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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Pesquisa revela que o gelo da Groenlândia está derretendo a taxas sem precedentes

A camada de gelo da Groenlândia está derretendo , correndo para o oceano e contribuindo para o aumento do nível do mar global a taxas muito maiores do que o normal.


Liderando uma equipe internacional de pesquisadores, o dr. Luke Trusel, um glaciologista do Departamento de Geologia da Rowan (School of Earth & Environment), é o principal autor de um artigo publicado na revista Nature que demonstra que a camada de gelo da Groenlândia está derretendo , correndo para o oceano e contribuindo para o aumento do nível do mar global a taxas muito maiores do que o normal.

geleira

Baseada principalmente na análise de camadas recongeladas em amostras de núcleo de gelo extraídas da Groenlândia, o estudo mostra que o derretimento da Groenlândia começou a aumentar na aurora da Revolução Industrial e acelerou grandemente ao longo das últimas décadas a níveis que não foram experimentados pelo menos os últimos séculos, senão milhares de anos.
Intitulado “Nonlinear rise in Greenland runoff in response to post-industrial Arctic warming”, o artigo, publicado on-line em 5 de dezembro (edição impressa de 6 de dezembro), é o primeiro artigo de pesquisa a ser publicado pela Rowan na Nature.
Trusel disse que a maior vantagem do estudo é a velocidade com que o gelo da Groenlândia está derretendo, particularmente nas últimas duas décadas e meia.
“Não está apenas aumentando, está acelerando”, disse ele. “Essa é uma preocupação fundamental para o futuro”.
Para chegar a essas conclusões, Trusel e vários de seus co-autores exploraram a Groenlândia em busca da “Zona Cachinhos Dourados” da camada de gelo. Ele explicou que, para obter um bom histórico da história da camada de gelo, eles precisavam encontrar locais que descongelassem o suficiente a cada ano. capture a variabilidade do derretimento e registre-a como camadas fundidas recongeladas, mas que não derreterão muito onde a água escorre da camada de gelo e não deixa traços preservados no gelo.
“Encontramos esses sites e perfuramos nossos núcleos mais profundos em 2015”, disse Trusel. “O verdadeiro avanço científico foi ser capaz de mostrar que os núcleos de gelo nos dizem não apenas a quantidade de derretimento nos locais onde perfuramos os testemunhos, mas também a quantidade de derretimento que estava ocorrendo nas elevações mais quentes e baixas e a saída do gelo folha para o oceano.
Um artigo [Greenland is losing ice at fastest rate in 350 years] na Nature explica os resultados do estudo descreveu a enorme quantidade de água que flui do gelo descongelado:
“O estudo da equipe de Trusel mostra que o escoamento da Groenlândia atingiu uma alta de 350 anos em 2012, quando a camada de gelo liberou cerca de 600 gigatoneladas de água no oceano – o suficiente para encher 240 milhões de piscinas olímpicas”.
Este estudo inédito determinou que o aumento do derretimento da Groenlândia coincidiu com o início do aquecimento do Ártico associado à Revolução Industrial, declínio do gelo do Ártico no verão e desaceleração de uma importante corrente oceânica no Atlântico Norte que afeta o clima o Globo. A confluência desses processos demonstra o quão sensíveis as regiões polares são a mudança climática, bem como as conseqüências potencialmente amplas da mudança do Ártico, disse Trusel.
O artigo também relata que a intensidade de derretimento encontrada nos núcleos de gelo da Groenlândia nos últimos 20 anos é de aproximadamente 250 a 575% maior do que no período pré-industrial e que o ano de 2004-2013 produziu o maior derretimento de qualquer década do passado. 365 anos.
Embora o artigo se concentre principalmente nos últimos quatro séculos, Trusel disse que núcleos de gelo mais profundos retirados do Ártico sugerem que o aquecimento, como o que está ocorrendo agora, não ocorreu por até 8.000 anos.
“Os números são impressionantes”, disse Trusel, “e parte do motivo pelo qual está derretendo tão rápido agora é que o derretimento supera o aquecimento. Para cada grau as temperaturas da Groenlândia aumentam, o derretimento aumenta exponencialmente”.
Trusel observou que os cientistas acreditam que o escoamento de água derretida da camada de gelo da Groenlândia exacerbará o aumento do nível do mar durante séculos.
Observações recentes mostram que a elevação do nível do mar já está acelerando, e que o gelo da Groenlândia é o maior contribuinte de novas águas adicionadas ao oceano a cada ano. Se a camada de gelo da Groenlândia, que tem cerca de uma milha de profundidade e mais do dobro do tamanho do Texas, derreter completamente, elevaria o nível do mar em quase 23 pés, submergindo ilhas e comunidades costeiras em todo o mundo.
“O que fazemos agora e no futuro próximo não é apenas crítico para o futuro da camada de gelo da Groenlândia, mas para nossos meios de subsistência e economias. Quanto gelo da Groenlândia derrete e quão rápido, em última análise, é uma função do quanto aquecemos a atmosfera ”.
Ele observou que as inundações costeiras ao longo da costa dos EUA aumentaram de 5 a 10 vezes ou mais desde a década de 1960 e que as inundações, especialmente durante grandes tempestades, deverão piorar muito.
“O aumento do risco de elevação dos mares representa uma ameaça particularmente aguda para a costa de Nova Jersey”, disse ele.
Na verdade, ele disse, “o aumento do nível do mar tem sido mais rápido ao longo da costa de Jersey do que em outros lugares porque a nossa terra está afundando enquanto o oceano está subindo”.
A pesquisa de Trusel encontrou um sincronismo comum entre o derretimento da Groenlândia e a desaceleração da Circulação Meridional do Atlântico, que traz água morna para o norte, onde esfria e afunda. De acordo com a mais recente Avaliação do Clima Nacional dos EUA 4, a desaceleração ou paralisação dessa corrente devido ao derretimento da Groenlândia, acrescentando água doce ao oceano, faria com que a elevação do nível do mar fosse ainda maior em todo o nordeste dos EUA.
Trusel disse que o estudo contribui para um crescente corpo de evidências científicas que demonstram o impacto da mudança climática induzida pelo homem. Começando com o alvorecer da Revolução Industrial e continuando até hoje, os seres humanos contribuíram diretamente para um planeta em aquecimento, com os efeitos amplos e sem precedentes nos últimos tempos.
“A mudança climática está aqui e está clara. A evidência é preservada no gelo. O que acontece depois? Isso é com a gente.
Referência:
Nonlinear rise in Greenland runoff in response to post-industrial Arctic warming
Luke D. Trusel, Sarah B. Das, Matthew B. Osman, Matthew J. Evans, Ben E. Smith, Xavier Fettweis, Joseph R. McConnell, Brice P. Y. Noël & Michiel R. van den Broeke
Naturevolume 564, pages104–108 (2018)
DOI https://doi.org/10.1038/s41586-018-0752-4

* Da Rowan University, com edição e tradução de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/12/2018
"Pesquisa revela que o gelo da Groenlândia está derretendo a taxas sem precedentes," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 6/12/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/12/06/pesquisa-revela-que-o-gelo-da-groenlandia-esta-derretendo-a-taxas-sem-precedentes/.


EcoDebate - Edição 3.107 de 06 / dezembro / 2018


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
“Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Mundo não está no caminho para frear mudanças climáticas, diz Organização Meteorológica Mundial (OMM)

O mundo está seguindo a direção contrária para frear mudanças climáticas após outro ano de temperaturas quase recordes, disse na quinta-feira (29) o chefe da agência meteorológica da ONU.

“Não estamos no caminho para cumprir metas de mudanças climáticas e conter aumentos de temperatura”, disse o secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Petteri Taalas.
“Concentrações de gases causadores do efeito estufa estão novamente em níveis recordes e, se a tendência atual continuar, podemos ver aumentos de 3 a 5 graus Celsius até o fim do século. Se explorarmos todos os recursos conhecidos de combustíveis fósseis, o aumento de temperatura será consideravelmente maior”, afirmou.
ONU
Imagem da Terra criada a partir de fotografias tiradas pelo satélite Suomi NPP. Foto: NASA
Imagem da Terra criada a partir de fotografias tiradas pelo satélite Suomi NPP. Foto: NASA
O mundo está seguindo a direção contrária para frear mudanças climáticas após outro ano de temperaturas quase recordes, disse na quinta-feira (29) o chefe da agência meteorológica da ONU.
“Não estamos no caminho para cumprir metas de mudanças climáticas e conter aumentos de temperatura”, disse o secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Petteri Taalas.
“Concentrações de gases causadores do efeito estufa estão novamente em níveis recordes e, se a tendência atual continuar, podemos ver aumentos de 3 a 5 graus Celsius até o fim do século. Se explorarmos todos os recursos conhecidos de combustíveis fósseis, o aumento de temperatura será consideravelmente maior”, afirmou.
Dados de cinco órgãos que monitoram de forma independente as temperaturas globais e que formaram a base do relatório anual mais recente da OMM indicam que este ano deve ser o quarto mais quente já registrado.
Segundo o monitoramento, os 20 anos mais quentes já registrados ocorreram nos últimos 22 anos, sendo os quatro últimos os mais quentes de todos.
“Vale repetir que somos a primeira geração a entender completamente as mudanças climáticas e a última geração capaz de fazer algo sobre isso”, disse Taalas.
Os comentários do secretário-geral da OMM apoiam as descobertas de outro órgão global de autoridade, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Em seu relatório sobre aquecimento global de 1,5°C, o órgão concluiu que a temperatura média global na década anterior a 2015 era 0,86°C acima dos níveis pré-industriais.
Entre 2014 e 2018, no entanto, esta média cresceu para 1,04 °C acima da base pré-industrial, disseram especialistas do IPCC.
“É mais do que apenas números”, disse a vice-secretária-geral da OMM, Elena Manaenkova, destacando que “cada fração de um grau de aquecimento faz uma diferença à saúde humana e ao acesso a água fresca e comida”.
A extinção de muitos animais e plantas também está ligada ao aquecimento global, insistiu a autoridade da OMM, assim como a sobrevivência de recifes de corais e da vida marinha.
“Isto faz uma diferença à produtividade econômica, segurança alimentar e para a resiliência de nossas infraestruturas e cidades”, disse Manaenkova. “Isto faz uma diferença à velocidade de derretimento de geleiras e fornecimento de água e ao futuro de ilhas e comunidades costeiras. Cada porção extra importa”.
O relatório da OMM é parte das evidências científicas que serão usadas nas negociações sobre mudanças climáticas até 14 de dezembro em Katowice, na Polônia.
O objetivo principal é adotar diretrizes de implementação do Acordo de Paris, que busca manter o aumento médio de temperatura o mais próximo possível de 1,5°C.
Esta meta é possível, de acordo com o IPCC, mas irá exigir “mudanças sem precedentes” em nossos estilos de vida e sistemas de energia e transportes.
Destacando o impacto econômico de temperaturas globais mais altas, a OMM ressaltou que muitos países estão cada vez mais cientes de possíveis problemas.
Isto inclui os Estados Unidos, onde um recente relatório federal detalhou como as mudanças climáticas já estão afetando o meio ambiente, a agricultura, a energia, a terra e recursos de água, além de transporte, saúde da população e bem-estar.
Uma avaliação do Reino Unido recém-publicada também alertou que temperaturas de verão podem ser até 5,4°C mais altas e chuvas de verão podem ser reduzidas em até 47% até 2070.
Na Suíça, conhecida por suas montanhas e pela prática de esqui, especialistas nacionais em meteorologia alertaram mais cedo neste mês que o país pode ficar mais quente e mais seco. Além disso, o país deve ter chuvas mais intensas – e menos neve – no futuro.
Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/12/2018
"Mundo não está no caminho para frear mudanças climáticas, diz Organização Meteorológica Mundial (OMM)," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 5/12/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/12/05/mundo-nao-esta-no-caminho-para-frear-mudancas-climaticas-diz-organizacao-meteorologica-mundial-omm/.


Texto-base da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos é aprovado em Comissão Especial da Câmara

Parlamentares votam a favor da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos

Por Rebecca Cesar

agrotóxicos
Imagem: ENSP

Na reta final do ano legislativo, o texto-base da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA, PL nº 6.670/2016) foi aprovado pela Comissão Especial que analisa a matéria, presidida pelo deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) e com relatoria do deputado Nilto Tatto (PT-SP). A aprovação da PNaRA pode garantir a esta e às futuras gerações uma produção de alimentos verdadeiramente saudável, sustentável e mais acessível para todos.
“Diante de tantas ameaças às questões socioambientais pela bancada ruralista e pelo novo governo, essa é finalmente uma ótima notícia. O debate sobre a PNaRA mostrou que é possível produzir sem agrotóxico. O Brasil não pode virar um mar de veneno”, afirma Marina Lacôrte, da campanha de Alimentação e Agricultura do Greenpeace.
Tramitando há dois anos, a PNaRA começou como uma solicitação da sociedade civil. Neste tempo, mais de 1,5 milhão de brasileiras e brasileiros assinaram a petição #ChegaDeAgrotóxicos. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) apresentou uma sugestão à Comissão de Legislação Participativa, que deu origem ao projeto de lei aprovado hoje. Mas o debate sobre a PNaRA só ganhou força em 2018, como uma resposta à ofensiva do Pacote do Veneno (PL nº 6.299/2002), que quer afrouxar ainda mais o uso e liberação de agrotóxicos no país.
Com a aprovação do texto-base, o próximo passo agora é pressionar para que o PL entre em votação e seja aprovado no plenário da Câmara. “Esse é um passo importante para a agricultura brasileira e para a saúde das pessoas e do meio ambiente. A luta não acabou, mas agora temos chances reais de virar esse jogo”, finaliza Marina.

Colaboração de Rebecca Cesar, Greenpeace, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/12/2018
"Texto-base da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos é aprovado em Comissão Especial da Câmara," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 5/12/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/12/05/texto-base-da-politica-nacional-de-reducao-de-agrotoxicos-e-aprovado-em-comissao-especial-da-camara/.


EcoDebate - Edição 3.106 de 05 / dezembro / 2018


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
“Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP24) inicia sob pressão de medidas urgentes

COP24 – Países devem apresentar plano para redução das emissões de carbono


COP24

ABr
A cidade de Katowice, na Polônia, abriu ontem (2) a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP24). Sob o clima gelado do inverno polonês, a ONU começa as negociações com a expectativa de que os 196 países-membros possam fazer um plano de ação e mostrem como vão implementar o chamado Acordo de Paris, firmado em 2015 pelas nações com o objetivo de conter as emissões de gases de efeito estufa e manter o aumento da temperatura global abaixo de 2º, se possível em até 1,5º.
O objetivo da Conferência da ONU este ano é aprofundar a questão dos financiamentos de ações climáticas, considerando a meta de doação de pelo menos US$ 100 bilhões por ano de países desenvolvidos para as nações de menor renda. A organização também pretende estimular que os países desenvolvam planos para dar início ao cumprimento das metas a partir de 2020, prazo determinado pelo Acordo de Paris.
Entre as ações que devem ser promovidas está a proteção de florestas e outros ecossistemas que têm a capacidade de absorver gases causadores do efeito estufa, além do fortalecimento de ações de adaptação e de redução da vulnerabilidade aos efeitos das mudanças climáticas.
Durante a conferência, que será encerrada em 14 de dezembro, a pequena cidade de Katowice, que tem aproximadamente 300 mil habitantes, deve receber cerca de 11 mil delegados de vários países. A cidade tem mais de 150 anos e tradicionalmente é associada à exploração de carvão e à indústria pesada.
Nos últimos anos, a área de mineração de carvão, principal base energética da Polônia, foi revitalizada na cidade, que tem se tornado referência por adotar novas tecnologias, modernizar o setor de negócios e atrair investimentos sustentáveis. Katowice tem se destacado nos esforços de minimizar os efeitos da degradação ambiental e diminuir a poluição do ar, considerado um dos grandes problemas ambientais da Polônia.
Participação brasileira
A delegação do governo brasileiro, representada por membros do Itamaraty e do Ministério do Meio Ambiente, entre outros órgãos do governo federal, da academia e da sociedade civil, está mais enxuta este ano. O grupo vai se debruçar nas próximas duas semanas em mais de 190 itens da agenda da COP da Polônia.
Segundo o secretário de Mudança do Clima e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Thiago Mendes, o Brasil deve se destacar no chamado Diálogo de Talanoa, momento em que os países compartilham diferentes experiências e esforços empreendidos para contenção das emissões de gás carbônico. O secretário explicou que no Brasil foram realizadas sete rodadas deste tipo de Diálogo, nas quais foram encontradas 130 iniciativas que promovem baixas emissões de CO2 do setor privado e da sociedade civil, em todas as regiões do país.
Deste total, o MMA escolheu 42 projetos que serão apresentados pelo ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, no final do Dialogo de Talanoa global, durante a COP 24. “Isso foi muito inovador, porque a gente não viu nenhum país trabalhando nessa mesma linha, com o número de casos tão vastos e tão diverso”, comenta Mendes, que também é especialista em Relações Internacionais.
“O que a sociedade brasileira está nos indicando que é a favor do desenvolvimento sustentável e já tem feito uma série de atividades para ao avanço dessa agenda de movimentos resilientes com baixas emissões de CO2. Tem casos de sucesso muito fortes, desde construção vinculada a biocombustíveis, organização de comunidades para reflorestamento, geração de energia eólica e fotovoltaica”, completa Mendes.
O secretário disse também que o Brasil apresentará “dados sólidos” de redução do desmatamento nos últimos dez anos. Uma das metas assumidas pelo Brasil é reduzir a área desmatada na Amazônia a menos de 3,9 mil km² até 2020.
“Mesmo tendo variações que sobem e descem, essas variações são muito pequenas em relação ao montante total da redução. Caímos mais de 20 mil km² para cerca de 7,9 mil km². Tudo bem que a de 2018 é a maior dos últimos 10 anos, mas durante a última década, estamos 72% abaixo do que era em 2004”, afirmou.
Metas
O coordenador-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Alfredo Sirkis, avalia que o Brasil ainda tem condições técnicas de cumprir as metas a partir de 2020. Apesar das discrepâncias entre algumas metas nacionais com as firmadas em âmbito internacional, o Brasil pode chegar a uma redução da emissão de carbono a 1,2 gigatoneladas em 2030, segundo estudo do Fórum.
O pesquisador ressalta que as medidas em curso na área florestal, na agricultura, no sistema de transportes e na indústria para contenção do aumento da temperatura não prejudicam o desenvolvimento econômico e social. A busca da redução nas emissões também pode atrair investimentos para o país, segundo projeções dos especialistas.
“Por exemplo, na área de agricultura, as medidas de baixo carbono são todas muito boas para negócios, fazem muito sentido do ponto de vista empresarial. A redução do desmatamento é fundamental, porque garante o clima que permite a agricultura continuar crescendo sem grandes problemas. Muitos agricultores já perceberam claramente que o desmatamento é muito ameaçador pra eles. Por outro lado, do ponto de vista da indústria, dos transportes, optar por biocombustíveis, onde o Brasil tem uma vantagem competitiva, e mesmo acelerar a eletrificação dos veículos, são coisas positivas do ponto de vista econômico”, explica.
Discussões
Durante a COP24, os delegados esperam que sejam discutidas estratégias concretas de longo prazo que devem ser adotadas pelos países para descarbonizar suas atividades econômicas. Sirkis acredita, no entanto, que este ano não sairá uma grande decisão das rodadas de negociação de alto nível, como ocorreu nas conferências de Paris (2015) ou de Copenhage (2009).
O pesquisador comenta que, devido a alguns fatores negativos do contexto mundial no momento, a COP da Polônia terá uma importância de natureza política. Ele cita que poderão ter certo peso durante as discussões o anúncio feito pelo presidente norte-americano, Donald Trump, de tirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, além dos acenos similares do futuro governo brasileiro. Resultados dos últimos relatórios da comunidade científica apontam que os países devem triplicar os esforços de descarbonização de suas economias para atingir as metas de contenção do aquecimento extremo do clima.
“Até um tempo atrás se julgava que iríamos chegar até 2050 com reduções de cerca de 60%, 70% das emissões, comparado com 1990, que é um ano base que a União Europeia usa. E hoje se chega à conclusão de que é necessário zerar as emissões líquidas em algum ponto entre 2050 e 2060, isso pra poder realmente garantir o cenário de 2 graus e uma chance pra termos o cenário de 1,5 grau”, comenta.
O pesquisador ressalta que ainda assim o evento é importante para chamar a atenção do mundo para o problema do aquecimento da temperatura. “A COP é um momento de atenção mundial sobre o que está acontecendo com o clima, um momento de mobilização da mídia e da opinião pública em nível internacional. Nesse sentido, a COP é sempre importante porque é quando que você faz o balanço de tudo o que ocorreu e como você vê o futuro”.
Preocupação
Para o ambientalista, o Brasil terá uma participação mais tímida este ano, devido ao cenário político interno e à retirada da candidatura do país para sediar a COP25 no ano que vem. Ele avalia que o Brasil poderá perder o papel de articulador que construiu ao longo dos últimos anos e que a delegação brasileira estará em situação difícil pela primeira vez na história, desde 1992, quando sediou a Rio 92
“A delegação brasileira vai estar profundamente constrangida e inibida com a situação. E o Brasil que sempre foi vanguarda nos processos negociadores, sempre teve um grande papel de articulação dos outros países, possivelmente será o mais discreto possível”, avalia.
Na opinião de Sirkis, o Brasil tinha condições financeiras de realizar a COP e poderia recuperar grande parte das despesas pela movimentação turística de 30 mil pessoas que participariam do evento no país. “Ou seja, não havia uma equação econômica que justificasse a não realização da COP. O problema foi essencialmente de natureza política”, opinou.
Para o secretário de Mudança do Clima do MMA, Thiago Mendes, o Brasil tem ainda condições de manter sua influência. Contudo, ele reconhece que há uma preocupação sobre o impacto de intenções de não cumprimento do Acordo de Paris possa ter sobre outros países, principalmente desenvolvidos.
“Eu não acredito que nossa participação vá ser alterada, porque historicamente o Brasil sempre teve uma delegação com um nível de qualificação muito forte e alto. Isso não mudou. O que há é uma ausência de liderança dos países desenvolvidos. Com o posicionamento da administração Trump, você tem uma sinalização para outros países desenvolvidos seguirem o mesmo caminho [de sair do Acordo de Paris]”, diz.
Compromissos
O secretário do MMA reforça que percebeu uma baixa adesão de países desenvolvidos aos compromissos e esforços de redução das emissões. Mendes espera que durante a Conferência os países assumam compromissos mais fortes para que os países em desenvolvimento também tenham condições de fortalecer suas ações.
“A gente está percebendo é que os países desenvolvidos não estão cumprindo com as regras que estão debaixo da convenção. Isso gera um desconforto muito grande, porque eles não estão cumprindo nem suas metas de redução de carbono, nem as metas de apresentação de doações financeiras. A nossa preocupação é que isso possa gerar uma falta de ambição na construção das regras de Paris”.
Para Sirkis, as discussões em torno das mudanças climáticas devem focar na realidade e nas informações que têm sido divulgadas por importantes estudos da área climática. Ele considera preocupantes os posicionamentos que menosprezam os esforços dos cientistas e que avaliam suas projeções como alarmistas.
“Eu acho que é urgente desideologizar essa discussão da questão climática. E remover coisas que são absolutas fantasias. Essa história, por exemplo, de que o acordo de Paris em alguma coisa ameaça a nossa soberania, é totalmente descabida. O acordo de Paris foi muito cioso em levar em consideração a soberania de todos os países, tanto que as metas apresentadas são voluntárias”, avalia Sirkis.

Por Débora Brito, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/12/2018
"Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP24) inicia sob pressão de medidas urgentes," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 3/12/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/12/03/conferencia-das-nacoes-unidas-sobre-mudancas-climaticas-cop24-inicia-sob-pressao-de-medidas-urgentes/.


EcoDebate - Edição 3.104 de 03 / dezembro / 2018


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
“Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]