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quinta-feira, 4 de maio de 2023
Diversidade das florestas aumenta o armazenamento de carbono
Preservar a diversidade das florestas garante sua produtividade e potencialmente aumenta o acúmulo de carbono e nitrogênio no solo, o que ajuda a manter a fertilidade do solo e a mitigar as mudanças climáticas globais.
University of Michigan*
Essa é a principal conclusão de um novo estudo que analisou dados de centenas de parcelas do Inventário Florestal Nacional do Canadá para investigar a relação entre a diversidade de árvores e as mudanças no carbono e nitrogênio do solo em florestas naturais.
Numerosos experimentos de manipulação da biodiversidade sugeriram coletivamente que uma maior diversidade de árvores pode levar a um maior acúmulo de carbono e nitrogênio nos solos florestais. Mas o novo estudo, publicado online em 26 de abril na revista Nature, é o primeiro a mostrar um resultado semelhante em florestas naturais, de acordo com os autores.
Os pesquisadores usaram um método estatístico chamado modelagem de equação estrutural para avaliar as relações entre a diversidade de árvores e o acúmulo de carbono e nitrogênio no solo. Eles descobriram que o aumento da diversidade de árvores aumentou o armazenamento de carbono no solo em 30% a 32% e o armazenamento de nitrogênio em 42% a 50% em uma escala de tempo decenal.
“Nosso estudo, pela primeira vez, mostra os benefícios sustentados da diversidade de árvores no armazenamento de carbono e nitrogênio do solo em florestas naturais”, disse o principal autor do estudo, Xinli Chen, bolsista de intercâmbio de pós-doutorado no Institute for Global Change Biology da UM e bolsista de pós-doutorado no a Universidade de Alberta.
“Nossos resultados destacam que a promoção da diversidade de árvores não apenas aumenta a produtividade, mas também mitiga a mudança climática global e reduz a degradação do solo. E o tamanho do dividendo da diversidade é grande. Isso reforça a importância da conservação da biodiversidade nas florestas e orientará os esforços crescentes para usar florestas para o sequestro de carbono e nitrogênio.”
Os pesquisadores calcularam as mudanças no armazenamento de carbono e nitrogênio do solo ao longo do tempo, comparando dados de dois censos de lotes de amostragem do Inventário Florestal Nacional, um de 2000-2006 e outro de 2008-2017.
Eles quantificaram a diversidade de árvores como riqueza de espécies, uniformidade de espécies e – com base nas características funcionais das árvores – diversidade funcional.
A riqueza de espécies é o número de espécies de árvores em uma parcela de amostra, enquanto a uniformidade de espécies é uma medida da abundância relativa de espécies de árvores. Diversidade funcional é a variedade de características funcionais – como teor de nitrogênio foliar e altura da árvore adulta – de espécies de árvores dentro de uma comunidade.
A equipe de pesquisa descobriu que aumentar a uniformidade das espécies de seu valor mínimo para máximo aumentou o armazenamento de carbono na camada orgânica do solo em 30% e o armazenamento de nitrogênio em 42%. Aumentar a diversidade funcional das árvores ao seu valor máximo aumentou o armazenamento de carbono na camada mineral do solo em 32% e o armazenamento de nitrogênio em 50%.
“Descobrimos que uma maior diversidade de árvores está associada a um maior acúmulo de carbono e nitrogênio no solo, validando inferências de experimentos de manipulação da biodiversidade”, disse o coautor do estudo Peter Reich, ecologista florestal e diretor do Institute for Global Change Biology, que faz parte da Escola de Ambiente e Sustentabilidade da UM.
“Uma maior diversidade de espécies se traduz em uma mistura de diferentes tipos de árvores com diferentes formas de adquirir e armazenar biomassa – tanto em troncos vivos, raízes, galhos e folhas quanto em detritos de plantas recém-mortas e em decomposição no solo.”
O banco de dados do Inventário Florestal Nacional do Canadá é baseado em uma rede de parcelas que cobre grande parte do território do país. O novo estudo analisou amostras de horizonte de solo orgânico de 361 parcelas e amostras de horizonte de solo mineral de 245 parcelas.
Esses lotes abrigam várias espécies de abetos, bordos, bétulas, abetos, pinheiros, choupos, cedros e cicutas, entre outros tipos de árvores.
Os solos florestais desempenham um papel importante no sequestro de carbono extraído do gás dióxido de carbono que aquece o planeta durante a fotossíntese. Esses solos armazenam pelo menos três vezes mais carbono do que as plantas vivas.
O nitrogênio é um nutriente essencial que impulsiona a assimilação do carbono e o crescimento das plantas nos ecossistemas florestais. A diversidade de plantas está diminuindo rapidamente globalmente, levando à degradação da função do ecossistema, incluindo a função dos solos.
Os outros autores do estudo da Nature são Anthony Taylor, da Universidade de New Brunswick, Masumi Hisano, da Universidade de Tóquio, Han Chen, da Universidade Lakehead, e Scott Chang, da Universidade de Alberta e da Universidade Zhejiang A&F.
A pesquisa foi apoiada pelo programa Discovery Grants do Conselho de Pesquisa em Ciências Naturais e Engenharia do Canadá, Fundação Canadense para Inovação, Fundo de Pesquisa de Ontário, Banting Postdoctoral Fellowship e uma bolsa dos Institutos de Integração Biológica da Fundação Nacional de Ciências dos EUA.
Referência:
Chen, X., Taylor, A.R., Reich, P.B. et al. Tree diversity increases decadal forest soil carbon and nitrogen accrual. Nature (2023). https://doi.org/10.1038/s41586-023-05941-9
Henrique Cortez *, tradução e edição.
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in EcoDebate, ISSN 2446-9394
quarta-feira, 3 de maio de 2023
Atropelamento da fauna silvestre ameaça biodiversidade pelo Brasil
Em Brumadinho (MG), passagens inferiores e superiores para fauna estão possibilitando a travessia segura de animais pela região
Dados do “atropelômetro” do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), com sede na Universidade Federal de Lavras (Ufla), indicam que a cada segundo, 17 animais silvestres morrem atropelados no país. O Sudeste é a região com o maior número, cerca de 56%. Estima-se que em Minas Gerais, somente em 2022, mais de 20 mil animais de pequeno, médio e grande porte foram atropelados. Em Brumadinho, ações como a instalação de redutores de velocidade, placas educativas, passagens inferiores em forma de túneis, e superiores de fauna estão possibilitando a travessia segura de animais e a reconexão de áreas ambientais que foram impactadas pelo rompimento. O estudo de monitoramento da fauna atropelada e ações de mitigação de impacto faz parte do Plano de Controle Ambiental para implantação das obras de reparação no território de Brumadinho e do Plano de Reparação Socioambiental, integrante do Acordo de Reparação Integral assinado em 2021 pela Vale, pelo Governo do Estado de Minas Gerais, pelos Ministérios Públicos Federal e do Estado de Minas Gerais, e pela Defensoria Pública de Minas Gerais.
Ao todo foram instaladas dez passagens inferiores de fauna, túneis, e vinte passagens superiores ao longo de 60 km, o que possibilita a travessia segura dos animais. As estruturas são monitoradas por câmeras especiais que registraram ao longo dos últimos meses a utilização de diversas espécies silvestres como Gato-do-mato, Paca, Cachorro-do-mato, Saguis, Esquilos, Macacos-sauá, Mão-pelada, Onça-parda, dentre outras espécies. Essas estruturas permitem manter a conectividade dos hábitats das espécies, conservar a biodiversidade, além de garantir a segurança de animais e usuários estradas. Entre setembro de 2021 e fevereiro deste ano, 8.162 animais foram registrados. Todas as atividades de monitoramento são frequentemente acompanhadas pelos órgãos ambientais competentes.
A maioria dos atropelamentos de fauna acontece à noite, por causa de hábitos noturnos de muitas espécies e a falta de visibilidade do motorista. Como cada espécie tem um padrão próprio de comportamento, há vários tipos de passagens. Algumas exigem estruturas de vias aéreas, outras subterrâneas, outras atravessam locais com a presença de água, árvores, entre outros. “As passagens de fauna estão possibilitando a travessia dos animais por baixo ou por cima das estradas e possibilitando a reconexão de ambientais florestais impactadas pelo rompimento”, destaca Gustav Specht, analista ambiental da Vale.
A Paca, Cuniculus paca, é um importante dispensor de sementes. Vale/Divulgação
Gustav ainda ressalta que a presença de animais de diferentes níveis da cadeia alimentar é um forte indicativo que esses locais já estão desempenhando serviços ecológicos importantes, como a dispersão de sementes, a polinização, a fertilização de solo por meio de fezes, entre outros. “Com o passar do tempo as áreas em processo de recuperação formam uma espécie de corredor verde e ampliam as áreas florestadas que abrigam todo tipo de animal de Brumadinho e região”, diz.
O esquilo pertence a uma grande família de mamíferos roedores, de pequeno e médio porte, conhecida como Sciuridae. Vale/Divulgação
O atropelamento de animais silvestres é uma das principais causas de perda crônica de fauna no Brasil. Para a Fernanda Abra, bióloga e pesquisadora do Centro de Conservação do Smithsonian Institution em Washington DC, Estados Unidos, o impacto dos atropelamentos pode interferir significativamente para o desaparecimento de diversas espécies. “É uma questão que deve ser considerada em qualquer plano de recuperação ambiental ou projetos de mitigação em ambientes de transporte. À medida que as regiões se desenvolvem a malha rodoviária também cresce, o que influencia diretamente na dinâmica da fauna, o que é mais preocupante para espécies que já são ameaçadas de extinção. A implementação de medidas de mitigação, especialmente passagens de fauna são muito importantes. Vale destacar a necessidade do levantamento e acompanhamento de dados a médio e longo prazos para identificação dos pontos com maior número de acidentes e colisões, o que irá subsidiar as medidas de mitigação que devem ser tomadas”, ressalta.
RECUPERAÇÃO E AVANÇOS AMBIENTAIS
Para a recuperação ambiental da área impactada pelo rompimento acontecer, o primeiro passo é a remoção dos rejeitos, atividade fundamental para apoiar as buscas realizadas pelo Corpo de Bombeiros. Somente após a liberação das áreas pelo CBMMG o trabalho é iniciado, já que a busca pelas pessoas desaparecidas é prioridade máxima desde o rompimento.
Até o momento, estão em processo de recuperação ambiental 42 hectares, incluindo parte da área diretamente impactada e áreas protegidas do entorno, com o plantio de aproximadamente 55 mil mudas de espécies nativas da região. Essa área equivale a 42 campos de futebol. Nesse processo de recuperação também está sendo feita a renaturalização de ambientes, incluindo a recuperação dos cursos d’água (ribeirão e córregos) e áreas úmidas impactadas. (Vale)
Senado aprova comercialização de créditos de carbono em concessões florestais
Senado aprova MP que permite novas atividades econômicas sustentáveis dentro das concessões florestais, como a geração de créditos de carbono. Texto segue para sanção presidencial.
A Medida Provisória 1.151/2022, que amplia o rol de atividades econômicas sustentáveis permitidas dentro das concessões de florestas públicas, foi aprovada pelo Senado nesta terça-feira, dia 02 de maio. O novo marco legal confere maior atratividade às concessões florestais e reforça o entendimento de que a floresta em pé vale muito mais, bem como mantém a proteção dos povos e comunidades tradicionais prevista na Lei de Gestão de Florestas Públicas desde 2006, vedando a existência de concessões em seus territórios.
“A valorização das concessões florestais será um incentivo fundamental à conservação da Amazônia”, celebra Jaqueline Ferreira, gerente de portfólio do Instituto Escolhas. A MP tem base no Projeto de Lei 5.518, que contou com subsídios do Escolhas em sua elaboração e foi apresentado em 2020 pelo, então, deputado Rodrigo Agostinho, atual presidente do Ibama.
Previstas pela Lei de Gestão das Florestas Públicas (LGFP), as concessões florestais foram concebidas para incentivar o desenvolvimento de atividades econômicas a partir do manejo florestal sustentável. Em 2006, quando a Lei entrou em vigor, o Brasil esperava conceder até 44 milhões de hectares. Dezessete anos depois, no entanto, pouco mais de 1 milhão de hectares de floresta haviam sido concedidos.
Um estudo do Escolhas já mostrou, por exemplo, que há casos em que a comercialização de créditos de carbono pode aumentar em 43% as receitas dos concessionários.
O texto aprovado (MPV) segue, agora, para a sanção do presidente Lula.
Aprovação da MP destrava as Concessões Florestais
Os principais entraves encontrados pelos concessionários foram levantados pelo estudo Destravando a agenda da Bioeconomia: soluções para impulsionar as concessões florestais no Brasil. Em articulação com a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, o documento foi apresentado a integrantes da Frente Parlamentar Ambientalista na Câmara dos Deputados, que usou o material para elaborar o PL já citado – que, por sua vez, subsidiou o texto que acaba de ser aprovada no Senado.
(Instituto Escolhas)
Entre as mudanças apontadas pelo estudo como fundamentais para impulsionar o interesse de novos concessionários, e incorporadas pela MP, estão:
– a garantia de segurança jurídica e reforço da fiscalização das ilegalidades cometidas em áreas concessionadas;
– a celeridade no processo licitatório, com destaque para a ampliação do período de validade do Plano de Outorga Florestal para quatro anos e
– a equivalência da aprovação do Plano de Manejo Florestal Sustentável à obtenção de licença ambiental para a prática de manejo florestal.
segunda-feira, 1 de maio de 2023
Empresas têm de combater desigualdade - Caio Magri & Oded Grajew
Por Caio Magri e Oded Grajew –
É preciso haver uma cultura empresarial engajada com causas que possibilitem mais oportunidades
Nas últimas semanas, acompanhamos indignados mais um resultado da cultura de desigualdades do Brasil. O caso Americanas é emblemático. Em janeiro vieram à tona as tais “inconsistências contábeis”, que escondiam uma dívida de R$ 20 bilhões nos balanços da empresa. A política predatória praticada pela rede varejista é velha conhecida.
A partir de informações entregues à Comissão de Valores Mobiliários, em 2021, a Americanas aparece como segunda empresa com a maior diferença entre a remuneração média anual dos CEOs e a média anual paga aos demais funcionários.
O presidente executivo da companhia recebeu R$ 12,83 milhões no acumulado do ano; 431 vezes a média acumulada dos funcionários, de R$ 29.760. O salário mensal do CEO da Americanas, em 2021, foi superior a R$ 1 milhão, enquanto os demais funcionários receberam por mês, em média, R$ 2.480.
Como em muitos casos semelhantes, a irresponsabilidade social se virou contra a própria Americanas, e os resultados agora estampam as manchetes dos jornais.
A desigualdade causa sentimento de injustiça e provoca desarmonia. E o sucesso de qualquer coletivo humano depende da harmonia entre as pessoas. Extremas desigualdades de salário e renda no Brasil também apontam holofotes para outros 87 CEOs de empresas listadas no Ibovespa em 2021. Em média, cada um recebeu R$ 12,57 milhões, enquanto o gasto médio anual com cada funcionário foi de R$ 192.570.
Os formulários apresentados à CVM registraram disparidades salariais estratosféricas. Da lista de 88 CEOs, cinco faturaram juntos mais de R$ 270 milhões em 2021. O que representam esses valores? Anotem: cada um dos cinco ganhou de R$ 52 milhões a R$ 59 milhões, uma média de R$ 54,5 milhões como remuneração anual, ou mais de R$ 4,5 milhões por mês.
Isso significa que cada um teve ganho diário de R$ 150 mil. Esses CEOs receberam em cada hora do dia o valor de quase cinco salários mínimos, mesmo enquanto dormiam. O valor representa cerca de 13 vezes o ganho mensal declarado por 63 milhões de brasileiros na pesquisa-base do Mapa da Fome da Fundação Getulio Vargas, de R$ 497.
A desigualdade discrepante de salário é vexatória e constrangedora. Deve ser avaliada observando a legião de pessoas que enfrentam pobreza e miséria. Tais diferenças aceleram a escalada da concentração da renda. Quase 49% de todas as riquezas estão sob o guarda-chuva e nos cofres dos mais ricos. Mudando a leitura desse dado, podemos afirmar que 1% dos brasileiros concentram quase metade das riquezas do Brasil.
As empresas têm grande poder de dar exemplo e devem colocar a redução da desigualdade também como política interna importante. Quanto mais poder, mais responsabilidade.
O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e figura entre os mais ricos. Isso é uma vergonha para todos nós. Uma sociedade de desiguais é também um ambiente de conflitos. As empresas têm grande poder e influência na nossa sociedade e, portanto, não podem se eximir da responsabilidade no enfrentamento das desigualdades. Nunca deixaremos de ser um dos países mais desiguais do mundo sem a participação das empresas na solução. E não no problema.
Isso passa por ter uma cultura empresarial que gere valores na sociedade, que esteja engajada com causas transformadoras e que possibilite mais oportunidades para todas e todos. Hoje, olhamos a escravidão que houve no país e temos repugnância em relação ao que ocorreu em solo brasileiro. Daqui a alguns anos, olharemos para trás e nos perguntaremos: como aceitávamos como natural uma sociedade com tamanhas desigualdades? Comecemos já a mudar nossa História.
*Caio Magri é presidente do Instituto Ethos
*Oded Grajew é presidente emérito do Instituto Ethos
(#Envolverde)
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