décadas. Os voos aéreos diminuíram 90 por cento. O tráfego nas estradas se reduziu pela metade. As emissões de gases nocivos na China, a maior fonte de dióxido de carbono na atmosfera, caíram em um quinto. Os sismólogos conseguiram até detectar um nível inferior de vibrações do chamado “ruído cultural” produzido pela população mundial: como se o silêncio tivesse caído na Terra, ou melhor, apenas seu som natural tivesse voltado a ser ouvido.
De Katmandu à Veneza
Embora breve, a pausa na laboriosidade e no movimento dos seres humanos produziu efeitos imediatos em todos os lugares. Os residentes de Katmandu, no Nepal, ficaram admirados com a visão do Monte Everest pela primeira vez em cinquenta anos. Nas redes sociais, vimos imagens incríveis de coiotes na ponte Golden Gate de São Francisco, javalis nos arredores de Barcelona e gamos não muito longe da Casa Branca em Washington. À lista mencionada pelo jornal londrino poderíamos acrescentar, no que diz respeito à Itália, as águas dos canais de Veneza que se tornaram cristalinas e cheias de peixes, ou o avistamento de um veado na praia perto de Roma de Cesenatico.
A natureza havia começado a recuperar seu território. E o mundo estava se limpando: globalmente, as emissões nocivas registraram uma queda de 7%, a maior queda desde que essas estatísticas começaram a ser realizadas. A mudança foi claramente visível do espaço, onde os satélites fotografaram uma redução evidente da poluição nos cinturões industriais, de Wuhan na China a Torino na Itália. Oferecendo, inclusive, um alívio mínimo às vítimas da Covid, houve 11.000 mortes a menos na Europa com base em projeções de mortes por doenças respiratórias relacionadas à poluição.
Tudo como antes
Mas os progressos tiveram vida curta, relata o The Guardian. Assim que o primeiro lockdown terminou, o tráfego começou a crescer novamente e a poluição do ar seguiu o mesmo ritmo. Uma pesquisa em 50 cidades britânicas mostrou que, em 80% dos casos, os níveis de poluição do ar voltaram ao mesmo nível ou piores do que antes da pandemia. Avistamentos de montanhas distantes desapareceram na névoa da poluição. Os animais silvestres voltaram a se esconder. E o relatório anual da ONU considerou o impacto do lockdown sobre as emissões nocivas como “insignificante”, equivalente a uma diferença de apenas 0,01% entre agora e 2030.
Fazendo as pazes com a natureza
Uma oportunidade perdida, então? Sim, embora obviamente o prolongamento do lockdown teria custos econômicos com consequências imediatas para a sobrevivência da população da Terra. Mas a lição do Covid poderia não ser completamente perdida. Os líderes políticos parecem ter entendido que a pandemia tem suas raízes nos danos ambientais causados pelo homem: neste sentido, o coronavírus é um alerta de outras crises que poderiam vir no futuro se continuarem o desmatamento e os desastres naturais que os cientistas vincularem às emissões de gases de efeito estufa. O ambicioso compromisso global de responder à crise do Covid investindo na economia verde aproxima o objetivo do acordo de Paris de limitar o aumento médio da temperatura da Terra a 2º Celsius até o final do século.
As conferências internacionais agendadas para 2021 sobre o tema da poluição serão uma oportunidade para verificar se a grande crise de 2020 serviu para algo. Como secretário-geral da ONU, Antonio Guterres declarou, em um discurso apaixonado há algumas semanas, que fazer as pazes com a natureza será o objetivo principal do século XXI. “A humanidade está declarando guerra à natureza”, disse Guterres. “Este é um comportamento suicida. A natureza sempre reage com força e fúria, como está fazendo agora.”
(EcoDebate, 06/01/2021) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
EcoDebate - Edição 3.584 de 06 / janeiro/ 2021
Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
Concentração de CO2 bate recorde em 2020 mesmo com pandemia
A Pandemia e o desrespeito à vida
Fumaça sangrenta: os milhões mortos pela poluição do ar
Lições e oportunidades perdidas para o meio ambiente no 2020 do Covid
Pequenas atitudes que podem ajudar na conservação dos oceanos
“Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]
Assinar:
Postagens (Atom)
