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quinta-feira, 4 de março de 2010

NADA É MAIS FORTE - Montserrat Martins

Levei meu filho para conhecer as árvores centenárias da Vila Mimosa, em Canoas, área de Mata Atlântica com espécies ameaçadas de extinção, inclusive o Pau-Brasil. Uma liminar que protegia a área foi suspensa e as máquinas de uma construtora começaram a "limpar" o terreno, desfigurando o ambiente, embora as árvores centenárias ainda estejam de pé.

Não é preciso ser biólogo para compreender que a construção de prédios em meio àquelas árvores significa a destruição daquele 'habitat' com 38 espécies de árvores nativas e 16 de aves, muitas destas também ameaçadas de extinção porque aquele era seu local de repouso no corredor até o Delta do Jacuí. Também não é preciso ser ambientalista para entender a perda da qualidade de vida na Região Metropolitana, por devastações destas. As enchentes urbanas, por exemplo, também tem a ver com a diminuição dos locais para infiltração das águas, pela substituição das áreas naturais por concreto e asfalto. Assim como alterações do clima da região, decorrentes dos mesmos fatores.

Dizem que nada é mais poderoso que o dinheiro e por isso a destruição é inevitável. Mas diziam isso da escravidão e do colonialismo há pouco mais de um século e até a metade do século XX era moda matar índios nos filmes de faroeste, época em que nem se falava em preservar nada. Hoje, felizmente, são filmes como Avatar que nos envolvem mais - com ambientes, a propósito, que só existem em alguns locais como a Vila Mimosa.

Se hoje ainda prevalecem formas predatórias de ganhar dinheiro, está na hora de avançarmos para outro modelo de civilização que inclua a consciência do valor inestimável de alguns tesouros ambientais para nossas próprias vidas. A ponto de que uma construtora que adquira uma área daquelas pense em investir nela como um Jardim Botânico e promover o ecoturismo. Mesmo como negócio, destruir regiões de Mata Atlântica é como "matar a galinha dos ovos de ouro" que nos sustenta. E a história da humanidade está repleta de lições de evolução em que podemos aprender que, como já disse Vitor Hugo e Marina tem repetido, "nada é mais forte que uma idéia cujo tempo chegou".
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FONTE : Montserrat Martins, médico psiquiatra, P. Alegre.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Parque Tecnológico – para que e para quem serve teu conhecimento?

A produção de ciência e tecnologia é um dos pilares das Universidades, pois contribui para o desenvolvimento da sociedade nas mais diversas esferas, e pode auxiliá-la a ser mais livre e soberana. Para que isso ocorra, contudo, é preciso que o conhecimento produzido esteja em consonância com as reais necessidades da população. É, portanto, uma condição sine qua non que este seja de domínio público. Infelizmente não é esse o projeto que está sendo apresentado pela Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A “UFRGS-TEC” será um “espaço destinado à implantação de empresas nos campi da UFRGS, incluído no conjunto de ações desenvolvidas visando o pleno desenvolvimento da interação universidade-empresa em nossa Universidade” (Proposta de Implantação do Parque Tecnológico, artigo 2 – Objeto). Ou seja, aprimoramentos tecnológicos e inovações científicas voltados às empresas participantes. Uma materialização da lógica da apropriação dentro de um espaço público. Segundo o próprio projeto “o estabelecimento que possibilitem o fluxo de informações entre empresas, universidades e centros de pesquisa”, sem dar espaço à produção intelectual social, que vise a constituição tecnológica para a sociedade como um todo e não apenas setores dela, tolhindo a capacidade e a potencialidade de se inovar não apenas para alguns, mas para o povo.

Infelizmente a lógica da apropriação privada do público já é uma realidade na UFRGS, materializada “nos mecanismos de transferência de tecnologia que já são prática na instituição” (idem, p.3). O Parque Tecnológico virá a aprofundar esses mecanismos, explicitada na concepção e missão contidas no projeto, “transferindo a tecnologia de P&D da Universidade para sociedade através do setor produtivo [empresas privadas] e administrar o fluxo de conhecimento e tecnologia entre a Universidade, empresas e mercados”.

Mas vejamos alguns dos objetivos específicos…

“1. Criar um ambiente propício e ágil, para a transferência de tecnologia, orientado pela excelência da pesquisa desenvolvida na Universidade, para uso do setor produtivo, gerando riqueza para a região e retorno para a Universidade.”

“6. Facilitar a transferência de tecnologia da Universidade às empresas instaladas.”

O ritmo da produção científica não deveria ser ditado pelos imperativos do mercado e sua necessidade de inovação para aprofundar a acumulação de riqueza entre poucos. O retorno para a Universidade é demasiado pequeno em relação às vantagens obtidas pelas empresas que se instalarem no Parque.

“2. Considerar os aspectos geográficos de distribuição espacial das diferentes unidades acadêmicas, contemplando as diversas Unidades Universitárias que apresentam vocação para a interação com o setor produtivo, seus recursos humanos e os seus laboratórios localizados nos quatro (4) campi da UFRGS.”

Ou seja, as Unidades que apresentem projetos de interação que não visem imediatamente à produção estarão de fora das atividades do Parque.

“15. Oportunizar a integração do papel da educação superior na sociedade bem como incremento da cultura da inovação das empresas.”

Caberia perguntar: qual o papel da educação superior na sociedade segundo a concepção contida nesse projeto?

“21. Promover e organizar atividades de formação tecnológica avançada, dirigidas a pessoal e quadros das empresas associadas.”

Essa atividade seria considerada como Extensão? Qual o papel e a concepção de Extensão que queremos?

Segundo o projeto, “A extensão também poderá ocorrer através da prestação de serviços (como ensaios de materiais, p.ex.) qualificada, oferecida às empresas do Parque por laboratórios especializados da UFRGS”. A Extensão aparece reiteradamente com seus objetivos invertidos segundo os pressupostos do Parque.

Para coroar todo o processo de desvirtuamento do papel da Universidade, da relação que deve estabelecer com a sociedade, há um evidente ataque ao controle e destinação públicos de suas atividades. O Conselho Diretor da UFRGS-TEC não conta com a representação dos três segmentos da comunidade acadêmica (docentes, discentes e técnicos) e ao passo que há representação das entidades de classe empresariais, não há nenhuma representação dos trabalhadores, através de suas Centrais sindicais ou entidades representativas.

Por essas e outras questões, convidamos-te a defender uma UFRGS pública e popular, que não coloque sua estrutura física e humana a serviço de interesses privados. Diga não a esse Parque Tecnológico!

Grupo de Trabalho Universidade Popular -

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PARECER DE VISTA AO PROCESSO Nº 23078.032080/09-01

Através da autonomia universitária, organizamos nossa estrutura e planejamento a fim de cumprir os diversos papéis que nossa instituição representa ou já representou para a sociedade.
Como uma entidade pública, nossos objetivos deveriam sempre buscar compreender a sociedade como um todo, com o discernimento de utilizarmos o princípio da equidade de forma correta, tratando os segmentos que se apresentam na sociedade em patamares desiguais também com uma atenção desigual, almejando assim romper a atual tendência de concentração de riquezas e efetivamente contribuirmos com o desenvolvimento de uma sociedade igualitária.
Segundo os proponentes do Parque Tecnológico, “existem diversos elementos que permitem afirmar que o parque científico e tecnológico da UFRGS já é uma realidade, materializado nos mecanismos de transferência de tecnologia que já são prática na Instituição” explicitando ainda que “atualmente existem, na UFRGS 562 parcerias institucionais envolvendo protocolos, convênios e contratos: 101 com instituições internacionais, 235 com instituições públicas, 79 com instituições privadas e 147 com ONG’s, sindicatos e associações”.
Demonstrando que a nossa qualidade e excelência em pesquisa se mantêm e, segundo dados dos próprios proponentes, segue um crescimento contínuo a partir de acordos com instituições que, em sua maior parte, não funcionam a partir da lógica de mercado.
Os proponentes deixam claro que “o parque pode se configurar no entorno da Universidade atraído pelas ‘leis do mercado’” sendo que, como órgão especial de apoio de uma universidade pública, os critérios para a escolha de instituições parceiras não deveria seguir uma lógica privada e sim respeitar os princípios e objetivos de nossa Universidade.
A partir da explicação dos proponentes que “a extensão também poderá ocorrer através da prestação de serviços (como ensaios de materiais, p. ex.) qualificada, oferecida às empresas do parque por laboratórios especializados da UFRGS.” e ainda que “o parque estará também fortemente vinculado às atividades de ensino da UFRGS” através da oferta de estágios, observa-se que o conceito de extensão é confundido com a idéia de prestação de serviços e que existe uma inversão de critérios quando um espaço público que deveria servir para a construção de estruturas que atendessem ao ensino de todos os estudantes da UFRGS é restringido ao acesso de poucos estagiários que poderiam ter acesso a estes estágios nas instalações das próprias empresas e não a partir da locação de espaços públicos.
Por todos os argumentos expostos aqui, pelo entendimento que o parque tecnológico estrutura-se como facilitador institucional para implementação de linhas de pesquisa e estruturas físicas que são regidas pelo conceito de “iniciativas de concorrência”, em detrimento de outros empreendimentos com sistemática e funcionamento diferenciado e que não receberão essa facilitação e a partir do entendimento de que toda a área da universidade, assim como sua estrutura e conhecimento deve ser pública e servir a toda a sociedade e não a uma pequena parcela, aqui entendida como as empresas que serão beneficiadas dentro de um sistema de concorrência que prejudicaria tantas outras que não terão este mesmo acesso, não se reconhece o mérito do projeto como adequado a uma universidade pública como a UFRGS e não há o entendimento de que exista uma efetiva necessidade de sua implantação.
É o parecer.
PAULA BRITTO AGLIARDI
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FONTE : CEA - Centro de Estudos Ambientais

terça-feira, 2 de março de 2010

Catadores de lixo reconhecem o valor do próprio trabalho


Após participar de experiências em projetos de educação socioambiental com catadores de materiais recicláveis na Grande São Paulo, entre 1997 e 2008, a educadora ambiental Angela Martins Baeder aprofundou sua reflexão teórica sobre o tema em sua tese de doutorado defendida na Faculdade de Educação (FE) da USP. No estudo Educação Ambiental e Mobilização Social: Formação de Catadores na Grande São Paulo, ela analisou, do ponto de vista da educação ambiental, esses processos de pesquisa de intervenção que visam promover políticas públicas de inclusão social de catadores, bem como as atividades educativas em três projetos realizados entre esses profissionais.

Uma delas foi a associação de moradores do núcleo habitacional “Pedra sobre Pedra”, localizada na Zona Sul de São Paulo, próximo à represa Billings. Os moradores associados realizavam mutirões de limpeza, coletando grandes quantidades de material reciclável, recolhendo o lixo de porta em porta e evitando, assim, que ele fosse jogado no meio ambiente. Vários moradores tiravam dali o seu sustento.
A educação ambiental promoveu a autovalorização entre os catadores

Angela explica que o desafio do projeto era tornar essa prática um processo coletivo e sistematizado. “Nosso grupo de pesquisa do Laboratório de Ciências Humanas da FE, juntamente com técnicos da prefeitura, acompanhou a associação de moradores após mutirões de limpeza e tentou mobilizar e apoiar um projeto comunitário de educação ambiental de coleta seletiva. O objetivo era melhorar a qualidade de vida desses catadores, que já faziam um trabalho ambiental importante com a coleta numa região de mananciais”, conta.

A pesquisa foi participativa. O grupo de Angela realizou reuniões na associação e conseguiu a cessão de terrenos para a instalação de galpões, meios de transporte para os materiais, além de levantar fundos para o projeto.

A primeira reunião de grandes dimensões, em 2000, foi a que instituiu o “Fórum Recicla São Paulo”, que reuniu diversos grupos da Grande São Paulo. “No Fórum, fizemos um levantamento sobre a quantidade de pessoas e de materiais coletados por elas sem apoio do poder público”, relata a pesquisadora. O Fórum se tornou um movimento social de catadores, que contribuiu para a construção de uma identidade entre os trabalhadores. “Eles passaram a entender a importância do trabalho que realizavam”, completa.

Em 2003, sob demanda da Prefeitura de São Paulo, o grupo de apoiadores realizou a “Capacitação”, que foi um trabalho educativo para a inclusão de catadores no sistema de coleta da capital, nas chamadas “Centrais de Triagem”, que recolheria e triaria os resíduos recicláveis da região, gerando emprego e promovendo, assim, a inclusão social dos catadores.

O terceiro processo educativo analisado ocorreu no interior do “Projeto Coleta Seletiva Brasil Canadá”, elaborado por universitários e pesquisadores, catadores e representantes de prefeituras, no início de 2005. Os objetivos eram: buscar soluções, social e ambientalmente sustentáveis, para os resíduos produzidos nas grandes metrópoles; melhorar a qualidade de vida e de trabalho dos catadores; e aumentar a quantidade de resíduos reciclados.

A pesquisa analisou de forma interativa e participante esses três grandes projetos, identificando a importância dessas ações educativas voltadas para a autonomia dos catadores e para a gestão do problema socioambiental dos resíduos sólidos na cidade. “A importância do estudo está na identificação de elementos que contribuam para a superação das péssimas condições de vida, de trabalho e discriminação social a que está submetida uma grande quantidade de trabalhadores”, analisa Angela.

Para ela, o resultado mais importante do estudo foi, principalmente, a possibilidade de ampliar a autovalorização por parte dos catadores, que passaram a enxergar a importância do trabalho que realizam, e a necessidade de se organizar coletivamente (em cooperativas, associações, etc.) para competirem no mercado de trabalho de forma cooperativa e não competitiva.

Transição
Apesar dos resultados positivos dos projetos analisados no estudo, Angela ressalta que as políticas públicas e as questões ambientais ainda passam por um processo de transição e que muitas dificuldades ainda persistem, como os baixos preços pagos pelos materiais coletados, a dificuldade de interação com os novos governos e com as Centrais de Triagem de Coleta de São Paulo, entre outras. A professora continua envolvida com os catadores e ajuda a promover a articulação dos grupos de coleta seletiva da capital e da construção de políticas públicas com sua inclusão.

Segundo um levantamento feito pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP em 2006, existem no Brasil aproximadamente 200 mil catadores de lixo vivendo em situações de intensa exclusão social. Apesar de realizarem um trabalho de grande importância social, a maioria não consegue suprir as necessidades básicas, como comer e se abrigar.

Obs: O “Projeto Coleta Seletiva Brasil Canadá” teve o apoio da Canadian International Development Agency (Cida) e da Association of Universities and Colleges of Canada (AUCC).
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FONTE : Roberto Andrade (Envolverde/Agência USP de Notícias)

Derretimento de geleiras deve provocar o desaparecimento de cidades


Vindas das mais variadas fontes, as notícias sobre o futuro da humanidade não são nada boas. Não há mais volta: mesmo que mudemos radicalmente nossa forma de relação com o planeta a partir de hoje, o prejuízo causado por nossas ações predatórias já atingiu um nível tamanho que o derretimento das geleiras deve provocar o desaparecimento de todas as cidades ao nível do mar no máximo até o final deste século. Essa triste previsão está num artigo publicado há pouco mais de um mês pelo cientista britânico James Lovelock, autor da famosa Teoria de Gaia (segundo a qual a Terra assemelha-se a um organismo vivo, com mecanismos para auto-regular suas funções).

Ainda segundo Lovelock, a elevação da temperatura em até 8ºC nas regiões temperadas e 5ºC nos trópicos vai provocar também, antes de 2100, impactos desastrosos no equilíbrio ecológico, como a extinção maciça de espécies vegetais e animais e o desaparecimento de vastas áreas selvagens como a Floresta Amazônica, decretando o fim da maior parte da vida na Terra, com a morte de milhões, talvez bilhões de pessoas. Na opinião do cientista, governos sérios e responsáveis deveriam começar a desenvolver cartilhas com orientações aos sobreviventes sobre como lidar com as difíceis condições de vida neste futuro sombrio.

A reação do mundo a um alerta como esse, vindo de um dos mais reconhecidos cientistas do nosso tempo, deveria ser de comoção popular. Deveríamos parar tudo e começar a centrar nossos esforços em formas de ao menos minimizar os tenebrosos efeitos anunciados. Mas nada disso aconteceu e tudo segue normalmente como se essa fosse apenas mais uma notícia trivial e corriqueira. Um jornal publica o artigo, outro dá uma nota curta e seca e assim vamos tocando nossas vidas normalmente.

Essa atitude seria compreensível se a visão de Lovelock fosse apenas uma no meio de outras conflitantes. Poderíamos confortavelmente acusá-lo de louco, exagerado, catastrófico. Mas não é o caso. Já não são levadas a sério as cada vez mais raras correntes científicas que colocam em dúvida o fato de que a Terra sofre um processo de aquecimento acelerado, dificilmente reversível.

Segundo o Instituto Goddard de Estudos Espaciais, da Nasa, 2005 foi o ano mais quente desde o início dos registros climáticos modernos, em 1890. E, pior, de acordo com o instituto, todos os cinco anos mais quentes durante este período ocorreram na última década, mostrando clara tendência de aquecimento global. Um representante do órgão declarou à imprensa que, usando medições indiretas que vão a um passado ainda mais remoto, o ano passado foi provavelmente o mais quente dos últimos milhares de anos. Mais uma notícia que lemos e viramos a página, sem dar muita atenção.

Mais: um aumento de 3ºC na temperatura média da Groelândia duplicou a quantidade de água que suas geleiras vêm derramando no Oceano Atlântico, segundo recentes pesquisas do Laboratório de Propulsão a Jato e do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Há registros de diminuição das geleiras no Himalaia, nos Andes, no Monte Kilimanjaro, e a única estação de esqui da Bolívia, Chacaltaya, fechou porque sua neve está acabando.

Acha pouco? A lista é longa, o espaço de um artigo é limitado. O diretor da Pesquisa Antártica do Reino Unido, Chris Rapley, disse, em janeiro passado, durante reunião da Sociedade Americana para o Avanço da Ciência, que algumas partes da camada de gelo da Antártida começaram a derreter em um ritmo assustadoramente intenso e anormal. Rapley afirmou que, há apenas cinco anos, a Antártida era considerada como um gigante adormecido em termos de mudança climática. "O gigante despertou e é melhor que se preste atenção nele", disse o cientista. Ninguém parece muito preocupado. A humanidade finge não ver o que está acontecendo.

Enquanto isso, James Hansen, o principal especialista em mudança climática da Nasa, denuncia uma tentativa do governo dos EUA de silenciá-lo. A campanha começou depois de um discurso proferido em dezembro passado, quando Hansen pediu a rápida redução na emissão dos gases estufa, relacionados ao aquecimento global. Segundo ele, diretores da Nasa deram ordem aos responsáveis pelas relações públicas do órgão para revisar os textos de suas futuras conferências, suas publicações no sítio do instituto na Internet e para controlar os pedidos de entrevistas de jornalistas.

Há caminhos que podem ser trilhados se a humanidade realmente abrir os olhos para a questão. Uma série de ações voltadas ao fomento de fontes de energia renováveis, em um livro elaborado por 250 analistas internacionais, foi apresentada recentemente pelo diretor-executivo da Agência Internacional da Energia, Claude Mandil. Aparecem, entre elas, as energias produzidas pelo vento, o sol, as fontes geotérmicas e os oceanos. Ótimo, não? Não, se o raciocínio que só encontra sentido na produção otimizada e no lucro continuar reinando absoluto. Segundo o próprio Mandil, o grande problema de suas propostas é o custo econômico alto para trazê-las para a prática, o que, segundo diz, inviabiliza suas iniciativas e faz os governos se mostrarem reticentes a elas.

Por que é que a gente é assim? Por que fechamos os olhos para estes alertas, apesar de estar claro que é apenas uma questão de tempo para as conseqüências nefastas de essas previsões começarem a afetar brutalmente nossas vidas e, principalmente, as vidas de nossos filhos e netos? Acho que a nossa espécie, apesar da capacidade relativamente bem desenvolvida de prever o futuro, é menos competente na hora de mudar suas atitudes, mesmo quando colocada contra a parede. Enquanto não superarmos esta limitação, não haverá espaço para a esperança.
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FONTE : Danilo Di Giorgi (Envolverde/Rebia)

O consumo entra na era dos produtos verdes


A segunda década do século 21 começa com uma profunda mudança nos hábitos de consumo, onde o ciclo de vida dos produtos e seus impactos socioambientais terão mais peso do que apenas o preço e a marca na hora da compra, indicando que os tempos de consumismo desenfreado será deixado para trás, é o que indicam pesquisas recentes de opinão no Brasil e no exterior.

"Vamos viver uma década onde não é só o produto que vai contar e sim toda a história por trás dele", disse o sociólogo Dario Caldas, fundador da empresa de pesquisas de opinião Observatório de Sinais (ODES).

Com a popularização de questões ambientais, como as mudanças climáticas e seus efeitos, cada vez mais as pessoas estão se preocupando com o meio ambiente, mudando alguns comportamentos em prol do coletivo e se predispondo a pagar mais por bens ou serviços menos impactantes.

O reflexo disto, capturado pelas pesquisas, é que as pessoas já estão dispostas a pagar até 10% a mais por produtos que causam menos impactos socioambientais.

De acordo com a pesquisa 'Consumo em tempos de crise' feita pela ODES, 89% dos entrevistados acreditam em uma forte relação entre o excesso de consumismo e o aquecimento global, enquanto 84% afirmam priorizar produtos nacionais no momento da compra, indicando que querem produtos feitos localmente.

"Vamos ver grandes modificações no mundo, que antes demoravam décadas para acontecer e hoje acontecem muito mais rápido, em poucos anos, e podemos ter uma consciência muito maior que hoje", disse Beth Furtado, diretora da consultoria de marketing Alia.

De acordo com Furtado, a pesquisa 'Our Green World', realizada pela TNS Research International, feita em 2008 com mais de 13 mil pessoas em 17 países, constatou que 40% dos entrevistados mudaram algum detalhe do seu comportamento para beneficiar o meio ambiente, entre os brasileiros que participaram da pesquisa, a taxa foi de 65%.

Já a pesquisa do ODES mostrou que o número de pessoas que mudaram hábitos de alguma forma é de 92%, sendo que a racionalização no uso da água foi a resposta para 71% das pessoas, a diminuição na geração de lixo esteve em pauta nas respostas de 66% e a economia de energia em 42%.

Além disso, a TNS concluiu que 83% dos brasileiros consideram-se dispostos a pagar mais por produtos ambientalmente amigáveis, ficando em segundo lugar na pesquisa, seguindo a Tailândia, onde 94% aceitam o aumento no custo.

No contexto mundial da pesquisa, 59% dos entrevistados pagariam esse aumento de preços.

Dos 17 países pesquisados, o Reino Unido é o que tem menos cidadãos dispostos a pagar mais por produtos verdes. A média mundial da aceitação do aumento de preço é de 68%.

Segundo Caldas, isto indica que a tecnologia usada e os processos de produção ganham mais importância na concepção de um produto, desafiando a hegemonia da inovação guiada apenas pelo desejo de consumir.

Ele entende que estes 'produtos verdes' agora devem ter um design que incorpore tecnologias que causem menos impactos ao meio ambiente, promovam a inclusão social de vários grupos e faixas etárias e levem conta a convergências de mídias para produtos tecnológicos.

"Além disso, eles deverão ter a cara da simplificação e do 'feito à mão'", concluiu.

Para a ODES, 93% dos brasileiros entrevistados declararam que vão comprar cada vez mais produtos sustentáveis e 33% afirmam que saber a origem do produto é decisivo para a escolha.

De acordo com os dados da TNS, 37% dos brasileiros aceitariam pagar até 5% a mais e 36% pagariam 10% a mais por produtos com estas características. A pesquisa também identificou que 95% dos brasileiros apoiam que o varejo elimine marcas não sustentáveis; nos outros 16 países, esse número foi de 71%.

No Brasil, a pesquisa revelou que 9% dos entrevistas pagariam até 20% a mais por produtos com menor impacto socioambiental. Na Argentina e no México, 11% e 10% dos entrevistados pagariam se encaixaram neste grupo.

"A geração 2010 é a que adquiriu os direitos emocionais de dizer 'eu não preciso', o que é uma grande ameaça às empresas que não se adequarem", afirmou Caldas.

O sociólogo considera que a rastreabilidade e os detalhes da produção também influenciarão no consumo, fato comprovado pela a pesquisa 'Our Green World' (Nosso Mundo Verde em português), da TNS, que mostrou que 61% das pessoas declaram-se influenciadas por empresas verdes.

No Brasil, essa taxa sobe para 81% dos entrevistados.

Porém, 44% desses mesmos brasileiros acreditam que as empresas fazem greenwashing, ou seja realizam ações ambientais somente por marketing e não incorporam os conceitos socioambientais nos seus processos de produção.

Apesar de tudo isso, a pesquisa 'Estilos Sustentáveis de Vida' do Instituto Akatu, realizada em dezembro de 2009 com jovens de idade entre 19 e 35 anos mostrou que 86% dos entrevistados apresentam consciência ambiental, estando mais preocupados com moradia, segurança e trabalho do que com o meio ambiente. A boa notícia é que o estudo identificou que estes mesmos jovens estão abertos ao assunto, mesmo que não o conheça tão profundamente.

"Falta informação", disse Furtado, concluindo que o Brasil ainda tem um grande mercado de sustentabilidade para ser explorado.

Para Caldas, a aplicação da tecnologia para desenvolver produtos e serviços com menor impacto socioambientais é uma saída para o garantir o futuro do capitalismo.

"A sustentabilidade está para o século 21 assim como a tecnologia esteve para o século 20", afirmou Caldas, que considera "A sustentabilidade será a saída para o capitalismo. Imagine quanto investimento será necessário para reconstrução do mundo para um modelo sustentável".
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FONTE : Fernanda Dalla Costa (Envolverde/Rebia)

segunda-feira, 1 de março de 2010

A CAVALGADA DA GORDURA - Paulo Santana

Qual o sentido da Cavalgada do Mar? Depois que morreram dois cavalos e 15 adoeceram no primeiro dia da cavalgada, acendeu-se a polêmica.

Fui me socorrer no nosso mais importante tradicionalista. O folclorista Paixão Côrtes não vê propósito nessa cavalgada. Disse mais: que cultuar a tradição não é só cantar, dançar e beber.

As entidades de proteção dos animais protestam.

Pensando bem, parece tanto ridículo quanto cruel submeter os cavalos ao percurso de 240 quilômetros em oito dias. Ainda por cima, cada um com um cavaleiro no dorso. É desumano. Se já o é para o cavaleiro, imagine para o cavalo.

Some-se a isso a época por todos os títulos inadequada, calor sufocante e sol escaldante.

Sob o ponto de vista dos cavalos, há vários inconvenientes que levam à morte e à doença dos animais, mas ressalto dois: grande parte dos cavalos é forçada ao caminho longo com obesidade, animais bem tratados e nunca treinados, mais aumenta a gordura.

Outra questão é que, quanto maior o peso do cavaleiro, maior o esforço que o cavalo terá de fazer. Grande parte dos cavaleiros é de obesos. Se o cavalo não estiver preparado, pode não aguentar o peso de sua montaria, principalmente debaixo de sol forte, como é o caso dessa cavalgada.

E os cavalos que mais sofrem nessa cruzada litorânea são justamente os cavalos mais obesos, o que estão acima do peso ideal. Dizem os veterinários que os cavalos gordos, além de suportar o esforço, são os mais suscetíveis de ataques cardíacos. E a gordura dos animais é encarada como sinal de beleza pelos proprietários. São animais sedentários, montados apenas nos finais de semana e superalimentados.

Ora, para qualquer prova de resistência é necessário, como nas maratonas, um treinamento intenso para os participantes. Esses cavalos não têm treinamento algum e são jogados a essa superdistância sem nenhuma orientação.

Temos, então, gordura dupla: gordura dos cavalos, gordura dos cavaleiros, segundo foi divulgado por Zero Hora.

Devia se intitular de Cavalgada da Gordura.

Só que o cavaleiro gordo monta o cavalo e toca para a praia. Enquanto que cabe ao cavalo o sacrifício extremo de transportar em seu lombo o cavaleiro gordo.

É uma desumanidade. Ou uma desequinidade.
O meu amigo Vilmar Romera, presidente da Fundação Cultural Cavalgada do Mar, saiu-se graciosamente ao explicar a morte dos cavalos: “O animal tem de ser preparado. Esse é um problema do dono do cavalo. É como mulher, se tu não a tratares bem, vais levar guampa”.

Mas o que é isto? Nessa situação, perde o marido traído, mas, na situação da cavalgada, cavalo maltratado é prejuízo só para o cavalo.

Romera diz ainda, como líder, que não tem autoridade para vetar a participação de ninguém na cavalgada e não tem culpa por alguém matar o seu cavalo.

Mas o que é isto, Romera? Esta responsabilidade é exclusiva da organização da cavalgada. Se ela não intervém, ninguém intervém.

Ou melhor, intervêm adequadamente as associações protetoras dos animais, únicas entidades que podem defender os pobres cavalos.

Não resta dúvida, tem de suspender essas cavalgadas, imediatamente. Não sou eu, alienado, que estou dizendo. É o Paixão Côrtes, minha gente!

Tem de acabar para sempre esse irracional exibicionismo para os banhistas.
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FONTE : página 39 de Zero Hora, edição de 1/2/2010.

CONTRA A CAVALGADA DO MAR NO RS



O folclorista Paixão Côrtes, maior autoridade em tradicionalismo gaúcho, surpreendentemente se colocou contra a Cavalgada do Mar. O fato levou grande parte da Imprensa e da sociedade a encarar com mais seriedade o protesto dos defensores dos animais, já que até então a reclamação principal eram as 500 toneladas de esterco espalhadas entre os banhistas. Que, por lei, não podem levar animais de estimação para a areia, justamente por causa das fezes.

“Não vejo razão de ser nessas cavalgadas. É simplesmente uma caminhada a cavalo. Não há pesquisa nem serve para questionar os problemas do Rio Grande. É um passeio. É comer, beber e dar risada”, decretou. Paixão Côrtes foi modelo para o ‘Laçador’, estátua-símbolo do Rio Grande do Sul e cartão-postal da Capital gaúcha.

Outra personalidade de renome dentro do tradicionalismo, a cantora Maria Luiza Benitez divulgou em seu site pessoal o protesto contra a Cavalgada do Mar. “Bueno, os tempos mudaram, mas os cavalos… esses são dignos do respeito e carinho”, comentou a musa nativista.

Já o presidente da Fundação Cultural Cavalgada do Mar, Vilmar Romera, indignado com o protesto pelo fim do evento que promove, deixou claro no site ClicRBS seu pensamento preconceituoso. “É o fim da picada! Vamos agora largar as cavalgadas de mão e dançar no balé de Bolshoi!”. Em entrevista ao jornal Zero Hora, reafirmou o discurso. “Que culpa eu tenho se tu matas o teu cavalo? Se morrerem 15 cavalos, não tenho nada com isso. Esse é um problema do dono do cavalo. É como mulher. Se tu não tratares bem, vais levar guampa”. Detalhe – o lema da cavalgada deste ano era ‘Mulheres a Cavalo pelo Rio Grande’.