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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Pesquisa mostra que geosmina, substância encontrada em água contaminada, pode ajudar na reprodução do mosquito da dengue


O composto químico, chamado de geosmina, é o mesmo que tem afetado o fornecimento no Rio de Janeiro
Agência do Rádio
Uma substância encontrada na água contaminada com esgoto pode ajudar na proliferação do mosquito da dengue. O composto químico, chamado de geosmina, é o mesmo que tem afetado o fornecimento no Rio de Janeiro, deixando a água com gosto e cheiro de terra. A geosmina atrai o mosquito da dengue, facilitando a reprodução do animal. A descoberta foi publicada na revista científica “Current Biology”, fortalecendo a ideia de que a falta de saneamento é um dos fatores que mais contribuem para a proliferação do Aedes aegypti.
A engenheira sanitarista e professora da Escola Politécnica da UFRJ, Iene Cristina Figueiredo, explica que o surgimento de geosmina é resultado da ação de cianobactérias, que são algas microscópicas, principalmente quando a água está contaminada.
“Esses organismos [cianobactérias] para se proliferarem precisam de luz e de nutriente, essencialmente nitrogênio e fósforo. Algo que a gente também aporta para os cursos d’água por conta do esgoto sanitário. Aí a gente gera um ambiente ‘ótimo’ – água parada, muito esgoto, muito nutriente e muita luz.”
André Ricardo Machi é doutor em biologia pela Universidade de São Paulo e estuda o comportamento do Aedes. O especialista explica que o mosquito é atraído pela geosmina porque a substância é um sinal de que o reservatório de água é “propício” para o desenvolvimento das larvas.
“A água contaminada produz uma maior quantidade de geosmina, pois essa substância é basicamente produzida por microrganismos, principalmente bactérias. Isso faz com que especificamente a fêmea do mosquito seja mais atraída para ‘ovipositar’ nesse local uma vez que, onde há a substância, também há microrganismos dos quais as larvas dos mosquitos podem se alimentar.”
As autoridades de saúde reforçam o papel dos moradores no combate a focos do mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya. A recomendação do Ministério da Saúde é de que limpeza de possíveis focos do Aedes, dentro de casa, seja semanal.
Dados do ministério revelam que, em 2019, de janeiro a agosto foram notificados quase um milhão e meio de casos prováveis de dengue – número quase sete vezes maior do que o registrado no mesmo período de 2018. A taxa de incidência a cada 100 mil habitantes ultrapassou 735 ocorrências. Em relação aos casos graves da doença, foram registradas 1.419 confirmações.
E você? Já combateu o mosquito hoje? A mudança começa dentro de casa. Proteja a sua família. Para mais informações, acesse saude.gov.br/combateaedes. Ministério da Saúde, Governo Federal. Pátria Amada Brasil.
Imagem com recomendações para utilizar água sanitária no combate ao aedes aegypti
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/02/2020
Pesquisa mostra que geosmina, substância encontrada em água contaminada, pode ajudar na reprodução do mosquito da dengue, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/02/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/02/28/pesquisa-mostra-que-geosmina-substancia-encontrada-em-agua-contaminada-pode-ajudar-na-reproducao-do-mosquito-da-dengue/.

Novos dados reforçam riscos da poluição do ar para a saúde humana


poluição

A poluição do ar continua a representar uma das maiores ameaças à saúde humana, com 90% da população mundial respirando ar abaixo de níveis seguros.

Os últimos dados compilados pela IQAir, publicados no Relatório Mundial da Qualidade do Ar de 2019 e no ranking das cidades mais poluídas, revelam a mudança do estado da poluição por material particulado (PM2,5) em todo o mundo durante 2019.
Por Bruno Toledo, AviV, para o EcoDebate.
O novo conjunto de dados destaca os níveis elevados de poluição do ar como um resultado de eventos da crise climática, como tempestades de areia e incêndios florestais, e ganhos de poluição pela rápida urbanização das cidades em regiões como o Sudeste Asiático. Embora algumas conquistas tenham sido feitas na infraestrutura de monitoramento da qualidade do ar em todo o mundo, ainda existem grandes lacunas no acesso aos dados em todo o mundo.
Para Frank Hammes, CEO da IQAir, “enquanto o novo coronavírus está dominando as manchetes internacionais, um assassino silencioso está contribuindo para quase 7 milhões de mortes a mais por ano: a poluição do ar. Através da compilação e visualização de dados de milhares de estações de monitoramento da qualidade do ar, o Relatório Mundial da Qualidade do Ar de 2019 dá novo contexto à principal ameaça à saúde ambiental do mundo. ”
As principais conclusões do relatório incluem:
– Na China: as cidades chinesas alcançaram uma redução média de 9% nos níveis de PM2,5 em 2019, após uma queda de 12% em 2018. Ainda assim, 98% das cidades excederam as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS) e 53% das cidades excederam as metas nacionais menos rigorosas da China. Na última década, Pequim cortou em mais da metade seus níveis anuais de PM2,5. Este ano, Pequim saiu das 200 cidades mais poluídas do ranking.
– Na Coréia do Sul: este foi o país mais poluído em PM2,5 entre as nações da OCDE em 2019. Os níveis de qualidade do ar nas principais cidades permaneceram relativamente estagnados nos últimos anos.
– Na Índia: enquanto as cidades da Índia, em média, excedem a meta da OMS para exposição anual a PM2,5 em 500%, a poluição do ar nacional diminuiu 20% de 2018 a 2019, com 98% das cidades experimentando melhorias. Acredita-se que essas melhorias sejam em grande parte resultado da desaceleração econômica.
– No sul da Ásia: cidades indianas e paquistanesas dominam novamente as cidades mais poluídas do mundo por PM2,5 em 2019. Vinte e uma das 30 principais cidades poluídas estão localizadas na Índia. Cinco das 30 principais cidades mais poluídas estão localizadas no Paquistão.
– No sudeste da Ásia: em uma mudança histórica que reflete a rápida industrialização da região, os centros urbanos de Jacarta e Hanói ultrapassaram Pequim pela primeira vez, entre as capitais poluídas por PM2,5 do mundo.
– Incêndios florestais e práticas agrícolas de queima aberta tiveram um grande impacto na qualidade do ar de cidades e países ao redor do mundo, incluindo: Cingapura, Austrália, Indonésia, Brasil, Kuala Lumpur, Bangcoc, Chiang Mai e Los Angeles, entre muitos outros.
– A desertificação e as tempestades de areia desempenham um papel importante na má qualidade do ar no Oriente Médio e oeste da China.
– Grandes populações em todo o mundo ainda não têm acesso a dados de poluição do ar em tempo real, especialmente na África e no Oriente Médio. Um número crescente de cidadãos e ONGs globais está implantando seus próprios sensores de qualidade do ar de baixo custo para preencher as lacunas de dados onde elas existem. Devido a esses esforços, dados contínuos de qualidade do ar público estão agora disponíveis pela primeira vez em Angola, Bahamas, Camboja, RD do Congo, Egito, Gana, Letônia, Nigéria e Síria.
Os dados de qualidade do ar de 2019 mostram indicações claras de que as mudanças climáticas podem aumentar diretamente o risco de exposição à poluição do ar, através do aumento da frequência e intensidade de incêndios florestais e tempestades de areia. Da mesma forma, em muitas regiões, a causa da poluição ambiental por PM2,5 e os gases do efeito estufa que causam mudanças climáticas estão ligados, a saber, a queima de combustíveis fósseis, como o carvão. É necessária uma ação urgente para combater essas fontes de emissão, proteger a saúde pública e os ecossistemas.
“Enquanto o monitoramento da qualidade do ar está aumentando, a falta de dados sobre a qualidade do ar em grandes partes do mundo apresenta um problema sério, pois o que não é medido não pode ser gerenciado. Estima-se que as áreas que não possuem informações sobre a qualidade do ar tenham uma das poluições atmosféricas mais graves do mundo, colocando em risco populações enormes. Atualmente, a África, um continente de 1,3 bilhão de pessoas, possui menos de 100 estações de monitoramento que disponibilizam os dados do PM2,5 ao público em tempo real. Mais dados da qualidade do ar em tempo real levam os cidadãos e os governos a tomar melhores decisões que melhorarão a vida de milhões nas próximas décadas”, acrescentou Hammes.
***
SOBRE – O IQAir AirVisual é uma plataforma global de informações sobre qualidade do ar operada pelo Grupo IQAir. Ao agregar e validar dados de qualidade do ar de governos, indivíduos e organizações não-governamentais, o IQAir AirVisual visa fornecer informações globais e hiper-locais sobre a qualidade do ar que permitem que indivíduos, organizações e governos tomem medidas que melhorem a qualidade do ar em comunidades, cidades e países. países em todo o mundo. Saiba mais em http://www.airvisual.com

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/02/2020
Novos dados reforçam riscos da poluição do ar para a saúde humana, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/02/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/02/28/novos-dados-reforcam-riscos-da-poluicao-do-ar-para-a-saude-humana/.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Incêndios da Austrália destruíram 20% das florestas do país

O fogo atingiu uma escala sem precedentes, nunca antes observada em nenhum outro bioma florestal do mundo nos últimos 20 anos. “Eventos como esses são vistos como prenúncios de um futuro que está rapidamente se tornando presente”, alertam pesquisadores
Foram quatro meses de incêndios florestais que devastaram mais de 10 milhões de hectares de vegetação, deixaram 28 vítimas humanas fatais e mataram quase 500 milhões de animais.
O fogo que começou a se alastrar em setembro de 2019 e provocou destruição até fevereiro de 2020 foi o pior já enfrentado pelos australianos nas últimas décadas. A região de New South Wales e Victoria, no sudoeste do país, foram as mais afetadas pelos incêndios.
Segundo um levantamento realizado por pesquisadores do Hawkesbury Institute for the Environment da Western Sydney University, cerca de 20% de áreas de florestas foi destruída pelas chamas, aproximadamente 5,8 milhões de hectares.
Da última vez que houve incêndios dessas proporções no país, a perda florestal foi de “somente” 2%.
“Analisamos os principais biomas florestais da Austrália, Ásia, África, Oceania e Américas do Norte e do Sul para determinar a extensão das áreas anuais queimadas por incêndios florestais”, revelou Matthias Boer, principal autor do estudo. “As florestas na Austrália e em outros continentes queimaram historicamente até aproximadamente 5% da área florestal a cada ano, com percentuais mais altos de 8 a 9% registrados apenas em pequenas regiões florestais da África e Ásia. No entanto, em 2019/2020 na Austrália, essa área queimada saltou para 21% em uma única temporada”.
Para Boer, o fogo em seu país atingiu uma escala sem precedentes, nunca antes observada em nenhum outro bioma florestal nos últimos 20 anos.
Em um artigo publicado na Nature Climate Change, especialistas analisaram as causas e os impactos da tragédia na Austrália. “Os incêndios ocorreram no início de um ano em que houve um aumento do envolvimento do público com a ciência e as políticas climáticas, bem como uma maior cobertura da mídia. Eventos como esses são vistos como prenúncios de um futuro que está rapidamente se tornando presente”, alertaram os autores.
Há 13 anos, cientistas já tinham previsto o agravamento dos incêndios florestais na Austrália. Em 2007, representantes do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU (IPCC) destacaram o impacto do aquecimento global relacionado ao fogo, ressaltando o risco de incêndios naquele país. Naquela época, o primeiro-ministro, Scott Morrison, já negava os efeitos das alterações do clima e era contra políticas de redução de gases de efeito estufa.
Foi justamente por esta razão que Morrison foi tão criticado pelos australianos, que exigiram mais recursos para os serviços de combate a incêndios e ações urgentes de combate à crise climática, começando com a manutenção de combustíveis fósseis no solo.

Secas históricas

Um dos impactos mais conhecidos das mudanças climáticas são os eventos climáticos extremos. O sudoeste da Austrália teve um dos períodos mais secos de sua história, de janeiro a agosto de 2019.
A seca, combinada a um inverno com recordes de calor, proporcionou o cenário ideal para que as chamas se alastrassem pela vegetação. Ou seja, o que vemos agora são alguns dos efeitos práticos da crise climática global. É isso mesmo, o futuro já começou!
As mudanças climáticas na Austrália significam que os incêndios florestais começam mais cedo, duram mais e são mais intensos.
Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.
#Envolverde

Veja as dicas da OMS para evitar o contágio e a disseminação do novo coronavírus


Ações básicas podem evitar contágio e propagação do novo coronavírus

COVID-19
Foto: © Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está trabalhando com especialistas para expandir o conhecimento médico sobre o novo coronavírus. Dados sobre a transmissão, recuperações e óbitos são importantes para conhecer melhor a doença e a proporção da epidemia.
ABr
Com a confirmação do primeiro caso de coronavírus no Brasil, a Agência Brasil preparou um guia de medidas básicas para evitar o contágio e a disseminação dos vírus que atacam o sistema respiratório, em especial o coronavírus. As informações são da OMS.
Confira:
Higienize as mãos
Lave suas mãos frequentemente com água e sabão ou com uma solução de álcool em gel.
Por quê? Esfregar as mãos ajuda a eliminar traços do vírus que podem estar presentes em lugares de uso comum.
Mantenha distância social
Mantenha pelo menos um metro de distância de pessoas que apresentam tosse ou espirros constantes.
Por quê? A tosse e o espirro propagam pequenas gotas de secreção e saliva que podem conter vírus. Com a proximidade, a chance de respirar ou ter contato essas gotículas aumenta.
Evite tocar os olhos, o nariz e a boca
Evite coçar, esfregar ou ter qualquer tipo de contato com as mucosas. Essas áreas têm contato direto com a corrente sanguínea e são mais sensíveis à presença de agentes de contaminação
Por quê? As mãos estão em contato constante com superfícies que podem ser vetores de transmissão de vírus e bactérias. Mantê-las longe das mucosas diminui a chance de ficar doente.
Pratique higiene respiratória
Tenha boas práticas de higiene respiratória. Isso significa cobrir a boca e o nariz com o braço curvado ou com um lenço de tecido ou papel ao tossir e espirrar. Descarte ou higienize o material usado imediatamente.
Por quê? Gotículas de saliva e secreção são vetores do Covid-19. Evitar que outras pessoas entrem em contato com saliva contaminada evita não apenas o coronavírus, mas uma série de doenças respiratórias.
Em caso de febre ou dificuldade respiratória, busque ajuda médica rapidamente
Não saia de casa se estiver com febre. Se os sintomas persistirem e caso haja dificuldade respiratória, busque atenção especializada imediatamente.
Por quê? Apesar de serem sintomas comuns, uma ação rápida pode evitar problemas mais sérios e o desenvolvimento de sintomas mais graves de infecções respiratórias.
Uso de máscaras
Pessoas saudáveis, sem sintomas como febre, tosse ou espirros não precisam usar máscaras
Por quê? Apenas profissionais de saúde e pessoas que apresentem sintomas parecidos com os do novo coronavírus precisam usar máscaras. A função das máscaras é conter a propagação do vírus em quem já está infectado. A OMS recomenda o uso racional das máscaras.
Fique bem informado e siga os procedimentos do Ministério da Saúde
Por quê? Autoridades nacionais e locais têm a informação mais atualizada sobre a situação de saúde na sua área. Tomar atitudes preventivamente ajuda o sistema de saúde a distribuir e compreender de maneira ágil a disseminação de qualquer doença.

Por Pedro Ivo Oliveira, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/02/2020
Veja as dicas da OMS para evitar o contágio e a disseminação do novo coronavírus, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/02/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/02/27/veja-as-dicas-da-oms-para-evitar-o-contagio-e-a-disseminacao-do-novo-coronavirus/.

Qualidade do tratamento de água: Geosmina é a ponta do iceberg


Diante da falta de transparência de dados e a lentidão do plano de contingência, pesquisadores propõem uma força-tarefa para monitorar a qualidade da água e assegurá-la como direito humano

Por Viviane Tavares – EPSJV/Fiocruz

ETA Guandu
ETA Guandu. Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil

Mal começava o mês de janeiro e cerca de nove milhões de pessoas da região metropolitana do Rio de Janeiro passaram a sentir mau cheiro e gosto de terra na água que saía das torneiras de suas casas. Lentidão de respostas, especulações em relação às substâncias presentes na água, desinformação e falta de transparência rondaram esse processo que envolveu a maior estação de tratamento de água do mundo, a ETA Guandu. Até o fechamento desta reportagem, o fornecimento de água não havia voltado à normalidade.
Ainda no dia 7 de janeiro, a Cedae publicava a primeira nota informando que técnicos da empresa detectaram a presença da substância geosmina em amostras de água. O texto informava ainda que a substância orgânica não causava nenhum risco à saúde e que a água poderia ser consumida. No entanto, parte da população passou a relatar fortes cólicas e náuseas, e um grande contingente de pessoas percebeu gosto e cheiro diferentes: quem pôde, começou a recorrer à compra de água mineral engarrafada. A secretaria municipal de Saúde do Rio informou, por meio de nota enviada ao Portal EPSJV, que não há como comprovar relação dos sintomas com a presença da substância na água.
Uma semana depois, no dia 13, uma força-tarefa composta pel Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, por meio do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema/MPRJ), Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Fiocruz, Uerj, Inea e vigilância sanitária do município e do estado e representantes do Comitê de Bacia do Guandu também fizeram uma vistoria na ETA Guandu. Na ocasião, água da barragem principal de captação do Rio Guandu, do Reservatório Marapicu e dos pontos de coleta oficiais dos laboratórios da Cedae foi coletada. A Fiocruz, na ocasião, se colocou à disposição para a avaliação das informações e indicações técnicas aos órgãos envolvidos. Vale ressaltar que a instituição não ficou responsável pela análise da água. O relatório produzido foi entregue tanto ao MPRJ, quanto à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). “Somamos forças para que pudéssemos dar respostas à população e cobrar a Cedae que não estava sendo ágil nem transparente em todo esse processo”, informa a promotora Gisela Pequeno. do MPRJ.
No dia 15, 24 horas depois de a empresa publicar um laudo de parâmetros de análise da água, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicou uma nota contradizendo a avaliação da Cedae em relação à presença da geosmina na água. “Diferentemente do que havia sido anunciado pela Cedae, os laudos divulgados até a manhã do dia 15/1/2020 não fazem referência à identificação da presença de geosmina, corroborando assim para a permanência da incerteza relacionada à qualidade da água distribuída para a população, que continua recebendo água com turbidez e odor em alguns pontos da RMRJ”, dizia o texto.
De acordo com o professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz Alexandre Pessoa, que participou da vistoria, já era possível sentir forte odor no momento da captação da água. Para ele, ficou evidente a necessidade de investimento em operação, manutenção e conservação das estruturas da estação de tratamento. “A visita foi importante, pois possibilitou o diálogo com os técnicos da Cedae com relação ao controle operacional da estação eà entrada em operação do plano de contingência para o abastecimento de água do sistema Guandu. A partir desse encontro, percebemos inconsistências na execução desse plano, que indicava a abertura imediata das comportas das barragens e o fechamento dos canais de adução da água para estação de tratamento mediante a ocorrência de proliferação de algas”, explica e acrescenta:É urgente a necessidade de revisão do plano de contigência, com a inclusão de protocolo específico para a floração de algas e cianobactérias.
Para o pesquisador e assessor da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz Guilherme Franco Netto o tempo de respostas foi de grande morosidade e a falta de transparência impactou diretamente na desinformação que circulou. “Houve uma precariedade e prevaleceu uma desinformação muito grande, que limitou a tomada de decisão. Apesar disso, apresentamos enquanto competência técnica uma série de alternativas e procedimentos que poderiam ser implementados pela companhia no sentido de melhorar a qualidade da água”.
No próprio plano de contingência, além de ações diretas como as percebidas na vistoria, a comunicação também foi um ponto central. Entre as iniciativas a serem tomadas estão mensagens diretas ao consumidor, pronunciamento, coletivas e informes à imprensa. No entanto, o órgão também agiu contra o que determinava seu próprio documento interno. “Podemos observar ainda que neste plano de comunicação não estão as informações que devem ser enviadas para a vigilância em saúde sobre qualquer alteração que interfira no padrão de potabilidade. Um dos grandes problemas deste episódio foi a falha da comunicação em saúde. A falta de informação gera um nível de estresse hídrico que também faz mal à saúde”completa Alexandre.
Já no mês de fevereiro, a Cedae passou a disponibilizar dados com mais frequência. Grande parte deles veio somente após pressão tanto por parte do Ministério Público como por parte da Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio (Agenersa). Em janeiro, a agência multou em R$100 mil a Cedae pela falta de disponibilidade dos dados, obrigando a empresa a publicar seus relatórios até 7 de fevereiro. A companhia cumpriu parcialmente as determinações.
“O Ministério Público vem acompanhando desde 2015, quando cobrou a adequação do fornecimento da água aos parâmetros determinados pela portaria do Ministério da Saúde e também para aperfeiçoar o plano de monitoramento e avaliação da água distribuída para a população. A ação foi considerada procedente e o acórdão considerou parcialmente para obrigar a Cedae o monitoramento e avaliação que deve ser contínua, transparente e eficaz”, explica Gisele Pequeno.

Qualidade da água e as consequências

Atualmente, para aferir a qualidade da água, existem três parâmetros: a portaria de potabilidade do Ministério da Saúde , atual anexo XX da Portaria de Consolidação GM/MS 5/2017 que aborda os procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade; a Resolução 274/2005 da Diretoria Colegiada da Anvisa, que regula as águas envasadas e gelo para consumo humano; e a Resolução 357/2005 do Conama, que avalia a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais, além de padrões e condições do lançamento de afluentes.
Outros recursos se somam a esses para garantir a defesa e o direito à água, como a Lei das Águas (Lei 9.433/97) que estabelece princípios, objetivos e instrumentos de gestão dos recursos hídricos brasileiros e, ainda, cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH) integrado, descentralizado e a Resolução 47/193 da Organização das Nações Unidas (ONU).
Para o pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Ensp/Fiocruz) Paulo Barrocas, esse arcabouço daria conta do controle da água se ele fosse mais articulado. “Infelizmente não há uma harmonização dos parâmetros entre as legislações vigentes: o que é exigido em um não tem em outro . Antes de a água ser captada é uma legislação, quando é captada é outra e se for engarrafada é uma terceira. De alguma maneira, deveria haver maior controle e padronização dessa água bruta que está sendo captada. Se a qualidade dela é muito ruim, vai exigir uma cadeia de tratamento mais sofisticada, mais cara”.
Barrocas ainda aborda a questão do risco à saúde provocada por padrões não aceitos pela população. “Mesmo que a gente assuma que a geosmina não é tóxica, o fato de a população rejeitar o consumo deve ser levado em consideração como risco à saúde por conta de diversos problemas que isso pode causar como a desidratação, além da procura de outras fontes de água que não necessariamente são seguras e/ou potáveis”, diz. E acrescenta: “Entendemos, portanto, que qualquer parâmetro, inclusive os organolépticos [cor, cheiro e gosto], que leva a rejeição ao consumo são parâmetros que causam risco à saúde, mesmo que de forma indireta”.
Para Alexandre Pessoa, a presença de geosmina compromete o padrão de potabilidade da água fornecida à população. O Rio Guandu, principal manancial do Rio de Janeiro, sofre, segundo ele, uma crise ecológica por conta da poluição via esgoto sanitário e efluentes industriais. “A garantia do abastecimento de água seguro passa pela proteção das bacias hidrográficas. O Rio sofre um retrocesso das políticas públicas de saneamento e a solução passa pela melhoria do saneamento em todos os seus componentes”.
Tanto Barrocas quanto Pessoa apostam na atualização da portaria do Ministério da Saúde. Para Barrocas, o instrumento não foi pensado à época para a captação da água que estamos oferecendo nos dias de hoje. “Tem uma série de substâncias que não estão na portaria porque não estava previsto o recebimento de esgoto industrial, excesso de recebimento de esgoto doméstico. Uma vez isso previsto, tem que passar a medir fármacos, disruptores endócrinos, dentre outras substâncias”. Já Pessoa entende que não é possível esperar a ocorrência futura de eventos similares, exacerbadas pelas mudanças climáticas, sendo necessário revisar a portaria de potabilidade e intensificar o investimento na vigilância. “Essas iniciativas são estratégicas de proteção e garantia da água segura. Cabe aos órgãos públicos fortalecer o monitoramento e a vigilância em saúde para garantir o direito ao saneamento que é o direito à saúde”, afirma Alexandre.

Lições aprendidas e papel da Fiocruz

Em nota publicada em 10 de fevereiro, a Fiocruz avaliou que é necessário e urgente o planejamento de longo prazo da gestão das águas do Rio Guandu e de medidas de contingência e segurança da água, orientadas pela proteção da saúde da população, incluindo o sério enfrentamento da ocupação territorial na bacia do manancial e do controle da poluição das várias fontes existentes.
De acordo com os pesquisadores ouvidos nesta reportagem, o plano de contingência previsto pela Cedae é insuficiente. Para eles, deveria ser elaborado um Plano de Segurança da Água para todo o sistema de abastecimento desde a bacia até as habitações. “Estamos nos articulando para que possamos dar suporte e para que consigamos dar respostas mais rápidas em situação de emergência como esta. Não só do ponto de vista de interpretação dos dados, mas de produção de dados primários”, diz Barrocas.
Guilherme Franco levanta ainda a questão da inexistência de uma contraprova dos laudos publicados pela Cedae. “Carecemos de uma contraprova porque a vigilância da água fica a cargo das secretarias municipais de saúde, por meio da vigilância em saúde. E esses órgãos fazem a avaliação de um número reduzido de parâmetros, insuficientes para uma contraprova em relação à complexidade de indicadores que devem ser monitorados. Hoje o que temos são os dados disponibilizados pela empresa e pela vigilância municipal”, avalia.
A visão do Ministério Público é a mesma. O órgão pretende criar formas para que existam outros laudos e contraprovas na avaliação da qualidade da água. “Esse é um problema da rede que a gente encontrou. Não existe nenhum laboratório público no estado que seja capaz de realizar contraprova de todos esses parâmetros. O que a gente tem é que a vigilância sanitária e o Inea realizam alguns desses parâmetros, então, destes, a gente consegue fazer a contraprova. Queremos estruturar um laboratório público, provavelmente a partir do Laboratório Central de Saúde Pública Noel Nutels [Lacen] para que tenha a capacidade funcional para realizar a contraprova de todos os parâmetros determinados pela portaria. Hoje estamos reféns do que é fornecido pela Cedae”, anuncia a promotora.
Atualmente o Ministério Público Rio de Janeiro e a Fiocruz mantém um grupo de trabalho por meio de um termo de cooperação que tem discutido diversas questões e articulado com diferentes instituições como Universidades, Inea, vigilância em saúde, Agenersa, entre outros. Dentro deste grupo, outras iniciativas estão sendo estudadas como a revisão o arcabouço legal atual. “A gente tem olhado com muito carinho a revisão da portaria e vamos sugerir itens de suma importância, como os padrões organolépticos, que não estavam sendo levados com a devida consideração nem pelas vigilâncias nem pela Cedae”, informa. Um plano de segurança da água do Guandu também está sendo articulado.
A Cedae foi contatada pelo Portal EPSJV, mas justificou por conta das mudanças internas, que não poderia conceder entrevista em tempo viável.

Da EPSJV/Fiocruz in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/02/2020
Qualidade do tratamento de água: Geosmina é a ponta do iceberg, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/02/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/02/27/qualidade-do-tratamento-de-agua-geosmina-e-a-ponta-do-iceberg/.