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segunda-feira, 4 de maio de 2020

Fechado para visitação, Parque Nacional da Tijuca vê aumento na frequência de animais silvestres durante isolamento social

Parque Nacional da Tijuca – Sete espécies diferentes foram vistas em locais que costumavam estar cheios de gente e não de bichos desde março, quando a visitação foi interrompida pela pandemia de coronavírus

Parque Nacional da Tijuca
Parque Nacional da Tijuca. Foto: ICMBio

Por Marcus Vinicius

O Parque Nacional da Tijuca, o maior em visitação do país, tem registrado um aumento de visitantes que não costumam entrar para as estatísticas turísticas. Desde o dia 17 de março de 2020, quando a visitação foi suspensa por causa da pandemia do novo coronavírus, as cutias, jabutis-tinga, saracuras do brejo, quatis, esquilos, macacos prego e até uma lagarta gatinho começaram a explorar muito mais à vontade as áreas do Parque. Desde então, vários representantes dessas sete espécies, todas nativas, foram vistos em estradas e pontos turísticos que, antes do isolamento social, ficavam lotados, mas de visitantes humanos.
Os responsáveis por presenciar essa “farra” dos bichos foram alguns funcionários que, pela natureza de seus cargos, eventualmente precisam se deslocar pelo Parque para cumprir algumas de suas atividades. As fotos e vídeos foram feitas em locais como estradas de acesso a trilhas famosas, como a Estrada da Cascatinha, que dá acesso para a trilha do Pico da Tijuca (ponto mais alto do Parque e o segundo mais alto da cidade do Rio de Janeiro); a Estrada das Paineiras, que é o caminho até o Corcovado, onde fica o Cristo Redentor, e o Parque Lage, um dos pontos turísticos mais frequentados do Rio. Para se ter ideia, em 2019, o Parque teve, em média, cerca de 8 mil visitantes por dia durante o mesmo período do isolamento social deste ano até agora (entre o dia 17 de março e 29 de abril de 2020).
A bióloga e servidora do ICMBio, Katyucha Von Kossel, explica que, diante deste cenário de isolamento social, o aumento na circulação dos animais é normal. “A fauna do Parque se sente menos ameaçada com a ausência de pessoas e de barulho, que costuma ser provocado pela atividade humana. As cutias e saracuras, por exemplo, são mais tímidas e difíceis de visualizar andando calmamente”, detalha Katyucha.
Ainda de acordo com a bióloga, como esses animais vivem em um parque que fica no meio de uma megalópole, a particularidade do atual cenário está no fato de que, antes do isolamento social, a livre movimentação acontecia apenas entre algumas espécies e em algumas faixas de horários, como no início da manhã ou início da noite. Com essa pausa da sociedade, veio a segurança para mais animais e para a circulação em diferentes horários. Deixou de existir, pelo menos temporariamente, o conflito com as atividades humanas em estradas e locais com alta movimentação de turistas, o que trazia riscos como mortes por atropelamentos ou o consumo de alimentos cedidos por visitantes.
Em busca da relação sustentável com a atividade humana, o chefe do Parque Nacional da Tijuca, André Mello, pontua questões importantes sobre o fenômeno observado recentemente. “Quando o Parque for reaberto, os visitantes precisam se lembrar que o limite de velocidade de circulação nas estradas que cortam o Parque é de 30 km/h e que os bichos não devem ser alimentados nunca. O retorno à rotina pré-isolamento social vai fazer com que os animais se afastem novamente dos pontos onde foram observados. Porém, o contato com as pessoas eventualmente vai acontecer. Então, é importante que todos saibam como agir, respeitando regras que visam a boa experiência de visitação e a preservação da fauna e da flora do parque”, orienta André.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/05/2020
Fechado para visitação, Parque Nacional da Tijuca vê aumento na frequência de animais silvestres durante isolamento social, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 4/05/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/05/04/fechado-para-visitacao-parque-nacional-da-tijuca-ve-aumento-na-frequencia-de-animais-silvestres-durante-isolamento-social/.


Covid-19 – Os mitos e as verdades sobre alimentação na pandemia


Limão
Foto: Embrapa

Não há nenhum medicamento, substância, vitamina ou alimento específico que possa prevenir a infecção pelo coronavírus

Com a chegada do novo Coronavírus (Covid-19), algumas notícias falsas, popularmente conhecidas por fake news, afirmam que há alimentos específicos ou nutrientes milagrosos capazes de prevenir, tratar ou combater a Covid-19.
A nutricionista Sabrina Viana Coelho, que atua pela Pró-Saúde no Hospital Estadual de Urgência e Emergência (HEUE), em Vitória, recomenda consumir mais alimentos in natura, como frutas, verduras e legumes, grãos diversos, alimentos capazes de auxiliar no bom funcionamento do corpo, já que eles são saudáveis e excelentes fontes de fibras, vitaminas e minerais.
“O nosso sistema imunológico é capaz de atuar contra diferentes doenças, vírus e bactérias, por isso, um determinado alimento não é suficiente para combater doenças, como o coronavírus. Quando consumimos alimentos ricos em fibras, vitaminas e minerais, eles são capazes de ajudar e até evitar complicações da doença, principalmente para os diabéticos, hipertensos e obesos, considerados grupo de risco”, alertou.
Segundo a nutricionista, uma pessoa que se alimenta corretamente pode manter seu corpo mais resistente às infecções, mas isso não significa que ela está imune ao novo coronavírus. Há outros fatores, segundo a nutricionista que podem ajudar no equilíbrio e bom funcionamento do organismo, como evitar ficar ansioso.
“Nesse período em que as academias e os parques estão fechados por conta do distanciamento social, o recomendado é praticar uma boa alimentação, evitar o estresse; dormir no mínimo 8h por dia; definir uma rotina de trabalho e estudo e não esquecer de beber bastante água”, destacou a nutricionista.
Confira alguns mitos e verdades relacionados aos alimentos
Chá de gengibre ajuda a combater o Coronavírus?
Mito: O chá de gengibre ajuda a acelerar o metabolismo; aumenta a temperatura corporal e quando aliado a uma dieta saudável e prática de exercícios físicos, ele acaba ajudando a perder peso.
Comer alho evita o contágio pela doença?
Mito: Embora o alho possua componentes que auxiliam nos processos de defesa do organismo, não há evidência científica que comprove qualquer eficácia no combate à Covid-19.
É necessário higienizar as embalagens dos alimentos?
Verdade: O recomendado é higienizar as embalagens antes de consumir os alimentos ou armazenar na dispensa e geladeira. Isso porque, eles podem estar contaminados, caso tenham sido manipulados por pessoa com a doença, assim como a maçaneta da porta ou qualquer outro objeto.
Uso de vitamina C e fatias de limão em um copo de água ajuda a prevenir ou combater o novo Coronavírus?
Mito: De acordo com o Ministério da Saúde, não há nenhum medicamento ou alimento específico que possa prevenir a infecção pelo coronavírus (Covid-19).

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/05/2020
Covid-19 – Os mitos e as verdades sobre alimentação na pandemia, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 4/05/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/05/04/covid-19-os-mitos-e-as-verdades-sobre-alimentacao-na-pandemia/.


EcoDebate - Edição 3.423 de 04 / maio / 2020


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

domingo, 3 de maio de 2020

As novas modalidades de trabalho: o que vem por aí?


Por Deivison Pedroza* – 
Arnaldo acorda no exato momento em que o celular, configurado na função despertador, toca, às 7h15, emitindo o som estridente e repetitivo criado para nos tirar de uma das funções vitais que mais ocupam tempo da nossa jornada diária: dormir. Em passos cambaleantes, nosso notável personagem caminha vagarosamente até o banheiro, indo ao encontro do tato com seu segundo despertador: a torneira. Enquanto a água escorre entre as mãos que formam uma espécie de concha, ele as dirige ao rosto, atingindo-o com um choque de realidade similar ao tranco dado em um carro com a bateria “arriada”. Banho tomado e dentes escovados, agora o destino leva nosso protagonista até a cafeteira, agilizando, assim, o cronograma rotineiro de quem faz do café seu terceiro despertador.
Quando o relógio emite o bip para demonstrar que são 8h, normalmente sabemos que você, leitor, espera que a história nos aponte o caminho percorrido pelo trabalhador dessa narrativa até seu trabalho. Porém, diferentemente do que estamos acostumados, Arnaldo é mais um assalariado dessa nova modalidade trabalhista que vem ganhando força atualmente, por conta da situação mundial causada pela pandemia assustadora do novo coronavírus. Desta forma, o que será detalhado daqui em diante é como empresas e empregados devem se condicionar para o “home office” – ou trabalho em casa, teletrabalho ou, ainda, trabalho remoto.
Se olharmos para a história da humanidade, veremos que esse modelo não é novidade. Durante a Idade Média, era normal as “lojas” se localizarem no mesmo endereço da residência de seus proprietários, ficando separadas apenas pelos andares da construção. Isso funcionou até o século 19, quando a Revolução Industrial provocou a transferência dos trabalhadores para as fábricas, onde vigoravam relações trabalhistas marcadas por grande exploração e alta insalubridade.
A sociedade conquistou várias melhorias ao longo da década. Porém, no início do século XXI nos deparamos com um desafio, a partir do crescimento desordenado das cidades e a falta de planejamento na construção de vias acarretaram em aumento excessivo no tempo gasto no deslocamento entre a residência e a indústria. Em cidades como São Paulo, por exemplo, segundo pesquisa realizada pelo Ibope em 2008, o tempo gasto no deslocamento chegava a três horas. Imagina quanto deve estar hoje.
Porém, foi no início da década de 1980 que o escritor Alvin Toffler previu, em uma de suas obras, o best seller A Terceira Onda – a mudança tecnológica que permitiria as pessoas voltar a trabalharem de suas casas. Segundo Toffler, o fim da era industrial e o início da era da informação culminaram na valorização da prestação de serviços, na utilização da criatividade como diferencial e na busca constante pela melhoria da produtividade. Tudo isso ajudou a tornar o home office uma tendência para os dias futuros.
E os dados nos confirmam essa tendência. Em 2011, a International Data Corporation (IDC) estimou que 60 milhões de pessoas trabalhavam em regime remoto no mundo. No Brasil, essa modalidade é relativamente nova, mas muitas empresas estão adotando o home office devido ao caos do trânsito, com congestionamentos constantes nos grandes centros urbanos, tornando-se uma opção viável e vantajosa para ambos os lados da relação trabalhista. Assim, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula que cerca de 3,8 milhões de brasileiros realizam suas atividades ocupacionais de casa, sendo que os índices de profissionais praticantes vêm aumentando na taxa de 10% ao ano.
Além disso, atualmente, cerca de 30% das empresas brasileiras são compostas de colaboradores no regime de home office, incluindo trabalhadores autônomos que registram suas empresas no endereço residencial. O número exato dos que realizam o teletrabalho para empresas externas ainda é impreciso. Porém, seguindo uma tendência mundial, será cada vez maior, inclusive com empresas permitindo que os trabalhadores cumpram suas jornadas da própria residência, pelo menos, uma vez por semana.
Mas como se organizar para que o colaborador consiga se manter focado e produtivo trabalhando em home office? Essa discussão fica para a segunda parte deste artigo. Até lá!
*Deivison Pedroza é CEO da Verde Ghaia


#Envolverde

Governo enviará tropas à Amazônia para deter disparada do desmatamento, diz Mourão



SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) – O governo planeja mobilizar novamente as Forças Armadas para combater o desmatamento e os incêndios na floresta amazônica, disse o vice-presidente, Hamilton Mourão, nesta quarta-feira, em um esforço para proteger a maior floresta tropical do mundo, onde a destruição aumentou desde o ano passado.
Mourão, que também comanda o Conselho Nacional da Amazônia, disse que o país invocará a mesma medida com que mobilizou tropas para enfrentar os incêndios florestais no ano passado, um decreto de garantia da lei e da ordem (GLO), que precisa ser assinado pelo presidente Jair Bolsonaro.
“Brevemente vocês estarão vendo as nossas forças desembarcando lá na região amazônica e atuando firmemente contra as ilegalidades”, disse Mourão em transmissão ao vivo pela internet feita com o banco Itaú.
O desmatamento na Amazônia atingiu uma alta de 11 anos em 2019, quando incêndios devastaram a floresta tropical e levaram parte do mundo a acusar o Brasil de não fazer o suficiente para proteger o bioma.
A destruição continuou a aumentar neste ano. De janeiro a março, o desmatamento na Amazônia brasileira cresceu 51% na comparação com um ano atrás, de acordo com dados de satélite preliminares.
Mourão disse que neste ano o governo estabelecerá bases permanentes para militares, policiais federais e estaduais, agências ambientais e outras forças de segurança na Amazônia.
“Já estamos com um planejamento praticamente concluído de uma ação contra o desmatamento e já preventiva contra as queimadas, que deve começar ali por julho e agosto, empregando não só as Forças Armadas em situação de garantia da lei e da ordem, como também Polícia Federal, Ibama, ICMBio, Força Nacional de Segurança Pública, as Polícias Militares estaduais de modo que nós estabeleçamos bases permanentes ao longo deste ano e consigamos diminuir essa atividade ilegal”, afirmou.
“Vamos atuar inicialmente dentro das áreas de conservação, dentro das terras indígenas, dentro das terras federais que ainda não foram distribuídas, que ainda não foram adquiridas por particulares, no sentido então de impedir essas ações.”
Mais cedo nesta quarta-feira, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, disse que a GLO está nas mãos de Mourão.
“Se for necessária uma nova GLO, as Forças Armadas estão prontas mais uma vez”, garantiu Azevedo.
Os planos de mobilização militar coincidem com sinais de que o governo está relaxando no cumprimento das proteções ambientais de rotina devido ao surto do novo coronavírus.
Uma autoridade do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) disse à Reuters em março que não poderá mandar tantos agentes para deter crimes ambientais por causa dos riscos de saúde.
Ambientalistas temem que isso faça a destruição disparar ainda mais na floresta tropical, mas o Ibama disse que as reduções de pessoal não ocorrerão na Amazônia, mas em outras áreas.
Reportagem adicional de Anthony Boadle
(Reuters)

A mundialização é uma interdependência sem solidariedade



por Edgar Morin em entrevista a David Le Bailey e Sylvain Courage – Tradução: Edgard de Assis Carvalho –
No estado atual, qual o ensinamento que se pode tirar da pandemia do coronavírus?
Esta crise mostra que a mundialização é uma interdependência sem solidariedade. O movimento da globalização produziu a unificação tecnoeconômica do planeta, mas não ampliou a compreensão entre os povos. Desde seu início, nos anos 1990, guerras e crises financeiras se multiplicaram. Os perigos planetários – ecologia, armas nucleares, desregulação da economia – criaram uma comunidade de destino para os humanos que não se conscientizaram disso. De modo imediato e trágico, o vírus deixa clara essa comunidade de destino. Tomaremos, enfim, consciência disso? A falta de solidariedade internacional e organismos comuns para adotar medidas na escala da pandemia faz com que as nações se fechem nelas mesmas.
Em seu discurso, o presidente Emmanuel Macron adverte sobre o perigo de uma “retomada nacionalista”...
Pela primeira vez, estamos diante de um verdadeiro discurso de presidente. Não se trata apenas de uma questão econômica e empresarial, mas do destino de todos os franceses, dos enfermos e dos cuidadores, das pessoas desempregadas, obrigadas a trabalhar em tempo parcial. Sua alusão à necessidade de mudança do modelo de desenvolvimento pode ser indício de algo. O antídoto para a retomada nacionalista não é a retomada europeia, já que a Europa é incapaz de se unir: mas sim a formação de solidariedades internacionais, a começar pelos médicos e pesquisadores de todos os continentes.
Quais mudanças seriam necessárias para isso?
O coronavírus reitera veementemente que a humanidade como um todo deve buscar uma nova via capaz de abandonar o New Deal político, social, econômico. A nova via salvaguardaria e reforçaria serviços públicos como os hospitais que, há anos, na Europa passam por reduções insensatas. A nova via corrigiria os efeitos da mundialização criando zonas desmundializadas que se incumbiriam de salvaguardar as autonomias fundamentais…
Quais são essas “autonomias fundamentais”?
Em primeiro lugar, a autonomia de produtos alimentares. Na época da Ocupação, durante a Segunda Guerra Mundial, a agricultura francesa era diversificada, e isso permitiu alimentar a população a despeito dos ataques alemães. Hoje, mais uma vez, é preciso diversificar. Existe, igualmente, a autonomia da saúde publica. Muitos medicamentos hoje são produzidos na Índia e na China e corremos sérios riscos de passar por uma severa escassez. É preciso relocalizar o que é vital para uma nação.
A mundialização transforma a crise da saúde pública em crise geral?
Claro que sim. A decisão de Vladimir Putin de manter a produção do petróleo russo provocou uma baixa de preço na Arábia Saudita e nos Estados Unidos. O Texas, por exemplo, pode passar por graves dificuldades e talvez fazer com que Donald Trump perca a eleição presidencial… O pânico atinge também o mercado financeiro, e isso pode provocar um crash nas bolsas de valores, como o que ocorreu na chamada quinta-feira negra de 29 de outubro de 1929. Não se consegue controlar essas reações em cadeia. A crise gerada pelo vírus agrava a crise da humanidade estimulada por forças que ignoram qualquer tipo de controle.
Se fizermos uma comparação com a gripe espanhola de 1918-1919, objeto de uma verdadeira omertà da parte das autoridades, os governantes atuais se empenharam em dar mais transparência às suas ações. Isso não pode ser considerado como um efeito positivo da globalização?
Na época da gripe espanhola, ninguém queria que as populações, sobretudo os combatentes, tomassem consciência do flagelo. Essa opacidade é impossível nos dias de hoje. Mesmo o regime chinês não pôde esconder a informação, e puniu o herói que deu o sinal de alerta… As redes de informação permitiram que ficássemos a par do avanço da pandemia país por país. Mas isso não desencadeou uma cooperação internacional espontânea de pesquisadores e médicos. A OMS, assim como a ONU, é incapaz de fornecer os meios de resistência aos países mais desfavorecidos.
“Retornou-se aos tempos de guerra”: esta frase é muitas vezes citada para descrever a situação da Itália e da França. O senhor conheceu esse período. A analogia lhe serve de inspiração para alguma coisa?
Na época da Ocupação Nazista, houve fenômenos de encarceramentos e confinamentos, como no caso dos guetos… Mas a grande diferença com os dias de hoje reside no fato de que, na dominação nazista, as medidas de confinamento eram impostas pelo inimigo, enquanto agora elas se impõem contra o inimigo, o vírus. Após alguns meses da Ocupação alemã, as restrições de abastecimento começaram a aparecer. Não chegamos ainda a esse nível, mas já existem momentos de pânico. Mas se essa crise continuar, com a redução dos transportes de mercadorias em nível internacional, pode-se prever um retorno dos racionamentos. Mas a analogia para por aí. Não estamos no mesmo tipo de guerra.
Pela primeira vez desde 1940, escolas e universidades foram fechadas…
É verdade, mas naquela época o fechamento foi bem provisório. A derrota da França ocorreu em junho, no momento em que as férias começavam. Em outubro, as escolas foram reabertas.
O que se pode esperar do confinamento? O medo? A desconfiança entre os indivíduos? Ou, ao contrário, o desenvolvimento de novas relações com os outros?
Vivemos numa sociedade na qual as estruturas tradicionais de solidariedade se degradaram. Um dos maiores problemas é restaurar as solidariedades entre vizinhos, entre trabalhadores, entre cidadãos… Com as restrições que sofremos agora, as solidariedades vão ser reforçadas, por exemplo, entre os pais e os filhos que não estão indo às escolas. As possibilidades de consumo vão ser reduzidas e podemos aproveitar a oportunidade para repensar o consumo desenfreado ou, melhor dizendo, a dependência, o “consumo drogado”, essa intoxicação concernente a produtos sem utilidade real e substituir a quantidade pela qualidade.
Provavelmente, nossa relação com o tempo também vai mudar…
Claro. Graças ao confinamento, a esse tempo que recuperamos, que não é mais picado, cronometrado, um tempo que não se resume a andar de metrô-ir ao trabalho-voltar para casa e dormir, poderemos nos reencontrar a nós mesmos, perceber quais são as necessidades essenciais como o amor, a amizade, a ternura, a solidariedade, a poesia da vida… O confinamento pode ajudar a começar uma desintoxicação do nosso modo de vida e a compreender que o bem-viver implica o florescimento de nosso “Eu”, mas sempre entre os diversos “Nós”.
Em última análise, essa crise pode ser paradoxalmente salutar?
Fiquei muito emocionado ao ver mulheres italianas nas sacadas de suas casas cantarem esse hino de fraternidade denominado “Irmãos de Itália”. Devemos recuperar uma solidariedade nacional que não seja mais fechada e egoísta e sim aberta para nossa comunidade de destino “terrestre”. Antes do surgimento do vírus, os seres humanos de todos os continentes tinham os mesmos problemas: a degradação da biosfera, a proliferação das armas nucleares, a economia sem regulação que só faz ampliar as desigualdades. Não resta dúvida de que essa comunidade de destino existe, mas como as mentes estão angustiadas, em vez de tomar consciência disso, elas se refugiam num egoísmo nacional ou religioso. Que fique bem claro, precisamos de uma solidariedade nacional que é essencial, mas se não compreendermos que é preciso uma consciência comum do destino humano, se não ampliarmos os laços de solidariedade, se o pensamento político não mudar, a crise de humanidade se agravará cada vez mais. A mensagem do vírus é clara. Pior para nós, se não quisermos entendê-la.
(L’OBS/#Envolverde)
Agradecimento especial a Vivian Blasso que possibilitou essa publicação)

Como negar a tragédia que nos assola?


por Amelia Gonzalez – 
Um silêncio de cidade abandonada, folhas de árvores sendo sopradas por um vento fraco e o sol ainda ganhando força. E eu vou andando devagar com os meus cães, cedinho, só por aqui, no meu entorno. Uso máscaras e me higienizo. Mas o vírus está no ar, e não me esqueço disto em nenhum momento da minha marcha acanhada, insólita para quem, como eu, gosta da liberdade, leveza e rapidez que meus pés me dão. Como de praxe, sigo pensando.
Meu tema recorrente há década e meia tem sido este desenvolvimentismo que nos remete ao aquecimento do planeta, à degradação de grande parte dos bens naturais, à poluição sonora, visual, ambiental com a qual vimos nos brindando, nós, a humanidade.
Logo nos primeiros momentos do isolamento provocado pela pandemia de vírus Corona, chegaram a mim imagens idílicas, mostrando lugares já quase destruídos pelas atividades industriais, de mineração, de pilhagem e até de turismo, em franca recomposição. Veneza com águas limpas, fundo da Baía de Guanabara com tartarugas e peixes… como não se deixar envolver e acreditar?
O coronavírus está matando pessoas e desacelerando economia. Haverá ganhos, ao menos, para o meio ambiente?
Busquei mais informações e descobri que há duas turmas de pesquisadores já encarapitados em montes para medir a quantidade de CO2 agora que o mundo praticamente parou. Uma equipe está no topo de uma montanha no Havaí e a outra está na ilha ártica de Svalbard, na Noruega.
Mas, por enquanto, não há como provar nada, a não ser que na estação Zepellin, em Svalbard, a curva que mostra o acúmulo de gases poluentes não está apontando para cima, o que geralmente ocorre nesta época do ano.
É cedo para que os estudos feitos no momento da pandemia comprovem que o fato de as atividades humanas estarem semiparalisadas está causando limpando o ar. Este é o fato.
Mas não é cedo para refletir sobre mudanças, e muita gente boa está fazendo isto. Tem a turma que quer um “tudo voltando à normalidade”, o que me deixa estarrecida. Pondo uma lupa, percebo que são os mesmos de sempre.
Naomi Klein, ativista ambiental e jornalista canadense, conta num de seus excelentes livros – “This changes everything: capitalismo versus the climate”, que aqui no Brasil recebeu o título “Tudo pode mudar” – suas impressões sobre o dia em que foi à sexta Conferência Internacional sobre Mudanças Climáticas organizada pelo Instituto Heartland em 2011.
É um clube de negacionistas do clima.
Um deles, Richard Rothschild, abriu sua participação no evento dizendo que o movimento dos que alertam para as questões do aquecimento global é como um “cavalo de Troia verde”.
Na imaginação de Rothschild, a barriga do presente de grego estaria repleta de marxistas prontos para ganhar mundo e espalhar suas teorias comunistas de que o desenvolvimento impacta o meio ambiente.
Qualquer semelhança com o pensamento do atual presidente da República do Brasil e seus ministros não será mera coincidência. Porque este é o caminho que seguem aqueles que acreditam no regime neoliberal. Nada de dar força ao estado para cuidar do meio ambiente porque este “mercado” também precisa dar lucro e se virar sozinho. Mais ou menos isto.
Não param aí as coincidências com as opiniões do pessoal que nos governa. O diretor de comunicações da Heartland, Jim Lakely, comparou a Covid-19 a uma temporada de “gripe ruim”. Quase disse “gripezinha”…
O pavor de quem governa é ver os cofres vazios. Está circulando no site de Naomi Klein um vídeo em que ela alerta: o capitalismo pode ficar pior, ainda mais desigual, se os líderes passarem a beneficiar as empresas, não as pessoas.
Anteontem, até mesmo Svenja Schulze , ministra do Meio Ambiente da Alemanha, país que tem se diferenciado nas ações a favor de mudanças, surpreendeu a todos na abertura da Petersberg Climate Dialogue, em Berlim, defendendo o resgate da Lufthansa, a maior empresa aérea do país, que está pedindo 10 bilhões de euros para não afundar de vez.
Questionada pelos ambientalistas, já que a aviação é um dos setores mais poluentes, a ministra disse que, por hora, é o que tem que ser feito. É preciso, segundo ela, ajuda rápida e direcionada para projetar uma recuperação econômica para a crise.
É difícil mesmo ir contra o discurso normativo, sobretudo num momento em que todos estão com tanto medo. Nesta hora é mais ameno ouvir pessoas que prometem que “vai acabar tudo bem e tudo vai voltar ao normal”. Não vai. Sabemos disso intuitivamente, mas no fundo a gente não está preparado para mudar.
O ambientalista e ativista francês Julien Wosnitza, um jovem de 25 anos, fez espraiar pelas redes suas ideias para um novo futuro. Recebi de um amigo. Wosnitza faz uma espécie de carta ao presidente Macron, e dá um exemplo sobre a mudança necessária que, coincidentemente, usa as empresas aéreas como exemplo. Por que gastar dinheiro para recuperar empresas aéreas, sendo elas tão poluentes?
No “novo mundo” criado pelo jovem, o setor das aéreas seria substituído por barcos a vela. E o dinheiro do governo que seria usado para salvar aquelas empresas, vai ser todo investido em ajudar os pequenos agricultores do país, já que a França não produz alimento suficiente para seus habitantes. Os desempregados da indústria aérea seriam realocados no setor de alimentação que, obviamente, teria a exportação bem reduzida.
É radical. Mas estamos vivendo num tempo de pôr as ideias sobre a mesa quando elas indicam possibilidade de caminhos diferentes. Se for singular a cada espaço, melhor ainda. A pandemia está mostrando, mais do que tudo, que erramos em aceitar o excesso como regra.
Hora de fazer contato com o próximo, com o que é possível.

A jornalista Amelia Gonzalez  criou e editou o caderno Razão Social, sobre sustentabilidade, no jornal O Globo e nos últimos sete anos foi colunista do site G1, sempre com foco neste tema

(#Envolverde)