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domingo, 20 de junho de 2010

Só pros ‘amantes das causas perdidas’ - Ana Echevenguá

Pra alegrar esse domingo frio, cinzento e chuvoso, estou ouvindo Engenheiros do Hawai. Alguém conhece “Dom Quixote”, composta por Humberto Gessinger, em 2003? E que fez parte do disco ‘Dançando no Campo Minado’?

“Muito prazer me chamam de otário Por amor às causas perdidas. Tudo bem, até pode ser Que os dragões sejam moinhos de vento Tudo bem, seja o que for Seja por amor às causas perdidas.”

Ouvindo esta poesia, senti vontade de criar, no Orkut, a comunidade dos ‘amantes das causas perdidas’. Gente boa, que luta pelo meio ambiente ecologicamente equilibrado, que insiste em cumprir o que manda a Constituição Federal...

Alias, a nossa Constituição é uma causa ‘quase’ perdida. Por eleger a vida, até dos que estão por nascer, como garantia fundamental, e por garantir alguns direitos aos pobres mortais, vai ser dizimada. Ou melhor, ‘enxugada’! Leiam a PEC 341/2009, cuja movimentação pode ser acompanhada no website da Câmara dos Deputados1.

Buenas, enquanto a Copa do Mundo aliena, os ‘amantes das causas perdidas’ acompanham o desenrolar da invasão do Seu Eike-OSX em Santa Catarina. Parecem favas contadas! Em março de 2010, o Ministério Público Federal em Santa Catarina recomendou à FATMA -Fundação do Meio Ambiente - que saísse do processo de licenciamento; porque se trata de competência do IBAMA.

Até agora, a FATMA não largou a papelada!

O ICMBio - Instituto Chico Mendes – disse ‘não’ ao projeto, porque o estaleiro vai impactar negativamente 3 unidades de conservação ambiental localizadas na área de instalação.

Mas o DC marrom já publicou o aviso do Seu Eike-OSX: ele vai buscar socorro em Brasília! E na mesma matéria, ficamos sabendo que o atual governador de SC solicitou ao Ibama “que o licenciamento da OSX fique apenas com a Fatma” 2.

Por quê? Por que a FATMA é um órgão público de fachada, dirigido pelos indicados pelos governantes? Ou será que isso tem algo a ver com a doação oficial de 25 milhões do Seu Eike-OSX aos cofres de Santa Catarina? Pra fazer um jardim botânico em Floripa?

Com doação oficial ou não, os ‘amantes das causas perdidas’ conhecem a postura ilegal e/ou criminosa da FATMA. Há inúmeros processos contra este órgão, em especial por expedição de licenciamentos ambientais irregulares. Vários servidores são acusados de improbidade administrativa.

Segundo o Procurador da República Walmor Alves Moreira, a FATMA é uma “entidade doente”.

Ora, a FATMA é doente porque vivemos numa sociedade doente. Numa sociedade de foras-da-lei. Ou que permite que os eleitos mudem a lei, para facilitar a vida de uma minoria.

Por força desta alienação reinante, preferimos nos omitir diante da ilegalidade corriqueira.

Afinal, o que importa é a Copa do Mundo! E o enriquecimento do mercado chinês, com a exportação de vuvuzelas.

1 - http://www.camara.gov.br/internet/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=427473
2 - http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2940308.xml&template=3898.dwt&edition=14908§ion=129
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FONTE : Ana Echevenguá, advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente do Instituto Eco&Ação e da Academia Livre das Água.

Jeito de fazer em vez de desculpas por não ter feito

Já está disponível a Revista do Meio Ambiente de junho de 2010. Veja abaixo editorial e índice da edição.

Editorial

O mundo, como nossos pais e avós e nós próprios, adultos, conhecemos, mudou. As escolhas das gerações que nos antecederam, da era pós-industrial, aqueceram o planeta e as conseqüências desse aquecimento já começam a ser sentidos por todo o planeta, inclusive no Brasil. Além de tentar mitigar os problemas, precisamos também nos adaptar a esta nova realidade de um planeta mais aquecido, cuja tendência será aquecer ainda mais. E entre as conseqüências já previstas para as próximas décadas, o aumento do nível dos oceanos está entre os maiores danos à infra-estrutura urbana e rural nas cidades litorâneas.

Para fazer uma educação ambiental que seja compreendida por todos, precisamos antes perceber que não é por falta de conhecimento ambiental que as árvores são derrubadas, a fauna sacrificada ou o meio ambiente poluído. Os caçadores e desmatadores, por exemplo, possuem muito mais co­nhecimentos sobre ecologia, natureza e a vida sil­vestre que muitos ecologistas, mas usam esses conhecimentos para destruir e ma­tar.

O problema é que não nos achamos como parte da natureza, por mais esdrúxula que essa idéia possa parecer. As pessoas possuem consciência ambiental, mas na maioria dos casos, esta consciência é distorcida, associando a natureza às plantas e animais, como se a espécie humana não fizesse também parte dela. Conceitualmente, nós, seres humanos, nos achamos os ‘donos’ do universo e nos colocamos em seu centro, como se tudo à nossa volta existisse para nos atender. Então, se aceita como natural a exploração deste mesmo universo, com tudo que o compõe, desde que seja para atender aos propósitos e desejos humanos. A visão de que o Planeta não nos pertence, que nós é que pertencemos ao Planeta não tem cabimento numa sociedade baseada no consumismo e, por isso mesmo, no materialismo, que valoriza o ter em vez do ser! O meio ambiente destruído não resulta de um conflito entre os humanos e a natureza, mas dos humanos com a sua auto-imagem.

E mais. Ao desmatar, queimar, poluir, uti­lizar ou desperdiçar re­cursos naturais ou energéticos, cada ser humano também está reproduzindo culturalmente o que aprendeu ao longo da história e cultura de seu povo. A ação destruidora não é um ato isolado de um ou outro indivíduo, mas reflete as relações culturais, sociais e tecnológicas de sua socie­dade. Seres humanos explorados, in­justiçados e desrespeitados em seus direitos, acham natural explorar outros seres vivos, como animais e plan­tas, considera­dos ‘inferiores’.

Falar sobre meio ambiente, principalmente para pessoas de baixa-renda, é falar sobre o es­goto a céu aberto, o lixo não recolhido, a água con­taminada, etc. As questões ecológicas devem ser associadas à qualidade de vida, para que as pessoas se percebam como parte deste meio ambiente. Por mais sério que seja ninguém consegue ter a sen­sação de im­portância por uma coisa abstrata, fora de sua reali­dade. Antes de se importar com a sobrevivência das outras espé­cies, a pessoa precisa es­tar consciente de sua própria importân­cia, sua capacidade de interferir no meio ambiente e de agir como cidadão.

Ghandi afirmava que “Só existem dois dias do ano em que não podemos fazer nada. O ontem e o amanhã”. Então, é só querer arranjar um jeito para fazer em vez de continuando a procurar por desculpas para não fazer.

* Vilmar é escritor e jornalista, editor da Revista e do Portal do Meio Ambiente. Mais informações: www.escritorvilmarberna.com.br

Índice

E se o desastre ocorresse no Brasil? - Por Maurício Green e Carlos Boeck

Nosso país em alerta - Por Rafael Rosas

Será mesmo o Katrina de Obama? - Por Mauro Kahn

Nigéria sofre um vazamento por ano - Por Luiz Prado

Revestimento sustentável para telhados

Poste gera energia eólica e solar

39% da população sem saneamento

Maiores cidades só tratam 36% do esgoto

Incentivo para municípios que ecologizam

Brasil é o maior destruidor ambiental

População mundial ultrapassa os 7 bi

Em defesa do meio ambiente

O problema do lixo no Rio

Para que serve o Dia do Meio Ambiente?

O câncer ganha espaço

Voltando ao planejamento

O ecossocialismo e a crise ecológica

Relatório de Rebelo é genérico e equivocado

Conama libera agricultura familiar em APPs

Juiz federal extingue parque nacional

X Encontro Verde das Américas

Desmatamento da Mata Atlântica em queda

Onde procurar a felicidade

Como criar habitats na escola

Gurgel: um brasileiro de vanguarda

Amigos do planeta: reciclagem

Ganhar distância para ver melhor

Guia do meio ambiente

Para ler online acesse - http://www.portaldomeioambiente.org.br/revista.html

Para assinar acesse - http://www.portaldomeioambiente.org.br/revista/como-assinar.html
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FONTE : Vilmar Sidnei Demamam Berna, Vilmar é escritor e jornalista, editor da Revista e do Portal do Meio Ambiente (Envolverde/Revista do Meio Ambiente).

sábado, 19 de junho de 2010

DESENCANTO - José Saramago

"Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade.

Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem aconstruir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo."
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FONTE : O Caderno de Saramago

O que está em jogo no acordo energético Brasil-Peru?

O pacto energético que acabam de firmar Brasil e Peru, em Manaus, nasce com rejeições de populações indígenas peruanas onde serão construídas as centrais hidrelétricas projetadas. O que está em jogo? O Peru ainda não calculou quanto seu mercado interno usará da energia procedente das hidrelétricas que serão erguidas na Amazônia desse país em razão do acordo assinado no dia 16, entre o presidente Alan García e seu anfitrião, Luiz Inácio Lula da silva.

Entretanto, o Peru se compromete a entregar uma porcentagem permanente de eletricidade ao Brasil por 30 anos. E se quiser denunciar o que foi acordado só poderá fazê-lo após ter transcorrido a metade desse prazo, informou à IPS o vice-ministro de Energia do Peru, Daniel Cámac.

“Que sentido tem assinar um acordo sem determinar se é o que precisamos como país. Por que não fazemos os estudos antes de assumir compromissos dos quais não podemos nos arrepender?”, perguntou o advogado César Gamboa, diretor da organização não governamental Direito, Ambiente e Recursos Naturais (DAR). Cámac respondeu que, para fazer esse cálculo, é necessária “uma análise mais ampla” e, portanto, “se trabalhará projeto por projeto para saber quanto se necessita”.

O acordo, que começou a ser negociado em 2006, projeta gera seis mil megawatts com a construção de geradoras em território peruano que, segundo a versão oficial, priorizarão o abastecimento interno e permitirão vender o excedente ao Brasil. Mas o engenheiro Alfredo Novoa, diretor da organização não governamental ProNatureza, assegurou à IPS que “o Peru não precisa de projetos energéticos na Amazônia para atender sua demanda. Existe um potencial de 22 mil megawatts nos Andes e outros milhares na costa. Para que mais?”, questionou.

Este país possui uma capacidade instalada superior a seis mil megawatts de diversas fontes que cobrem sem sobressaltos a demanda atual. E a projeção é de que necessitará de outros 12 mil megawatts até 2020 e, cerca de 20 mil megawatts para 2050. Por sua vez, o “Brasil, uma potência emergente, terá uma demanda projetada de 174 mil megawatts até 2030”, insistiu Novoa.

Para Cámac, o Peru poderia precisar de mais energia do que indicam essas estimativas. Em 20 anos, a demanda poderá chegar a 25 mil megawatts, afirmou. “Com o acordo, abre-se um mercado de integração, e depois serão feitos os estudos para encontrar um equilíbrio econômico entre os dois países”, acrescentou.

De acordo com a explicação do vice-ministro, em cada central hidrelétrica será estabelecida uma porcentagem fixa por 30 anos para a venda de energia ao Brasil, que ainda não se sabe a quanto chegará. Em julho de 2009, a proposta estabelecida indicava 80% para o Brasil e 20% para o Peru nos primeiros dez anos. Mas, diante dos protestos peruanos, os números foram retirados do acordo e serão discutidos em negociações a portas fechadas.

O vice-ministro disse que tampouco se sabe quantas geradoras serão construídas, nem em quais lugares. “Inclusive, poderiam ser nos Andes ou na Amazônia”, assegurou à IPS. Mas o próprio Cámac já assinalara em fóruns públicos uma relação de possíveis projetos na selva para vender energia ao Brasil, como a IPS verificou em dois arquivos com apresentações em PowerPoint elaboradas por um funcionário.

Em uma exposição, em maio de 2009, para um seminário internacional, o vice-ministro colocou no pacote de oferta dois controvertidos projetos. Um é o do Rio Inambari, nos limites amazônicos das regiões Cusco, Madre de Dios e Puno, no sudeste do país, que se converteria na maior hidrelétrica do Peru e a quinta em tamanho da América Latina. O outro é o projeto Paquitzapango, no Rio Ene, do departamento de Junín, onde se concentra a população indígena asháninka.

De acordo com Gamboa, há outros três planos no Ministério de Energia: Mainiqui 1, em Cusco, e Tambo 40 e Tambo 60, em Junín. Para os cinco projetos, calcula-se investimento entre US$ 13,5 bilhões e US$ 16,5 bilhões. As represas das centrais poderiam forçar o deslocamento de mais de quatro mil pessoas em Inambari, entre indígenas e mestiços, e até dez mil em Paquitzapango, a maioria asháninkas, povo que sofreu o deslocamento no conflito armado interno peruano (1980-2000).

O livro “Amazônia Peruana em 2021”, de Marc Dourojeanni, Alberto Barandiarán e Diego Dourojeanni, afirma que Inambari pode causar um grande impacto no ecossistema da selva por causa da represa artificial que armazenará a água da hidrelétrica. Isto elevará a emissão peruana de gases-estufa em 5,9%. “Há custos sociais e ambientais que não estão considerados. O governo tenta diluir os casos pontuais e insistir em afirmar que se trata de cooperação, quando, na realidade, é uma negociação desigual”, disse Gamboa.

As empresas encarregadas dos dois projetos principais são de capital brasileiro, mediante concessões temporárias que seriam concedidas amparadas no tratado. O plano Inambari está nas mãos do consórcio Egasur, formado pelas empresas brasileiras OAS e a estatal Eletrobrás Furnas. A concessão para Paquitzapango está com a Paquitzapango Energia SAC, que tem por trás a poderosa organização Odebrecht, assegurou a advogada da Central Asháninka do Rio Ene (Care), Iris Olivera.

Em maio, o gerente de projetos da Odebrecht, Cecílio Abrão Júnior, apresentou-se no escritório da Care para explicar os supostos benefícios da obra. Segundo Olivera, o executivo informou que a construtora está encarregada do estudo de factibilidade e que forma um consórcio com a Eletrobrás e a empresa Andrade Gutiérrez. OAS, acionista principal de Inambari, Odebrecht, Andrade Gutiérrez e Camargo Correa compõem um oligopólio da construção de grandes obras que, financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil (BNDES), constituem uma ponta de lança na América Latina e na África.

Por trás destes investimentos estão fornecedores do Brasil, porque o financiamento do BNDES tem como condição o uso de equipamentos e insumos brasileiros. “Isto evidencia o interesse econômico do Brasil para executar obras utilizando a máscara de empresas constituídas no Peru”, disse Olivera. “O Peru é apenas mais um peão no tabuleiro de xadrez do Brasil”, disse Novoa à IPS.

Os refletores apontam para a represa de Inambari, que regulará o caudal do Rio Madre de Dios, afluente do Rio Madeira, na selva brasileira, onde está sendo construído um complexo hidrelétrico com múltiplas represas, acrescentou Novoa. Assim, quando o Madeira tiver um caudal baixo, a represa de Inambari poderá contribuir para que suas turbinas sigam funcionando. O acordo deve ser debatido e ratificado pelo Congresso do Peru para entrar em vigor. “Seria saudável”, disse o vice-ministro Cámac.
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FONTE : Milagros Salazar, da IPS (IPS/Envolverde)

BALEIA FRANCA : a história vem à tona


Ressaca do mar em Garopaba expõe mais do que ossadas do mamífero caçado ali desde o século 18. Mostra também a necessidade da criação de um museu que abrigue este patrimônio histórico e cultural

A ressaca que tantas casas destruiu no Litoral catarinense, em Garopaba, no Sul do Estado, revelou o que a natureza conservou escondido por quase 200 anos. As 10 ossadas de baleia trazidas à tona no dia 28 de maio expuseram a história que poucos haviam ouvido falar ou aprendido nos livros. Mais do que revelar um capítulo quase desconhecido, as carcaças imprimiram a necessidade da criação de um museu que abrigue o que os historiadores classificam como patrimônio histórico e cultural.

De acordo com a chefe de unidade da Área de Proteção da Baleia Franca (Apa/CNBio), Maria Elizabeth da Rocha, as ossadas foram expostas dentro da Apa, que compreende uma área de 130 quilômetros entre Florianópolis e Içara, no Sul do Estado. Algumas pessoas não respeitam as regras ambientais, levaram ossos para casa e chegaram a vendê-los como artigos de decoração. A chefe da Apa alerta que comercializar produtos de fauna silvestre, nativa ou em rota migratória é crime, com pena de seis meses de detenção e pagamento de multa.

O empresário Murilo Ternes foi um dos que retiraram as ossadas da praia. Ele tem autorização para manter o material em sua loja na praia central. Ternes é considerado o fiel signatário das peças (até a criação de um lugar adequado para receber as ossadas, ele tem a guarda provisória do material).

Em uma pousada, dois crânios de baleia e mandíbula ornamentam o local. De acordo com o dono, Marcelo Prietro, o pai chamou muitos amigos para rebocar os ossos há mais de 20 anos, quando uma ressaca as revelou. Ele lembra que na época não se falava em crime ambiental e que a família os preserva.

Para evitar que as ossadas sejam levadas, em consenso com a Apa/CNBio, optou-se por abrigá-las em locais temporários e criar um ecomuseu.

– O projeto de criação já foi aprovado pelo governo federal, mas ainda não temos previsão do início das obras – afirma o secretário de Indústria, Comércio e Turismo da cidade, Marcus Israel.

Enquanto o ecomuseu não entra em funcionamento, uma parte da história corre o risco de ser perdida. Sem o tratamento adequado, expostas ao tempo e à maresia, as ossadas podem virar farinha.

Aposentados ou ainda na atividade, os pescadores que participaram da caça às baleias

em Garopaba lembram que matá-las, naquela época, não era crime ambiental como hoje.

Alguns se arrependem quando recordam da baleia agonizando para morrer. Outros

confessam que a profissão exigia sangue frio. A renda que conquistavam nos

três meses de caça era muitas vezes maior do que a obtida durante o resto do ano.

“O pai era contra matar”

O pescador Anastasio Silveira, 79 anos, nasceu e se criou na Praia do Ouvidor. Hoje, mora na Praia do Rosa, ainda mantém o rancho à beira-mar no Porto Novo e enfrenta o Gigante quase que diariamente.

Seu Anastasio remava os barcos que levavam as baleias abatidas na Praia do Rosa e Praia da Barra para Imbituba. Lá, os cetáceos eram industrializados. Quando a água estava “contra” (o vento não estava a favor da maré), o percurso durava até um dia. Em situações de água “a favor”, o trajeto durava oito horas.

– O pai era muito rígido, era contra matar baleia e nunca nos deixou nem pensar nisso. Puxar, ele deixava. Era bem difícil ficar um dia inteiro remando.

Anastasio lembra a dificuldade de retirar a baleia da água mais profunda para descarná-la na Praia da Barra. Cerca de 40 homens ajudavam a trazer o mamífero.

“Dinheiro da caça era bom”

Seu Joaquim Francês Alexandrino, 77 anos, foi o caçador que matou a última baleia franca em Garopaba. Ele não lembra o dia, mas recorda com precisão que o ano era 1969. Nativos de Garopaba, ele e o irmão faziam as expedições de caça à baleia.

– Elas eram muito mansas. Chegavam bem perto da gente e não tinham medo. Quando estavam feridas ou quando o filhote estava perto, elas se tornavam agressivas. Sei de baleia que partiu lancha e leme.

Seu Joaquim caçou baleia com o arpão manual, quando se precisa estar a poucos metros do mamífero para lançar o ferro e empurrá-lo para dentro do corpo, com fósforo e dinamite.

– Às vezes, eu tinha pena. Mas o dinheiro que a caça rendia era muito bom. Comprei uma lancha com o que ganhei de uma baleia.

Baleia franca
Gênero: Eubalaena Família: Balenidae
- No verão vive na Antártica, e no inverno migra para regiões de águas quentes para se reproduzir, dar à luz e cuidar dos filhotes.
- É um cetáceo (classificação de baleias, botos e golfinhos) de grandes dimensões. As fêmeas são maiores e podem atingir até 18 metros de comprimento e 60 toneladas. Os machos atingem cerca de 14 metros e podem pesar até 45 toneladas.
- O filhote nasce com cerca de cinco metros de comprimento e pesa entre quatro e cinco toneladas. Engorda 50 quilos por dia.
- A franca tem grande longevidade. Pode chegar aos 80 anos.
- O esguicho em forma de “V” é característico da espécie e atinge de cinco a oito metros de altura. É mais visível em dias frios e com pouco vento.
- O animal tem verrugas no alto e laterais da cabeça, onde se acumulam colônias de ciamídeos, crustáceos que colonizam essas calosidades naturais. O formato diferenciado de cada colônia torna possível que pesquisadores identifiquem individualmente cada baleia.
- Alimenta-se de krill (pequeno crustáceo), enquanto está nas águas geladas da Antártica. Durante a viagem para a reprodução, não se alimenta.

Crueldade artesanal e rudimentar

De acordo com historiador Vilson Farias, as armações baleeiras eram empreendimentos comerciais de abate de baleias. Tinham alto custo e mão de obra artesanal. Exigiam frotas de navio, fábrica de transformação do óleo e estrutura suficiente para captar e abater a franca.

A perseguição às baleias era feita em lanchas impulsionadas a remo e à vela em alto-mar. Os animais eram arpoados com um arpão rudimentar de ferro batido com farpas e uma haste de madeira, preso à lancha por um cabo. Após arpoada, era comum que a baleia arrastasse a lancha por várias horas, antes de, exausta, morrer.

A morte do cetáceo podia demorar até 24 horas, quando era levado até a praia, e descarnado à meia-água. Escravos retiravam as fatias de toucinho e derretiam o óleo.

Conforme lembra o historiador Fernando Bitencourt, o consumo da carne nunca foi o objetivo das capturas de baleias. Elas foram dizimadas por causa da espessa camada de gordura que reveste o corpo. Derretido, o óleo era destinado à iluminação, lubrificação.

As barbatanas eram vendidas para a fabricação de espartilhos e utilizadas como liga na produção de argamassas usadas em igrejas e fortalezas.
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FONTE : jorn. Francine Cadore, DIÁRIO CATARINENSE, edição de 20/junho/2010.

Recuperar áreas desmatadas custa R$ 6 bi por ano, diz Banco Mundial

A recuperação de áreas de reserva legal de propriedades rurais é o que desperta uma das principais polêmicas no debate sobre mudanças do Código Florestal brasileiro.

R$ 6 bilhões por ano. Esse é o preço estimado para a recuperação de áreas de proteção ambiental desmatadas em propriedades rurais do Brasil, segundo o estudo Cenários de Baixo Carbono para o Brasil do Banco Mundial (Bird), que será divulgado nesta quinta-feira (17). As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Apesar do custo, essa é uma das medidas com maiores chances de sucesso na busca por reduzir as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global nas próximas duas décadas. A recuperação de áreas de reserva legal de propriedades rurais é o que desperta uma das principais polêmicas no debate sobre mudanças do Código Florestal brasileiro.

O estudo do Banco Mundial reconhece dificuldades para a recuperação de 440 mil quilômetros quadrados de floresta, dimensão estimada para o passivo ambiental das áreas de proteção nas propriedades rurais. "Para começar, é uma atividade dispendiosa. Em segundo lugar, propriedades rurais perderiam áreas produtivas durante o período de regeneração da cobertura vegetal."

A legislação atual impõe a preservação de vegetação nativa em pelo menos 20% das propriedades e atribui ao proprietário a responsabilidade pela recomposição do bioma. O porcentual da reserva legal é de 80% nas áreas de floresta amazônica. "Não é fácil a aplicação da legislação", afirma o estudo do Banco Mundial, que, no entanto, conta com a recuperação gradual das áreas de reserva legal e não considera a hipótese de mudança na legislação. "Nos setores de energia e de transportes é mais difícil reduzir as emissões, uma vez que já estão em níveis baixos, de acordo com padrões internacionais", avalia o banco.

O documento reitera informações do inventário oficial de carbono do País, que indicou o desmatamento, estimulado pela expansão da agricultura e da pecuária, como a maior fonte das emissões de gases de efeito estufa do Brasil. "A produção agrícola e a pecuária geram também emissões diretas, juntas respondendo por um quarto das emissões nacionais brutas", relata o Bird.
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FONTE : Amazonia.org.br /EcoAgência

SARAMAGO AMAVA AS FLORESTAS

Morre, aos 87 anos, um dos maiores escritores da língua portuguesa, José Saramago. O autor deixa um legado de boas histórias e exemplos de proteção às florestas.

Em 25 de outubro de 2005, José Saramago lançou o primeiro livro impresso em papel e gráfica com certificação FSC no Brasil, "As Intermitências da Morte". O FSC, Conselho Brasileiro de Manejo Florestal, tem o único sistema de certificação independente que adota padrões socioambientais internacionalmente de manejo florestal.

Para o lançamento dessa então nova obra, o escritor, primeiro de língua portuguesa a receber o prêmio Nobel de Literatura em 1998, pediu pessoalmente a suas editoras em todo o mundo que seguissem normas ambientalmente adequadas para produzí-la.

No mesmo dia, Saramago divulgou seu apoio à campanha de proteção da Amazônia do Greenpeace. O Greenpeace encoraja a indústria editorial em diversos países a deixar de usar papel cuja produção acarrete a destruição das florestas e a adotar práticas social e ambientalmente adequadas na utilização de produtos florestais, como o uso de papel reciclado ou certificado pelo FSC.

A iniciativa de Saramago representou um importante passo para o mercado editorial diminuir o impacto no desmatamento, estimulado pela demanda de papel para a produção do setor. Sua morte representa uma perda para a literatura e para as florestas.

José Saramago nasceu em Portugal, em 1922, e tornou-se um dos mais importantes escritores do mundo. Escreveu, entre outros, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Memorial do Convento e Ensaio sobre a Cegueira. Sempre preocupado com as causas sociais, nos últimos anos contribuiu com o movimento socioambiental.
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FONTE : Greenpeace/EcoAgência