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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Mourão e a Amazônia: paranoia e mistificação

por Marcio Astrini e Suely Araújo*, do Observatório do Clima – Quem esperava que 2021 pudesse trazer uma mudança nas atitudes do governo brasileiro sobre a Amazônia certamente se frustrou com o artigo do general Hamilton Mourão em O Estado de S.Paulo, no último dia 27. A fim de justificar a política antiambiental de Jair Bolsonaro, que nos últimos dois anos colocou o Brasil em desgraça perante o mundo, o vice-presidente cometeu fraudes intelectuais. Em vez de ter a humildade de reconhecer erros e se propor a corrigir rumos, a missiva dobra a aposta na criação de uma realidade paralela, esperando quiçá que a repetição da mentira a torne verdade. Mourão ataca as supostas “crenças ambientais plantadas na mente dos brasileiros”, comparando-as a “ervas daninhas” que sufocaram a pobre população da Amazônia, impedindo seu desenvolvimento e trazendo “danos incalculáveis”. Em dois parágrafos, o general faz com a história recente do Brasil o que o herói do Presidente, Brilhante Ustra, fazia com os cadáveres de suas vítimas: vilipendia e oculta. Se tivesse a honestidade para olhar para o passado, Mourão saberia que o nascedouro dos níveis de miséria, violência e devastação vistos hoje na Amazônia foram os anos de políticas desastradas implementadas pela ditadura militar. Dos incentivos da Sudam à entrega de vastas terras públicas a multinacionais, passando pela Transamazônica, em 1972, e o desastre da ocupação de Rondônia, nos anos 1980, os planos de integração dos militares produziram inchaço populacional, corrupção e caos fundiário. Seu maior legado são as cinzas nas quais 20% da floresta amazônica (e não 16%, como o general afirma) foi transformada, principalmente a partir do governo Médici. A ideologia que justificou o avanço da ditadura sobre a floresta é a mesma que Mourão ora busca resgatar com o Conselho da Amazônia. Trata-se de noções geopolíticas cozinhadas há décadas na Escola Superior de Guerra, que veem terras indígenas como cabeças-de-ponte de uma “internacionalização”, ONGs como “antagonistas” e a pata do boi como “progresso”. Tal paranoia já era lixo ultrapassado nos anos 1980. Não tem lugar no século 21. Os governos civis, com maior ou menor ênfase, buscaram desde 1988 enfrentar a problemática herança deixada pelos militares na região. Tiveram maior sucesso entre 2004 e 2012, quando um conjunto inédito de políticas públicas permitiu expressiva redução do desmatamento. O que o general vice-presidente chama de “crenças equivocadas” cortou a devastação em 83% no mesmo período em que o Brasil cresceu em média 4,1% ao ano — a maior arrancada do PIB desde a redemocratização. O agronegócio na Amazônia também cresceu nesse período: como mostrou um importante estudo publicado na revista Science em 2014, a produção de soja quase duplicou e a de carne cresceu mais de 50% nesse mesmo período. Em tempos normais, ninguém deveria precisar lembrar ao vice-presidente da República sobre a história recente da Amazônia. Mas infelizmente, não vivemos tempos normais. Mourão mente quando diz que a Amazônia “sofria com a ausência do Estado”: o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, de 2004, que Bolsonaro enterrou assim que assumiu o governo, significou justamente a presença do Estado combatendo ilícitos. Ausência do Estado, essa sim, é vista desde 2019. De lá pra cá, saqueadores de florestas, madeireiros ilegais, grileiros de terras e invasores de áreas públicas vivem seus melhores momentos, sabedores que da esplanada dos ministérios partem as ordens para passar boi e boiada, diminuir a fiscalização e cortar as operações de campo. Fiscais que ousam aplicar a lei ambiental são perseguidos e afastados de suas funções. Não à toa, em dois anos de governo Bolsonaro, o desmatamento subiu por duas vezes consecutivas, tal qual os incêndios florestais. Aumentaram também as invasões de terras indígenas e as emissões nacionais de gases que provocam as mudanças climáticas. Já o fundo Amazônia, que conta com quase R$ 3 bilhões de reais e deveria ser utilizado para o combate ao desmatamento, encontra-se convenientemente engavetado pela atual gestão. Os retrocessos são tantos e tamanhos que, em apenas 24 meses de mandato, o governo do qual Mourão faz parte conseguiu a façanha de ser reconhecido mundialmente como um exemplo de conduta antiambiental. Mourão seleciona evidências quando recita números da fracassada Operação Verde Brasil 2. Pensada primeiramente para enfrentar as queimadas, a operação que já está em seu sétimo mês produziu a extraordinária cifra de 15% de aumento nos focos de calor em 2020 em relação aos índices escandalosos de 2019. Com cinco vezes mais efetivo e seis vezes mais orçamento que o Ibama, multou, nos primeiros seis meses, 18% menos que o Ibama sozinho no mesmo período do ano passado, e isso num momento em que o crime ambiental disparou. Pior ainda, eliminou a transparência dos dados de fiscalização, computando como seus resultados as ações de órgãos estaduais e das polícias. Para complementar o quadro, os processos administrativos para julgamento dos novos autos de infração aplicados pelos órgãos federais se encontram paralisados desde outubro de 2019, eliminando-se o poder dissuasório das multas aplicadas por eles. O desmatamento durante a operação é o triplo da média dos cinco anos anteriores ao governo Bolsonaro para o período janeiro-novembro — só é menor do que o próprio recorde de Bolsonaro de 2019. A verdadeira erva daninha a assolar a Amazônia e o Brasil é o governo de Jair Bolsonaro. Os únicos projetos do Presidente para a Amazônia são aqueles que ele já impõe ao resto do país: negação da ciência e do conhecimento, desmonte de políticas públicas, inação governamental e destruição. *Marcio Astrini é secretário-executivo do Observatório do Clima Suely Araújo é especialista-sênior em Políticas Públicas do Observatório do Clima. Foi presidente do Ibama (2016–2018) Foto gal. Mourão: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil Publicado originalmente no Medium

Vozes dos Biomas: a importância da cidadania ambiental à conservação de espaços públicos, por Samyra Crespo

Por Sucena Shkrada Resk – A história nos fornece elementos imprescindíveis para que construamos uma cultura de conservação dos biomas. Quem sabe bem disso, é Samyra Crespo, Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo, que tem uma trajetória diversificada no terceiro setor e no poder público, e como coordenadora de pesquisas importantes ao longo das últimas décadas. Ela é a nossa 52ª convidada, no Vozes dos Biomas/Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk e nos traz sua leitura sobre a mobilização cidadã pelos biomas e o papel fundamental de espaços como o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, na trajetória do ambientalismo brasileiro. Divulgação - Jardim Botânico do RJ Samyra nos traz um repertório diversificado, proveniente de atuações em diferentes fases de sua vida, como jornalista, secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, presidente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e diretora do Programa de Meio Ambiente e Desenvolvimento do Instituto de Estudos da Religião (ISER). Atualmente é pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins e do ISER. Entre importantes iniciativas que coordenou ao longo de sua carreira, está a pesquisa “O que o brasileiro pensa sobre o Meio Ambiente” (inicialmente Ecologia), elaborado no período da Rio-92, que teve cinco edições até 2012; como também contribuições importantes a políticas públicas, como na elaboração do Plano Nacional do Consumo Sustentável. Ficha técnica: • 52ª Entrevista – Vozes dos Biomas/ Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada – Tema: A importância da cidadania ambiental à conservação de espaços públicos – Entrevistada: Samyra Crespo, ambientalista e Doutora em História Social – Pauta, produção, mediação e edição: jornalista Sucena Shkrada Resk – Quando: 29/12/2020 (no ar em 05/01/2021) – Onde: Canal Youtube – jornalista Sucena Shkrada Resk https://www.youtube.com/c/SucenaShkradaResk -Link: Inscrevam-se por aqui! Todos são bem-vindos! Saibam mais sobre o Blog Cidadãos do Mundo e o Projeto Vozes dos Biomas – jornalista Sucena Shkrada Resk em: https://www.cidadaosdomundo.webnode.com e https://cidadaosdomundo.webnode.com/projeto-vozes-dos-biomas-sucena-s-resk/ Também curtam e sigam em: https://www.facebook.com/BlogCidadaosDoMundoJornalistaSucenaShkradaResk/ #Envolverde

Brasil se afasta da luta contra a emergência climática; como será em 2021?

por Ricardo Abramovay* – 2021 será o ano da retomada do multilateralismo, que permitiu ao mundo o mais importante compromisso internacional de todos os tempos: o Acordo Climático de Paris. Em dezembro de 2015, 192 países selaram a ambição de limitar a elevação da temperatura global média a um patamar entre 1,5ºC e 2ºC. Agora, a vitória de Joe Biden nos EUA, a formulação de um Green Deal europeu e os compromissos recentemente assumidos pela China aproximam o mundo deste objetivo. Os anúncios feitos pela Índia, pelo Japão, pela Grã-Bretanha e pela Coreia do Sul vão exatamente na mesma direção. O Acordo de Paris contém uma cláusula que parecia inviabilizá-lo, mas que se mostrou, ao que tudo indica, eficiente. Cada país se comprometia com metas voluntárias, estabelecidas sem a interferência de qualquer outro país ou de uma autoridade internacional. São as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês). Era um mecanismo inédito. O resultado foi que, se todos cumprissem suas metas, a elevação da temperatura global média até 2100 seria bem superior ao objetivo internacional de limitá-la a dois graus. A estimativa era que se chegaria a catastróficos 3,6ºC de aumento da temperatura global média. Muita gente viu esse número como expressão da inocuidade do Acordo de Paris e da impossibilidade de uma colaboração internacional construtiva. Mas o Acordo contém um mecanismo que se mostrou inteligente. Ele postula que, a cada cinco anos, todos os países signatários se comprometeriam a ampliar sua ambição, estabelecendo objetivos nacionais de redução de emissões maiores que os de cinco anos atrás. Claro que nenhum país é obrigado a fazer isso e alguns, como o Brasil, a Arábia Saudita, a Indonésia, o México e a Austrália, não ampliaram e até reduziram sua ambição. Na celebração dos cinco anos do Acordo de Paris, líderes de setenta países reuniram-se virtualmente com dirigentes empresariais, prefeitos e organizações da sociedade civil, na Cúpula da Ambição Climática. Os resultados são promissores. Conforme relatório da Carbon Action Tracker, está claro que a “transição para uma sociedade de emissão zero já começou”. Isso não quer dizer que a luta contra o que Antonio Guterrez chamou de “emergência climática” esteja ganha. A saída de Trump do Acordo de Paris, a explosão do desmatamento na Amazônia sob Bolsonaro, a continuidade da abertura de usinas a carvão na China e a pressão que os interesses fósseis vão exercer contra os planos do governo Joe Biden são sinais claros dos riscos atuais. O dado novo é que já são 127 os países que se comprometem com a neutralidade de suas emissões de gases de efeito estufa até meados deste século. Se estes países cumprirem suas metas, a elevação da temperatura global média até 2100 será bem menor do que a prevista inicialmente no Acordo de Paris cinco anos atrás. O estudo da Carbon Action Tracker calcula que o aumento da temperatura global média seria de 2,1ºC e não mais de 3,5ºC, como apontava a ambição estabelecida em 2015. É claro que promessas podem ser simplesmente palavras. O importante é que estas novas metas se materializam em planos cuja ambição se apoia em inovações que, pouco a pouco, se convertem no padrão global dominante. Os países que se recusam a adotar metas mais ambiciosas são aqueles cuja economia concentra-se em recursos fósseis, ou que estão distantes da fronteira científica e tecnológica que vai marcar os setores mais importantes da economia contemporânea, ou seja, a energia, a mobilidade e a produção de materiais. A China, por exemplo, vai instalar daqui até 2050 o correspondente a mais de cinquenta usinas de Itaipu em energia solar e eólica. Índia, Japão, Coreia do Sul e a própria China estão investindo pesado na total eletrificação de seu sistema de transportes terrestres. Joe Biden, que recoloca os EUA dentro do Acordo de Paris no primeiro dia de seu governo, quer tornar o sistema energético dos Estados Unidos neutro em carbono até 2035. O conjunto da economia norte-americana deve ser descarbonizado até 2050. Estas metas só podem ser atingidas com transformações profundas na vida social. Uma sociedade com mobilidade terrestre eletrificada significa a supressão dos postos de gasolina e das oficinas mecânicas. As residências hoje aquecidas por gás ou óleo terão que converter seus equipamentos para a eletricidade. Estes são apenas alguns exemplos que mostram a profundidade do impacto que o combate à emergência climática terá sobre a vida dos cidadãos. Ao mesmo tempo, a oportunidade é extraordinária, pois está aberto um caminho fértil para o aprofundamento da inovação científica e tecnológica em todos os campos da vida social. O Brasil, que era líder climático, foi colocado pelo atual governo como adversário deste movimento. Junto com a Indonésia, somos os únicos países do mundo em que metade das emissões de gases de efeito estufa deriva de desmatamento. Combater o desmatamento não exige ciência, tecnologia, nem tampouco transformações econômicas, sociais e culturais como as necessárias para a luta climática nos países em que o grosso das emissões vem da queima de combustíveis fósseis. A diplomacia da próxima década será, cada vez mais, regida por questões socioambientais. Erosão da biodiversidade e emergência climática serão os temas das duas mais importantes conferências globais de 2021, a da biodiversidade, a ser realizada na China, e a climática, que ocorrerá em Glasgow, na Escócia. E o Brasil, que poderia se apresentar ao mundo como potência ambiental, protegendo a Amazônia, patrimônio essencial para enfrentar a emergência climática e valorizando sua sociobiodiversidade, está optando por se afastar da mais importante fronteira científica e tecnológica da inovação contemporânea. Ser pária internacional hoje não traz apenas consequências diplomáticas. É uma condição que condena a própria economia à retaguarda daquilo que o mundo tem hoje de mais avançado. Os votos só podem ser de que em 2021 cresça a mobilização democrática contra a seita fundamentalista que desperdiça os benefícios que o Brasil pode tirar de sua contribuição à luta global contra a emergência climática e a erosão da biodiversidade. Imagem de destaque Anja🤗#helpinghands #solidarity#stays healthy🙏 por Pixabay Ricardo Abramovay é professor Sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP. Foi Autor de “Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza” (Ed. Elefante/Terceira Via, São Paulo).

Lições e oportunidades perdidas para o meio ambiente no 2020 do Covid

“Se em 2021 os líderes políticos da comunidade internacional aprenderem com a lição de 2020, uma crise global, aquela do coronavírus, poderia servir para reduzir ou resolver outra, a do aquecimento do planeta”, escreve Enrico Franceschini, em artigo publicado por La Repubblica, 30-12-2020. A tradução é de Luisa Rabolini. IHU Eis o artigo. O lockdown global causado pelo Covid foi uma oportunidade perdida de nos salvar das mudanças climáticas? Quem faz a pergunta é o The Guardian, em um longo artigo publicado no dia 30 em sua página inicial. A resposta é sim e não, ou melhor: depende. Nos dois ou três meses da última primavera do hemisfério norte, quando as cidades se esvaziaram e a atividade humana desacelerou como nunca antes desde a Segunda Guerra Mundial, os benefícios para a Terra rapidamente se tornaram evidentes: ar menos poluído, águas mais límpidas, a natureza capaz de recuperar espaços. Mas quando as pessoas saíram de suas casas e o trabalho foi retomado, esses progressos foram rapidamente eliminados. Porém, se em 2021 os líderes políticos da comunidade internacional aprenderem com a lição de 2020, uma crise global, aquela do coronavírus, poderia servir para reduzir ou resolver outra, a do aquecimento do planeta. O experimento involuntário Os cientistas definiram o lockdown como “um experimento involuntário”. Durante a primavera do hemisfério setentrional, quando as restrições impostas pela pandemia atingiram o auge, os efeitos da presença humana caíram a um nível que não era visto há décadas. Os voos aéreos diminuíram 90 por cento. O tráfego nas estradas se reduziu pela metade. As emissões de gases nocivos na China, a maior fonte de dióxido de carbono na atmosfera, caíram em um quinto. Os sismólogos conseguiram até detectar um nível inferior de vibrações do chamado “ruído cultural” produzido pela população mundial: como se o silêncio tivesse caído na Terra, ou melhor, apenas seu som natural tivesse voltado a ser ouvido. De Katmandu à Veneza Embora breve, a pausa na laboriosidade e no movimento dos seres humanos produziu efeitos imediatos em todos os lugares. Os residentes de Katmandu, no Nepal, ficaram admirados com a visão do Monte Everest pela primeira vez em cinquenta anos. Nas redes sociais, vimos imagens incríveis de coiotes na ponte Golden Gate de São Francisco, javalis nos arredores de Barcelona e gamos não muito longe da Casa Branca em Washington. À lista mencionada pelo jornal londrino poderíamos acrescentar, no que diz respeito à Itália, as águas dos canais de Veneza que se tornaram cristalinas e cheias de peixes, ou o avistamento de um veado na praia perto de Roma de Cesenatico. A natureza havia começado a recuperar seu território. E o mundo estava se limpando: globalmente, as emissões nocivas registraram uma queda de 7%, a maior queda desde que essas estatísticas começaram a ser realizadas. A mudança foi claramente visível do espaço, onde os satélites fotografaram uma redução evidente da poluição nos cinturões industriais, de Wuhan na China a Torino na Itália. Oferecendo, inclusive, um alívio mínimo às vítimas da Covid, houve 11.000 mortes a menos na Europa com base em projeções de mortes por doenças respiratórias relacionadas à poluição. Tudo como antes Mas os progressos tiveram vida curta, relata o The Guardian. Assim que o primeiro lockdown terminou, o tráfego começou a crescer novamente e a poluição do ar seguiu o mesmo ritmo. Uma pesquisa em 50 cidades britânicas mostrou que, em 80% dos casos, os níveis de poluição do ar voltaram ao mesmo nível ou piores do que antes da pandemia. Avistamentos de montanhas distantes desapareceram na névoa da poluição. Os animais silvestres voltaram a se esconder. E o relatório anual da ONU considerou o impacto do lockdown sobre as emissões nocivas como “insignificante”, equivalente a uma diferença de apenas 0,01% entre agora e 2030. Fazendo as pazes com a natureza Uma oportunidade perdida, então? Sim, embora obviamente o prolongamento do lockdown teria custos econômicos com consequências imediatas para a sobrevivência da população da Terra. Mas a lição do Covid poderia não ser completamente perdida. Os líderes políticos parecem ter entendido que a pandemia tem suas raízes nos danos ambientais causados pelo homem: neste sentido, o coronavírus é um alerta de outras crises que poderiam vir no futuro se continuarem o desmatamento e os desastres naturais que os cientistas vincularem às emissões de gases de efeito estufa. O ambicioso compromisso global de responder à crise do Covid investindo na economia verde aproxima o objetivo do acordo de Paris de limitar o aumento médio da temperatura da Terra a 2º Celsius até o final do século. As conferências internacionais agendadas para 2021 sobre o tema da poluição serão uma oportunidade para verificar se a grande crise de 2020 serviu para algo. Como secretário-geral da ONU, Antonio Guterres declarou, em um discurso apaixonado há algumas semanas, que fazer as pazes com a natureza será o objetivo principal do século XXI. “A humanidade está declarando guerra à natureza”, disse Guterres. “Este é um comportamento suicida. A natureza sempre reage com força e fúria, como está fazendo agora.” (EcoDebate, 06/01/2021) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação. [IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

EcoDebate - Edição 3.584 de 06 / janeiro/ 2021

Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura Concentração de CO2 bate recorde em 2020 mesmo com pandemia A Pandemia e o desrespeito à vida Fumaça sangrenta: os milhões mortos pela poluição do ar Lições e oportunidades perdidas para o meio ambiente no 2020 do Covid Pequenas atitudes que podem ajudar na conservação dos oceanos “Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

EcoDebate - Edição 3.583 de 04 / janeiro/ 2021

Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura Covid-19: 83 milhões de casos e 1,8 milhão de mortes Vegetação sob todas as suas formas é essencial ao ecossistema urbano Em plena pandemia, perda de recursos coloca o SUS à beira do colapso Agroextrativismo incentiva a preservação do Cerrado, aponta pesquisa São Paulo: Estabelecimentos comerciais estão proibidos de fornecer utensílios feitos de plástico descartável “Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

Retrospectiva 2020 – Antártica, 20 graus: o continente gelado emite sinal de alerta

Por Sucena Shkrada Resk* – Registro de recorde não é motivo de celebração Nem sempre os recordes são sinais de celebração. O que dizer, então, sobre o registro da temperatura de 20,75 graus C na Ilha Seymour, na Antártica, no último dia 9 de fevereiro? É bom frisar – GRAUS POSITIVOS, no continente gelado. O anúncio foi feito pelo cientista brasileiro Carlos Schaefer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que integra o Projeto brasileiro Terrantar (que monitora os impactos das mudanças climáticas em 23 locais na Antártica), ao jornal britânico The Guardian. O que significa esta informação? Em linhas gerais, que o derretimento do gelo se acelera e contribui ao aumento do nível dos oceanos e mares. Com isso, há a desestabilização gradativa de todo o ecossistema e da vida na zona costeira e em países insulares, neste século, e clima no planeta. Mais um ângulo dos efeitos das Mudanças Climáticas e do Aquecimento Global na era fóssil e dos desmatamentos, que geram o descontrole dos Gases de Efeito Estufa (GEEs) e refletem no aumento da temperatura global. A pergunta que persiste diante deste desafio da humanidade: há tempo para ceticismos? Apesar de ainda haver um trâmite oficial protocolar de se aguardar a confirmação dos dados pela Organização Mundial Meteorológica Mundial (OMM), o fato irrefutável é o seguinte: não há o que comemorar e nunca foi tão necessário defender a Ciência e o investimento em pesquisas. E priorizar a manutenção das pesquisas na base antártica brasileira Comandante Ferraz, reinaugurada em janeiro deste ano, após incêndio ocorrido há oito anos. Além da Antártica, o processo de derretimento do gelo, com o aumento mais frequente das temperaturas, está acelerado na Groenlândia e no outro extremo do planeta, no Ártico, como também no Alasca e nos Andes. O relatório sobre os Oceanos e Criosfera produzido por cientistas que integram o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), apresentado na Conferência das Partes da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima (COP-25), em dezembro, em Madri, reitera os alertas. E não é por acaso que foi instituída a Década das Nações Unidas para a Ciência dos Oceanos (2021-2030). Antes dessa temperatura acima dos 20 graus C na Antártida, foi registrado lá, em 1982, 19,8 graus C, na Ilha Signy. No dia 6 de fevereiro deste ano, o extremo Norte da Península Antártica havia registrado 18,3 graus C, segundo pesquisador argentino da Base Esperanza. E em 2015 – 17,5 graus C. A porção oeste do continente tem apresentado os maiores impactos. As gigantescas geleiras Thwaites e Pine Island estão literalmente derretendo. Por que a Antártida é tão importante para a humanidade no planeta? A resposta é simples: 70% da água doce se concentram no formato de gelo e neve no mundo. Com todas as inconstâncias climáticas desde a era pré-industrial, cientistas do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC) avaliam que os oceanos estarão até 110 cm mais altos até o final deste século. Isso quer dizer que o comprometimento de países insulares e de zonas costeiras é inevitável e deslocamentos migratórios em decorrência das mudanças climáticas e do Aquecimento Global já são uma realidade. Já em 2017, o Laboratório de Propulsão à Jato da NASA tem realizado previsões sobre o que pode acontecer com 293 cidades portuárias no mundo, com os derretimentos em massa do gelo em todas as principais áreas no mundo. Aqui no Brasil, Belém, Recife e Rio de Janeiro sofrerão impactos. O que causa maior preocupação é que as cidades excepcionalmente se preparam para estes cenários e poucas têm planos de combate às mudanças climáticas, que inferem primordialmente a adaptação e redução de danos. Na Antártica, o ecossistema já sofre baixas significativas. Os cientistas têm pesquisado o declínio de mais de 50% nas colônias de pinguins de chinstrap, que dependem do gelo marinho, na região da península Antártica. O clima, por sua vez, fica cada vez mais instável, porque altera as correntes oceânicas e os níveis do Aquecimento Global, segundo pesquisadores. É uma retroalimentação de comprometimentos, que tem o “dedo” do ser humano, neste período chamado Antropoceno. *Sucena Shkrada Resk – jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade. #Envolverde