quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Água, um elemento de convergência global

Blanca Jiménez-Cisneros, Vice-Presidente ONU-Água, Secretária do Programa Hidrológico Internacional (PHI) e Diretora da Divisão de Ciências da Água da UNESCO; Sr. Cláudio Dirceu Eberhard, Prefeito Santa Terezinha de Itaipu; Sra. Josefina Maestu,Diretora de Oficina da ONU em apoio ao Decênio Internacional para a Ação: Água, fonte de vida 2005 – 2015” e Nelton Friedrich, Diretorde Coordenação da Itaipu Binacional.
Da esquerda para direita: Blanca Jiménez-Cisneros, Vice-Presidente ONU-Água, Secretária do Programa Hidrológico Internacional (PHI) e Diretora da Divisão de Ciências da Água da UNESCO; Sr. Cláudio Dirceu Eberhard, Prefeito Santa Terezinha de Itaipu; Sra. Josefina Maestu,Diretora de Oficina da ONU em apoio ao Decênio Internacional para a Ação: Água, fonte de vida 2005 – 2015” e Nelton Friedrich, Diretor de Coordenação da Itaipu Binacional.
Foz do Iguaçu recebeu, de 15 a 17 de setembro, o Encontro de Experiências Pioneiras e Inovadoras de Iniciativas Sociais na Gestão da Água – Criando uma Rede Global.
Por Elisa Homem de Mello, da Envolverde – 
Frente à crise que assola o Planeta, e num momento onde todos parecem ter despertado para a necessidade da preservação hídrica, Victor Viñual, da ECODES (Economía y Desarollo) Espanha, disse que “conhecer as dificuldades dos sistemas hídricos ajudam a fortalecer as boas práticas”.
Na visão do diretor presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, o que vemos ainda é uma falta da consciência de economia da água, principalmente nos Estados onde a cultura da abundância hídrica ainda é impregnada na população, e o padrão de consumo ultrapassa 250 litros/habitantes/dia. Há pouco mais de 10 anos, um habitante da Região Metropolitana de São Paulo/SP, por exemplo, gastava em média 150 litros de água/dia, 65 litros a mais do que o recomendado pela ONU (Organização das Nações Unidas). A média de consumo de água no Brasil é de 300 litros/habitante/dia, 50 litros acima do padrão da ONU. “Mesmo no semiárido brasileiro, a primeira coisa que a chuva leva é a memória da seca”, afirmou,ao mesmo tempo em que assumiu a responsabilidade acerca do tema junto à Constituição e o apoio à criação da Rede Global.
A Itaipu Binacional, por meio do Programa Cultivando Água Boa, junto com a Agência Nacional de Águas (ANA) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), vai apoiar a implantação desta rede internacional de boas práticas da gestão dos recursos hídricos com participação social.
Os números da crise
Em termos globais, o Relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO),apresentado durante o evento, mostra que há no mundo água suficiente para suprir as necessidades de crescimento do consumo, “mas não sem uma mudança dramática no uso, gerenciamento e compartilhamento”. De acordo com o documento, a crise global hídrica é de governança, muito mais do que de disponibilidade do recurso, e um padrão de consumo mundial sustentável ainda está distante.
Para Blanca Jiménez-Cisneros, diretora da divisão de Ciências da Água da UNESCO, 85% da população mundial vive em regiões consideradas áridas ou semiáridas e, portanto, a ciência deve estar à disposição para melhorar o conhecimento sobre tais regiões, bem como os desafios enfrentados frente às mudanças de clima, além de ajudar na tomada de decisões e no desenvolvimento da capacidade humana.
De acordo com a organização, nas últimas décadas o consumo de água cresceu duas vezes mais do que a população e a estimativa é que a demanda cresça ainda 55% até 2050. Mantendo os atuais padrões de consumo, em 2030 o mundo enfrentará um déficit no abastecimento de água de 40%. Os dados estão no Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento de Recursos Hídricos 2015 – Água para um Mundo Sustentável.
Em 2003, durante o III Fórum Mundial da Água, realizado em Kyoto, no Japão, o então presidente da ANA, Jerson Kelman, recebeu o PRÊMIO MUNDIAL DA ÁGUA. Este é o maior prêmio internacional do setor e deveu-se aos significativos avanços realizados pelo Brasil nos últimos anos na gestão das águas, inclusive com a criação da própria ANA. Naquela época, os dados mundiais divulgados, chamados NUMEROS DA CRISE, apontavam que 70% das internações hospitalares no Brasil se davam por doenças de veiculação hídrica e que 12 mil km3 de água poluída fluíam pelos rios do Mundo.
Números da crise no Brasil
  • 3,11% dos óbitos infantis em 2007 estavam relacionados à falta de saneamento (DATASUS);
  • 9,35% das internações na região Norte em 2009 foram relacionadas à falta de saneamento (DATASUS);
  • 277 pessoas morreram no país por infecções gastrointestinais em 2009 (Trata Brasil).
Fonte: Estudo elaborado e desenvolvido em conjunto pela LCA e entidades do setor ABCE, ABCON, ABDIB, ABRELPE, AESBE, ASFAMAS, SELURB, SINAENCO e SINDESAM.
Em 2018, será a vez do Brasil sediar o XVIII Fórum Mundial da Água. Espera-se que até lá, algumas das metas do milênio tenham sido atingidas, em termos de Brasil e mundo. Dentre alguns dos bons exemplos de boas práticas está o Programa Cultivando Água Boa (CAB), vencedor do Prêmio ONU-Água às Melhores Práticas “Água, fonte de vida”, 5ª Edição – Água e desenvolvimento sustentável, Categoria 1.
Itaipu Binacional e CAB: um movimento pela sustentabilidade 
A maior hidrelétrica do mundo em geração de energia é também a promotora do mais abrangente programa de cuidado com as águas em desenvolvimento no setor elétrico brasileiro. O Cultivando Água Boa é uma ampla iniciativa socioambiental concebida a partir da mudança na missão institucional da Itaipu Binacional, promovida em 2003.
O CAB, como é conhecido, parte do reconhecimento da água como recurso universal e, portanto, um bem pertencente a todos. Trata-se de uma estratégia local para o enfrentamento de uma das mais graves crises com as quais a humanidade já se defrontou: as mudanças climáticas, que põem em risco a sobrevivência humana e estão diretamente relacionadas com a água e seus usos múltiplos (a produção de alimentos e de energia, o abastecimento público, o lazer e o turismo).
Para prevenir essas alterações no clima, o programa estabelece uma verdadeira rede de proteção dos recursos da Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3), localizada no oeste do Paraná, na confluência dos rios Paraná e Iguaçu. A região tem cerca de um milhão de habitantes em 800 mil hectares.
Atualmente, são desenvolvidos 20 programas e 65 ações fundamentadas nos principaisdocumentos planetários, emanados dos mais importantes fóruns de debates a respeito da problemática socioambiental. As ações vão desde a recuperação de micro bacias e a proteção das matas ciliares e da biodiversidade, até a disseminação de valores e saberes que contribuem para a formação de cidadãos dentro da concepção da ética do cuidado e do respeito com o meio ambiente.
Mais do que um projeto ambiental, o CAB é um movimento de participação permanente, que envolve a atuação de aproximadamente 2 mil parceiros, dentre órgãos governamentais, ONGs, instituições de ensino, cooperativas, associações comunitárias e empresas.
Em 2005, o reconhecimento mundial do Cultivando Água Boa foi comprovado com a conquista do prêmio Carta da Terra (Earth Charter + 5), entregue em Amsterdã, Holanda. De lá pra cá, o programa tem se firmado como um exemplo a ser seguido no que se refere ao desenvolvimento sustentável e à gestão participativa em projetos socioambientais, tendo avançado em aproximadamente 30% dos800 mil hectares e contando com 260 microbacias hidrográficas em recuperação. Uma iniciativa que prova que é possível compatibilizar desenvolvimento econômico com produção de energia e preservação do meio ambiente.
Conheça aqui  a fundo o CAB, um movimento pela sustentabilidade. (Envolverde)

Sistema humanitário está em quebra

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, perante à Assembleia Geral da ONU. Foto: Cia Pak/ONU
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, perante à Assembleia Geral da ONU. Foto: Cia Pak/ONU
Por Thalif Deen, da IPS – 
Nações Unidas, 30/9/2015 – O planeta, politicamente complicado, sofre falta de empatia, afirmou o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, em seu discurso na sessão inaugural do debate de alto nível da Assembleia Geral, no dia 28. “Cem milhões de pessoas precisam de assistência humanitária imediata”, ressaltou Ban aos delegados, acrescentando que pelo menos 60 milhões foram obrigadas a abandonar seus lares ou seus países.
A ONU pediu US$ 20 bilhões para enfrentar as necessidades deste ano, seis vezes mais do que há uma década. Mas as exigências continuam sendo maiores do que os fundos existentes, embora os Estados membros tenham sido generosos, destacou Ban. Entretanto, acrescentou, o sistema humanitário “está em quebra”. O secretário-geral afirmou que “não estamos recebendo dinheiro suficiente para salvar suficientes vidas. Temos cerca de metade do que precisamos para ajudar as pessoas no Iraque, Sudão do Sul e Iêmen, e apenas um terço para as da Síria”.
No Iêmen, 21 milhões de pessoas (80% da população) necessitam assistência humanitária. O plano de resposta das Nações Unidas para a Ucrânia só está financiado em 39%, enquanto o pedido de fundos para Gâmbia, onde uma em cada quatro crianças sofre de desnutrição crônica, foi respondido com o silêncio.
Ainda assim, o mundo continua esbanjando milhares de milhões de dólares em gastos com defesa. “Por que é mais fácil encontrar dinheiro para destruir as pessoas e o planeta do que para protegê-las?”, perguntou Ban aos delegados, entre eles representantes das cinco principais potências militares do mundo: China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia.
Já o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em seu discurso de 45 minutos perante a Assembleia Geral, abrangeu diversos temas. E sua presença na ONU coincidiu com a notícia de que Irã, Iraque, Rússia e Síria formariam uma aliança para lutar contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI), apesar de uma coalizão ocidental também travar uma batalha contra essa organização armada.
“Disse antes e repito. Não há espaço para abrigar um culto apocalíptico como o EI, e os Estados Unidos não se desculpam por empregar nossos militares, como parte de uma ampla coalizão, para ir atrás dele”, advertiu Obama. “O fazemos com a determinação de garantir que jamais exista um refúgio seguro para os terroristas que cometem esses crimes. E demonstramos, ao longo de mais de uma década de perseguição incessante à (rede armada) Al Qaeda, que os extremistas não nos sobreviverão”, acrescentou.
O poder armado é necessário, mas não basta para resolver a situação na Síria, afirmou Obama. “A estabilidade duradoura só pode ser garantia quando o povo sírio forjar um acordo para viver junto em paz”, acrescentou, lembrando que os Estados Unidos estão preparados para trabalhar com qualquer nação, inclusive Rússia e Irã, para resolver o conflito. Segundo Obama, “devemos reconhecer que não pode haver, depois de tanto derramamento de sangue, tanta carnificina, um retorno ao status quo anterior à guerra”.
Ray Offenheiser, presidente da Oxfam Estados Unidos, apontou à IPS que Obama mostrou um renovado interesse em participar de um processo de paz para a Síria, com inclusão de Irã e Rússia. “Temos a esperança de que, quando voltar a Washington, seja com a intenção de continuar participando pessoalmente de um processo de paz. Suas palavras são bem-vindas, mas devem estar acompanhadas pela ação”, ressaltou.
Offenheiser enfatizou que “um destino pior do que a morte” é como alguns dos quatro milhões de refugiados sírios descrevem o que se sente ao ver seus povoados e suas cidades desmoronarem pelos ataques com morteiros e bombas de barril. “É necessário com urgência um processo de paz inclusivo, com pressão sobre as partes para que cessem os ataques indiscriminados e permitam maior acesso à assistência humanitária”, recomendou.
“Nos alegra o recente anúncio de Obama de que os Estados Unidos receberão mais refugiados, mas continuamos preocupados com a possibilidade de o ritmo e a magnitude da resposta norte-americana não se aproximar nem de longe. Exortamos Washington a receber ao menos cem mil refugiados sírios no próximo ano fiscal”, afirmou Offenheiser. Os Estados Unidos podem e devem fazer muito mais para oferecer refúgio e segurança aos milhões de sírios deslocados pelo conflito, acrescentou o ativista.
A presidente Dilma Rousseff se referiu, em seu discurso na Assembleia Geral, aos êxitos e fracassos da ONU em seus 70 anos de trajetória. Afirmou que as Nações Unidas ampliaram suas iniciativas, ao incorporar a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), incluídas questões relacionadas com o ambiente, a erradicação da pobreza, o desenvolvimento social e o acesso a serviços de qualidade.
Questões como os desafios urbanos e as questões de gênero e raça se converteram em uma prioridade, destacou Dilma. Entretanto, a ONU não teve o mesmo êxito no tratamento da segurança coletiva, uma questão que esteve presente nas origens do fórum mundial e que se mantém no centro de suas preocupações, prosseguiu a presidente.
Segundo Dilma Rousseff, a proliferação dos conflitos regionais – alguns com alto potencial destrutivo –, “bem como a expansão do terrorismo – que mata homens, mulheres e crianças, destrói nosso patrimônio comum e desloca milhões de pessoas de suas comunidades – demonstram que a ONU está diante de um grande desafio. Não se pode ser complacente com atos de barbárie como os cometidos pelo chamado EI e por outros grupos associados”.
Essa situação explica, em grande parte, a crise dos refugiados que a humanidade experimenta atualmente, pontuou a presidente. “Uma parte considerável dos homens, mulheres e crianças, que se aventuram perigosamente nas águas do Mediterrâneo e vagam dolorosamente pelos caminhos da Europa, provêm do Oriente Médio e do norte da África, de países cujas instituições estatais foram desestruturadas pela ação militar realizada, contrariando o direito internacional, abrindo espaço para o terrorismo”, destacou Dilma Rousseff. Envolverde/IPS

É possível diminuir emissões e ainda economizar


Publicação mostra que incentivar geração solar distribuída gera benefícios econômicos. Foto: © WWF-Brasil
Publicação mostra que incentivar geração solar distribuída gera benefícios econômicos. Foto: © WWF-Brasil
Um dia após o anúncio da presidente Dilma Rousseff sobre a meta brasileira de emissão de gases de efeito estufa com vistas à COP de Paris e a alguns dias de um novo aumento na energia elétrica, o WWF-Brasil lança o estudo “Mecanismos de Suporte para Inserção da Energia Solar Fotovoltaica na Matriz Elétrica Brasileira: modelos e sugestão para uma transição acelerada”. A publicação está disponível gratuitamente aqui.
Baseado em trabalhos acadêmicos desenvolvidos na Universidade de Brasília, o material é dividido em duas partes: na primeira, apresenta um panorama da concessão de incentivos para a geração de energia fotovoltaica (quando a eletricidade é gerada por paineis solares localizados em telhados de residências e escritórios, por exemplo) em vários países do mundo e sugestões de quais incentivos manter no Brasil. Em seguida, mostra que é possível reduzir as emissões e ainda economizar, trazendo um modelo de redução gradual do uso de termelétricas fósseis com aumento da oferta de energia fotovoltaica com vantagens econômicas de bilhões de reais em apenas cinco anos.
Vantagens do modelo:
  • Mais segurança para o setor energético brasileiro: a produção de energia no Brasil é hoje extremamente concentrada. Poucas usinas geram a maior parte da energia consumida;
  • Possível redução nos custos de transmissão de energia (a geração se dá próxima ao local de consumo) e melhora no desempenho do sistema nos horários de pico vespertinos;
  • Menos emissão de gases de efeito estufa. A energia termelétrica que vem sendo contratada gera por ano 21,2 milhões de toneladas de CO2. No caso da fotovoltaica, a poluição está relacionada ao processo de fabricação dos componentes, que têm vida útil estimada de 25 anos;
  • Mais empregos: vários países demonstraram que a energia fotovoltaica traz o efeito positivo da geração de grande quantidade de empregos. A energia solar fotovoltaica está entre as fontes que mais geram empregos por megawatts instalado;
  • Menos custo para o governo: após os cinco anos iniciais, teríamos uma economia de R$ 150 bilhões de recursos públicos em vinte anos (ou seja, R$ 7,5 bilhões por ano).
Evento contou também com facilitação gráfica. Foto: © Ricardo Fujii / WWF-Brasil
Evento contou também com facilitação gráfica. Foto: © Ricardo Fujii / WWF-Brasil
De acordo com o coordenador do Programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, André Nahur, “nesse momento em que o Brasil anuncia suas metas de redução de emissões, o estudo é um exemplo de que, com os incentivos adequados, podemos fazer ainda mais, reduzindo custos do governo e para a população, ao mesmo tempo em que reduzimos nossas emissões, caminhando para um cenário de energia cada vez mais limpa”.
Diálogos Energéticos
Essa publicação foi baseada nas dissertações de Helena Magalhães Mian e Vítor Augusto de Souza Mota e foi lançada no encerramento da série de seminários Diálogos Energéticos, promovido pelo WWF-Brasil. O ciclo de debates ocorreu de junho a setembro de 2015 e foi composto por três seminários com temas distintos, trazendo sempre diferentes setores para debater temas relacionados à energia sustentável.
O evento final, cujo tema era exatamente Investimento de Impacto em Energia: financiamento e viabilidade financeira, teve abertura do secretário-geral do WWF-Brasil, Carlos Nomoto, e do diretor de relações institucionais da Febraban, Mário Sérgio Vasconcelos; além de palestras individuais de Pedro Gamio, ex-viceministro de Energia do Peru, e Arnaldo Vieira de Carvalho, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Nos debates nacionais, o financiamento de negócios sustentáveis em Energia foi comentado por representantes da consultoria Clean Energy Latin America (CELA), da Empresa Brasileira de Energia Solar (EBES) e da Nova Investimentos, enquanto a última mesa, de financiamento para eficiência energética e para o consumo sustentável, teve a presença do Banco do Brasil, Itaú e Santander. O seminário teve transmissão ao vivo e está disponível na íntegra no canal do WWF-Brasil no YouTube. (WWF Brasil/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site WWF Brasil.

Onde estão as mulheres na Economia ?

Por N Chandra Mohan*
Nova York, Estados Unidos, 30/9/2015 – As mulheres constituem pouco menos da metade dos 1,2 bilhão de habitantes da Índia, mas sua presença no mercado de trabalho é muito inferior à dos homens, pois representam aproximadamente 27% da população economicamente ativa. Se – e esta é uma grande condicional – a presença feminina no mercado de trabalho aumentasse no mesmo ritmo que a dos homens, a produção de bens e serviços do país cresceria 27%, afirma Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Efetivamente, com o empoderamento das mulheres se impulsionaria o crescimento econômico. A triste realidade, porém, é que os avanços em matéria de igualdade de gênero no setor do trabalho estão paralisados, se é que não retrocederam. Em lugar de aumentar, a proporção de trabalhadoras tende a diminuir. No período 2011-2012, foi registrado um aumento na brecha referente à participação de mulheres e homens no mercado de trabalho de 32 pontos percentuais, com relação aos 25 de 1977-1978, segundo estudos quinquenais da Organização Nacional de Pesquisa por Amostragem (NSSO).
Para conseguir a paridade de gênero, seria preciso incorporar 195 milhões de mulheres à força de trabalho, um objetivo difícil de concretizar, a fim de conseguir um aumento do produto interno bruto (PIB) de 27%. Conseguir reduzir a brecha para 25% até 2025, um compromisso do G-20, significa incorporar anualmente cinco milhões de mulheres ao mercado profissional nos próximos dez anos. Por mais necessário que seja, a realidade é que somente são gerados dois milhões de postos de trabalho ao ano na economia indiana.
A queda da presença feminina no mercado de trabalho até 21,9% no período 2011-2012, em relação aos 29,7% registrados em 1977-1978, se deve à redução da brecha de gênero no setor trabalhista. Normalmente, costuma haver mais mulheres desempregadas do que homens nessa situação: elas representaram um máximo de 3,2% dos desempregados, em relação aos 2,1% dos homens nessa situação no período 1977-1978; depois as diferenças com os homens caíram em 2011-2012, segundo a medida de desemprego crônico pela NSSO. A redução das diferenças se deve, em grande parte, ao fato de haver menos mulheres sem trabalho, enquanto a situação dos homens permanece igual.
As mudanças na natureza do emprego, especialmente em áreas rurais, são o principal fator da queda dos indicadores da participação trabalhista feminina. Em termos absolutos, foram perdidos 2,7 milhões de empregos para as mulheres em dois anos, entre 2009-2010 e 2011-2012. Dois de cada três trabalhadoras eram independentes e trabalhavam em propriedades familiares no período 1972-1973, mas essa proporção caiu para 59% em 2011-2012.
Com o tempo, as oportunidades de trabalho temporários aumentaram de forma irregular com relativa importância. Isso reflete que as mulheres já não conseguem empregos de longo prazo e bem pagos, e são obrigadas a aceitar os temporários.
O cenário é ainda mais desanimador em Estados que conseguiram avanços em matéria social e de gênero, como Kerala. Atividades tradicionais, como o processamento da produção agrícola e a indústria do coco e da castanha de caju, que empregavam um grande número de mulheres, caíram. Por isso, a participação feminina no mercado de trabalho diminuiu mais do que a média nacional.
A luta pela igualdade de gênero no mercado trabalhista indiano não prosperará a menos que Estados como Kerala assumam a carga. A luz de esperança é que as mulheres se sindicalizem e pressionem por melhores condições de trabalho, segundo o jornal Indian Express. Devido à baixa participação feminina no mercado profissional, não foi registrado crescimento do PIB estadual.
A drástica queda do emprego, especialmente em áreas rurais da Índia, dissuadiu as mulheres de buscarem trabalho, o que contribui para a redução do desemprego. Em outras palavras, a diminuição do número de pessoas sem trabalho provavelmente reflete os efeitos de trabalhadoras desencantadas pela queda severa do emprego entre as mulheres.
Entretanto, corroborar o fator que expulsa as mulheres do mercado profissional está longe de ser fácil. O estudo da NSSO coloca quem não trabalha nem busca trabalho fora do mercado profissional. Isso inclui quem se matriculou em instituições educacionais e os que realizam tarefas domésticas, entre outras. De fato, os trabalhos domésticos se tornaram importantes a partir de 2009-2010.
Os pesquisadores sugerem que, devido ao aumento da renda das famílias, as mulheres abandonam o mercado de trabalho para se concentrarem mais em seus estudos. As mudanças voltadas à oferta são importantes. Nas últimas décadas, aumentou o número de matrículas femininas na educação superior, e uma redução notável na disparidade de acesso à educação. Isso tem impacto na participação feminina na atividade econômica e na busca por trabalho.
A redução da diferença no desemprego de homens e mulheres também reflete os efeitos da renda, que levaram a uma queda sustentável da participação feminina no mercado trabalhista. O problema com esse argumento é que não necessariamente se aplica ao âmbito urbano. A renda também aumenta em povoados e cidades. A matrícula feminina na educação superior registrou tendência de alta nas últimas décadas.
Entretanto, a relação entre população e trabalhadoras no âmbito urbano não seguiu a mesma tendência à baixa das áreas rurais. Aproximadamente, entre 14% e 15% das mulheres trabalhavam nas cidades em 1983, e essa proporção se manteve, em termos gerais, em 2011-2012.
As divergentes tendências entre o campo e a cidade, no tocante à participação feminina na população economicamente ativa, possivelmente refletem as posições diferentes na bem estabelecida curva em forma de U que mostra a participação feminina no mercado de trabalho. Quando a renda é baixa, a participação feminina é alta. E quando a primeira aumenta, a última tende a cair.
N Chandra Mohan. Foto: Cortesia do autor
N Chandra Mohan. Foto: Cortesia do autor
Claramente, a tendência à baixa na participação feminina reflete mudanças profundas na economia indiana, especialmente no setor rural. O pior é que isso acontece apesar de o crescimento do PIB ter acelerado nos últimos anos.
Mas nada disso deve dissuadir as autoridades de seguirem procurando melhorar a igualdade de gênero, os salários e as condições de emprego para as mulheres, especialmente no setor informal. Isso deveria atenuar as expectativas com relação à viabilidade de reduzir as diferenças na participação feminina e masculina no mercado de trabalho em 25% até 2025. Envolverde/IPS
N Chandra Mohan é analista de negócios e assuntos econômicos.

Aquecimento extremo trará ‘mortes em massa’

aquecimentoGrupo de elite da climatologia quer que governos considerem risco de planeta esquentar de 4 a 7 graus Celsius, o que causaria o colapso da civilização; análise começa a ser feita no Brasil
Por Claudio Angelo, do OC –
Um vídeo exibido a uma plateia pequena na última segunda-feira, em Brasília, mostrava sem eufemismos o que poderia acontecer com o planeta caso o aquecimento global saísse de controle e atingisse o patamar de 4oC a 7oC. Imagens de florestas queimando, lavouras mortas e inundações se sucediam enquanto uma narradora vaticinava “mortes em massa para pessoas que não tiverem ar-condicionado 24 horas por dia” e “migrações forçadas”. “Nos tornaremos parte de um ambiente extinto”, sentenciou. O fato de que a cidade passava por uma onda de calor, tendo registrado dias antes a maior temperatura desde sua fundação, ajudava a compor a atmosfera.
Num pequeno palco, em poltronas brancas, um grupo formado em sua maioria por homens de meia idade assistia à exibição. Entre eles estavam alguns membros da elite da ciência do clima, como Carlos Afonso Nobre e José Marengo, membros do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, e Sir David King, representante para Mudanças Climáticas do Reino Unido.
Até não muito tempo atrás, esses mesmos homens descontariam como alarmismo ou ficção científica as afirmações do vídeo. Hoje, são as pesquisas deles que embasam os cenários de apocalipse pintados ali.
Os cientistas reunidos em Brasília fazem parte de um grupo internacional reunido por David King em 2013 para tentar produzir uma avaliação de riscos de mudanças climáticas extremas. O trabalho foi iniciado nos EUA, na Índia, na China e no Reino Unido e agora começa a ser feito no Brasil. Ele parte do princípio de que a probabilidade de que o aquecimento da Terra ultrapasse 4oC é baixa, mas as consequências potenciais são tão dramáticas que os governos deveriam considerá-las na hora de tomar decisões sobre corte de emissões e adaptação.
“Trata-se de uma visão muito diferente da mudança climática”, afirmou King, um físico sul-africano que serviu durante anos como conselheiro-chefe para ciência do primeiro-ministro Tony Blair. “O IPCC fez um ótimo trabalho, mas é preciso uma avaliação do risco de que aconteça algo catastrófico ligado à mudança climática.”
Ele citou como exemplo os piores cenários de mudança climática projetados para a China: elevações do nível do mar que afetassem a costa leste do país, lar de 200 milhões de pessoas, quebras da safra de arroz – que têm de 5% a 10% de chance de ocorrer mesmo com elevações modestas na temperatura – e ondas de calor que estejam acima da capacidade fisiológica de adaptação do ser humano.
“Com mais de três dias com temperaturas superiores a 40oC e muita umidade você não consegue compensar o calor pela transpiração e morre”, afirmou King.
Com um aquecimento de 4oC a 7oC, estresses múltiplos podem acontecer de uma vez em várias partes do mundo. “Estamos olhando para perdas maciças de vidas”, afirmou King. “Seria o colapso da civilização.”
Rumo ao 4°C
Os modelos climáticos usados pelo IPCC projetam diferentes variações de temperatura de acordo com a concentração de gás carbônico na atmosfera. Esses cenários se chamam RCP, sigla em inglês para “trajetórias representativas de concentração”, e medem quanto muda o balanço de radiação do planeta, em watts por metro quadrado. Eles vão de 2.6 W/m2 – o cenário compatível com a manutenção do aquecimento na meta de 2oC, considerada pela ONU o limite “seguro” – a 8.5 w/m2, que é para onde o ritmo atual de emissões está levando a humanidade.
“O RCP 8.5 nos dá quase 100% de probabilidade de o aquecimento ultrapassar os 4oC no fim deste século”, afirmou Sir David King. E quais seriam as chances de mais de 7oC? Até o fim do século, baixas. “Eu sou velho, então estou bem. Mas tenho dois netos que vão viver até o fim do século, e eles vão querer ter netos também. Não ligamos para o futuro?”
Segundo Carlos Nobre, avaliar e prevenir riscos de um aquecimento extremo é como comprar um seguro residencial: mesmo com probabilidade baixa de um desastre, é algo que não dá para não fazer, porque os custos do impacto são basicamente impossíveis de manejar.
Para o Brasil, esses riscos são múltiplos: vão desde a redução em 30% da vazão dos principais rios até o comprometimento do agronegócio e extinção de espécies. Cenários regionais traçados a partir dos modelos do IPCC já apontam para aquecimentos de até 8oC em algumas regiões do país neste século, o que tornaria essas áreas essencialmente inabitáveis por longos períodos.
“Mesmo se limitarmos as emissões a 1 trilhão de toneladas de CO2, [limite compatível com os 2oC] ainda podemos ultrapassar os 3oC”, afirmou o cientista, atualmente presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
Segundo ele, não há outro caminho a tomar que não seja limitar as concentrações de CO2 na atmosfera a 350 partes por milhão. Ocorre que já ultrapassamos as 400 partes por milhão em 2014, e os compromissos registrados pelos países para o acordo de Paris não são capazes nem mesmo de garantir o limite te 1 trilhão de toneladas.
Única mulher do painel, Beatriz Oliveira, da Fiocruz, apontou o risco de muita gente no Brasil literalmente morrer de calor, em especial nas regiões Norte e Nordeste. “Você poderia ficar exposto e realizar atividades externas no máximo por 30 minutos. O resto do dia teria de passar no ar-condicionado”, disse.
Questionada pela plateia ao final do evento, a pesquisadora mencionou um único lado positivo do aquecimento extremo: a redução na incidência de doenças transmitidas por insetos, como a dengue. “Nem o mosquito sobrevive”, disse. (Observatório do Clima/ #Envolverde)
* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.



Resumo diário de notícias selecionadas
dos principais jornais, revistas, sites especializados e blogs,
além de informações e análises direto do ISA
 
 
HOJE:
Água, Amazônia, Energia, Mudanças Climáticas, Povos Indígenas
Ano 15
30/09/2015

 

Direto do ISA

 
  Atlas detalha os impactos vivenciados pelos pescadores depois de quatro anos da construção de Belo Monte Direto do ISA, 29/9.
  Meta brasileira de redução de emissões deu passo atrás na proteção ao Cerrado. Especialistas consideram que proposta tem pontos positivos, mas poderia ser mais ambiciosa ISA, 29/9.
  Grupo de elite da climatologia quer que governos considerem risco de planeta esquentar de 4 a 7 graus Celsius, o que causaria o colapso da civilização; análise começa a ser feita no Brasil Blog do ISA, 30/9.
  
 

Mudanças Climáticas

 
  Um estudo sobre a subida do nível do mar em Santos (SP) será apresentado hoje a membros da sociedade local. A cidade terá que lidar com o aumento do nível do mar progressivo até 2100. No cenário mais brando, o Atlântico deverá subir 18 cm até o ano de 2050. Os dados saíram de um modelo matemático que processou por meses informações específicas de Santos. "Passou o momento da mitigação, agora temos que trabalhar com adaptação", afirma o engenheiro Eduardo Hosokawa. O desenho do estudo junta pesquisadores de institutos de pesquisa e universidades com o corpo técnico da prefeituras. No fim do ano, haverá outro seminário para ouvir a população sobre como preparar a cidade FSP, 30/9, Ciência, p.B9.
  Moderar aquecimento global passa por armazenamento de energia e controle demográfico, diz o representante especial para mudanças climáticas do Ministério das Relações Exteriores britânico, David King. Ele afirmou que está otimista sobre o encontro internacional do clima em Paris, em dezembro. Em evento, o negociador britânico tratou ainda de assuntos como energia nuclear e demografia, além de questionar a baixa ineficiência da pecuária brasileira e o alto uso de transporte rodoviário no país FSP, 30/9, Ciência, p.B9.
  "Quando comparado com as emissões nos anos mais recentes (2012, por exemplo), após longo período de queda do desmatamento, a meta brasileira significa uma redução menos de 10%. No contexto das necessidades do planeta e das possibilidades do Brasil, as metas são pouco ambiciosas e insuficientes. Percebem-se alguns avanços, como o compromisso de recuperar 15 milhões de hectares de pastagens, mas, no geral, são ações tímidas como atingir 45% de fontes renováveis na matriz energética, o que é menos do que a média dos últimos dez anos. No caso do desmatamento, a meta limita-se a zerar o desmatamento ilegal na Amazônia. Acaba por ignorar os demais biomas e se restringe à parcela ilegal do desmatamento", artigo de Tasso Azevedo O Globo, 30/9, Opinião, p.17.
  
 

Energia

 
  A Eletronuclear suspendeu ontem todos os contratos relativos às obras da usina nuclear de Angra 3 pelo prazo de 90 dias. A suspensão pode ser prorrogada por até 120 dias. A informação foi dada pelo novo presidente da estatal, que assumiu anteontem, Pedro Figueiredo. Ele explicou que a decisão tem o objetivo se realizar uma investigação minuciosa nos contratos, que será feita por uma empresa de consultoria, em fase contratação. Os contratos das obras de Angra 3 estão sendo alvo das investigações da Polícia Federal no âmbito da Operação Lava-Jato, que apura um esquema de corrupção entre ex-funcionários da Petrobras e da Eletronuclear e fornecedores O Globo, 30/9, País, p.6.
  "Fica em consulta pública até 7 de outubro o novo Plano Decenal de Expansão de Energia, ou PDE 2024. É pouco tempo para que o texto seja aperfeiçoado como poderia. O maior problema do PDE 2024 está numa mentalidade pró-petróleo. Verdade que o documento traça um panorama favorável para as energias renováveis -como biomassa, eólica e solar. Pelas projeções apresentadas, elas alcançariam 45% da matriz energética em 2024. Sem dúvida, seria um bom resultado diante da presente média mundial, de 13,5%. Mas o percentual brasileiro caminhou em sentido oposto de 2012 para 2013, caindo de 42,3% para 41% com a ampliação da frota de veículos e da dependência de usinas termelétricas", editorial FSP, 30/9, Editoriais, p.A2.
  
 

Água

 
  O governo Geraldo Alckmin (PSDB) deve inaugurar hoje a mais importante obra para evitar, ao menos a curto prazo, a adoção de um rodízio de água na Grande São Paulo. Trata-se de uma interligação, por meio de 9 km de adutoras, que levará água do cheio reservatório do Rio Grande (braço da represa Billings) ao crítico Alto Tietê, manancial no extremo leste da região metropolitana. O objetivo inicial é que metade dos 4 mil litros de água que serão bombeados a cada segundo seja usada para encher represas do Alto Tietê -manancial atualmente com 15% de sua capacidade. A outra metade da água bombeada será empurrada por meio da rede de abastecimento para residências das zonas norte e leste da capital FSP, 30/9, Cotidiano, p.B8.
  
 
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