Uso de materiais orgânicos da própria floresta reduz em quase 100% a perda de solo nos processos erosivos
Estudo pode solucionar um problema comum em várias áreas da Amazônia. De acordo com a pesquisa, o uso de materiais orgânicos da floresta reduz em 99,95% a erosão.
Os dados fazem parte da dissertação de mestrado intitulada “Avaliação de Processos Erosivos na Base de Operações Geólogo Pedro de Moura” feita pelo bolsista da Rede CTPetro Amazônia, Omar Cubas Encinas, do Programa de Pós-Graduação de Agricultura do Trópico Úmido do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI).
O estudo inédito é de erosão hídrica sobre os impactos no solo das atividades petrolíferas em áreas de floresta primária na Amazônia e teve a orientação do pesquisador da Embrapa Solos e membro da Rede CTPetro, pesquisador Wenceslau Teixeira.
A crescente atividade humana nas áreas de florestas causa impactos negativos sobre o ecossistema, ocasionados pelo desmatamento. Segundo dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), mais de 95% dos desmatamentos são provocados pela atividade agrícola e pecuária. A mineração e a exploração de petróleo e gás natural correspondem por menos de 5% desse desmatamento.
Pesquisa
Segundo Encinas, o primeiro objetivo da pesquisa foi quantificar as perdas de solo e água em parcelas coletoras sob três condições: solo descoberto (sem floresta), solo coberto como liteira (solo com resíduos orgânicos, folhas, galhos) e solo sob floresta primária, em área de exploração petrolífera na Base de Operações Geólogo Pedro de Moura (BOGPM) no município de Coari, interior do Amazonas. Essas parcelas, explica Encinas, são áreas demarcadas em que se pode quantificar a perda de solo.
O segundo objetivo foi determinar os fatores que influenciam na perda de solo e de água, erosividade, largura, comprimento, etc. E o terceiro foi comparar o método da parcela padrão com o método dos pinos (que são pinos cravados na terra que permitem verificar as mudanças do nível do solo).
“As determinações da perda de solo e água foram realizadas em três parcelas coletoras de erosão padrão, sendo duas instaladas em uma clareira representativa das condições da BOGPM, sendo uma com solo descoberto e uma com solo coberto por 5 cm de liteira e uma instalada na floresta primária adjacente a área da clareira estudada”, explica Encinas.
Os resultados da pesquisa indicaram que as perdas de solo e água foram maiores no solo descoberto, seguido pelo solo com liteira e o solo sob floresta primária. O interessante e mais importante deste estudo foi que a perda de solo na clareira com o solo protegido pela liteira foi igual à perda do solo na floresta primária, mostrando a eficiência da liteira na redução do processo erosivo com a qual é possível reduzir as perdas de solo em até 99,95 % quando comparado com o solo descoberto.
“Esse dado é muito importante para as empresas que realizam desmatamento dentro de suas atividades de exploração, pois elas podem utilizar a liteira da floresta como proteções do solo, além de ser de fácil obtenção, ela sempre está se renovando”, afirma Encinas.
Para Encinas, a simples prática da cobertura do solo com liteira reduz as perdas o que sugere a importância de manter o solo coberto e a potencialidade do uso da liteira para controle da erosão.
Área de estudo
Na área da Base de Operações Geólogo Pedro de Moura são abertas clareiras e removida as camadas superficiais do solo em áreas originalmente cobertas por floresta primária para instalação de poços exploratórios de gás e petróleo, obras civis e para construção de estradas.
A área desmatada para a exploração desses produtos corresponde a menos do que 0,04% de todo o desmatamento feito na região, um percentual insignificante se comparado com o ocasionado pela agricultura e pecuária.
Essas atividades fazem com que o solo fique exposto na superfície sob o efeito da ação direta dos fatores climáticos como a precipitação, ventos e raios solares, o que pode acelerar o processo de degradação do solo por alterações nas propriedades físicas e químicas, intensificando os processos erosivos ocasionando perdas de água e solo e por conseqüência contribuir para o assoreamento de igarapés.
A erosão é um fenômeno resultante da desagregação, transporte e deposição das partículas do solo pela ação da chuva, vento ou dos processos de formação natural da crosta terrestre. Nesse sentido, a recuperação do solo e a recomposição florística das clareiras e jazidas da Base de Operações Geólogo Pedro de Moura tem se tornado uma meta para os pesquisadores.
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FONTE : reportagem de Jéssica Vasconcelos, do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, publicada pelo EcoDebate, 05/09/2011.
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segunda-feira, 5 de setembro de 2011
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Volume de lixo espacial chegou a ‘ponto extremo’ para colisões, diz estudo
O volume de entulho orbitando a Terra chegou a um “ponto extremo” para colisões, o que gera mais detritos e põe em risco astronautas e satélites, segundo estudo de uma instituição norte-americana de pesquisas divulgado nesta quinta-feira.
A NASA precisa de um novo plano estratégico para mitigar os riscos impostos por carcaças de foguetes usados, satélites descartados e milhares de outros pedaços de lixo espacial voando ao redor do planeta a velocidades da 28.164 quilômetros por hora, afirmou o Conselho de Pesquisa Nacional dos EUA no estudo –uma organização privada e sem fins lucrativos que fornece consultoria científica. Reportagem de Irene Klotz, da Reuters.
Os detritos em órbita representam uma ameaça para os cerca de mil satélites comerciais, militares e civis na órbita do planeta –parte de uma indústria global que gerou 168 bilhões de dólares em receita no ano passado, de acordo com dados da Associação da Indústria de Satélites.
O primeiro choque espacial ocorreu em 2009, quando um satélite de telecomunicações da Iridium e um satélite russo não-operacional colidiram 789 quilômetros acima da Sibéria, gerando milhares de novos detritos em órbita.
A colisão aconteceu após a destruição, em 2007, por parte da China, de um de seus satélites climáticos fora de uso como parte de um teste amplamente criticado de mísseis anti-satélite.
O volume de detritos em órbita monitorados pela Rede de Vigilância Espacial saltou de 9.949 objetos catalogados em dezembro de 2006 para 16.094 em julho de 2011. Quase 20 por cento dos objetos são provenientes da destruição do satélite chinês Fengyun 1-C, afirmou o Conselho de Pesquisa Nacional.
Alguns modelos computacionais mostram que a quantidade de lixo em órbita “chegou a um nível extremo, com detritos suficientes em órbita para causar colisões contínuas e criar ainda mais destroços, o que aumenta o risco de falha de viagens espaciais”, disse o conselho em um comunicado divulgado nesta quinta-feira, como parte de seu relatório de 182 páginas.
Além de mais de 30 descobertas, o painel fez recomendações para a NASA sobre como mitigar e aprimorar a situação do lixo espacial, o que incluiria a colaboração com o Departamento de Estado para desenvolver o sistema regulatório sobre a remoção de lixo espacial.
Atualmente, por exemplo, acordos internacionais proíbem países de remover ou coletar objetos espaciais de outros países.
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FONTE : reportagem da Reuters, no UOL Notícias. EcoDebate, 02/09/2011.
A NASA precisa de um novo plano estratégico para mitigar os riscos impostos por carcaças de foguetes usados, satélites descartados e milhares de outros pedaços de lixo espacial voando ao redor do planeta a velocidades da 28.164 quilômetros por hora, afirmou o Conselho de Pesquisa Nacional dos EUA no estudo –uma organização privada e sem fins lucrativos que fornece consultoria científica. Reportagem de Irene Klotz, da Reuters.
Os detritos em órbita representam uma ameaça para os cerca de mil satélites comerciais, militares e civis na órbita do planeta –parte de uma indústria global que gerou 168 bilhões de dólares em receita no ano passado, de acordo com dados da Associação da Indústria de Satélites.
O primeiro choque espacial ocorreu em 2009, quando um satélite de telecomunicações da Iridium e um satélite russo não-operacional colidiram 789 quilômetros acima da Sibéria, gerando milhares de novos detritos em órbita.
A colisão aconteceu após a destruição, em 2007, por parte da China, de um de seus satélites climáticos fora de uso como parte de um teste amplamente criticado de mísseis anti-satélite.
O volume de detritos em órbita monitorados pela Rede de Vigilância Espacial saltou de 9.949 objetos catalogados em dezembro de 2006 para 16.094 em julho de 2011. Quase 20 por cento dos objetos são provenientes da destruição do satélite chinês Fengyun 1-C, afirmou o Conselho de Pesquisa Nacional.
Alguns modelos computacionais mostram que a quantidade de lixo em órbita “chegou a um nível extremo, com detritos suficientes em órbita para causar colisões contínuas e criar ainda mais destroços, o que aumenta o risco de falha de viagens espaciais”, disse o conselho em um comunicado divulgado nesta quinta-feira, como parte de seu relatório de 182 páginas.
Além de mais de 30 descobertas, o painel fez recomendações para a NASA sobre como mitigar e aprimorar a situação do lixo espacial, o que incluiria a colaboração com o Departamento de Estado para desenvolver o sistema regulatório sobre a remoção de lixo espacial.
Atualmente, por exemplo, acordos internacionais proíbem países de remover ou coletar objetos espaciais de outros países.
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FONTE : reportagem da Reuters, no UOL Notícias. EcoDebate, 02/09/2011.
Novo Código Florestal: um retrocesso. Entrevista com Valério Pillar, UFRGS
O texto do novo Código Florestal aprovado pela Câmara dos Deputados prejudica “o cumprimento dos compromissos assumidos pelo Brasil até 2020: reduzir em 38% suas emissões de gases do efeito estufa”, menciona Pillar à IHU On-Line. Apesar de o Código vigente ser “bastante avançado” em relação à proteção da biodiversidade em propriedades rurais e urbanas, as leis não são cumpridas. “Se o Código Florestal vigente fosse cumprido, não teríamos situações como a que se observa no Planalto Médio do Rio Grande do Sul, onde grandes áreas contínuas originalmente cobertas com campos nativos foram convertidas em lavouras de soja”, explica.
Em entrevista concedida por e-mail, Pillar argumenta que faltam políticas públicas de incentivo à “diversificação dos sistemas de produção agrícola e o cumprimento da legislação ambiental, evitando que extensas áreas sejam ocupadas pela mesma cultura”.
Valério Pillar é professor e vice-diretor do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal de Santa Maria, mestrado em Zootecnia pela UFRGS e doutorado em Plant Sciences pela University of Western Ontário.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Por que, em sua opinião, o novo texto do Código Florestal exclui os apontamentos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC?
Valério Pillar – Provavelmente porque o documento da SBPC e a Academia Brasileira de Ciência – ABC é crítico a respeito da decisão que a Câmara de Deputados veio a tomar depois, qual seja, a de aprovar alterações no Código Florestal sem uma discussão mais adequada das suas consequências. A discussão prévia promovida pela comissão especial da Câmara de Deputados não incluiu a participação de cientistas brasileiros com experiência nas áreas de ecologia e biodiversidade. O documento da SBPC e ABC aponta equívocos nas alterações que foram depois aprovadas pela Câmara Federal, as quais prejudicam, por exemplo, o cumprimento dos compromissos assumidos pelo Brasil de até 2020: reduzir em 38% suas emissões de gases do efeito estufa, pois isso exigiria o cumprimento da legislação ambiental e o resgate do passivo ambiental rural e urbano.
IHU On-Line – Quais são os principais problemas do Código Florestal vigente?
Valério Pillar – O Código Florestal vigente é bastante avançado na proteção da biodiversidade nas propriedades rurais e urbanas e dos processos e serviços ecossistêmicos a ela relacionados, os quais são essenciais para a manutenção de uma produção agropecuária sustentável e do bem-estar de toda a sociedade. O Código Florestal vigente é de 1965 (lei n. 4771) e, desde então, foi modificado no sentido de ampliar a proteção a determinados ecossistemas, por exemplo, aumentando as áreas de Reserva Legal na Amazônia e incluindo no conceito de Reserva Legal os ecossistemas não florestais como os Campos Sulinos. Algumas dessas alterações foram realizadas por meio de Medidas Provisórias que, apesar de terem força de lei, precisariam ser consolidadas no Código. Além disso, apesar de ser “florestal” no título, protege todas as demais formas de vegetação, inclusive com Reserva Legal, o que muitas vezes não é percebido e resulta em graves equívocos na sua aplicação. Mas esses são problemas menores e que não justificariam tanta discussão.
O principal problema é que o Código Florestal vigente não tem sido cumprido pela grande maioria dos proprietários. Quando medidas passaram a ser tomadas pelo governo federal, tais como o Decreto 6514, prevendo sanções àqueles proprietários que, por exemplo, não averbassem as áreas de Reserva Legal, a Câmara Federal decidiu criar uma Comissão Especial para discutir propostas de mudança no Código Florestal. Ou seja, em vez de criar as condições para que a lei vigente fosse cumprida, por exemplo, definindo políticas públicas de incentivo, o legislador decidiu alterar a lei e anistiar aqueles que a descumpriram. Várias mudanças já aprovadas pela Câmara Federal, e em discussão no Senado, implicam em grave retrocesso.
IHU On-Line – Que aspectos ambientais e científicos o novo Código Florestal deveria considerar para beneficiar a agricultura familiar?
Valério Pillar – O Código Florestal vigente já trata de maneira diferenciada a agricultura familiar, por exemplo, ao permitir que Áreas de Preservação Permanente – APPs sejam computadas na Reserva Legal ou que sejam utilizadas em condições de manejo sustentável, e também ao permitir que sejam computados como Reserva Legal os plantios de árvores frutíferas intercalados com espécies nativas. Portanto, não se justifica alterar o atual Código no pretexto de beneficiar a agricultura familiar.
IHU On-Line – Que políticas públicas faltam para a agricultura?
Valério Pillar – Políticas públicas que incentivem a diversificação dos sistemas de produção agrícola e o cumprimento da legislação ambiental, evitando que extensas áreas sejam ocupadas pela mesma cultura. Se o Código Florestal vigente fosse cumprido, não teríamos situações como a que se observa no Planalto Médio do Rio Grande do Sul, onde grandes áreas contínuas originalmente cobertas com campos nativos foram convertidas em lavouras de soja. Hoje, restam poucos remanescentes de vegetação campestre nativa naquela região. Há evidências de que a conversão de ecosssistemas naturais em cultivados e a sua consequente fragmentação são as principais causas das extinções de espécies que têm ocorrido nas últimas décadas.
IHU On-Line – Quais são suas críticas em relação à proposta de reservas legais apresentadas pelo novo Código Florestal? Como a nova proposta impacta na preservação dos biomas?
Valério Pillar – O novo Código Florestal, se aprovado pelo Senado, define como “área rural consolidada” as áreas naturais convertidas ilegalmente até julho de 2008. As principais críticas são: (1) a isenção de restauração (recomposição ou recuperação) dessas áreas consolidadas e que deveriam ser Reserva Legal nas propriedades com até quatro módulos fiscais; e (2) a possibilidade de compensação no mesmo bioma.
Quanto à isenção, segundo estimativas do Ipea, o passivo total isento de ser recuperado seria aproximadamente de 30 milhões de hectares se a isenção para propriedades com até quatro módulos for aprovada no novo Código Florestal; e se a isenção for ampliada para a fração de até quatro módulos em todas as propriedades, então o passivo isento de restauração seria de cerca de 48 milhões de hectares.
Quanto à compensação, o atual Código Florestal permite compensação em outra área, desde que esteja localizada na mesma microbacia, ou seja, garantiria o desenvolvimento de paisagens agrícolas mais diversificadas. A proposta que está em discussão no Senado permite a compensação em áreas do mesmo bioma, mesmo que estejam a milhares de quilômetros de distância. Com isso, se a nova legislação vier a ser aprovada e for cumprida, as áreas para compensação de Reserva Legal serão provavelmente adquiridas ou arrendadas pelos proprietários de regiões de agricultura intensiva nas regiões onde as terras são mais baratas e menos adequadas para a prática da agricultura intensiva. Com isso, os legisladores estarão abrindo mão de um importante instrumento legal que possibilitaria o desenvolvimento de paisagens agrícolas mais diversificadas, incluindo ecossistemas naturais ou restaurados, nas regiões de agricultura mais intensiva.
Além disso, o novo Código Florestal em discussão permitiria não só a manutenção das áreas consolidadas, mas a supressão de vegetação em APPs nas atividades agrossilvopastoris, assim definidas de forma genérica. Ou seja, quase tudo seria permitido.
IHU On-Line – O senhor concorda que, se aprovado, o novo Código Florestal pode gerar o êxodo rural?
Valério Pillar – A hipótese de que as alterações do Código Florestal gerariam mais êxodo rural advém possivelmente da possibilidade de compensação da Reserva Legal em áreas do mesmo bioma, com a compra de terras mais baratas e menos adequadas para a prática da agricultura intensiva, as quais são frequentemente ocupadas por pequenos proprietários. Se com isso esses pequenos proprietários venderem suas terras, haveria mais abandono do campo. Porém o êxodo rural tem sido causado pela combinação de vários fatores e não poderia ser atribuído a uma única causa.
IHU On-Line – Por que, em sua opinião, o novo Código Florestal deve ser submetido a um plebiscito?
Valério Pillar – Talvez seja a única maneira de abrir a discussão mais amplamente com a sociedade.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Valério Pillar – É importante destacar que, ao defender o atual Código “Florestal”, estamos defendendo não apenas a conservação das florestas, mas todas as demais formas de vegetação, incluindo os Campos Sulinos, que têm sido negligenciados, apesar da sua alta biodiversidade.
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FONTE : (Ecodebate, 02/09/2011) publicado pela IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação. [IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
Em entrevista concedida por e-mail, Pillar argumenta que faltam políticas públicas de incentivo à “diversificação dos sistemas de produção agrícola e o cumprimento da legislação ambiental, evitando que extensas áreas sejam ocupadas pela mesma cultura”.
Valério Pillar é professor e vice-diretor do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal de Santa Maria, mestrado em Zootecnia pela UFRGS e doutorado em Plant Sciences pela University of Western Ontário.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Por que, em sua opinião, o novo texto do Código Florestal exclui os apontamentos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC?
Valério Pillar – Provavelmente porque o documento da SBPC e a Academia Brasileira de Ciência – ABC é crítico a respeito da decisão que a Câmara de Deputados veio a tomar depois, qual seja, a de aprovar alterações no Código Florestal sem uma discussão mais adequada das suas consequências. A discussão prévia promovida pela comissão especial da Câmara de Deputados não incluiu a participação de cientistas brasileiros com experiência nas áreas de ecologia e biodiversidade. O documento da SBPC e ABC aponta equívocos nas alterações que foram depois aprovadas pela Câmara Federal, as quais prejudicam, por exemplo, o cumprimento dos compromissos assumidos pelo Brasil de até 2020: reduzir em 38% suas emissões de gases do efeito estufa, pois isso exigiria o cumprimento da legislação ambiental e o resgate do passivo ambiental rural e urbano.
IHU On-Line – Quais são os principais problemas do Código Florestal vigente?
Valério Pillar – O Código Florestal vigente é bastante avançado na proteção da biodiversidade nas propriedades rurais e urbanas e dos processos e serviços ecossistêmicos a ela relacionados, os quais são essenciais para a manutenção de uma produção agropecuária sustentável e do bem-estar de toda a sociedade. O Código Florestal vigente é de 1965 (lei n. 4771) e, desde então, foi modificado no sentido de ampliar a proteção a determinados ecossistemas, por exemplo, aumentando as áreas de Reserva Legal na Amazônia e incluindo no conceito de Reserva Legal os ecossistemas não florestais como os Campos Sulinos. Algumas dessas alterações foram realizadas por meio de Medidas Provisórias que, apesar de terem força de lei, precisariam ser consolidadas no Código. Além disso, apesar de ser “florestal” no título, protege todas as demais formas de vegetação, inclusive com Reserva Legal, o que muitas vezes não é percebido e resulta em graves equívocos na sua aplicação. Mas esses são problemas menores e que não justificariam tanta discussão.
O principal problema é que o Código Florestal vigente não tem sido cumprido pela grande maioria dos proprietários. Quando medidas passaram a ser tomadas pelo governo federal, tais como o Decreto 6514, prevendo sanções àqueles proprietários que, por exemplo, não averbassem as áreas de Reserva Legal, a Câmara Federal decidiu criar uma Comissão Especial para discutir propostas de mudança no Código Florestal. Ou seja, em vez de criar as condições para que a lei vigente fosse cumprida, por exemplo, definindo políticas públicas de incentivo, o legislador decidiu alterar a lei e anistiar aqueles que a descumpriram. Várias mudanças já aprovadas pela Câmara Federal, e em discussão no Senado, implicam em grave retrocesso.
IHU On-Line – Que aspectos ambientais e científicos o novo Código Florestal deveria considerar para beneficiar a agricultura familiar?
Valério Pillar – O Código Florestal vigente já trata de maneira diferenciada a agricultura familiar, por exemplo, ao permitir que Áreas de Preservação Permanente – APPs sejam computadas na Reserva Legal ou que sejam utilizadas em condições de manejo sustentável, e também ao permitir que sejam computados como Reserva Legal os plantios de árvores frutíferas intercalados com espécies nativas. Portanto, não se justifica alterar o atual Código no pretexto de beneficiar a agricultura familiar.
IHU On-Line – Que políticas públicas faltam para a agricultura?
Valério Pillar – Políticas públicas que incentivem a diversificação dos sistemas de produção agrícola e o cumprimento da legislação ambiental, evitando que extensas áreas sejam ocupadas pela mesma cultura. Se o Código Florestal vigente fosse cumprido, não teríamos situações como a que se observa no Planalto Médio do Rio Grande do Sul, onde grandes áreas contínuas originalmente cobertas com campos nativos foram convertidas em lavouras de soja. Hoje, restam poucos remanescentes de vegetação campestre nativa naquela região. Há evidências de que a conversão de ecosssistemas naturais em cultivados e a sua consequente fragmentação são as principais causas das extinções de espécies que têm ocorrido nas últimas décadas.
IHU On-Line – Quais são suas críticas em relação à proposta de reservas legais apresentadas pelo novo Código Florestal? Como a nova proposta impacta na preservação dos biomas?
Valério Pillar – O novo Código Florestal, se aprovado pelo Senado, define como “área rural consolidada” as áreas naturais convertidas ilegalmente até julho de 2008. As principais críticas são: (1) a isenção de restauração (recomposição ou recuperação) dessas áreas consolidadas e que deveriam ser Reserva Legal nas propriedades com até quatro módulos fiscais; e (2) a possibilidade de compensação no mesmo bioma.
Quanto à isenção, segundo estimativas do Ipea, o passivo total isento de ser recuperado seria aproximadamente de 30 milhões de hectares se a isenção para propriedades com até quatro módulos for aprovada no novo Código Florestal; e se a isenção for ampliada para a fração de até quatro módulos em todas as propriedades, então o passivo isento de restauração seria de cerca de 48 milhões de hectares.
Quanto à compensação, o atual Código Florestal permite compensação em outra área, desde que esteja localizada na mesma microbacia, ou seja, garantiria o desenvolvimento de paisagens agrícolas mais diversificadas. A proposta que está em discussão no Senado permite a compensação em áreas do mesmo bioma, mesmo que estejam a milhares de quilômetros de distância. Com isso, se a nova legislação vier a ser aprovada e for cumprida, as áreas para compensação de Reserva Legal serão provavelmente adquiridas ou arrendadas pelos proprietários de regiões de agricultura intensiva nas regiões onde as terras são mais baratas e menos adequadas para a prática da agricultura intensiva. Com isso, os legisladores estarão abrindo mão de um importante instrumento legal que possibilitaria o desenvolvimento de paisagens agrícolas mais diversificadas, incluindo ecossistemas naturais ou restaurados, nas regiões de agricultura mais intensiva.
Além disso, o novo Código Florestal em discussão permitiria não só a manutenção das áreas consolidadas, mas a supressão de vegetação em APPs nas atividades agrossilvopastoris, assim definidas de forma genérica. Ou seja, quase tudo seria permitido.
IHU On-Line – O senhor concorda que, se aprovado, o novo Código Florestal pode gerar o êxodo rural?
Valério Pillar – A hipótese de que as alterações do Código Florestal gerariam mais êxodo rural advém possivelmente da possibilidade de compensação da Reserva Legal em áreas do mesmo bioma, com a compra de terras mais baratas e menos adequadas para a prática da agricultura intensiva, as quais são frequentemente ocupadas por pequenos proprietários. Se com isso esses pequenos proprietários venderem suas terras, haveria mais abandono do campo. Porém o êxodo rural tem sido causado pela combinação de vários fatores e não poderia ser atribuído a uma única causa.
IHU On-Line – Por que, em sua opinião, o novo Código Florestal deve ser submetido a um plebiscito?
Valério Pillar – Talvez seja a única maneira de abrir a discussão mais amplamente com a sociedade.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Valério Pillar – É importante destacar que, ao defender o atual Código “Florestal”, estamos defendendo não apenas a conservação das florestas, mas todas as demais formas de vegetação, incluindo os Campos Sulinos, que têm sido negligenciados, apesar da sua alta biodiversidade.
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FONTE : (Ecodebate, 02/09/2011) publicado pela IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação. [IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Nove ações humanas que ameaçam a terra
Falta de oxigênio na água doce, branqueamento de corais nos mares, inclusão de poluentes químicos na cadeia alimentar, esgotamento dos recursos hídricos, diminuição da capacidade dos oceanos de fixar carbono, deslizamentos de terra, queda ou aumento na produtividade de cultivos…
A reportagem é de Karina Ninni e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 31-08-2011.
Boa parte desses fenômenos tem sido atribuída ao ciclo do carbono e ao aquecimento global. Mas, há alguns anos, cientistas vêm defendendo que a estabilidade característica do período Holoceno (os últimos 10 mil anos), que permitiu o desenvolvimento da humanidade, depende de vários sistemas interconectados – além do ciclo do carbono – que o homem também modifica. São as “fronteiras planetárias”, segundo definição de Johan Rockström, do Stockholm Resilience Centre, na Suécia.
Fronteiras
Rockström e colegas de diversas especialidades estabeleceram nove “fronteiras” de atuação humana: perda de biodiversidade, lançamento de aerossol na atmosfera, poluição química, mudança climática, acidificação dos oceanos, redução da camada de ozônio, ciclos do nitrogênio e do fósforo, consumo global de água e mudança no uso do solo. Para seis delas, os cientistas sugerem limites de intervenção e concluem que, em três dessas fronteiras, nós já ultrapassamos os limites: perda de biodiversidade, ciclo do nitrogênio e mudança climática.
“As fronteiras definem os limites seguros para a ação humana e estão associadas aos processos e subsistemas biofísicos do planeta”, afirma o cientista. Seu artigo A safe operating space for humanity (“Um espaço operacional seguro para a humanidade”, em tradução livre), foi tema de um evento no mês passado na University College London, na Grã-Bretanha, às vésperas da 17.ª COP, em Durban, África do Sul.
“Estamos em um momento importante para o mapeamento das vulnerabilidades do planeta. Mas, em alguns casos, não sabemos nem mesmo quais são elas”, afirma o pesquisador Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
“Por mais que tentemos encarar esses limites de forma única, eles estão entrelaçados. Se aumenta a quantidade de carbono na atmosfera, provocando aquecimento, interfere-se na permanência das florestas e na manutenção dos recursos hídricos”, exemplifica Lúcio Bede, biólogo e membro da Conservação Internacional (CI).
Uma outra fronteira problemática é a do ciclo do nitrogênio, muito utilizado na formulação de fertilizantes agrícolas. “O que a planta não absorve vai ser oxidado ou reduzido até chegar ao N2 (nitrogênio em estado gasoso) que vai para a atmosfera. O problema é quando essas reações não se fecham em N2, mas em formas mais reativas, que são os óxidos nitrosos, gases com potencial de causar efeito estufa maior até que o do CO2″, explica Fabrício Butierres, engenheiro químico e professor da Universidade Federal do Rio Grande.
“O nitrogênio em forma de nitrito ou amoniacal vai para as águas e causa eutrofização (falta de oxigênio), provocando perda de biodiversidade”, diz.
Conhecimento empírico
A constatação dessas conexões entre as fronteiras levou Rockström e seus colegas a estipular limites para as operações humanas. Mas, em alguns casos, segundo especialistas, esses limites não se aplicam.
“Os limites usados são medidas únicas. Mas poluição química é outra coisa: existem inúmeros tipos de poluentes”, explica Márcia Caruso Bicego, professora do Instituto Oceanográfico da USP, especialista em oceanografia química. “Muitos efeitos dos poluentes nós conhecemos pelas catástrofes: todo mundo sabe o que o mercúrio provoca, por causa do acidente de Minamata, no Japão. Todo mundo sabe o que acontece se alguém ingerir uma cápsula de césio-137, porque uma menininha em Goiás fez isso”, explica ela.
PERDA DE HÁBITAT, POLUIÇÃO E EXÓTICAS
A extinção de espécies é natural e aconteceria mesmo sem a intervenção humana. Mas está ocorrendo de forma acelerada: a taxa de extinção está entre cem e mil vezes maior do que seria natural. Os vilões são a perda de hábitat, a poluição e as espécies exóticas. Hoje, estão ameaçados de extinção 25% dos mamíferos, 12% das aves, 25% dos répteis, 20% dos anfíbios, 30% dos peixes e 12,5% das plantas.
Limites propostos: O estudo propõe uma taxa de extinção de até 10 espécies por milhão ao ano. Atualmente, perdemos mais de cem.
CHUVA ÁCIDA, EFEITO ESTUFA E MORTANDADE
O excesso de nitrogênio tem desdobramentos como aumentar a quantidade de nutrientes nas águas doces (provocando morte dos organismos). Sua interação com o oxigênio forma os óxidos de nitrogênio, que aumentam o efeito estufa. Reagindo com o hidrogênio, induz a ocorrência de chuva ácida, que pode corroer estruturas de metal e concreto nas cidades e interferir nos cultivos agrícolas no campo.
Limites propostos: Sugere-se a retirada de 35 milhões de ton/ano de N2 da atmosfera para uso humano. Hoje são retiradas 121 milhões ton/ano.
FOGO E DESMATAMENTO GERAM VULNERABILIDADE
O Protocolo de Kyoto não considera emissões oriundas de queima de biomassa, somente aquelas derivadas de processos industriais. Mas, no Brasil, cerca de 75% das emissões são derivadas de queimadas e desmatamento. Esse tipo de emissão modifica o clima local e as características da vegetação “de contato”, aquela que restou nos arredores do que foi retirado. Ela fica mais suscetível a incêndios.
Limites propostos: Hoje as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera são de 387 partes por milhão (ppm). O estudo propõe 350 ppm.
MARES MAIS ÁCIDOS PREJUDICAM CORAIS
A acidificação dos oceanos é um processo que vem se acentuando conforme aumenta a concentração de carbono na atmosfera. Quando o CO2 se dissolve na água do mar, ele forma o ácido carbônico, tornando a água mais corrosiva. Quem mais sofre com a acidificação são os organismos como corais, moluscos e conchas.
Limites propostos: Os cientistas sugerem que o nível de saturação de aragonita (forma cristalina do carbonato de cálcio) na superfície do mar seja de 2,75. Hoje é de 2,9.
FALTA DE OZÔNIO PODE ESTAR EVITANDO DEGELO
A principal causa da destruição é o uso de produtos químicos presentes em aerossóis, geladeiras e extintores de incêndio. É a camada de ozônio que protege os seres vivos dos efeitos nocivos dos raios ultravioleta. Porém, segundo estudos recentes, a ausência de ozônio sobre a Antártica pode estar ajudando a retardar o derretimento do gelo, pois a coluna atmosférica sobre a região absorve menos radiação.
Limites propostos: A redução da camada de ozônio não deve ultrapassar as 276 unidades Dobson (menor unidade de medida usada nas pesquisas sobre ozônio). Hoje é de 283.
BIODIVERSIDADE GARANTE ÁGUA POTÁVEL
As matas ciliares são as grandes responsáveis pela qualidade da água potável do mundo. Estima-se em 1,35 milhão de km3 o volume total de água na Terra. Desse total, 2,5% é de água doce, mas que se encontra em geleiras ou aquíferos de difícil acesso. E 0,007% é de água doce encontrada em rios, lagos e na atmosfera, que representa o que podemos realmente usar.
Limites propostos: Calcula-se que a humanidade use hoje cerca de 2,6 mil km3 de água por ano. O estudo propõe um teto de 4 mil km3/ano.
PARTÍCULAS DE AEROSSOL AFETAM CHUVAS
A quantidade de aerossol na atmosfera (partículas suspensas oriundas das atividades humanas e dos processos naturais) afeta diretamente a ocorrência de chuvas. O excesso de aerossol diminui a incidência pluviométrica e faz as gotas de chuva ficarem menores, às vezes evaporando antes de chegar ao chão. Os processos naturais de geração do aerossol estão associados com a ação do vento no solo e nas rochas, no mar, e ainda com vulcões e queimadas.
Limites propostos: Não há limites mínimos ou máximos de aerossol na atmosfera.
FLORESTA VIRA LAVOURA E CASA OCUPA MORRO
Algumas das consequências do uso equivocado do solo são bem conhecidas: deslizamentos e tragédias. A ocupação de topos de morro e regiões costeiras suscetíveis à erosão facilitam a ocorrência de acidentes na época de chuva. A mais impactante faceta dessa “fronteira” é a transformação de florestas em pastagens e áreas agrícolas, com o uso de fertilizantes e pesticidas.
Limites propostos: O limite sugerido para transformação da superfície terrestre em áreas cultivadas é de 15%. Hoje, já transformamos 11,7%.
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FONTE : (Ecodebate, 01/09/2011) publicado pela IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação. [IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
A reportagem é de Karina Ninni e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 31-08-2011.
Boa parte desses fenômenos tem sido atribuída ao ciclo do carbono e ao aquecimento global. Mas, há alguns anos, cientistas vêm defendendo que a estabilidade característica do período Holoceno (os últimos 10 mil anos), que permitiu o desenvolvimento da humanidade, depende de vários sistemas interconectados – além do ciclo do carbono – que o homem também modifica. São as “fronteiras planetárias”, segundo definição de Johan Rockström, do Stockholm Resilience Centre, na Suécia.
Fronteiras
Rockström e colegas de diversas especialidades estabeleceram nove “fronteiras” de atuação humana: perda de biodiversidade, lançamento de aerossol na atmosfera, poluição química, mudança climática, acidificação dos oceanos, redução da camada de ozônio, ciclos do nitrogênio e do fósforo, consumo global de água e mudança no uso do solo. Para seis delas, os cientistas sugerem limites de intervenção e concluem que, em três dessas fronteiras, nós já ultrapassamos os limites: perda de biodiversidade, ciclo do nitrogênio e mudança climática.
“As fronteiras definem os limites seguros para a ação humana e estão associadas aos processos e subsistemas biofísicos do planeta”, afirma o cientista. Seu artigo A safe operating space for humanity (“Um espaço operacional seguro para a humanidade”, em tradução livre), foi tema de um evento no mês passado na University College London, na Grã-Bretanha, às vésperas da 17.ª COP, em Durban, África do Sul.
“Estamos em um momento importante para o mapeamento das vulnerabilidades do planeta. Mas, em alguns casos, não sabemos nem mesmo quais são elas”, afirma o pesquisador Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
“Por mais que tentemos encarar esses limites de forma única, eles estão entrelaçados. Se aumenta a quantidade de carbono na atmosfera, provocando aquecimento, interfere-se na permanência das florestas e na manutenção dos recursos hídricos”, exemplifica Lúcio Bede, biólogo e membro da Conservação Internacional (CI).
Uma outra fronteira problemática é a do ciclo do nitrogênio, muito utilizado na formulação de fertilizantes agrícolas. “O que a planta não absorve vai ser oxidado ou reduzido até chegar ao N2 (nitrogênio em estado gasoso) que vai para a atmosfera. O problema é quando essas reações não se fecham em N2, mas em formas mais reativas, que são os óxidos nitrosos, gases com potencial de causar efeito estufa maior até que o do CO2″, explica Fabrício Butierres, engenheiro químico e professor da Universidade Federal do Rio Grande.
“O nitrogênio em forma de nitrito ou amoniacal vai para as águas e causa eutrofização (falta de oxigênio), provocando perda de biodiversidade”, diz.
Conhecimento empírico
A constatação dessas conexões entre as fronteiras levou Rockström e seus colegas a estipular limites para as operações humanas. Mas, em alguns casos, segundo especialistas, esses limites não se aplicam.
“Os limites usados são medidas únicas. Mas poluição química é outra coisa: existem inúmeros tipos de poluentes”, explica Márcia Caruso Bicego, professora do Instituto Oceanográfico da USP, especialista em oceanografia química. “Muitos efeitos dos poluentes nós conhecemos pelas catástrofes: todo mundo sabe o que o mercúrio provoca, por causa do acidente de Minamata, no Japão. Todo mundo sabe o que acontece se alguém ingerir uma cápsula de césio-137, porque uma menininha em Goiás fez isso”, explica ela.
PERDA DE HÁBITAT, POLUIÇÃO E EXÓTICAS
A extinção de espécies é natural e aconteceria mesmo sem a intervenção humana. Mas está ocorrendo de forma acelerada: a taxa de extinção está entre cem e mil vezes maior do que seria natural. Os vilões são a perda de hábitat, a poluição e as espécies exóticas. Hoje, estão ameaçados de extinção 25% dos mamíferos, 12% das aves, 25% dos répteis, 20% dos anfíbios, 30% dos peixes e 12,5% das plantas.
Limites propostos: O estudo propõe uma taxa de extinção de até 10 espécies por milhão ao ano. Atualmente, perdemos mais de cem.
CHUVA ÁCIDA, EFEITO ESTUFA E MORTANDADE
O excesso de nitrogênio tem desdobramentos como aumentar a quantidade de nutrientes nas águas doces (provocando morte dos organismos). Sua interação com o oxigênio forma os óxidos de nitrogênio, que aumentam o efeito estufa. Reagindo com o hidrogênio, induz a ocorrência de chuva ácida, que pode corroer estruturas de metal e concreto nas cidades e interferir nos cultivos agrícolas no campo.
Limites propostos: Sugere-se a retirada de 35 milhões de ton/ano de N2 da atmosfera para uso humano. Hoje são retiradas 121 milhões ton/ano.
FOGO E DESMATAMENTO GERAM VULNERABILIDADE
O Protocolo de Kyoto não considera emissões oriundas de queima de biomassa, somente aquelas derivadas de processos industriais. Mas, no Brasil, cerca de 75% das emissões são derivadas de queimadas e desmatamento. Esse tipo de emissão modifica o clima local e as características da vegetação “de contato”, aquela que restou nos arredores do que foi retirado. Ela fica mais suscetível a incêndios.
Limites propostos: Hoje as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera são de 387 partes por milhão (ppm). O estudo propõe 350 ppm.
MARES MAIS ÁCIDOS PREJUDICAM CORAIS
A acidificação dos oceanos é um processo que vem se acentuando conforme aumenta a concentração de carbono na atmosfera. Quando o CO2 se dissolve na água do mar, ele forma o ácido carbônico, tornando a água mais corrosiva. Quem mais sofre com a acidificação são os organismos como corais, moluscos e conchas.
Limites propostos: Os cientistas sugerem que o nível de saturação de aragonita (forma cristalina do carbonato de cálcio) na superfície do mar seja de 2,75. Hoje é de 2,9.
FALTA DE OZÔNIO PODE ESTAR EVITANDO DEGELO
A principal causa da destruição é o uso de produtos químicos presentes em aerossóis, geladeiras e extintores de incêndio. É a camada de ozônio que protege os seres vivos dos efeitos nocivos dos raios ultravioleta. Porém, segundo estudos recentes, a ausência de ozônio sobre a Antártica pode estar ajudando a retardar o derretimento do gelo, pois a coluna atmosférica sobre a região absorve menos radiação.
Limites propostos: A redução da camada de ozônio não deve ultrapassar as 276 unidades Dobson (menor unidade de medida usada nas pesquisas sobre ozônio). Hoje é de 283.
BIODIVERSIDADE GARANTE ÁGUA POTÁVEL
As matas ciliares são as grandes responsáveis pela qualidade da água potável do mundo. Estima-se em 1,35 milhão de km3 o volume total de água na Terra. Desse total, 2,5% é de água doce, mas que se encontra em geleiras ou aquíferos de difícil acesso. E 0,007% é de água doce encontrada em rios, lagos e na atmosfera, que representa o que podemos realmente usar.
Limites propostos: Calcula-se que a humanidade use hoje cerca de 2,6 mil km3 de água por ano. O estudo propõe um teto de 4 mil km3/ano.
PARTÍCULAS DE AEROSSOL AFETAM CHUVAS
A quantidade de aerossol na atmosfera (partículas suspensas oriundas das atividades humanas e dos processos naturais) afeta diretamente a ocorrência de chuvas. O excesso de aerossol diminui a incidência pluviométrica e faz as gotas de chuva ficarem menores, às vezes evaporando antes de chegar ao chão. Os processos naturais de geração do aerossol estão associados com a ação do vento no solo e nas rochas, no mar, e ainda com vulcões e queimadas.
Limites propostos: Não há limites mínimos ou máximos de aerossol na atmosfera.
FLORESTA VIRA LAVOURA E CASA OCUPA MORRO
Algumas das consequências do uso equivocado do solo são bem conhecidas: deslizamentos e tragédias. A ocupação de topos de morro e regiões costeiras suscetíveis à erosão facilitam a ocorrência de acidentes na época de chuva. A mais impactante faceta dessa “fronteira” é a transformação de florestas em pastagens e áreas agrícolas, com o uso de fertilizantes e pesticidas.
Limites propostos: O limite sugerido para transformação da superfície terrestre em áreas cultivadas é de 15%. Hoje, já transformamos 11,7%.
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FONTE : (Ecodebate, 01/09/2011) publicado pela IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação. [IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
Medida Provisória 542/11 altera limites de parques nacionais na Amazônia
Segundo o governo, medida visa corrigir, “com urgência”, situação que configura impedimento legal ao funcionamento dos empreendimentos hidrelétricos de Santo Antônio, Jirau e Tabajara.
A Câmara analisa a Medida Provisória 542/11, que altera os limites do Parque Nacional dos Campos Amazônicos, do Parque Nacional da Amazônia e do Parque Nacional Mapinguari, localizados nas regiões Norte e Centro-Oeste.
Em relação ao Parque Nacional dos Campos Amazônicos, a MP amplia seu tamanho em 184,615 mil hectares, obtidos pela incorporação das seguintes áreas: Estrada do Estanho, margem esquerda do rio Guariba, conexão com o Mosaico Apuí, enclave de cerrado na região do Pito Aceso, campinarana no Ramal dos Baianos e área do Igarapé do Gavião.
Segundo os ministérios do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário, essa medida busca atender “às necessidades ecológicas para manutenção dos enclaves de cerrado, que devem ser integralmente protegidos pela unidade de conservação”.
Diminuição
A mesma MP, no entanto, exclui duas áreas do parque, que somam 34,149 mil hectares. A primeira delas, explica o ministério, atende a demanda social de regularização fundiária dos ocupantes do Ramal do Pito Aceso e, eventualmente, dos ocupantes da Estrada do Estanho.
A outra área, de menor proporção, relaciona-se à demanda de construção da hidrelétrica Tabajara, que atende às necessidades de produção de energia do País, “e cujo reservatório teve sua cota definida de modo a privilegiar a melhor relação possível entre viabilidade técnica e ambiental para o empreendimento”, segundo os ministérios.
Parque Nacional da Amazônia
A MP busca ainda solucionar a “imprecisão” na definição dos limites leste estabelecidos pelo decreto que criou o Parque Nacional da Amazônia (Decreto nº 73.683/74), que teria impedido o Poder Público de realizar de forma adequada sua demarcação e materialização em campo.
De acordo com o ministério, esse fato permitiu a consolidação de conflitos relativos à ocupação da região, onde migrantes advindos da Região Nordeste procuraram se fixar na terra, por consequência do declínio da atividade garimpeira no município de Itaituba (PA) nas últimas décadas. Atualmente, 12 comunidades estão fixadas, parcialmente, dentro dos limites da unidade, todas em seu lado leste.
O governo realizou um levantamento da situação fundiária e socioeconômica das famílias residentes nas comunidades do entorno e interior do parque que demonstrou a necessidade de readequação dos limites leste do Parque Nacional da Amazônia, capaz de compatibilizar as demandas sociais e ambientais da região.
“Tal proposta foi entendida como viável pelas comunidades e instituições envolvidas, como compatível com o histórico da ocupação regional e com a distribuição espacial dos ocupantes, considerados os seus perfis socioeconômico e agrário, bem como o grau de alteração e de conservação dos ambientes naturais”, justificou o ministério na apresentação da MP. Neste caso, a área total excluída é de 28,380 mil hectares, e a área que será incorporada, de 804 hectares.
Parque Nacional Mapinguari
Por fim, a medida provisória também redefine os limites do Parque Nacional Mapinguari, para, entre outros objetivos, corrigir uma situação que impede o funcionamento das obras de construção das usinas hidrelétricas de Jirau e de Santo Antônio, uma vez que retira a área que será inundada pelos lagos dos empreendimentos.
A MP autoriza a prática de atividades mineradoras dentro dos limites da zona de amortecimento do parque, desde que autorizadas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).
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FONTE : Matéria da Agência Câmara de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 01/09/2011
Reportagem – Rodrigo Bittar. Edição – Newton Araújo
A Câmara analisa a Medida Provisória 542/11, que altera os limites do Parque Nacional dos Campos Amazônicos, do Parque Nacional da Amazônia e do Parque Nacional Mapinguari, localizados nas regiões Norte e Centro-Oeste.
Em relação ao Parque Nacional dos Campos Amazônicos, a MP amplia seu tamanho em 184,615 mil hectares, obtidos pela incorporação das seguintes áreas: Estrada do Estanho, margem esquerda do rio Guariba, conexão com o Mosaico Apuí, enclave de cerrado na região do Pito Aceso, campinarana no Ramal dos Baianos e área do Igarapé do Gavião.
Segundo os ministérios do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário, essa medida busca atender “às necessidades ecológicas para manutenção dos enclaves de cerrado, que devem ser integralmente protegidos pela unidade de conservação”.
Diminuição
A mesma MP, no entanto, exclui duas áreas do parque, que somam 34,149 mil hectares. A primeira delas, explica o ministério, atende a demanda social de regularização fundiária dos ocupantes do Ramal do Pito Aceso e, eventualmente, dos ocupantes da Estrada do Estanho.
A outra área, de menor proporção, relaciona-se à demanda de construção da hidrelétrica Tabajara, que atende às necessidades de produção de energia do País, “e cujo reservatório teve sua cota definida de modo a privilegiar a melhor relação possível entre viabilidade técnica e ambiental para o empreendimento”, segundo os ministérios.
Parque Nacional da Amazônia
A MP busca ainda solucionar a “imprecisão” na definição dos limites leste estabelecidos pelo decreto que criou o Parque Nacional da Amazônia (Decreto nº 73.683/74), que teria impedido o Poder Público de realizar de forma adequada sua demarcação e materialização em campo.
De acordo com o ministério, esse fato permitiu a consolidação de conflitos relativos à ocupação da região, onde migrantes advindos da Região Nordeste procuraram se fixar na terra, por consequência do declínio da atividade garimpeira no município de Itaituba (PA) nas últimas décadas. Atualmente, 12 comunidades estão fixadas, parcialmente, dentro dos limites da unidade, todas em seu lado leste.
O governo realizou um levantamento da situação fundiária e socioeconômica das famílias residentes nas comunidades do entorno e interior do parque que demonstrou a necessidade de readequação dos limites leste do Parque Nacional da Amazônia, capaz de compatibilizar as demandas sociais e ambientais da região.
“Tal proposta foi entendida como viável pelas comunidades e instituições envolvidas, como compatível com o histórico da ocupação regional e com a distribuição espacial dos ocupantes, considerados os seus perfis socioeconômico e agrário, bem como o grau de alteração e de conservação dos ambientes naturais”, justificou o ministério na apresentação da MP. Neste caso, a área total excluída é de 28,380 mil hectares, e a área que será incorporada, de 804 hectares.
Parque Nacional Mapinguari
Por fim, a medida provisória também redefine os limites do Parque Nacional Mapinguari, para, entre outros objetivos, corrigir uma situação que impede o funcionamento das obras de construção das usinas hidrelétricas de Jirau e de Santo Antônio, uma vez que retira a área que será inundada pelos lagos dos empreendimentos.
A MP autoriza a prática de atividades mineradoras dentro dos limites da zona de amortecimento do parque, desde que autorizadas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).
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FONTE : Matéria da Agência Câmara de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 01/09/2011
Reportagem – Rodrigo Bittar. Edição – Newton Araújo
Queda da demanda por etanol deve chegar a 150 milhões de litros
A partir do dia 1º de outubro, o percentual de álcool anidro misturado à gasolina cairá de 25% para 20%. A decisão do governo é justificada como precaução por causa da incerteza sobre a próxima safra de cana-de-açúcar. Segundo previsão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita 2011/2012 deverá ser 5,6% menor que a atual.
O presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, informou que o setor já contratou a importação de mais de 500 milhões de litros de álcool anidro, que devem chegar ao país a partir do próximo mês.
Segundo ele, com a redução do percentual de etanol que é misturado à gasolina, é possível que parte dessa importação seja desnecessária. De acordo com a Unica, a redução da quantidade de álcool anidro na gasolina vai provocar a queda da demanda mensal pelo biocombustível no mercado doméstico em cerca de 150 milhões de litros.
Contudo, a entidade projeta que as importações já programadas para garantir o abastecimento vão garantir a oferta de etanol no mercado doméstico na safra atual, apesar da decisão do governo. A entidade cobra ações em curto prazo, como financiamento da lavoura de cana e dos estoques, que ajudariam na recuperação da produtividade agrícola e na ampliação da área cultivada.
Com a medida governamental, a tendência é de que haja redução nos preços da gasolina e do álcool hidratado, que é o etanol vendido diretamente na bomba, conforme estima (sem arriscar um percentual) o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom). “Se há uma demanda menor, é possível que haja uma pequena redução de preços, mas é importante esperar para ver qual será a reação do mercado”, observou à Agência Brasil o presidente do Sindicom, Alísio Vaz.
*****************************
FONTE : publicado originalmente no site EcoD.
O presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, informou que o setor já contratou a importação de mais de 500 milhões de litros de álcool anidro, que devem chegar ao país a partir do próximo mês.
Segundo ele, com a redução do percentual de etanol que é misturado à gasolina, é possível que parte dessa importação seja desnecessária. De acordo com a Unica, a redução da quantidade de álcool anidro na gasolina vai provocar a queda da demanda mensal pelo biocombustível no mercado doméstico em cerca de 150 milhões de litros.
Contudo, a entidade projeta que as importações já programadas para garantir o abastecimento vão garantir a oferta de etanol no mercado doméstico na safra atual, apesar da decisão do governo. A entidade cobra ações em curto prazo, como financiamento da lavoura de cana e dos estoques, que ajudariam na recuperação da produtividade agrícola e na ampliação da área cultivada.
Com a medida governamental, a tendência é de que haja redução nos preços da gasolina e do álcool hidratado, que é o etanol vendido diretamente na bomba, conforme estima (sem arriscar um percentual) o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom). “Se há uma demanda menor, é possível que haja uma pequena redução de preços, mas é importante esperar para ver qual será a reação do mercado”, observou à Agência Brasil o presidente do Sindicom, Alísio Vaz.
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FONTE : publicado originalmente no site EcoD.
Manejo pode ser mais eficaz do que proteção florestal para evitar desmatamento
Novo estudo do Centro Internacional de Pesquisa Florestal compara manejo comunitário a áreas de proteção florestal e indica que a primeira opção pode ser mais eficiente para prevenir degradação ambiental e manter a vegetação em pé.
Por muito tempo acreditou-se que a melhor maneira de conservar uma floresta era isolá-la do contato com o ser humano, e o manejo florestal era visto com desconfiança pelos que queriam preservar a natureza. Mas um novo estudo do Centro Internacional de Pesquisa Florestal (CIFOR) revela que a gestão florestal pode ser tão ou mais eficaz que as áreas de proteção para conservar a vegetação. Isso pode ser um novo incentivo para os projetos de REDD, que se baseiam na ideia de aliar a preservação ambiental à sobrevivência das comunidades.
A nova pesquisa do CIFOR, publicada no jornal Forest Ecology and Management, analisou 40 áreas de proteção e 33 comunidades florestais em 16 países – 11 na América Latina, três na África e dois na Ásia – e descobriu que as áreas protegidas perdiam cerca de 1,47% de cobertura florestal por ano, enquanto os bosques geridos pelas comunidades tinham uma perda de cerca de 0,24% ao ano.
“Nossas descobertas sugerem que uma floresta guardada por uma cerca e designada como ‘protegida’ não necessariamente terá sua extensão mantida em longo prazo, se comparada a florestas administradas por comunidades locais – na verdade, as primeiras perdem muito mais”, declarou Manuel Guariguata, cientista do CIFOR e um dos coautores do relatório.
Além disso, o relatório também aponta que o número de regiões onde havia um aumento da cobertura florestal era maior nas áreas de manejo florestal comunitário (CMF) do que nas regiões de proteção. Nas 33 áreas de CMF observadas, 20 delas, ou 60,6%, estavam sendo regeneradas, enquanto nas regiões protegidas, das 40 analisadas, 19, ou 47,5%, eram recuperadas.
O estudo diz que a preservação das florestas pelas comunidades ocorre também em parte porque nem sempre as causas do desmatamento, como o aumento da população e a expansão agrícola, criam, de fato, impactos no meio ambiente. “Os ejidos, em Quintana Roo, no México, exemplificam como a manutenção da cobertura florestal em uma CMF pode ocorrer mesmo com a presença de pressões do desmatamento”.
Segundo os autores, nesta comunidade “os fatores de desmatamento como o desenvolvimento da infra-estrutura, o crescimento populacional, a expansão agrícola e os programas de desenvolvimento não necessariamente resultam em taxas anuais de desmatamento maiores, principalmente porque as comunidades têm trabalhado regras para manejar as áreas florestais”.
Para Guariguata, esse resultado pode ser muito positivo para os projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal e Manejo Sustentável (REDD+), já que indica que a participação comunitária na construção e na implementação dos projetos é de grande importância, o que é um conceito básico deste programa da ONU.
“Depois de décadas de expansão das áreas protegidas, a necessidade de incorporar as preocupações com os direitos humanos e a justiça nos objetivos de manejo é agora inquestionável. Os esquemas de REDD+ podem ser uma oportunidade de reconhecer o papel que as comunidades locais têm na redução do desmatamento”, explicou o coautor.
Esta não é a primeira pesquisa que relaciona o CMF a melhores níveis de conservação florestal. Ainda em agosto, um estudo dos cientistas Andrew Nelson e Kenneth M. Chomitz publicado no PLoS ONE apontava que regiões administradas por comunidades, sobretudo indígenas, tinham conservado 16% da floresta em oito anos, um índice mas eficaz do que o das áreas protegidas. O relatório do CIFOR, porém, inova ao indicar que esse processo é uma tendência mais ampla.
Além disso, dados preliminares de outro relatório do CIPOR indicam que comunidades que vivem perto de florestas recebem mais de 20% de sua renda familiar de recursos florestais. Isso sugere que é muito mais provável que as comunidades estabeleçam um manejo sustentável nos bosques se elas dependem destes para sobreviver.
“Quando feito apropriadamente, os benefícios do manejo comunitário podem ser vistos em longo prazo, levando a uma maior participação na conservação, na redução da pobreza, no aumento da produtividade econômica e na proteção de muitas espécies florestais”, esclareceu Guariguata.
Ainda de acordo com o estudo, florestas sob o CMF somam cerca de 8% do total de bosques manejados no mundo, e 20% das florestas da América Latina. “Esse número poderia aumentar agora que descobrimos que o manejo florestal comunitário pode levar a melhores resultados ambientais e de sustento do que as reservas convencionais”, afirmou Guariguata.
“No entanto, há assuntos específicos envolvendo direitos de posse, regulamentações governamentais e forças de mercado locais e internacionais que influenciam a possibilidade de resultados positivos para pessoas e florestas. Precisamos aprender como esses fatores interagem a fim de desenvolver intervenções políticas apropriadas”, acrescentou ele.
Ainda assim, o coautor da pesquisa ressalta que as áreas de proteção também são muito importantes para a preservação das florestas, e que todos estes mecanismos devem ser combinados. “Não estamos argumentando que os parques em áreas florestais tropicais são inúteis. Ao contrário, estamos argumentando que florestas manejadas por comunidades são uma peça-chave do pacote de conservação florestal”, concluiu Guariguata.
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FONTE : publicado originalmente no site CarbonoBrasil.
Por muito tempo acreditou-se que a melhor maneira de conservar uma floresta era isolá-la do contato com o ser humano, e o manejo florestal era visto com desconfiança pelos que queriam preservar a natureza. Mas um novo estudo do Centro Internacional de Pesquisa Florestal (CIFOR) revela que a gestão florestal pode ser tão ou mais eficaz que as áreas de proteção para conservar a vegetação. Isso pode ser um novo incentivo para os projetos de REDD, que se baseiam na ideia de aliar a preservação ambiental à sobrevivência das comunidades.
A nova pesquisa do CIFOR, publicada no jornal Forest Ecology and Management, analisou 40 áreas de proteção e 33 comunidades florestais em 16 países – 11 na América Latina, três na África e dois na Ásia – e descobriu que as áreas protegidas perdiam cerca de 1,47% de cobertura florestal por ano, enquanto os bosques geridos pelas comunidades tinham uma perda de cerca de 0,24% ao ano.
“Nossas descobertas sugerem que uma floresta guardada por uma cerca e designada como ‘protegida’ não necessariamente terá sua extensão mantida em longo prazo, se comparada a florestas administradas por comunidades locais – na verdade, as primeiras perdem muito mais”, declarou Manuel Guariguata, cientista do CIFOR e um dos coautores do relatório.
Além disso, o relatório também aponta que o número de regiões onde havia um aumento da cobertura florestal era maior nas áreas de manejo florestal comunitário (CMF) do que nas regiões de proteção. Nas 33 áreas de CMF observadas, 20 delas, ou 60,6%, estavam sendo regeneradas, enquanto nas regiões protegidas, das 40 analisadas, 19, ou 47,5%, eram recuperadas.
O estudo diz que a preservação das florestas pelas comunidades ocorre também em parte porque nem sempre as causas do desmatamento, como o aumento da população e a expansão agrícola, criam, de fato, impactos no meio ambiente. “Os ejidos, em Quintana Roo, no México, exemplificam como a manutenção da cobertura florestal em uma CMF pode ocorrer mesmo com a presença de pressões do desmatamento”.
Segundo os autores, nesta comunidade “os fatores de desmatamento como o desenvolvimento da infra-estrutura, o crescimento populacional, a expansão agrícola e os programas de desenvolvimento não necessariamente resultam em taxas anuais de desmatamento maiores, principalmente porque as comunidades têm trabalhado regras para manejar as áreas florestais”.
Para Guariguata, esse resultado pode ser muito positivo para os projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal e Manejo Sustentável (REDD+), já que indica que a participação comunitária na construção e na implementação dos projetos é de grande importância, o que é um conceito básico deste programa da ONU.
“Depois de décadas de expansão das áreas protegidas, a necessidade de incorporar as preocupações com os direitos humanos e a justiça nos objetivos de manejo é agora inquestionável. Os esquemas de REDD+ podem ser uma oportunidade de reconhecer o papel que as comunidades locais têm na redução do desmatamento”, explicou o coautor.
Esta não é a primeira pesquisa que relaciona o CMF a melhores níveis de conservação florestal. Ainda em agosto, um estudo dos cientistas Andrew Nelson e Kenneth M. Chomitz publicado no PLoS ONE apontava que regiões administradas por comunidades, sobretudo indígenas, tinham conservado 16% da floresta em oito anos, um índice mas eficaz do que o das áreas protegidas. O relatório do CIFOR, porém, inova ao indicar que esse processo é uma tendência mais ampla.
Além disso, dados preliminares de outro relatório do CIPOR indicam que comunidades que vivem perto de florestas recebem mais de 20% de sua renda familiar de recursos florestais. Isso sugere que é muito mais provável que as comunidades estabeleçam um manejo sustentável nos bosques se elas dependem destes para sobreviver.
“Quando feito apropriadamente, os benefícios do manejo comunitário podem ser vistos em longo prazo, levando a uma maior participação na conservação, na redução da pobreza, no aumento da produtividade econômica e na proteção de muitas espécies florestais”, esclareceu Guariguata.
Ainda de acordo com o estudo, florestas sob o CMF somam cerca de 8% do total de bosques manejados no mundo, e 20% das florestas da América Latina. “Esse número poderia aumentar agora que descobrimos que o manejo florestal comunitário pode levar a melhores resultados ambientais e de sustento do que as reservas convencionais”, afirmou Guariguata.
“No entanto, há assuntos específicos envolvendo direitos de posse, regulamentações governamentais e forças de mercado locais e internacionais que influenciam a possibilidade de resultados positivos para pessoas e florestas. Precisamos aprender como esses fatores interagem a fim de desenvolver intervenções políticas apropriadas”, acrescentou ele.
Ainda assim, o coautor da pesquisa ressalta que as áreas de proteção também são muito importantes para a preservação das florestas, e que todos estes mecanismos devem ser combinados. “Não estamos argumentando que os parques em áreas florestais tropicais são inúteis. Ao contrário, estamos argumentando que florestas manejadas por comunidades são uma peça-chave do pacote de conservação florestal”, concluiu Guariguata.
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FONTE : publicado originalmente no site CarbonoBrasil.
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