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segunda-feira, 6 de setembro de 2021
EcoDebate - Edição 3.740 de 06 / setembro / 2021
A emergência climática, as novas gerações e a Greve Climática Global
O ‘calote’ do (des)governo Bolsonaro no clima
Invernos extremos no hemisfério norte estão relacionados às mudanças no Ártico
Ligação entre mudança climática e segurança hídrica é cada vez mais clara
Reflorestamento de áreas degradadas da Amazônia no combate ao aquecimento global
Novo Relatório IPCC e os impactos das mudanças climáticas no setor elétrico brasileiro
Covid-19 e outras doenças chegam até nós como consequência da degradação ambiental
Proteção da Amazônia será pauta importante nas eleições de 2022
domingo, 5 de setembro de 2021
Covid-19 e outras doenças chegam até nós como consequência da degradação ambiental
O Dia da Amazônia é celebrado em 5 de setembro por ser a data de criação da província do Amazonas, por Dom Pedro II em 1850. A data busca chamar atenção para o bioma que é a maior floresta tropical do mundo, reforçando a necessidade de sua preservação e do uso sustentável das matérias primas que a floresta propicia. O assunto é de extrema importância, não só pela vida dos seres vivos que ali habitam, mas também para a saúde ambiental do planeta e do ser humano.
A degradação ambiental ocorre há anos, e cada vez mais vemos de perto como esse descaso com as florestas interfere diretamente na vida da população. Estudos científicos já atestaram que o desmatamento gera uma cadeia de acontecimentos complexos, criando meios para que diferentes patógenos mortais se espalhem entre os humanos. Doença de Lyme e a malária, por exemplo, surgiram a partir daí.
São 40 mil espécies de plantas, milhões de insetos e 400 mamíferos que estima-se ter na Amazônia, floresta que ocupa sete milhões de quilômetros quadrados e faz parte de nove países da América do Sul. O especialista em Gestão de Resíduos Sólidos e fundador da Oceano Resíduos, Rafael Zarvos, alerta a necessidade das pessoas entenderem que desmatamento e doenças estão relacionados.
“Infelizmente, somos a única espécie capaz de destruir e de ameaçar a nossa própria sobrevivência. A forma como a sociedade está transformando o meio ambiente e reduzindo os habitats naturais, faz com que animais silvestres e seres humanos se aproximem. Isso potencializa o risco de transmissão de variados patógenos da espécie deles para a nossa“, explica Zarvos.
Doenças como a zika, que somada a dengue e chikungunya contabilizaram um aumento de 248% do número de casos no ano de 2019, é exemplo de enfermidade que veio da cena rural para a urbana pelo avanço do desmatamento em áreas florestais. “A destruição da natureza coloca em risco a nossa própria existência. O coronavírus, por exemplo, responsável pela pandemia que vivemos, é fruto do contato de humanos com morcegos”, destaca Rafael.
Em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), é possível ver que a cada quatro meses o ser humano tem uma infecção originária de problemas relacionados ao meio ambiente, e que 75% das doenças são de origem animal. O consumo de carne crua de animais silvestres, o desmatamento, as mudanças climáticas e o tráfico ilegal de animais silvestres são fatores que contribuem para facilitar o contágio de seres humanos por patógenos que vivem na natureza e nas espécies que ali habitam.
“Cientistas especulam que o vírus que desencadeará a próxima pandemia já está em circulação, é só uma questão de tempo até sermos atingidos. Isso prova que está mais do que na hora de prestarmos atenção no consumo de produtos, além de pequenos hábitos do dia a dia que podem ser cruciais para ajudar o meio ambiente e a nós mesmos“, finaliza o especialista.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/09/2021
Estudo mostra impactos do desmatamento e queimadas na biodiversidade da Amazônia
Por Daniel Stolte*, University of Arizona
Um novo estudo, de coautoria com pesquisadores da Universidade do Arizona e publicado na edição de 1º de setembro da Nature, fornece a primeira avaliação quantitativa de como as políticas ambientais de desmatamento, junto com incêndios florestais e secas, impactaram a diversidade de plantas e animais na Amazônia.
Os pesquisadores usaram registros de mais de 14.500 espécies de plantas e vertebrados para criar mapas de biodiversidade da região amazônica. Sobrepor os mapas com observações históricas e atuais de incêndios florestais e desmatamento nas últimas duas décadas permitiu que a equipe quantificasse os impactos cumulativos sobre as espécies da região.
Eles descobriram que, desde 2001, entre 40.000 e 73.400 milhas quadradas da floresta amazônica foram impactadas por incêndios, afetando 95% de todas as espécies amazônicas e até 85% das espécies listadas como ameaçadas na região. Enquanto as políticas de manejo florestal promulgadas no Brasil em meados dos anos 2000 diminuíram a taxa de destruição de habitat, a aplicação mais relaxada dessas políticas que coincidiram com uma mudança de governo em 2019 aparentemente começou a reverter a tendência, escrevem os autores. Com incêndios afetando 1.640 a 4.000 milhas quadradas de floresta, 2019 se destaca como um dos anos mais extremos para impactos na biodiversidade desde 2009, quando as regulamentações que limitam o desmatamento foram aplicadas.
“Mostramos como a política teve uma influência direta e enorme no ritmo em que a biodiversidade em toda a Amazônia foi afetada”, disse o autor sênior do estudo Brian Enquist , professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva do UArizona . Ele acrescentou que as descobertas são especialmente críticas à luz do fato de que em nenhum momento a Amazônia conseguiu uma pausa desses impactos crescentes, o que teria permitido alguma recuperação.
“Mesmo com políticas em vigor, que você pode pensar como um freio que diminui a taxa de desmatamento, é como um carro que segue em frente, apenas em uma velocidade mais lenta”, disse Enquist. “Mas em 2019, é como se o pé tivesse soltado o freio, fazendo com que ele acelerasse novamente.”
“Avaliações com base em sensoriamento remoto de áreas queimadas e desmatadas foram feitas antes, mas não temos um registro detalhado do impacto que elas têm sobre a diversidade de espécies da região”, disse Xiao Feng, o primeiro autor do estudo, que conduziu a maior parte do trabalho enquanto ele era um pesquisador de pós-doutorado no UArizona e agora é professor assistente na Florida State University. “Esta tem sido uma grande coleção de dados e um esforço informático sem precedentes associado aos dados de biodiversidade, e que nos permitiu tornar essas interconexões visíveis”.
Conhecida principalmente por suas densas florestas tropicais, a bacia amazônica mantém cerca de 40% das florestas tropicais remanescentes do mundo. É de importância global como provedor de serviços ecossistêmicos, como remoção e armazenamento de carbono da atmosfera, e desempenha um papel vital na regulação do clima da Terra. A área também é um enorme reservatório da biodiversidade do planeta, fornecendo habitats para uma em cada 10 das espécies conhecidas do planeta. Estima-se que, na Amazônia, 1.000 espécies de árvores podem povoar uma área menor que meia milha quadrada.
“Isso é importante à luz do fato de que a biodiversidade anda de mãos dadas com o funcionamento do ecossistema”, disse Enquist, acrescentando que as espécies com as menores extensões tendem a sofrer mais. “As espécies podem se tornar virtualmente extintas mesmo antes de perderem toda a sua extensão de habitat.”
“O fogo não faz parte do ciclo natural da floresta tropical”, disse o coautor do estudo Crystal NH McMichael, da Universidade de Amsterdã. “As espécies nativas não têm as adaptações que lhes permitiriam lidar com isso, ao contrário das comunidades florestais em áreas temperadas. Queimas repetidas podem causar mudanças massivas na composição das espécies e prováveis consequências devastadoras para todo o ecossistema.”
Desde 1960, a Amazônia perdeu cerca de 20% de sua cobertura florestal devido ao desmatamento e incêndios. Embora os incêndios e o desmatamento muitas vezes andem de mãos dadas, nem sempre foi esse o caso, disse Enquist. Como as mudanças climáticas trazem condições de seca mais frequentes e severas para a região, e o fogo é frequentemente usado para limpar grandes áreas de floresta tropical para a indústria agrícola, o desmatamento tem efeitos colaterais, aumentando as chances de incêndios florestais. Prevê-se que a perda de floresta chegue a 21% a 40% até 2050, e essa perda de habitat terá grandes impactos sobre a biodiversidade da região, de acordo com os autores.
“O que é desagradável sobre o fogo naquela região é que, uma vez que começa a invadir áreas que não foram queimadas, degrada-as irremediavelmente e as torna mais suscetíveis a queimadas no futuro”, disse ele.
“Uma vez que a maioria dos incêndios na Amazônia são causados intencionalmente por pessoas, evitá-los está em grande parte sob nosso controle”, disse o coautor do estudo, Patrick Roehrdanz, gerente sênior de mudança climática e biodiversidade da Conservation International. “Uma forma é renovar o compromisso com políticas antidesflorestamento fortes no Brasil, combinadas com incentivos para uma economia florestal, e replicá-los em outros países amazônicos.”
As políticas para proteger a biodiversidade amazônica devem incluir o reconhecimento formal das terras indígenas, que são mais de um terço da região amazônica, escrevem os autores, apontando para pesquisas anteriores que mostram que as terras possuídas, usadas ou ocupadas por povos indígenas têm menos declínio de espécies, menos poluição e recursos naturais mais bem administrados.
Os autores dizem que seu estudo ressalta os perigos de continuar a aplicação de políticas frouxa. À medida que os incêndios invadem o coração da bacia amazônica, onde a biodiversidade é maior, seus impactos terão efeitos mais terríveis, mesmo que a taxa de queimadas permaneça inalterada.
“Temos que lembrar que levou décadas para reduzir o desmatamento na Amazônia, mas pode levar apenas alguns anos para destruir os pilares da política de conservação da conservação”, disse o coautor Paulo Brando, professor assistente do Departamento de Ciência do Sistema Terrestre do Universidade da Califórnia em Irvine. “A recente reversão nas tendências de desmatamento e incêndios, e seus impactos na biodiversidade da Amazônia, deve ser uma grande causa de preocupação”.
A pesquisa foi viabilizada por fundos de investimento estratégicos alocados pelo Arizona Institutes for Resilience at UArizona e pelo grupo Bridging Biodiversity and Conservation Science da universidade . Suporte adicional veio do programa Harnessing the Data Revolution da National Science Foundation . Os dados e cálculos foram fornecidos por meio da Rede de Informação e Ecologia Botânica , que é apoiada pelo CyVerse , a plataforma de gerenciamento de dados da NSF liderada pelo UArizona.
Referência:
How deregulation, drought and increasing fire impact Amazonian biodiversity, Nature (2021). DOI: 10.1038/s41586-021-03876-7
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Henrique Cortez *, tradução e edição.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/09/2021
Proteção da Amazônia será pauta importante nas eleições de 2022
Por Cínthia Leone, Instituto ClimaInfo
Uma nova pesquisa sugere que a Amazônia já faz parte dos temas que os eleitores brasileiros levarão em conta na hora de votar em 2022. Oito em cada 10 brasileiros (80%) consideram que essa deve ser uma prioridade para candidatos à presidência da República ano que vem.
Divulgado às vésperas do Dia da Amazônia, o levantamento mostra que seis em cada dez brasileiros (58%) afirmam que um candidato à Presidência da República aumentaria as chances de atrair seu voto se apresentar um plano específico para a proteção da Amazônia. A pesquisa mostra também que para 79%, é muito importante proteger a Amazônia.
“Diversas pesquisas já comprovaram que o brasileiro se preocupa com a Amazônia e quer vê-la protegida, mas esta é a primeira vez que essa preocupação aparece como fator de influência na decisão de voto. E isso coloca o Brasil no roteiro global de países onde o Clima é tema forte nas eleições.”, destaca Ana Toni, Diretora-Executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), instituto que encomendou a pesquisa ao PoderData, realizada entre os dias 21 a 23 de agosto de 2021. “Três anos de níveis recordes de desmatamento e queimadas evidenciaram a relação direta que existe entre a destruição da Amazônia e a atual política governamental. Os resultados confirmam que a atuação de Bolsonaro é contrária à opinião pública da maioria dos eleitores”, analisa a Diretora do iCS.
Mesmo quando a preocupação é com o crescimento econômico do país, a maioria dos brasileiros acredita que isso está relacionado à proteção da Amazônia. De acordo com a pesquisa, sete em cada dez brasileiros (71%) concordam que o desenvolvimento do Brasil depende da proteção da Amazônia, demonstrando que o brasileiro está fazendo uma relação entre o “bolso” e o meio ambiente. Apenas 1 em cada 10 (11%) concordam que para o Brasil se desenvolver, proteger a Amazônia não é uma prioridade. E menos de 1 em cada 10 (6%) concordam que o Brasil consegue se desenvolver mesmo sem proteger a Amazônia. Isso demonstra que a maioria dos brasileiros compreendem a relação entre a proteção da Amazônia e o desenvolvimento do país e concordam que há uma conexão direta entre a preservação da floresta e o desenvolvimento nacional. A quase totalidade dos brasileiros (89%) acredita que é preciso conservar a floresta amazônica porque ela é a maior riqueza do Brasil.
Também é consenso entre os brasileiros (83%) que a Amazônia faz parte da identidade nacional do Brasil. “Isso demonstra que quase a totalidade da população entende que na conformação de um imaginário de identidade nacional do Brasil, está compreendida a Amazônia como elemento constitutivo dessa identidade. Logo, se a Amazônia faz parte da identidade nacional, cuidar dela é também cuidar da nossa identidade como nação”, avalia Ana Toni. A pesquisa revela ainda que a maioria dos brasileiros (77%) concorda que é preciso conservar a Amazônia porque o futuro do planeta depende da floresta em pé.
Perguntados sobre os responsáveis pela destruição da floresta, pouco menos de um quarto dos brasileiros (22%) apontam para o Presidente Jair Bolsonaro e 15% para o Governo Federal. Quando perguntados sobre quem deveria cuidar da Amazônia, os entrevistados apontam para Bolsonaro (24%) e o Governo Federal (43%) como tendo a maior responsabilidade pela proteção da Amazônia, seguidos pelos militares (12%) e Congresso Nacional (6%). E sobre a principal causa do atual desmatamento na Amazônia, 29% dos brasileiros afirmam que é a ocupação ilegal de terras.
A pesquisa revela ainda que para 71%, ou 7 em cada 10 brasileiros, Bolsonaro não está trabalhando bem para proteger a Amazônia. A pesquisa aponta também que para 87%, ou 9 em cada 10 brasileiros, o Congresso Nacional não está trabalhando bem para proteger a Amazônia.
Ficha Técnica:
A pesquisa foi realizada pelo Instituto PoderData, a pedido do Instituto Clima e Sociedade (iCS), entre os dias 21 e 23 de agosto de 2021, com brasileiros e brasileiras com 16 anos de idade ou mais, ponderados parametricamente para refletir a composição da população brasileira. Ao todo, foram 2.500 entrevistas em 449 municípios nas 27 unidades da Federação. A margem de erro estimada é de +/- 2,0 p.p. para resultados do total da amostra. O intervalo de confiança é de 95%.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/09/2021
quinta-feira, 2 de setembro de 2021
Pesquisa mostra que locadoras têm mais de 1,5 mil veículos elétricos
Levantamento sobre eletrificação da frota foi feito pela primeira vez pela ABLA, associação que reúne as locadoras de automóveis
Conforme pesquisa da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABLA), no primeiro semestre de 2021 o setor de locação ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 1,5 mil veículos elétricos em sua frota total. O inédito levantamento mostrou que o setor atingiu exatas 1.507 unidades licenciadas em nome de empresas de aluguel de carros, conforme estatísticas obtidas pela associação junto ao Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro).
Foram pesquisadas as quantidades de automóveis, de comerciais leves, caminhões, ciclomotores, ônibus e motos movidos à eletricidade e licenciados em nome de empresas de aluguel de veículos. Os resultados apontaram que os automóveis correspondem à maior parcela (769) de veículos elétricos nas locadoras, seguidos pelos ciclomotores (141) e pelas caminhonetes (116).
Há, também, 86 motonetas e 61 motocicletas elétricas no setor, além de 98 ônibus. O Nissan Leaf Tekna é o automóvel elétrico mais presente (246 unidades) na frota do setor de aluguel de carros, seguido pelo ciclomotor Dayang Ecooter E1S (138) e pelo CAOA Chery Arrizo 5E (126 veículos). O BYD E5 (100 unidades) é o caminhão mais emplacado pelas locadoras no Brasil.
Regionalmente, São Paulo é o estado que reúne a maior parte da frota eletrificada das empresas de locação, com 767 unidades licenciadas por empresas de locação. Em seguida vêm Minas Gerais e o Paraná, respectivamente com 378 e 119 unidades, completando o ranking dos três primeiros em quantidade de elétricos nas locadoras no país. Distrito Federal (65), Rio de Janeiro (51) e Santa Catarina (40) também já contam frotas representativas de elétricos no setor de aluguel.
O presidente da ABLA, Paulo Miguel Junior, diz que “para não perder o bonde da história, as locadoras precisam seguir atentas ao avanço da presença dos elétricos”, acrescentando que a eletrificação de frotas também será tema de uma masterclass durante o XVI Fórum Internacional do Setor de Locação, entre 19 e 21 de outubro deste ano.
Para Miguel Junior, é visível o desejo de um crescente número de pessoas, especialmente as mais jovens, por sustentabilidade e isso se aplica também ao transporte. “As locadoras estão sendo cada vez mais incluídas entre os principais players de mobilidade urbana e isso implica em necessidade de nos ajustarmos ainda mais rapidamente às novas tendências”, completa o dirigente da associação.
O hidrogênio verde e a transição para uma economia de baixo carbono
Por Paulo Alvarenga, vice-presidente da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo.* –
Buscar uma solução para descarbonizar a indústria é uma questão de sobrevivência. Para conter o aquecimento global e, assim, viabilizar o futuro do nosso planeta, é imprescindível reduzir as emissões de CO2 de forma drástica e rápida. O caminho é substituir os combustíveis fósseis por recursos renováveis e, nesse cenário, o hidrogênio entra como peça-chave dessa grande transformação, viabilizando uma economia zero carbono.
Conter o aquecimento do planeta em 1,5°C até o fim do século e reduzir as emissões de gases de efeito estufa pela metade, até 2030, é possível, por meio da adoção de estratégias de desenvolvimento econômico focadas em investimentos em tecnologias verdes e na criação de novas cadeias de produção. Nesse sentido, pesquisadores, governos e empresas têm defendido que o hidrogênio verde é praticamente a única alternativa de conversão e armazenamento de energia, de fato, totalmente sustentável para descarbonizar a economia.
O hidrogênio, um dos elementos mais abundantes no planeta, é uma matéria-prima muito importante para a indústria. Porém, mais de 90% da produção mundial ocorre a partir da reforma do gás natural, de origem fóssil.
Há décadas existem tecnologias estabelecidas para se produzir esse insumo de forma sustentável e em larga escala, como é o caso da eletrólise da água. O processo é simples e consiste em usar eletricidade de fontes limpas e renováveis para separar o oxigênio e o hidrogênio da água, obtendo, assim, o hidrogênio verde.
O Hydrogen Council calcula que, até 2050, o mercado de hidrogênio verde será responsável por cerca de 20% da demanda de energia no mundo. Ele é estimado em US$ 2,5 trilhões, em 2050, cerca de metade do mercado atual de petróleo.
O Brasil é um dos países com maior potencial de geração de energia elétrica renovável do mundo (mais de 80% da matriz é de energias hídrica, eólica, solar e de biomassa), com um dos menores custos marginais de produção. Além disso, a intermitência das fontes solar e eólica pode ser compensada pela fonte hídrica – uma combinação praticamente imbatível no cenário mundial. Desta forma, o Brasil é candidato a se tornar um dos maiores produtores e exportadores mundiais de hidrogênio verde.
O país ainda possui uma base industrial instalada que gera um mercado interno relevante. Considerando só a demanda do mercado interno, o hidrogênio verde pode ser empregado pelo setor de óleo e gás no refino do petróleo para produção da gasolina e do diesel. Ainda podemos citar o diesel verde, obtido pela hidrogenação de óleos vegetais, e que vem sendo acrescido ao diesel convencional de forma crescente no Brasil. Outro setor muito importante é o de fertilizantes nitrogenados (como amônia e ureia), o que contribuiria para reduzir os custos de produção do setor agrícola e sua dependência estratégica de um insumo essencial, visto que 80% dos fertilizantes usados no País são importados. Vale ressaltar que a indústria nacional de fertilizantes está estagnada há anos, em função do alto custo do gás natural.
Contudo, na maioria dos casos, o hidrogênio verde ainda é menos competitivo do que o hidrogênio cinza – produzido a partir de fonte fóssil. Para torná-lo mais competitivo, estima-se que seja preciso instalar cerca de 65GW de eletrólise da água ao longo dos próximos anos para que a economia de escala permita diminuir os custos de produção, segundo estudo do Hydrogen Council em parceria com a consultoria McKinsey.
Para que isso ocorra, é necessária uma política governamental que crie um mecanismo para garantir a compra desse hidrogênio verde, similar ao atual modelo de leilões de energia no Brasil, viabilizando os investimentos privados na cadeia produtiva.
A Alemanha já deu os primeiros passos nesse sentido e estabeleceu, em 2020, sua Estratégia Nacional do Hidrogênio, pela qual pretende investir €9 bilhões em projetos, não só no território alemão, como também em outros países, garantindo, o suprimento de hidrogênio verde para o mercado local. O governo alemão considera o hidrogênio verde a principal opção sustentável para o país se tornar climaticamente neutro até 2050.
Outra referência importante é a Aliança Brasil-Alemanha para o Hidrogênio Verde, plataforma criada por entidades empresariais para intermediar a compra e venda do insumo para a Alemanha, o que reforça a relevância do Brasil como fornecedor internacional.
O Brasil pode gerar hidrogênio verde de forma altamente competitiva e eficaz para consumo doméstico e para exportação. Segundo o governo, o País está avançando no estudo do potencial da regulamentação e dos mercados de hidrogênio, com uma perspectiva realista e que contribua para o desenvolvimento tecnológico e industrial. Resta saber se haverá, de fato, a mobilização necessária para aproveitar essa janela de oportunidade, dada a dinâmica internacional. Já há grandes empresas com décadas de experiência nessa tecnologia consolidada, comprometidas com a sustentabilidade ambiental e com o desenvolvimento desse mercado. O potencial de ganho vai além do investimento produtivo, emprego e renda. É possível reposicionar internacionalmente a imagem do Brasil como um país engajado na causa ambiental e um dos celeiros energéticos do mundo.
* Paulo Alvarenga é CEO da Thyssenkrupp na América do Sul e vice-presidente da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo.
(#Envolverde)
Mudança Climática pega no seu bolso
por Claudia Visoni, ambientalista e codeputada estadual, Raquel Marques, sanitarista e codeputadas estadual e Duda Alcântara, arquiteta e coordenadora da Comissão Parlamentar do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo –
O clima mudou e as secas, enchentes, ondas de calor e de frio se tornarão cada vez mais numerosas e intensas daqui para frente. Isso é o que os cientistas estão avisando faz tempo, mas agora ficou impossível discordar, pois estamos vendo desastres climáticos todos os dias. No hemisfério norte o verão de 2021 tem sido arrasador. A Itália registrou a temperatura recorde de 48,8ºC, os termômetros chegaram a 49ºC no Canadá e a 52ºC no Iraque. China e Alemanha tiveram enchentes devastadoras, a Sibéria incendiou e os Estados Unidos vivem uma seca terrível, muitos incêndios e ondas de calor. Agora em agosto, 10 estados norte-americanos estão entrando em racionamento de água.
Aqui no Brasil também estamos passando por uma seca histórica. Os reservatórios ficam mais vazios a cada dia, o que coloca em risco a produção de energia, de alimentos e o abastecimento de água. Tivemos uma onda de frio muito intensa, que levou neve e geada a locais onde isso não é usual, reduzindo as safras agrícolas. A crise do clima já está doendo no bolso das brasileiras e dos brasileiros, pois energia elétrica e comida encareceram por causa da seca.
Temperaturas extremas não prejudicam apenas as colheitas. Elas são um grave problema de saúde pública. Nas ondas de calor recentes da Europa, Estados Unidos, Canadá e Iraque, por exemplo, milhares de pessoas morreram subitamente e muito mais gente teve sua situação de saúde agravada. Idosos e crianças pequenas correm mais riscos. Como os problemas climáticos não vão desaparecer e tendem a piorar, quanto antes começarmos a nos preparar para essas situações, melhor.
Tudo está por fazer e nossas leis ainda não levam em conta a nova realidade do planeta. Nós três, autoras desse artigo, participamos da política no Estado de São Paulo e decidimos escrever o Projeto de Lei da Segurança Climática, que representa um primeiro passo nessa necessária transformação. E qual é o local que precisa ser mais protegido para que as pessoas tenham condições de vida? A residência, certo? Em casa dormimos, nos alimentamos e nos refugiamos quando necessário. Então a prioridade na adaptação dos ambientes deve ser das moradias. Pensando nisso, a proposta da nova lei é muito simples: que os condomínios sejam obrigados a discutir os riscos climáticos e a criar planos para cuidar melhor de seus moradores diante da possibilidade de temperaturas elevadíssimas ou muito baixas, falta d’água, apagão e avanço do mar. Decidimos focar nas moradias coletivas, os condomínios, pois os habitantes de casas individuais têm mais liberdade de construir suas soluções sem estarem amarrados aos desejos de outras pessoas.
Não queremos ditar o que precisa ser feito para que cada condomínio se prepare para os problemas do clima. Os diferentes agrupamentos de residências vivem realidades próprias, o que inclui a disponibilidade de mais ou menos dinheiro para investir em obras. Há algumas décadas, incêndios terríveis em grandes edifícios deram origem a normas de construção e procedimentos de emergência que hoje são regras que todas as construções precisam cumprir. Não queremos esperar tragédias e mortos para iniciar a era das adaptações climáticas. Já é certeza que as condições atmosféricas e hídricas ficaram mais hostis, então não podemos adiar as precauções. E tudo começa com colocar nas pautas das reuniões de condomínio a avaliação dos riscos e as providências que precisam ser tomadas.
A ONU acaba de lançar o manual chamado “Um Guia Prático para Construções e Comunidades Resilientes ao Clima” que pode ser encontrado na internet e tem muitas sugestões de baixo custo. Além disso, recomendamos avaliar a possibilidade de implantar soluções como cisternas e reúso de água, estratégias de resfriamento passivo (ventilação natural, beirais e sombras nas fachadas), energia solar, biogás, telhados verdes, jardins e arborização, lagos artificiais, pisos permeáveis e semipermeáveis, telhados verdes e uso de materiais de construção com melhor desempenho térmico. É preciso lembrar que não poderemos confiar totalmente em soluções que dependam da energia elétrica, uma vez que o Brasil está vivendo a possibilidade de racionamento e nos locais onde acontecem eventos climáticos extremos muitas vezes o abastecimento de energia é interrompido.
Diante de um desafio tão gigantesco como a mudança do clima no planeta inteiro, nossa tendência é a negação ou o pânico. Mas há muito o que fazer para amenizar a situação. As adaptações, um caminho importante para que nossas vidas sigam em relativa normalidade, demandam tempo e algum dinheiro. Por isso precisam começar o quanto antes. Cada pode iniciar com as pequenas atitudes e intervenções que sejam possíveis agora.O importante é agir.
(#Envolverde)
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