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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Ambientalistas em campanha contra perfuração no Ártico

(por Ethan Freedman, da IPS)
artico Ambientalistas em campanha contra perfuração no ÁrticoWashington, Estados Unidos, 2/8/2012 – Grupos ambientalistas estão preocupados com uma possível extensão das operações de perfuração petroleira no Ártico, enquanto grandes companhias, incluindo a anglo-holandesa Royal Dutch Shell, preveem iniciar os trabalhos esta semana. A Shell planeja abrir três poços exploratórios no Alasca, nos Estados Unidos, um no Mar de Chukchi, no noroeste, e dois no Mar de Beaufort, no norte. A extensão permitirá à empresa perfurar o Ártico mesmo depois de vencidos os prazos originalmente estabelecidos pelas autoridades federais de 24 de setembro para Chukchi e final de outubro para Beaufort.
Contudo, os ativistas alertam que a extensão não seria outra coisa além de uma tentativa das empresas para recuperar o tempo perdido. “Seria uma ação realmente preocupante que modificaram limites”, disse à IPS o encarregado de imprensa da organização Greenpeace. “Não são capazes de colocar suas frotas em ordem. Querem mudar as regras para que a administração atenda suas necessidades”, acrescentou.
A Shell previa concretizar este mês suas operações no Ártico, mas estas sofreram vários reveses. Em junho, o navio de perfuração Noble Discoverer não recebeu autorização da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos por não cumprir os padrões de emissões, pois seus motores continham quantidades de óxido nitroso e amoníaco superiores às permitidas. No começo deste mês, o navio, ancorado em Dutch Harbor, o maior porto pesqueiro do Alasca, soltou as amarras e ficou a 30 metros da costa.
“Claramente não podem garantir a segurança no Ártico”, disse o subdiretor de campanhas do Greenpeace, Dan Howells. O ativista alertou que estender o prazo de perfuração seria “convidar para uma catástrofe maior em um dos ecossistemas mais delicados da Terra”.
Em fevereiro, o Escritório de Segurança e Cumprimento Ambiental (BSEE), do Departamento do Interior dos Estados Unidos, avalizou os planos da Shell para eventuais derrames. Assim, a firma superou um dos principais obstáculos no caminho para iniciar a perfuração. “Os recursos energéticos do Alasca, em terra e marítimos, convencionais e renováveis, oferecem grandes promessas de oportunidades econômicas para seus habitantes e para o restante da nação”, argumentou o secretário do Interior, Ken Salazar, em uma declaração.
“Na fronteira do Ártico a exploração cuidadosa, sob rígida vigilância e com medidas de segurança e planos de resposta de emergência, pode ajudar a melhorar nosso conhecimento da região e de seus recursos, e apoiar nossa meta de seguir incrementando a produção segura e responsável de petróleo e gás”, acrescentou o ministro. A Shell recebeu autorização inicial do governo de George W. Bush para perfurar o Ártico, mas a autorização final foi aprovada pela administração de Barack Obama.
Em resposta a esta aprovação, uma coalizão de uma dezena de grupos ambientalistas, incluindo o Conselho para a Defesa dos Recursos Naturais, Sierra Club e Oceana, apresentou uma ação legal contra o Departamento do Interior, questionando o aval aos planos de resposta da Shell diante de eventuais vazamentos. O Greenpeace foi um dos principais críticos das perfurações no Ártico, e agora protesta agressivamente contra a possível expansão dos prazos. A organização usa especialmente as redes sociais para satirizar a Shell: criou uma conta no Twitter e um site falsos da companhia, bem como um jogo online chamado “Angry Bergs”, jogo de palavras com “angry” (raivoso, em inglês) e icebergs.
Lisa Murkowski, senadora pelo Alasca do opositor Partido Republicano, criticou as ações do Greenpeace, como a criação de uma “frota de protesto”. “O Greenpeace está anunciando que impedirá as perfurações de exploração em águas do Ártico, na costa norte do Alasca, neste verão boreal”, afirmou a legisladora em uma carta ao diretor da BSEE, James Watson. “Permitir intromissões de qualquer grupo que perturbem ou coloquem em risco as operações federalmente autorizadas é uma ameaça direta às operações seguras e coloca em perigo esses trabalhadores e nosso meio ambiente”, escreveu a senadora.
A Shell não é a única companhia que pretende extrair recursos na região. A petroleira norte-americana ConocoPhillips e a norueguesa Statoil também receberam autorização para explorar o Ártico norte-americano. Por sua vez, a ExxonMobil, a maior companhia energética do mundo, fechou um acordo com a Rússia. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, a agência governamental norte-americana dedicada a temas ambientais, o Ártico perdeu uma cobertura de gelo sem precedentes em junho (1,7 milhão de quilômetros quadrados) devido às alterações do clima.
A Shell, a companhia europeia mais lucrativa, já investiu US$ 4,5 bilhões na região desde 2006, sobretudo em licitações, autorizações e equipamento. Mas os potenciais riscos financeiros e ecológicos são desprezados pelas empresas diante das possibilidades de ganhos econômicos. Segundo estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Oceano Ártico contém 12% do petróleo não descoberto da Terra, mais de 177 bilhões de barris. Também teria 25% do gás não descoberto, de aproximadamente 3,4 milhões.
Entretanto, outras empresas de petróleo se afastam da região por medo dos riscos. Na semana passada, a BP anunciou que abandonava um projeto de US$ 1,5 bilhão no Ártico, que mantinha há 14 anos, dizendo que este “não passou em seus exames” de segurança. A administração de Obama esclareceu que não haveria mais autorização para perfuração no Ártico até 2016, para permitir mais pesquisa na região. No entanto, tudo isso não dissuadiu a Shell. No dia 27 de julho a empresa assinou um acordo com a China National Offshore Oil Corporation para explorar gás e petróleo na China e na África ocidental. Trata-se da primeira incursão da Shell em águas chinesas em quase dez anos.

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FONTE :  Envolverde/IPS

Futuro da energia nuclear depende de quem o projeta

(por Julio Godoy, da IPS)
nuclear Futuro da energia nuclear depende de quem o projetaParis, França, 2/8/2012 – O rompimento dos readores da central japonesa de Fukushima Daiichi, em março de 2011, converteu o antigo debate sobre a energia nuclear em uma guerra de palavras entre agências internacionais e especialistas independentes com posições diametralmente opostas. No último informe Urânio, divulgado no dia 26 de julho, a Agência de Energia Nuclear (AEN) e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) ignoram totalmente as lições deixadas pelo desastre de Fukushima e afirmam que, até 2035, a capacidade de geração elétrica a partir desta alternativa aumentará 99%. A previsão também ignora as limitações econômicas derivadas da crise que deixou muitos países da zona do euro à beira do colapso.
As duas agências, financiadas em grande parte por países industrializados, afirmam que nas próximas duas décadas a energia nuclear aumentará entre 44% e 99%, e que as reservas de urânio, apesar dos maiores custos de extração, são mais do que “adequadas para atender os requisitos máximos até 2035”. Porém, especialistas independentes consideram que essas previsões otimistas são típicas da falsa ilusão dessas agências.
Mycle Schneider, um dos autores do World Nuclear Industry Status Report 2012 (WNISR – Informe sobre o Status Mundial da Indústria Nuclear), recordou que as duas agências têm antecedentes de previsões exageradas que nunca são concretizadas. “Em 1973-1974, a AIEA previu uma capacidade nuclear instalada no mundo entre 3,6 mil e cinco mil gigawatts até 2000, dez vezes a atual”, disse Schneider à IPS. Schneider é um consultor sobre temas de energia e política nuclear residente em Paris e trabalhou para quase todos os governos da Europa ocidental, União Europeia, Parlamento Europeu e numerosas organizações ambientalistas. Também é membro do Grupo Internacional sobre Materiais Físseis, na norte-americana Universidade de Princeton.
“Mesmo depois do acidente de Chernobil (Ucrânia) em 1986, a AEN previu uma capacidade nuclear instalada entre 497 e 646 gigawatts até 2000, entre 40% e 80% acima da realidade”, acrescentou o especialista. Ao contrário do que dizem essas agências, o estudo WNISR, divulgado no mês passado, prevê o colapso da energia nuclear em quase todo o mundo, e atribui um significado marginal nas fontes de energia atuais e futuras. No contexto da instabilidade política e dos crescentes custos da construção, para não mencionar os menos rígidos quesitos de segurança para os reatores nucleares e o crescente mercado de recursos renováveis, o informe não apresenta a alternativa atômica entre os primeiros lugares da agenda energética.
“A geração de eletricidade nuclear alcançou um máximo de 2,66 mil terawatts/hora (TWh) em 2006 e caiu para 2.518 TWh em 2011 (4,3% abaixo de 2010), enquanto o peso desta fonte na geração elétrica mundial diminui de forma sustentada de um máximo histórico de 17%, em 1993, para 11%, no ano passado, diz o informe. Além disso, “a capacidade nuclear instalada no mundo diminuiu em 1998, 2006, 2009 e novamente em 2011, enquanto a de energia eólica anual aumentou 41 gigawatts apenas no ano passado”, diz o documento. E acrescenta que o investimento global em energias renováveis chegou a US$ 260 bilhões em 2011, 5% mais do que no ano anterior e quase cinco vezes mais do que em 2004.
“O investimento total acumulado em fontes renováveis aumentou para mais de US$ 1 trilhão desde 2004, segundo a Bloomberg New Energy Finance”, indicou Schneider à IPS. “Compare isto com nossa estimativa de decisões de investimento em energia nuclear de US$ 120 bilhões no mesmo período”, ressaltou. Tais fatos contraditórios mostram que “as fontes de energia renováveis e o gás natural são cada vez mais acessíveis e muito mais rápidos de instalar” do que a alternativa nuclear, explicou Schneider. O WNISR considera que a catástrofe de Fukushima é um ponto de inflexão no desenvolvimento da energia atômica, mas o informe da AEN e da AIEA vê esse desastre apenas como um “obstáculo no caminho”.
De fato, o diretor-geral da AEN, Luis Echávarri, declarou: “O acidente de Fukushima Daiichi fez com que atrasasse o desenvolvimento de programas de energia nuclear no mundo enquanto são analisadas e implantadas as lições que deixou. A maioria dos países reafirmou seu compromisso de continuar utilizando a energia nuclear, mas alguns optaram por reduzi-la de forma gradual ou não reintroduzi-la”.
A AEN e a AIEA reiteraram referências anteriores a supostos planos para a construção de novas usinas nucleares, “com a forte expansão de China, Índia, República da Coreia e Federação Russa”, e dão como certo o crescimento desta alternativa em outros países. Porém, negam-se a quantificá-lo. Seu otimismo só pode ser explicado por uma decidida negação dos acontecimentos reais em matéria energética após o desastre de Fukushima, pontuou Antony Froggatt, pesquisador especializado nestes temas do grupo de estudo Chatham House, com sede em Londres.
“A mudança mais significativa depois de Fukushima ocorreu fora do Japão, e foi na Alemanha”, lembrou Froggatt à IPS. “Quatro meses depois do acidente, Berlim adotou uma lei que reintroduz e acelera uma iniciativa anterior de reduzir de forma gradual o peso da energia nuclear”, acrescentou. A eliminação desta alternativa econômica na Alemanha deverá ser completada até dezembro de 2022. O Japão também examina seguir por esse caminho nas próximas duas décadas.
“Outros países da Europa, entre eles, Bélgica, Itália e Suíça, afastaram-se da fonte nuclear”, destacou Froggatt. Quanto às nações em desenvolvimento, Egito, Jordânia, Kwait e Tailândia “abandonaram seus planos para desenvolver esta alternativa”, acrescentou. Entretanto, reconheceu que outros Estados, como República Checa, França, Hungria e Grã-Bretanha, bem com Índia e Paquistão, reiteraram suas intenções de continuar desenvolvendo a energia nuclear. A China é uma incerteza, pois suspendeu novas construções para fazer novas avaliações e novos testes, o que contrasta com o otimismo da AEN e da AIEA.
Para que a geração elétrica procedente da energia nuclear aumente 99% nos próximos 23 anos, seria preciso construir centenas de centrais, o que é pouco provável, pois, segundo o estudo de Schneider, desde o ano passado foram instalados apenas nove reatores e 21 acabaram desativados. “Das 59 unidades em construção no mundo, pelo menos 18 têm atrasos de vários anos, enquanto os restantes 41 projetos começaram nos últimos cinco anos e não chegaram às datas previstas para seu início, o que torna difícil prever se cumprirão o cronograma”, ressaltou Schneider.

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FONTE : Envolverde/IPS

Produtos da Apple são cada vez mais compactos e prejudiciais ao meio ambiente

Pode um computador ser fino demais? A Apple diz que não. Ambientalistas afirmam que sim. No novo notebook da empresa, a bateria foi colada ao aparelho, o que dificulta o conserto e a reciclagem.
Kyle Wiens trabalha na Califórnia desmontando computadores, smartphones e outros eletrônicos. Seus métodos para consertar computadores e outros aparelhos em casa são conhecidos mundo afora. Sempre que um produto novo e interessante chega ao mercado, ele o compra e a primeira coisa que faz é desmoná-lo para investigá-lo por dentro. Depois, apresenta os resultados em sua página na internet iFixit (em português, “eu conserto”).
Recentemente, Wiens e sua equipe se debruçaram sobre o novo notebook da Apple, o MacBook Pro com display em retina de alta resolução. “Quando o abrimos, logo identificamos um problema: a Apple colou a bateria à caixa do aparelho, o que torna quase impossível separar a bateria do computador”, diz.
Caso a bateria seja danificada, somente a assistência técnica da Apple pode trocar as peças. Mas não é todo mundo que gosta de enviar computadores com seus dados pessoais para o conserto.
Difícil reciclagem
Além disso, materiais colados uns aos outros dificultam a reutilização dos componentes. A Apple é conhecida por isso entre as empresas de reciclagem, declarou à Deutsche Welle um empresário do ramo que prefere não ser identificado.
As peças costumam ser difíceis de se separar e, muitas vezes, precisam mesmo ser quebradas – o que demanda tempo e energia. Colar a bateria a outros materiais, o que ocorre em diversos produtos da Apple, também dificulta que o aparelho seja desmontado, considera o especialista.


Computador que não pode ser consertado é logo jogado no lixo e substituído, critica Wiens
A Apple classifica o MacBook Pro com display em retina como um dos melhores computadores que existem. Wiens acredita que ele seja, sem dúvida, um dos mais difíceis de se consertar. Cada vez mais mais fino, mais compacto e mais prejudicial ao meio ambiente. Pois um computador que não pode ser consertado é logo jogado no lixo e substituído por um novo, critica Wiens.
Selo ambiental
Logo após a chegada do último notebook ao mercado, a Apple anunciou que seus produtos não levariam mais o selo ambiental EPEAT, bastante comum nos Estados Unidos. A Apple não quis informar à DW o motivo da retirada. O selo indica, entre outras coisas, a facilidade de reciclagem de um produto.
Clientes de todo o mundo protestaram contra a abolição. A administração da cidade norte-americana de São Francisco anunciou que, sem o selo, não utilizaria mais produtos da Apple. Isso porque, na maioria das instituições públicas do país, uma determinada parcela dos aparelhos eletrônicos precisa atender a padrões ambientais.
Apple admite erro
A Apple logo percebeu que havia cometido um erro grave e desculpou-se em uma carta aberta. Ao mesmo tempo, ressaltou ser a mais avançada e mais ambientalmente correta empresa de eletrônicos.
Em muitos aspectos, a Apple é realmente avançada e foi diversas vezes pioneira em termos de sustentabilidade, afirma Christian Wölbert, especialista em tecnologia da informação (TI) da revista de informáica c’t. Entretanto, não se pode fazer um julgamento absoluto sobre a empresa.
“O tema TI verde é muito complexo. É difícil dizer de onde vêm os milhares de componentes e cada uma das matérias-primas de um notebook”, diz Wölbert. “Como não se sabe em que condições as matérias-primas são extraídas e os componentes produzidos, também não é possível provar se um fabricante é de fato ‘verde’.”

Der neuste Apple-Laptop, MacBook Pro Retina auseinander gebaut.Copyright: iFixit
Peças coladas umas às outras, como é o caso da bateria do novo MacBook Pro, dificultam conserto e reciclagem
Tendência prejudicial ao ambiente
Por outro lado, é fácil avaliar se um produto pode ou não ser reciclado. Nesse ponto, a Apple tem deixado a desejar – o que Wiens considera uma tendência. “A Apple cola cada vez mais peças aos aparelhos. Isso não vale para todos os produtos, mas é a direção em que a empresa caminha”, aponta.
O iPad3, por exemplo, também tem seus componentes colados uns aos outros, e o novo smartphone da Apple tem parafusos especiais que só podem ser removidos com uma ferramenta especial.
É por isso que Wiens alerta os consumidores de que eles são os únicos que poderiam influenciar a Apple a mudar de atitude – com seu poder de decisão na hora da compra.

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FONTE :
Autor: Greta Hamann (lpf)
Revisão: Francis França
Matéria da Agência Deutsche Welle, DW, publicada pelo EcoDebate, 02/08/2012

A degradação de terras no Brasil e a perda da resiliência em termos de produção e sustentabilidade. Entrevista com Eduardo Campello

“Até 2020 há uma previsão de incorporar algo em torno de 15 a 20 milhões de hectares ao processo produtivo. Com a aplicação do Código Florestal, será possível, aos poucos, reduzir de maneira gradativa as áreas degradadas”, assinala o engenheiro florestal.
Confira a entrevista.
Os dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente, de que 140 milhões de hectares de terras brasileiras estão degradadas, evidenciam que “não há necessidade de abrir novas fronteiras agrícolas, tampouco continuar desmatando para ampliar a área agrícola”, diz o engenheiro, Eduardo Campello à IHU On-Line. Segundo ele, “140 milhões de hectares de terras degradadas representa um dado preocupante, porque é uma área muito extensa em termos territoriais. Porém, o Brasil tem a possibilidade de recuperar e reincorporar parte dessas áreas degradadas aos sistemas produtivos”.
De acordo com Campello, tentativas para reverter esse quadro e recuperar as áreas degradadas já são desenvolvidas em algumas regiões do país, a exemplo do Centro-Oeste, onde se adotam “sistemas integrados de produção, como a integração lavoura/pecuária/floresta, que também permite reincorporar muitas áreas de pastagem e outras áreas onde houve uma perda da fertilidade do solo, uma perda da resiliência em termos de produção e sustentabilidade”.
A recuperação das áreas degradadas, conforme esclarece Campello, depende também de uma reavaliação das práticas agrícolas. “Não dá mais para fazer uma agricultura itinerante como aconteceu nos anos 1970, quando boa parte dos agricultores do Sul do país migraram para o Centro-Oeste. Também não dá para fazer uma transposição para a Amazônia. Precisamos adequar as propriedades a luz da nova lei, criando mecanismos que incentivem as pessoas a plantarem, recuperarem, e manterem a qualidade das terras”, destaca em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone.
Eduardo Campello é graduado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre em Engenharia Florestal pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, e doutor em Ciência Florestal pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente é chefe do Centro Nacional de Pesquisa de Agrobiologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa Agrobiologia.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Segundo informações do Ministério do Meio Ambiente, cerca de 140 milhões de hectares de terras brasileiras estão degradadas. O que este valor significa, considerando a extensão territorial do país?
Eduardo Campello – Essa é uma área bastante expressiva, mas hoje o Brasil tem tecnologia para recuperar essas áreas degradadas. Então, na verdade, não há necessidade de abrir novas fronteiras agrícolas, tampouco continuar desmatando para ampliar a área agrícola.
A expectativa da ONU e da Organização Mundial da Saúde – OMS é de que em 2050 terão nove bilhões de pessoas no mundo. Quer dizer, haverá a necessidade de aumentar a produção de alimentos no planeta. Poucas áreas do mundo contêm uma extensão territorial e terra agricultável como o Brasil.
Efetivamente, 140 milhões de hectares de terras degradadas representa um dado preocupante, porque é uma área muito extensa em termos territoriais. Porém, o Brasil a possibilidade de recuperar e reincorporar parte dessas áreas degradadas aos sistemas produtivos.
IHU On-Line – Em quanto tempo é possível recuperar as áreas degradadas? Que tecnologias o Brasil possui para reverter a degradação das terras?
Eduardo Campello– Em termos gerais, ainda precisamos de um diagnóstico mais preciso do nível de degradação, e essa talvez seja a grande dificuldade quando se fala em recuperar a área degradada: não existe uma receita única; uma lógica que você vai lá e aplica de um modo geral. Existem várias condições relacionadas ao clima e ao solo, por exemplo.
O Brasil tem uma grande diversidade de biomas e de ecossistemas dentro de cada bioma, e isso precisa ser analisado de forma técnica para buscar uma solução para cada situação. Porém, exemplificando, têm regiões, como no Sudeste, onde muitas pastagens foram feitas em áreas de relevo mais acidentado, em encostas. Boa parte dessas pastagens está degradada, e para recuperá-las poder-se-iam adotar sistemas silvipastoris, nos quais se faz o consórcio entre a forrageira e espécies arbóreas para aumentar a produtividade, protegendo mais o solo.
Existe no Centro-Oeste brasileiro, onde está hoje a maior produção agropecuária do país, a possibilidade da adoção dos sistemas integrados de produção, como a integração lavoura/pecuária/floresta, que também permite reincorporar muitas áreas de pastagem e outras áreas em que houve uma perda da fertilidade do solo, uma perda da resiliência em termos de produção e sustentabilidade.
IHU On-Line – Que características as áreas precisam ter para serem consideradas degradadas?
Eduardo Campello – Isso depende muito da interpretação de cada grupo de pesquisa, de cada grupo técnico. Particularmente, gosto de trabalhar com o termo perda da resiliência, ou seja, a capacidade do ambiente de responder aos estresses ambientais aos quais ele é submetido. Essa resiliência, capacidade do meio ambiente de reagir, chega a um nível tão baixo que é preciso fazer uma intervenção técnica para voltar a recuperar os mecanismos ecológicos que ali funcionam. No ambiente de produção, uma área é considerada degradada quando há perda da qualidade desse ambiente, ou seja, diminui a fertilidade do solo, e aparecem outros componentes da degradação, como a erosão, a perda da biodiversidade em torno dessas áreas, o decréscimo de produção etc.
O Brasil tem nesse hall de tecnologias algumas coisas que são extremamente potenciais, mas que são relativamente de uso limitados. Há um exemplo clássico que é a fixação biológica de nitrogênio. Hoje, no mundo, talvez os grandes limites para se continuar mantendo altos níveis de produtividade são os fertilizantes nitrogenados.
Para se produzir esse nitrogênio fertilizante, gasta-se muita energia, é um processo que consome combustível fóssil, emite muitos gases de efeito estufa. Por ser um produto solúvel, é preciso aplicar grandes quantidades de nitrogênio no solo, o que acaba contaminando os corpos hídricos, como rios e lagoas.
A natureza oferece opções como a simbiose entre microrganismos e plantas, onde a bactéria do solo – a bactéria do bem – fornece nitrogênios para a planta em troca de carboidratos da fotossíntese. Isso é possível de ser feito. A soja brasileira, por exemplo, não utiliza um grama de nitrogênio, e isso gera uma economia para o país de aproximadamente dez bilhões de reais por ano, o que equivale, no caso da soja, a cinco vezes o orçamento da Embrapa. Isso demonstra como o investimento em pesquisa de desenvolvimento e inovação pode dar retorno para o país.
IHU On-Line – Por outro lado, o Brasil ainda utiliza muito agrotóxico. Como o uso intensivo contribui para a degradação das terras, especialmente agrícolas?
Eduardo Campello– Esse é um dado obviamente preocupante. Queremos reduzir o uso de insumos químicos, e por isso estamos investindo mais nos insumos biológicos. A maior preocupação é que os agrotóxicos entram na cadeia alimentar e acabam acarretando efeitos na saúde humana.
Não desejaríamos que o Brasil fosse o campeão de uso de agrotóxicos, mas temos de considerar que esse é relativo. O Brasil possui uma grande extensão territorial e, por ser um dos maiores produtores de alimento do mundo em termos quantitativos, ele, em termos absolutos, o que mais usa insumos químicos. Porém, em termos relativos, o país está na quinta ou sexta colocação. Têm países que relativamente, por hectares, gastam mais dinheiro em insumos químicos, como o Japão, que é o campeão na utilização de insumos químicos e produtos para controlar pragas e doenças.
Na medida em que se desenvolvem modelos integrados de produção e se aumenta a diversidade, surge um ambiente mais equilibrado, com a presença de inimigos naturais dessas pragas. O problema é que, quando se transformam grandes áreas em monocultura, a tendência é que os inimigos naturais desaparecem, e as pragas dominem as terras, porque falta a diversidade de culturas para manter o ambiente em equilíbrio.
IHU On-Line – É possível estimar em quais estados brasileiros a degradação é mais acentuada?
Eduardo Campello– O Brasil é um dos países que melhor utiliza, e de forma bastante efetiva, o monitoramento por imagens de satélite. Então, sabemos qual é a situação ambiental dos biomas. A Mata Atlântica, por exemplo, é um bioma extremamente impactado, porque a concentração urbana se deu no litoral, nos estados que estão na região litorânea do Brasil, e que concentraram suas principais cidades próximas ao litoral. O Cerrado brasileiro também sofreu um impacto e já perdeu quase 40% da cobertura vegetal por conta da expansão das fronteiras agrícolas daquela região. A Caatinga também é uma região que merece atenção especial, porque tem sido muito explorada para a retirada de lenha. Alguns processos produtivos, como a produção de gesso e cerâmicas no Nordeste, a produção do tijolo, utilizam lenha oriunda da Caatinga. Esse cenário, de modo geral, está mapeado nos estudos da Embrapa.
IHU On-Line – Considerando o modelo agrícola brasileiro, que investe na expansão do agronegócio e da pecuária extensiva, como conciliar a lavoura, a pecuária e a preservação das áreas florestais?
Eduardo Campello– O Brasil já tem feito isso de alguma maneira: existem vários zoneamentos agroecológicos. Um exemplo é o que foi feito para a cana-de-açúcar, que considerou a Amazônia brasileira e o Pantanal como áreas inadequadas para a produção de cana-de-açúcar, quer dizer, não recomendou a expansão dessa cultura. Já há conhecimento suficiente, mas precisamos reintegrar isso. De certo modo, essa tem sido a proposta do governo brasileiro, a qual foi assumida na COP-15, em 2009, em Copenhague, com os compromissos do Brasil de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Esse comprometimento gerou um programa de governo chamado Programa da Agricultura de Baixo Carbono – ABC. A proposta é cada vez mais, em cada ano, reincorporar áreas degradadas ao processo produtivo.
Até 2020 há uma previsão de incorporar algo em torno de 15 a 20 milhões de hectares ao processo produtivo. Com a aplicação do Código Florestal, será possível, aos poucos, reduzir de maneira gradativa as áreas degradadas. Durante a Rio+20 houve um reconhecimento internacional de que o Brasil vem dando exemplos de efetiva preocupação de mudança, de abordagem do seu sistema de produção agrícola, respeitando e adotando técnicas mais conservativas em termos ambientais.
IHU On-Line – Como a discussão da degradação das terras aparece no novo texto do Código Florestal? Caso o atual texto seja aprovado, o que pode se esperar em relação às áreas degradadas?
Eduardo Campello – O atual Código Florestal brasileiro é da década de 1960, e de lá para cá, nada mudou, apesar de o Código ser um documento com regras muito claras em relação a práticas que não poderiam ser adotadas em termos de preservação. O atual Código também tem uma visão mais punitiva e, de alguma maneira, o Estado brasileiro tem uma visão, hoje um pouco diferente. Reconhece-se a importância de trazer os principais atores envolvidos nessa questão de forma a estimular e mostrar que realmente preservar recursos naturais têm benefícios. Então, cada vez mais se fala em pagamento de serviços ambientais, vantagens que estão sendo dadas para aqueles que efetivamente cumprem esse Código.
Nesse sentido, hoje os agricultores têm mais consciência. Não dá mais para fazer uma agricultura itinerante como aconteceu nos anos 1970, quando boa parte dos agricultores do Sul do país migraram para o Centro-Oeste. Também não dá para fazer uma transposição para a Amazônia. Precisamos adequar as propriedades à luz da nova lei, criando mecanismos que incentivem as pessoas a plantarem, recuperarem e manterem a qualidade das terras e da água, porque não é possível fazer agricultura sem água.

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FONTE : Ecodebate, 02/08/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Organizações brasileiras que atuam na Amazônia influenciam discussão global sobre o clima

O trabalho das Organizações não-governamentais (ONGs) ambientalistas na Amazônia influenciou as discussões sobre as mudanças climáticas globais. Segundo estudo do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam) da USP, as ONGs não são oportunistas que se aproveitam do tema, muito menos estão a serviço de interesses estrangeiros: sua atuação é resultado de anos de trabalho com as comunidades locais e contribuiu para alertar tomadores de decisão sobre a importância do combate ao desmatamento da floresta.
A dissertação de mestrado As mudanças climáticas globais e as ONGs socioambientais brasileiras: novas estratégias de conservação para a Amazônia, realizada pela bióloga Gabriela de Azevedo Couto sob orientação do professor Luiz Carlos Beduschi Filho, aponta que os conhecimentos produzidos pelas organizações e o envolvimento com as demandas das comunidades da Amazônia levaram a uma mudança de postura de baixo para cima, ou seja, partindo do local para o global.
ONGs como o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e Instituto Socioambiental (ISA) conseguiram interpretar o conhecimento científico e demonstrar os impactos das mudanças climáticas na floresta, reinterpretando as descobertas globais para a escala local. O conhecimento das populações da floresta sobre a natureza e a região também foi de extrema importância: as duas organizações se destacam no diálogo com as populações da região.

ONGs ajudaram a alertar sobre a importância do combate ao desmatamento
O estudo destaca a legitimidade obtida por essas instituições por intermédio de sua atuação ao longo de mais de 15 anos: o reconhecimento do trabalho foi tão grande que permitiu que ISA e Ipam participassem as discussões do Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), tratado internacional estabelecido durante a Rio-92. O trabalho das ONGs socioambientais na Amazônia já antecipava a importância de medidas urgentes para a redução do desmatamento e degradação florestal, reconhecido em 2007 pelo IV Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
As entrevistas da pesquisadora com diretores e coordenadores de quatro organizações não-governamentais — além do ISA e do Ipam, o estudo tem como objeto o Instituto Centro de Vida (ICV) e Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) —, realizadas ao longo do ano de 2011, e a análise dos relatórios anuais delas desde 2000 mostram a evolução da temática das mudanças climáticas nas organizações, que levou essas entidades, que tinham atuações distintas, a adotarem a questão climática como pauta importante de sua agenda para a Amazônia.
Acusações sem fundamento
A pesquisa também derruba a hipótese de que a defesa da floresta tenha sido adotada por tais entidades apenas por se tratar de um “tema da moda”. Gabriela — que atuou entre 2004 e 2006 numa grande organização não-governamental transnacional e, depois disso, visitou diversas cidades, comunidades e projetos na Amazônia — afirma que a problemática é muito mais complexa que isso. Ela envolve aspectos como aprendizado das organizações para desenvolver novas soluções para problemáticas socioambientais e estratégias para manter sua legitimidade perante outros atores sociais.
Mais informações: email coutogabriela@usp.br
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FONTE : matéria de Giovanni Santa Rosa, da Agência USP de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 02/08/2012

Mais de 90% dos municípios podem ficar sem recursos federais para saneamento e limpeza urbana

lixo

Até o dia do prazo final definido pela Lei 12.305/2010, menos de 10% dos municípios brasileiros entregaram o Plano de Gestão de Resíduos Sólidos, prevendo formas de manejo do lixo em cada cidade. A partir de hoje (2), os repasses de recursos federais para as áreas de saneamento e limpeza urbana serão suspensos para as cidades que não apresentarem o plano.
A obrigatoriedade está prevista na lei que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos em 2010. Apesar do prazo de dois anos, apenas as prefeituras de 400 cidades e os governos de nove estados e do Distrito Federal conseguiram entregar o planejamento.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, do total de planos entregues até hoje, 291 já foram aprovados e contratados. Neste total, estão incluídos os planos estaduais que foram concluídos pelos governos de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, de Mato Grosso, Sergipe, da Bahia, de Santa Catarina, do Amazonas, de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e do Distrito Federal.
Com a aprovação e contratação dos planos, o repasse de recursos federais permanece normalizado. Outros 197 planos municipais ainda estão em análise.
Os planos de gestão de resíduos devem incluir, por exemplo, a previsão de audiências públicas com a comunidade local para discutir questões relacionadas ao lixo e a estratégia para a erradicação dos lixões e construção de aterros.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos também obriga a desativação de todos os lixões do país até 2014. Como alguns municípios enfrentam dificuldades na execução dessa norma, justificadas, principalmente, pela falta de recursos e burocracia, o modelo de planos intermunicipais têm sido incorporado por alguns estados que optaram pelo estabelecimento de consórcios entre duas ou mais cidades.
Dados do governo federal apontam que mais da metade dos 5.564 municípios brasileiros do país não dão destinação correta para o lixo.

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FONTE : reportagem de Carolina Gonçalves, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 02/08/2012

Complexidade e meio ambiente, artigo de Roberto Naime

A complexidade dos sistemas em biologia, ecologia e meio ambiente é muito mais ampla do que parece. Alguns biólogos como Robert May (que começou como físico e acabou como biólogo) descobriu que taxas de crescimento não lineares, além de levarem a resultados de explosão populacional e decadência dos indivíduos nos ambientes em que ocorrem, quando ultrapassavam pontos críticos podem mudar drasticamente o caráter de sistemas, modificando resultados qualitativamente e quantitativamente.
Isto afeta não apenas a população final em equilíbrio, mas também a possibilidade de chegar a qualquer equilíbrio. Não estar em equilíbrio pode ser muito estável em determinadas condições, ao contrário do que imaginamos aprioristicamente de que a premissa de atingir o equilíbrio signifique a estabilidade. Poderíamos falar que a estabilidade não significa a meta e não se traduz em finalidade, mas já seria especulação além de um novo paradigma biológico.
O que denominamos de “caos” atualmente tão desenvolvido nos textos sobre teoria do caos, simplificadamente pode ser descrito como fenômenos não lineares que ocorrem em toda parte, principalmente na natureza, mas ao contrário do que parece, ele traduz uma estabilidade e uma estruturação própria e arraigada. O advento do sensoriamento remoto e da massificação das imagens de satélite, que permitiram amplos estudos geométricos sobre configurações litorâneas e outros, demonstraram que sistemas complicados cujos modelos eram tradicionalmente construídos com equações diferenciais contínuas e complexas, podem ser compreendidos com facilidade em mapas discretos, ou em termos de “fractais”.
A evolução da ecologia levou a duas concepções completamente distintas e até certo ponto antagônicas em termos epistemológicos. A primeira observava populações de forma regular e estável, com algumas exceções. E a outra corrente observava populações que variavam irregularmente com exceções. Quando se grifa a expressão irregularmente está se declarando que não varia linearmente. Antigamente se interpretava isto como não estável. Mas cabe declarar afirmativamente e convictamente que irregular não deixa de ser estável dentro de um outro padrão não linear.
Somos cientistas ocidentais, moramos no mundo ocidental. Mas se fossemos orientais, chineses, hindus ou árabes e sofrêssemos influências deterministas ou fatalistas de origem religiosa e teríamos menos dificuldades de admitir estabilidade em irregularidades ou padrões não lineares. Mas como nossa essência científica nos impregna de cartesianismo puro, temos dificuldades no exercício deste raciocínio simples.
Quantas vezes a ciência ocidental enTerra dados que considera demasiado irregulares para serem estatisticamente tratados. A formação científica cartesiana, muitas vezes não nos prepara adequadamente para a compreensão de fenômenos naturais puros que evidenciam se controlados pelos sistemas discretos mais simples de natureza não linear (FOOTE, 2007).
Isto não é privilégio da natureza. No mundo cotidiano da política e da economia estaríamos com certeza muito melhores se um maior número de pessoas compreendesse que sistemas não lineares simples tendem a responder melhor quando se procura descrever processos dinâmicos.
Na biologia, as correntes partidárias de populações vegetais ou animais estáveis, argumentavam que estas populações eram reguladas por mecanismos deterministas. Os defensores das populações irregulares argumentavam que os fatores de controle eram influenciados por fatores ambientais imprevisíveis que anulavam qualquer sinal determinista que pudesse existir.
Na verdade, o que se discute é se uma série de fatores simples como disponibilidade de alimentos e outros, interagem formando novas propriedades emergentes (que por não serem compreendidas, muitas vezes são chamadas imprevisíveis) ou se este fato não era relevante. As alternativas hipotéticas partiam do princípio de que a matemática determinista produzia comportamentos regulares, ou as externalidades e as novas propriedades emergentes de interações eram capazes de produzir comportamentos aparentemente aleatórios. Que na verdade apenas seriam padrões não lineares incompreendidos.
Neste contexto de debate, a teoria do caos apresenta uma mensagem fascinante: os modelos deterministas simples podem produzir comportamentos que aparentam ser aleatórios. A isto atribuímos a influência de fatores novos emergentes de propriedades novas, ou influência de externalidades não compreendidas em toda sua extensão. Quem já trabalhou exaustivamente em avaliações de impactos ambientais sabe das dificuldades de listar todos os fatores relevantes e as interações múltiplas entre os mesmos na análise de um empreendimento antrópico, como uma estrada, uma barragem ou um novo shopping center.
O físico e “biólogo” May (GLEICK, 1989, pg 75) declara solenemente que por mais complexa que a matemática linear pudesse ser, com suas transformadas de Fourier (tão importantes na análise e tratamento de imagens de satélite), suas funções ortogonais e suas técnicas de regressão, e todo um aparato de ferramentas, ela enganava ao imaginar que pudesse descrever o mundo e as relações naturais, onde predomina a não linearidade.
A ecologia é um ramo da biologia relativamente recente. Teve seus princípios fundamentais popularizados na obra de Eugene Odum (1988). Este autor disseminou os conceitos básicos de ecologia, alguns com extrema influência de Bertallanfy (1975) e muitos já discutidos e usados em analogias. A influência da hierarquia nos níveis de organização que trouxe a teoria geral dos sistemas para a própria origem da expressão ecossistema; o princípio das propriedades emergentes; a lei dos mínimos de Liebig e as modelagens ambientais constituem um conjunto de ferramentas inestimáveis para a compreensão da natureza.
BERTALANFFY, Ludwig von. Teoria geral dos sistemas. 2. ed. Petropolis: Vozes, 1975, 680 p.
FOOTE, R. Mathematics and complex Sistems. Science, Vol 318 p 410-412, 2007.
GLEICK, J. Caos A criação de uma nova ciência. Rio de Janeiro. Editora Campus 1989, 312p.
ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

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FONTE : Dr. Roberto Naime, Colunista do EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
EcoDebate,02/08/2012