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domingo, 8 de agosto de 2010

MATE A NATUREZA QUE ELA...TE MATARÁ !!!

Rio Tejo poluído por plantas aquáticas

Uma ameaça vinda de Espanha está a atacar o Rio Tejo. Entre os concelhos de Idanha-a-Nova e Castelo Branco, plantas aquáticas ocupam a superfície do rio. O problema acontecia todos os anos de forma esporádica, mas já o ano passado prolongou-se demasiado no tempo, entre Abril e Setembro.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

FLAGELO DO CLIMA : UM PLANETA DE CONTRASTES !

Na Antiguidade, muitos acreditavam que o mundo era composto por terra, ar, água e fogo. Ainda que a ciência tenha se encarregado de sepultar a ideia, dois “elementos” criaram catástrofes. Na Rússia, conhecida pelo inverno inclemente, a mata arde. No Paquistão, inundações cobrem cidades.– Meu pai ainda está isolado na casa dele. Meu vilarejo inteiro foi inundado. Eu não sei o que fazer.

O testemunho do operário Abid Hussain, de uma localidade em Punjab, dá a dimensão da tragédia no Paquistão, onde chuvas torrenciais e inundações já mataram pelo menos 1,5 mil pessoas e forçaram a retirada de centenas de milhares de casa. Conforme a Organização das Nações Unidas (ONU), 4,2 milhões de paquistaneses foram atingidos pela catástrofe das águas.

– Os números que temos agora são estimativas, porque muitas áreas afetadas continuam inacessíveis – afirmou Manuel Bessler, chefe do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU no país.

Ontem, as autoridades começaram a evacuar meio milhão de pessoas que vivem ao longo do Rio Indo, no sul do Paquistão, região também ameaçada pelas enchentes. Para agravar a situação, em um país já conturbado pela insurgência de fundamentalistas islâmicos e por frequentes conflitos religiosos, o governo está sendo acusado de omissão. Em meio à crise, o presidente Asif Ali Zardari vai para a Europa em visita oficial, gerando críticas ferozes da oposição.

Também ontem, um ônibus caiu em um rio que transbordou na parte paquistanesa da Cachemira, provocando a morte de 20 pessoas. Outras 20 estão desaparecidas nas águas. Oito passageiros feridos foram resgatados, segundo o funcionário público Chaudhry Imtiaz.



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Em meio a uma onda de calor que deve se prolongar pelo menos até o fim de semana, subiu para 50 o número de mortos nos incêndios que devastam grandes áreas de florestas na Rússia e já destruíram cerca de 2 mil residências. A área total em chamas – favorecidas pelo tempo extremamente seco – aumentou ontem para 196 mil hectares, cerca de 7 mil hectares a mais do que no dia anterior. Conforme o Ministério de Situações Emergenciais da Rússia, surgiram 373 novos focos de incêndios, enquanto outros 254 foram apagados. O saldo: 589 incêndios ainda ativos.

– A situação na Rússia, particularmente nas regiões do Volga e Central, continua complicada – disse o chefe da unidade de crise do ministério, Vladimir Stepanov.

Devido à situação, o governo da Rússia anunciou ontem que proibirá as exportações de grãos a partir de 15 de agosto.

A decisão se deve à quebra de produção por conta do clima e da alta dos preços internos. Na quarta-feira, o presidente russo, Dmitry Medvedev, afastou oficiais de unidades militares destruídas pelos fortes incêndios e determinou que o Conselho de Segurança tome medidas para proteger as instalações estratégicas do país, especialmente as nucleares.

Na Capital, Moscou, a temperatura deve alcançar hoje 40ºC, quase o dobro da média para a estação na região. A nuvem de fumaça que encobriu a cidade dificultou o trânsito, mas já começava a se dissipar ontem.
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FONTE : ISLAMABAD/MOSCOU (Diário Catarinense, edição de 6/agosto/2010).

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Os bilhões de Eike e o delírio tupiniquim - LAUDELINO JOSÉ SARDÁ

OBSERVAÇÃO : Este texto,que me foi enviado pela amiga/ecologista/jornalista Flora Neves, é de autoria do professor Laudelino José Sardá e elucida sobre os impactos da instalação do Estaleiro da OSX em Biguaçu, SC, mais uma das tantas agressões que a ilha da magia de Florianópolis vai sofrer.
James Pizarro
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"Lembro-me, no final dos anos 70, da euforia de mineradores, prefeitos e empresários com o anúncio da aquisição da gigantesca máquina Marion, que multiplicaria por 20 o trabalho que um pequeno equipamento fazia na extração de carvão nas minas do Sul do Estado. O delírio foi inconfundível, de políticos principalmente, apostando na multiplicação de emprego e na redenção econômica da região. Bastaram cinco anos para muitas pessoas chorarem diante da destruição ambiental provocada pela Marion, que foi embora fazer mais estragos em outro lugar.

Floripa vive hoje essa alucinação. Bastou o bilionário Eike Batista anunciar R$ 2,5 bilhões à construção de um estaleiro em Biguaçu para políticos, empresários – e até jornalistas – abraçarem a causa, tripudiando argumentos científicos de estudiosos.

O renomado cientista em zoologia aquática, doutor Paulo César Simões, foi contratado pela Caruso Jr., que, por sua vez, foi contratada pela OSX para elaborar o estudo de impacto ambiental e relatório de impacto ambiental (EIA-Rima) do empreendimento. Mas a OSX, empresa de Eike Batista, não divulgou o trabalho do Dr. Simões, simplesmente porque ele recomenda, em um estudo de 18 páginas, que o estaleiro seja construído em outro local onde haja um complexo portuário, fora de baías ou enseadas, para que os efeitos sejam potencializados. Ele foi claro e objetivo ao afirmar que o empreendimento não devesse ser construído em Biguaçu.

Por que não em Imbituba, por exemplo?

Veja o que o cientista observa em suas conclusões:

- Perda de habitat e degradação ambiental: a dragagem gera uma alteração completa de fundo, uma nova topografia que será danosa aos recursos alimentares do boto-cinza, bem como as condições do habitat. Aponta que os impactos serão gravíssimos, permanentes e irreversíveis.

- Perda sócio-econômica e paisagística: a destruição da fauna de fundo, devido a dragagem, afetará todas as comunidades humanas litorâneas do entorno do empreendimento, principalmente a pesca e a vocação turística de Florianópolis e região.

- Poluição química: aumento de riscos de vazamento de óleo combustível devido a circulação de embarcações, que afetará a cadeia alimentar e as praias e populações da costa continental da Baía Norte, nos casos de vento nordeste. O vento sul lançará óleo sobre praias da Daniela e do Forte e sobre a Estação Ecológica de Carijós e APA Anhatomirim. O óleo das atividades industriais do estaleiro será conduzido ao mar, assim como os resíduos industriais, destacando-se o TBT (tributyltin), procedente de tintas anti-incrustrantes aplicadas nos cascos de navios e plataformas. Essa substância atua diretamente na supressão do sistema imunológico.

- Poluição sonora: a implantação da obra, a dragagem e o tráfego de embarcações geram ruídos prejudiciais aos botos, podendo levar ao abandono da área, por atrapalhar a orientação, a comunicação e a busca de alimentos.

- Pressões sobre a APA de Anhatomirim: sofrerá todos os impactos mencionados, no seu ecossistema como um todo.

Li, recentemente, uma desastrosa observação de um internauta salientando que “há gente defendendo os botos enquanto pessoas morrem de fome”. Sem comentário. Essa comparação extrapola todo tipo de raciocínio. Será por que os Estados Unidos e a Europa suspenderam a extração de petróleo em mares profundos, perdendo mais de 300 bilhões de dólares por ano? Teria sido por pressão de ambientalista? Não. Prevaleceu a consciência de que projetos não podem vingar mais facilmente diante dos interesses sociais e planetários.

Floripa parece estar perdida, no desespero, querendo abreviar soluções que já deveriam ter ocorrido ao longo dos últimos 30 anos. Parece que retroagimos aos anos 70, quando a sinalização de um grande investimento derrubava tabus e driblava leis, principalmente as do meio ambiente. De repente, às vésperas de uma eleição, políticos, empresários, entidades de classes gritam, a uma só voz, em defesa do estaleiro de Eike Batista, em Biguaçu. Nunca se viu essa unidade político-eleitoral, nem mesmo depois das inúmeras inundações que mataram centenas de pessoas e tampouco para contrapor à bandalheira de algumas empreiteiras na duplicação da BR-101, no Sul. Nunca que políticos, empresários e a imprensa se uniram em defesa de um projeto turístico para a Ilha.

O estaleiro de Biguaçu é mais uma obra avulsa, daquela que se encaixa em qualquer lugar de uma região sem planejamento, sem sonho e nem perspectiva. Ou será que a Grande Florianópolis já sabe o que quer para 2020? Não. A região está adormecida, vegetando no vazio de idéias e de ações. Os políticos puseram viseira ao se vislumbrarem com os R$ 2,5 bilhões de investimentos do Eike, na esperança de que sejam gerados empregos, riquezas etc. Em países desenvolvidos, os investimentos precisam se compor no ambiente social e econômico. Aqui, pesa o cifrão.

É necessário que paremos de apostar em crescimento acidental. É por isso que a cada final de verão a choradeira é incomensurável, justamente porque Florianópolis, principalmente, continua vivendo do improviso. Ninguém é contra o estaleiro de Eike, mas precisamos dizer ao megaempresário onde que o empreendimento pode ser localizado, para a saúde do meio ambiente e do turismo regional.

Ou será que o morador e veranistas das praias de Jurerê, Canasvieiras, Daniela, de Governador Celso Ramos, Bombas, Bombinhas e de outras passarão a ter uma atração turística? Quem sabe o norte da Ilha terá um motivo para contemplar um belo monumento em sua frente? Será que estaleiro virou atração turística? Deixamos de lado a indústria sem chaminé em nome do Money de Eike!

Imagine, navios trazendo turistas estrangeiros para o Norte da Ilha, tendo o estaleiro do Eike como a grande atração! Reitero que o estaleiro precisa ser viabilizado, mas precisamos pensar na região com um plano estratégico para os próximos 20 anos. Qual a visão de Eike batista da região? Com certeza ele enxerga só o seu empreendimento, mas nós precisamos nos preocupar com a baía, com as praias, com os investimentos turísticos, etc. Ou será que o estaleiro será a redenção de toda a região? Está na hora de fugir à visão tupiniquim e pensar grande, tão grande quanto as potencialidades da Grande Floripa.

Mas, pelo jeito a viseira obliterou o processo decisório. O dinheiro fala mais alto, tanto quanto as esmolas enviadas a milhares de famílias que possam fome no Nordeste. O estaleiro pode até criar 500 empregos, mas isso vai valer a pena para uma região com potencialidades turísticas? O que significará a dragagem da área do estaleiro? O aterro da Baía Sul e o engordamento da praia de Pontas das Canas resultaram nas respostas do mar, que comeu praias, com as de Cachoeira, Casnasvieiras, Cacupé e as do Sul da Ilha. Será que vamos fechar os olhos para os efeitos desastrosos de uma obra que mexerá com todo o ecossistema?
Por favor, a Baía Norte vale mais que R$ 2,5 bilhões e 500 ou mil empregos. Se Eike quer mesmo construir um estaleiro em Santa Catarina há áreas bem mais apropriadas. Imbituba tem tudo o que ele precisa, inclusive um ótimo porto já dragado."
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FONTE : Laudelino José Sardá, Jornalista e professor (ACONTECENDO AQUI - http://www.acontecendoaqui.com.br/index.asp?dep=16&colunista=28&pg=27603)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Preocupam os efeitos de longo prazo no Golfo

Gulfport, Estados Unidos, 4/8/2010 – Embora as últimas notícias da imprensa falem em uma rápida recuperação do Golfo do México, cientistas e biólogos se mostram “profundamente preocupados” com os impactos do vazamento de óleo causado pela empresa British Petroleum (BP), que, provavelmente, vão durar “várias décadas”. Foi o que disse à IPS o oceanógrafo Ed Cake, que também é biólogo marinho e especialista em ostras. “Não estarei aqui para ver a recuperação”, assegurou.

Seu sombrio prognóstico tem origem, parcialmente, na comparação que estabeleceu entre o vazamento da BP e os anteriores, do petroleiro Exxon Valdez, em 1989, em águas do Estado norte-americano do Alasca, e o da plataforma de exploração Ixtoc-1, da Petróleos Mexicanos (Pemex), em 1979, na mexicana baía de Campeche. “Os impactos do vazamento do Exxon Valdez continuam, 21 anos depois, e os do Ixtoc-1, 31 anos mais tarde”, afirmou Ed. “Conheço gente que estuda as ostras em baías da península de Yucatán e estas ainda não voltaram após 31 anos”, acrescentou.

Quanto ao vazamento da BP, atualmente considerado o pior da história, o petróleo começou a se espalhar pelo Golfo do México no dia 20 de abril, quando a plataforma de exploração Deepwater Horizon, que a BP arrendava da suíça Transocean, explodiu e, dois dias depois, afundou. Para Ed o que preocupa são os hábitat de águas profundas. Como a BP usou pelo menos 7,2 milhões de litros de dispersantes químicos, a maior parte do petróleo ficou sob a superfície, depositando-se em boa parte no solo marinho.

Como exemplo, citou “um novo ecossistema de colônias de corais” em um raio de 16 quilômetros do lugar onde explodiu o poço da BP. O bioma foi encontrado por uma empresa de oleodutos quando fazia um estudo de impacto ambiental seguindo a rota de sua canalização. Contudo, esses arrecifes, “cuja existência ninguém conhecia, agora estarão cobertos de petróleo e não se recuperarão”, lamentou o oceanógrafo.

O oceanógrafo Stephen Cofer-Shabica, do Estado norte-americano da Carolina do Sul, estuda a biologia das ilhas-barreira, e fez um acompanhamento dos efeitos dos desastres de Ixtoc-1 na Costa Nacional da Ilha do Padre, no sul do Estado do Texas. Nessas areias ainda há petróleo, informou à IPS. Entretanto, sua principal preocupação é o que faz agora a Louisiana em resposta a esse vazamento da BP. Seu governador, Bobby Jindal, autorizou a dragagem e construção de barreiras de areia próximas das ilhas-barreira de Louisiana, em um esforço para manter o petróleo afastado da costa.

Uma área onde ainda está em curso a dragagem são as Ilhas Chandeleur. Este projeto “é totalmente inútil e um desperdício de dinheiro”, disse Stephen. “Isso é o que considero totalmente incompreensível. Há petróleo flutuando abaixo da superfície e se dispersou. E estas ilhas-barreira não terão nenhum efeito e, de um ponto de vista oceanográfico são biologicamente destrutivas”, acrescentou.

“Em todo caso, a Louisiana está em uma posição precária, pelo afundamento que ocorre no delta, e também há uma elevação mundial do nível do mar, por isso há dois fatores físicos que conspiram contra seus pântanos. Assim, não tem sentido construir ilhas-barreira para impedir a passagem do petróleo”, afirmou. A isto se soma o fato de que os impactos biológicos de criar essas ilhas “são maiores do que os impactos físicos”, segundo Stephen. “São águas rasas, ricas em vermes, ameijoas¸e bactérias que serão arrancados e destruídos”, explicou.

Para Ed também é preocupação o petróleo contaminar as ostras. Tanto a BP quanto a Guarda Costeira são acusados de usar muito dispersante, solvente industrial empregado para que o petróleo desça abaixo da superfície. Por exemplo, o dispersante Corexit 9527 “decompõe o petróleo em microglóbulos. Essa é a parte prejudicial para as ostras, que se alimentam de partículas entre três e 12 milionésimas partes de metro”, informou. Os microglóbulos serão ingeridos, mas quando o organismo absorver parte desse petróleo sofrerá lesões, explicou.

Segundo Ed, as equipes que participam de sua pesquisas realizam um acompanhamento das áreas afetadas pelo vazamento da BP. “No mês passado, em Breton e Chandeleur Sounds, o petróleo estava ali durante o dia, se jogava Corexit à noite e no dia seguinte havia sumido. Para onde? Para o fundo, junto às fazendas de ostras. Assim, nesse ponto há muito menos água onde esse Corexit pode se dispersar, e isso pode ter impacto nas ostras”, disse. Para ele, a BP quis “afundar” o petróleo para tirá-lo da vista do público.

Chasidy Fisher Hobbs, da organização Emerald Coastkeeper, com sede em Pensacola, no Estado norte-americano da Flórida, integra a Junta de Assessoramento Ambiental da cidade e o Comitê Ambiental Cidadão do condado de Escambia, além de dirigir a firma de litígios ambientais Geography & Environment. “Estamos envenenando toda a cadeia alimentar do Golfo do México. É uma loucura, é criminoso. Preocupa profundamente o impacto ecológico e humano no longo prazo”, disse à IPS.

Segundo Ed, o petróleo que está no fundo do Golfo do México “é ingerido por bactérias”, e na medida em que estas crescem consomem o oxigênio existente nessa área, o que criará zonas mortas.
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FONTE : Dahr Jamail, da IPS (IPS/Envolverde)

“O mundo precisa de novo contrato social” - ADOLFO PÉREZ ESQUIVEL

Barcelona, Espanha, 4/8/2010 – “Temos que começar a pensar em um novo contrato social em escala planetária, e também dentro de cada país”, afirmou em entrevista à IPS o ganhador do prêmio Nobel da Paz 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel. Aos 78 anos, Esquivel se mantém muito ativo em defesa dos direitos humanos e da educação para a paz.

Atualmente, é um dos promotores da criação do Tribunal Penal Internacional para o Meio Ambiente, sob o princípio de que os desastres ecológicos são um crime contra a humanidade. Para isso é preciso modificar o Estatuto de Roma, que em 1998 deu vida ao Tribunal Penal Internacional, em vigor desde 2002.

Em uma de suas frequentes viagens a Barcelona, Esquivel conversou com a IPS sobre a situação da América Latina e os avanços para uma cultura de paz no mundo.

IPS: Desde o fim das ditaduras militares na América Latina, como a região evoluiu?

Adolfo Pérez Esquivel: Depois das ditaduras impostas pela política dos Estados Unidos, houve fatos importantes que fazem com que a América Latina mude para democracias condicionadas ou restritas. É um processo rápido, vinculado à Guerra das Malvinas (1982, entre Argentina e Grã-Bretanha). Antes, o confronto era Leste-Oeste, entre Estados Unidos e a antiga União Soviética. Com a Guerra das Malvinas, o problema passa a ser Norte-Sul. Logo, Washington se dá conta de que é preciso promover democracias. Mas a política neoliberal, as privatizações, a apropriação dos recursos naturais e não naturais continua.

IPS: A América Latina continua sendo importante para Washington?

APE: Apesar de precisar se concentrar nas guerras do Afeganistão e Iraque, os Estados Unidos nunca deixaram de estar atentos à América Latina. Quando algum país se desvia dessa hegemonia, começa a ter conflitos, como os que ocorrem na Venezuela, Bolívia, Equador ou Argentina. Quando o deposto presidente Manuel Zelaya, de Honduras, começou a ter outra visão da situação de seu país, sofreu um golpe de Estado legalizado pelo parlamento e pelo Poder Judicial. É uma experiência-piloto para aplicar em outros países, no Paraguai, por exemplo, que passa por algo semelhante.

IPS: Então, existe um reposicionamento dos Estados Unidos com a região?

APE: Estão criando uma “pinça” militar no continente, com o Plano Puebla-Panamá, para a América Central e o Caribe, o Plano Colômbia, com sete bases militares sob o pretexto de combater o narcotráfico e o terrorismo, a Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil, Paraguai) e, nas Ilhas Malvinas, uma base militar com a Grã-Bretanha. Além disso, empresas multinacionais buscam na região os recursos que faltam nos países centrais. Apesar de tudo, surgem forças sociais, culturas e políticas fortes. O governo da Bolívia, por exemplo, está recuperando as empresas nacionais e os recursos naturais que estavam privatizados. São passos importantes, como converter-se em um Estado plurinacional, com reconhecimento dos povos indígenas, ou medidas para superar o analfabetismo e os problemas de saúde. Como ocorre na Venezuela.

IPS: Mas há críticas a esses governos. Qual é a sua percepção?

APE: Não existem democracias perfeitas. O que existe são democracias que podem ser perfeitas, podem melhorar. Por exemplo, a Venezuela é uma democracia diferente da, aparente, existente na Colômbia, onde existe repressão, controle de grupos paramilitares, intervenção das Forças Armadas, quatro milhões de refugiados internos e cinco milhões de exilados. Os colombianos votam, mas o que garante uma democracia não é o voto, é a participação do povo. Com todas as dificuldades e erros, países da América Latina deram passos qualitativos na construção de democracias participativas. São espaços a serem construídos.

IPS: Com o presidente Barack Obama as coisas mudaram?

APE: Não. Obama chegou ao governo, mas não ao poder. Ele se comprometeu a acabar com a guerra do Iraque e a intensificou, e também com a do Afeganistão. Não conta com condições de governabilidade como os presidentes da Bolívia, Venezuela e Equador. Seus governos estão unidos pelo Mercosul, Unasul ou Banco do Sul. É a única forma de enfrentar os grandes poderes internacionais.

IPS: Essa união pode impedir o golpe de Estado, que mencionou, no Paraguai?

APE: Claro. A presidente da Argentina, Cristina Fernández, fez algo interessante. No dia 25 de maio, festa da pátria e do bicentenário, recebeu Manuel Zelaya com honras de presidente em exercício. Isto incomoda os Estados Unidos, que perdem sua hegemonia. A América Latina tem de fortalecer sua unidade, porque possui grandes recursos naturais, e a próxima guerra será por água, recursos energéticos e alimentos. A única maneira de se fortalecer são as alianças econômicas, culturais e políticas.

IPS: O senhor citou forças sociais latino-americanas emergentes. Quais são?

APE: Uma é o movimento de mulheres. A mulher é protagonista em toda a região, dos povos indígenas às esferas científicas, tecnológicas e do pensamento. Outro movimento importante é o dos indígenas, que começaram a recuperar sua identidade, sua cultura, sua espiritualidade e a se organizar. E a terceira são os movimentos sociais, que estão gerando uma nova forma de fazer política e construindo uma democracia participativa. Isto leva a algo no qual venho insistindo: temos de começar a pensar em um novo contrato social em escala planetária, e também dentro de cada país. Quando a Real Academia Espanhola realizou um encontro da língua, nós fizemos um Congresso das Línguas, porque não somos um país monolinguista e temos de respeitar essa diversidade. Quando falo de um novo contrato social também me refiro a isto, porque a dominação não começa pelo campo econômico, mas pelo cultural.

IPS: Há avanços na campanha para criar o Tribunal Penal internacional para o Meio Ambiente?

APE: Entre as coisas que faço, presido a Academia das Ciências do Meio Ambiente de Veneza, integrada por 120 cientistas, onde trabalhamos os grandes problemas ambientais. Nos direitos humanos se vê os danos às pessoas, mas não aos povos. Em 1976, a Liga Internacional pelos Direitos e pela Liberdade dos Povos proclamou a Declaração Universal dos Direitos dos Povos. E creio que é preciso trabalhar no dano aos povos indígenas, a populações inteiras, pela contaminação da água e do meio ambiente. Em 2001, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou um informe dizendo que a cada dia morrem no mundo mais de 35 mil crianças vítimas da fome. Eu chamo isso de terrorismo econômico. Estamos propondo uma reforma do Estatuto de Roma. Ao mesmo tempo, é necessário lançar uma campanha internacional para que os povos pressionem. A pressão para que os governos façam mudanças deve partir da base.
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FONTE : Clarinha Glock/IPS (Envolverde/IPS)