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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Tragédia De Mariana: A responsabilidade da Samarco

“Da lama ao caos, do caos à lama, um homem roubado nunca se engana”
– Chico Science.
JORNAL DA UNICAMP
TEXTO JOICE SANTOS
FOTOS REPRODUÇÃO | SITE DA SAMARCO
EDIÇÃO DE IMAGEM PAULO CAVALHERI
Sala de monitoramento da Samarco em Germano, cuidado que faltou (Fonte: Site da Samarco)
Sala de monitoramento da Samarco em Germano, cuidado que faltou (Fonte: Site da Samarco)
O trecho é uma das estrofes da música do cantor pernambucano Chico Science, do Movimento Mangue Beat, que faleceu em 1997 aos 30 anos. Ele fez muito sucesso no início dos anos 1990 com a banda Nação Zumbi. Chico Science não tinha a dimensão da atualidade de sua poesia, usada agora em outro contexto.
Em Bento Rodrigues, o verbo soterrar virou sentimento, e com ele veio a sensação de perda, roubo, indignação e muita tristeza. Por onde passou a lama de rejeitos da Samarco, tudo foi devastado, e o que resta é a lembrança de um lugar pacato em que os moradores se conheciam pelo nome.
Desde o século 17, Minas Gerais é marcada pela exploração de seus recursos. O estado tem raízes históricas na mineração. Assim que se iniciou a busca pela extração de bens naturais na região, passou a se praticar a agressão ao meio ambiente. O percentual do PIB (Produto Interno Bruto) mineiro relativo à extração mineral hoje é de 7,5%. Com o desastre que aconteceu em Mariana, discutir essa dependência financeira se tornou algo urgente.
A Samarco conta com o apoio da população e do governo para seguir seus planos de exploração do minério de ferro. Apesar de tudo o que aconteceu, o prefeito da cidade de Mariana, Duarte Junior (PPS), afirmou em entrevistas à Agência Estado – e ao grupo de pesquisadores do Labjor/Unicamp que visitou a cidade em junho de 2016 – que é a favor da mineração, e que apenas apoia um período de suspensão das atividades. Sem esconder o motivo de sua apreensão, o prefeito confirma que 89% da arrecadação da cidade vem da mineração.
Mesmo diante do drama vivido pelos moradores de Bento Rodrigues, o prefeito não esconde (em junho de 2016) sua preocupação com a paralisação da maior fonte de recursos do município. Reconhece o risco da atividade da mineradora, mas até o momento não tinha investido em outras fontes alternativas de arrecadação.
E este foi o motivo pelo qual, no dia 2 de junho de 2016, o prefeito marianense procurou o então presidente interino Michel Temer (PMDB) para pedir que a Samarco voltasse a operar normalmente. A justificativa foi que a arrecadação do município caiu drasticamente. Temer se comprometeu, na ocasião, a se reunir com o governador de Minas Gerais Fernando Pimentel (PT) para analisar o assunto.
Entretanto, essa não foi a primeira tentativa de Duarte para conseguir a volta da Samarco. No mês anterior, em maio, já havia procurado o ministro do Meio Ambiente do então governo interino Sarney Filho (PV-AM), que recusou o pedido. Para o ministro, ainda não havia convicção de que a tragédia tinha sido encerrada, como os fatos demonstraram. Um ano depois, a lama continuou.
Sobre a Samarco
“Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça! Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça” – Chico Science.
Mais um verso da mesma canção de Chico Science que ilustra como, mesmo com toda a dor e as vidas perdidas, os urubus não se compadecem e buscam matar a fome no meio da podridão. Mas o bicho homem que busca saciar sua ganância não se importa com a podridão nem com o sofrimento que pode causar. A ganância segue o ritmo da destruição, e não para.
Caminho do minério (Fonte: Site da Samarco)
Caminho do minério (Fonte: Site da Samarco)
Antes do desastre ambiental, que paralisou as atividades da empresa, a capacidade de produção da Samarco era de 30,5 milhões de toneladas de ferro por ano. O principal produto da companhia eram as pelotas de minério de ferro, comercializadas para indústrias siderúrgicas no mundo inteiro. Além da unidade de Germano, em Mariana, a corporação está presente na unidade de Ubu, em Anchieta, no Espírito Santo. Há também escritórios de vendas em Belo Horizonte (MG), Vitória (ES), Amsterdã (Holanda) e Hong Kong (China).
Outro ramo de atuação da mineradora é a hidrelétrica. A Samarco possui uma usina na cidade de Muniz Freire (ES), e participa do consórcio da usina Guilman-Amorim, que fica em Antônio Dias, Nova Era (MG). As duas usinas produzem 14,5% do consumo anual de energia da Samarco.
As unidades de Germano (MG) e de Ubu (ES) são interligadas por três canais com 400 quilômetros, aproximadamente. Dessa forma é transportado o minério extraído em Mariana para o estado vizinho. No Espírito Santo, quando o material chega, é direcionado para as quatro usinas de pelotização, que transformam o material em pelotas. Depois desse processo, a produção é direcionada para um terminal marítimo próprio, que fica na região de Ubu. Ao todo, a Samarco possui 3,5 mil fornecedores.
Poder e negligência
Depois do desastre, ainda em curso, muito tem sido revelado sobre os problemas que detonaram essa bomba. Dentre eles, denúncia feita na imprensa de que pelo menos desde 2013 a Samarco sabia que a tragédia poderia acontecer. O Ministério Público de Minas Gerais descobriu que o risco da barragem de Fundão se romper havia sido anunciado à mineradora em anos anteriores, e que nenhuma medida cautelar foi tomada. A investigação mostra ainda que vários fatores determinaram seu final trágico.
O MP-MG aponta que o problema começou há quase uma década, em 2007, quando a empresa solicitou autorização para a construção da barragem. O promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, em várias entrevistas à mídia, destacou que faltou um projeto executivo com mais detalhes técnicos, e que só foram entregues dados básicos e, mesmo assim, com poucas informações. Outro aspecto não menos importante apontado pelo promotor é que a Fundação Estadual do Meio Ambiente aceitou o projeto dessa forma, sem perguntar mais nada, o que evidencia, também, além da responsabilidade da empresa, o descaso por parte dos órgãos públicos responsáveis.
No mesmo ano de 2007, a Samarco recebeu autorização para realizar obras em um tempo curto de três meses. Já Maurício Campos Júnior, advogado da companhia, declarou que “talvez não tenha sido entregue o projeto executivo”.
Além desses fatores que o MP-MG destacou, outro fato importante que denota negligência do setor público e privado entrou na investigação do Ministério Público: havia uma pilha de rejeitos de uma das donas da Samarco, a Vale, perto da área de Fundão. No mesmo ano de 2007, já existia uma preocupação com a água que escorria dos rejeitos, se surtiria algum efeito na barragem. Na ocasião teria sido elaborado projeto técnico e um acordo entre as duas companhias (Vale e Samarco), para sanar o problema, no entanto este projeto não foi encontrado pelo MP.
No ano de 2013, os rejeitos da Vale se tornaram um problema. A consultoria de engenharia VogBR Recursos Hídricos e Geotecnia Ltda elaborou relatório para a Samarco, mostrando que a pressão da água gerada pelos rejeitos perto da barragem poderia comprometer a segurança de Fundão. E indicava a necessidade de uma drenagem na área. Contudo, a voz da consultoria também foi silenciada. Depois da tragédia, a VogBR informou que não acompanhou as obras de drenagem, e que não poderia comentar o assunto.
Em setembro de 2014, a Samarco foi alertada sobre trincas na estrutura de Fundão, que caracterizavam o início do escorrimento de rejeitos. Um engenheiro consultor, Joaquim Pimenta de Ávila, recomendou monitoramento diário dos níveis de água na região. Porém, o engenheiro teve sua voz também silenciada. O advogado da empresa apenas declarou que as medidas de segurança sempre foram adotadas.
Depois da tragédia, em junho de 2016, a imprensa noticiou o que já era sabido pela Samarco: as autoridades vieram a público dizer que a mineradora sabia sobre a possibilidade do rompimento e assumiu esses riscos. O delegado da Polícia Federal Roger Lima de Moura declarou que tinha a posse de documentos que comprovam que a mineradora conhecia as deficiências da barragem e que Bento Rodrigues poderia ser atingido. Eles inclusive analisavam se iriam ou não levar os estudos para o licenciamento ambiental. No início desse mesmo mês, a PF concluiu inquérito sobre o caso do rompimento da barragem de Fundão.
Outro ponto levantado sobre o caso é que tinha um remendo na barragem, executado sem projeto e sem recomendação dos órgãos ambientais. Em nota à imprensa, a Samarco declarou repudiar alegações de conhecimento prévio, e que continuará prestando todos os esclarecimentos nos autos do processo.
No decorrer do tempo foi possível verificar que a mineradora Samarco deixou de cumprir uma série de ações para reparar os danos do desastre socioambiental. Na primeira quinzena de julho de 2016, o MP anunciou que abriu mais uma investigação, dessa vez criminal, contra o presidente da Samarco Roberto Lúcio de Carvalho. O Ibama havia destacado 11 medidas emergenciais e a mineradora só cumpriu quatro.
Como o MP apontou que a Samarco não conseguiu conter os rejeitos que continuavam na área atingida pelo rompimento de Fundão, o órgão alertou que os rejeitos poderiam se espalhar com a chegada das chuvas. Em sua defesa, a empresa disse que estava seguindo todas as normas para amenizar impactos.
Durante a investigação pós-tragédia, a imprensa divulgou que o governo de Minas Gerais vistoriou as obras da Samarco, incluindo as da barragem do Fundão. No entanto, o governo declarou em inquérito que não sabia dessas intervenções em Fundão. O jornal Folha de S. Paulo divulgou, em 26 de julho de 2016, ter recebido documentos que comprovam a vistoria feita pelo governo mineiro. De acordo com a reportagem, e por Estêvão Bertoni de São Paulo (SP) e José Marques de Belo Horizonte (MG), a Secretaria de Meio Ambiente teria fiscalizado pelo menos uma vez por ano nos governos de Antonio Anastasia (PSDB), Alberto Pinto Coelho Jr. (PP) e Fernando Pimentel (PT). Outro ponto levantado é que a Secretaria, entre 2014 e 2015, recebeu dados com fotos das mudanças realizadas em Fundão.
As intervenções realizadas na barragem de Fundão teriam sido registradas pelo governo e pela empresa de consultoria externa VogBR Recursos Hídricos e Geotecnia Ltda, que também deu aval técnico, garantindo segurança às obras. A Samarco decidiu fazer uma alteração na barragem, sem ter um projeto, no final de 2012. Com isso, foi feita uma mudança na geometria de Fundão, construindo um recuo no formato da letra “S”. A investigação da polícia apontou a obra como o estopim para a tragédia.

Referências
A MINERAÇÃO em Minas Gerais: passado, presente e futuro. Disponível em: <http://www.igc.ufmg.br/portaldeperiodicos/index.php/geonomos/article/view/217>. Acesso em: 1 jul. 2016.
BHP Billiton. Notícias sobre BHP Billiton. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/noticias-sobre/bhp-billiton/>. Acesso em: ٢ jul. 2016.
CONHEÇA a Samarco, mineradora por trás da tragédia de Mariana.Disponível em: <https://www.istoedinheiro.com.br/noticias/economia/20151106/conheca-samarco-mineradora-por-tras-tragedia-mariana/315358>. Acesso em: 3 jun. 2016.
DEPENDENTE da indústria extrativa, estado de Minas Gerais está dividido. Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2015/11/25/internas_economia,711370/dependente-da-industria-extrativa-estado-de-minas-gerais-esta-dividid.shtml>. Acesso em: 18 jun. 2016.
ENTENDA o caso da privatização da Vale do Rio Doce. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u32145.shtml>. Acesso em: 2 jul. 2016.
GOVERNO de Minas sabia de obra em barragem da Samarco que ruiu. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/07/1795419-governo-de-minas-sabia-de-obra-em-barragem-da-samarco-que-ruiu.shtml>. Acesso em: 8 set. 2016.
LUCRO de um mês paga a penalidade. Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/11/13/interna_gerais,707416/lucro-de-um-mes-paga-a-penalidade.shtml>. Acesso em: 2 jul 2016.
MANIFESTANTES fazem ato em Minas e cobram moradias da Samarco. Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/2016/08/manifestantes-fazem-ato-em-minas-e-cobram-moradias-da-samarco.html>. Acesso em: 13 ago. 2016.
MARIANA, a dependência da mina que paga pouco à região que devastou. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/13/politica/1447439535_624567.html>. Acesso em: 2 jul. 2016.
MINISTÉRIO Público abre investigação contra o presidente da Samarco. Disponível em: <http://g١.globo.com/bomdiabrasil/noticia/٢٠١٦/٠٧/ministeriopublicoabreinvestigacaocontraopresidentedasamarco.html>. Acesso em: ١٢ ago. 2016.
MP diz que Samarco sabia dos riscos em barragem ao menos desde 2013. Disponível em: <http://www.valor.com.br/empresas/4396368/mp-diz-que-samarco-sabia-dos-riscos-em-barragem-ao-menos-desde-2013>. Acesso em: 2 jul. 2016.
MP diz que Samarco não pagou cerca de R$ 1 milhão a atingidos. Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental
O PODER da escavadeira. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/revista/897/o-poder-da-escavadeira/>. Acesso em: 16 mai. 2016.
PREFEITO de Mariana se reune com Temer para tratar retorno da Samarco. Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/2016/06/prefeito-de-mariana-se-reune-com-temer-para-tratar-retorno-da-samarco.html>. Acesso em: 2 jul. 2016.
SAIBA os bastidores da privatização da Vale do Rio Doce. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u32146.
shtml>. Acesso em: 2 jul. 2016.
SAMARCO é flagrada desmatando área de mata atlântica em MG. Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/2016/06/samarco-e-flagrada-desmatando-area-de-mata-atlantica-em-mg.html>. Acesso em: 2 jul. 2016.
SAMARCO. Disponível em: <http://www.samarco.com/a-samarco/>. Acesso em: ٣ jun.2016.
SAMARCO sabia dos riscos em barragem antes de desastre, diz PF. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/samarco-sabia-dos-riscos-em-barragem-antes-de-desastre-diz-pf-19564092>. Acesso em: 2 jul. 2016.
SAMARCO tenta resgatar imagem, mas gera revolta nas redes. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/samarco
SEIS meses após tragédia, poeira de lama da Samarco invade cidade de MG. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/04/1764676-seis-meses-apos-tragedia-poeira-de-lama-da-samarco-invade-cidade-de-mg.shtml>. Acesso em: 9 ago.2016.
Sindicato Metabase de Mariana. Disponível em: <http://www.metabasemariana.com.br/index.php/noticias?start=9>. Acesso em: 09 de ago. 2016.
SOBRE a BHP Billiton. Disponível em: <http://www.bhpbilliton.com/>. Acesso em: 2 jul. 2016.
SOBRE a Samarco. Disponível em: <http://www.samarco.com/>. Acesso em: 2 jul. 2016.
SOBRE a Vale. Disponível em: <http://www.vale.com/brasil/PT/Paginas/default.aspx>. Acesso em: 2 jul. 2016.
VALE conta sua história em livro. Disponível em: <http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/news/Paginas/Vale-conta-sua-historia
-em-livro.aspx>. Acesso em: 2 jul. 2016.

Joice Aparecida dos Santos  – Jornalista graduada pela PUC-Campinas. Especialização em Gestão de Marketing pela Metrocamp (2015). Mestranda em Divulgação Científica e Cultural no Labjor/IEL/Unicamp. Email:  joicesantos@gmail.com

Do Jornal da UNICAMP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/02/2018


Maioria dos deputados recebeu doação de empresas e pessoas que cometeram crimes e infrações ambientais

Por Ana Aranha e Guilherme Zocchio – Repórter Brasil

Empresas e pessoas que cometeram crimes e infrações ambientais doaram R$ 58 milhões para mais da metade da Câmara. Entre eles, está Cristiane Brasil e o ministro do Meio Ambiente

Mais da metade dos deputados federais eleitos para a atual legislatura recebeu financiamento de doadores que estão na lista de autuados do Ibama. Dos 513 eleitos, 249 receberam um total de R$ 58,9 milhões em doações oficiais de empresas e pessoas que desmataram e queimaram florestas, entre outros crimes e infrações ambientais. O valor inclui contribuições diretas e indiretas — quando o dinheiro passa pelo comitê ou diretório do partido.
Receber essas doações não é crime, nem é vedado pela Justiça Eleitoral. Mas a grande proporção de financiadores-infratores chama atenção, em especial quando se trata de uma legislatura que aprovou projetos criticados por seus impactos ao meio ambiente. Caso da “MP da Grilagem”, como ficou conhecida a medida provisória que facilita a regularização de áreas públicas invadidas. Assim como das votações que reduziram a proteção da Floresta Nacional do Jamanxim e de dois parques nacionais.
Os doadores autuados são, no total, 92 empresas e 40 pessoas físicas. Os dados têm como fonte as declarações dos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral e a lista de autuados do Ibama em novembro de 2017. Os dados foram cruzados pelo Ruralômetro, ferramenta produzida pela Repórter Brasil que permite monitorar a atuação de cada deputado em áreas sensíveis ao meio ambiente, povos indígenas e trabalhadores rurais.


O cruzamento de dados oferece pistas sobre como os interesses de financiadores-infratores ambientais podem estar conectados à ação dos parlamentares. Não é suficiente para concluir que os doadores determinam os votos e proposições, mas revela algumas coincidências que valem ser monitoradas.
É o caso do deputado Adilton Sachetti, eleito pelo PSB/MT, mas temporariamente licenciado do cargo e sem partido. Em 2015, seis meses depois de tomar posse, o parlamentar apresentou três projetos de decreto parlamentar que refletem de modo direto o interesse econômico de cinco financiadores de sua campanha, todos eles integrantes da lista do Ibama.
Ativo integrante da Frente Parlamentar Agrícola, a bancada ruralista, Sachetti recebeu R$ 1 milhão de cinco pessoas e uma empresa que cometeram infrações ou crimes ambientais. O valor representa 26% de tudo o que ele arrecadou em 2014.
Os projetos do parlamentar autorizam a instalação de hidrovias em rios que cortam os estados do Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Se aprovada, a rota abriria passagem para embarcações de transporte de carga saírem dos municípios de Sinop e Juína, região do Mato Grosso onde ficam os negócios de cinco dos doadores-infratores, e navegarem até a foz do Rio Tapajós, na cidade paraense de Santarém.
Entre esses doadores, o nome mais conhecido é o de Eraí Maggi, produtor que roubou o título de rei da soja do seu primo e ministro da Agricultura Blairo Maggi (PP-MT). Para ajudar a eleger Sachetti, Eraí entrou com R$ 50.320. O seu cunhado, Jose Maria Bortoli, entrou com R$ 100 mil. Ambos são sócios do Grupo Bom Futuro, que reúne 36 fazendas produtoras de grãos, algumas a 200 quilômetros de onde sairiam as embarcações da hidrovia.
Tanto Eraí quanto o cunhado figuram na lista do Ibama por desmatamento ilegal nas suas fazendas na região. No caso do novo rei da soja, uma de suas propriedades foi embargada por desmatar 1.463 hectares, com multa de R$ 438 mil.
O terceiro nome é Romeu Froelich, presidente do Grupo Nativa e também produtor de soja, algodão e milho na região, no município de Primavera do Leste. Ele doou R$ 100 mil ao deputado. Froelich tem multa de R$ 5,5 milhões por destruir 3.724 hectares de floresta nativa da Amazônia.
O quarto doador é Roland Trentini, que foi da diretoria regional da Aprosoja, a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso. Ele contribuiu com R$ 50 mil e teve a atividade de sua fazenda embargada pelo Ibama. Sua multa já foi quitada.
Procurados pela reportagem, por email e telefone, os quatro empresários não responderam aos pedidos de esclarecimento. O único a se manifestar foi Santo Nicolau Bissoni, que doou R$ 50 mil a Sachetti e é sócio da Transportadora e Agropecuária Botuverá, de Rondonópolis.
As multas já estariam prescritas, segundo Adelino Bissoni, irmão e sócio que falou em nome do doador. “Há uma dificuldade imensa para retirar da lista do Ibama, já existe um pedido na Justiça”. Sobre a relação com o deputado, o produtor afirma que não há favorecimento. “Ele é um cliente nosso de 30 anos. Somos amigos”, diz sobre Sachetti, que também é produtor rural (íntegra a resposta).
Juntos, os cinco doadores-infratores formam um grupo coeso e próximo ao parlamentar, como Sachetti confirma: “Eles são meus amigos, somos todos lideranças do setor. Chegamos juntos ao Mato Grosso como arrendatários, eu tenho uma história com essas pessoas” (íntegra da resposta).
O deputado diminui a importância das infrações e crimes ambientais. “Quem mora em área de fronteira agrícola, com nossa legislação, não vai escapar de ter problemas com o Ibama. No Mato Grosso, a maioria dos produtores tem problema com a lei ambiental.”
Questionado sobre o alinhamento de interesses, defende seus projetos e a necessidade do escoamento da produção rural do Centro-Oeste. “Eu sei o que é ter que trabalhar para melhorar a logística do país. A gente vive em um Estado em que há um problema de logística”, afirma o parlamentar. “Recebi essas doações sim, não há o que esconder”.
De fato, os projetos de Sachetti não refletem apenas os interesses de seus doadores, eles respondem a uma das principais reivindicações do agronegócio: melhores condições para transportar grãos e gado do centro para o litoral.
Embora amplamente defendida pelo setor, as hidrovias são criticadas por organizações ambientais. No caso daquelas propostas por Sachetti, as obras exigiriam dragagem de trechos dos rios, destruição de corredeiras para a construção de eclusas, além de criar novos portos e trânsito constante de embarcações em uma região da Amazônia que é ainda bastante preservada. Composta por um mosaico de terras indígenas e áreas de proteção, ainda não há uma avaliação de qual seriam os impactos na área. “É o mesmo processo de Belo Monte, querem aprovar um decreto antes mesmo de fazer os estudos de viabilidade ambiental”, afirma Brent Milikan, diretor da ONG International Rivers no Brasil.
O caso de Sachetti é visto pelos críticos como mais um exemplo de como os deputados reproduzem o abismo que existe entre os interesses do agronegócio e as necessidades da Amazônia, povos indígenas e comunidades tradicionais. “Eles não estão preocupados em ouvir quem será impactado negativamente. A regra é ignorar os já marginalizados e classificar indígenas como inimigos do desenvolvimento”, diz Danicley Aguiar, especialista em Amazônia do Greenpeace.
A principal crítica é sobre o processo de decisão dentro da Câmara ser pautado pelo grupo que seria mais beneficiado, o agronegócio, sem prever mecanismos de debate ou consulta aos grupos que seriam mais prejudicados, os milhares de indígenas e ribeirinhos que vivem às margens dos rios. Aguiar e Brent citam a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário, para lembrar que essas comunidades têm o direito de serem consultadas dentro do processo de decisão.
“Esses projetos de logística precisam passar pelo debate popular”, afirma Aguiar. “Não dá para a decisão ficar restrita aos interessados”.

Doadores-infratores financiaram 6 ministros

Com R$ 2 milhões doados por empresas que têm a ficha suja no Ibama, a recordista da Casa é a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), que atualmente aguarda decisão judicial para assumir a pasta do Trabalho. “Lamento que as empresas tenham cometido infrações ambientais, espero que elas acertem suas pendências com os órgãos responsáveis”, disse a deputada, que afirma nunca ter tido contato com esses doadores. Segundo a parlamentar, o dinheiro veio por meio de acordos com as direções partidárias nacional e estadual, que são comandadas por seu pai, o ex-deputado Roberto Jefferson.
Depois de eleitos, muitos deputados federais se afastaram da Câmara para assumir cargos no Poder Executivo federal ou nos seus estados de origem. Entre os financiados por infratores, estão seis atuais ministros do governo do presidente Michel Temer.
O grupo inclui até o chefe da pasta do Meio Ambiente, José Sarney Filho (PV-MA), o que menos recebeu entre os ministros, com R$ 35 mil. Por meio de sua assessoria, o ministro afirmou que “as doações foram recebidas via Partido Verde. Se soubesse das irregularidades das empresas, não teria aceitado.”
O ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP-PR), que recebeu R$ 627 mil, declarou que “não tem conhecimento da multa aplicada”. Já o ministro da Educação  Mendonça Filho (DEM-PE), que recebeu R$ 330 mil, não respondeu aos pedidos de esclarecimento.
Os outros três ministro são Leonardo Picciani (PMDB-RJ), dos Esportes; Marx Beltrão (PMDB-AL), do Turismo; e Alexandre Baldy (Podemos-GO), das Cidades. Eles receberam, respectivamente, R$ 399 mil, R$ 300 mil e R$ 60 mil de infratores ambientais. Por meio de suas assessorias, declararam que todas as doações eleitorais foram regulares e constam na prestação de contas aprovadas pela Justiça Eleitoral.
O trânsito de deputados para cargos legislativos seria mais uma forma de explicar o interesse dos doadores nessas campanhas, segundo Juliana Malerba, assessora da Fase, ONG que atua na defesa dos povos tradicionais na Amazônia. “Os lobbies sobre as leis de proteção ambiental operam também sobre o Executivo por meio da indicação de cargos ou influenciando medidas provisórias e portarias que garantam celeridade na aprovação de licenças”, afirma.

Infratores doaram para quase todos os partidos

O rol de deputados eleitos com dinheiro de infratores não está restrito à bancada ruralista, há políticos de todas as orientações ideológicas, da esquerda à direita. Todos os partidos têm pelo menos um deputado na lista, com exceção do PSOL e do PSL.
Na avaliação de especialistas, a prática disseminada deste tipo de financiamento acompanha a tendência de flexibilizar a legislação de proteção ao meio ambiente. “Esse é o exemplo do lobby legal. Existe uma força social, dentro do Congresso, que leva a Casa para determinada direção”, observa Emerson Cervi, professor departamento de Ciência Política Universidade Federal do Paraná.
Para Pedro Fassoni Arruda, professor do departamento de Ciência Política da PUC-SP, esse tipo de financiamento não é uma novidade. “Na eleição do Congresso Constituinte, a União Democrática Ruralista já fazia leilão de gado para financiar os candidatos comprometidos com os seus interesses”.
Como as doações foram feitas de modo declarado, Cervi observa que é mais difícil, embora necessário, monitorar se a ação do parlamentar está refém dos interesses dos financiadores. “Multado financiar não é ilegal. Agora, multado financiar e conseguir benefícios é imoral”.
Essa reportagem é parte do especial Ruralômetro, ferramenta que monitora como a atuação dos deputados federais impacta o meio ambienta, os povos indígenas e os trabalhadores rurais. Clique aqui para conhecer a ferramenta.


Do Repórter Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/02/2018

De 29 países, entre desenvolvidos e em desenvolvimento, o Brasil está entre os cinco países mais desiguais, diz estudo de centro da ONU

ONU

Estudo que analisou 29 países — entre desenvolvidos e em desenvolvimento — mostrou que o Brasil está no grupo de cinco nações em que a parcela mais rica da população recebe mais de 15% da renda nacional. O 1% mais rico do Brasil concentra entre 22% e 23% do total da renda do país, nível bem acima da média internacional.

A conclusão é de estudo dos pesquisadores Pedro Herculano Guimarães e Marcelo Medeiros, do Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea), publicado recentemente pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (IPC-IG/PNUD).
Contraste entre as desigualdades no município do Rio de Janeiro. Foto: Luiz Gonçalves Martins - ODS 10
Desigualdades no Rio de Janeiro. Foto: Luiz Gonçalves Martins – ODS 10
Estudo que analisou 29 países — entre desenvolvidos e em desenvolvimento — mostrou que o Brasil está no grupo de cinco nações em que a parcela mais rica da população recebe mais de 15% da renda nacional. O 1% mais rico do Brasil concentra entre 22% e 23% do total da renda do país, nível bem acima da média internacional.
A conclusão é de estudo dos pesquisadores Pedro Herculano Guimarães e Marcelo Medeiros, do Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea), publicado recentemente pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (IPC-IG/PNUD).
Com base nos dados de Imposto de Renda referentes ao período de 2006 a 2014, os autores do estudo “The concentration of income at the top in Brazil” (a concentração de renda no topo da pirâmide no Brasil, em tradução livre) mostram que a desigualdade não diminuiu no país nos oito anos analisados, diferentemente do apontado por pesquisas domiciliares.
“Quase nada mudou no que se refere à concentração de renda no topo da pirâmide durante o período analisado”, disseram os pesquisadores.
“Embora as diferenças metodológicas não nos permitam dar um ranking oficial e definitivo de países, as evidências disponíveis mostram claramente que o Brasil está entre os mais desiguais, muito à frente da maioria dos outros países”, afirmou a conclusão do estudo.
Os pesquisadores atribuem a diferença de resultados na comparação com as pesquisas domiciliares aos ganhos de capital, mais bem detectados pelas declarações de Imposto de Renda.
Segundo eles, a desigualdade de renda no Brasil é preocupante, uma vez que está muito acima dos padrões internacionais.  A proporção do total da renda recebida pelo 1% mais rico da população fica entre 5% e 15% em 24 dos 29 países analisados, um grupo heterogêneo que inclui Holanda e Uruguai. Apenas cinco países — Brasil, África do Sul, Argentina, Colômbia e Estados Unidos — estão acima desse nível. No Brasil, a concentração da renda nas mãos do 1% mais rico é o dobro da média geral.
“O Brasil só atingirá níveis moderados de desigualdade, como os da Europa, se a concentração de renda no topo diminuir dramaticamente”, disseram os pesquisadores. “Isso demandará políticas que promovam tanto o rápido crescimento da renda dos mais pobres como a direta redistribuição (da renda) do topo”.
Os resultados ressalvam que, de fato, houve alguma redistribuição de renda entre as camadas intermediárias da população brasileira, mas a desigualdade se manteve estável entre os setores mais ricos e mais pobres. Como a renda continua muito concentrada no topo, não houve uma diminuição significativa da desigualdade nesse período, concluíram.
Os pesquisadores criticam os incontáveis exemplos de ações estatais tomadas no sentido oposto à redução da desigualdade de renda nesses países, tais como aposentadorias generosas para funcionários públicos, a baixa participação da tributação direta na carga tributária bruta e o acesso privilegiado a crédito público subsidiado.
“A experiência histórica mostra que buscar o crescimento a todo custo e esperar que ele resolva todos os nossos problemas distributivos não funcionou no passado e dificilmente funcionará no futuro”, declararam.


Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/02/2018

EcoDebate - Edição 2.915 de 01 / fevereiro / 2018

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1º/02/2018    
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