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quarta-feira, 25 de julho de 2018

Pesquisadores alertam para os danos ecológicos da barreira contínua ao longo da fronteira EUA-México


Planos federais para completar uma parede contínua ao longo da fronteira EUA-México ameaçariam a existência de numerosas espécies de plantas e animais, dizem os pesquisadores de Stanford. Paul Ehrlich e Rodolfo Dirzo analisam os ecossistemas naturais únicos da região e o que eles têm a perder.

Por Rob Jordan*
Stanford Woods Institute for the Environment

Uma família de javalis encontra o muro na fronteira EUA-México, perto do rio San Pedro, no sudeste do Arizona. (Crédito da imagem: Matt Clark / Defenders of Wildlife)
Uma família de javalis ‘encontra’ o muro na fronteira EUA-México, perto do rio San Pedro, no sudeste do Arizona. (Crédito da imagem: Matt Clark / Defenders of Wildlife)

Terras de fronteira são sinônimo de desolação, mas a divisão México-EUA é algo completamente diferente. A fronteira de quase 3.000 quilômetros atravessa algumas das regiões de maior diversidade biológica do continente, incluindo florestas, campos e salinas – onde vivem mais de 1.500 espécies de animais e plantas nativas, de acordo com uma análise publicada na revista BioScience em 24 de julho.
O artigo, em co-autoria dos biólogos de Stanford, Paul Ehrlich e Rodolfo Dirzo , adverte que algumas dessas espécies enfrentam extinção dentro dos EUA, se seus movimentos forem interrompidos pelo contínuo muro fronteiriço que o presidente Trump prometeu construir.
As barreiras físicas impedem ou desencorajam os animais de acessar alimentos, água, parceiros e outros recursos críticos ao interromper as rotas de migração e dispersão anuais ou sazonais. O trabalho em muros de fronteira, cercas e infra-estrutura relacionada, como estradas, fragmentos de habitat, corrói o solo, modifica os regimes de fogo e altera os processos hidrológicos, causando inundações, por exemplo.
O potencial de danos ao ecossistema foi destacado há mais de uma década, quando o Congresso dos EUA aprovou a Lei do Real ID. A lei de 2005 concede ao Departamento de Segurança Interna (DHS) autoridade para renunciar a quaisquer leis – incluindo a Lei de Espécies em Perigo e a Lei Nacional de Política Ambiental – que retardam a construção do muro.
O documento apela aos cientistas de todo o mundo para que ofereçam soluções, tais como requisitos que o DHS identifique espécies, habitats e recursos ecológicos em risco de construção de barreiras e operações de segurança; barreiras de projeto para máxima permeabilidade da vida selvagem, sempre que possível; e comprar ou restaurar o habitat de substituição quando o dano ambiental é inevitável. Quase 3.000 cientistas assinaram para endossar a mensagem do jornal.
Stanford Report conversou com Dirzo, professor de biologia e com o professor de ciências ambientais Bing, e Ehrlich, professor emérito de biologia e professor de estudos populacionais em Bing, emérito. Ambos também são bolsistas do Stanford Woods Institute for the Environment .
O que torna essas regiões de fronteira especiais?
Dirzo: Esta área é um teatro ecológico onde a evolução gerou uma infinidade de peças. Uma multiplicidade de fatores – condições climáticas, topografia, história geológica, tipos de solo – convergem para criar um incrível mosaico de ecossistemas. Uma constelação de formas de vida e linhagens tropicais temperadas e do sul do norte coincide com espécies endêmicas, como em poucas áreas do globo. Isso significa que essas fronteiras são uma responsabilidade global.
Quais impactos a construção de paredes de fronteira teve até agora sobre a biodiversidade?
Ehrlich: Qualquer construção substancial ordinariamente força as populações à extinção diretamente pela destruição total de seu habitat ou pela redução do tamanho da população ou restringindo o acesso a áreas críticas requeridas sazonalmente. Toda vez que você vê um shopping center, um aeroporto ou um conjunto habitacional sendo construído, pode ter certeza de que a biodiversidade está sofrendo. Muitas centenas de quilômetros de muro de fronteira e a infraestrutura de construção e manutenção que o acompanha seria um crime contra a biodiversidade.
Quais são as maneiras pelas quais a construção de paredes de fronteira ameaça especificamente uma espécie?
Dirzo: Muitas espécies, como carneiros selvagens, são compostas de populações de relativamente poucos indivíduos por unidade de área e possuem grandes áreas de vida – centenas de quilômetros quadrados no caso do carneiro. Reduzir esse intervalo levará à perda ou ao declínio da população local. Os tamanhos populacionais menores sofrem com a redução da variação genética, o que reduz sua capacidade de adaptação. As barreiras impedirão as migrações e movimentos das ovelhas bighorn para rastrear os habitats que mudam devido a mudanças climáticas. Cortado assim, o bighorn e outros animais e plantas se tornarão espécies de zumbis – populações demograficamente e geneticamente condenadas.
Você estima que 17% das espécies que você analisou correm risco de extirpação dentro dos EUA, se cortadas por uma parede de borda. Por que a pessoa média deve se preocupar com essa perda potencial?
Ehrlich: Além dos efeitos sobre os fluxos de água e outros serviços naturais, a muralha poderia nos roubar criaturas icônicas, como a ovelha bighorn peninsular e o antílope de Sonora. O valor estético desses animais magníficos, e seu significado cultural para os amantes da natureza, caçadores e grupos indígenas americanos, é atestado pelos grandes esforços já feitos para evitar sua extinção. Há também uma perda econômica a considerar – o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA estimou que a caça, a pesca e a observação da vida selvagem contribuíram com quase US $ 26 bilhões para as economias dos estados fronteiriços em 2011.
Referência:
Robert Peters, William J Ripple, Christopher Wolf, Matthew Moskwik, Gerardo Carreón-Arroyo, Gerardo Ceballos, Ana Córdova, Rodolfo Dirzo, Paul R Ehrlich, Aaron D Flesch, Rurik List, Thomas E Lovejoy, Reed F Noss, Jesús Pacheco, José K Sarukhán, Michael E Soulé, Edward O Wilson, Jennifer R B Miller, 2556 scientist signatories from 43 countries (INCLUDING 1472 FROM THE UNITED STATES AND 616 FROM MEXICO); Nature Divided, Scientists United: US–Mexico Border Wall Threatens Biodiversity and Binational Conservation, BioScience, , biy063, https://doi.org/10.1093/biosci/biy063

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/07/2018

Brasil lidera ranking de mortes de defensores da terra e do meio ambiente


2017 foi o ano com o maior número de mortes já registrado para defensores da terra e do meio ambiente, sendo o agronegócio o setor mais ligado a assassinatos
  • Os números anuais da Global Witness mostram que pelo menos 207 ativistas da terra e do meio ambiente foram mortos em 2017 em cerca de 22 países, quase 4 por semana, tornando-se o pior ano já registrado.
  • O relatório mostra um enorme aumento de assassinatos ligados a produtos para o consumidor. Ataques brutais àqueles que defendem suas terras contra a agricultura destrutiva – como a apropriação de terras para a produção de óleo de palma, usado em itens domésticos como o sabão e o café – estão em alta.      
  • Esta situação incita criticamente governo e empresas a tomar medidas para acabar com os ataques e apoiar os defensores, com ativistas como Yuri Herrera, Margaret Atwood, Lily Cole, George Monbiot e Ben Fogle falando contra os assassinatos.
A Global Witness revela que pelo menos 207 defensores da terra e do meio ambiente foram mortos no ano passado – líderes indígenas, ativistas comunitários e ambientalistas assassinados tentando proteger suas casas e comunidades da mineração, do agronegócio e de outras indústrias destrutivas.
Sérios limites nos dados disponíveis significam que o total global é provavelmente muito maior. O assassinato é o exemplo mais notório de uma série de táticas usadas para silenciar os defensores, incluindo ameaças de morte, prisões, intimidação, ataques cibernéticos, agressões sexuais e ações judiciais.
O relatório “A que preço?” mostra que o agronegócio ultrapassou a mineração como o setor mais associado a esses ataques.
Eles incluem o assassinato de Hernán Bedoya na Colômbia, baleado 14 vezes por um grupo paramilitar por protestar contra o óleo de palma e as plantações de banana em terras roubadas de sua comunidade; um massacre pelo exército de oito aldeões nas Filipinas que se opuseram a uma plantação de café em suas terras; e ataques violentos de fazendeiros brasileiros, usando facões e rifles, deixando 22 membros do povo indígena Gamela gravemente feridos, alguns com as mãos decepadas.
O relatório conecta essa violência com os produtos em nossas prateleiras: a agricultura em larga escala, a mineração, a caça ilegal, a extração de madeira, todos produzindo componentes e ingredientes para produtos de supermercado como o óleo de palma para xampus, a soja para carne bovina e a madeira para móveis.
O relatório também revela que alguns governos e empresas são cúmplices nos assassinatos, e por isso a Global Witness pede uma ação urgente se quisermos que essa tendência seja revertida. Assim como fazem parte do problema, governos e empresas podem fazer parte da solução. Eles devem encarar as principais causas dos ataques, garantindo, por exemplo, que as comunidades possam dizer “não” a projetos como a mineração em suas terras; apoiando e protegendo os defensores em risco e garantindo que a justiça seja feita para aqueles que sofrem com a violência.

Brasil lidera ranking de mortes de defensores da terra e do meio ambiente

Ben Leather, ativista sênior da Global Witness, disse:
“Ativistas locais estão sendo assassinados à medida que governos e empresas valorizam o lucro rápido sobre a vida humana. Muitos dos produtos com a origem nesse derramamento de sangue estão nas prateleiras de nossos supermercados. Comunidades corajosas enfrentam funcionários corruptos, indústrias destrutivas e devastação ambiental, e estão sendo brutalmente silenciadas. Basta.
“Governos, empresas e investidores têm o dever e o poder de apoiar e proteger os defensores em risco e garantir a responsabilização onde quer que os ataques ocorram. Mas o mais importante é que, antes de mais nada, eles possam evitar que essas ameaças surjam, ouvindo as comunidades locais, respeitando seus direitos e assegurando que os negócios sejam conduzidos com responsabilidade.
“Apesar das dificuldades que enfrenta, a comunidade global de defensores da terra e do meio ambiente não está desistindo – está ficando cada vez mais forte. Convidamos os consumidores a se unirem a nós em campanhas junto aos defensores, levando essa luta aos corredores do poder e às diretorias das corporações. Vamos garantir que suas vozes sejam ouvidas. E estaremos alerta para ajudar a garantir que eles, sua terra e o meio ambiente de que todos nós dependemos sejam devidamente protegidos.”
Outras constatações importantes incluem:
  • O Brasil contabilizou o pior ano registrado em todo o mundo, com 57 assassinatos em 2017.
  • 48 defensores foram mortos nas Filipinas em 2017 — o maior número já documentado em um país asiático.
  • 60% dos assassinatos registrados ocorreram na América Latina. O México e o Peru viram um salto nos assassinatos, de três para 15 e de dois para oito, respectivamente. A Nicarágua foi o pior lugar per capita, com 4 assassinatos.
  • Pela primeira vez, o agronegócio foi a indústria mais sangrenta, com pelo menos 46 assassinatos ligados ao setor. Os assassinatos ligados à mineração aumentaram de 33 para 40, e 23 assassinatos foram relacionados à exploração madeireira.
  • Enfrentar caçadores ilegais tornou-se ainda mais perigoso, com um recorde de 23 pessoas assassinadas por se posicionarem contra o comércio ilegal de animais selvagens — quase todas guardas florestais na África.
  • A Global Witness associou 53 dos assassinatos do ano passado a forças de segurança governamentais, e 90 a atores não estatais, como gangues criminosas.
  • Houve uma grande diminuição nos assassinatos de defensores da terra e do meio ambiente em Honduras, embora a repressão à sociedade civil em geral esteja pior do que nunca.
  • Nos últimos anos houve um aumento do reconhecimento e das ações tomadas por governos e empresas, mas muito mais precisa ser feito.
A campanha ganhou apoio de vários ativistas ambientais proeminentes, incluindo Yuri Herrera, Margaret Atwood, Lily Cole, George Monbiot, Ben Fogle, Paloma Faith e Martin Freeman.
Margaret Atwood, escritora disse:
“As comunidades que cuidaram e viveram da mesma terra por gerações estão sendo alvo de corporações e governos que querem apenas lucrar ao invés de apoiar o futuro das pessoas.
“As histórias assustadoras de mulheres ameaçadas de estupro, casas incendiadas e famílias atacadas com facões são chocantes em nível individual. Coletivamente, elas mostram uma epidemia de violência contra os defensores da terra. Esta violação dos direitos humanos exige protestos vigorosos. Neste ano foram essas pessoas; no próximo ano, todos aqueles que levantarem a mão para impedir esta depredação da natureza que visa ganhos a curto prazo.
“O relatório Global Witness mostra que até quatro defensores ambientais são mortos por semana protegendo suas terras, sua casa, seus meios de subsistência e suas comunidades. Precisamos aplaudir a coragem enorme que eles têm e nos empenhar em unir nossas vozes ao apoio contínuo dessa luta contra os que querem destruir suas terras para obter petróleo ou gás, derrubar suas árvores para obter madeira, desmatá-las para a agricultura intensiva não orgânica e poluente ou envenená-la com lixo industrial.”
Yuri Harrere, escritor disse:
“Se você se preocupa com o futuro de nosso planeta, com a preservação de nossa herança e dos habitats naturais que abrigam plantas e espécies raras, seja solidário com os defensores do meio ambiente que diariamente enfrentam perigos para proteger suas terras.
Este relatório da Global Witness mostra o nível chocante de violência que eles enfrentam – aqui no México e em todo o mundo. É preciso fazer mais a fim de proteger seus direitos humanos e levar à justiça aqueles que os violam de maneira cruel.”
George Monbiot, escritor e ativista ambiental disse:
“Os Defensores Ambientais estão na linha de frente de uma batalha geracional contra as mudanças climáticas. Nunca levaremos a sério a construção de um planeta mais verde, mais limpo e mais sustentável se não nos manifestarmos quando os governos e as grandes empresas trabalharem em estreita colaboração para tomar à força, desmantelar, perfurar e cultivar intensivamente terras que não são apenas vitais para a captura de carbono, mas também sustentam espécies raras de plantas e animais selvagens.
“A Global Witness e seus parceiros têm sido firmes na documentação da violência e dos assassinatos dirigidos a defensores da terra e do meio ambiente. Todos nós que nos preocupamos com os direitos humanos e a mudança climática devemos nos juntar a eles, não apenas somando nossas vozes à indignação, mas exigindo ações reais de governos e empresas para a proteção dos que defendem a terra e levando à justiça os criminosos que realizam esses ataques brutais.”
Paloma Faith, música e ativista disse:
“A brutalidade e a violência enfrentadas pelos Defensores do Meio Ambiente em todo o mundo diariamente são mesmo chocantes. E, no entanto, parece não haver consequências para muitos dos que realizam esses atos terríveis, mesmo quando alguém é morto tentando proteger sua terra ou seu modo de vida.
“Apesar do clamor internacional, ainda não vimos ninguém enfrentar a justiça pelo assassinato brutal da ativista Berta Cáceres, que foi baleada em 2016 durante uma campanha para impedir a construção da represa de Agua Zarca, no Rio Gualcarque, em Honduras. Como muitos dos que viram seus entes queridos serem assassinados na busca por um mundo mais limpo, mais justo e mais sustentável, sua família ainda luta para que aqueles que a atacaram sejam responsabilizados. Todos devemos unir nossas vozes nesta luta – e pressionar o governo hondurenho para garantir que o caso de Berta e as violações dos direitos humanos contra milhares de militantes no país sejam devidamente investigadas.”
Ben Fogle, radialista, escritor e ativista ambiental disse:
“Os defensores estão protegendo alguns dos mais importantes habitats críticos para o clima e biodiversos do mundo. Sejam as poucas florestas tropicais intactas que estão sendo atacadas por extração ilegal de madeira ou pela agricultura intensiva, sejam os rios poluídos por resíduos industriais ou a erosão causada pela mineração de terras, a corrida pela exploração de espaços ricos e naturais está tendo um péssimo impacto no meio ambiente.
“Essas comunidades que estão lutando para proteger suas terras, suas casas e seus meios de subsistência fazem parte de uma luta global para proteger nosso planeta. Eu aplaudo sua coragem e espero que mais pessoas se unam a mim em solidariedade nesta campanha.”
Lily Cole, atriz, modelo e ativista ambiental disse:
“O relatório da Global Witness mostra como nosso apetite insaciável por mais e diferentes produtos alimentícios, por combustíveis fósseis insustentáveis e por minerais está tornando a vida impossível para muitas comunidades que dependem da terra. Transformamos suas casas e bairros em mercadoria altamente valorizada para empresas e governos que colocam o lucro acima das pessoas.
“É hora de nos manifestarmos – e dizer para aqueles que veem a apreensão forçada de terras indígenas, ou as ameaças violentas às comunidades que fazem campanha contra a destruição de florestas, rios ou vastas planícies, que eles não podem mais escapar. Estaremos atentos para garantir que os produtos que chegam às nossas prateleiras não estejam banhados no sangue dos Defensores Ambientais e que as pessoas encontradas cometendo ou sendo cúmplices nos ataques enfrentem a força total da lei.”
Martin Freeman, ator, disse:
“O relatório da Global Witness nos lembra dos perigos enfrentados em todo o mundo por ativistas ambientais que enfrentam empresas ricas e poderosas, as quais são geralmente apoiadas por seus próprios governos. Esta batalha extremamente desequilibrada é em grande parte ignorada pela mídia, pelos líderes políticos e por aqueles de nós que têm o luxo de fazer campanhas por mudança em países onde a liberdade de expressão pode ser exercida.
“Para que possamos incentivar mudanças reais, devemos lembrar: a luta deles é a nossa luta. E até que todas as pessoas tenham proteção adequada, verdadeiro direito de governar o futuro de suas terras e acesso à justiça, continuaremos a protestar.”

At What Cost?: Defenders Annual Report 2017
At What Cost?: Defenders Annual Report 2017
*Para acessar ou fazer o download do relatório clique aqui


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/07/2018

CPT emite Nota de Repúdio à ‘reportagem’ da TV Band: quem de fato está devastando as margens do rio São Francisco?

Comissão Pastoral da Terra (CPT)

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) – CPT Nacional e Regional Minas Gerais – vêm a público repudiar e exigir direito de resposta à Band (Rádio e Televisão Bandeirantes S.A.) em face da reportagem da TV Bandeirantes veiculada às 20h do dia 19 de julho de 2018 e disponibilizada também em seu sítio eletrônico, sob o título “Grupos invadem terras e destroem vegetação perto do rio”, que criminaliza os Povos e Comunidades Tradicionais e esconde a verdade a respeito dos conflitos agrários e socioambientais que acontecem às margens do rio São Francisco, no norte de Minas Gerais.
Esta “reportagem” revela que o jornalismo da Band não entende nada sobre este tema e, ao se meter nele, está acintosamente a serviço dos ruralistas da região, usurpadores de terras públicas e os reais destruidores do chamado “rio da unidade nacional”. Na realidade a “reportagem” é uma propaganda disfarçada que mostra o compromisso do jornalismo da Band com os interesses de empreendimentos do agronegócio, que causam imensa devastação socioambiental e que não foram denunciados.
Já de início, a chamada da “reportagem” – “o processo de demarcação põe em risco o futuro do rio” – esconde a realidade para apoiar os latifundiários e empresários da região, que têm realizado ações para impedir a celebração do Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS) e outras ações de regularização fundiária entre as Comunidades Ribeirinhas e o poder público.
A bem da verdade, temos que informar que:
1) As Comunidades ribeirinhas com seus modos tradicionais de vida ocupam as margens do rio São Francisco, algumas há séculos. Vivem da pesca, do extrativismo e de pequenas áreas de plantio nas ilhas e vazantes, aproveitando a fertilização natural trazida pelas cheias do rio. Daí sua identificação como ribeirinhos, pescadores e vazanteiros, algumas também indígenas e quilombolas. Além da subsistência de suas famílias, produzem boa parte dos alimentos comercializados nas feiras da região e protegem as beiras do rio das quais depende este modo de vida. Para essas Comunidades “o Rio é Pai e Mãe”, e as margens, uma bênção. Logo, as Comunidades Ribeirinhas são as primeiras interessadas na sua preservação. Vale lembrar que neste ano umas das comunidades vazanteiras do Norte de Minas, dentre 5 casos no Brasil, recebeu o Prêmio BNDES de boas práticas para Sistemas Tradicionais, em parceria com a EMBRAPA. São “exemplos de convivência com a terra, amostras da genuína cultura do campo em que natureza e comunidades se misturam e se confundem num jeito de viver especial”, conforme publicou a EMBRAPA.
2) A partir dos anos 1970, com favorecimentos dos governos da ditadura civil-militar-empresarial, grandes projetos de irrigação se apoderaram destas áreas ribeirinhas. Entre eles o Jaíba, nos marcos do Projeto JICA (Agência de Cooperação Internacional do Japão), à época tido como o maior do mundo, em parceria com o capital japonês.
3) Neste processo, milhares de famílias tradicionais ocupantes, diante da violência de jagunços, foram expulsas, algumas resistiram, muitas alojaram-se nas ilhas e periferias das cidades. São estas ainda hoje numerosas e lutam pela garantia da posse das áreas que lhes dão os meios de vida, para o que precisam preservá-las.
4) Fazendas de gado e empresas de irrigação ocupam áreas da União – as áreas inundáveis às margens de rios nacionais são de propriedade da União – de forma ilegal, muitas mediante mecanismos de grilagem de terras. Assim, além de usar as vazantes para colocar o gado nos períodos de seca, têm acesso ilimitado às águas do rio São Francisco para irrigação.
5) A grande irrigação na Bacia do São Francisco é, comprovadamente, o maior consumidor de água, cerca de 70%. Por isso é o maior responsável pela evidente diminuição do volume de água do rio, um dos mais degradados do mundo.
6) Os responsáveis maiores pela supressão de matas ciliares são os latifundiários e empresários, não as comunidades ribeirinhas que delas dependem. Para induzir ao equívoco dos telespectadores, a “reportagem” mostra imagens aéreas de vegetação seca, sem revelar que se trata do período natural da estiagem. Nos espanta que o Cerrado, Bioma responsável por mais de 90% das águas do Velho Chico, venha sendo devorado pelas grandes plantações de eucalipto, algodão, soja e cana, dentre outras monoculturas, e isso nem ao menos tenha sido citado pela “reportagem”.
7) As comunidades ribeirinhas no uso do direito de autodefinição buscam a efetivação da Política Nacional e Estadual de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais instituída pelo Decreto n° 6.040/2007 e pela Lei Estadual n° 21.147 de 14 de janeiro de 2014. Lutam pela regularização de seu território tradicional, que constituem os espaços necessários à sua reprodução cultural, social e econômica, sejam eles utilizados de forma permanente ou temporária. Desta forma, parte das comunidades tem seus processos de regularização iniciados, diferentemente de latifundiários que ocupam e degradam áreas da União sem autorização nenhuma.
8) A ação da Superintendência do Patrimônio da União (SPU) tem por objetivo regularizar para proteger as terras públicas da União nas margens do rio São Francisco, rio federal, através da demarcação e aprovação de ocupações que as preservam. É dever da SPU demarcar os territórios tradicionais como prescreve a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) da ONU, da qual o Brasil é signatário, que determina que os direitos das Comunidades Tradicionais, após autor-reconhecimento, devem ser garantidos. A SPU, em Minas Gerais, planejou realizar seis audiências públicas em cidades à margem do rio São Francisco, mas todas elas foram canceladas em função das pressões e ameaças dos latifundiários do norte de Minas. O que revela que autoridades e funcionários da União e do Estado não estão isentos destas injunções escusas.
9) Os fazendeiros que aparecem na “reportagem” são lideranças dos ruralistas na região, latifundiários que ameaçam as comunidades, perseguem lideranças e agentes pastorais, buscam influenciar o Poder Judiciário, criam milícias armadas e estão envolvidos em crimes contra comunidades, movimentos sociais e o meio-ambiente. Como resultado de inquérito policial da Polícia Civil de Montes Claros, três fazendeiros estão foragidos e 12 pessoas presas, por planejar ataque e tentativa de assassinato a comunidade sem-terra. Segundo divulgado pela Polícia Civil, o ataque foi planejado no Sindicato Rural de Montes Claros, e 20 pistoleiros contratados pelos fazendeiros cometeram o crime. Armas foram apreendidas nas fazendas. Em 2014 Cleomar Rodrigues de Almeida, liderança que vivia com sua família em uma área de comodato, em Pedras de Maria da Cruz, foi assassinado por funcionário de um fazendeiro. Muitas lideranças populares na região estão ameaçadas e envolvidas em programas de defensores de direitos humanos.
10) Ruralistas influenciam ou mesmo controlam prefeitos e deputados da região, que juntos fazem campanha, como a chamada “Paz no Campo”, cujo intuito é impedir qualquer tentativa de regularização dos legítimos territórios das comunidades tradicionais ribeirinhas.
Como concessionária de um serviço público de comunicação, a TV Band tem por obrigação legal informar ao seu público, de modo isento e fiel, a verdade dos fatos. Como no presente caso descumpriu seu dever, acusando de forma leviana a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de apoiar ilegalidades que não existem, nós exigimos direito de resposta conforme garante a Lei 13.188/2015, para que a verdade dos fatos seja restabelecida e conhecida. E a luta legítima e fundamental das comunidades ribeirinhas do Norte de Minas Gerais e de todo o rio São Francisco seja apoiada e vitoriosa, a bem da dignidade humana e do Rio – suas águas, terras, matas e gentes – e do País.
Belo Horizonte / Goiânia, 24 de julho de 2018.
Coordenação da CPT Regional Minas Gerais
Diretoria e Coordenação Nacional Executiva da CPT Nacional

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/07/2018


EcoDebate - Edição 3.023 de 25 / julho / 2018


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

terça-feira, 24 de julho de 2018

Rios em aquecimento fazem uma contribuição marcante para os níveis globais de gases de efeito estufa

O aquecimento de rios e córregos pode estar contribuindo desproporcionalmente para a quantidade de gases do efeito estufa que aquecem o planeta, de acordo com um novo estudo – Globally, rivers and streams are important sources of carbon dioxide and methane, with small rivers contributing disproportionately relative to their size


University of Birmingham*
Muitos desses cursos de água com altos níveis de sedimentos finos e materiais orgânicos acumulados em seus leitos podem estar aumentando as emissões de gases de efeito estufa dos rios, bem como aumentando o risco de doenças transmissíveis e colocando a vida selvagem em risco.
A elevação das temperaturas dos rios é esperada globalmente por causa da mudança climática e isso será agravado pelo aumento da captação de água subterrânea fria que ajuda a reduzir as altas temperaturas no verão.
Pesquisadores da Universidade de Birmingham e da British Geological Survey descobriram que o aquecimento dos rios pode causar aumentos significativos na produção de dióxido de carbono e metano.
Publicando os resultados da Nature Communications, a comparação das potenciais emissões de gases de efeito estufa dos sedimentos de leito fluvial do Reino Unido mostra que a sensibilidade à temperatura varia com a geologia, matéria orgânica e tamanho do sedimento.
Espera-se que os aumentos de temperatura sejam particularmente importantes nos rios e riachos agrícolas de várzea, representando grandes áreas da Europa, América do Norte e Ásia.
A pesquisadora co-líder da Universidade de Birmingham, Sophie Comer-Warner, disse: “Nossas descobertas destacam o risco substancial de emissões futuras de gases de efeito estufa pelo aquecimento de rios, especialmente aqueles que são pequenos, mas possuem altas concentrações de matéria orgânica.
“Sob futuros cenários de aquecimento do clima e mudanças no uso da terra levando a mais matéria orgânica acabando em rios mais quentes, a emissão de gases de efeito estufa de tais cursos d’água pode aumentar desproporcionalmente em relação ao seu tamanho na paisagem.”
Os pequenos rios são conhecidos por apresentar as maiores taxas de emissões de gases de efeito estufa, com concentrações relativamente grandes de dióxido de carbono e metano encontrados em seus sedimentos. Tem havido pouca pesquisa prévia sobre a origem e alteração da composição desses sedimentos e como isso afeta a produção de gases de efeito estufa.
Paul Romeijn, co-autor, da Universidade de Birmingham, comentou: “Nossa comparação das potenciais emissões de gases de efeito estufa dos sedimentos fluviais do Reino Unido revelou níveis de dióxido de carbono e metano que foram especialmente criados em rios em vales, como o Rio Lambourn no Norte Wessex Downs, e em sedimentos ricos em pequenas partículas e matéria orgânica.
“Se levamos a sério a redução das emissões futuras dos rios sob o aquecimento climático, a atenção do manejo da terra precisa se concentrar na redução de sedimentos ricos em matéria orgânica e na diminuição da captação de água subterrânea.”
A localização dos rios de estudo e desenho experimental. um Mapa da Inglaterra e País de Gales, Reino Unido, mostrando a distribuição espacial dos aqüíferos de Arenito e Chalk do Triássico e os dois riachos de estudo (Rio Giz e Rio Lambourn) [Contém materiais do British Geological Survey Copyright NERC [2016] e gadm.org]. b Frasco de incubação usado para o experimento, incluindo uma representação da distribuição de sedimentos, água e headspace. c Configuração experimental com cada ponto representando um triplicado de repetições
A localização dos rios de estudo e desenho experimental. um Mapa da Inglaterra e País de Gales, Reino Unido, mostrando a distribuição espacial dos aqüíferos de Arenito e Chalk do Triássico e os dois riachos de estudo (Rio Giz e Rio Lambourn) [Contém materiais do British Geological Survey Copyright NERC [2016] e gadm.org]. b Frasco de incubação usado para o experimento, incluindo uma representação da distribuição de sedimentos e água. c Configuração experimental com cada ponto representando um triplicado de repetições
Referência:
Thermal sensitivity of CO2 and CH4 emissions varies with streambed sediment properties
Sophie A. Comer-Warner, Paul Romeijn, Daren C. Gooddy, Sami Ullah, Nicholas Kettridge, Benjamin Marchant, David M. Hannah & Stefan Krause
Nature Communicationsvolume 9, Article number: 2803 (2018)
http://dx.doi.org/10.1038/s41467-018-04756-x

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/07/2018


É necessária uma mudança urgente para regular o impacto nocivo dos produtos químicos no meio ambiente, alerta um novo estudo

Mudança urgente é necessária para regular os impactos ambientais de produtos químicos / Urgent change needed to regulate the environmental impacts of chemicals

  • Um estudo internacional identificou as questões mais importantes que os pesquisadores devem abordar para ajudar a proteger nosso planeta na próxima década
  • Produtos químicos liberados pela atividade humana; como dirigir carros, usar produtos de higiene pessoal e usar pesticidas, estão resultando em perda de biodiversidade, aumento de riscos naturais e ameaças à segurança alimentar, hídrica e energética
  • Pesquisa visa servir como um roteiro para os decisores políticos, reguladores, indústria e financiadores
The University of Sheffield*

Mudança urgente é necessária para regular os impactos ambientais de produtos químicos / Urgent change needed to regulate the environmental impacts of chemicals

Estudo internacional, envolvendo cientistas da Universidade de Sheffield, identificou as questões mais importantes que os pesquisadores devem abordar a fim de ajudar a proteger nosso planeta de produtos químicos na próxima década.
A pesquisa visa servir como um roteiro para os decisores políticos, reguladores, indústria e financiadores – definindo a agenda de pesquisa e pioneira em uma abordagem mais coordenada para a regulamentação de produtos químicos.
Os produtos químicos liberados pela atividade humana – como dirigir carros, usar produtos de higiene pessoal, tomar remédios e usar pesticidas – estão resultando em perda de biodiversidade, aumento de riscos naturais e ameaças à segurança alimentar, hídrica e energética.
A professora Lorraine Maltby, uma das principais autoras do estudo internacional do Departamento de Ciências Animais e Vegetais da Universidade de Sheffield, disse: “Até agora, a regulamentação de produtos químicos tem sido muito simplista. Os cientistas tendem a olhar para o impacto de um produto químico em uma única espécie em um laboratório, o que não explica a complexidade do mundo natural.
“Plantas e animais em ambientes naturais podem ser expostos a centenas de produtos químicos. Uma abordagem muito mais holística para avaliar os efeitos das combinações de produtos químicos e outros fatores sobre as comunidades ecológicas é necessária para proteger nosso mundo natural.
“Todos os dias o xampu que lavamos pelo ralo, os produtos de limpeza que usamos e as emissões de nossos carros têm um efeito complexo em nossa biodiversidade. O impacto ecológico dessa exposição pode variar devido à presença de outros estressores, por exemplo, temperatura elevada e a sensibilidade das plantas e animais expostos aos produtos químicos. ”
Ela acrescentou: “Nossa pesquisa realmente ajudará a concentrar o esforço científico nas questões que realmente importam e a informar as decisões sobre o tipo de investigações necessárias para atualizar as políticas e regulamentações ambientais”.
A pesquisa pioneira faz parte de um exercício de escaneamento de horizonte global muito maior, coordenado pela Sociedade de Toxicologia Ambiental e Química. Estudos semelhantes também estão sendo realizados na América do Norte, América Latina, África, Ásia e Australásia.
A equipe internacional de cientistas identificou 22 questões que precisam ser respondidas para preencher as lacunas de conhecimento mais urgentes. Eles incluem perguntas sobre quais substâncias químicas devemos estar mais preocupadas, onde os pontos críticos dos principais contaminantes estão em todo o mundo e como podemos desenvolver métodos para proteger a biodiversidade e os ecossistemas.
O professor Maltby disse: “Muitos produtos químicos, como pesticidas e remédios, obviamente têm um grande benefício para as pessoas, mas é importante considerar o custo ambiental também para obter um equilíbrio.
“Ao priorizar 22 perguntas, esperamos que os cientistas possam identificar quais produtos químicos devem ser atingidos primeiro e também as áreas mais vulneráveis.”
O Departamento de Ciências Animais e Vegetais da Universidade abriga uma das maiores comunidades de biólogos de organismos inteiros do Reino Unido. A pesquisa no departamento, que é usada para aprender e ensinar estudantes de Sheffield, abrange animais, plantas, seres humanos, micróbios, evolução e ecossistemas, em habitats que vão das regiões polares aos trópicos. Este trabalho visa lançar uma nova luz sobre os processos fundamentais que orientam os sistemas biológicos e ajudam a resolver problemas ambientais prementes.
Referência:
Van den Brink, P. J., Boxall, A. B., Maltby, L. , Brooks, B. W., Rudd, M. A., Backhaus, T. , Spurgeon, D. , Verougstraete, V. , Ajao, C. , Ankley, G. T., Apitz, S. E., Arnold, K. , Brodin, T. , Cañedo Argüelles, M. , Chapman, J. , Corrales, J. , Coutellec, M. , Fernandes, T. F., Fick, J. , Ford, A. T., Giménez Papiol, G. , Groh, K. J., Hutchinson, T. H., Kruger, H. , Kukkonen, J. V., Loutseti, S. , Marshall, S. , Muir, D. , Ortiz Santaliestra, M. E., Paul, K. B., Rico, A. , Rodea Palomares, I. , Römbke, J. , Rydberg, T. , Segner, H. , Smit, M. , van Gestel, C. A., Vighi, M. , Werner, I. , Zimmer, E. I. and van Wensem, J. (2018), Toward sustainable environmental quality: Priority research questions for Europe. Environ Toxicol Chem. . doi:10.1002/etc.4205
https://doi.org/10.1002/etc.4205

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/07/2018