Powered By Blogger

terça-feira, 31 de maio de 2016

EcoDebate - Edição 2.537 de 31/ maio / 2016

Fritjof Capra e os transgênicos, parte 6/6, Final, artigo de Roberto Naime

“Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]


 
Anda
31/05/2016EDIÇÃO 809
 
 
EDITORIAL ANDA
Gorila Harambe é o novo símbolo de luta contra as prisões denominadas zoológicos
CONTEÚDO ANDA
Caça a matriarcas ameaça população de elefantes e preservação de ecossistemas 
CONTEÚDO ANDA
Associação entre veganismo e forma física é um desserviço para animais e humanos 
BOA NOTÍCIA - SAMIRA MENEZES
Quando as tradições devem ser quebradas 
CONTEÚDO ANDA
Ativistas protestam contra o assassinato do gorila Harambe em zoológico 
INDIGNAÇÃO MUNDIAL
Abaixo-assinado pede que pais de menino que invadiu jaula de gorila sejam processados por negligência 
Heróis reais
 
"Depois de me tornar vegetariano, por princípios, considerando injusto ter que matar animais que teriam a vida toda pela frente para nos alimentarmos, pa..."
Ricardo Japinha
Baterista CPM22
+ LEIA MAIS
FaÃ?a  aqui sua doaÃ?Ã?o
R2PRO
HostGator
 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

" EU SOU SOFIA "

‘Eu Sou Sofia’

Unicef lança campanha em apoio às crianças que vivem em áreas de conflito. Objetivo é dar visibilidade à situação dessas crianças e arrecadar doações para ajudar a salvar a vida desses meninos e meninas e de outros milhões de crianças vulneráveis.
Por Redação da ONU Brasil –
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) lançou nesta segunda-feira (2) no Brasil a campanha ‘Eu Sou Sofia’. A iniciativa foi criada pelo UNICEF Suécia para dar visibilidade à situação de cerca de 250 milhões de crianças que vivem em países afetados por conflitos.
Além de chamar a atenção para a situação dramática vivida por essas crianças, a campanha pretende mobilizar as pessoas para que sejam doadoras do UNICEF e ajudem a salvar a vida desses meninos e meninas e de outros milhões de crianças vulneráveis.
As doações podem ser feitas por meio do site oficial da campanha:www.eusousofia.org.br
Quem é Sofia?
Sofia foi criada pelos animadores de 3D de filmes como Planeta dos Macacos e Avatar a partir de 500 imagens de crianças reais de países que enfrentam situações de emergência, como Sudão do Sul, Haiti, Somália, Ucrânia, Níger e Iêmen.
Ela representa órfãos, meninas e meninos forçados a deixar suas casas em função de conflitos, crianças desnutridas e sem acesso à educação. Seu nome, que em grego significa sabedoria, foi escolhido por ser comum a diversos idiomas em todo o mundo.
O elemento central da campanha, criada pela agência Eldeman Deportivo, é o video em que a menina Sofia conta histórias de crianças vulneráveis que ela representa e afirma ser o rosto de todas as crianças sobre as quais ninguém fala.
O trabalho do UNICEF para ajudar a melhorar a vida desses meninos e meninas é realizado em parceria com governos e organizações não governamentais e inclui levar água potável e alimentação para as comunidades afetadas, promover o acesso à educação e à saúde e oferecer tratamento psicológico a essas crianças.
Em janeiro deste ano, o UNICEF lançou um apelo global para arrecadar 2,8 bilhões de dólares que serão usados para suprir essas necessidades básicas e capacitar os governos desses países em conflito para prevenir novas emergências humanitárias no longo prazo.
Crianças em áreas de conflito
Aproximadamente uma em cada nove crianças do planeta vive hoje em zonas de conflito, o equivalente a cerca de 250 milhões de meninas e meninos.
Em 2015, crianças que viviam em países e áreas afetados por conflitos tinham o dobro de chance de morrer de doenças predominantemente evitáveis antes de completar 5 anos de idade do que crianças em outros países.
É preciso levar em conta, ainda, que, nesses países em conflito, a coleta de dados sobre essas realidades é extremamente difícil. Esses números, portanto, podem não refletir adequadamente a amplitude e gravidade da situação. (ONU Brasil/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site ONU Brasil.

ONU Mulheres divulga nota pública sobre estupros coletivos

Um dos casos aconteceu no Rio de Janeiro, em que uma adolescente foi violada por mais de 30 homens. O outro ocorreu em Bom Jesus (PI), com a vítima sendo atacada sexualmente por cinco homens.
por ONU Mulheres
A ONU Mulheres Brasil divulgou uma nota pública na noite desta quinta-feira (26) se solidarizando com as duas adolescentes vítimas de estupro coletivo. Um dos casos aconteceu no Rio de Janeiro, em que uma adolescente foi violada por mais de 30 homens. O outro ocorreu em Bom Jesus (PI), com a vítima sendo atacada sexualmente por cinco homens.
No comunicado, a ONU Mulheres solicitou aos poderes públicos dos estados do Rio de Janeiro e do Piauí que seja incorporada a perspectiva de gênero na investigação, processo e julgamento de tais casos “para acesso à justiça e reparação às vítimas, evitando a sua revitimização”.
Confira o comunicado na íntegra abaixo:
Nota pública da ONU Mulheres Brasil sobre estupros coletivosonumulheresbr
“A ONU Mulheres Brasil se solidariza com as duas adolescentes vítimas de estupro coletivo: uma, no Rio de Janeiro, violada por mais de 30 homens, e outra, em Bom Jesus (PI), vitimada por cinco homens. Além de serem mulheres jovens, tais casos bárbaros se assemelham pelo fato de as duas adolescentes terem sido atraídas pelos algozes em tramas premeditadas e terem sido violentamente atacadas num contexto de uso de drogas ilícitas.
Nesse sentido, a ONU Mulheres solicita aos poderes públicos dos estados do Rio de Janeiro e do Piauí que seja incorporada a perspectiva de gênero na investigação, processo e julgamento de tais casos, para acesso à justiça e reparação às vítimas, evitando a sua revitimização.
Alerta, ainda, que uma das formas com que a revitimização se dá é pela exposição social da vítima e dos crimes, incluindo imagens e vídeos em redes sociais e demais meios de comunicação, em ações de violação do respeito e da dignidade das vítimas, entre eles a falta de privacidade, a culpabilização e os julgamentos morais baseados em preconceitos e discriminações sexistas.
Como crime hediondo, o estupro e suas consequências não podem ser tolerados nem justificados sob pena do comprometimento da saúde física e emocional das mulheres, às quais devem dispor de todas as condições para evitar a extensão do sofrimento das violências perpetradas.
Deste modo, urge o pleno atendimento da Lei 12.845/2013 de atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual, com profilaxia de gravidez e antirretrovirais, em consonância com normativas internacionais, a exemplo da Declaração sobre a Eliminação das Nações Unidas sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres.
Por fim, a ONU Mulheres reforça a necessidade de garantia e fortalecimento da rede de atendimento a mulheres em situação de violência e de órgãos de políticas para as mulheres e profissionais especializadas e especializados em gênero em todas as esferas governamentais, para o pleno atendimento às vítimas, primando pelo cumprimento de protocolos, pela celeridade e pela humanização nos procedimentos de saúde, psicossocial e justiça em todas as etapas do atendimento às vítimas e seus familiares, assim como a rigorosa punição dos agressores.
À sociedade brasileira, a ONU Mulheres pede a tolerância zero a todas as formas de violência contra as mulheres e a sua banalização.”
Nadine Gasman
Representante da ONU Mulheres Brasil

“DE OLHO NOS RURALISTAS” inicia campanha de arrecadação

Observatório jornalístico terá um programa de webTV, oficinas e um site sobre os impactos sociais e ambientais do agronegócio no Brasil
De Olho nos Ruralistas – um observatório do agronegócio no Brasil – inicia nesta semana uma campanha de financiamento coletivo para a realização de um programa jornalístico de webTV e de um site com notícias diárias. O projeto parte da constatação de que a existência de um veículo independente é fundamental para resistir aos interesses dos ruralistas e de sua bancada no Congresso.
A ênfase será nos impactos sociais e ambientais do agronegócio. Do desmatamento à expulsão de camponeses, da comida com agrotóxicos à violação de direitos dos povos indígenas. Quais as consequências de um modelo que se vangloria de sua participação no PIB e consegue eleger a bancada mais representativa do Congresso, a bancada ruralista?
O De Olho será um programa de webTV quinzenal (ou semanal, conforme o volume de doações) em que pesquisadores, jornalistas, participantes de movimentos sociais e organizações não-governamentais vão comentar e analisar as últimas notícias sobre o impacto do agronegócio.
Fazer um jornalismo crítico sobre a questão agrária é também a proposta do site: uma alternativa à imprensa que defende o agronegócio como se não houvesse outro modelo possível -– da agroecologia ao uso compartilhado de terras. Com notícias, reportagens e artigos para se pensar outro país, com agricultura familiar, demarcação de terras de populações tradicionais e sem a violência da grilagem e da concentração de terras.
Os temas do site são:
De Olho na Comida – Agroecologia, comida orgânica, alternativas ao modelo industrializado de produção de alimentos. O agronegócio chama agrotóxico de “defensivo agrícola”. Não. É veneno. E mata.
De Olho no Ambiente – O agronegócio destrói biomas. A Amazônia, o cerrado, a caatinga, os campos. Consome a maior parte da água. Acelera as mudanças climáticas. Não se pode falar no aquecimento global como se ele ocorresse à margem desse modelo econômico. A imprensa fala de bancada ruralista, mas não da bancada socioambiental. Porque nosso sistema político é ruralista.
De Olho nos Conflitos – A política do agronegócio perpetua a desigualdade. Ameaça, despeja, assassina camponeses e povos indígenas e destrói comunidades para se apoderar de terras. A reforma agrária é tratada, no Brasil, como se fosse um bicho papão e não uma reforma capitalista. Somos o país dos massacres no campo e da pilhagem de terras. E precisamos falar nisso.
De Olho no Agronegócio – A movimentação das empresas (das usinas, dos frigoríficos, dos grandes exportadores de grãos, de cana, de laranja) e de suas interfaces no Congresso: os políticos ruralistas. Fiscalizar o poder político e econômico é tarefa fundamental dos jornalistas.
A campanha de arrecadação começou no dia 19 de maio e se encerra dia 20 de julho. A meta mínima é arrecadar R$ 72 mil. Com esses recursos, será realizado um programa quinzenal de webTV por seis meses, entre julho de 2016 e janeiro de 2017, e uma página na internet. Além de uma oficina, em dezembro, sobre imprensa e questão agrária.
No caso de se atingir metas maiores serão realizadas outras oficinas, com temas como alimentação e ambiente. A meta maior prevê um programa de webTV semanal, em vez de quinzenal.
As recompensas aos doadores serão roteiros do programa, com os links para as notícias, debatidas; descontos em livros da Editora Contexto; livros autografados; oficinas sobre imprensa e os temas do projeto (questão agrária, alimentação, ambiente); newsletters diárias.
De Olho nos Ruralistas tem em sua equipe os jornalistas Alceu Castilho (autor do livro “Partido da Terra – como os políticos conquistam o território brasileiro”; Editora Contexto, 2012), Patrícia Cornils (documentarista, autora do documentário “Querida Mãe”, 2010) e Gabriela Leite (editora de vídeos, designer e fotógrafa), com transmissão da TV Drone e em parceria com o projeto Outras Palavras.
A veiculação de notícias sobre alternativas ao agronegócio e a desconstrução de discursos convenientes ao poder econômico são necessárias para um exercício efetivo da cidadania. Viabilizar esse tipo de jornalismo significa participar da construção de outro país, de outro olhar para o nosso território e nossos recursos – que pertencem a todos. Contribua!
Site da campanha de arrecadação: http://migre.me/tQAoB
Twitter: @deolhonoagro
Telefones para contato:
Alceu Castilho: (11) 9 9304 1183
Patricia Cornils: (11) 9 8372 7473

Na saúde, alguns avanços e ainda muito por fazer

por Washington Novaes*
Tem estado farto nas últimas semanas o noticiário de jornais e da televisão sobre dramas brasileiros em matéria de saúde, especialmente sobre as carências que enfrentam 75% das pessoas (mais de 150 milhões) que dependem dos serviços públicos na área. Segundo o Conselho Federal de Medicina, nada menos que 23.565 leitos exclusivos do Sistema Único de Saúde (SUS) deixaram de existir entre dezembro de 2010 e dezembro de 2015 – média de 13 leitos por dia. No mesmo período, a rede privada de leitos aumentou 2.210 (O Popular, 18/5). E as maiores reduções ocorreram em alguns dos setores em que a demanda é maior: redes de obstetrícia, psiquiatria, pediatria cirúrgica e cirurgia em geral.
Na rede de 335,5 mil leitos, as maiores perdas aconteceram no Nordeste, onde são maiores as carências – lembrando que apenas 50Saúde5 municípios brasileiros entre os 5.570 dispõem de UTIs. O novo ministro da Saúde chegou a dizer (Folha de S.Paulo, 17/5) que em algum momento o País não conseguirá mais sustentar os direitos que a Constituição garante – como o acesso universal à saúde – e que será preciso repensá-los. Teríamos de “repactuar, como aconteceu na Grécia, que cortou as aposentadorias, e em outros países que tiveram de redefinir as obrigações”, porque não há capacidade suficiente que permita suprir todas as garantias constitucionais. Já há até um grupo de trabalho que estuda mudanças na legislação sobre idade mínima para aposentadoria (que passaria para 65 anos).
Felizmente, o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, garantiu poucos dias depois (Estado, 21/5) que o governo não estuda modificações em direitos dos trabalhadores. Mas o ministro da Fazenda admitiu que 65 anos seriam uma boa idade mínima para aposentadorias. E o Superior Tribunal de Justiça informou que vai decidir (Migalhas, 23/5) se é válido um aumento da mensalidade do plano de saúde por faixa etária do usuário.
Adversários de mudanças que atinjam os usuários argumentam que a União tem reduzido os recursos para o sistema de saúde. Em 1992, o governo federal entrou com 72% do total, os Estados com 12% e os municípios com 16%. Em 2013 já foi para 43% a parcela da União, 25% a dos Estados e 32% a dos municípios. O País gasta na área apenas 4,5% do seu Produto Interno Bruto (PIB), apesar das fortes carências, enquanto a Noruega, com muito menos problemas, usa 9,7% e a Grã-Bretanha, 9,1%. A saúde gastou R$ 1,2 bilhão na Justiça em 2015, provavelmente por não atender a toda a demanda. Agora, fala-se em limitar as despesas na área aos índices inflacionários máximos (FP, 25/5).
Há outros números sobre a mesa. O Sudeste e o Sul do País dispõem de 154 especialistas em várias áreas por 1 mil habitantes; o Norte, três vezes menos. No conjunto do País, são 119 por 1 mil; no Norte, 50; no Sul, 145; no Centro-Oeste, 134; no Nordeste, 68; no Distrito Federal, 275 (saúde.gov.br, 29/4). São números que evidenciam a desigualdade de atendimento por habitante, da mesma forma que os números nacionais por especialidade: 7 anestesiologistas por 1 mil; 6 obstetras por 1 mil; e 4,5 psiquiatras por 1 mil.
Em algumas áreas, continuam a ser altos os números de doentes por área – embora a incidência de tuberculose no País tenha caído 20,2% em uma década, de 38,7 casos para cada 100 mil habitantes, em 2006, para 30,9, em 2015, e em 2015 ainda tenham ocorrido 63.189 casos novos (foram 72.213 em 2006).
Com frequência, especialistas no setor argumentam que o governo federal tem critérios muito diferentes – e injustos – quando se comparam os gastos na saúde em geral com os benefícios destinados ao setor empresarial, que estão em R$ 270 bilhões/ano – quase 10 vezes os gastos com o Bolsa Família e mais que o dobro do déficit primário da União (Estado), de R$ 120 bilhões. Os benefícios ao setor empresarial incluem subsídios, desonerações e regimes tributários diferenciados para portos, indústrias químicas, setor do petróleo, fabricantes de equipamentos, agronegócio e agricultura em geral, entre outros. Os benefícios em geral para todos os setores, públicos e privados, equivalem a R$ 385 bilhões (Fundação Getúlio Vargas, maio).
Merece um capítulo à parte a questão de mortes prematuras por causa da degradação ambiental, que, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma, 23/5), é uma “grave ameaça para a saúde pública global”. A contaminação do ar, o clima, resíduos de produtos químicos, microplásticos, enfermidades transmitidas por animais e outras “são um perigo para a saúde humana”. Provocam 230 vezes mais mortes prematuras que os conflitos armados a cada ano. E o impacto ambiental pode levar à morte um quarto das crianças que falecem antes dos 5 anos de idade.
Diz Achim Steiner, do Pnuma, que em 2012 foram 12,6 milhões de mortes por causas ambientais – 23% do total, das quais 28% no Sudeste da Ásia, 23% na África Subsaariana, 22% no Mediterrâneo Oriental, 11% entre os membros da OCDE e 15% nas Américas. Os dados sobre as causas de morte são muito fortes: contaminação do ar, 7 milhões de pessoas por ano; falta de água potável e de saneamento, 842 mil mortes anuais; diarreias, terceira maior causa de morte entre crianças de até 5 anos; 4,1 milhões de feridos em desastres climáticos; 107 mil mortes por ano pela exposição ao amianto e 645 mil, ao chumbo.
O relatório informa, ainda, que a retirada de circulação de quase 100 substâncias que afetam a camada de ozônio pode evitar 2 milhões de casos de câncer de pele e muitos milhões de cataratas oculares até 2030. A eliminação do chumbo da gasolina pode trazer benefícios de US$ 2,45 bilhões por ano (4% do PIB) e evitar 1 milhão de mortes prematuras por ano. A redução do metano e do carbono na atmosfera pode significar 2,4 milhões de vidas poupadas até 2030.
São dados impressionantes. Mostram o quanto ainda precisamos a avançar – e quão pouco fazemos em tantas áreas.
*Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br
Originalmente publicado em O Estado de S.Paulo

Clima: Acordo pode entrar em vigor já em 2017

do Observatório do Clima
Reunião de negociação do Acordo de Paris termina na Alemanha com perspectiva de antecipação
em três anos do novo pacto climático global; florestas ressurgem como tema importanteDO OC
sorveteO Acordo de Paris pode entrar em vigor em 2017, três anos antes do prazo oficial. A informação foi dada nesta quinta-feira em Bonn pela chefe do clima das Nações Unidas, Christiana Figueres, durante o encerramento da primeira rodada de negociação climática após a conferência de Paris.
Segundo Figueres, “o renovado compromisso político simbolizado pelas 177 assinaturas e pelas 17 ratificações significa que [o acordo do clima] pode entrar em vigor já no ano que vem”.
O impacto de uma entrada em vigor antecipada foi um dos principais debates nos corredores do encontro de Bonn, que teve como finalidade discutir outra agenda – a elaboração da regulamentação do novo tratado climático, que deve ser adotada na COP22, a conferência do clima de Marrakesh, em novembro.
A manutenção neste ano do impulso político que levou ao sucesso da conferência de Paris, no ano passado, deu o tom da negociação. Com a maioria dos grandes emissores do mundo (inclusive o Brasil) prometendo para este ano a ratificação do tratado, a marca dos 55 países, que juntos representem 55% das emissões mundiais – condição para sua entrada em vigor – deve ser atingida logo.
Isso torna o trabalho de regulamentação mais urgente: os países precisam acordar em Marrakesh todo o manual de operação do novo regime de clima, já que o que se esperava para 2020 deve começar a operar em 2017.
Há dez temas centrais na agenda (adaptação, mitigação, financiamento, capacitação, transparência de ações e de apoio, transferência de tecnologia, a revisão global da ambição, o cumprimento, as abordagens cooperativas – nas quais se insere o tema de florestas – e a ambição pré-2020). Em alguns deles, como a eterna questão do financiamento e o mecanismo de transparência, há muito espaço para divergência entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. “Há muito trabalho pela frente”, disse o embaixador marroquino Aziz Mekhouar, anfitrião da COP22.
Mas os negociadores saem de Bonn com um otimismo incomum para uma reunião desse tipo. “Há uma vontade generalizada de ter o acordo entrando em força antecipadamente”, disse a enviada especial da França para mudanças climáticas, Laurence Tubiana.
Nem mesmo o fantasma da eleição americana, com a possibilidade (remota, mas real) do negacionista do clima Donald Trump ganhar a Casa Branca em outubro, parece ter abalado os negociadores. Trump tem dito que, caso ganhasse a eleição, iria “no mínimo renegociar” o acordo do clima. “As partes estão calmas por causa da filosofia do acordo, que é baseado em decisões nacionais”, disse Tubiana. “É claro que todo mundo quer os EUA dentro, mas isso não vai desviar a orientação que os países já adotaram. Ninguém está falando para esperarmos para ver o que vai acontecer [na eleição americana]. Para mim isso foi uma das grandes surpresas deste semestre.”
Segundo a embaixadora francesa, houve progresso em Bonn num tema caríssimo ao Brasil: a questão da recomposição e regeneração de florestas. Tubiana não entrou em detalhes, mas afirmou que há espaço para “uma boa decisão” sobre o tema em Marrakesh. “Sabemos que não teremos capacidade de absorver CO2 da atmosfera se não melhorarmos o estado das florestas”, disse.
Também avançou no encontro na antiga capital alemã a participação da ciência no chamado Diálogo Facilitador Global, em 2018, quando será feita a primeira avaliação agregada dos compromissos com vistas a aumentar a ambição das metas nacionais, as chamadas INDCs. O IPCC, o painel do clima da ONU, marcou para setembro do ano que vem a entrega de seu aguardado relatório sobre o impacto de um aquecimento de 1,5oC – a meta “aspiracional” do Acordo de Paris.
“Marrakesh precisa assegurar que o caminho seja traçado para que o diálogo facilitador de 2018 possa aumentar a ambição de forma a limitar o aquecimento global a 1,5oC”, disse Tina Johnson, diretora de Políticas Públicas da Climate Action Network nos EUA.