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segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
Retrospectiva 2020 – O dia em que a terra parou
Março/2020 – Por Deivison Pedroza* –
O mundo não consegue chegar a um consenso sobre que medidas tomar para evitar uma tragédia maior do que a prevista inicialmente com relação ao Covid-19. Enquanto alguns governantes pregam políticas públicas com o intuito de garantir o bem-estar da população, outros preferem focar numa abordagem para garantir que a economia não pare. No meio dessa confusão de opiniões e, suas peculiaridades, o povo assiste confuso a tanta desinformação.
E pensar que muito antes dessa loucura, em 1977, Raul Seixas, o Maluco Beleza, havia cantado em uma de suas canções o que aconteceria se a Terra parasse por um dia!
O fato é que hoje a sensação que temos por estarmos em confinamento forçado, aguardando nossas vidas voltarem ao normal é que, se a Terra não parou, ela diminuiu drasticamente seu ritmo. As ordens de “lockdown” ao redor do mundo fecharam comércios, hotéis e indústrias, diminuíram a circulação de pessoas nas ruas e nos obrigaram a encontrar novas maneiras de passar o tempo, enquanto aguardamos o sinal para voltar as nossas ocupações anteriores. O nosso momento de lazer, virou rotina.
Seria de extrema valia para a humanidade aproveitar esse momento para fazer uma reflexão sobre seus atos e os efeitos acarretados na constante quebra que a humanidade impõe ao equilíbrio do planeta. Somos criaturas racionais, dotadas de inúmeras vantagens perante os outros membros do reino animal. Mas, em certos momentos, nos parece faltar uma conexão maior com o planeta: um respeito às suas limitações de recursos e aos outros seres que aqui habitam. Falta atenção aos sinais dados, demonstrando um certo incômodo a nossa soberba em acharmos os donos dele.
O ser humano parece não acreditar naquilo que os especialistas vêm dizendo ano a ano. Esse roteiro, chega em alguns momentos ser digno de uma superprodução hollywoodiana, na qual sempre existe um personagem tentando a todo custo informar as pessoas da tragédia que se aproxima, mas é ignorado com sucesso. Quando consegue ter seus avisos notados, assiste suas propostas de mudanças serem desvirtuadas e desacreditadas por puros conflitos ideológicos. Acordos sérios são descumpridos sem nenhuma dificuldade, sem nenhuma punição aos responsáveis. O abismo se aproxima numa velocidade imensa, mas poucos parecem dispostos a pisar no freio.
E então, logo agora, temos em nossas mãos a oportunidade de reavaliarmos a nossa relação com a nossa casa. Será que não era hora de a humanidade reduzir um pouco esse ritmo louco e ganancioso com que “governamos” o planeta? Por que para alguns é tão difícil entender que a vida não deveria se resumir a acumular recursos financeiros, em prol da destruição do único lugar no sistema solar habitável para a nossa estrutura molecular? Por que estamos assistindo tantas pessoas colocarem a situação econômica acima de vidas humanas?
O que isso tudo vai nos ensinar, quando no futuro as próximas gerações olharem para os feitos do passado, feitos que nós somos os responsáveis? Quem sabe um dia acordaremos dessa estupidez que não nos permite enxergar o óbvio: a terra não aguenta mais o peso que a humanidade lhe impõe. O planeta não precisa parar, como na canção de Raul. Mas não faria mal algum a ele, e nem a nós, se diminuíssemos o ritmo que estamos vivendo.
Só o tempo dirá o destino da humanidade…
* Deivison Pedroza é CEO da Verde Ghaia.
#Envolverde
Retrospectiva 2020 – Nada se compara ao parasita brasileiro
por Ladislau Dowbor, publicado originalmente no Outras Palavras –
A economia está parada. Há 50 milhões de desempregados e precários. A fome voltou e os sem-teto estiram-se nas calçadas. Duzentos homens engordam suas imensas fortunas, sem nada produzir. Coincidência? Como nos livraremos deles?
Primeiro, a coisa óbvia: nosso problema não é falta de dinheiro. Com um PIB de 6,8 trilhões de reais e uma população de 210 milhões, o que produzimos hoje representa 11 mil reais por mês por família de quatro pessoas. Com o que produzimos hoje, mesmo sem procurar uma igualdade opressiva, apenas uma desigualdade menos obscena, dá para todos viverem de maneira digna e confortável. Nosso problema não é pobreza, e sim desgoverno. Ou, para dizê-lo de maneira hoje atualizada, é falta de governança, de fazer o conjunto funcionar.
Na minha modesta aritmética econômica – sou avesso à econometria – faço as contas, follow the money por assim dizer, apresentando o fluxo financeiro integrado. Calculando o quanto se tira da capacidade de compra das famílias por meio do absurdo nível de juros sobre o cheque especial, do rotativo do cartão, dos crediários e do empréstimo bancário, somando os juros sobre os créditos concedidos às empresas, chegamos a 1 trilhão de reais. Dado que coincide com os cálculos das financeiras, apreesentados na manchete dominical do Estadão de 18 de dezembro de 2016: “Crise de crédito tira R$1 tri da economia e piora recessão”. São 15% do PIB esterilizados, transformados em lucros financeiros. Acrescentem a isso os R$ 300 a R$ 400 bilhões transferidos para os que aplicam as suas fortunas em títulos da dívida pública, e chegamos a 20% do PIB, alimentando fortunas. A taxa Selic baixou, realmente, mas é cobrada sobre um estoque da dívida muito maior. Em 2018 o Estado foi desfalcado em R$ 320 bilhões. São lucros e dividendos que, uma vez distribuídos, desde 1995 sequer pagam impostos. É um dreno poderoso.
Thomas Piketty abriu a caixa do capitalismo moderno para constatar que no século XXI rende mais fazer aplicações financeiras do que investir na produção. E o dinheiro segue naturalmente para onde rende mais. O capitalismo do século passado, que tanto criticávamos por explorar os trabalhadores, pelo menos investia, produzia bens e serviços de razoável utilidade, gerava empregos e pagava impostos. O do século XXI não investe, não produz e sequer paga impostos. David Harvey diz corretamente que não se trata de “capital no século XXI” e sim de patrimônio, porque não retorna ao processo produtivo senão marginalmente.
Sem entrar em excessivos detalhes, lembremos que a tributação no Brasil não só não corrige os desequilíbrios, como os agrava, pela estrutura regressiva na cobrança dos impostos e favorecimento dos mais ricos na alocação. E também que, segundo o Tax Justice Network, o Brasil tem cerca de 520 bilhões de dólares em paraísos fiscais, mais de 2 trilhões de reais que nem produzem nem pagam impostos. Acrescentem o vazamento que representam as seguradoras, as pensões complementares e os planos de saúde – fundos que “aplicam” em vez de investir, e temos aqui mais uma obviedade: a nossa economia está vazando por todos os lados. Apresentamos esses dados, com detalhes e fontes, no nosso A Era do Capital Improdutivo, em texto impresso, online, em vídeos e em plataformas de discussão. É aritmética, só não vê quem não quer. Aliás, a capacidade de não ver pode ser impressionante.
Os americanos nos ajudam a ver. A revista Forbes, em edição especial de 2019, traz em detalhe quem são os 206 bilionários brasileiros. A importância deste levantamento é óbvia. Primeiro, porque é confiável, a revista é americana e entende de bilionário, a imprensa brasileira não faz levantamentos deste tipo. Segundo, é um artigo em que os donos das fortunas, felizes em aparecer na Forbes, em vez de se esconder e de esconder como chegam às fortunas, aparecem sorridentes e orgulhosos. Afinal, é uma a revista que já explicita para quem é escrita: acima das manchetes, recomenda-se aderir à “Forbeslife – carros, jatos e iates: chegou a hora de escolher o seu”. Sim, caro leitor, o artigo que aqui analiso não foi escrito para você, foi escrito para eles mesmos, os bilionários. A nós interessa muito, pois este grupinho de bilionários constitui o lastro do poder real, o deep power do país. E representa um poder impressionante de sucção dos recursos financeiros.
Tomemos o número 2 da lista, Joseph Safra. Hoje, Joseph “tem um império bancário que leva seu nome: é dono do Banco Safra (Brasil), do J.Safra Sarasin (Suíça) e do Safra National Bank (EUA). É dono, ao lado do bilionário José Cutrale, da gigante Chiquita Brands, maior produtora de bananas do mundo”. Ter um pé na Suíça é ótimo para um banco, todos eles hoje têm pés em paraísos fiscais. Outro pé nos Estados Unidos ajuda, faz parte da articulação com a nossa economia. E Chiquita é o nome simpático hoje adotado pela antiga United Fruit, que de tantos crimes, golpes e mortes – é a empresa de bananas que aparece em Cem Anos de Solidão – decidiu mudar de nome. Mas o essencial para nós é que o patrimônio do Joseph Safra é de R$ 95,04 bilhões, e que nos meses entre março de 2018 e março de 2019 aumentou em R$ 19,31 bilhões. Sem precisar produzir nada, apenas amealhando dividendos. É o que Marjorie Kelly (e tantos outros) hoje chamam de “capitalismo extrativo”. São 19 bilhões, dois terços do Bolsa Família, em 12 meses, para uma pessoa.
O artigo apresenta a imagem de conjunto: em 2012, tínhamos no Brasil 74 bilionários, que dispunham de uma fortuna total de 346 bilhões de reais. Em 2019, são 206 bilionários, com uma fortuna total de R$ 1.205,8 bilhões (17,7% do PIB brasileiro). Como se acelerou de maneira tão dramática o enriquecimento dos bilionários no Brasil? Implicaria, imaginamos, um crescimento dinâmico da economia? Sabemos, na realidade, que desde 2013, que é quando, com manifestações e boicote, começa o ataque generalizado ao modelo distributivo, o PIB do Brasil não só não cresceu como, depois de dois anos de recessão em 2015 e 2016, continua paralisado.
Estão, para dizê-lo claramente, se entupindo de dinheiro. Não ver a relação entre o enriquecimento dos mais ricos e a paralisia da economia sugere analfabetismo econômico. O dinheiro não pode simultaneamente alimentar ganhos especulativos e evasão fiscal e financiar investimentos produtivos. Entre março 2018 e março 2019, os bilionários brasileiros aumentaram a sua fortuna em R$ 230,2 bilhões, 8 vezes o Bolsa Família. A economia brasileira cresce menos de 1%, sequer acompanha a progressão demográfica, implicando uma queda do PIB per capita do país. Há seis anos disseram que estariam “consertando” a economia. Na realidade, estão drenando.
Analisando um por um os bilionários, é impressionante a dificuldade de se encontrar alguém que produza algo. Seguindo as classificações do próprio artigo, basicamente, trata se de donos de bancos, de holdings financeiras, de acionistas e controladores acionários, de fundos de investimento (no sentido virtual de “investimento”, naturalmente), de donos de cotas acionárias, de holdings familiares, de “investidores”, e aparece até um “proprietário de terras cultivadas” (fortuna 118). Naturalmente não se trata de Jorge Luiz Silva Logemann, dono desta fortuna de R$ 2,68 bilhões, efetivamente se aproximar das terras cultivadas…
Já vimos acima como em 12 meses Joseph Safra aumentou a sua fortuna em R$ 19 bilhões. Mas a instituição de Roberto Balls Sallouti, a BTG Pactual Holding, “só no segundo trimestre de 2019, anunciou um salto de 56% no lucro líquido, para R$ 971 milhões. Sallouti é membro do conselho de administração do Mercado Livre” (fortuna 116). Associar este pequeno clube de magnatas financeiros que drenam as capacidades produtivas do país ao conceito de “mercado livre” é de causar arrepios a quem já leu Adam Smith. Aliás, vários bilionários aumentaram as suas fortunas na esfera do BTG Pactual. É bom lembrar que o banco tem 38 filiais em paraísos fiscais, e tem como atividade principal gestão de fortunas, tecnicamente asset management.
A análise detalhada das 206 fichas que este dossiê da Forbes apresenta é muito produtiva, pois constatamos que não só se trata de gigantes de intermediação, na realidade atravessadores das atividades produtivas, como estão intensamente interligados. Vamos encontrar, no imenso dreno econômico que representa o Itaú, pelo menos 13 das grandes fortunas apresentadas no relatório. No conjunto, são poucas famílias, muito interligadas, e constituindo um poderoso cluster de poder financeiro e político. Drenam as capacidades econômicas da população, das empresas produtivas e do próprio Estado. A leitura deixa claro por que este país com tantos ricos está paralisado.
Frente ao dreno geral deste capital improdutivo, atribuir os nossos problemas aos velhinhos que envelhecem demais e criariam problemas no orçamento é francamente um insulto à inteligência elementar. Lembrando que temos apenas 33 milhões de pessoas formalmente empregadas no país, para uma força de trabalho de 105 milhões – ou seja, só 31% do total. E temos 37 milhões em atividades informais, o que somado aos 13 milhões de desempregados, significa que 50 milhões de trabalhadores estão fora do sistema. A solução não está no apertar o cinto, austeridade para os que já estão na austeridade, mas cobrar os impostos devidos dos que ganham sem produzir, pois talvez, ao ver as suas fortunas tributadas, se interessem por fazer algo de útil. No essencial, o que precisamos é produzir. O empresário efetivamente produtor não precisa de discurso ideológico ou de “confiança”: precisa de famílias com poder de compra, para ter para quem vender, e de juros baixos para poder investir. Neste Brasil de grandes parasitas, ele não tem nem uma coisa nem outra. (Outras Palavras/#Envolverde)
Ladislau Dowbor é economista e professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi consultor de diversas agências das Nações Unidas, governos e municípios, além de várias organizações do sistema “S”. Autor e co-autor de cerca de 40 livros, toda sua produção intelectual está disponível online na página dowbor.org.
Retrospectiva 2020 – Impactos da Covid19 sobre os ODS da ONU
por Serginho Rocha –
Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável compõem uma agenda mundial para a construção e implementação de políticas públicas que visam guiar a humanidade até 2030 por um mundo melhor, mais justo e mais inclusivo.
Em setembro de 2015 a Agenda 2030 foi criada pelas Nações Unidas onde 193 líderes mundiais assumiram o compromisso de unir as nações e a humanidade no âmbito da melhoria contínua da qualidade de vida e do planeta com medidas ousadas e transformadoras.
O documento que foi aprovado em 2015 por mais de 193 chefes de estado e governo foi um documento chamado “Transformando o nosso mundo: Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” e dentro desta agenda há os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas a serem atingidas até 2030.
A Agenda tem basicamente 4 partes:
Divisão e Princípios, Quadro de Resultados, Meios e Implementação, Acompanhamento e Revisão.
Essas 4 partes formam a Agenda 2030 da ONU, onde os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estão internamente localizados nessa agenda.
A Agenda 2030 se inicia aqui no Brasil com a Rio-92, criando um embrião do que vem a ser o desenvolvimento sustentável. E na Rio+20 se lança a base para a construção dessa agenda, mostrando o desenvolvimento sustentável não apenas como uma agenda ambiental, porém evidencia o tripé econômico, social e ambiental.
Lembrando que esse tripé deve atuar de forma unida para que o desenvolvimento sustentável verdadeiramente ocorra.
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) dá a continuidade aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) que foi criado em 2000 e tinha oito objetivos de combate à pobreza a ser alcançados até o final de 2015.
Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) trouxeram grandes conquistas, porém era necessário a criação e entendimento de uma agenda mais ampla e mais inclusiva em todas as questões que afetam diretamente o planeta e a humanidade e consequentemente a qualidade de vida, assim surgia os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Essa agenda abrange temas fundamentais ao desenvolvimento humano em cinco perspectivas (pessoas, planeta, prosperidade, parceria e paz).
Vale ressaltar que esses 17 temas não podem ser tratados de forma individual, porém entendamos que os temas se completam uns aos outros sem divisão entre si. Ou seja, necessita de políticas públicas e soluções, porém necessita de agregar a sociedade nessas demandas, para haver integridade em todas as ações no âmbito dos ODS.
O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) é o responsável pela implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em cerca de 170 países e territórios, inclusive no Brasil e possui uma visão mais integral dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
É uma agenda múltipla que contempla, combate a pobreza, a agricultura, saúde, energia, etc …
Enfim, todas as questões que envolvem o cotidiano da humanidade, que por sua vez, necessita de esclarecimentos ao ponto de sua efetiva participação na concretização da agenda.
É uma agenda diversificada que contempla desde chefe de estado a chefe de família e vale para todas as nações (desenvolvida e em desenvolvimento).
O desafio dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é considerar as diferenças em todos os temas em todas as regiões na formação de políticas públicas. No Brasil, buscar a conscientização de que essa agenda não é de governo algum, porém uma agenda de estado, pois ele tende a ser permanente, independente dos mandatos dos governos.
E o desafio da humanidade é ter conhecimento dessa agenda e se integrar a ela no seu cotidiano de forma participativa em todos os âmbitos dos 17 temas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Porém, com o surgimento da epidemia da Covid-19, nos deparamos diante de um novo cenário onde os impactos serão profundos como a queda dos níveis de desenvolvimento humano sentidas nas maiorias das nações desenvolvidas ou em desenvolvimento e em todas as regiões.
EFEITOS DA PANDEMIA DO COVID-19 NOS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (ODS)
Erradicação da Pobreza
O corte parcial da renda ou a perda total dela, fez com que muitos ficassem em situação de vulnerabilidade social aumentando situação de pobreza dos indivíduos.
Fome Zero e Agricultura Sustentável
A diminuição da mão de obra e da logística afeta diretamente a produção e a distribuição de alimentos. Lembrando que a fome não espera!
Saúde e Bem Estar
O desprezo às orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) com agravamento ao controle da pandemia e a falta de maior investimento na área da saúde coloca em risco todo o processo de mitigação da pandemia.
Educação de Qualidade
Com as escolas fechadas, a aprendizagem se tornou ineficiente e nem todos tem um computador para fazer os estudos no formato virtual, e isso afeta diretamente o desenvolvimento humano.
Igualdade de Gênero
Houve um aumento considerável da violência contra as mulheres, em alguns casos devido ao confinamento social, além de perderem seus empregos ou terem seus salários reduzidos e até impedidas de trabalharem de forma autônoma.
Água Potável e Saneamento
O fornecimento de água foi reduzido em alguns municípios devido à falta de profissionais e estruturas de gestão, impactando também na qualidade da água e causando doenças de veiculação hídrica.
Energia Acessível e Limpa
Houve redução de profissionais, afetando o fornecimento de energia em algumas regiões. A falta de informações e atendimento inadequado refletiu nos custos das contas de energia.
Trabalho Decente e Crescimento Econômico
Alguns trabalhos formais ou informais foram suspensos ou reduzidos, impactando nas rendas dos trabalhadores com uma redução considerável ou perda do emprego.
Indústria, Inovação e Infraestrutura
Houve redução ou paralisação de mão de obra em alguns setores da indústria e no comércio, provocando um recuo no crescimento e afetando principalmente os micros e pequenos negócios. Faltam investimentos em pesquisas e em inovação e isso prejudica o desenvolvimento.
Redução das Desigualdades
A ausência de políticas públicas e da conscientização social trouxeram elevados riscos as questões de saúde, economia e meio ambiente na humanidade, sobretudo nos países em desenvolvimento pela incapacidade de enfrentamento das consequências socioeconômicas.
Cidades e Comunidades Sustentáveis
Muitos vivem em comunidades sem infraestrutura habitacional e social e sem políticas de interesse social com riscos sérios a saúde devido à exposição ao vírus por haver a necessidade da busca por recursos financeiros, pegando transportes e passando por locais onde possa haver o vetor de contágio.
Consumo e Produção Responsáveis
O consumo excessivo provoca escassez de insumos impactando nos preços das mercadorias, além do aumento considerável de resíduos, impactando negativamente o meio ambiente com riscos sérios a saúde pública.
Ação Contra a Mudança Global do Clima
Redução das pegadas ambientais devido à redução de produção e transporte. Lembrando que estas reduções não podem ser momentâneas. Porém, ainda há o crescimento do desmatamento que é o principal responsável pelas emissões de gás de efeito estufa no Brasil.
Vida na Água
Os níveis de poluição reduziram consideravelmente devido ao confinamento social. Porém, faltam políticas públicas que favoreça o trabalho dos pescadores e a subsistência de povos e comunidades tradicionais.
Vida Terrestre
Há ausência de contato com a natureza e com os recursos naturais devido ao confinamento social. E muitas comunidades e povos tradicionais vivem distantes das grandes cidades e com isso tem dificuldades de atenção e atendimentos sociais, sobretudo na saúde por conta da pandemia.
Paz, Justiça e Instituições Eficazes
Locais onde ocorrem conflitos e geralmente constantes, colocam em risco vidas humanas. Mais uma vez vale enfatizar que a ausência de políticas públicas nesse quesito tem se tornado um vetor no aumento de casos conflitantes.
Parcerias e Meios de Implementação
Crises globais iminentes mostrando a necessidade de esforços conjuntos (ciclos de ações permanentes) no âmbito da saúde pública. Porém, a individualidade tem dificultado os esforços das nações e povos no âmbito da Agenda 2030 para soluções dos problemas existentes ou iminentes.
FONTES:
https://nacoesunidas.org/
https://www.cnj.jus.br/
https://www.br.undp.org/
https://actbr.org.br/
gtagenda2030.org.br
Autor: Serginho Rocha – Consultor de Desenvolvimento de Mercado Sustentável, Relacionamento com Empresas, Órgãos Ambientais, Instituições Públicas e Organizações Não-Governamentais (ONGs)
Retrospectiva 2020 – O apocalipse moderno são as viroses
Março/2020 – por Eugênio Scannavino, médico e fundador do Projeto Saúde & Alegria –
A pandemia de coronavírus parou o mundo e vem assustando a todos, mas pode ser pior se pensarmos no que ainda pode estar por vir.
A Covid-19 tem mortalidade relativamente baixa e menor do que outras já existentes. Como sempre, levará os mais frágeis, idosos vulneráveis, pobres ou desnutridos.
Mas talvez seja muito boa para alertar a humanidade de algo que sempre falo: o apocalipse moderno, mais imediato e provável, seria uma pandemia por viroses emergentes ou mutação de vírus preexistentes.
O que torna isso tão óbvio e previsível são as práticas atuais do nosso modelo de desenvolvimento irresponsável e destrutivo do equilíbrio natural, da destruição de florestas e dos habitats naturais com larga biodiversidade e equilíbrio autocontrolado.
Habitats que estão sendo substituídos por monoculturas extensivas e agrotóxicos químicos que destroem tudo: abelhas, insetos biorreguladores, e muito mais, usando sementes modificadas geneticamente e aplicando antibióticos massivamente em criações de frangos, porcos e gado.
Claro que estamos selecionando e gerando mutações também nos agentes patogênicos que acabam se adaptando e vez por outra passando para humanos. Todos os anos são informadas várias viroses emergentes que passam do ambiente para humanos, e são muitas. Mas o grande público não chega nem sequer a ser informado.
Somos, na verdade, um grande laboratório de infectologia, insistindo todos os dias em criar nossas próprias armas biológicas contra nós mesmos. Sou também infectologista e há anos estamos assustados com isso. Em nos nossos encontros não dizemos se, mas quando.
Até quando insistiremos em ser uma humanidade ignorante e irresponsável? O maior sinal da ignorância está justamente na arrogância e na agressividade, ao tentar à força dominar e industrializar de forma destrutiva a natureza, como se isso fosse alta tecnologia e nosso orgulho desenvolvimentista.
Em vez disso, poderíamos observá-la, respeitar e aprender a interagir de forma harmônica e amigável com sua sabedoria e generosidade. Em nosso próprio proveito, como fazem a sabedoria ancestral e a maioria das populações tradicionais. Por esta razão, às vezes, acredito que o futuro será indígena.
Tecnologia já temos, como por exemplo da agrofloresta (agricultura que imita a natureza, misturando várias espécies que se ajudam), controle biológico de pragas, reciclagem de resíduos ).
No entanto, qual é o incentivo de pesquisa e financiamento ou subsídios que essas práticas têm se comparados às da agricultura extensiva e industrializada?
Pelo caminho atual será isso mesmo: pandemias repetidas, desastres naturais e suicídio coletivo. Tragédia anunciada!
Esta pandemia virá e passará como as outras e sua letalidade será relativamente superada, mas serve muito bem para refletirmos sobre tudo isso e o que temos feito ou deixado de fazer.
Já imaginaram quando vir uma mais letal? Do tipo do ebola, que atualmente é transmitido apenas por fluído, mas se sofrer uma pequena mutação poderia passar a se transmitido por via aérea? Com alta virulência num mundo globaliza todos seriam contagiados por todos na velocidade em que as pessoas se encontram, evoluindo para pandemia rapidamente.
A diferença neste caso é que sua letalidade pode chegar a 90%. Isso mesmo: 90%! Ai, sim, o apocalipse. Não estaríamos falando em dezenas de milhares de mortes, mas de bilhões. E o fim da grande maioria de nós. Tragédia mais que anunciada.
Isto já está por acontecer. Está acontecendo agora com o coronavírus, que diante de outros parece até um vírus quase que amigável. Até quando Deus perdoará nossas ofensas aqui na terra como no céu? Para esclarecer: o coronavírus assusta sim.
E o problema já é sério e poderá ser bem mais, pela falta de infraestrutura e capacidade de o sistema de saúde, desde sempre insuficiente. Seja para atender aqueles que agravarem seu estado durante a pandemia atual, seja para atender aqueles que além de outros agravantes, ainda são expostos à pobreza e dependem do sistema público.
Publicado originalmente na Folha de S. Paulo
(#Envolverde)
Relatório do Reuters Institute debate como recuperar e conservar a confiança nas notícias ao redor do mundo
por Camila MontAlverne e Benjamin Toff*, Observatório da Imprensa –
Por que há uma erosão da confiança nas notícias? Como esse declínio impacta diferentes ambientes de mídia e segmentos do público? O que pode ser feito e a qual custo (especialmente quando as audiências podem ter perspectivas distintas a respeito do que consideram como jornalismo confiável)?
Estas são as questões centrais de um novo estudo que nós estamos conduzindo em parceria com outros colegas do Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ), da Universidade de Oxford. O relatório, intitulado O Que Achamos Que Sabemos e o Que Queremos Saber: Perspectivas sobre Confiança nas Notícias num Mundo em Mudança, aborda o que sabemos (e não sabemos) sobre confiança nas notícias, o que contribui para seu declínio e como as organizações midiáticas buscam tratar a questão. Esta é a primeira publicação do Trust in News Project, desenvolvido no RISJ e que foi anunciado mais cedo neste ano. A pesquisa busca examinar os fatores que impulsionam confiança e desconfiança em quatro países com sistemas políticos e midiáticos variados: Brasil, Estados Unidos, Índia e Reino Unido.
Embora nossa expectativa seja que grande parte do Trust in News Project esteja centrado em entender melhor as audiências de notícias, nós optamos por começar entendendo as perspectivas de quem estuda jornalismo e de quem o pratica. Nos últimos meses, nossa equipe de pesquisa conduziu uma extensa revisão da literatura científica sobre confiança e entrevistou mais de 80 jornalistas e outros profissionais da área que generosamente compartilharam seu tempo e insights valiosos.
O relatório sumariza o que aprendemos até agora, destacando os pontos mais importantes. Também olhamos para as escolhas envolvidas nas tentativas de lidar com as mudanças nas atitudes sobre as notícias, algo que tende a ser pouco explorado. Nós argumentamos que, para construir a confiança nas notícias, não é suficiente fazer coisas que simplesmente parecem boas ou que provocam uma sensação de bem estar. Na realidade, as iniciativas precisam funcionar, sob o risco de não fazerem nenhuma diferença, ou pior, de serem contraproducentes. Por isso, o relatório destaca quatro coisas que achamos que sabemos sobre confiança nas notícias e quatro pontos centrais que nós gostaríamos de saber. Esperamos que essas questões conduzam o trabalho do Trust in News Project nos próximos anos.
O que achamos que sabemos
Não há um problema único de “confiança nas notícias”. Nossa pesquisa sugere a existência de desafios múltiplos envolvidos na oferta das notícias e na demanda do público por informação. Lidar com confiança nas notícias requer definir o que queremos dizer com “confiança”, “confiança de quem” e “quais notícias”, pois as pessoas têm crenças distintas sobre como o jornalismo funciona, visões conflitantes a respeito do que esperam da atividade e noções diferentes sobre a realidade do mundo. Então, aqueles que buscam recuperar ou conservar a confiança precisam ser específicos nos seus objetivos estratégicos e, idealmente, basear o trabalho em evidências. Iniciativas que funcionam com uma parte do público podem não funcionar com outros segmentos.
Há pouca compreensão sobre como o jornalismo funciona. As mídias sociais não estão ajudando. Como poucas pessoas sabem o que acontece na construção da reportagem e na apuração das informações, não podemos esperar que as audiências saibam diferenciar as marcas por meio de avaliações informadas sobre o processo produtivo das notícias, que tende a seguir padrões de qualidade diversos. Pesquisas sobre a efetividade das intervenções desenhadas para ajudar as pessoas a navegar os ambientes digitais mostram que elas são promissoras, mas as evidências empíricas sobre o que funciona, com quem e em quais circunstâncias, permanecem turvas. Quando as redações tentam demonstrar comprometimento com princípios jornalísticos e padrões éticos, elas devem contar que usuários distraídos irão encontrar a marca de forma passageira enquanto checam o feed.
Parte da desconfiança pode decorrer de cobertura que tem cronicamente estigmatizado ou ignorado segmentos do público. Vários entrevistados destacaram o que eles veem como falhas pregressas das organizações noticiosas em refletir a diversidade de pontos de vista das comunidades que eles procuram atender. Muitas organizações têm procurado atacar a desconfiança usando iniciativas de engajamento público e reconhecendo suas falhas. Mas focar em algumas comunidades pode alienar outras. Há um risco considerável de fazer coisas que parecem boas e provocam uma sensação de bem estar, ou imitar o que outros estão fazendo, com base em pouca ou nenhuma evidência. Isso pode acarretar desperdício de esforços, no melhor dos casos, ou resultados contra produtivos, no pior.
As percepções de confiança estão fortemente atreladas com política. As atitudes sobre as notícias podem ter pouco a ver com o que acontece nas redações. Com a queda na confiança em outras instituições, a confiança nas notícias acompanhou a tendência. O partidarismo frequentemente serve como um dos preditores mais fortes de desconfiança. Como os atalhos interpretativos sobre a imprensa normalmente são oferecidos por líderes políticos, as organizações noticiosas ficam em uma posição vulnerável, dado que procuram afirmar seu papel como árbitros da verdade imparciais e independentes. Os esforços para aumentar a confiança envolvem escolhas em sociedades divididas e polarizadas. Eles também podem conflitar com outras prioridades importantes, como fiscalizar os poderosos.
O que queremos saber
Como as plataformas estão prejudicando as identidades das marcas das organizações noticiosas? A experiência de consumir notícias online é crescentemente mediada pelas plataformas. Elas são frequentemente acusadas de erodir a confiança ao ofuscar as diferenças entre as fontes de informação. Queremos investigar em que medida as plataformas podem contribuir para estes problemas e/ou como elas deveriam aproveitar para aumentar confiança em notícias precisas e confiáveis.
Quais estratégias de engajamento da audiência constroem confiança e quais podem miná-la? Os esforços para engajamento costumam ser baseadas em intuição. Com frequência, as pesquisas têm estado muito desconectadas da prática e excessivamente focadas em poucos países.
Quanta transparência é demais e qual tipo é mais importante? Apresentar jornalistas como pessoas reais, em vez de figuras distantes, parece relevante para melhorar a relação com as audiências. Todavia, sabemos pouco sobre a efetividade disso ou sobre o potencial de gerar o efeito contrário ao esperado.
De onde vêm as preconcepções sobre notícias? Como elas podem ser mudadas? Percepções arraigadas sobre as notícias tendem a ser baseadas em uma combinação de fatores, desde experiências pessoais, identidades e representações culturais. Nós queremos saber quando, como e por que as audiências estão dispostas a revisar suas ideias pré-concebidas.
O relatório completo está disponível no site do Reuters Institute.
*Camila Mont’Alverne é pesquisadora de pós-doutorado, Reuters Institute for the Study of Journalism, University of Oxford.
*Benjamin Toff é líder do Trust in News Project, Reuters Institute for the Study of Journalism, University of Oxford.
O futuro nos reserva parto e morte sem dor, carne limpa e sexo sem culpa?
por Ricardo Abramovay* –
Como seria um mundo onde dores e limites constitutivos da condição humana fossem suprimidos? A pergunta não se refere à superação da pobreza, à redução da violência e das desigualdades, mas a algo que forma a humanidade desde, no mínimo o Velho Testamento.
Um mundo em que, contrariamente à maldição lançada às portas do Paraíso, o nascimento se emanciparia da dor da mulher e onde máquinas se encarregariam de providenciar nossa morte, de forma organizada, prevista e indolor. Um mundo em que nossa sexualidade pudesse dispensar os conflitos e os riscos de rejeição em benefício de um contato que corresponda exatamente ao que queremos. E, por fim, um mundo em que pudéssemos continuar comendo carne como fazemos hoje, sem, no entanto, a necessidade de criar animais para o abate, com todos os problemas socioambientais a que isso leva.
Ninguém sabe se um mundo assim vai surgir, mas é a ele que se dedicam inúmeras empresas, sediadas em geral no Vale do Silício — e que foram estudadas num livro-reportagem cujo título o coloca certamente como um dos mais chamativos do ano: Sex Robots and Vegan Meat. Adventures at the Frontier of Birth, Food, Sex and Death (em tradução livre, Robôs Sexuais e Carne Vegana. Aventuras na Fronteira do Nascimento, da Alimentação do Sexo e da Morte).
Sua autora, Jenny Kleeman é jornalista, documentarista premiada e articulista em alguns dos mais importantes órgãos da imprensa global.
Kleeman nos convida a uma reflexão sobre aquilo que o grande filósofo alemão Hans Jonas chamou de ética da civilização tecnológica. Não há dúvida que ciência e tecnologia são extremamente úteis e benéficas na maneira como nascemos, nas formas como nos alimentamos, nos tratamentos de nossas dificuldades sexuais e no alívio à morte dolorosa. Os problemas surgem quando cada uma destas dimensões que formam aquilo que Hannah Arendt chamava de nossa “condição humana” é capturada por dispositivos que, em última análise, acabam por nos separar da experiência, das incertezas e da dificuldade das decisões humanas. A ideia de que podemos controlar e planejar minuciosamente nossas vidas atribui às tecnologias um poder que, em última análise, nos distancia de nós mesmos.
Os quatro temas estudados por Kleeman envolvem dimensões que vão muito além da ciência. É claro que a ciência é fundamental para entender como nascemos, o que necessitamos para uma vida saudável, o que interfere em nossa sexualidade e nas razões que levam os indivíduos à morte. O que a ciência não faz e nunca poderá fazer é nos fornecer o significado (para nós e para os outros) de nosso nascimento, de nossa morte e de nossos encontros. A explicação científica não é capaz de ensinar a ninguém o sentido de sua vida e muito menos de sua morte. No entanto, são estes os temas sobre os quais várias empresas do Vale do Silício trabalham para conhecer, prever e sobretudo controlar — substituindo sua natureza humana de incerteza e dor por previsibilidade e felicidade. Felicidade cientificamente planejada.
Por que me torturar em procurar uma companhia que pode não gostar de minhas idiossincrasias ou de meu jeito de ser se posso ter um robô que, dotado de inteligência artificial, aprende ao longo do tempo quem eu sou, quais meus gostos, minhas inclinações e vai se adaptando perfeitamente e pacificamente à satisfação de meus desejos? Os fabricantes destas máquinas (que ainda não existem, mas nas quais investem-se recursos vultosos que aceleram as pesquisas para que estejam no mercado em relativamente pouco tempo) justificam sua inovação como um bem que estão trazendo à espécie humana, propiciando companhia aprazível a quem tem dificuldade de relacionamento.
As empresas estariam, claro, lucrando com esta ação benemérita — já que, sem inteligência artificial, uma boneca (há poucos exemplares masculinos fabricados) em que o silicone imprime à pele uma sensação real, tem um preço mínimo de US$ 6.000,00 e pode, dependendo do modelo, ir muito além disso. A que Kleeman visitou — e que será dotada de inteligência artificial — foi batizada de Harmony. O que se vende não é um dispositivo de masturbação, mas aquilo que acaba sendo vivido como um verdadeiro substituto da presença humana. Tudo isso com base nas mais avançadas tecnologias.
Em nome da emancipação feminina, de seu conforto e da defesa de seu lugar no mercado de trabalho, nada melhor que evitar o incômodo da gravidez por meio de tecnologias que permitem que o feto se desenvolva num ambiente artificial fora do corpo, a ectogênese.
Mas por que razão Kleeman coloca as tecnologias de fabricação de carnes a partir de células de animais (e que dispensam seu abate) junto àquelas que se voltam ao nascimento sem gravidez, à morte planejada e à robotização da vida sexual? É que, em todos estes casos, as tecnologias servem para driblar as dificuldades humanas sem que estas tenham que ser verdadeiramente enfrentadas. Em vez de reduzir significativamente o consumo de carne, por que não oferecer às pessoas uma carne cuja ingestão seja inofensiva, sob o ângulo dos problemas socioambientais trazidos pelo sistema alimentar mundial contemporâneo?
O resultado, no caso das carnes, é que em vez de estimular o consumo de mais alimentos frescos, de maior diversidade alimentar, da relação humana das pessoas com a preparação do que comem, com a socialização familiar daí decorrente, as carnes limpas transferem esta responsabilidade para a indústria. E é claro, como bem mostra o livro de Kleeman, que o produto oferecido tem que sofrer acréscimo de ingredientes químicos que nada têm a ver com alimentos para que se tornem palatáveis.
Que o mundo precisa transformar o sistema alimentar global em direção a uma alimentação muito mais saudável que a atual não há dúvida. Que a ciência tem papel decisivo nesta transformação é igualmente certo. O que preocupa é o empenho em evitar que as pessoas exerçam suas responsabilidades, ampliem suas capacidades de escolha, substituindo estes atributos humanos por dispositivos técnicos sobre os quais não têm qualquer controle.
O biólogo Edward O. Wilson inicia sua reflexão sobre “A conquista social da terra”, mostrando que “nós criamos uma civilização de guerra das estrelas, com emoções da Idade da Pedra, instituições medievais e tecnologias divinas”.
Mais do que nunca, as sociedades atuais precisam não simplesmente de mais técnica, e sim de uma discussão séria e democrática sobre o sentido e, sobretudo, a ética da civilização tecnológica.
*Ricardo Abramovay é professor Sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP. Foi Autor de “Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza” (Ed. Elefante/Terceira Via, São Paulo).
#Envolverde
OS BANDIDOS DA FLORESTA
por Lúcio Flávio Pinto, Publicado no site Amazônia Real –
A Polícia Federal anunciou, ontem, ter feito “a maior apreensão de madeira nativa da história do Brasil”. Ao longo de vários dias, os agentes apreenderam 43,7 mil toras, com 131,1 mil metros cúbicos de madeira bruta, extraída de uma área de 20 mil quilômetros quadrados. Ela fica no extremo oeste do Pará, na divisa com o vizinho Estado do Amazonas. São as duas maiores unidades federativas do país (em conjunto, ocupam um quarto do território nacional).
Só a madeira já computada é mais do que o dobro da maior apreensão anterior, efetuada 10 anos atrás, em 2010. Foram 65 mil metros cúbicos de madeira, retirada da Reserva Extrativista (Resex) Renascer, também no oeste do Pará.
A logística montada para o corte, transporte e armazenamento das toras para seu transporte por via fluvial evidencia o pesado investimento realizado pelos autores do crime ambiental, sua audácia e a presunção de impunidade que talvez os tenham estimulado a realizar a operação (como os supostos garimpeiros, que já garimpam até minério de ferro).
Valendo-se de um sistema baseado em um satélite de alta precisão, desenvolvido por uma empresa privada internacional, a PF selecionou 120 locais que estocavam as árvores. Selecionou 40 pátios com maior volume de madeira para iniciar a ação direta nos locais. Significa que ainda há mais árvores a recuperar.
desafio agora será transportar todas as toras, uma logística de alta complexidade que deve levar semanas. Saraiva defende que a madeira seja doada para fins públicos. “O que não se admite é o leilão para essas madeiras. Isso seria muito ruim porque estaríamos legalizando o ilegal. Os próprios infratores, por meio de interpostos, poderiam adquirir essa madeira e ficariam com um documento de origem lícita que poderiam usar até com outras madeiras.”
Em plena época de alerta para a destruição das florestas do planeta, especialmente as tropicais, com maior biodiversidade, um quadro de devastação como o que fotos e vídeos distribuídos pela Polícia Federal exibiram para o mundo fazem lembrar a origem do Brasil. Tendo recebido de empréstimo a designação da primeira árvore nativa submetida a exploração econômica como seu nome de batismo, o país não deixa esquecer que seus habitantes expandiram a sua presença destruindo florestas. Sem parar. Sem arrependimento.
Nenhum outro povo chegou a tanta destruição quanto os brasileiros na Amazônia ao longo dos últimos 70 anos, justamente na região que abriga um terço das florestas tropicais do mundo. Entre os anos 1950/70 prevalecia a mera derrubada (ou queima) da mata nativa para em seu lugar surgirem pastos e plantios agrícolas.
Os incentivos fiscais oferecidos pelo governo federal, que poderiam representar até 75% do investimento total de um empresário particular, sem retorno do dinheiro aplicado, sustentaram essa dissipação de floresta pelo fogo, o machado e a motosserra, com o mínimo de capital de risco privado. A grilagem de terras era desenfreada e o uso de pistoleiros facilitava a usurpação de áreas de domínio público ou detidas por posseiros, em unidades familiares de produção.
Assim, em duas décadas, a densa e alta floresta entre as bacias do Araguaia-Tocantins e o Xingu desapareceu. Quem anda por essa região tem dela a impressão de que tem mais a ver com o Planalto Central do que propriamente com a Amazônia. Foi uma atividade tão predatória, caminhando de leste para oeste, pelo centro do Pará, que era inteiramente previsível a sua repetição no vale seguinte, o do Xingu, equivalente ao Araguaia-Tocantins.
Mas entre 2001 e 2002, a maior grilagem de terras da história da humanidade, feita pelo empresário Cecílio do Rego Almeida (falecido em 2008), dono da Construtora C. R. Almeida, ofereceu a quem tinha olhos para ver um espetáculo tão dramático quanto o atual.
A grilagem bem-sucedida, graças ao apoio da justiça e da polícia, permitiu que fossem extraídas e comercializadas, de uma só vez, 7,2 mil toras de mogno e cedro, contendo 18 mil metros cúbicos de madeira sólida, que ficaram estocadas no rio Xingu, em frente de Altamira, a maior cidade da região, para escândalo impotente de quem acompanhou essa triste história. Atuando na retaguarda estava Osmar Ferreira, celebrizado como o rei do mogno, a árvore mais valiosa da Amazônia.
Seu lugar foi ocupado pelo ipê, não porque seja uma madeira mais valiosa. É que o mogno praticamente foi extinto. Talvez ainda haja árvores de mogno, cedro e ipê mais a oeste. Mas não será por muito tempo. Os destruidores de floresta continuam ativos, inescrupulosos e com poder e dinheiro suficientes para manter as suas frentes de derrubadas, sem precisar de imobilização em capital fundiário.
Uma das mudanças surgidas nessa rota foi o avanço desses cupins humanos sobre as unidades de conservação, terras indígenas e reservas extrativistas, invadidas e saqueadas. Destroem essas sementes de esperança num futuro melhor porque o governo os apoia nos bastidores e o dinheiro se tornou tão ou mais eficiente do que a antiga arma que utilizavam, quando eram os donos de tudo: o “três oitão”, o revólver calibre 38 duplo.
Ao invés de disparar balas, eles podem fazer o governo vender a madeira apreendida, no maior volume da história do Brasil. Se isso acontecer, quem não se apresentou imediatamente para reivindicar como de sua propriedade legal as toras retidas pela Polícia Federal, supostamente abrangidas por planos de manejo, fará seu lance em um eventual leilão para legalizar a madeira e prosseguir na sua comercialização.
#Envolverde
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