quinta-feira, 31 de março de 2016

Alimentos desperdiçados na América Latina e Caribe poderiam alimentar 37% das pessoas que passam fome em todo o mundo

Publicado em março 31, 2016 
Reduzir o desperdício na AL “chave” para desenvolvimento sustentável
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, com os alimentos perdidos na região da América Latina e Caribe seria possível alimentar 37% das pessoas que passam fome em todo o mundo.

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Foto: FAO/Olivier Asselin

Laura Gelbert, da Rádio ONU em Nova York.
Na América Latina são perdidas ou desperdiçadas até 348 mil toneladas de alimentos por dia, cifra que terá de ser reduzida à metade nos próximos 14 anos se a região quiser alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODS.
O alerta foi feito nesta quarta-feira pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, FAO.
Metas
O terceiro boletim “Perdas e Desperdícios de Alimentos na América Latina e no Caribe” da agência da ONU destaca o ODS 12, centrado na necessidade de assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.
Este objetivo inclui a meta de reduzir à metade até 2030 o desperdício mundial de alimentos nos níveis de varejo e do consumidor, e reduzir as perdas de alimentos ao longo das cadeias de produção e abastecimento.
Necessidades Calóricas
Segundo a FAO, 36 milhões de pessoas na região poderiam cobrir suas necessidades calóricas apenas com alimentos perdidos nos pontos de venda diretos aos consumidores.
O número representaria pouco mais que a população do Peru e mais do que todas as pessoas que passam fome na região.
A FAO e outras agências parceiras estão atualmente elaborando o Índice Global de Perdas e Desperdícios de Alimentos, que será essencial para que todos os países quantifiquem suas perdas e definam estratégias para alcançar o ODS 12.
Mobilização
De acordo com a FAO, 127 milhões de toneladas de alimentos, ou 223 quilos por cada habitante da região, são a quantidade total de perdas e desperdícios da região.
Estes alimentos seriam suficientes para satisfazer as necessidades alimentícias de 300 milhões de pessoas, 37% de todas as pessoas que passam fome no mundo.
No entanto, a região está trabalhando para reduzir esse número. Com apoio da FAO, no passado governo estabeleceram uma Rede de Especialistas, uma Estratégia Regional e uma Aliança Regional para a Prevenção e Redução de Perdas e Desperdícios de Alimentos.
Luta Contra a Fome
Na Costa Rica e na República Dominicana foram criados Comitês Nacionais dedicados ao tema. Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai estão entre os países discutindo iniciativas semelhantes.
Ainda segundo a FAO, a luta contra o desperdício alimentar também é parte do principal acordo contra a fome na região, o Plano de Segurança Alimentar, Nutrição e Erradicação da Fome da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe, Celac.
A iniciativa considera a eliminação das perdas e desperdícios como uma condição fundamental para acabar com a fome até 2025.
in EcoDebate, 31/03/2016

Mudanças climáticas exigem adaptações das cidades, mas ainda não são prioridade



Por Heitor Shimizu, de Michigan, Agência FAPESP

Desafio em cidades como São Paulo é integrar políticas públicas relacionadas às mudanças climáticas com políticas de moradia e de planejamento urbano, entre outras, dizem cientistas (foto: Parque da Juventude/Wikimedia Commons)

As mudanças climáticas globais impõem riscos às cidades e levam à necessidade de desenvolver planos de adaptação. Mas de que modo cidades como São Paulo, que contam com tantos outros problemas de infraestrutura e desenvolvimento, podem desenvolver uma capacidade adaptativa que permita responder eficientemente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas?
Encontrar respostas para essa pergunta é um dos objetivos de uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da University of Michigan (UM), com financiamento da universidade norte-americana em conjunto com a FAPESP.
Segundo as coordenadoras do projeto, as professoras Gabriela Marques Di Giulio, da Faculdade de Saúde Pública da USP, e Maria Carmen Lemos, da School of Natural Resources and Environment da UM, a crescente compreensão de que ações de mitigação não serão suficientes para evitar os impactos climáticos tem levado a um aumento no número de cidades no mundo que apresentam planos de adaptação, reconhecendo os riscos associados às mudanças climáticas e os impactos nos seus sistemas socioecológicos.
Apesar disso, há muitas outras em situação de risco que pouco têm feito. E os motivos são limitações econômicas, institucionais ou políticas, que reduzem a capacidade de prover serviços básicos, infraestrutura e suporte às suas populações.
Di Giulio e Lemos, que apresentaram a pesquisa no dia 28 de março na FAPESP Week Michigan-Ohio, que ocorre até 1º de abril nas cidades de Ann Arbor e Columbus, nos Estados Unidos, apontam que pesquisas têm identificado recursos e estruturas de governança que aumentam as chances de uma adaptação bem-sucedida. E compreender como esses recursos interagem positiva e negativamente é essencial para construir cidades mais resilientes e sustentáveis.
“São Paulo, por exemplo, que é nosso foco de pesquisa, faz parte do C40 Cities Climate Leadership Group [rede de megacidades comprometida com os desafios envolvidos nas mudanças climáticas globais] e é uma das poucas megacidades que contam com uma política municipal sobre mudanças climáticas globais, instituída em 2009, ainda que a maioria dos objetivos não tenha sido atingida”, disse Di Giulio.
Segundo ela, em São Paulo o desafio é integrar políticas públicas relacionadas às mudanças climáticas com políticas de moradia, saneamento, planejamento urbano, gerenciamento de recursos hídricos e mobilidade urbana.
“Trata-se de uma região metropolitana com alta heterogeneidade em termos de acessos a recursos, níveis de pobreza e capacidade de interagir com as mudanças climáticas”, disse.
“Por meio de nossa pesquisa, procuramos entender como uma megacidade, no caso São Paulo, tem se mobilizado para lidar com riscos e ameaças das mudanças climáticas, como os tomadores de decisão em ciência, políticas e sociedade civil percebem os riscos climáticos na esfera local e como fatores contextuais influenciam a capacidade adaptativa local”, disse.
A pesquisa se baseou em métodos qualitativos, que incluem revisão da literatura científica, pesquisa documental – análise de pesquisas de opinião pública, conteúdo jornalístico, documentos e dados socioeconômicos –, entrevistas com atores e grupos sociais e reuniões técnicas e científicas, explicou Di Giulio.
O projeto colaborativo apoiado pela FAPESP e pela UM conta, além de Di Giulio e Lemos, com mais dois pesquisadores no Estado de São Paulo e um em Michigan.
Os pesquisadores já realizaram quatro missões no projeto desde outubro de 2014, que incluíram a realização de um seminário, um workshop e encontros em São Paulo e em Michigan.
Entre os resultados do projeto, Di Giulio mencionou a publicação de artigos como Building adaptive capacity in the megacity of São Paulo, Brazil: urgencies, possibilities and challenges, apresentado em 2015 na RC21 International Conference, International Sociological Association, na Itália, e “Megacidades e mudanças climáticas: um enfoque interdisciplinar sobre o município de São Paulo”, a ser publicado este ano como capítulo de um livro.
Outras cidades brasileiras
“Estamos construindo uma plataforma analítica para entender melhor o processo complexo da adaptação, especialmente se considerarmos as incertezas relacionadas às projeções climáticas de ocorrência e frequência de eventos extremos. Em termos de fatores contextuais que influenciam diretamente a capacidade de adaptação, também analisamos como as restrições econômicas, institucionais e políticas afetam a capacidade das cidades de prover serviços básicos e de apoiar as populações, infraestruturas e ecossistemas atuais”, disse Di Giulio.
Segundo a pesquisa, a população em São Paulo tende a ver as mudanças climáticas como um problema menor. “As pessoas reconhecem os impactos das mudanças climáticas, mas, ainda que preocupadas, para elas esses impactos competem com outros assuntos, que as pressionam mais”, disse Di Giulio.
Os pesquisadores analisaram políticas urbanas recentes em São Paulo, entre as quais intervenções específicas em sistemas de mobilidade, moradia e iniciativas de infraestrutura sustentável, mas consideram que essas e outras medidas não têm sido descritas como ações de adaptação às mudanças climáticas.
O projeto continua com o desenvolvimento do CiAdapta (Cidades, Vulnerabilidade e Mudanças Climáticas), uma abordagem integrada e interdisciplinar para analisar ações e capacidade de adaptação. O novo projeto, com duração até 2017, é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O CiAdapta envolve seis capitais brasileiras: São Paulo, Manaus, Fortaleza, Vitória, Curitiba e Porto Alegre.
Outro projeto conduzido por Lemos e Di Giulio envolve as cidades do Estado de São Paulo. “Pretendemos desenvolver uma plataforma teórica e metodológica para analisar a adaptação climática aplicável a todas as cidades com população entre 20 mil e 500 mil habitantes. Inicialmente, desenvolvemos um questionário que foi distribuído para essas cidades com a colaboração da Secretaria Estadual do Meio Ambiente”, disse Lemos, que fez a graduação na Universidade Federal de Juiz de Fora e o mestrado e doutorado no Massachusetts Institute of Technology.
“É importante destacar que o que as cidades fizerem agora irá prepará-las para as mudanças climáticas globais e a plataforma que estamos desenvolvendo poderá ajudar nas tomadas de decisões não apenas as cidades contidas na pesquisa, mas também outras cidades no Brasil”, disse a professora da UM.
in EcoDebate, 31/03/2016

Prorrogação dos lixões: um retrocesso ambiental e social



Prorrogação dos lixões: um retrocesso ambiental e social. Entrevista especial com Antonio Silvio Hendges
“A irresponsabilidade pública em relação aos resíduos sólidos terá uma sobrevida considerável se o Projeto de Lei 425/2014 for aprovado pela Câmara e sancionado pelo Executivo”, adverte o biólogo.
Foto: cempre.org.br

Apesar de a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS ter determinado 2014 como o ano limite para extinguir todos os lixões existentes no país, alguns Projetos de Lei, a exemplo do PLS 425/2014, aprovado pelo Senado, sugerem a alteração dos artigos 54 e 55 da legislação, permitindo a prorrogação do fechamento dos lixões para 2021. Na avaliação de Antonio Silvio Hendges, caso aprovado, o PL representará um “retrocesso na legislação, na agenda ambiental e nas perspectivas do desenvolvimento sustentável no curto e médio prazo no país”, porque a “gestão e o gerenciamento adequado dos resíduos são fundamentais às políticas públicas de saúde, saneamento básico, assistência social, geração de renda, prevenção de enchentes e muitos outros aspectos relacionados aos ambientes urbanos”.
Segundo Hendges, a “justificativa” de prefeitos e suas entidades representativas, a qual foi aceita pelos senadores, é a de que os prazos estipulados pela PNRS, sancionada em 2010, são “curtos à adequação, insuficiência de recursos financeiros, dificuldades para a contratação de recursos humanos e quadros técnicos/gerenciais qualificados, diferenças regionais e deficiências de infraestrutura”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, o biólogo frisa que o PL “não contribui para a afirmação de perspectivas positivas e possivelmente será um entrave ao desenvolvimento daPolítica Nacional de Resíduos Sólidos, atrasando consideravelmente ou mesmo inviabilizando a sua implantação”. Politicamente, contudo, “é um descaso com os administradores e municípios que se adequaram e/ou buscavam esta perspectiva e um prêmio aos omissos, aos que apostam sempre em deixar como está para ver como fica”.
Antonio Silvio Hendges é graduado em Biologia pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci – Uniasselvi-SC e especialista em Auditorias Ambientais pela Universidade Candido Mendes-RJ. Atualmente é professor de biologia e presta assessoria em educação ambiental e resíduos sólidos.
Confira a entrevista.
Foto: Nahiene Alves / IHU

IHU On-Line – Como analisa o PLS 425/2014, que sugere a ampliação do prazo para que a União ofereça apoio técnico e financeiro a estados e municípios na elaboração dos planos de saneamento básico e resíduos sólidos? Em que contexto surge essa proposta?
Antonio Silvio Hendges – Este projeto aprovado pelo Senado e que será analisado na Câmara dos Deputados alterou os artigos 54 e 55 da Lei 12.305/2010 — Política Nacional de Resíduos Sólidos que determinou até agosto de 2014 para a extinção dos lixões no país, com o encaminhamento dos rejeitos para aterros sanitários após coleta seletiva, reúso quando possível, reciclagem e compostagem, gestão, gerenciamento e tratamento adequado dos resíduos, inclusive tecnológicos como os eletroeletrônicos, eletrodomésticos, baterias, lâmpadas, embalagens em geral, construção civil e outros, além de projetos e programas de educação ambiental. A aprovação do projeto original nº 425/2014 da Subcomissão Temporária de Resíduos Sólidos foi sugerida pela Comissão Especial do Pacto Federativo, e uma emenda apresentada ao plenário pelo SenadorFernando Bezerra Coelho(PSB) e defendida pela Relatora Vanessa Grazziotin (PCdoB) estabeleceu prazos escalonados de acordo com o tamanho e a localização dos municípios, que variam entre 2018 e 2021.
Pelo projeto, a extinção dos lixões será prorrogada nas capitais e regiões metropolitanas até 31 de julho de 2018 com ampliação sucessiva de um ano para os demais municípios: em fronteiras e municípios com mais de 100 mil habitantes pelo Censo 2010 do IBGE, até 2019; entre 50 e 100 mil habitantes, até 2020; com menos de 50 mil habitantes, até 2021. A justificativa dos prefeitos e suas entidades representativas, como a Confederação Nacional dos Municípios, aceita pelos senadores, foram os prazos curtos à adequação, insuficiência de recursos financeiros, dificuldades para a contratação de recursos humanos e quadros técnicos/gerenciais qualificados, diferenças regionais e deficiências de infraestrutura.
Esta é a proposta que tem a simpatia do Executivo e que possivelmente será aprovada na Câmara dos Deputados. Outras propostas aprovadas anteriormente pela Câmara foram vetadas pelo Executivo.
IHU On-Line – A prorrogação do fim dos lixões para 2021 deve ser vista de que modo?
Antonio Silvio Hendges – Como um retrocesso na legislação, na agenda ambiental e nas perspectivas do desenvolvimento sustentável no curto e médio prazo no país. A gestão e o gerenciamento adequado dos resíduos são fundamentais às políticas públicas de saúde, saneamento básico, assistência social, geração de renda, prevenção de enchentes e muitos outros aspectos relacionados aos ambientes urbanos. Este projeto não contribui para a afirmação de perspectivas positivas e possivelmente será um entrave ao desenvolvimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos, atrasando consideravelmente ou mesmo inviabilizando a sua implantação.
Politicamente, é um descaso com os administradores e municípios que se adequaram e/ou buscavam esta perspectiva e um prêmio aos omissos, aos que apostam sempre em deixar como está para ver como fica.
Fonte: fundacaoverde.org.br

IHU On-Line – Qual tende a ser o impacto dessa prorrogação? Vislumbra impactos ambientais, sociais ou de outra ordem?
Antonio Silvio Hendges – Todos os impactos ambientais, sociais e econômicos decorrentes dos lixões e outros relacionados com a gestão inadequada dos resíduos continuarão presentes e com tendência ao agravamento se considerarmos o aumento do consumo como tendência macro. A contaminação de amplas áreas, incluindo-se os recursos hídricos, o desperdício de recursos, os problemas de saúde pública, a inadequação das atividades dos catadores, a ausência de projetos de coleta seletiva, reciclagem e responsabilidade compartilhada, a inexistência de programas de educação ambiental, as deficiências na fiscalização e a irresponsabilidade pública em relação aos resíduos sólidos terão uma sobrevida considerável se este projeto for aprovado pela Câmara e sancionado pelo Executivo.
Também é possível que aconteça uma desestruturação nos projetos em desenvolvimento ou ainda não consolidados, desorganizando aspectos importantes da gestão e gerenciamento dos resíduos em alguns municípios, principalmente naqueles que buscavam a adequação e a consolidação de políticas públicas de gestão e gerenciamento adequados.
ampliação dos prazos não garante que os municípios adequar-se-ão aos aspectos legais, que vão além da erradicação dos lixões, estabelecendo diretrizes que tornam os resíduos sólidos bens econômicos com reintrodução nas cadeias produtivas, geração de recursos financeiros e desenvolvimento econômico/socioambiental.
IHU On-Line – Por que se chegou ao ponto de prorrogar o fim dos lixões para essa data? O que isso demonstra sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a dificuldade dos municípios em implementar as medidas determinadas pela PNRS?
Antonio Silvio Hendges – A justificativa para esta ação, por parte das organizações representativas dos municípios e dos senadores, foram os prazos curtos, a falta de recursos financeiros, as dificuldades técnicas, a inexistência de recursos humanos técnico-gerenciais e outras limitações de infraestrutura. Em parte, há razões para esta argumentação, mas considero que o principal fator foi mesmo a ausência de prioridade nesta área: não existiu uma motivação e um entendimento por parte dos administradores de que a gestão adequada dos resíduos é um diferencial importante e que contribui para a melhoria dos ambientes urbanos em diversos níveis, não apenas nos aspectos imediatos. As opções administrativas foram por outras prioridades, outros investimentos, não nas políticas públicas de saneamento e gestão dos resíduos.
A descaracterização das diretrizes originais da Política Nacional de Resíduos Sólidos quanto aos planos de gestão e o fim dos lixões comprometerá outros aspectos e abrirá espaço para novas mudanças sempre que não forem priorizadas pelas administrações municipais as políticas públicas de saneamento. Quanto aos recursos financeiros e apoio técnico, um parágrafo na nova lei estabelece que a União edite normas complementares e defina critérios de acesso aos recursos federais, dispositivo que pode desmobilizar os municípios que ficarão aguardando a edição destas normas e a disponibilidade dos recursos para desenvolverem suas ações. Espera-se que se o projeto for aprovado, estas normas sejam editadas imediatamente e que os recursos disponibilizados sejam suficientes às expectativas criadas.
Fonte: fundacaoverde.org.br
IHU On-Line – Como essa proposta foi recebida pelos municípios do Rio Grande do Sul e qual é a situação dos municípios em relação aos lixões?
Antonio Silvio Hendges – No Rio Grande do Sul são poucos os municípios que ainda descartam os resíduos em lixões. Pelas informações que disponho, são apenas cinco municípios atualmente: Uruguaiana, Ipiranga do Sul, Santa Margarida do Sul, São Gabriel e Tupanciretã. O lixão de Viamão, na região metropolitana, foi transformado em um aterro controlado de acordo com informações da prefeitura. Isso é um pouco melhor que a disposição em um lixão, principalmente se existir uma triagem prévia dos recicláveis. Evidentemente que existem locais clandestinos em que são descartados resíduos diversos, como os da construção civil, por exemplo.
Os maiores problemas em relação aos lixões estão nas regiões Nordeste, Norte e Centro Oeste, onde não há universalidade no recolhimento, as iniciativas de coleta seletiva inexistem ou são limitadas, as prefeituras têm deficiências administrativas e estruturais enormes, a comunicação e a educação ambiental relacionada aos resíduos são bastante precárias.
IHU On-Line – Quais ainda são os problemas centrais relacionados à gestão dos resíduos sólidos?
Antonio Silvio Hendges – Sem dúvida, a inadequação da maioria dos municípios brasileiros aos aspectos legais é o principal entrave à gestão eficiente dos resíduos sólidos no país. A inexistência dos planos de gestão e gerenciamento e de diagnósticos adequados aos diversos resíduos produzidos — urbanos, construção civil, industriais, saúde e outros — dificultam a gestão e inclusive a sua reutilização e reciclagem quando possível. A ausência de planejamento e de diretrizes também inviabilizam uma fiscalização adequada e a construção de compromissos públicos dos geradores e poderes públicos para com a disposição ambientalmente adequada.
Os investimentos em tecnologias, que permitam a gestão e gerenciamento eficientes dos diversos materiais, com escala industrial e sua transformação em bens de capital e matérias-primas, ainda são limitados, assim como a capacitação específica de profissionais nesta área, inclusive para o desenvolvimento econômico e o estabelecimento de uma indústria nacional da reciclagem.

“41% dos municípios elaboraram planos de gestão e 58% dos resíduos urbanos produzidos no país estão sendo encaminhados para aterros adequad”

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Antonio Silvio Hendges – A alternativa em relação aos municípios inadequados ao final dos prazos estabelecidos nos artigos 54 e 55 da Lei 12.305/2010, inclusive não apenas em relação à existência de lixões, mas também a outros aspectos da gestão dos resíduos sólidos, é a realização de Termo de Ajustamento de Conduta – TAC com o Ministério Público, estabelecendo os critérios e diretrizes para a adequação, com metas, cronogramas, previsão de recursos humanos e financeiros e responsabilidades dos gestores municipais.
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, 41% dos municípios elaboraram planos de gestão e 58% dos resíduos urbanos produzidos no país estão sendo encaminhados para aterros adequados. Em 2013 existiam reconhecidamente 1.196 lixões em atividade no país.
Por Patricia Fachin

(EcoDebate, 31/03/2016) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Água: vantagem competitiva para o Brasil

Mata Atlântica. Foto: SOS Mata Atlântica
Mata Atlântica. Foto: SOS Mata Atlântica
Ter acesso a 12% de toda a água doce superficial do planeta e a alguns dos maiores aquíferos já mapeados dá ao Brasil uma posição potencialmente privilegiada na economia global.
Por Dal Marcondes, da Envolverde*
O Brasil é o país com uma das maiores reservas de água doce mapeadas no planeta e que não se encontram em geleiras ou lugares inatingíveis. São águas com acesso relativamente fáceis, além de ter, em seu território, um regime hídrico bastante amigável.  Quase todo o território é banhado por rios perenes e com bom volume hídrico, o que facilitaria, ao menos em tese, a distribuição da produção agrícola e industrial por todo o país. No entanto, os mananciais brasileiros estão em situação deplorável, assoreados, poluídos, vítimas principalmente da carência de sistemas urbanos de tratamento de esgotos e da má gestão de resíduos, que ainda espalha lixões pelas beiras de cursos d’água.
Essa fartura de água permite ao país exercer um papel de liderança principalmente na exportação de commodities agrícolas, exemplos disso são a soja e carne bovina, produtos que exigem grandes quantidades de água em seu ciclo de produção. Além disso, pela grande disponibilidade de terras férteis, também facilita a produção de álcool de cana de açúcar, uma das primeiras atividades econômicas do Brasil colônia, e que hoje ainda prospera pelo uso do produto como combustível. No entanto essa vantagem comparativa com países que tem muito menos disponibilidade da água ainda não se reflete em setores estratégicos para o Brasil, como a estruturação de uma “biocivilização”, como propõe o economista Ignacy Sachs.
As vantagens naturais o Brasil estão baseadas principalmente na farta disponibilidade de água, energia limpa, um importante parque mineral e uma biodiversidade invejável, inclusive com variedade de biomas. A biocivilização preconizada por Ignacy Sachs é, sem dúvida, a transição de modelo necessária para que o Brasil faça sua revolução em direção a um modelo econômico não antropofágico. Sachs acredita que a produção e usos de biomassas podem alavancar uma modelagem econômica com novas empresas e novas tecnologias, com mais distribuição de renda pelo trabalho e com uma imensa capacidade de regeneração de biomas e ecossistemas.
O economista vê biomassa como materiais para quase todos os usos que a humanidade possa precisar. São matérias-primas florestais para energia e indústria, biotecnologia de base para o desenvolvimento de produtos, bioenergia a partir de celulose, o que transforma qualquer resíduo vegetal em combustível e assim por diante.  Sachs insiste que o Brasil tem as melhores características possíveis para liderar essa transição para um modelo econômico limpo, de alto valor social e baixo impacto ambiental, justamente por dispor dos recursos naturais necessários, principalmente água e biodiversidade.
Muitos ambientalistas fazem a crítica ao modelo exportador por conta dos volumes de água necessários aos ciclos de vidas dos produtos, principalmente agropecuários. No entanto, os volumes de água necessários à produção não são exportados com o produto. O que se exporta são os serviços prestados pela água. Mas, para que isso seja sustentável é necessário que os mananciais de água sejam bem tratados, de forma a não criar disputas entre os diversos usos do insumo, principalmente não comprometendo o abastecimento das pessoas.
Uma transição econômica que valorize os processos naturais de produção, ou a biocivilização preconizada por Sachs, tem o potencial de levar parte de seus processos e de sua geração de renda para os rincões de miséria do país. Seria preciso trabalhar em todas as potenciais áreas agrícolas e com tecnologias menos agressivas em termos de uso do solo. O mundo precisará de mais especialistas em ciências da vida, em conhecimentos tradicionais e em gestão de processos e pessoas. Principalmente, uma economia limpa deverá ter a capacidade de inovar em situações onde o conhecimento tradicional está cristalizado.
A busca da ciência e da tecnologia necessárias para a transição para uma economia de baixo carbono pode ser a alavanca necessária para melhorar a performance do sistema educacional. Pode, também, representar um novo complexo industrial capaz de absorver milhões de trabalhadores em áreas pobres. O direcionamento de universidades e centros de pesquisa para o estudo objetivo da transformação da economia em direção ao aproveitamento da água e da biodiversidade brasileira pode ser um caminho, inclusive, para a superação da crise econômica do país.
Uma economia que tenha a água e os recursos naturais do país como vetores de desenvolvimento não precisará ficar centralizada em grandes metrópoles que se tornaram verdadeiros sorvedouros de recursos naturais e usinas de emissões de gases estufa. Pelo contrário, promoveria uma melhor distribuição da população pelo território, o que geraria muito mais qualidade de vida.
Há que se lembrar que em plena sociedade do conhecimento, com as tecnologias de comunicação evoluindo a velocidades exponenciais, a proximidade das pessoas não se dá apenas pelo aperto de mão, mas também pelo contato cotidiano pela internet e redes sociais. (#Envolverde)
Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde, passou por diversas redações da grande mídia paulista, como Agência Estado, Gazeta Mercantil, revistas IstoÉ e Exame. Desde 1998 dedica-se à cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, educação, desenvolvimento sustentável e responsabilidade socioambiental empresarial.

Economia de 2 milhões de litros de água

A Easy Carros, uma startup que conecta donos de carro a profissionais de serviços automotivos, no ultimo ano foi responsável pela economia de mais de dois milhões de litros de água, por meio do seu principal serviço, a lavagem ecológica.
Se compararmos uma lavagem ecológica com uma tradicional, feita com mangueira, a economia pode chegar a 500 litros de água por carro lavado. Com o método utilizado pelos profissionais cadastrados na plataforma, a utilização é de apenas 300ml de água, o equivalente a um copo. “Não queremos entregar apenas comodidade ao usuário da Easy Carros, mas também uma ideia de consciência ambiental e consumo sustentável. Economizar água precisa ser uma preocupação diária do brasileiro, e não apenas diante da crise hídrica”, afirma o CEO e fundador da Easy Carros, Fernando Saddi.
Para garantir o padrão de qualidade, os profissionais que atendem pela Easy Carros recebem treinamento específico e são certificados em estética automotiva. “Isso dá mais segurança ao usuário. Sabendo que será atendido por um profissional certificado, o medo de deixar seu carro na mão de um desconhecido não existe. Além disso, os serviços são tabelados, o que evita uma cobrança extra” complementa Saddi.
O Easy Carros é um site e aplicativo que conecta donos de carro aos melhores profissionais de serviços automotivos. Pelo Easy Carros o usuário consegue solicitar serviços como: lavagem ecológica, enceramento, polimento, troca de óleo, entre outros. Fundada em janeiro de 2015, a empresa está presente em 32 cidades, em quatro estados brasileiros. (#Envolverde)

Exposição “Water Stories” é inaugurada em Londres 

A relação entre os moradores e os rios do Pantanal é tema da exposição. Foto: © Mustafah Abdulaziz/WWF-Brasil
A relação entre os moradores e os rios do Pantanal é tema da exposição. Foto:
© Mustafah Abdulaziz/WWF-Brasil
A relação do homem com a água, as belezas e os problemas ambientais do Pantanal são tema da exposição “Water Stories” inaugurada nesta terça-feira, dia 22 de março, no The Scoop, em More London Riverside, em Londres.
Por Redação do WWF Brasil –
As imagens são resultado do trabalho do premiado fotógrafo norte-americano Mustafah Abdulaziz, que esteve em outubro de 2015 no Mato Grosso para retratar o trabalho do WWF-Brasil na área das Cabeceiras do Pantanal – local onde nascem 30% das águas que alimentam a planície e a biodiversidade pantaneira e garantem o abastecimento de municípios onde vivem e trabalham pelo menos três milhões de pessoas.
Desde 2012, o WWF-Brasil trabalha na conservação e recuperação de rios e nascentes das Cabeceiras do Pantanal. Em 2015 foi lançado o Pacto em Defesa das Cabeceiras do Pantanal, iniciativa que tem por objetivo conservar mais de 700 quilômetros de rios e recuperar pelo menos 50 nascentes de uma área percorrida pelo rio Paraguai e afluentes como Sepotuba, Cabaçal e Jauru.
Em “Water Stories”, o fotógrafo retratou o trabalho realizado pela rede WWF em cinco bacias hidrográficas: do rio Paraguai (Pantanal); Yangtze, na China; Ganges, na Índia, Mekong, que percorre parte da China, Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã; Ruaha e Mara, no Quênia e Tanzânia. Essas iniciativas, contaram com o apoio do Programa HSBC pela Água que destinou US$ 100 milhões em cinco anos. As ações devem beneficiar um milhão de pessoas ao redor do mundo.
Abdulaziz vive atualmente em Berlim, mas desde 2011 trabalha no projeto “Water”, percorrendo o planeta para retratar imagens relacionadas à conservação da água, sua importância para os seres humanos e situações de crise hídrica. Seu projeto recebe apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), WaterAid e VSCO (Empresa de tecnologia e filmes fotográficos). Em 2012 foi eleito como uma das melhores promessas da fotografia, pela revista Photo District News (PDN), e em 2015 foi o vencedor do prêmio Syngenta de melhor fotografia.
“Retratar o Brasil neste momento é muito importante porque temos de um lado São Paulo que está enfrentando a pior crise de escassez de água de sua história e, por outro um estado que tem água em abundância como o Mato Grosso, mas que se não começar a cuidar de seus rios e nascentes poderá sofrer crises hídricas no futuro próximo”, diz Abdulaziz. “Essa exposição fotográfica vai servir como alerta para que todos entendam a necessidade de cuidar das águas mesmo que aparentemente elas sejam fartas”, completa.
Serviço
Local: The Scoop, em More London Riverside, em Londres
Data: de 22 de março a 10 de aabril
O Pacto em Defesa das Cabeceiras do Pantanal
A iniciativa foi idealizada pelo WWF-Brasil em 2012, quando um estudo – realizado em parceria com o HSBC, a The Nature Conservancy (TNC), o Centro de Pesquisas do Pantanal, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e a Carterpillar – mostrou que a área das Cabeceiras estava em alto risco ecológico.
O Pacto é uma aliança entre o governo do estado e 25 prefeituras de Mato Grosso, empresas e a sociedade civil organizada. Ao aderir, voluntariamente, cada instituição opta por implementar em seu município pelo menos três ações que preservem as nascentes e os rios, como, a recuperação de áreas degradadas, recuperação de nascentes, recuperação de matas ciliares, melhoria da qualidade da água dos rios, adequação ambiental de estradas rurais e estaduais, melhoria do saneamento básico ou até mesmo a troca de experiências de educação ambiental existentes na região
A região das Cabeceiras do Pantanal abrange 25 municípios do Mato Grosso, sendo eles: Alto Paraguai, Araputanga, Arenápolis, Barra do Bugres, Cáceres, Curvelândia, Denise, Diamantino, Figueirópolis D´Oeste, Glória D´Oeste, Indiavaí, Jauru, Lambari D’Oeste, Mirassol D’Oeste, Nortelândia, Nova Marilândia, Nova Olímpia, Porto Esperidião, Porto Estrela, Reserva do Cabaçal, Rio Branco, Santo Afonso, São José dos Quatro Marcos, Salto do Céu e Tangará da Serra. (WWF Brasil/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site WWF Brasil.

Mato Grosso: único estado da Amazônia Legal a registrar alta no desmatamento em 5 meses

Trator flagrado derrubando floresta na região norte de Mato Grosso durante operação do Ibama, em 2014. Foto: Ibama-MT
Trator flagrado derrubando floresta na região norte de Mato Grosso durante operação do Ibama, em 2014. Foto: Ibama-MT
Por Daniela Torezzan, do ICV –
O desmatamento continua crescendo em Mato Grosso, confirmando uma tendência que já vem sendo registrada nos últimos três anos. Os dados de monitoramento por satélite mostram que, entre agosto e dezembro de 2015, Mato Grosso foi o único estado da Amazônia Legal onde o corte raso da floresta aumentou (16%), em comparação com o mesmo período de 2014, passando de 362 quilômetros quadrados para 419 quilômetros quadrados. Nos demais estados houve queda nas taxas de desmatamento. Os dados foram divulgados nesta semana pelo Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).
Os dados correspondentes aos cinco primeiros meses do calendário oficial de monitoramento preocupam pois, além de contrariarem a tendência de queda verificada na Amazônia Legal, confirmam a tendência de retomada do desmatamento que vem sendo registrada desde 2013, com altas progressivas desde o ano de 2013.
Desmatamento (km²) na área florestal de Mato Grosso de agosto de 2013 a dezembro de 2015. (Fonte: SAD/Imazon).
Desmatamento (km²) na área florestal de Mato Grosso de agosto de 2013 a dezembro de 2015. (Fonte: SAD/Imazon).

Uma análise detalhada do Instituto Centro de Vida (ICV), de Mato Grosso, aponta que o desmatamento total detectado entre agosto e dezembro de 2015 representa um aumento de 670% em relação a esse mesmo período no ano de 2013.
Essa frente de forte expansão de desmatamento está concentrada, principalmente, na região noroeste do estado, onde ainda há um grande maciço florestal e onde acontece uma pressão para abertura de novas áreas para utilização agropecuária. Colniza continua liderando o ranking dos municípios que mais desmataram no estado, sendo responsável pelo corte raso de 74 quilômetros quadrados de floresta, o que significa 19% de todo o desmatamento registrado. Na mesma região aparecem ainda Cotriguaçu, com 26 quilômetros quadrados desmatados, Juína e Juara, responsáveis, cada um, pela supressão de 14 quilômetros quadrados de floresta.
Neste cenário, dez municípios foram responsáveis por mais de 60% do desmatamento detectado em solo mato-grossense.
Evolução do desmatamento (km²) em municípios de Mato Grosso de agosto a dezembro de 2013,2014 e 2015 (Fonte: SAD/Imazon)
Evolução do desmatamento (km²) em municípios de Mato Grosso de agosto a dezembro de 2013,2014 e 2015 (Fonte: SAD/Imazon)

Para Alice Thuault, diretora adjunta do ICV, o momento é grave e exige uma resposta rápida e contundente por parte do governo do estado para enfrentar o problema.
“Esta é uma situação que demonstra o quanto é necessária a implementação de uma estratégia para combater o desmatamento. Representa uma oportunidade para o governo do estado implementar as medidas anunciadas no final do ano passado, durante a COP- 21, em Paris, que prevê o fim do desmatamento ilegal em Mato Grosso”, reforçou.
A referência é ao anúncio feito pelo governador do estado, Pedro Taques de um pacote de medidas para zerar o desmatamento ilegal no estado até 2020, prevendo a redução de 90% da taxa geral no bioma amazônico e 95% no cerrado. Na época, o governador reconheceu como inaceitável o aumento no desmatamento em Mato Grosso e se comprometeu a implementar uma estratégia intitulada Produzir, Conservar e Incluir, composta por ações nestes três eixos. Na produção, o estado pretende substituir 6 milhões de hectares de pastagens com baixo rendimento em áreas de alta produtividade, compostas por 3 milhões de hectares de plantio de grãos, 2,5 milhões de pecuária e 500 mil de floresta plantada.
Para conservação, os principais pontos incluem, além da meta de reduzir o desmatamento, manter os 60% de vegetação nativa existente hoje no estado e recuperar 2 milhões de hectares de áreas de preservação permanente (APPs). A parte de inclusão traz pontos ligados ao aumento, de 20% para 80%, da participação da agricultura familiar no mercado interno de alimentos, com a regularização fundiária em 70% dos lotes, com aumento do acesso ao crédito. (ICV/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site Instituto Centro de Vida.

Tapajós ampliará emissão por desmatamento

Foto: Marcelo Salazar/ISA
Foto: Marcelo Salazar/ISA
Complexo de hidrelétricas pode induzir desmate de até 3 milhões de hectares de florestas e afetar mais de 30 terras indígenas, segundo cálculo apresentado em Paris pelo IPAM.
Por Claudio Angelo e Cíntya Feitosa do OC, em Paris –
Enquanto o governo federal prepara uma medida provisória para autorizar a construção de hidrelétricas em terras indígenas, um novo cálculo sugere que o complexo hidrelétrico do Tapajós pode induzir o desmatamento de até 3 milhões de hectares, no pior cenário. De acordo com o estudo, apresentado pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em Paris, mais de 30 terras indígenas na região podem ser afetadas, direta ou indiretamente. Isso porque, de acordo com os pesquisadores, o maior desmatamento ocorre de 70 a 90 quilômetros de distância das hidrelétricas. Assim, as emissões de gases de efeito estufa por desmatamento podem aumentar.
O projeto de geração de energia no Tapajós é um dos grandes investimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento. Segundo o OC apurou, a expansão do parque hidrelétrico brasileiro foi objeto de discussões ásperas entre a presidente Dilma Rousseff e sua equipe em setembro, na definição do compromisso brasileiro para a conferência do clima de Paris – a INDC. Maurício Tolmasquim, presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética, vinculada ao Ministério de Minas e Energia), era contra essa proposta , e defendia mais investimentos em energia eólica.
Tolmasquim afirmou hoje, em Paris, que o governo está trabalhando para que o leilão das usinas hidrelétricas do Tapajós ocorra em 2016. Ele afirmou que o Brasil não deverá explorar todo o potencial hidrelétrico da Amazônia, mas que novas hidrelétricas são essenciais para garantir a segurança energética do país. “Uma parte desse potencial não será utilizado, devido aos impactos sociais e ambientais. Mas 50% devem ser explorados”, diz Tolmasquim.
O presidente da EPE disse ainda que modelos climáticos que indicam maior incidência de crises hídricas em médio prazo são incertos e, por isso, os investimentos em geração hidrelétrica serão mantidos. A análise de Tolmasquim inclui o estudo encomendado pela extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos, que mostra que a expansão da energia hidrelétrica no país pode ser um risco de investimento já em 2040. “Se for construída uma hidrelétrica que gere energia por 30 anos e depois reduza seu potencial, ainda assim é viável economicamente”, diz. “Não devemos ficar prisioneiros dessa questão.” Em 2016 devem ser realizados quatro leilões de energia – já contando com a licença de Tapajós.
Terras indígenas
O OC teve acesso à prévia de uma medida provisória que pretende criar um mecanismo de compensação financeira por meio da exploração do potencial hidráulico para geração de energia. Os recursos seriam aplicados em um fundo de apoio a povos indígenas.
De acordo com Maurício Guetta, advogado do Instituto Socioambiental, a medida é inconstitucional. “Uma eventual regulação deste tema não poderia ser feita via medida provisória.” Guetta avalia que a medida provisória é uma tentativa de aprovar o recebimento de mais recursos, com a atual crise econômica vivida pelo país. Ouça aqui a declaração do advogado ao OC.
A edição da medida provisória ocorre uma semana depois da aprovação do licenciamento “fast track” na Comissão de Desenvolvimento do Senado. O projeto, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR), acelera a liberação de licenciamento ambiental para obras consideradas estratégicas para o desenvolvimento do país.
Nara Baré, representante da COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), afirmou que os indígenas também foram pegos de surpresa sobre a possível MP e considera a medida incompatível com o posicionamento do Brasil na conferência do clima de Paris. “O governo do Brasil se posiciona como se houvesse um diálogo e um consenso sobre a questão indígena, e não há.” Nara Baré também destaca o papel de preservação de florestas e, consequentemente, de carbono desempenhado pelas terras indígenas. “As metas que o Brasil coloca para 2030 são boas, mas o governo não terá perna para cumpri-las.” (Observatório do Clima/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.

Hidrelétricas no Tapajós concentram desmatamento amazônico de 5 anos

Foto: Marcelo Salazar/ISA
Rio Tapajós. Foto: Marcelo Salazar/ISA
De acordo com pesquisadora do IPAM, retirada de cobertura florestal seria de 22 mil km2 a 32 mil km2 em 2030. Caso as áreas protegidas não existissem, o desmatamento chegaria a 46 mil km2
Por Redação do Ipam –
A pesquisadora do Ipam Ane Alencar participou, na sexta-feira (29), em Santarém (PA), de uma audiência pública sobre a construção da hidrelétrica São Luiz do Tapajós, no rio de mesmo nome, cujo licenciamento é previsto para 2016. Ela apresentou resultados de uma projeção de desmatamento na região decorrente da construção das hidrelétricas na bacia do Tapajós previstas no Plano Decenal de Energia 2014.
Segundo o estudo, a retirada de cobertura florestal seria de 22 mil a 32 mil quilômetros quadrados em 2030, devido ao crescimento populacional repentino associado à obra, à abertura de novas estradas e à especulação imobiliária. Caso as áreas protegidas não existissem na região, o desmatamento seria ainda maior, chegando a 46 mil km2.
A pesquisa também oferece um retrato da região: a bacia do Tapajós tem hoje 59% de seus 105 mil km2 com florestas. Unidades de conservação e terras indígenas contemplam 48% da área da bacia, propriedades particulares, 26%, assentamentos, 6% e 20% são terras do governo ou sem destinação.
“Entre o melhor e o pior cenários, nos próximos 15 anos, temos desmatamento equivalente ao registrado em toda a Amazônia ao longo de cinco anos apenas nesta região”, afirma Alencar. Atualmente, o desmatamento anual na Amazônia gira em torno de 5 mil km2. “Grande parte da área de influência tem áreas protegidas, mas mesmo assim a projeção é de grande retirada de cobertura florestal.”
O estudo indica que, para evitar o pior cenário para a floresta, é preciso destinar as terras públicas devolutas, finalizar o Cadastro Ambiental Rural das propriedades e assentamentos, consolidar as áreas protegidas para que sirvam de barreira ao desmatamento e construir um processo de planejamento que envolva todos os atores impactados – representados na audiência.
Há também uma avaliação que, segundo especialistas em energia ouvidos na reunião, não ecoa no governo: a real necessidade do empreendimento.
Os planos de desenvolvimento hidrelétrico no rio Tapajós e três afluentes, Teles Pires, Juruena e Jamaxim, incluem 43 barragens com potência superior a 30 MW, das quais dez são consideradas prioritárias para o governo federal. Além da produção de energia, elas compõem um mosaico com hidrovias formuladas para escoar a produção agrícola.
De acordo com o professor Célio Bermann, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, “o Brasil não precisa de usinas no Tapajós”. Bermann defende que, antes de novos investimentos em hidroeletricidade na Amazônia, investimentos em manutenção da rede elétrica brasileira e investimentos em ouras fontes renováveis, como sol e vento, devem ser exploradas.
Impactados
A audiência de Santarém reuniu mais de 500 pessoas, porém nenhum representante do governo ou das empresas interessadas apareceram. “De nove empresas interessadas na construção de São Luiz do Tapajós, oito são empreiteiras investigadas na operação Lava Jato”, disse o procurador Camões Boaventura.
Em compensação, povos indígenas afetados pelos projetos, como os mundurukus e arapiuns, estiveram na reunião. Eles denunciam que desde setembro de 2014 nenhuma reunião sobre o assunto foi feita entre os indígenas e o governo
O projeto já enfrenta pelo menos quatro menos processos judiciais. Um deles, por não ter respeitado o direito de consulta prévia, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), já tem decisão do Superior Tribunal de Justiça que obriga o governo a fazer a consulta. (Ipam/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site Ipam.