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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Coronavírus nas favelas: ‘É difícil falar sobre perigo quando há naturalização do risco de vida’

Por Hara Flaeschen, ABRASCO
A pandemia  invade fronteiras sem distinguir idioma, território, poderio político ou econômico. O coronavírus escancara as contradições deste país continental: quem não tem água encanada para lavar as mãos corre mais riscos, e o período de isolamento é desesperador para aqueles que precisam do ir e vir das pessoas e da movimentação das cidades para garantir a própria sobrevivência. Parte significativa da população brasileira – trabalhadores na base da pirâmide de distribuição de renda – será atingida com mais brutalidade pelos impactos diretos e indiretos da Covid-19.
A dificuldade de prevenção e de tratamento, a impossibilidade de manter o distanciamento social, e a ausência de salários fixos ou benefícios para sobreviver à quarentena são alguns dos fatores que delineiam esta dura realidade. Estatísticas recentes do DataFavela, instituto de pesquisa associado à Central Única das Favelas (Cufa) e ao Instituto Locomotiva, indicaram que metade dos trabalhadores que vivem nas favelas brasileiras não possuem vínculos empregatícios formais: 47% são autônomos, 10% são aposentados, 8% são empregados mas não têm carteira assinada, 5% são donas de casa. Só 19% são contemplados pela Consolidação das Leis de Trabalho (CLT). O instituto também apontou que 7 em cada 10 famílias já registraram diminuição na renda desde que o isolamento social foi instituído como a melhor estratégia para enfrentamento do coronavírus.
“Nós por nós”
O ar que entra pelos pulmões nas vielas e becos não é o mesmo ar de quem respira nas áreas nobres, sempre arborizadas. O sol não nasce para todas as janelas, como nos condomínios do asfalto. Também não há acesso fácil à alimentação adequada, e gasta-se muito tempo no deslocamento até o trabalho. A Covid-19 apresenta novos riscos, e intensifica os que já existem por ali, aflorando as discrepâncias sociais. Contraditoriamente às condições mais frágeis de saúde (ou em paralelo?), o medo de morrer é relativo. É o que contou Juliana Pinho, comunicadora popular do complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro. Ela trabalha, junto com outros colegas da comunicação comunitária, moradores, ONG’s e militantes de todo o país, na campanha “Corona nas Favelas e Periferias”.
“Percebemos que muita gente ainda não está por dentro da gravidade do assunto. É muito difícil conscientizar pessoas que são ameaçadas desde sempre [pela violência estrutural] sobre o perigo de vida. Em dias de tiroteios e operações policiais, nossas rotinas não podem parar, o patrão não libera. O dinheiro para colocar comida em casa depende do trabalho. Essa realidade gera a naturalização do risco de vida. É bem difícil”, desabafou Juliana. O esforço de comunicação – digital, impressa e presencial – se dá através de faixas, cartazes e banners virtuais espalhados entre os moradores de favelas e periferias, estimulando ações de solidariedade e divulgando práticas de cuidado, a fim de dirimir os efeitos da doença sobre estas populações.
Muitas pessoas ainda precisam circular por causa de seus trabalhos, nos comércios locais ou em atividades por outros bairros da cidade, e, segundo Juliana, o volume de circulação aumentou um pouco após o pronunciamento do Presidente da República, na semana passada, que estimulava as pessoas a voltarem aos seus trabalhos. Apesar da dificuldade, as ações de comunicação e saúde surtem efeito e, aos poucos, a população reconhece o movimento: “É  importante valorizar esta campanha, que está partindo dos comunicadores e moradores. Aqui na Maré as organizações locais [como ONGs e associações], que têm mais recursos financeiros e ‘braçais’, também estão trabalhando juntas e prestando apoio para as ações independentes, o que é bem legal. Acredito que o momento exige união e solidariedade, características já muito presentes no dia a dia da favela”.
O Estado precisa agir 
Se há mobilização popular, também há preocupação dos pesquisadores da saúde coletiva, que estão em alerta com a chegada da doença nestes locais onde vivem pessoas em condições de vulnerabilidade: “Este grupo social é composto, em sua maioria, por indivíduos não brancos – negros, indígenas, imigrantes de países da África, da América do Sul. Sem falar nas pessoas em situação de rua. A cor da pele pode significar, inclusive, agravamento do quadro clínico. Na população negra, por exemplo, temos alta prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão arterial e diabetes, que se associadas com a Covid-19, podem aumentar as chances de óbito”, explicou Alexandre da Silva,  docente da Faculdade de Medicina de Jundiaí e integrante do Grupo Temático Racismo e Saúde, da Abrasco. 
O professor enalteceu as auto-organizações faveladas e periféricas, mas ponderou que o Estado não pode ficar ausente: “É digno, honroso, extremamente importante que exista estas movimentações. Mas, sozinhos, não conseguirão mudar o cenário total da pandemia que vem se instalando em nosso país. As ações intersetoriais agora são muito importantes,  é necessário pensar a saúde de maneira ampla – não se trata só de leitos hospitalares e medicamentos, é preciso proteção social. O SUS deveria estar pronto, forte e com capilaridade suficiente para monitorar essa população”.
Outra problemática apontada pelo pesquisador é a saúde mental. A pesquisa do DataFavela sinalizou que 54% das pessoas empregadas têm receio de perder o emprego, e 75%  preocupa-se com os impactos da doença em suas rendas. Alexandre da Silva afirmou que essas tensões – relacionadas às questões mais básicas de sobrevivência, como medo de passar fome – podem causar intensificação do sofrimento psíquico nestes grupos sociais.
“Tem que parar este austericídio”
Os dados reforçam a necessidade de medidas emergenciais, de âmbito econômico e social, para atenuar a transmissão comunitária do coronavírus e suas consequências. Em uma Carta aberta à Presidência da República e ao Congresso Nacional, enviada em 18 de março, a Abrasco e outras entidades da saúde coletiva e da bioética defenderam, dentre outras propostas, assistência financeira para as pessoas atingidas economicamente, além de isenção nas taxas de água e luz, desconto nas contas telefônicas e distribuição gratuita de alimentos e de itens de higiene. A renda básica, voltada para famílias que já estão sem meios de comprar itens elementares, foi aprovada na Câmara dos Deputados (em 26/03) e no Senado (em 30/03), e segue para a canetada final, na mesa do presidente. É uma vitória, mas não pode ser a única forma de proteger a população.
A pandemia chegou ao Brasil e encontrou um país já bastante fragilizado, sob forte política de austeridade, congelamento dos gastos públicos com saúde e educação por 20 anos, decretados pela Emenda Constitucional 95, e a retirada de direitos trabalhistas e previdenciários. O Estado está enfraquecido, e a condição extrema da Covid-19 expõe isso: “Há o subfinanciamento crônico do SUS, os ataques às universidades – [o governo federal] cortando bolsas de pesquisa, mesmo durante a crise de coronavírus. Agridem a ciência. Também estão desmontando a proteção social. Mudam o padrão de benefícios com reformas, dificultando o acesso dos cidadãos à aposentadoria ou às pensões. Houve uma contenção no Programa Bolsa Família, a fila de espera está enorme”, apontou a abrasquiana Sonia Fleury, pesquisadora do Centro de Estudos Estratégicos da Fundação Oswaldo Cruz (CEE/Fiocruz).
Diante do novo cenário colocado, Fleury espera que haja uma mobilização de toda a sociedade para reverter essas políticas que estavam em curso: “A sociedade que aceitou a emenda que fragilizava a educação e a saúde [EC95], hoje não deixaria passar. Este não é o momento de equilíbrio fiscal, é necessário colocar dinheiro para salvar a vida da população e também a economia. Tem que parar este austericídio, precisamos evitar o extermínio. A melhor coisa que temos para combater a pandemia é o SUS. Para sobreviver à doença, e ao que vem depois dela, devemos fortalecer o Estado, o mercado não vai resolver”.
Comunicação é responsabilidade social 
Nas ruas da Maré, no Rio de Janeiro, faixas e cartazes buscam conscientizar moradores
Nas ruas da Maré, no Rio de Janeiro, faixas e cartazes buscam conscientizar moradores | Foto: Maré Vive, divulgação nas redes sociais
Ainda segundo a pesquisadora, outra forma de enfrentar a doença é a comunicação, fazer circular informação de qualidade. Fleury coordena o Dicionário de Favelas Marielle Franco, uma plataforma pública que concentra produção de conhecimentos sobre favelas. O Dicionário agora está com um especial sobre coronavírus, e qualquer pessoa pode encontrar informações sobre como ajudar as favelas durante a pandemia, os materiais produzidos pela e para a favela e outras notícias: “No primeiro mês falando sobre a doença, a imprensa não considerou a realidade das favelas e periferias. Recomendava lavar as mãos, sem considerar que muitos lugares não têm água porque a Cedae não oferece água para as pessoas, apesar de ser uma empresa pública. É preciso informação voltada para estas realidades”, afirmou.
A falta de água é uma preocupação constante,  que também dificulta o trabalho de conscientização da população – como convencer pessoas de que suas vidas importam se elas não podem sequer lavar as mãos frequentemente? Juliana Pinho contou que há um mapeamento dos pontos  sem abastecimento regular de água pela Maré, e que estes dados são levados às associações de moradores, que, por sua vez, pressionam as autoridades: “Ressaltamos sempre o quanto a água, além de direito humano, é imprescindível para o morador se manter em casa minimamente seguro contra o vírus. Ainda assim, sabemos que muitas outras favelas também têm a distribuição de água limitada. Estamos reforçando a solidariedade entre nós, moradores. Algumas faixas dizem ‘Sabemos que temos um precário abastecimento de água. Caso você tenha água em casa, compartilhe com quem precisa’”.
Nas ruas da Maré, ou no espaço virtual do Dicionário de Favelas Marielle Franco, a favela fala por si. Grita sua capacidade de organização, expressa a potencialidade da vida em comunidade e pede socorro: todas as vidas importam. Saiba como apoiar favelas no Rio de Janeiro e em outros estados para o enfrentamento do coronavírus.
Entrevista publicada pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva – Abrasco e reproduzida in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/04/2020
Coronavírus nas favelas: ‘É difícil falar sobre perigo quando há naturalização do risco de vida’, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 1/04/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/04/01/coronavirus-nas-favelas-e-dificil-falar-sobre-perigo-quando-ha-naturalizacao-do-risco-de-vida/.


EcoDebate - Edição 3.404 de 01 / abril / 2020


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

Isolamento social pode agravar ansiedade e transtornos compulsivos

Bruna Borges, especialista em terapia cognitiva comportamental pela USP, fala como prevenir e tratar problemas que surgem em epidemias como a do coronavírus
Crises de ansiedade, transtornos compulsivos e depressão são alguns dos sintomas psicológicos do isolamento social provocado por epidemias como a do coronavírus. De acordo com a psicóloga Bruna Borges, de São José dos Campos, interior de São Paulo, o número de ataques de pânico e queixas de depressão profunda está aumentando.
“A pandemia do novo coronavírus atrapalha o tratamento de pacientes que já sofriam de ansiedade e depressão. O medo prolongado gera mais ansiedade, podendo desencadear os ataques de pânico e os transtornos obsessivos compulsivos (TOC)”, explica a psicóloga, que intensificou seus atendimentos on-line.
Bruna Borges
“Alguns pacientes me procuraram porque estão com TOC para limpeza ou compulsão por comida. Já as pessoas que sofriam de depressão enfrentam novos riscos. Apesar das recomendações de isolamento, não convém que elas fiquem sozinhas porque a doença pode se agravar e levar a suicídios”, acrescenta Bruna Borges.
Além do agravamento dos casos já existentes, estão surgindo novos casos. “As pessoas mais propensas a desenvolverem este tipo de transtornos são aquelas que alimentam padrões de pensamento negativos. Nestes casos, o ideal é que elas sejam orientadas por profissionais e familiares a mudarem o foco e enxergarem o lado positivo deste momento, por mais difícil que ele seja, porque ele vai passar”, orienta a psicóloga.
Mesmo sem terem sido contaminadas pelo vírus, estas pessoas podem apresentar sintomas como dor de cabeça e falta de ar. Nos pacientes que sofrem de ansiedade, os primeiros sintomas são agitação, fobias e manias. No caso dos pacientes com depressão, a tendência é se isolar ainda mais, ficar trancado no quarto e não participar das conversas.
“Os pacientes que estão nesta situação tendem a reforçar seus argumentos pessimistas com o acontecimento da pandemia, dizendo coisas como ‘eu falei que nada dá certo, não vale a pena me esforçar”; ‘eu sabia, por mais que eu tentasse, tudo ia dar errado”, conta Bruna Borges.
Nessas horas, os familiares podem lembrar ao paciente que esta crise é momentânea e que está todo mundo passando pela mesma situação e ajudá-lo a se acalmar com exercícios de respiração.
Caso o ataque de pânico já tenha acontecido, o certo é esperar a crise passar e, aí sim, procurar uma ajuda para fazer os exercícios de relaxamento e se recuperar. O mais importante é sempre ter um psicólogo por perto. Se a crise se agravar, com a iminência de ataque cardíaco, procurar, sim um hospital para ser atendido.
#Envolverde

Medidas para garantir o direito à alimentação e combater a fome em tempos de coronavírus

Mais de 140 organizações da sociedade civil apelam ao poder público por ações urgentes e emergenciais para colocar a vida e a dignidade humana em primeiro lugar
Demandas incluem a criação de comitês emergenciais para o combate à fome, a adequação do Pnae a situações de calamidade, a recomposição imediata do orçamento da saúde, a garantia do abastecimento alimentar e a rápida implementação da Renda Básica Emergencial
Diante do contexto da pandemia global provocada pelo novo coronavírus (Covid-19), mais de 140 entidades civis de todas as regiões do país publicaram um apelo para que o direito à saúde e à alimentação da população brasileira seja respeitado, protegido e garantido. O documento conjunto apresenta uma série de propostas de combate à fome a serem implementadas, em caráter urgente e emergencial, pelos governos nas esferas federal, estadual e municipal.
Assinadas por fóruns, redes, articulações, movimentos e organizações da sociedade civil, as proposições incluem:
  • Revogação imediata da Emenda Constitucional (EC 95), que congelou gastos sociais por 20 anos, desde 2016;
  • Recomposição imediata do financiamento de saúde, com base nos mínimos constitucionais definidos antes da EC 95;
  • Criação de Comitês de Emergência para o Combate à Fome no âmbito dos estados e municípios;
  • Interrupção de todos os despejos e reintegrações de posse, coletivos e individuais, em áreas rurais e terrenos urbanos;
  • Continuidade e adequação das estratégias do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), por meio da distribuição direta de alimentos às famílias;
  • Expansão de programas de transferência de renda e seguridade social, como a imediata expansão do Programa Bolsa Família (PBF) e a rápida implementação da Renda Básica Emergencial, aprovada pela Câmara dos Deputados;
  • Continuidade, ampliação e adequação da distribuição de alimentos pelos Equipamentos de Segurança Alimentar e Nutricional e Cestas, utilizando orestaurantes populares, bancos de alimentos, cozinhas comunitárias e unidades de distribuição da agricultura familiar, com todas as adaptações e cuidados necessários;
  • Garantia do abastecimento alimentar, por meio da manutenção do funcionamento das Ceasas, do controle do preço dos alimentos e da retomada do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da agricultura familiar, associada à distribuição de cestas básicas;
  • Políticas de emergência para a agricultura familiar e pescadores/as artesanais, fundamentais para o abastecimento de Comida de Verdade à população brasileira, para além da geração de renda e produção para a subsistência;
  • Garantia de políticas de proteção e defesa do direito à alimentação e saúde de povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, por meio da suspensão de quaisquer tentativas de despejo em retomadas dos territórios de ocupação tradicional, e o fortalecimento do subsistema de saúde indígena.
Ao lado dessas prioridades, o documento repudia a Medida Provisória (MP) 927 da Presidência da República e se soma à campanha da Rede Brasileira de Renda Básica. Algumas proposições já encontram eco em medidas em andamento, como o Projeto de Lei 886/2020, que institui ações de amparo aos agricultores familiares; e a proposta de alteração na Lei 11.947/2009 para adaptar o Pnae a situações de calamidade.
“São urgentes medidas que cheguem aos mais vulneráveis à fome”, alerta a ex-presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) Elisabetta Recine, integrante do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional. “A sociedade civil brasileira vem nos últimos anos denunciando e mobilizando esforços contra medidas que paralisaram programas estratégicos de enfrentamento das desigualdades.”
“Para além da distribuição dos produtos da alimentação escolar às famílias dos alunos, há iniciativas relevantes dos governos locais”, acrescenta a relatora nacional de direitos humanos da Plataforma Dhesca, Mariana Santarelli, que também integra o Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN). “Entre os exemplos estão os Restaurantes Populares do Rio de Janeiro distribuindo quentinhas à população de rua; as famílias com crianças em creches públicas do Distrito Federal que receberão um cartão para compra de alimentos; e o caso do Paraná, que está montando uma estratégia intersetorial para a distribuição de cestas a partir de compra direta da agricultura familiar e das redes de agroecologia. Mas ainda é muito pouco. O governo federal precisa transferir renda.”
As organizações atentam para a chegada do novo coronavírus em um momento de estagnação econômica, desmonte dos sistemas de saúde e proteção social e aumento acelerado da pobreza e da extrema pobreza. O texto ressalta, ainda, que a população negra e afro-brasileira, os povos indígenas, os/as que vivem em regiões favelizadas e periféricas e as mulheres de forma geral sofrerão impactos ainda mais graves.
“As consequências da pandemia por si só são graves e serão ainda piores se não houver urgência nas medidas que priorizem os mais vulnerabilizados”, comenta Elisabetta Recine.
A manifestação se insere no processo de mobilização e organização da Conferência Nacional Popular e Democrática por Direitos, Democracia, Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.
(#Envolverde)

A espiral do novo coronavírus expõe a janela da fragilidade aberta no Antropoceno

Por Sucena Shkrada Resk* – 
Com a pandemia da Covid-19, somos obrigados a descobrir novos caminhos para a humanidade
Existem algumas guerras que não são estruturadas com armamentos bélicos e que são tão devastadoras quanto a estes conflitos geopolíticos que têm assolado a humanidade, como a 1ª e 2ª Guerra Mundiais. A situação pela qual passamos, em 2020, com a pandemia da transmissão da COVID-19 pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) é um exemplo clássico desta realidade. Até este domingo (29/03), há o registro de 634.835 casos da doença e e 29.957 mortes no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A curva ascendente deve se estender por meses. Estes números ainda podem ser muito maiores, devido a subnotificações, pela falta de testes massivos nas populações. Vivemos em uma espiral que está sacudindo com os nossos aspectos material, psicológico e espiritual. Em que toda esta experiência vai resultar?
No histórico de Emergências de Saúde Pública de Importância Internacional declaradas pela OMS, esta é a sexta na contemporaneidade, e a mais comprometedora em todos os continentes. As anteriores foram a pandemia de H1N1 (24/04/2009); disseminação internacional de poliovírus (05/05/2014); surto de Ebola na África Ocidental (08/08/2014); vírus zika e aumento de casos de microcefalia e outras malformações congênitas (01/02/2016) e surto de ebola na República Democrática do Congo (18/05/2018).
Em todo o planeta, estamos em um front que expõe as vísceras de modelos carcomidos de desenvolvimento, neste período do Antropoceno, que não prezam a infraestrutura sanitária e da retaguarda da saúde pública que deveriam integrar o bem-estar equilibrado da saúde ambiental. Outro desprezo é pela conservação socioambiental, que é um pressuposto para o equilíbrio ecossistêmico e acima, de tudo, um teste para as políticas locais e geopolíticas elencar o que de fato é prioridade para o bem-estar socioeconômico.  Tudo isso tem um preço, que está saindo muito caro para a sociedade global. Entre os efeitos colaterais de toda esta espiral, está a recessão econômica em curso.
O que fica evidente é que ninguém escapa da possibilidade de ser acometido pelas complicações severas da doença, em qualquer idade, mas a maior vulnerabilidade é dos idosos, dos imunodeprimidos, dos cardiopatas, diabéticos e das pessoas com doenças pulmonares; e dos mais pobres, que não têm acesso a moradia, coleta e tratamento de esgoto e água tratada. É aí que entra um componente de peso neste processo, que é a necessidade urgente de empatia e compaixão pelo outro, independente de ser familiar ou não.
Ao mesmo tempo, nos impõe repensar o que devemos colocar de racionalidade na relação de produção e consumo de bens tangíveis e intangíveis e o quanto são importantes as nossas relações familiares e sociais, de uma maneira geral. Nestas fases de distanciamento social, isolamento e quarentena, é como se abrisse um vídeo mental sobre o que deixamos de lado e nos faz imensamente falta. Como podemos sair transformados de tudo isso?
Algumas recomendações, que por sinal, servem para qualquer outra situação de precauções,  permanecerão no nosso inconsciente coletivo como um sinal de alerta permanente: lavar as mãos com água e sabão; usar álcool em gel para a assepsia; água e água sanitária para a limpeza doméstica, ter etiqueta ao tossir e espirrar, priorizar equipamentos de proteção individual (EPI) aos que estão no front; respiradores e ventiladores nas UTIs… Medidas aparentemente óbvias, mas que estão sendo exaustivamente repetidas e que milhares têm dificuldade de cumprir, por falta de acesso à água e a todos estes insumos.
Este conjunto de circunstâncias nos faz pensar no coletivo de uma forma holística. Esta é mais uma oportunidade criada pela pandemia. Praticamente todos os 200 países do mundo estão sofrendo as consequências e veem a oportunidade e necessidade de auxílio mútuo no combate ao novo coronavírus, por meio de ajuda científica, tecnológica, médica, humanística, financeira…
As bolhas estão sendo furadas e vimos que o conceito de humanidade é muito maior que uma mera descrição no dicionário. Empreendedores a grandes empresas estão vendo o quanto faz sentido, agora, exercer a responsabilidade social em toda sua extensão.
O cidadão comum, por sua vez, seja em doações materiais e de cunho psicológico e emocional, por exemplo, batendo palmas ou cantando em suas sacadas, manifestam algum tipo de solidariedade em época de confinamento.  É o exercício da empatia em ação.
Da China e toda a Ásia, à Europa, às Américas, à África e à Oceania, está sendo traçada uma trajetória de imposição de medidas drásticas pelos diferentes governos, sem uma data certa para acabar. Algumas mais assertivas, outras mais tardias. O norte ético está sendo dado mais uma vez pela Ciência e pela Medicina, que enfrenta ainda o desafio de superar a ignorância de céticos.
Estamos no “olho do furacão”, muitas curvas ascendentes da doença à frente. A saúde psíquica e emocional de todos nós também merece atenção. Como não nos fragilizar e nos deprimir devido às mortes de milhares de pessoas na China, na Itália, na Espanha, no Irã e que aumenta dia a dia aqui no Brasil, entre outros países? Manter a sanidade nestes tempos cáusticos é uma tarefa constante. Ninguém será mais o mesmo, após esta pandemia. Isto é certo.
Novos medicamentos em teste, inúmeros estudos em andamento de vacinas seguras que provavelmente demorarão na casa de um ano a um ano e meio a serem definidas revelam mais uma vez o quanto a Ciência é imprescindível e não pode ser sucateada.
O que também é um fato interessante e positivo é que todos os tipos de especulações indevidas, neste período, estão sendo duramente rechaçadas. Querer ganhar sobre a tragédia humanitária, com preços abusivos, não tem espaço neste front. A palavra “ética” ganha maior expressividade neste contexto.
Sistemas tributários mais justos e pacotes de assistência financeira estão sendo imperiosos senão os mais vulneráveis serão colocados à mercê do perigo de dizimações em massa. Por isso, a taxação de grandes fortunas é um tema que volta à cena nesta crise também do modelo capitalista.
Seja como for, os tempos difíceis e que exigem de todos nós, a capacidade de resiliência, ainda perdurarão pós-pandemia. Este “chacoalhão” no planeta, com as quarentenas, está demonstrando que quando desaceleramos no desmatamento, na emissão de poluentes pelos combustíveis fósseis, o meio ambiente começa a se regenerar. Há uma melhoria literalmente do clima. Mas com certeza ninguém quer que isso aconteça por causa de uma pandemia, mas da conscientização. Talvez este seja o legado após esta crise pela qual passamos.
*Sucena Shkrada Resk – jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.
#Envolverde

O CICLO DA SEMENTE

por Paolla Yoshie, especial para a Envolverde – 
A jornada de coletores e iniciativas voltadas para recuperação ambiental entorno da semente. 
O sol nasce no centro-oeste do país, no fuso horário de uma hora a mais do que Brasília.  Cercada pelo cerrado, mais especificamente na cidade de Diamantino, localizada a 183 km de Cuiabá. É cedo, é dia de colheita. O café já está posto à mesa, prepara-se o “quebra – torto” (farofa) e o pão para comer mais tarde. Hoje, a coleta é com o vizinho do sítio ao lado. O dia começa e termina com o podão, lona no chão, e sacos de semente, para que elas tomem vida em outros lugares onde estão em falta. 
Esse pode ser apenas um dia da rotina dos coletores de semente, da Associação Ceiba, do assentamento em Diamantino, Mato Grosso. Pela qual 12 famílias fazem parte do núcleo de coletores de sementes. 
As sementes possibilitam uma longa cadeia de produção que começa pelos coletores, passam por instituições, técnicos e terminam em áreas de recuperação ambiental. Os coletores têm a responsabilidade de captar e entregar a natureza novas vidas. De família de agricultores,  Rosevethe Marques Martins, 66 anos, começou a colher sementes em 2007, sendo uma das pioneiras da Associação. “Eu sempre e gostei de plantar semente. Sempre me fascinou porque eu colocava uma sementinha de abóbora no chão, e depois eu via um pé de abóbora cheia de abóbora. Aquilo me encantava. Então, semente sempre me fascinou.” acrescentou.
Rosevethe Marques Martins
Ela conta que no início colhia sementes sozinha, mas hoje conta com a participação da sua família.  “Hoje mesmo aqueles que não coletam apoiam muito. Toda a família apoia. A semente acabou juntando mais a família” ressaltou Rosevethe . 
O trabalho com as sementes, no começo, não era bem aceito pelas pessoas. Segundo Rosevethe, eles não tinham incentivo. “Era um serviço da marginalidade, tipo assim. Você era discriminada. As pessoas demoraram muito para perceber o coletor de semente como uma parte importante do processo de vida no planeta terra.” disse ela.  O cenário está diferente hoje, para ela o seu trabalho está sendo valorizado pela sociedade. Pela qual há mais procura por sementes. “Nós somos pequenos, mas a ação é grande. Não adianta você ser grande com a ação pequena.”explica.
Em busca de novo ritmo de vida Antonio Augusto Marques Martins, 45 anos, filho de Rosevethe, muda-se com a família  de Cuiabá para o campo. Coletor de sementes desde 2010, e secretário da Ceiba ele explica que coletar semente significa  sua continuidade como ser humano. “Então, representa isso a minha existência, da minha família nessa questão de meio ambiente, da terra do solo, de tudo que compõe isso daqui.” disse ele. 
Coleta de sementes
A semente é possibilidade de mudança de olhar com natureza. Para Aparecida Fátima Oliveira Martins, 51 anos, esposa de Antonio, também coletora, sua motivação em começar uma faculdade veio da vivência com as sementes. “ Eu me encantei. Você vai no meio da floresta catar semente, limpa e ela se tornar de novo uma árvore. Me apaixonei.” Sua função na Associação é “Elo”, busca novas pessoas para fazer parte da coleta.  Hoje, ela cursa o terceiro semestre de biologia. Segundo Aparecida, a primeira vez que coletou sementes teve muito significado em sua vida. “Teve um ano que eu queria ir para São Paulo ver os meus pais, no litoral. Não tinha dinheiro, mas fomos catar semente para poder viajar. Foi a primeira vez que eu viajei de avião, com o dinheiro da semente que nós colhemos.” recorda a coletora. 
Antonio Martins, Rede de Sementes do Xingu
Associação Ceiba
A Associação Ceiba está localizada em Diamantino, Mato Grosso, sendo composta por 12 famílias de assentados.  A Ceiba foi fundada em 2010, a partir da necessidade de manter os donos dos sítio e suas gerações futuras nas propriedades, isto é, dar a possibilidade de  trabalho e sustento dentro do campo. Uma das atividades realizadas pelo grupo é a coleta de sementes nativas, em sua maioria do cerrado. Desde 2010, são parceiros da Rede de Sementes do Xingu, para onde as sementes são destinadas.
As atividades são organizadas de acordo com o potencial que enviam para a Rede. Contendo informações das espécies que serão coletadas e a quantidade de cada uma. O grupo organiza as pessoas responsáveis pelos fragmentos (áreas que serão coletadas), podendo ser dentro dos próprios lotes, ou dos seus vizinhos ou até mesmo na cidade.  “ No dia que a gente vai para a coleta, a gente sai o mais cedo possível. Um dia antes preparamos o material: o podão, a lona, e sacos para colocar as sementes. Antes, faz um quebra toco que é uma farofa, um pão com ovo. Se for dentro da comunidade, por exemplo, eu posso ir depois do almoço. Geralmente saímos em duas pessoas.” conta Antonio.  Após a coleta, elas são limpas, beneficiadas e armazenadas na casa de sementes. Para depois ser entregue à Rede de Sementes do Xingu. 
Semeadura
A semente é uma das formas de agregação de renda das famílias, pois elas não podem ser coletadas o ano inteiro. “ O pico da coleta é em maio, junho, julho, agosto e setembro…” ressalta Antonio. 
As espécies coletadas são baru, cajuzinho, adubação verde (feijão de porco, feijão guandu), periquitinha, a maioria do cerrado brasileiro. Em 2019, o grupo coletou 62 espécies de sementes nativas. Segundo Antonio, foi o potencial de 761 quilos de sementes no ano inteiro do ano passado.
Rede de Sementes do Xingu
A Rede de Sementes do Xingu é uma organização que atua na oferta de sementes nativas e no processo técnico para restauração de ambientes degradados. Segundo Valter Hiron, da área comercial da Rede de Sementes do Xingu, a rede faz toda a cadeia de restauração, desde a venda da semente, o plantio, assistência técnica e monitoramento da área.
Hoje, possui 568 coletores distribuídos em assentamentos indígenas e coletores urbanos.
Segundo Valter, “O total que foi distribuído para  esses coletores durante o ano de 2019, foi uma renda de 633 mil reais.”. Uma vez que atividade é uma agregação de renda. 
A Rede foi criada pela iniciativa do Instituto Socioambiental (ISA). Segundo  a técnica em restauração ecológica do ISA, Lara Aranha da Costa, as instituições passaram por processo de separação. “O ISA tem a  parte da restauração que compra as sementes da Rede, mas agora também tem a Rede partindo para a área de restauração e o ISA sendo parceiro. São duas frentes que agora são diferentes. Mas não deixa de ser parceria” explica Lara. 
Em seus apoios técnicos de restauração, a Rede implementa o método de plantio chamado de Muvuca. De origem indígena, ela é a mistura de várias sementes para ser plantadas ao mesmo tempo. Além de Muvuca,  a técnica pode ser chamada também de Semeadura Direta. 
Caminhos da Semente
Para incentivar a Muvuca, em 2019, foi criado a iniciativa Caminho das Sementes. Ela conta com organização de diferentes frentes: a Agroicone, faz a coordenação geral, Instituto Socioambiental –  apoio técnico, Partnerships For Forests, programa do Reino Unido – apoio financeiro. Conta também com apoio de comitê de especialistas, ONGs, representantes de governo e o setor privado. 
O Caminhos da semente vem no momento em que a Agenda de Restauração está em evidência. No Brasil, aproximadamente 19 milhões ha tem necessidade de restauro para o comprimento do Código Florestal – Lei de Proteção da Vegetação Nativa LPVN – Lei nº 12.651/12. 
Segundo Laura Barcellos Antoniazzi, especialista em agricultura e sustentabilidade da Agroicone e coordenadora da Iniciativa, a iniciativa está dividida em duas fases. A primeira era diagnosticar o problema, neste caso, o porquê do método não era mais utilizado. A segunda fase foi fazer um plano de ação, que foi finalizado entre julho e agosto. E no momento, o projeto passa pela fase de implementar a técnica em locais que necessitam de restauração ambiental.
A iniciativa tem como foco os estados de São Paulo e Mato Grosso, porém acabou agregando os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. “Eram áreas onde queríamos produzir a semeadura e que ainda tem pouco uso no sudeste, na mata atlântica. Eles  tem bem menos experiência com a semeadura direta do que o cerrado e a amazônia.” acrescentou Laura.  
O projeto tem o intuito de trabalhar com toda a cadeia de restauração. Por isso, segue cinco pilares: capacitação, apoio a novos plantios, apoio a sementes, normas e difusão de conhecimentos.  Uma das características da iniciativa é que o plantio seja um local de aprendizado e qualificação. Por isso, pretende desenvolver assistência técnica a distância, que integrará uma plataforma virtual,a qual terá cursos de qualificação. 
Uma de suas metas é triplicar o uso da muvuca, chegando ao fim do ano com 2.100 ha plantados. Por isso, uma de suas parcerias foi com o Sesc Serra Azul em Rosário do Oeste no Mato Grosso,  para a recuperação de uma parcela de mata nativa. “Tínhamos a meta de 25 e já chegamos a 35 plantios apoiados nesse primeiro ano de iniciativa são cerca de 170 hectares.” explica Laura Barcellos. 
Muvuca
Muvuca/ Semeadura Direta
A cadeia da semeadura direta se dá em primeiro momento na análise da área que vai ser restaurada. Segundo técnico agropecuário e biólogo da Agroicone Maxmiller Ferreira,  a fitofisionomia do local deve ser observada e respeitada, isto é, em um mesmo bioma há diferentes tipos de vegetação e eles devem ser levados em conta no momento de selecionar as sementes para semeadura. Elas são categorizadas em adubo verde, pioneiras e tardias. 
O método é capaz de acelerar o processo da restauração, fazendo com que a sucessão ecológica se torne mais rápida. “A gente achata o processo de 100 anos semeando todos esses grupos ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo que todas nascem a cobertura do feijão e das pioneiras criam condição para as tardias ficarem esperando. As sementes tardias crescem devagar e a medida que as pioneiras vão ganhando biomassa, as outras  espécies vão crescendo.” explica Maxmiller. 
Conforme dados da Agroicone, a semeadura direta é de baixo custo. Chegando a custar aproximadamente  ⅓ a menos em relação com outros métodos, como por exemplo, o plantio de mudas. Para Maxmiller, a cadeia de sementes é mais acessível  por ter menos etapas em sua produção. E o tempo e gasto com a manutenção são menores. (#Envolverde)

Isolamento pode ter evitado até 120 mil mortes por covid-19 na Europa

Modelos matemáticos apontam que distanciamento social fez ritmo de disseminação do coronavírus diminuir. Pesquisadores britânicos analisaram dados de 11 países, incluindo Alemanha, França, Espanha e Itália.
As medidas de distanciamento social para retardar e reduzir a disseminação do coronavírus Sars-Cov-2 em países europeus podem ter evitado entre 21 mil e 120 mil mortes até o final de março, aponta uma análise preliminar de pesquisadores do Imperial College London, publicada nesta segunda-feira (30/03).
Os pesquisadores analisaram o impacto de “intervenções não farmacêuticas”, incluindo isolamento de infectados, fechamento de escolas e universidades, banimento de reuniões de massa e eventos públicos e, mais recentemente, o distanciamento social.
Foram utilizados dados diários em tempo real do Centro Europeu de Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) sobre o número de mortes em 11 países: Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Noruega, Espanha, Suécia, Suíça e Reino Unido.
Os modelos gerados pelos pesquisadores apontam que mudanças na taxa básica de reprodução – número médio de novas infecções geradas por cada infectado – são uma resposta imediata a essas intervenções. De forma geral, os modelos matemáticos mostram que os países conseguiram reduzir a taxa.
Se a taxa básica de reprodução for maior do que 1, uma pessoa infectada passa a doença a pelo menos mais uma pessoa – ou seja, o vírus se propaga. Se for menor do que 1, isso significa que cada vez menos pessoas são infectadas, e o número total de contaminados diminui.
Segundo Neil Ferguson, professor de biologia matemática do Imperial College e um dos autores do relatório, a análise mostra que as intervenções que os países europeus implementaram reduziram significativamente o ritmo de disseminação do coronavírus, causador da doença respiratória covid-19.
“No entanto, ainda não está claro se ou com que rapidez essas medidas farão com que o número de novos casos diminua. Os dados coletados nas próximas duas semanas serão cruciais para refinar nossa avaliação desse ponto-chave”, disse ao site do Imperial College.
O relatório reforça a conclusão de trabalhos anteriores, entre eles um artigo publicado na revista Science em 25 de março, que concluiu que “as medidas drásticas de controle implementadas na China mitigaram substancialmente a expansão da covid-19”.
Samir Bhatt, professor sênior da Escola de Saúde Pública do Reino Unido e um dos autores do estudo do Imperial College, disse haver evidências sólidas de que as medidas de isolamento começaram a funcionar e achataram a curva.
“Acreditamos que um grande número de vidas foram salvas. No entanto, é muito cedo para dizer se conseguimos controlar totalmente as epidemias”, afirmou ao site do Imperial College.
Apesar de reconhecerem os impactos das intervenções no menor número de mortes, os pesquisadores ressalvam que, de forma geral, ainda não é possível concluir se as intervenções atuais são o bastante para fazer a taxa de reprodução cair para menos de 1.
“Ainda existe um alto nível de incerteza nessas estimativas. É muito cedo para detectar substanciais impactos da intervenção em muitos países que estão nos estágios iniciais de suas epidemias. Muitas intervenções ocorreram apenas recentemente, e seus efeitos ainda não foram totalmente observados devido ao intervalo de tempo entre infecção e morte”, diz o relatório. (Deutsche Welle)
LL/ots