Canoeiros, artistas, surfistas, turistas, moradores, comerciantes e políticos participaram ontem, 26, do Dia do Abraço no Rio da Madre, na praia da Guarda do Embaú, em Palhoça, na Grande Florianópolis. Uma iniciativa do Movimento SOS Rio da Madre, criado para sensibilizar e acionar o poder público para a resolução dos problemas ambientais e de infraestrutura do local, considerado por diversas vezes como um dos mais lindos e melhores para a prática do surf do mundo.
"As ações da semana nas esferas públicas surtiram efeitos positivos que irão nos auxiliar na continuidade do Movimento e o evento superou todas as expectativas, tanto nas atividades que foram programadas quanto na presença do público e de diversas autoridades", resume o presidente do movimento, Plínio Bordin.
Cerca de 600 pessoas participaram do ato simbólico, que foi transmitido ao vivo pelo site embausurf.com.br em parceira com a strembrasil.com, de um grande abraço no Rio da Madre e mais de mil pessoas participaram das atividades do evento que teve o propósito de conscientizar as pessoas e orgãos públicos para a necessidade de saneamento básico urgente no estuário do Rio da Madre. O Rio está impróprio para o banho e recebendo em suas águas esgotos à céu aberto, que desembocam diretamente no Oceano Atlântico.
A banda Sociedade Soul e diversos músicos da região comandaram os shows enquanto práticas de yoga, pilates, musicoterapia e apresentações de teatro aconteciam na beira do Rio. Futebol entre artistas, surfistas e comunidade sob o comando do irreverente Margarida, que também aderiu ao Movimento, corridas de canoa, passeios de caiaque, aulas de natação e surf com as crianças, confecção e lance de tarrafas com os pescadores e barqueiros também pautaram a intensa agenda de ações do dia.
Um painel indicador dos dias para o início das ações pelo poder público também foi inaugurado na beira do Rio da Madre e o início da análise do rio em vários pontos começou a partir de ontem por Djan Porrua Freitas, da QMC Saneamento. Na oportunidade cerca de 750 assinaturas foram registradas no abaixo-assinado que será usado como material de apoio para as ações seguintes.
Segundo o morador e comerciante do local, Vilson Pereira, o turismo decaiu muito como também o perfil do turista mudou, em consequência dos problemas de infraestrutura e das condições de balneabilidade do local. "Além de ser um cartão-postal, milhares de pessoas transitam pelo Rio da Madre para ter acesso à praia, e também é o meio de sobrivência para sustento dos pescadores", cita o morador.
Considerado o grande encanto da região, a sobrevivência da praia da Guarda do Embaú depende da recuperação do Rio da Madre. O Rio, que integra a Reserva Estadual da Serra do Tabuleiro, vem sofrendo sérias agressões ambientais, como a retirada da mata ciliar de suas margens, a contaminação por agrotóxicos consequentes do cultivo de arroz em Paulo Lopes - e o lançamento de esgotos, considerado um dos principais problemas atuais, que afeta negativamente a economia, o turismo e a qualidade de vida na região.
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FONTE : Por Larissa Linhares (Comunicação Assessoria de Imprensa e Comunicação)(Flora Neves - blog Eco Flora).
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quarta-feira, 2 de março de 2011
Potencial Hidrelétrico e Energia Nuclear no Brasil
Durante palestra sobre o futuro da energia nuclear no contexto do sistema elétrico brasileiro, no Clube de Engenharia, o pesquisador e consultor em energia Joaquim de Carvalho frisou que o país ainda tem grande potencial de geração hidrelétrica a explorar e, com novas formas de se segmentarem os aproveitamentos, os impactos ambientais podem ser bem assimilados pelos ecossistemas micro-regionais.
Mesmo assim, o custo da energia hidrelétrica será inferior ao da energia nuclear, que o país quer retomar. Se esse potencial for associado ao potencial eólico, para estruturar um sistema hidro-eólico, o Brasil poderá oferecer à sua população eletricidade, em termos per capita, em níveis comparáveis aos dos países considerados desenvolvidos, isto admitindo – como faz o IBGE – que a população se estabilizará em 215 milhões de habitantes, por volta de 2050.
"Acredito que construir novas usinas nucleares apenas para justificar o investimento já realizado em Angra poderia abalar seriamente o equilíbrio financeiro do setor elétrico brasileiro", disse, informando que a diferença entre o provável custo de geração de Angra III e o das novas hidrelétricas na Amazônia pode chegar a R$ 430 milhões por ano.
"Esses recursos poderiam ser aplicados no projeto do sistema nuclear de propulsão naval, que me parece estrategicamente mais importante para um país que tem mais de 8 mil km de costa atlântica", argumenta.
Como disse, mesmo no caso das hidrelétricas que o governo pretende construir na Amazônia e exigirão diversas precauções sócio-ambientais, além de investimento pesado em linhas de transmissão, o custo de geração hidráulica é significativamente inferior ao da geração nuclear: "O custo de geração de novas hidrelétricas na Amazônia poderá chegar a R$ 146,2 MW/h, enquanto em Angra III o custo real ficará em R$ 190 MW/h", contabiliza.
"O argumento de que as usinas nucleares nos permitirão dominar a tecnologia nuclear não é válido, pois o que se propõe é importar essa tecnologia, algo que não garante desenvolvimento algum", criticou.
"Os excelentes técnicos que operam as usinas de Angra são preparados para operar, não para projetar e construir usinas", salienta, em entrevista exclusiva ao Monitor Mercantil, reproduzida aqui pelo Correio da Cidadania. Por outro lado, ele reconhece que as radiações nucleares são indispensáveis à vida moderna "em praticamente todos os setores, daí a importância de criar e modernizar os nossos centros de pesquisa".
A entrevista completa pode ser lida abaixo:
Por que o senhor considera que há muito otimismo nas estimativas de custos de usinas nucleares?
Veja o caso de Angra III. O governo já destinou recursos no montante de R$10 bilhões para a conclusão da usina, sem incluir os juros durante a construção. A este valor deve ser somada a quantia de R$ 1,2 bilhão, correspondente ao que já foi investido na obra. Em meus cálculos, admiti que o BNDES financiará 70% do custo de Angra III, a juros de 7,5% ao ano (TJLP + 1%), e os 30% restantes pagariam taxas entre 8% e 12% ao ano. Admiti também que o custo do combustível será igual ao de Angra II.
Esse problema só ocorre no Brasil?
Não. As unidades que a Areva está construindo na Finlândia, por exemplo, já estão custando o dobro do estimado antes do começo da obra. Já nos Estados Unidos, as usinas implantadas entre 1966 e 1986 tiveram, em média, custos 200% acima do previsto.
Aqui no Brasil, o descomissionamento da usina implicará futuros investimentos da ordem de R$ 800 por kW elétrico instalado, o que, somado ao que será gasto na administração dos rejeitos de baixa e média atividade e na deposição final dos rejeitos de alta atividade, poderá incidir em torno de R$ 3/MWh na tarifa de geração, ao longo da vida útil da usina.
As hidrelétricas planejadas situam-se em regiões afastadas dos pólos de consumo. Isso não encarece a geração?
Não se pode esperar que a energia gerada na Amazônia tenha custos comparáveis aos das antigas, pois, entre outras coisas, deve-se acrescentar o custo da transmissão.
A não ser nos casos em que as novas usinas possam ser conectadas diretamente à rede básica, a incidência do custo de transmissão vai aumentando, na medida em que as novas usinas localizam-se em regiões mais afastadas dos pólos de consumo. Essa transmissão a longas distâncias pode chegar a R$ R$ 30 MW/h.
E no caso das usinas nucleares?
Neste caso, deve-se incluir o custo do combustível e também as despesas de descomissionamento da usina, ao cabo de sua vida útil, os quais podem chegar a R$ 800 por quilowatt elétrico da usina em questão. O montante deve ser trazido ao valor presente e incluído nos custos de geração, a fim de que, na época própria, haja recursos para o descomissionamento. Devem, ainda, ser acrescentados os custos de administração dos rejeitos de baixa e média atividade, e os da deposição final dos de alta atividade.
Tanto para as hidrelétricas como para as nucleares e as térmicas convencionais, os prêmios pagos às companhias de seguros são, em média, da ordem de 1% ao ano, sobre o capital investido.
Quais os impactos ambientais da geração hidrelétrica, em comparação com a nuclear?
As usinas hidrelétricas provocam inundações potencialmente desastrosas. Em contrapartida, oferecem a vantagem de pouco emitirem gases de efeito estufa. E as inundações podem ser muito reduzidas se, em vez de grandes projetos, optar-se por seccionar as bacias hidrográficas em projetos de menor porte, convenientemente escalonados.
As usinas nucleares praticamente não agridem o meio ambiente quando estão em operação rotineira, porém implicam o risco – muito pequeno, mas existente – de acidentes que podem liberar na biosfera produtos de fissão de alta atividade, com graves conseqüências, que se podem fazer sentir sobre extensas regiões, por centenas de anos.
Além disso, fica para as futuras gerações o problema dos rejeitos de alta atividade, cuja deposição final implicará importantes investimentos. E ainda existe a questão da segurança.
Qual é o problema da segurança?
A segurança das usinas geradoras e demais instalações nucleares (tratamento e enriquecimento de urânio, fabricação de elementos combustíveis, reprocessamento de combustíveis irradiados, depósitos de rejeitos etc.) implicará importantes e custosos aparelhos policiais. Assim, países que optem pelas usinas nucleares em seus sistemas elétricos poderão ser forçados a adotar métodos próprios de Estados policiais.
O movimento ambientalista aparentemente critica mais as hidrelétricas do que as termelétricas. Elas são menos agressivas ao meio ambiente?
Acredito que a oposição dos ambientalistas diminuirá de intensidade na medida em que compreenderem que, com bom planejamento, os inevitáveis impactos ambientais das futuras hidrelétricas são perfeitamente assimiláveis pelos ecossistemas amazônicos. As hidrelétricas, por sinal, se tornarão os melhores aliados das florestas, pois, se houver desmatamento, os assoreamentos, as cheias e as estiagens daí resultantes inviabilizarão o próprio aproveitamento hidroelétrico.
Qual o real impacto da construção de hidrelétricas na Amazônia?
Os novos aproveitamentos hidrelétricos na Amazônia devem ser projetados e implantados com base em rigorosos critérios de preservação do modo de vida, costumes e bem-estar das populações nativas.
Devem, igualmente, ser observados princípios fundamentais da sustentabilidade ambiental. Um aspecto inovador desses projetos será o emprego de turbinas do tipo bulbo na maioria deles. Graças a isso, os aproveitamentos serão de baixa queda, com reservatórios que inundarão áreas consideradas pequenas para hidrelétricas do porte delas, em média, cerca de 3 mil MW.
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FONTE : Rogério Lessa é jornalista do Monitor Mercantil, onde esta entrevista foi originalmente publicada.(Envolverde/Correio da Cidadania).
Mesmo assim, o custo da energia hidrelétrica será inferior ao da energia nuclear, que o país quer retomar. Se esse potencial for associado ao potencial eólico, para estruturar um sistema hidro-eólico, o Brasil poderá oferecer à sua população eletricidade, em termos per capita, em níveis comparáveis aos dos países considerados desenvolvidos, isto admitindo – como faz o IBGE – que a população se estabilizará em 215 milhões de habitantes, por volta de 2050.
"Acredito que construir novas usinas nucleares apenas para justificar o investimento já realizado em Angra poderia abalar seriamente o equilíbrio financeiro do setor elétrico brasileiro", disse, informando que a diferença entre o provável custo de geração de Angra III e o das novas hidrelétricas na Amazônia pode chegar a R$ 430 milhões por ano.
"Esses recursos poderiam ser aplicados no projeto do sistema nuclear de propulsão naval, que me parece estrategicamente mais importante para um país que tem mais de 8 mil km de costa atlântica", argumenta.
Como disse, mesmo no caso das hidrelétricas que o governo pretende construir na Amazônia e exigirão diversas precauções sócio-ambientais, além de investimento pesado em linhas de transmissão, o custo de geração hidráulica é significativamente inferior ao da geração nuclear: "O custo de geração de novas hidrelétricas na Amazônia poderá chegar a R$ 146,2 MW/h, enquanto em Angra III o custo real ficará em R$ 190 MW/h", contabiliza.
"O argumento de que as usinas nucleares nos permitirão dominar a tecnologia nuclear não é válido, pois o que se propõe é importar essa tecnologia, algo que não garante desenvolvimento algum", criticou.
"Os excelentes técnicos que operam as usinas de Angra são preparados para operar, não para projetar e construir usinas", salienta, em entrevista exclusiva ao Monitor Mercantil, reproduzida aqui pelo Correio da Cidadania. Por outro lado, ele reconhece que as radiações nucleares são indispensáveis à vida moderna "em praticamente todos os setores, daí a importância de criar e modernizar os nossos centros de pesquisa".
A entrevista completa pode ser lida abaixo:
Por que o senhor considera que há muito otimismo nas estimativas de custos de usinas nucleares?
Veja o caso de Angra III. O governo já destinou recursos no montante de R$10 bilhões para a conclusão da usina, sem incluir os juros durante a construção. A este valor deve ser somada a quantia de R$ 1,2 bilhão, correspondente ao que já foi investido na obra. Em meus cálculos, admiti que o BNDES financiará 70% do custo de Angra III, a juros de 7,5% ao ano (TJLP + 1%), e os 30% restantes pagariam taxas entre 8% e 12% ao ano. Admiti também que o custo do combustível será igual ao de Angra II.
Esse problema só ocorre no Brasil?
Não. As unidades que a Areva está construindo na Finlândia, por exemplo, já estão custando o dobro do estimado antes do começo da obra. Já nos Estados Unidos, as usinas implantadas entre 1966 e 1986 tiveram, em média, custos 200% acima do previsto.
Aqui no Brasil, o descomissionamento da usina implicará futuros investimentos da ordem de R$ 800 por kW elétrico instalado, o que, somado ao que será gasto na administração dos rejeitos de baixa e média atividade e na deposição final dos rejeitos de alta atividade, poderá incidir em torno de R$ 3/MWh na tarifa de geração, ao longo da vida útil da usina.
As hidrelétricas planejadas situam-se em regiões afastadas dos pólos de consumo. Isso não encarece a geração?
Não se pode esperar que a energia gerada na Amazônia tenha custos comparáveis aos das antigas, pois, entre outras coisas, deve-se acrescentar o custo da transmissão.
A não ser nos casos em que as novas usinas possam ser conectadas diretamente à rede básica, a incidência do custo de transmissão vai aumentando, na medida em que as novas usinas localizam-se em regiões mais afastadas dos pólos de consumo. Essa transmissão a longas distâncias pode chegar a R$ R$ 30 MW/h.
E no caso das usinas nucleares?
Neste caso, deve-se incluir o custo do combustível e também as despesas de descomissionamento da usina, ao cabo de sua vida útil, os quais podem chegar a R$ 800 por quilowatt elétrico da usina em questão. O montante deve ser trazido ao valor presente e incluído nos custos de geração, a fim de que, na época própria, haja recursos para o descomissionamento. Devem, ainda, ser acrescentados os custos de administração dos rejeitos de baixa e média atividade, e os da deposição final dos de alta atividade.
Tanto para as hidrelétricas como para as nucleares e as térmicas convencionais, os prêmios pagos às companhias de seguros são, em média, da ordem de 1% ao ano, sobre o capital investido.
Quais os impactos ambientais da geração hidrelétrica, em comparação com a nuclear?
As usinas hidrelétricas provocam inundações potencialmente desastrosas. Em contrapartida, oferecem a vantagem de pouco emitirem gases de efeito estufa. E as inundações podem ser muito reduzidas se, em vez de grandes projetos, optar-se por seccionar as bacias hidrográficas em projetos de menor porte, convenientemente escalonados.
As usinas nucleares praticamente não agridem o meio ambiente quando estão em operação rotineira, porém implicam o risco – muito pequeno, mas existente – de acidentes que podem liberar na biosfera produtos de fissão de alta atividade, com graves conseqüências, que se podem fazer sentir sobre extensas regiões, por centenas de anos.
Além disso, fica para as futuras gerações o problema dos rejeitos de alta atividade, cuja deposição final implicará importantes investimentos. E ainda existe a questão da segurança.
Qual é o problema da segurança?
A segurança das usinas geradoras e demais instalações nucleares (tratamento e enriquecimento de urânio, fabricação de elementos combustíveis, reprocessamento de combustíveis irradiados, depósitos de rejeitos etc.) implicará importantes e custosos aparelhos policiais. Assim, países que optem pelas usinas nucleares em seus sistemas elétricos poderão ser forçados a adotar métodos próprios de Estados policiais.
O movimento ambientalista aparentemente critica mais as hidrelétricas do que as termelétricas. Elas são menos agressivas ao meio ambiente?
Acredito que a oposição dos ambientalistas diminuirá de intensidade na medida em que compreenderem que, com bom planejamento, os inevitáveis impactos ambientais das futuras hidrelétricas são perfeitamente assimiláveis pelos ecossistemas amazônicos. As hidrelétricas, por sinal, se tornarão os melhores aliados das florestas, pois, se houver desmatamento, os assoreamentos, as cheias e as estiagens daí resultantes inviabilizarão o próprio aproveitamento hidroelétrico.
Qual o real impacto da construção de hidrelétricas na Amazônia?
Os novos aproveitamentos hidrelétricos na Amazônia devem ser projetados e implantados com base em rigorosos critérios de preservação do modo de vida, costumes e bem-estar das populações nativas.
Devem, igualmente, ser observados princípios fundamentais da sustentabilidade ambiental. Um aspecto inovador desses projetos será o emprego de turbinas do tipo bulbo na maioria deles. Graças a isso, os aproveitamentos serão de baixa queda, com reservatórios que inundarão áreas consideradas pequenas para hidrelétricas do porte delas, em média, cerca de 3 mil MW.
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FONTE : Rogério Lessa é jornalista do Monitor Mercantil, onde esta entrevista foi originalmente publicada.(Envolverde/Correio da Cidadania).
A "bomba relógio tóxica" dos fertilizantes e plásticos no ambiente marinho
Enormes quantidades de fertilizantes fosfatados - um fertilizante valioso e necessário para alimentar a crescente população mundial - estão atingindo os oceanos como resultados da ineficiência na agricultura e da falha na reciclagem de águas residuais.
A poluição por fosfato, juntamente com outras descargas descontroladas como as de nitrogênio e esgoto, está relacionada ao aumento no crescimento de algas, que por sua vez prejudicam a qualidade da água, aumentam a quantidade de peixes envenenados e comprometem o turismo costeiro.
Somente nos Estados Unidos, os custos estão estimados em mais de US$2 bilhões por ano, o que indica que no mundo todo anualmente o prejuízo pode chegar a dezenas de bilhões de dólares.
Ao mesmo tempo há uma preocupação crescente quanto ao impacto que bilhões de fragmentos de plásticos, tanto grandes quanto pequenos, causam à saúde do ambiente marinho global.
Novas pesquisas sugerem que os plásticos em pequenos fragmentos espalhados nos oceanos - juntamente com os pellets (http://www.globalgarbage.org/blog/index.php/2010/08/16/plastic-pellets-nas-praias-de-santos/) descartados pela indústria - podem absorver uma variada gama de elementos químicos tóxicos ligados ao câncer e impactar os processos reprodutivos dos seres humanos e da vida selvagem.
Especialistas afirmam que tanto as descargas de fosfato quanto as novas preocupações referentes aos plásticos salientam a necessidade de um melhor gerenciamento do lixo mundial e também da melhoria nos padrões de consumo e produção.
Os dois assuntos são colocados como questões-chave - considerados como persistentes ou emergente - no Year Book 2011 (http://www.unep.org/yearbook/2011/)do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (em inglês, UNEP) que está sendo lançado hoje antecedendo a reunião anual de ministros mundiais de meio ambiente, com abertura em 21 de fevereiro.
Achim Steiner, Sub-Secretário-Geral e Diretor Executivo do UNEP, disse: “A ciência é fundamental para ajudar os governos a priorizarem ações sobre os desafios persistentes e emergentes - de fato, as questões emergentes serão o tema central nos próximos 15 meses, à medida que os ministros se preparam para a decisiva Conferência Rio+20, a ser realizada no Brasil no próximo ano”.
“O fosfato e as histórias de plásticos no ambiente marinho evidenciam a necessidade urgente de se preencher lacunas científicas, mas também de se catalisar uma transição global para uma Economia Verde a fim de se concretizar o desenvolvimento sustentável e o combate à pobreza”, acrescentou.
A partir daqui - no Conselho Governamental do UNEP/Fórum Ministerial Global para o Meio Ambiente - começaremos consultas globais e regionais sobre uma pequena lista dos principais desafios científicos que precisam ser tratados a fim de auxiliar nessa transição e apoiar os governos na Rio +20″, disse Steiner.
“O foco estará também sobre as soluções e oportunidades. Seja fosfato, plástico ou qualquer outro dos tantos desafios enfrentados pelo mundo moderno, há, claramente, inúmeras oportunidades para a geração de novos tipos de empregos e também de indústrias mais eficientes”, acrescentou.
“Algo que traga uma gestão mais inteligente, um imperativo para a reciclagem transformadora de resíduos e seus impactos ambientais e de saúde, a partir de um problema sério em um valioso recurso, e que mantenha a área ocupada da humanidade dentro de limites planetários”, complementou.
Fosfato - o Desperdício de um Recurso Precioso à Agricultura
O UNEP Year Book 2011 destacou o fosfato, cuja demanda disparou durante o século 20, em parte por causa do debate acalorado sobre a possibilidade das reservas finitas de rocha fosfática acabarem em breve.
Estima-se que 35 países produzam fosfato de rocha e entre os dez países com as maiores reservas estão a Algéria, China, Israel, Jordânia, Rússia, África do Sul, Síria e Estados Unidos.
Novas minas de fosfato têm sido comissionadas em países como Austrália, Peru e Arábia Saudita e há países e também empresas buscando por novos horizontes mesmo que distantes, inclusive no fundo do mar na costa da Namíbia.
Alguns pesquisadores sugerem que o consumo de fosfato no mundo é, a médio e longo prazo, insustentável e que o pico de produção, com um posterior declínio, poderá ocorrer no século 21.
Outros discordam. O Centro Internacional de Desenvolvimento de Fertilizantes recentemente revisou para mais além as estimativas de reservas de cerca de 16 bilhões de toneladas para 60 bilhões de toneladas - considerando taxas de produção atuais, estas reservas poderiam durar por mais 300 a 400 anos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos também ajustou recentemente as suas estimativas para 65 bilhões de toneladas. No entanto, os defensores da teoria do pico do fosfato argumentam que mesmo que o cronograma possa variar, a questão fundamental quanto ao fornecimento de fosfato, barato e facilmente acessível é, em última análise, limitada, e isso não vai mudar.
O Year Book conclama para uma avaliação global do fosfato e para o mapeamento mais preciso dos fluxos deste material no meio ambiente e quanto ao prognóstico dos níveis de reservas economicamente viáveis.
De acordo com o Year Book, a utilização global de fertilizantes que contêm fosfato, nitrogênio e potássio aumentou 600% entre os anos de 1950 e 2000.
Ele acrescenta que o crescimento populacional nos países em desenvolvimento e o aumento dos níveis de laticínios e da carne na dieta global são susceptíveis de aumentar ainda mais o uso de fertilizantes.
“Embora existam quantidades comercialmente exploráveis de rocha fosfática em diversos países, aqueles que não têm reservas nacionais poderão estar particularmente vulneráveis no caso de insuficiências globais”, observa o Year Book .
Mais pesquisas são necessárias para que se possa conhecer a forma como o fosfato se desloca pelo meio ambiente, a fim de maximizar a sua utilização na produção agrícola e pecuária e também reduzir o desperdício e impactos ambientais, inclusive em rios e oceanos.
• Atualmente, os seres humanos consomem - através da comida - apenas cerca de 1/5 do fosfato extraído, ficando o restante retido no solo ou sendo lançado no meio ambiente aquático.
• Nos últimos 50 anos, concentrações de fosfato em águas doces e em terra têm crescido na ordem de pelo menos 75%.
• O fluxo estimado de fosfato para o ambiente marinho a partir da terra já está na ordem de 22 milhões de toneladas por ano.
O Year Book aponta para a enorme oportunidade da reciclagem de águas residuais: nas mega- cidades dos países em desenvolvimento, até 70% desta água - carregada de nutrientes e fertilizantes, como o fosfato - é despejada sem tratamento em rios e zonas costeiras.
• Na Suécia, por exemplo, objetiva-se reciclar 60% do fosfato contido nas águas residuais dos municípios até o ano de 2015.
Outras medidas para reduzir as liberações incluem a redução da erosão e da perda da camada superior da terra onde grandes quantidades de fosfato estão associadas com as partículas do solo e com fertilizantes em excesso que são armazenados após a aplicação.
• Na África, as perdas de solo estão próximas de 0,50 toneladas por hectare por ano e na Ásia esta relação é ainda maior, chegando a quase 1,70 toneladas por hectare por ano.
As medidas de gestão da terra incluem a aração em contornos; o plantio em curva de nível de cercas-vivas em encostas íngremes, a aplicação de mulch e a plantação de culturas de cobertura e outra vegetações no solo.
Aumentar as taxas de reciclagem em minas de fosfato também poderia ajudar na conservação dos recursos e reduzir as descargas de sistemas de água local.
Plásticos no Ambiente Marinho - Uma Nova Bomba Relógio Tóxica?
A segunda questão emergente destacada no Year Book 2011 é quanto à necessidade da intensificação das pesquisas sobre o impacto dos plásticos que estão chegando aos oceanos.
Os cientistas estão se preocupando não somente com o dano direto à vida selvagem, mas quanto à toxicidade potencial de alguns tipos de materiais chamados de micro plásticos.
Estes micro-plásticos são pequenos pedaços com dimensão inferior a cinco milímetros que são descartados como pellets pelas indústrias, ou que se formam como resultado de pedaços maiores de plástico que se partem, por exemplo, devido à ação das ondas ou pela luz do sol.
A quantidade exata de plásticos, incluindo os micro-plásticos, que estão entrando ou se formando nos oceanos a partir das descargas terrígenas - mas também de embarcações e barcos de pesca- é desconhecida.
O que se sabe é que o consumo per capita de plástico, da embalagem até as sacolas plásticas e da indústria até os bens de consumo, têm aumentado acentuadamente.
• Na América do Norte e na Europa Ocidental, cada pessoa já utiliza cerca de 100 kg de materiais plásticos por ano - e é provável que esse número aumente para 140 kg até 2015.
• Cada pessoa que vive em países asiáticos em rápido desenvolvimento, utiliza cerca de 20 quilos de plástico por ano - este número deverá crescer para cerca de 36 quilos até 2015.
Atualmente, as taxas de reciclagem e de re-utilização variam enormemente mesmo entre países desenvolvidos.
Na Europa, as taxas de reciclagem de plásticos para a geração de energia variaram de 25% ou menos em diversos países europeus para mais de 80% na Noruega e na Suíça.
Preocupações anteriores relacionadas ao plástico incluem danos e morte na vida selvagem por emaranhamento.
Existe também uma preocupação quanto à vida selvagem se alimentar frequentemente de plásticos, pensando se tratar de alimento. Os albatrozes, por exemplo, podem confundir plástico vermelho com lulas, da mesma forma tartarugas podem achar que sacolas plásticas são águas vivas. Aves marinhas jovens de algumas espécies podem sofrer de má nutrição se elas se alimentarem de muito plástico, pensando estar ingerindo alimento.
Mas, o Year Book levanta uma bandeira sobre uma nova preocupação designada de “substância persistentes, bio-acumuláveis e tóxicas” associadas ao lixo marinho plástico.
A pesquisa indica que pedaços pequenos ou minúsculos de plástico estão absorvendo e concentrando, a partir da água do mar e de sedimentos, uma ampla gama de produtos químicos que vão dos bifenilos policlorados (PCBs) até pesticidas DDT.
“Muitos desses poluentes, incluindo os PCBs, causam efeitos crônicos como a desregulação endócrina, mutagenicidade e carcinogenicidade”, relata o Year Book.
“Alguns cientistas estão preocupados sobre a possibilidade de que esses agentes contaminantes persistentes possam eventualmente acabar na cadeia alimentar, embora haja uma grande incerteza quanto ao grau de ameaça que isso representa à saúde humana e à saúde do ecossistema” acrescenta.
Espécies como o espadarte e as focas - que estão no topo da cadeia alimentar - são citadas como potencialmente vulneráveis. Estas espécies são também consumidas pelos seres humanos.
Foi realizada recentemente uma pesquisa em 56 praias, em cerca de 30 países, sobre as concentrações de PCB em pellets levados pela água até a costa.
• As concentrações mais elevadas foram encontradas em pellets plásticos nos Estados Unidos, na Europa Ocidental e no Japão - as mais baixas foram localizadas na Ásia tropical e na África do Sul.
O Year Book registra uma série de iniciativas novas e já existentes, linhas de orientação e leis que visam à redução das descargas de plásticos e outros tipos de lixos.
Elas vão desde a Convenção Internacional para Prevenção da Poluição por Navios das Nações Unidas até o Programa Global de Ação para a Proteção do Ambiente Marinho das Atividades Baseadas em Terra do UNEP.
O Year Book apela para uma melhor aplicação de tais regras, para a conscientização do consumidor, para mudanças comportamentais e também para um melhor suporte às iniciativas nacionais e comunitárias.
Há ainda uma necessidade urgente de um melhor e mais inovador sistema de monitoramente de plásticos em todo o ambiente marinho, dado que ainda há lacunas reais quanto ao destino
final destes materiais.
Há evidências de que alguns plásticos não estão flutuando, mas sim afundando e se acumulando no fundo do mar.
“Lixo plástico tem sido observado no fundo do oceano a profundidades que vão do Estreito de Fram, no Atlântico Norte, até os cânions de águas profundas ao largo da costa do Mediterrâneo - acredita-se que a maior parte do plástico existente no Mar do Norte resida no fundo do mar”, diz o Year Book.
Ele também apela para a introdução progressiva de mudanças na coleta, reciclagem e reutilização de plásticos. “Se o plástico fosse tratado como um recurso valioso, ao invés de apenas um resíduo, todas as oportunidades para criar um valor secundário para o material ofereceriam incentivos econômicos para a coleta e reprocessamento”, ressalta o Year Book.
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No fundo do mar, o lixo do carnaval de Salvador - http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/no-fundo-do-mar-o-lixo-do-carnaval-de-salvador/
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FONTE : Redação Global Garbage/Mercado Ético - Tradução Global Garbage/Miriam Santini - Revisão técnica Projeto Lixo Marinho/Gerson Fernandino. (A reprodução da série especial sobre o lixo marinho é resultado da parceria entre o Mercado Ético, a Global Garbage e a Associação Praia Local Lixo Global/Projeto Lixo Marinho).(Envolverde/Mercado Ético).
A poluição por fosfato, juntamente com outras descargas descontroladas como as de nitrogênio e esgoto, está relacionada ao aumento no crescimento de algas, que por sua vez prejudicam a qualidade da água, aumentam a quantidade de peixes envenenados e comprometem o turismo costeiro.
Somente nos Estados Unidos, os custos estão estimados em mais de US$2 bilhões por ano, o que indica que no mundo todo anualmente o prejuízo pode chegar a dezenas de bilhões de dólares.
Ao mesmo tempo há uma preocupação crescente quanto ao impacto que bilhões de fragmentos de plásticos, tanto grandes quanto pequenos, causam à saúde do ambiente marinho global.
Novas pesquisas sugerem que os plásticos em pequenos fragmentos espalhados nos oceanos - juntamente com os pellets (http://www.globalgarbage.org/blog/index.php/2010/08/16/plastic-pellets-nas-praias-de-santos/) descartados pela indústria - podem absorver uma variada gama de elementos químicos tóxicos ligados ao câncer e impactar os processos reprodutivos dos seres humanos e da vida selvagem.
Especialistas afirmam que tanto as descargas de fosfato quanto as novas preocupações referentes aos plásticos salientam a necessidade de um melhor gerenciamento do lixo mundial e também da melhoria nos padrões de consumo e produção.
Os dois assuntos são colocados como questões-chave - considerados como persistentes ou emergente - no Year Book 2011 (http://www.unep.org/yearbook/2011/)do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (em inglês, UNEP) que está sendo lançado hoje antecedendo a reunião anual de ministros mundiais de meio ambiente, com abertura em 21 de fevereiro.
Achim Steiner, Sub-Secretário-Geral e Diretor Executivo do UNEP, disse: “A ciência é fundamental para ajudar os governos a priorizarem ações sobre os desafios persistentes e emergentes - de fato, as questões emergentes serão o tema central nos próximos 15 meses, à medida que os ministros se preparam para a decisiva Conferência Rio+20, a ser realizada no Brasil no próximo ano”.
“O fosfato e as histórias de plásticos no ambiente marinho evidenciam a necessidade urgente de se preencher lacunas científicas, mas também de se catalisar uma transição global para uma Economia Verde a fim de se concretizar o desenvolvimento sustentável e o combate à pobreza”, acrescentou.
A partir daqui - no Conselho Governamental do UNEP/Fórum Ministerial Global para o Meio Ambiente - começaremos consultas globais e regionais sobre uma pequena lista dos principais desafios científicos que precisam ser tratados a fim de auxiliar nessa transição e apoiar os governos na Rio +20″, disse Steiner.
“O foco estará também sobre as soluções e oportunidades. Seja fosfato, plástico ou qualquer outro dos tantos desafios enfrentados pelo mundo moderno, há, claramente, inúmeras oportunidades para a geração de novos tipos de empregos e também de indústrias mais eficientes”, acrescentou.
“Algo que traga uma gestão mais inteligente, um imperativo para a reciclagem transformadora de resíduos e seus impactos ambientais e de saúde, a partir de um problema sério em um valioso recurso, e que mantenha a área ocupada da humanidade dentro de limites planetários”, complementou.
Fosfato - o Desperdício de um Recurso Precioso à Agricultura
O UNEP Year Book 2011 destacou o fosfato, cuja demanda disparou durante o século 20, em parte por causa do debate acalorado sobre a possibilidade das reservas finitas de rocha fosfática acabarem em breve.
Estima-se que 35 países produzam fosfato de rocha e entre os dez países com as maiores reservas estão a Algéria, China, Israel, Jordânia, Rússia, África do Sul, Síria e Estados Unidos.
Novas minas de fosfato têm sido comissionadas em países como Austrália, Peru e Arábia Saudita e há países e também empresas buscando por novos horizontes mesmo que distantes, inclusive no fundo do mar na costa da Namíbia.
Alguns pesquisadores sugerem que o consumo de fosfato no mundo é, a médio e longo prazo, insustentável e que o pico de produção, com um posterior declínio, poderá ocorrer no século 21.
Outros discordam. O Centro Internacional de Desenvolvimento de Fertilizantes recentemente revisou para mais além as estimativas de reservas de cerca de 16 bilhões de toneladas para 60 bilhões de toneladas - considerando taxas de produção atuais, estas reservas poderiam durar por mais 300 a 400 anos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos também ajustou recentemente as suas estimativas para 65 bilhões de toneladas. No entanto, os defensores da teoria do pico do fosfato argumentam que mesmo que o cronograma possa variar, a questão fundamental quanto ao fornecimento de fosfato, barato e facilmente acessível é, em última análise, limitada, e isso não vai mudar.
O Year Book conclama para uma avaliação global do fosfato e para o mapeamento mais preciso dos fluxos deste material no meio ambiente e quanto ao prognóstico dos níveis de reservas economicamente viáveis.
De acordo com o Year Book, a utilização global de fertilizantes que contêm fosfato, nitrogênio e potássio aumentou 600% entre os anos de 1950 e 2000.
Ele acrescenta que o crescimento populacional nos países em desenvolvimento e o aumento dos níveis de laticínios e da carne na dieta global são susceptíveis de aumentar ainda mais o uso de fertilizantes.
“Embora existam quantidades comercialmente exploráveis de rocha fosfática em diversos países, aqueles que não têm reservas nacionais poderão estar particularmente vulneráveis no caso de insuficiências globais”, observa o Year Book .
Mais pesquisas são necessárias para que se possa conhecer a forma como o fosfato se desloca pelo meio ambiente, a fim de maximizar a sua utilização na produção agrícola e pecuária e também reduzir o desperdício e impactos ambientais, inclusive em rios e oceanos.
• Atualmente, os seres humanos consomem - através da comida - apenas cerca de 1/5 do fosfato extraído, ficando o restante retido no solo ou sendo lançado no meio ambiente aquático.
• Nos últimos 50 anos, concentrações de fosfato em águas doces e em terra têm crescido na ordem de pelo menos 75%.
• O fluxo estimado de fosfato para o ambiente marinho a partir da terra já está na ordem de 22 milhões de toneladas por ano.
O Year Book aponta para a enorme oportunidade da reciclagem de águas residuais: nas mega- cidades dos países em desenvolvimento, até 70% desta água - carregada de nutrientes e fertilizantes, como o fosfato - é despejada sem tratamento em rios e zonas costeiras.
• Na Suécia, por exemplo, objetiva-se reciclar 60% do fosfato contido nas águas residuais dos municípios até o ano de 2015.
Outras medidas para reduzir as liberações incluem a redução da erosão e da perda da camada superior da terra onde grandes quantidades de fosfato estão associadas com as partículas do solo e com fertilizantes em excesso que são armazenados após a aplicação.
• Na África, as perdas de solo estão próximas de 0,50 toneladas por hectare por ano e na Ásia esta relação é ainda maior, chegando a quase 1,70 toneladas por hectare por ano.
As medidas de gestão da terra incluem a aração em contornos; o plantio em curva de nível de cercas-vivas em encostas íngremes, a aplicação de mulch e a plantação de culturas de cobertura e outra vegetações no solo.
Aumentar as taxas de reciclagem em minas de fosfato também poderia ajudar na conservação dos recursos e reduzir as descargas de sistemas de água local.
Plásticos no Ambiente Marinho - Uma Nova Bomba Relógio Tóxica?
A segunda questão emergente destacada no Year Book 2011 é quanto à necessidade da intensificação das pesquisas sobre o impacto dos plásticos que estão chegando aos oceanos.
Os cientistas estão se preocupando não somente com o dano direto à vida selvagem, mas quanto à toxicidade potencial de alguns tipos de materiais chamados de micro plásticos.
Estes micro-plásticos são pequenos pedaços com dimensão inferior a cinco milímetros que são descartados como pellets pelas indústrias, ou que se formam como resultado de pedaços maiores de plástico que se partem, por exemplo, devido à ação das ondas ou pela luz do sol.
A quantidade exata de plásticos, incluindo os micro-plásticos, que estão entrando ou se formando nos oceanos a partir das descargas terrígenas - mas também de embarcações e barcos de pesca- é desconhecida.
O que se sabe é que o consumo per capita de plástico, da embalagem até as sacolas plásticas e da indústria até os bens de consumo, têm aumentado acentuadamente.
• Na América do Norte e na Europa Ocidental, cada pessoa já utiliza cerca de 100 kg de materiais plásticos por ano - e é provável que esse número aumente para 140 kg até 2015.
• Cada pessoa que vive em países asiáticos em rápido desenvolvimento, utiliza cerca de 20 quilos de plástico por ano - este número deverá crescer para cerca de 36 quilos até 2015.
Atualmente, as taxas de reciclagem e de re-utilização variam enormemente mesmo entre países desenvolvidos.
Na Europa, as taxas de reciclagem de plásticos para a geração de energia variaram de 25% ou menos em diversos países europeus para mais de 80% na Noruega e na Suíça.
Preocupações anteriores relacionadas ao plástico incluem danos e morte na vida selvagem por emaranhamento.
Existe também uma preocupação quanto à vida selvagem se alimentar frequentemente de plásticos, pensando se tratar de alimento. Os albatrozes, por exemplo, podem confundir plástico vermelho com lulas, da mesma forma tartarugas podem achar que sacolas plásticas são águas vivas. Aves marinhas jovens de algumas espécies podem sofrer de má nutrição se elas se alimentarem de muito plástico, pensando estar ingerindo alimento.
Mas, o Year Book levanta uma bandeira sobre uma nova preocupação designada de “substância persistentes, bio-acumuláveis e tóxicas” associadas ao lixo marinho plástico.
A pesquisa indica que pedaços pequenos ou minúsculos de plástico estão absorvendo e concentrando, a partir da água do mar e de sedimentos, uma ampla gama de produtos químicos que vão dos bifenilos policlorados (PCBs) até pesticidas DDT.
“Muitos desses poluentes, incluindo os PCBs, causam efeitos crônicos como a desregulação endócrina, mutagenicidade e carcinogenicidade”, relata o Year Book.
“Alguns cientistas estão preocupados sobre a possibilidade de que esses agentes contaminantes persistentes possam eventualmente acabar na cadeia alimentar, embora haja uma grande incerteza quanto ao grau de ameaça que isso representa à saúde humana e à saúde do ecossistema” acrescenta.
Espécies como o espadarte e as focas - que estão no topo da cadeia alimentar - são citadas como potencialmente vulneráveis. Estas espécies são também consumidas pelos seres humanos.
Foi realizada recentemente uma pesquisa em 56 praias, em cerca de 30 países, sobre as concentrações de PCB em pellets levados pela água até a costa.
• As concentrações mais elevadas foram encontradas em pellets plásticos nos Estados Unidos, na Europa Ocidental e no Japão - as mais baixas foram localizadas na Ásia tropical e na África do Sul.
O Year Book registra uma série de iniciativas novas e já existentes, linhas de orientação e leis que visam à redução das descargas de plásticos e outros tipos de lixos.
Elas vão desde a Convenção Internacional para Prevenção da Poluição por Navios das Nações Unidas até o Programa Global de Ação para a Proteção do Ambiente Marinho das Atividades Baseadas em Terra do UNEP.
O Year Book apela para uma melhor aplicação de tais regras, para a conscientização do consumidor, para mudanças comportamentais e também para um melhor suporte às iniciativas nacionais e comunitárias.
Há ainda uma necessidade urgente de um melhor e mais inovador sistema de monitoramente de plásticos em todo o ambiente marinho, dado que ainda há lacunas reais quanto ao destino
final destes materiais.
Há evidências de que alguns plásticos não estão flutuando, mas sim afundando e se acumulando no fundo do mar.
“Lixo plástico tem sido observado no fundo do oceano a profundidades que vão do Estreito de Fram, no Atlântico Norte, até os cânions de águas profundas ao largo da costa do Mediterrâneo - acredita-se que a maior parte do plástico existente no Mar do Norte resida no fundo do mar”, diz o Year Book.
Ele também apela para a introdução progressiva de mudanças na coleta, reciclagem e reutilização de plásticos. “Se o plástico fosse tratado como um recurso valioso, ao invés de apenas um resíduo, todas as oportunidades para criar um valor secundário para o material ofereceriam incentivos econômicos para a coleta e reprocessamento”, ressalta o Year Book.
Leia também
Tudo termina no mar - http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/tudo-termina-no-mar/
Plano de ação regional do NOWPAP em relação ao lixo marinho - http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/plano-de-acao-regional-do-nowpap-em-relacao-ao-lixo-marinho/
Poluentes orgânicos em microplásticos em duas praias da costa portuguesa - http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/poluentes-organicos-em-microplasticos-em-duas-praias-da-costa-portuguesa/
Giro do Pacífico Norte em um pequeno veleiro - http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/giro-do-pacifico-norte-em-um-pequeno-veleiro/
Avaliação da percepção sobre lixo marinho: ferramenta para a gestão do problema - http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/avaliacao-da-percepcao-do-lixo-marinho-ferramenta-para-a-gestao-do-problema/
Lixo marinho e nós: quem pode dar conta? - http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/lixo-marinho-e-nos-quem-pode-dar-conta/
Lixo marinho elevou número de mortalidade de tartarugas em 2009 - http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/lixo-marinho-elevou-numero-de-mortalidade-de-tartarugas-em-2009/
No fundo do mar, o lixo do carnaval de Salvador - http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/no-fundo-do-mar-o-lixo-do-carnaval-de-salvador/
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FONTE : Redação Global Garbage/Mercado Ético - Tradução Global Garbage/Miriam Santini - Revisão técnica Projeto Lixo Marinho/Gerson Fernandino. (A reprodução da série especial sobre o lixo marinho é resultado da parceria entre o Mercado Ético, a Global Garbage e a Associação Praia Local Lixo Global/Projeto Lixo Marinho).(Envolverde/Mercado Ético).
As preocupações ambientais dos governos, empresas e consumidores - Antonio Silvio Hendges
A Conferência de Estocolmo, Suécia, em junho/1972 foi a primeira tentativa mundial de organizar as relações humanas com o meio ambiente. As questões ambientais passam a ter destaque nas agendas governamentais, possibilitando a adoção de leis e regulamentos que protejam os espaços e recursos naturais. O Encontro de Belgrado, Iugoslávia, em 1975 estabeleceu a educação ambiental como instrumento multidisciplinar capaz de contribuir para a formação contínua e integrada de consciências capazes de entender as relações entre produção, consumo e meio ambiente.
O Relatório Brundtland de 1987, elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, estabeleceu o desenvolvimento sustentável como um conceito que “satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.
A Conferência do Rio de Janeiro sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992 (ECO 92) teve uma ampla participação, não somente dos governos, mas também da sociedade. O documento final deste encontro, a Agenda 21, adotou princípios que orientam as ações e atitudes não somente dos governos, mas de toda a sociedade, incluindo-se as empresas e os consumidores. O desenvolvimento sustentável passou a ser encarado como uma possibilidade de incentivo às atividades econômicas e a prevenção de acidentes, impactos e passivos ambientais, impondo-se como uma constante nas administrações públicas e empresariais. Os consumidores passaram a buscar além da qualidade e dos preços competitivos, produtos ambientalmente responsáveis, possibilitando que a adoção de princípios sustentáveis pelas empresas agregasse valor e vantagens competitivas em relação aos concorrentes não adequados.
A poluição e impactos ambientais passaram a ser considerados recursos mal administrados, desperdiçados, fora de seu lugar adequado nas cadeias produtivas, aumentando os custos da produção e originando passivos ambientais futuros capazes de influenciar nas decisões dos consumidores, acionistas, empréstimos públicos ou privados, indenizações e reparações. Os governos e empresas começaram a planejar antecipadamente as medidas necessárias para mitigar os efeitos poluentes ao invés de ignorarem os impactos de seus métodos e produtos. Este planejamento possibilitou a melhoria na qualidade dos produtos e a diminuição dos custos de produção. A adoção de uma legislação ambiental por muitos países exigindo estudos e relatórios de impactos ambientais e licenciamentos adequados às diversas etapas dos empreendimentos tornou-se fundamental para a afirmação dos objetivos do desenvolvimento sustentável.
A adoção de sistemas de gestão ambiental e auditorias ambientais, inicialmente nos países nórdicos e Europa Central possibilitaram às empresas conhecerem e prevenirem os passivos ambientais, modificando as atitudes de seus dirigentes, acionistas funcionários e consumidores, que adotaram uma relação mais comprometida e integrada das questões ambientais e econômicas. Os eleitores/consumidores passaram a votar em representantes “verdes” ou identificados com idéias econômicas e sociais alternativas. Neste contexto, surgem instituições normativas como a British standards Institution – BSI, que adotou normas de qualidade como a BS 5750 (ISO 9001) e relacionadas ao meio ambiente como a BS 7750 (ISO 14001) que promovem a integração dos critérios de desempenho das empresas com as suas responsabilidades ambientais e sociais.
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FONTE : Antonio Silvio Hendges, articulista do EcoDebate, é Professor de Biologia e Agente Educacional no RS. (EcoDebate, 02/03/2011).
O Relatório Brundtland de 1987, elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, estabeleceu o desenvolvimento sustentável como um conceito que “satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.
A Conferência do Rio de Janeiro sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992 (ECO 92) teve uma ampla participação, não somente dos governos, mas também da sociedade. O documento final deste encontro, a Agenda 21, adotou princípios que orientam as ações e atitudes não somente dos governos, mas de toda a sociedade, incluindo-se as empresas e os consumidores. O desenvolvimento sustentável passou a ser encarado como uma possibilidade de incentivo às atividades econômicas e a prevenção de acidentes, impactos e passivos ambientais, impondo-se como uma constante nas administrações públicas e empresariais. Os consumidores passaram a buscar além da qualidade e dos preços competitivos, produtos ambientalmente responsáveis, possibilitando que a adoção de princípios sustentáveis pelas empresas agregasse valor e vantagens competitivas em relação aos concorrentes não adequados.
A poluição e impactos ambientais passaram a ser considerados recursos mal administrados, desperdiçados, fora de seu lugar adequado nas cadeias produtivas, aumentando os custos da produção e originando passivos ambientais futuros capazes de influenciar nas decisões dos consumidores, acionistas, empréstimos públicos ou privados, indenizações e reparações. Os governos e empresas começaram a planejar antecipadamente as medidas necessárias para mitigar os efeitos poluentes ao invés de ignorarem os impactos de seus métodos e produtos. Este planejamento possibilitou a melhoria na qualidade dos produtos e a diminuição dos custos de produção. A adoção de uma legislação ambiental por muitos países exigindo estudos e relatórios de impactos ambientais e licenciamentos adequados às diversas etapas dos empreendimentos tornou-se fundamental para a afirmação dos objetivos do desenvolvimento sustentável.
A adoção de sistemas de gestão ambiental e auditorias ambientais, inicialmente nos países nórdicos e Europa Central possibilitaram às empresas conhecerem e prevenirem os passivos ambientais, modificando as atitudes de seus dirigentes, acionistas funcionários e consumidores, que adotaram uma relação mais comprometida e integrada das questões ambientais e econômicas. Os eleitores/consumidores passaram a votar em representantes “verdes” ou identificados com idéias econômicas e sociais alternativas. Neste contexto, surgem instituições normativas como a British standards Institution – BSI, que adotou normas de qualidade como a BS 5750 (ISO 9001) e relacionadas ao meio ambiente como a BS 7750 (ISO 14001) que promovem a integração dos critérios de desempenho das empresas com as suas responsabilidades ambientais e sociais.
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FONTE : Antonio Silvio Hendges, articulista do EcoDebate, é Professor de Biologia e Agente Educacional no RS. (EcoDebate, 02/03/2011).
terça-feira, 1 de março de 2011
Tribunal mantém proibição de construir termelétrica no Pantanal
Na última quinta-feira, 24 de fevereiro/2011, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) manteve a decisão de impedir que o Ibama conceda licença ambiental para construção de uma termelétrica em Corumbá, em Mato Grosso do Sul.
Em 2005, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Mato Grosso do Sul moveram uma ação civil pública contra o Ibama, que havia concedido uma licença prévia para a construção da usina conhecida como Termopantanal, na região de Corumbá.
O objetivo da ação era invalidar a licença, uma vez que o estudo de impacto ambiental (EIA-Rima), documento obrigatório para construção de usinas como esta, tinha uma série de deficiências. Entre elas, a ausência de um estudo sobre a possibilidade de os rios da região serem contaminados por metais pesados, como o mercúrio. A 1ª Vara Federal de Corumbá concedeu liminar, suspendendo o processo de licenciamento ambiental.
Dessa decisão recorreu o Ibama, alegando que não compete ao Ministério Público impedi-lo de exercer as suas atribuições legais, como a de expedir licenças ambientais.
Entretanto, para a procuradora regional da República, Maria Silvia Luedemann, o Ministério Público não quer impedir que o Ibama conceda licenças, como é sua obrigação. Em verdade, o que visa o parquet federal é garantir que as normas técnicas de proteção ao meio ambiente e à saúde pública sejam cumpridas pelo empreendedor e pelo órgão licenciador.
De acordo com a manifestação lançada nos autos, defendeu a procuradora que “percebe-se da análise dos autos, de forma cristalina, a possibilidade de dano irreversível que poderá redundar da instalação da usina termelétrica na região do Pantanal-Matogrossense, área declarada patrimônio nacional pela Constituição Federal”.
“O procedimento de autorização para empreendimentos que causem impacto ambiental”, prossegue ela, “principalmente em áreas declaradas patrimônio nacional, como é o caso do Pantanal Mato-Grossense, possui rigorosas normas que devem ser observadas”. Para a procuradora, o Estudo de Impacto Ambiental apresentado pelo empreendedor do projeto Termopantanal é absolutamente precário.
Por fim, a procuradora Maria Silvia Luedemann lembra que “o que o Direito Ambiental objetiva não é obter uma reparação do dano causado ao final de um processo e sim prevenir a sua ocorrência e reprimir prontamente o ilícito para evitar maiores prejuízos ao meio ambiente, que se deseja equilibrado”.
A 3ª Turma do TRF-3 acolheu a tese do MPF e rejeitou o recurso do Ibama por unanimidade, mantendo o impedimento da autarquia em conceder a licença ambiental para a construção da termelétrica.
Processo Nº 2006.03.00.044650-6
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FONTE : Procuradoria Regional da República da 3ª Região. (EcoDebate, 01/03/2011).
Em 2005, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Mato Grosso do Sul moveram uma ação civil pública contra o Ibama, que havia concedido uma licença prévia para a construção da usina conhecida como Termopantanal, na região de Corumbá.
O objetivo da ação era invalidar a licença, uma vez que o estudo de impacto ambiental (EIA-Rima), documento obrigatório para construção de usinas como esta, tinha uma série de deficiências. Entre elas, a ausência de um estudo sobre a possibilidade de os rios da região serem contaminados por metais pesados, como o mercúrio. A 1ª Vara Federal de Corumbá concedeu liminar, suspendendo o processo de licenciamento ambiental.
Dessa decisão recorreu o Ibama, alegando que não compete ao Ministério Público impedi-lo de exercer as suas atribuições legais, como a de expedir licenças ambientais.
Entretanto, para a procuradora regional da República, Maria Silvia Luedemann, o Ministério Público não quer impedir que o Ibama conceda licenças, como é sua obrigação. Em verdade, o que visa o parquet federal é garantir que as normas técnicas de proteção ao meio ambiente e à saúde pública sejam cumpridas pelo empreendedor e pelo órgão licenciador.
De acordo com a manifestação lançada nos autos, defendeu a procuradora que “percebe-se da análise dos autos, de forma cristalina, a possibilidade de dano irreversível que poderá redundar da instalação da usina termelétrica na região do Pantanal-Matogrossense, área declarada patrimônio nacional pela Constituição Federal”.
“O procedimento de autorização para empreendimentos que causem impacto ambiental”, prossegue ela, “principalmente em áreas declaradas patrimônio nacional, como é o caso do Pantanal Mato-Grossense, possui rigorosas normas que devem ser observadas”. Para a procuradora, o Estudo de Impacto Ambiental apresentado pelo empreendedor do projeto Termopantanal é absolutamente precário.
Por fim, a procuradora Maria Silvia Luedemann lembra que “o que o Direito Ambiental objetiva não é obter uma reparação do dano causado ao final de um processo e sim prevenir a sua ocorrência e reprimir prontamente o ilícito para evitar maiores prejuízos ao meio ambiente, que se deseja equilibrado”.
A 3ª Turma do TRF-3 acolheu a tese do MPF e rejeitou o recurso do Ibama por unanimidade, mantendo o impedimento da autarquia em conceder a licença ambiental para a construção da termelétrica.
Processo Nº 2006.03.00.044650-6
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FONTE : Procuradoria Regional da República da 3ª Região. (EcoDebate, 01/03/2011).
Complexo Termelétrico de Candiota. Um retrocesso ambiental. Entrevista com Lucia Ortiz
Com as primeiras pesquisas de aproveitamento do carvão mineral para geração de energia elétrica, surgiu, nos anos 1960, o Complexo Termelétrico de Candiota, no Rio Grande do Sul. A Fase A, com duas unidades, entrou em operação em 1974 e, doze anos mais tarde, a Fase B foi inaugurada, totalizando 446 Mw instalados. Trinta anos depois, a última etapa do projeto, a Fase C, acaba de ser concluída e está sendo testada. “Temos como primeiro grande feito neste início de governo, a inauguração de uma obra tão poluente, como se fosse um elemento de sucesso, quando, na verdade, é um grande retrocesso”, disse Lucia Ortiz, do Núcleo Amigos da Terra Brasil, à IHU On-Line, em entrevista concedida por telefone.
De 1999 a 2001, Lucia participou de estudos acerca da viabilidade de Candiota, realizados pela Fepam e é enfática ao contrariar o projeto. “É um grande retrocesso usarmos essa fonte de energia na situação em que o mundo está hoje, à beira do caos climático e quando todos os esforços giram em torno da transição para energias renováveis e sustentáveis”.
Lucia lembra que Candiota III foi financiada com dinheiro público francês na década de 1980, quando o país estava descartando o uso do carvão mineral por razões de saúde pública, “má qualidade do ar e situações insalubres em toda a etapa de processamento do carvão, desde a mineração até a queima”.
Lucia Ortiz é coordenadora do Núcleo Amigos da Terra Brasil. É geóloga e mestre em Geociências pela UFRGS e membro da coordenação da rede Brasil sobre instituições financeiras multilaterais.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O Rio Grande do Sul necessita de uma usina termelétrica como a de Candiota?
Lucia Ortiz – Acreditamos que nem Rio Grande do Sul nem o Brasil necessitam utilizar um “combustível de ontem”, como chamamos o carvão mineral, o combustível fóssil mais poluente e que mais emite gases de efeito estufa. É um grande retrocesso usarmos essa fonte de energia na situação em que o mundo está hoje, à beira do caos climático e quando todos os esforços giram em torno da transição para energias renováveis e sustentáveis. O debate sobre a demanda de energia não pode considerar simplesmente a fonte que iremos utilizar, mas é preciso analisar para quê e para quem a energia é produzida.
Indústrias elétricas consomem parte significativa da energia do país e, inclusive, compram energia para produção e exportação de commodities subsidiadas pelo governo. O uso do carvão mineral não atende à necessidade real da população para suprir a demanda por energia e pela boa qualidade de vida.
IHU On-Line – Candiota surgiu para beneficiar algum setor específico? Pode contar como surgiu esse empreendimento?
Lucia Ortiz – Candiota beneficia principalmente o setor carbonífero que, há muitos anos, vem tentando se reerguer de uma forma bastante ineficiente. Candiota, além do combustível ultrapassado, tem uma tecnologia absolutamente obsoleta; também foi comprada com o dinheiro público da França na década de 1980, quando o país estava fazendo uma transição, livrando-se do carvão mineral justamente por problemas de saúde pública, má qualidade do ar e situações insalubres em toda a etapa de processamento do carvão, desde a mineração até a queima.
Hoje, quase 30 anos depois, Candiota está sendo reativada com equipamentos e tecnologias paliativas para reduzir a emissão de poluentes que não atendem aos padrões, porque o carvão mineral do Rio Grande do Sul é de baixíssima qualidade. Devido às suas condições geológicas de formação, 50% do carvão corresponde a impurezas.
IHU On-Line – Segundo alguns técnicos, as concentrações emitidas de dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio e material particulado estão acima dos limites máximos estabelecidos. Quais as implicações desses minerais para a população da região?
Lucia Ortiz – O Ministério Público entrou com uma ação pedindo a suspensão da licença de operação não só de Candiota III, que é a fase C, mas também das fases A e B, que nos últimos cinco anos não conseguiram cumprir com os padrões da legislação que trata da emissão máxima de poluentes. Esses poluentes não são apenas material particulado, mas também óxidos de nitrogênio, que podem causar doenças respiratórias e de pele, mas principalmente óxidos de enxofre, que são precursores da chuva ácida. Na região há uma acidificação da atmosfera e da chuva; os agricultores mostram relatos impressionantes de como o pasto fica coberto de fibras, como as cercas de metal são corroídas em uma velocidade muito mais acelerada do que o normal.
Nesse momento, os mais prejudicados são os agricultores e a população em geral daquela região, que há anos vêm sofrendo com a intensificação das secas e a escassez de água. Para se ter uma ideia, a Usina Fase C de Candiota, por ter uma tecnologia ultrapassada de resfriamento das torres, necessita de uma quantidade absurda de água, que chega a ser 40 vezes maior que o consumo de toda a população do município.
Além disso, pensando no planejamento de instalação dessa e de outras usinas, como era o caso de Seival, seria necessária a construção de uma barragem somente para suprir o consumo dessas usinas. Essas barragens, por sua vez, iriam afetar as famílias que vivem da agricultura, os assentamentos da reforma agrária da região de Herval, Hulha Negra, Asseguá, Candiota. O setor carbonífero acaba sendo beneficiado, mas a população, que mais gera renda para o município através da produção de alimentos, sementes crioulas e agroecológicas, acaba sendo prejudicada.
IHU On-Line – Segundo a informação de técnicos, antes da fase C, parte da termelétrica de Candiota funcionava com capacidade aquém da prevista. Com a conclusão da fase C, Candiota irá produzir a energia esperada? Por que dar continuidade a esse projeto se a tecnologia já está ultrapassada?
Lucia Ortiz – Há uma estratégia que vem sendo utilizada desde que ocorreu a nacionalização da CGTE, que fazia parte da CEEE, ou seja, os processos A e B passaram à União com a confirmação com a CGTE.
A então ministra de Minas e Energia, hoje presidente Dilma Rousseff, pediu dedicação a esse setor e a essas obras, financiamento público, inclusão da obra no PAC, convênio com a China – que não é nenhum exemplo no que diz respeito a energias renováveis –, abrindo portas de negociação entre os dois países. Existem interesses diversos que não os 350 megawatts máximos que a usina pode gerar e que o Rio Grande do Sul tem condições de economizar, criando um programa de conservação e eficiência energética.
No RS existe uma planta piloto de painéis fotovoltaicos que merece mais atenção e investimento, inclusive do PAC, mas que não tem evoluído, enquanto uma indústria suja como a energia do carvão é incentivada e subsidiada.
IHU On-Line – Quais as vantagens para China e França na parceria com Candiota? Quais os benefícios para esses países?
Lucia Ortiz – Os investimentos são beneficiados com retorno financeiro e não importa se é a população brasileira quem está pagando por esses investimentos com o uso de recursos públicos. Desde a década de 1980, os franceses transferem indústrias poluentes para os países do Sul, onde os custos com as medidas ambientais são menores. Devido à própria condição ambiental nesses países, nos quais a poluição já alcançou índices inaceitáveis, acabam exportando esses investimentos.
Isso é triste, pois o Brasil tem capacidade tecnológica inovadora, uma sociedade civil forte e há tanto tempo apresenta proposta para fontes alternativas de energia. Mas, temos como primeiro grande feito neste início de governo, a inauguração de uma obra tão poluente, como se fosse um elemento de sucesso, quando, na verdade, é um grande retrocesso. Nós escutamos muito esse discurso do ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, no qual diz que os ambientalistas não querem grandes barragens da Amazônia e que, por isso, terão de passar para investimentos como a usina do carvão. Mas, na verdade, a solução não está dada. No Brasil é sim ou sim.
IHU On-Line – Quais as implicações ambientais de um complexo termelétrico que produz energia a partir de carvão mineral, como o de Candiota, no Rio Grande do Sul?
Lucia Ortiz – Em todo o ciclo de processamento, o carvão tem uma cadeia de impactos ambientais. Se considerarmos desde a mineração, que na região de Candiota é feita a céu aberto, centenas de hectares de terras agriculturáveis ou utilizadas para outros fins são descobertas e a rocha que está embaixo e que contém o carvão é exposta às intempéries. Os minerais que estão contidos nessas camadas de carvão são oxidados, liberando óxido de enxofre, que forma os sulfatos e sedimentando os cursos d’água. Quando esses minerais são dissolvidos, tornando o ambiente mais ácido, fica mais fácil a dissolução de outros minerais que contenham metais pesados tóxicos – por exemplo, o cádium, o arsênio, mercúrio. A Fepam realizou vários estudos que demonstram a contaminação desses cursos d’água pela mineração em Candiota.
O transporte do carvão para as usinas também é um problema, pois não é feito nenhum beneficiamento para a retirada dos interiores desse carvão, ou seja, ele é queimado na termelétrica do jeito que sai da mina. Esse carvão tem uma quantidade muito grande de enxofre, em torno de 2%. Ao serem queimados, os minerais liberam óxido de enxofre para atmosfera e causam a chuva ácida.
Se a cada dia é transportada uma tonelada de carvão, isso quer dizer que, diariamente, gera-se meia tonelada de fibras, as quais vão para a bacia de decantação e, às vezes, voltam para as cava das minas sendo transportadas por caminhões que liberam poeira tóxica, que compromete a saúde e as vias respiratórias da população do entorno. O impedimento do leito do Arroio Candiota não é natural; são camadas, centímetros e centímetros acumulados de cinzas do carvão mineral, afetando também toda a fauna e a flora da região. Animais que servem de indicadores, são como os anfíbios, não aparecem mais nessas áreas afetadas.
IHU On-Line – Qual era a situação de Candiota na época em que você trabalhou em um projeto da Fepam? Que aspectos em relação à obra já eram discutidos?
Lucia Ortiz – Trabalhei com o projeto da Fepam de 1999 até 2001. Em 2001, a agora presidente Dilma Rousseff era secretária de Minas e Energia do governo do estado e, naquela época, estava voltando um processo de licenciamento das usinas a carvão, tanto de Candiota como de Jacuí, que já tinha sido embargada pelo Ministério Público desde meados de 1990, por ser considerada a maior fonte de poluição atmosférica na região metropolitana de Porto Alegre.
Na época, a Fepam emitiu vários pareceres mostrando que Candiota, apesar de ser uma região rural, não estava saturada de poluição em comparação à região metropolitana de Porto Alegre. Porém, havia a ressalva de que, se a região de Candiota realizasse todos os planos de extensão de usinas, incluindo a usina de Seival, os padrões da qualidade do ar em todo o estado do Rio Grande do Sul seriam ultrapassados.
Houve uma discussão a respeito das necessidades do projeto, das possíveis alternativas, e da inadequação do licenciamento. Sem esse debate se estender, estão concluindo as obras 10 anos depois.
IHU On-Line – De acordo com técnicos que trabalham no projeto de Candiota C, a usina dispõe de alternativas para reduzir a emissão de poluentes. Isso torna Candiota menos agressiva ao meio ambiente?
Lucia Ortiz – A tecnologia de Candiota era tão obsoleta, que foi necessário um investimento muito grande em filtros, em tecnologias de controle para reduzir a emissão de poluentes. Ocorre que não foi feito investimento na redução, na geração, na eficiência da queima e, sim, apenas maior controle nas saídas das chaminés.
Isso reduziu a emissão de poluentes em comparação, de forma proporcional, ao que se tem nas fases A e B, que são fases mais antigas e ineficientes no controle da poluição. Mas como foi dito, o temor é que as Usinas A e B não estejam adequadas, emitem acima dos limites permitidos e que o somatório dessas fontes poluentes será prejudicial à população.
IHU On-Line – Como está a atual fase C do projeto? De acordo com o PAC, a obra está concluída e aguarda apenas licenciamento para poder funcionar.
Lucia Ortiz – Ela teve o licenciamento, 28 de dezembro, uma data bem emblemática, licenciamento polêmico sempre sai perto do Natal. Com o licenciamento de alteração aprovado, a fase C já começou a operar em fase de testes.
IHU On-Line – Candiota poderia aderir a uma tecnologia mais moderna e que causasse menos impacto ambiental?
Lucia Ortiz – As usinas termelétricas deveriam mudar totalmente a tecnologia atual por um sistema de torre de resfriamento a seco, que não necessitaria de uma quantidade excessiva de água. Isso não foi pensado para a usina.
Todas as tecnologias que estavam ao alcance foram feitas no sentido de tentar controlar e conter a emissão atmosférica de poluentes. No entanto, a tecnologia usada hoje é bastante ultrapassada para que se possa fazer uma reformulação total conforme as melhores práticas disponíveis. A acessibilidade a melhores práticas tecnológicas está sendo pensada em nível internacional para que não ocorra a transferência de tecnologia suja para os países do sul.
Um programa de substituição dos chuveiros por aquecimento solar, poderia evitar o consumo de ate 18% da energia elétrica no horário de pico, o que seria equivalente a duas usinas da fase C.
IHU On-Line – A geração de energia a partir do carvão emite ainda mais CO2, se comparada a outras fontes poluentes?
Lucia Ortiz – Com certeza. O carvão é o combustível fóssil que mais emite gases de efeito estufa por unidade de energia gerada. O gás natural tem mais nitrogênio e menos carbono, o petróleo tem praticamente a mesma quantidade de nitrogênio e carbono, enquanto o carvão tem mais carbono e, portanto, a sua queima libera mais dióxido de carbono para a atmosfera.
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FONTE : (Ecodebate, 01/03/2011) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação. [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
De 1999 a 2001, Lucia participou de estudos acerca da viabilidade de Candiota, realizados pela Fepam e é enfática ao contrariar o projeto. “É um grande retrocesso usarmos essa fonte de energia na situação em que o mundo está hoje, à beira do caos climático e quando todos os esforços giram em torno da transição para energias renováveis e sustentáveis”.
Lucia lembra que Candiota III foi financiada com dinheiro público francês na década de 1980, quando o país estava descartando o uso do carvão mineral por razões de saúde pública, “má qualidade do ar e situações insalubres em toda a etapa de processamento do carvão, desde a mineração até a queima”.
Lucia Ortiz é coordenadora do Núcleo Amigos da Terra Brasil. É geóloga e mestre em Geociências pela UFRGS e membro da coordenação da rede Brasil sobre instituições financeiras multilaterais.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O Rio Grande do Sul necessita de uma usina termelétrica como a de Candiota?
Lucia Ortiz – Acreditamos que nem Rio Grande do Sul nem o Brasil necessitam utilizar um “combustível de ontem”, como chamamos o carvão mineral, o combustível fóssil mais poluente e que mais emite gases de efeito estufa. É um grande retrocesso usarmos essa fonte de energia na situação em que o mundo está hoje, à beira do caos climático e quando todos os esforços giram em torno da transição para energias renováveis e sustentáveis. O debate sobre a demanda de energia não pode considerar simplesmente a fonte que iremos utilizar, mas é preciso analisar para quê e para quem a energia é produzida.
Indústrias elétricas consomem parte significativa da energia do país e, inclusive, compram energia para produção e exportação de commodities subsidiadas pelo governo. O uso do carvão mineral não atende à necessidade real da população para suprir a demanda por energia e pela boa qualidade de vida.
IHU On-Line – Candiota surgiu para beneficiar algum setor específico? Pode contar como surgiu esse empreendimento?
Lucia Ortiz – Candiota beneficia principalmente o setor carbonífero que, há muitos anos, vem tentando se reerguer de uma forma bastante ineficiente. Candiota, além do combustível ultrapassado, tem uma tecnologia absolutamente obsoleta; também foi comprada com o dinheiro público da França na década de 1980, quando o país estava fazendo uma transição, livrando-se do carvão mineral justamente por problemas de saúde pública, má qualidade do ar e situações insalubres em toda a etapa de processamento do carvão, desde a mineração até a queima.
Hoje, quase 30 anos depois, Candiota está sendo reativada com equipamentos e tecnologias paliativas para reduzir a emissão de poluentes que não atendem aos padrões, porque o carvão mineral do Rio Grande do Sul é de baixíssima qualidade. Devido às suas condições geológicas de formação, 50% do carvão corresponde a impurezas.
IHU On-Line – Segundo alguns técnicos, as concentrações emitidas de dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio e material particulado estão acima dos limites máximos estabelecidos. Quais as implicações desses minerais para a população da região?
Lucia Ortiz – O Ministério Público entrou com uma ação pedindo a suspensão da licença de operação não só de Candiota III, que é a fase C, mas também das fases A e B, que nos últimos cinco anos não conseguiram cumprir com os padrões da legislação que trata da emissão máxima de poluentes. Esses poluentes não são apenas material particulado, mas também óxidos de nitrogênio, que podem causar doenças respiratórias e de pele, mas principalmente óxidos de enxofre, que são precursores da chuva ácida. Na região há uma acidificação da atmosfera e da chuva; os agricultores mostram relatos impressionantes de como o pasto fica coberto de fibras, como as cercas de metal são corroídas em uma velocidade muito mais acelerada do que o normal.
Nesse momento, os mais prejudicados são os agricultores e a população em geral daquela região, que há anos vêm sofrendo com a intensificação das secas e a escassez de água. Para se ter uma ideia, a Usina Fase C de Candiota, por ter uma tecnologia ultrapassada de resfriamento das torres, necessita de uma quantidade absurda de água, que chega a ser 40 vezes maior que o consumo de toda a população do município.
Além disso, pensando no planejamento de instalação dessa e de outras usinas, como era o caso de Seival, seria necessária a construção de uma barragem somente para suprir o consumo dessas usinas. Essas barragens, por sua vez, iriam afetar as famílias que vivem da agricultura, os assentamentos da reforma agrária da região de Herval, Hulha Negra, Asseguá, Candiota. O setor carbonífero acaba sendo beneficiado, mas a população, que mais gera renda para o município através da produção de alimentos, sementes crioulas e agroecológicas, acaba sendo prejudicada.
IHU On-Line – Segundo a informação de técnicos, antes da fase C, parte da termelétrica de Candiota funcionava com capacidade aquém da prevista. Com a conclusão da fase C, Candiota irá produzir a energia esperada? Por que dar continuidade a esse projeto se a tecnologia já está ultrapassada?
Lucia Ortiz – Há uma estratégia que vem sendo utilizada desde que ocorreu a nacionalização da CGTE, que fazia parte da CEEE, ou seja, os processos A e B passaram à União com a confirmação com a CGTE.
A então ministra de Minas e Energia, hoje presidente Dilma Rousseff, pediu dedicação a esse setor e a essas obras, financiamento público, inclusão da obra no PAC, convênio com a China – que não é nenhum exemplo no que diz respeito a energias renováveis –, abrindo portas de negociação entre os dois países. Existem interesses diversos que não os 350 megawatts máximos que a usina pode gerar e que o Rio Grande do Sul tem condições de economizar, criando um programa de conservação e eficiência energética.
No RS existe uma planta piloto de painéis fotovoltaicos que merece mais atenção e investimento, inclusive do PAC, mas que não tem evoluído, enquanto uma indústria suja como a energia do carvão é incentivada e subsidiada.
IHU On-Line – Quais as vantagens para China e França na parceria com Candiota? Quais os benefícios para esses países?
Lucia Ortiz – Os investimentos são beneficiados com retorno financeiro e não importa se é a população brasileira quem está pagando por esses investimentos com o uso de recursos públicos. Desde a década de 1980, os franceses transferem indústrias poluentes para os países do Sul, onde os custos com as medidas ambientais são menores. Devido à própria condição ambiental nesses países, nos quais a poluição já alcançou índices inaceitáveis, acabam exportando esses investimentos.
Isso é triste, pois o Brasil tem capacidade tecnológica inovadora, uma sociedade civil forte e há tanto tempo apresenta proposta para fontes alternativas de energia. Mas, temos como primeiro grande feito neste início de governo, a inauguração de uma obra tão poluente, como se fosse um elemento de sucesso, quando, na verdade, é um grande retrocesso. Nós escutamos muito esse discurso do ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, no qual diz que os ambientalistas não querem grandes barragens da Amazônia e que, por isso, terão de passar para investimentos como a usina do carvão. Mas, na verdade, a solução não está dada. No Brasil é sim ou sim.
IHU On-Line – Quais as implicações ambientais de um complexo termelétrico que produz energia a partir de carvão mineral, como o de Candiota, no Rio Grande do Sul?
Lucia Ortiz – Em todo o ciclo de processamento, o carvão tem uma cadeia de impactos ambientais. Se considerarmos desde a mineração, que na região de Candiota é feita a céu aberto, centenas de hectares de terras agriculturáveis ou utilizadas para outros fins são descobertas e a rocha que está embaixo e que contém o carvão é exposta às intempéries. Os minerais que estão contidos nessas camadas de carvão são oxidados, liberando óxido de enxofre, que forma os sulfatos e sedimentando os cursos d’água. Quando esses minerais são dissolvidos, tornando o ambiente mais ácido, fica mais fácil a dissolução de outros minerais que contenham metais pesados tóxicos – por exemplo, o cádium, o arsênio, mercúrio. A Fepam realizou vários estudos que demonstram a contaminação desses cursos d’água pela mineração em Candiota.
O transporte do carvão para as usinas também é um problema, pois não é feito nenhum beneficiamento para a retirada dos interiores desse carvão, ou seja, ele é queimado na termelétrica do jeito que sai da mina. Esse carvão tem uma quantidade muito grande de enxofre, em torno de 2%. Ao serem queimados, os minerais liberam óxido de enxofre para atmosfera e causam a chuva ácida.
Se a cada dia é transportada uma tonelada de carvão, isso quer dizer que, diariamente, gera-se meia tonelada de fibras, as quais vão para a bacia de decantação e, às vezes, voltam para as cava das minas sendo transportadas por caminhões que liberam poeira tóxica, que compromete a saúde e as vias respiratórias da população do entorno. O impedimento do leito do Arroio Candiota não é natural; são camadas, centímetros e centímetros acumulados de cinzas do carvão mineral, afetando também toda a fauna e a flora da região. Animais que servem de indicadores, são como os anfíbios, não aparecem mais nessas áreas afetadas.
IHU On-Line – Qual era a situação de Candiota na época em que você trabalhou em um projeto da Fepam? Que aspectos em relação à obra já eram discutidos?
Lucia Ortiz – Trabalhei com o projeto da Fepam de 1999 até 2001. Em 2001, a agora presidente Dilma Rousseff era secretária de Minas e Energia do governo do estado e, naquela época, estava voltando um processo de licenciamento das usinas a carvão, tanto de Candiota como de Jacuí, que já tinha sido embargada pelo Ministério Público desde meados de 1990, por ser considerada a maior fonte de poluição atmosférica na região metropolitana de Porto Alegre.
Na época, a Fepam emitiu vários pareceres mostrando que Candiota, apesar de ser uma região rural, não estava saturada de poluição em comparação à região metropolitana de Porto Alegre. Porém, havia a ressalva de que, se a região de Candiota realizasse todos os planos de extensão de usinas, incluindo a usina de Seival, os padrões da qualidade do ar em todo o estado do Rio Grande do Sul seriam ultrapassados.
Houve uma discussão a respeito das necessidades do projeto, das possíveis alternativas, e da inadequação do licenciamento. Sem esse debate se estender, estão concluindo as obras 10 anos depois.
IHU On-Line – De acordo com técnicos que trabalham no projeto de Candiota C, a usina dispõe de alternativas para reduzir a emissão de poluentes. Isso torna Candiota menos agressiva ao meio ambiente?
Lucia Ortiz – A tecnologia de Candiota era tão obsoleta, que foi necessário um investimento muito grande em filtros, em tecnologias de controle para reduzir a emissão de poluentes. Ocorre que não foi feito investimento na redução, na geração, na eficiência da queima e, sim, apenas maior controle nas saídas das chaminés.
Isso reduziu a emissão de poluentes em comparação, de forma proporcional, ao que se tem nas fases A e B, que são fases mais antigas e ineficientes no controle da poluição. Mas como foi dito, o temor é que as Usinas A e B não estejam adequadas, emitem acima dos limites permitidos e que o somatório dessas fontes poluentes será prejudicial à população.
IHU On-Line – Como está a atual fase C do projeto? De acordo com o PAC, a obra está concluída e aguarda apenas licenciamento para poder funcionar.
Lucia Ortiz – Ela teve o licenciamento, 28 de dezembro, uma data bem emblemática, licenciamento polêmico sempre sai perto do Natal. Com o licenciamento de alteração aprovado, a fase C já começou a operar em fase de testes.
IHU On-Line – Candiota poderia aderir a uma tecnologia mais moderna e que causasse menos impacto ambiental?
Lucia Ortiz – As usinas termelétricas deveriam mudar totalmente a tecnologia atual por um sistema de torre de resfriamento a seco, que não necessitaria de uma quantidade excessiva de água. Isso não foi pensado para a usina.
Todas as tecnologias que estavam ao alcance foram feitas no sentido de tentar controlar e conter a emissão atmosférica de poluentes. No entanto, a tecnologia usada hoje é bastante ultrapassada para que se possa fazer uma reformulação total conforme as melhores práticas disponíveis. A acessibilidade a melhores práticas tecnológicas está sendo pensada em nível internacional para que não ocorra a transferência de tecnologia suja para os países do sul.
Um programa de substituição dos chuveiros por aquecimento solar, poderia evitar o consumo de ate 18% da energia elétrica no horário de pico, o que seria equivalente a duas usinas da fase C.
IHU On-Line – A geração de energia a partir do carvão emite ainda mais CO2, se comparada a outras fontes poluentes?
Lucia Ortiz – Com certeza. O carvão é o combustível fóssil que mais emite gases de efeito estufa por unidade de energia gerada. O gás natural tem mais nitrogênio e menos carbono, o petróleo tem praticamente a mesma quantidade de nitrogênio e carbono, enquanto o carvão tem mais carbono e, portanto, a sua queima libera mais dióxido de carbono para a atmosfera.
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FONTE : (Ecodebate, 01/03/2011) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação. [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
Mudanças Climáticas: Os alertas que vêm da área de seguros - Washington Novaes
O eventual leitor compreenderá – e relevará – que o autor destas linhas trate com tanta frequência e insistência do tema das mudanças climáticas e de suas desastrosas consequências no mundo e no Brasil. O artigo de duas semanas atrás – sobre problemas em represas e a necessidade de rever os seus padrões de implantação, diante do volume, peso e velocidade das águas nestes novos tempos, inclusive em São Paulo – provocou várias manifestações de leitores.
Um deles, o engenheiro Michael L. Pinkuss, chama a atenção para a necessidade de avaliar também o acúmulo de sedimentos nos reservatórios e sua influência no nível das águas. É tema que tem preocupado muito, entre outros cientistas, Philip Fearnside, que foi de várias instituições internacionais e hoje está no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Fearnside estudou esse acúmulo em várias barragens da Amazônia – Balbina, Samuel, Curuá-Una, Tucuruí e no projeto de Belo Monte – e alerta também para as emissões de gases que intensificam o efeito estufa emanadas de sedimentos orgânicos que, carreados pelos rios, após os desmatamentos, se acumulam nos reservatórios.
Talvez o tema da revisão de padrões de construção urbanos, rodoviários, hidrelétricos, etc. ganhe mais destaque e leve a modificações, na legislação e na prática, com as notícias que chegam de estudos que estão sendo desenvolvidos na Carolina do Sul, nos EUA, por instituições contratadas pelas maiores empresas de seguros na construção em todo o mundo, que só na área de edificações residenciais têm US$ 500 bilhões segurados e no ano passado perderam US$ 36 bilhões com danos provocados por inundações, vendavais, ciclones, deslizamentos de terras, etc.
No condado de Chester County, a Building House Safety (BHS) está terminando de construir um túnel com 150 superventiladores, capazes de provocar uma corrente de ar a 300 km/h, para poder observar as consequências em casas com os atuais padrões de construção e em outras mais resistentes. “Nós não estamos construindo observando os padrões de hoje nos lugares onde vivemos”, diz Julie Rochman, da BHS. “Construímos da forma em que queremos viver, esquecendo as lições do passado.” E isso tem tido consequências graves com chuvas, ventos, elevações do nível do mar – inclusive na perda de safras agrícolas.
“É muito difícil negar o aquecimento global”, diz Rochman. “Mas as seguradoras estão aí para mostrar.” Tanto assim que elas estão revendo o padrão internacional para seguros nesta área. E providenciando também simuladores de incêndios florestais, para poder criar um sistema de alertas. Porque a cada dia chegam notícias mais complicadas. Uma delas, publicada pela revista Time, é de um estudo do Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo, segundo o qual se pode agravar muito nos próximos 100 anos, com o aquecimento global, a situação já preocupante de falta de água no sudoeste norte-americano, incluindo Califórnia, Nevada, Novo México e Utah. O déficit nessas regiões, que já é alto, poderá quadruplicar. E os custos para remediá-lo poderiam chegar a US$ 2 trilhões.
Não é só ali que aumentam as aflições. No sul dos EUA o problema é, ao contrário, o “excesso” de chuvas. Nessa região, logo depois do Natal, choveu em volume não visto desde 1880. Em Los Angeles, em três semanas, choveu o que costumava cair em um semestre. A Austrália ainda está às voltas com os dramas da inundação em Queensland. Nas Filipinas, desde dezembro do ano passado, 2 milhões de pessoas foram atingidas por inundações. Na África do Sul, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) está alertando para o alto risco de inundações nas próximas semanas, continuando as que já arrasaram dezenas de milhares de hectares de cultivos – e comprometendo a alimentação dos mais pobres. Botswana, Lesotho, Moçambique, Namíbia e Zimbábue enfrentam os mesmos problemas. A África do Sul já decretou “estado nacional de desastre”.
Estranhamente, entretanto, o Partido Republicano dos EUA tenta bloquear na Câmara dos Deputados proposta que mantém poderes da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) para fixar padrões de emissões de gases nos vários setores econômicos e até exigir a redução. Esses poderes vêm sendo reconhecidos pela Corte Suprema do país desde 2007.
Também por aqui temos muito com que nos preocupar. Balanço publicado por este jornal (11/2) mostra que transportamos por rodovias nada menos do que 58% das cargas, ante 25% no sucateado setor ferroviário e 17% em hidrovias. Nada a estranhar, portanto, que o poluente diesel do petróleo responda por 53% das emissões no setor de transporte. Na Rússia, 81% das cargas vão por ferrovias; no Canadá, 46%; na Austrália e nos EUA, 43%. Para os problemas brasileiros contribuem também as emissões de automóveis, fabricados em quantidade cada vez maior e até com redução de impostos.
É preciso mudar essa matriz. Como é preciso atuar também em outros setores. Ainda agora, o Ministério Público Federal está recomendado ao Ibama (Estado, 10/2) que suspenda as operações das fases A e B, assim como anule a licença da fase C, no complexo termoelétrico de Candiota (RS) – movido a carvão -, que “viola desde 2005 os padrões de emissão máximos fixados pelo próprio Ibama”. As duas primeiras fases, juntas, têm 446 MW e a terceira, 350 MW. Mas, na prática, o que está ocorrendo é que o setor de energia recorre cada vez mais a usinas termoelétricas – de energia muito mais cara e altamente poluidoras.
Estudos publicados pela revista Nature (BBC News, 17/2) mostram que chuvas mais intensas têm hoje probabilidade 20% maior de acontecer por causa do aumento das emissões de gases. Já passou, portanto, da hora de mudar nossa postura interna e colocar a política do clima no centro de nossas estratégias, influenciando todas as áreas.
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FONTE : Washington Novaes, artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo. (EcoDebate, 01/03/2011).
Um deles, o engenheiro Michael L. Pinkuss, chama a atenção para a necessidade de avaliar também o acúmulo de sedimentos nos reservatórios e sua influência no nível das águas. É tema que tem preocupado muito, entre outros cientistas, Philip Fearnside, que foi de várias instituições internacionais e hoje está no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Fearnside estudou esse acúmulo em várias barragens da Amazônia – Balbina, Samuel, Curuá-Una, Tucuruí e no projeto de Belo Monte – e alerta também para as emissões de gases que intensificam o efeito estufa emanadas de sedimentos orgânicos que, carreados pelos rios, após os desmatamentos, se acumulam nos reservatórios.
Talvez o tema da revisão de padrões de construção urbanos, rodoviários, hidrelétricos, etc. ganhe mais destaque e leve a modificações, na legislação e na prática, com as notícias que chegam de estudos que estão sendo desenvolvidos na Carolina do Sul, nos EUA, por instituições contratadas pelas maiores empresas de seguros na construção em todo o mundo, que só na área de edificações residenciais têm US$ 500 bilhões segurados e no ano passado perderam US$ 36 bilhões com danos provocados por inundações, vendavais, ciclones, deslizamentos de terras, etc.
No condado de Chester County, a Building House Safety (BHS) está terminando de construir um túnel com 150 superventiladores, capazes de provocar uma corrente de ar a 300 km/h, para poder observar as consequências em casas com os atuais padrões de construção e em outras mais resistentes. “Nós não estamos construindo observando os padrões de hoje nos lugares onde vivemos”, diz Julie Rochman, da BHS. “Construímos da forma em que queremos viver, esquecendo as lições do passado.” E isso tem tido consequências graves com chuvas, ventos, elevações do nível do mar – inclusive na perda de safras agrícolas.
“É muito difícil negar o aquecimento global”, diz Rochman. “Mas as seguradoras estão aí para mostrar.” Tanto assim que elas estão revendo o padrão internacional para seguros nesta área. E providenciando também simuladores de incêndios florestais, para poder criar um sistema de alertas. Porque a cada dia chegam notícias mais complicadas. Uma delas, publicada pela revista Time, é de um estudo do Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo, segundo o qual se pode agravar muito nos próximos 100 anos, com o aquecimento global, a situação já preocupante de falta de água no sudoeste norte-americano, incluindo Califórnia, Nevada, Novo México e Utah. O déficit nessas regiões, que já é alto, poderá quadruplicar. E os custos para remediá-lo poderiam chegar a US$ 2 trilhões.
Não é só ali que aumentam as aflições. No sul dos EUA o problema é, ao contrário, o “excesso” de chuvas. Nessa região, logo depois do Natal, choveu em volume não visto desde 1880. Em Los Angeles, em três semanas, choveu o que costumava cair em um semestre. A Austrália ainda está às voltas com os dramas da inundação em Queensland. Nas Filipinas, desde dezembro do ano passado, 2 milhões de pessoas foram atingidas por inundações. Na África do Sul, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) está alertando para o alto risco de inundações nas próximas semanas, continuando as que já arrasaram dezenas de milhares de hectares de cultivos – e comprometendo a alimentação dos mais pobres. Botswana, Lesotho, Moçambique, Namíbia e Zimbábue enfrentam os mesmos problemas. A África do Sul já decretou “estado nacional de desastre”.
Estranhamente, entretanto, o Partido Republicano dos EUA tenta bloquear na Câmara dos Deputados proposta que mantém poderes da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) para fixar padrões de emissões de gases nos vários setores econômicos e até exigir a redução. Esses poderes vêm sendo reconhecidos pela Corte Suprema do país desde 2007.
Também por aqui temos muito com que nos preocupar. Balanço publicado por este jornal (11/2) mostra que transportamos por rodovias nada menos do que 58% das cargas, ante 25% no sucateado setor ferroviário e 17% em hidrovias. Nada a estranhar, portanto, que o poluente diesel do petróleo responda por 53% das emissões no setor de transporte. Na Rússia, 81% das cargas vão por ferrovias; no Canadá, 46%; na Austrália e nos EUA, 43%. Para os problemas brasileiros contribuem também as emissões de automóveis, fabricados em quantidade cada vez maior e até com redução de impostos.
É preciso mudar essa matriz. Como é preciso atuar também em outros setores. Ainda agora, o Ministério Público Federal está recomendado ao Ibama (Estado, 10/2) que suspenda as operações das fases A e B, assim como anule a licença da fase C, no complexo termoelétrico de Candiota (RS) – movido a carvão -, que “viola desde 2005 os padrões de emissão máximos fixados pelo próprio Ibama”. As duas primeiras fases, juntas, têm 446 MW e a terceira, 350 MW. Mas, na prática, o que está ocorrendo é que o setor de energia recorre cada vez mais a usinas termoelétricas – de energia muito mais cara e altamente poluidoras.
Estudos publicados pela revista Nature (BBC News, 17/2) mostram que chuvas mais intensas têm hoje probabilidade 20% maior de acontecer por causa do aumento das emissões de gases. Já passou, portanto, da hora de mudar nossa postura interna e colocar a política do clima no centro de nossas estratégias, influenciando todas as áreas.
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FONTE : Washington Novaes, artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo. (EcoDebate, 01/03/2011).
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