sábado, 28 de fevereiro de 2015

Entidades buscam política de incentivos para manejo florestal comunitário

por Redação do IEB
Brasília, fevereiro de 2015 – Representantes da Rede de Manejo Florestal Comunitário e Familiar da Amazônia Brasileira propuseram à ministra do Meio Ambiente nesta terça-feira (24/02) a reativação do programa governamental de incentivo a práticas e técnicas de gestão que permitem explorar a madeira e outros produtos da floresta de forma contínua e não predatória – o chamado manejo florestal.
Além de pedir à ministra Izabella Teixeira a reativação do Programa Federal de Apoio ao Manejo Comunitário, paralisado desde 2012, uma comissão representando 47 entidades que reúnem comunidades extrativistas, cooperativas que trabalham com manejo florestal, ONGs socioambientais e até o Fundo Vale, anunciou a realização nos dias 24 e 25 de março, em Brasília, de um seminário para formulação de políticas e implementação de uma agenda mínima ligada ao tema.
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A avaliação de um seminário preliminar articulado em novembro passado pelo Instituto de Educação Internacional do Brasil (IEB) e que resultou na Carta de Brasília, constatou que as florestas comunitárias são alvo de pressão, exploração ilegal e fonte de suprimento do mercado ilegal de madeira na Amazônia.
“Os casos de assassinatos na Amazônia se davam no passado pela disputa pelo acesso a territórios,” explica Manuel Amaral, Coordenador do Escritório paraense do IEB e um dos membros da comissão recebida pela ministra. “Hoje é a disputa pelo uso dos recursos que catalisa o conflito. O que torna a questão do manejo comunitário ainda mais importante.”
Emblematicamente, a filha mais velha do seringueiro e ativista Chico Mendes, assassinado há 26 anos em Xapuri, no Acre, no que viria a ser a primeira Reserva Extrativista do país, estava na comissão recebida pela ministra. Ângela Mendes, diretora do Centro de Trabalhadores da Amazônia, OnG criada pelo pai, ouviu relatos sobre uma comunidade extrativista na Calha Norte, no Pará, que vem realizando os empates criados por Chico Mendes e sofrendo ameaças semelhantes as sofridas pelo pai.
A Reserva Extrativista Chico Mendes em Xapuri é uma das cinco comunidades que integram a Cooperfloresta, uma cooperativa acreana de produtos florestais comunitários. Segundo Simony Hechenberger, engenheira florestal e consultora da cooperativa que funciona desde 2005, a Cooperfloresta trabalha sempre com a produção prevista em anos anteriores. Isto porque a autorização do plano anual de manejo, dada pelo governo federal, chega sempre com pelo menos um ano de atraso.
“As dificuldades são tantas para cumprir as exigências, que a tendência é ir para a ilegalidade. O corte das árvores está previsto no plano de manejo, mas muitos acabam vendendo a madeira por fora”, afirma Hechenberger. Mesmo assim, a renda média chegou a R$ 8 mil em 2014 “e só não ganhou da coleta de castanha por causa do licenciamento”, diz Hechenberger.
Descompasso
“A agenda de fomento florestal está em descompasso com a da regulação. O controle evoluiu muito tentando encurralar e tirar os ilegais do processo, mas isto refletiu no pequeno produtor. Hoje em dia, o pequeno lá na Amazônia precisa ter acesso à internet, certificado digital para acessar o sistema de Controle de Documentos de Origem Florestal (que garante a rastreabilidade da madeira) e, a partir de agosto o Ibama avisou que vai exigir também o Cadastro Ambiental Rural”, explica Carlos Koury, Secretário-Executivo do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesan), OnG que dá suporte a manejo florestal no estado há vários anos.
Para ele, sem condições de fomento, de assistência técnica continuada, de subsídios, o manejo florestal familiar está se tornando inviável. “Em 2009, o manejo florestal de pequena escala respondia por 62% do planos de manejo do estado do Amazonas. Hoje caiu para 50%”, conta. “Ele (o pequeno) não tem o preparo necessário ou financiamento para acessar uma assistência técnica que o ajude a tirar uma nota fiscal, por exemplo. E quem é licenciado, precisa vender para licenciado. Nem sempre há uma serraria licenciada perto do pequeno produtor. Ele precisa vender para fora do estado por exemplo. O aumento do controle não foi acompanhado do aumento de mecanismos de fomento e isto atingiu o manejo florestal familiar em cheio”.
Antes da reunião, o diretor do Grupo de Trabalho Amazônico, João Bosco Campos, falava com esperança em “retomar as agendas paralisadas do manejo florestal comunitário e familiar” e confidenciava: “A expectativa é grande”.
Segundo Amaral, a ministra recebeu bem “a proposta de repactuação da agenda e isso abre espaço para o resgate das ações de fomento que a comunidades da Amazônia precisam para realizar o manejo comunitário”. Mas o otimismo é contido. Joaquim Belo, do Conselho Nacional das Populações Extrativista (CSN) – antigo Conselho Nacional de Seringueiros, resume: “Não é só a questão do manejo, mas a da política florestal que está paralisada há algum tempo. E se está abandonada, é porque não tem sido priorizada.
(IEB)

SeaWorld enfrenta forte declínio e continua a investir no cativeiro de animais marinhos

28 de fevereiro de 2015


(da Redação da ANDA)
BLACKFISH
Foto: Reprodução
E os problemas do SeaWorld persistem, como mostra seu relatório de lucros do quarto trimestre, divulgado esta quinta (26). O número de visitantes e os ganhos continuam a cair e a empresa sofreu uma perda líquida de 25,4 milhões de dólares no final de 2014. As informações são do The Dodo.
Essa tem sido uma semana complicada para a companhia de entretenimento. Uma beluga morreu em um de seus tanques em Orlando (EUA), provavelmente em razão de luta com outros animais da mesma espécie. A mesma SeaWorld Orlando foi obrigada a cancelar um projeto controverso que permitia que visitantes alimentassem os golfinhos com as próprias mãos – e sem supervisão.
Os números não dão pista de que a coisa vai melhorar. No último trimestre de 2014, a receita da empresa foi de 264,5 milhões de dólares, uma queda de 7,4 milhões, ou 3%, comparado ao mesmo período de 2013. Comparando-se a renda total de 2014 com a de 2013, a queda foi de 6%.
A frequência de público também sofreu perdas: diminuiu em 2,2% em comparação com o último trimestre de 2013.
Em 2013, o documentário Blackfish revelou um histórico preocupante da empresa em relação à segurança dos treinadores e aos cuidados com as orcas. O filme também foi o estopim para uma reação violenta contra a companhia, com direito à introdução de novas leis em Nova York, Califórnia e Washington para proibir a manutenção de orcas em cativeiro.
Em 2014, as ações da SeaWorld caíram 50%.
Com a proibição do cativeiro de orcas na Califórnia, as ações caíram 7%. Dali em diante, sua participação na bolsa foi ladeira abaixo: os preços despencaram 33% depois do anúncio dos números desanimadores do relatório de renda em Agosto e caiu abaixo dos 16 dólares pela primeira vez em Dezembro. Este último recorde negativo foi resultado de uma ação movida contra a SeaWorld por seus próprios investidores, que alegaram que a empresa não havia divulgado corretamente o impacto do documentário em seus negócios.
Além da desvalorização das ações, parceiros corporativos também estão abandonando o barco, ou o tanque. Companhias como Southwest Airlines, Virgin America, Hyundai, Taco Bell e Panama Jack cortaram seus laços com a empresa em 2014.
No meio do “efeito Blackfish“, o diretor executivo da empresa, Jim Atchison, entregou o cargo em Dezembro. Até agora, ninguém foi nomeado para seu lugar.
O diretor interino David D’Alessandro afirmou aos investidores quinta pela manhã (26) que eles estão cogitando uma campanha de marketing abordando “a verdade sobre o SeaWorld” como forma de tentar limpar as manchas feitas à reputação da empresa. Ele também afirmou que eles têm sabido lidar com publicidade negativa desde dos “tempos de Free Willy”.
Apesar de todo o impacto negativo, a companhia tem se recusado a aceitar que seus consumidores não querem mais ver orcas presas em tanques. Ela tem ignorado pedidos para acabar com seu programa de reprodução de orcas e enviar os animais para santuários marinhos. Pelo contrário: insiste em construir novos parques, desta vez no Oriente Médio, onde o drama dos cetáceos mantidos em cativeiro é menos conhecido.
No entanto, parece claro que se o SeaWorld não mudar seu rumo, escutar os consumidores e libertar as orcas, seus percalços irão continuar.

PORTO ALEGRE : Ambientalistas se reúnem com Ana Pellini

A Agapan, em conjunto com representantes de outras ONGs ambientalistas gaúchas filiadas à Apedema (Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente), entregou nesta quarta-feira (14), durante reunião com a secretária do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Ana Pellini, um documento reafirmando o desconforto do grupo em relação à sua nomeação para comandar a pasta ambiental.
O documento também cobra a imediata apresentação de um plano de trabalho “a fim de implementar e promover políticas ambientais, considerando o quadro de degradação ecológica crescente no RS”.
A secretária, que estava acompanhada por assessores, afirmou que o foco de sua estratégia para agilizar os licenciamentos ambientais será o planejamento.
As entidades ligadas à Apedema condicionaram a aceitação do convite para participar de reuniões periódicas com a Secretaria Estadual de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Seades) ao recebimento das respostas da secretária aos questionamentos encaminhados no documento.
O grupo também questionou a intenção do governo ao alterar o nome da Secretaria Estadual do Meio Ambiental (Sema) para Secretaria Estadual de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Seades) sem consultar os funcionários da secretaria, o Conselho Estadual do Meio Ambiente e os ambientalistas. Segundo o documento, a alteração foi feita “de forma indefensável, veloz e antidemocrática”. 
Durante campanha eleitoral, Cairoli
recebe propostas para políticas ambientais
Durante o encontro, foi lembrado à secretária e sua equipe que o vice-governador, José Paulo Cairoli, recebeu, durante a campanha eleitoral, o documento “Que Rio Grande queremos?”, que apresenta propostas das entidades ambientalistas para a política ambiental do RS.


Confira, abaixo, a íntegra do documento .

Representantes de entidades ambientalistas comparecem à
reunião convocada pela secretária Ana Pellini.

















Porto Alegre, 14 de janeiro  de 2015.


Ao Excelentíssimo Governador do Estado do RS
Sr. José Ivo Sartori
À Secretária Estadual do Meio Ambiente
Srª. Ana Maria Pellini


Prezados Senhor e Senhora:

Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente - APEDeMA-RS, levando em conta o convite feito pela atual secretária da Secretaria Estadual de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEADES) para uma reunião com diversas entidades que a compõem, entendeu ser pertinente um posicionamento deste coletivo para a presente reunião.

Consideramos, sim, oportuno que qualquer nova gestão que assume a pasta ambiental do Governo do Rio Grande do Sul, de pronto, apresente seu plano de trabalho a fim de implementar e promover as Políticas Ambientais considerando o quadro de degradação ecológica crescente no Estado e que requer soluções urgentes em várias áreas. A Apedema sempre esteve disposta a dialogar com todos os governos, e não seria aqui diferente.

Entretanto, informamos, o que também é público, nossa surpresa e insatisfação com a escolha por parte do Governo do RS para o comando da pasta ambiental, na qual esperávamos alguém com perfil mínimo de formação na área e que tivesse demonstração de conduta inquestionável. Existem, inclusive, documentos das entidades da Apedema, encaminhados anteriormente ao governador José Ivo Sartori, ao Ministério Público e à Procuradoria de Justiça do Estado, questionando esta escolha, com base em situações que se referem a um histórico de atitudes nada recomendáveis, as quais, inclusive, fazem parte de ações na Justiça. Estamos no aguardo das posições do Judiciário sobre a matéria.

Reconhecemos, porém, o direito e a legitimidade do Governo escolher sua equipe técnica, assim como reconhecemos, também, suas responsabilidades jurídicas diante de tais escolhas e das ações por esses comandadas.

No entanto, é importante destacar que além do item anterior, um segundo aspecto causou um forte sentimento de indignação de parte de ambientalistas, funcionários da SEMA e parte da população: a substituição, de forma indefensável, veloz  e antidemocrática, da Secretária Estadual do Meio Ambiente (SEMA) pela atual SEADES, proposta pelo novo governo. Cabe lembrar que, previamente ao pleito eleitoral de 2014, entidades ambientalistas entregaram, a todos os candidatos, documentos com propostas na área ambiental e esperavam retornos dos candidatos, inclusive por parte daquele vitorioso, após as eleições. Além do não retorno, fomos pegos de surpresa por um projeto de uma nova secretaria, sem qualquer debate prévio com a sociedade. Tampouco se consultou o órgão máximo da Política Ambiental do RS, o CONSEMA. O surgimento da SEMA foi celebrado com muita emoção, em 1999, como uma conquista de décadas, não somente por parte de ambientalistas e funcionários das instituições de meio ambiente do Estado, mas sobretudo por parte da sociedade gaúcha, em um estado pioneiro nas causas ambientais. A SEMA surgiu para atuar exclusivamente na área de meio ambiente, conjuntamente aos demais entes doSistema Nacional de Proteção Ambiental – SISNAMA e o Sistema Estadual de Proteção Ambiental – SISEPRA-RS. Uma identidade já consagrada, um patrimônio que levou muitos anos para ter seu nome conhecido e seu trabalho reconhecido pela maior parte da população, justamente em uma pasta, em geral, esquecida pelos governos.  

Agora, com o surgimento da nova secretaria, com atribuições polêmicas, que se sobrepõem a outras pastas (desenvolvimento, educação ambiental formal), perde-se o objetivo principal de uma secretaria que deve ter como foco central a real promoção de um ambiente ecologicamente equilibrado para todos, garantindo também a manutenção dos processos ecológicos, entre outros princípios assegurados pelas Constituições Federal e Estadual.

De qualquer forma, temos expectativas de que o governo reconheça o papel estratégico da área de meio ambiente, mantendo sim diálogos tanto com as entidades como com os demais setores da sociedade, e, sobretudo internamente, garantindo respeito à área técnica, visando a promoção e a implementação de uma política ambiental condizente com os objetivos constitucionais da pasta.

No entanto, é preciso deixar claro que há uma série de questões históricas ainda não superadas, entre elas os resultados efetivos de melhorias à secretaria, após a Operação Concutare, revisando-se as licenças ilegais, a punição aos responsáveis, incrementando-se os mecanismos de controle interno, a transparência externa, o fortalecimento e valorização do papel do Consema para as políticas ambientais do RS.

Há a necessidade urgente da se fortalecer a gestão ambiental, qualificada, superando-se a visão meramente cartorial e setorial, que redundou, em anos atrás, nos desastrosos balcões de licenciamentos. Espera-se também que seja superada a forma de licenciamento “caso a caso”, fortalecendo-se as Avaliações Ambientais Estratégicas e Integradas, levando-se em consideração a capacidade de suporte dos ecossistemas naturais e seus processos vitais, garantindo, como clama a Constituição Federal, a proteção das espécies ameaçadas de extinção. Cabe dar destaque também que alguns processos mais “demorados” de licenciamento se devem muitas vezes a projetos que entram com baixa qualidade técnica na FEPAM, e pela falta de zoneamentos e de diretrizes claras por parte do órgão de meio ambiente.

Desta forma, desde já, desejamos deixar claro que lutaremos contra qualquer tentativa de enfraquecimento dos órgãos ambientais do RS, e ,ao contrário, vamos cobrar o seu fortalecimento. Estaremos vigilantes contra qualquer retrocesso, inclusive denunciando possíveis intentos de substituição de atribuições do órgão ambiental por algum tipo de “licenciamento ambiental autodeclaratório”, que possa transferir competências do Estado para setores da iniciativa privada. Isso vai de encontro à tutela constitucional, do Estado, deixando sem formas de responsabilização por qualquer dano eventual ao ambiente natural causado por empresas ou empreendedores autodeclarantes.

Atenciosamente,
Eduino Mattos
Coordenação da Apedema

Assinam o documento:

AGAPAN-PORTO ALEGRE; APAIPQ-QUINTÃO; AMA-GUAÍBA; ABEPAN-BENTO GONÇALVES; AMA-CARAZINHO; ASSECAN- CANELA; AIPAN – IJUÍ; APN-VG – GRAVATAÍ; ASPAN-SÃO BORJA; ANAMA-MAQUINÉ; BIGUÁ-ARAMBARÉ; BIOFILIA-PORTO ALEGRE; CEA-PELOTAS/RIO GRANDE; FUNDAÇÃO GAIA-PORTO ALEGRE; FUNDAÇÃO MOA-PORTO ALEGRE; GEGV –PASSO FUNDO; GESP- PASSO FUNDO; MARICÁ-VIAMÃO; H20 PRAMA – PORTO ALEGRE; IGRÉ – PORTO ALEGRE; BALLAENA AUSTRALIS - SANTA VITÓRIA DO PALMAR; ECONSCIÊNCIA – PORTO ALEGRE; INGÁ – PORTO ALEGRE; INSTITUTO ORBIS – CAXIAS DO SUL; INSTITUTO PATULUS – BENTO GONÇALVES; OS VERDES –TAPES; MOVIMENTO AMBIENTALISTA VERDE NOVO – SÃO LOURENÇO DO SUL; MOVIMENTO ROESSLER – NOVO HAMBURGO; NAT – PORTO ALEGRE; NEMA – RIO GRANDE; RESGATANDO O FUTURO DA BIODIVERSIDADE – SANTA MARIA; SOLIDARIEDADE – PORTO ALEGRE; MIRA-SERRA – SÃO FRANCISCO DE PAULA/PORTO ALEGRE; UPPAN – DOM PEDRITO; UPAN – SÃO LEOPOLDO; UPV – PORTO ALEGRE
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FONTE : http://agapan.blogspot.com.br/

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Para Ban Ki-Moon, Itaipu é liderança mundial em sustentabilidade

por Itaipu
Secretário Geral da Onu, Ban Ki-Moon visita usina hidrelétrica de Itaipu na quinta-feira (26). Foto: Rafael Neddermeyer/ FOTOS PÚBLICAS
Secretário Geral da Onu, Ban Ki-Moon visita usina hidrelétrica de Itaipu na quinta-feira (26). Foto: Rafael Neddermeyer/ FOTOS PÚBLICAS

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, afirmou nesta quinta-feira (26), durante visita à usina hidrelétrica de Itaipu, na fronteira do Brasil com o Paraguai, que a binacional tem papel de liderança no desafio de melhorar as condições socioambientais do planeta e de ajudar a milhões de pessoas que ainda não têm acesso a energia elétrica.
“A ONU está apoiando fortemente tudo o que vocês [de Itaipu] estão fazendo. A sua experiência, inovação e a sua visão devem ser compartilhadas e, mais importante, admiradas por outros países. Essa é nossa responsabilidade comum”, declarou o secretário-geral.
Ban Ki-Moon esteve na Itaipu como parte de uma visita oficial de dois dias ao Paraguai. Ele conheceu a usina acompanhado da mulher, Yoo Soon-Taek, e do ministro de Relações Exteriores do Paraguai, Aladio Loizaga – além de outras autoridades da ONU e do governo paraguaio.
Na binacional, o secretário-geral foi recebido pelos diretores-gerais do Brasil, Jorge Samek, e do Paraguai, James Spalding, e por toda a diretoria da empresa, de ambas as margens. O dirigente máximo da ONU também fez uma visita técnica pelo interior da usina e plantou uma muda de ipê-amarelo no Bosque dos Visitantes, ao lado do Mirante do Vertedouro da margem paraguaia.
Falando aos diretores de Itaipu, no Edifício de Produção, Ban Ki-Moon ressaltou que a sustentabilidade está no topo das preocupações da ONU – e que os projetos de Itaipu estão alinhados com esse processo de transformação da sociedade.
“Em 2012, na Rio+20, concordamos em construir um mundo melhor para todos, com dignidade para todos, em que ninguém é deixado para trás. É isso que sustentabilidade significa. Sustentabilidade econômica, ambiental e social. Essa é a nossa responsabilidade moral e política”, destacou. “E vocês [de Itaipu] são um bom exemplo. É um privilégio e eu me sinto agradecido por ter podido aprender mais com vocês.”
Ainda de acordo com o secretário-geral, é papel dos líderes contemporâneos entregar às futuras gerações um mundo melhor, especialmente no aspecto ambiental. “E vocês [de Itaipu] são líderes. Há um aspecto extremamente importante nisso: vocês estão contribuindo para um mundo mais sustentável. É incrível, para mim, compreender a força que está na água. Sem água e sem energia, não podemos ter um mundo melhor”, completou.
Ban Ki-Moon lembrou que a água e a energia são temas “centrais e transversais” da agenda da ONU – e citou como exemplo o programa Energia Sustentável para Todos, que tem como objetivo suprir toda população mundial com serviços modernos de energia até 2030.
Outro objetivo da ONU, segundo ele, é aumentar a eficiência energética e a participação das energias limpas e renováveis no mix mundial de fontes de abastecimento. “Vejo que no Paraguai essa participação é de 100% e, apesar de o Paraguai não ser um país rico, esse exemplo é muito encorajador”, citou.
Parceria com Itaipu
Ainda no Edifício de Produção, Jorge Samek transmitiu ao secretário-geral mensagem de boas-vindas da presidente do Brasil, Dilma Rousseff. O diretor-geral também disse ao secretário-geral que Itaipu respeita e segue em suas ações corporativas documentos globais da própria ONU, como o Pacto Global, o programa Carta da Terra e os Princípios do Milênio – entre outros –, além de promover ações socioambientais reconhecidas mundialmente, como Programa Cultivando Água Boa (CAB).
Samek lembrou ainda que, em 2008, Itaipu promoveu em Foz do Iguaçu, com apoio da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Onudi), um fórum mundial de energias renováveis com mais de 50 países. “Com esse fórum, estabelecemos um profundo trabalho com a ONU”, comentou. (Itaipu/Envolverde)
(Itaipu) 

Tsunami humano causa tragédia em serras argentinas

por Fabiana Frayssinet, da IPS
Um riacho que transborda e uma estrada danificada no município de Rio Ceballos, nas Sierras Chicas, província de Córdoba, na Argentina, após as inundações do dia 15 deste mês. Ricardo Suárez, diretor do Projeto de Conservação e Reflorestamento das Serras de Córdoba atribui os danos ao alto desmatamento na área. Foto: Cortesia do biólogo Ricardo Suárez
Um riacho que transborda e uma estrada danificada no município de Rio Ceballos, nas Sierras Chicas, província de Córdoba, na Argentina, após as inundações do dia 15 deste mês. Ricardo Suárez, diretor do Projeto de Conservação e Reflorestamento das Serras de Córdoba atribui os danos ao alto desmatamento na área. Foto: Cortesia do biólogo Ricardo Suárez

Córdoba, Argentina, 27/2/2015 – Fenômenos pluviais atípicos e cada vez mais frequentes na Argentina, como os que provocaram as inundações na província de Córdoba, centro do país, indicam a necessidade cada vez mais imperiosa de políticas de reordenamento territorial e de um combate efetivo ao desmatamento.
Definidas pelo governador de Córdoba, José Manuel de la Sota, como “um tsunami que caiu do céu”, as chuvas do dia 15 deste mês afetaram 320 quilômetros quadrados do cordão montanhoso de Sierras Chicas, no noroeste da província, deixaram oito mortos e 1.500 casas destruídas. Ontem, outro forte temporal, desta vez no leste e sudeste de Córdoba, voltou a inundar vários povoados e obrigou à evacuação de mais de 800 pessoas, segundo dados provisórios, mas sem vítimas fatais.
“Foi uma catástrofe: pontes quebradas, casas destruídas, uma praça com sua área esportiva já não existe, várias centenas de metros de tubulação que abastecem de água desapareceram. E o mais lamentável, a morte de pessoas”, contou à IPS o ambientalista Ricardo Suárez, morador do município de Río Ceballos, uma das localidades mais afetadas pelas inundações do dia 15.
Mas o “tsunami” desse dia, uma metáfora para os 320 milímetros de chuva que caíram em 12 horas nessa região de 300 mil habitantes, “não caiu do céu”, segundo Raúl Montenegro, presidente da Fundação para a Defesa do Meio Ambiente. “Sierras Chicas depredadas, loteadas por imobiliárias, e sem populações preparadas, causaram a tragédia”, resumiu à IPS este biólogo, prêmio Nobel Alternativo, entregue anualmente no parlamento sueco aos que lutam por um futuro melhor para o planeta.
“A mão humana interveio para que isso se agravasse”, acrescentou Suárez, diretor do Projeto de Conservação e Reflorestamento das Sierras Chicas de Córdoba. “Praças sobre o rio, casas construídas em suas margens, lixo sem recolher, plantio de árvores exóticas que não se adaptam às cheias, pontes para pedestres e particulares para carros, por todo lado falta de planejamento, de alertas e de prevenção”, detalhou.
Segundo Montenegro, a tragédia teve duas causas principais: “precipitações extensas em um curto espaço de tempo e ambientes serranos desmatados”, onde os principais cursos de água nascem. “A deterioração ambiental das serras as transformou em perigosos e imprevisíveis tobogãs que enchem rapidamente os cursos de água”, acrescentou.
Federico Kopta, biólogo e presidente do Fórum Ambiental de Córdoba, explicou à IPS a função da vegetação nativa nas montanhas. “Atua como uma espécie de guarda-chuva, evitando que a água tenha impacto direto e desagregue o solo”, explicou. Além disso, junto com suas raízes, “funciona como uma espécie de rede que sustenta o solo e evita que seja arrastado ladeira abaixo”, pontuou.
Também age como uma “espécie de esponja, retendo a água na parte superior das serras e administrando-a lentamente”, acrescentou Kopta. Quando essa vegetação desaparece “aumenta a vazão da água na superfície” e com a erosão hídrica e as inundações “resta menos reserva de água durante a estação seca”, ressaltou o especialista.
A outra face da moeda, o dique La Quebrada, a sete quilômetros de Rio Ceballos, com a água em seu mais baixo nível histórico, em novembro de 2013, como consequência da seca que na época afetou o cordão montanhoso de Sierras Chicas, em Córdoba, na Argentina. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS
A outra face da moeda, o dique La Quebrada, a sete quilômetros de Rio Ceballos, com a água em seu mais baixo nível histórico, em novembro de 2013, como consequência da seca que na época afetou o cordão montanhoso de Sierras Chicas, em Córdoba, na Argentina. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

A organização Greenpeace atribuiu o aumento de inundações na Argentina à alta taxa de desmatamento, apesar da entrada em vigor, no final de 2007, da Lei para a Proteção das Florestas Nativas, com orçamento específico para sua restauração.
Kopta destacou que em Córdoba restam menos de 4% de suas florestas originais. Isso depois que, entre 1998 e 2007, o desmatamento na província, a segunda mais habitada do país, chegou aos 247.967 hectares, e depois que, entre 2007 e 2013, foram eliminados 44.823 hectares, dos quais 10.796 eram florestas protegidas por lei.
“Os desmatamentos para desenvolvimento agropecuário e urbano arrasaram as florestas nativas frágeis perdendo a proteção da vegetação frente às fortes chuvas”, diz o Greenpeace em um comunicado do dia 18 deste mês. “Ironicamente, desmatamento, incêndios e avanço imobiliário sobre as serras causam duas crises que se contrapõem: rios sem água no inverno e perigosamente transbordando durante as chuvas de verão”, disse Montenegro, ao recordar que em Córdoba praticamente foram eliminados dois de seus três grandes ecossistemas.
O desmatamento “mais violento”, segundo Montenegro, foi na década de 1990 e coincidiu com a introdução na província de cultivos transgênicos (geneticamente modificados) de soja, milho e algodão. A construção de condomínios, indústrias e grandes complexos turísticos também impulsionou o desmatamento em Córdoba, que contribuiu com 8% para o produto interno bruto argentino.
Kopta considera que “a mão do homem” influiu duplamente na catástrofe. Em um contexto global, recordou que o aquecimento do planeta gera maior frequência de eventos climáticos extremos, “algo que os cordobeses não podem manejar”. Em um contexto mais local, acrescentou, a tragédia está relacionada com o incorreto uso dos recursos naturais.
Nesse sentido, segundo Kopta, a “devastação da vegetação nativa” na cabeceira das bacias, causada por incêndios florestais, desmatamento e invasão de espécies de fora, além do pastoreio em altura, “mudam a dinâmica hídrica do lugar. É urgente limitar os grandes empreendimentos imobiliários e as urbanizações nas montanhas, que agravam o desmatamento, enfatizou.
Kopta acrescentou que essas urbanizações se multiplicaram nos últimos 20 anos, “pela grande demanda de gente que, trabalhando na cidade de Córdoba, utiliza Sierras Chicas como dormitório”, o que, por sua vez, gerou ocupações em lugares inundáveis. A capital provincial, de mesmo nome, é a segunda cidade do país e concentra mais de 40% da população da província.
“Entende-se que cada vez somos mais e necessitamos de moradia digna, mas é tão pouco o controle que, por exemplo, se autorizou a construção de duas casas próximas a um riacho e, naturalmente, hoje estão inundadas e a rua destruída pelo desvio do próprio riacho”, apontou Suárez. Montenegro pediu que sejam reativados os comitês de bacias hídricas para evitar essas tragédias.
Por sua vez, Kopta cobrou a aplicação das leis de planejamento urbano e proteção florestal, para reordenar e proteger o território, incluindo a assessoria de geólogos e especialistas em morfologia da terra. Também considera necessário que as obras de infraestrutura contemplem a nova realidade climática. “Às vezes, quando as pontes não são suficientemente altas, atuam como diques, onde param os troncos e restos de árvores, o que leva às cheias, fazendo a água subir e inundar”, acrescentou.
Suarez se referiu a outros casos de “mau planejamento de obras”, como o de estradas, “que não têm avaliação de impacto ambiental”.
Kopta recordou que alguns engenheiros propõem obras preventivas com “lagoas de retenção”, para diminuir o escorrimento da água. Mas, ressaltou, antes de tudo “é preciso aumentar a superfície de florestas nativas, o controle de espécies de fora e o cuidado com florestas e pastagens, para evitar que se coloque fogo em áreas de sobrepastoreio”.
Esses fenômenos meteorológicos “já não são atípicos”, destacou Suárez, para quem não é paradoxal “que hoje vivemos inundações e há um ano lutávamos por uma gota de água”. Alertou que “isso é o que vamos viver devido ao dano ambiental sofrido. A província já não possui resistência ambiental e qualquer evento se transformará em uma tragédia”, ressaltou. Envolverde/IPS
(IPS) 

Recuperação de reservatórios não reduz necessidade de economizar água

por Vinicius Lisboa, da Agência Brasil
Foto: Sabesp/Divulgação
Foto: Sabesp/Divulgação

A recente elevação do nível dos reservatórios do Rio Paraíba do Sul e a saída do Santa Branca do volume morto estão longe de permitir relaxamento nos pedidos por economia de água, afirma a vice-presidenta do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Ceivap), Vera Lúcia Teixeira. A orientação de reduzir o consumo, para Vera, deve ser feita “em letras garrafais”.
“Os reservatórios aumentaram em função das chuvas que caíram em fevereiro, mas isso não representa nada se levarmos em consideração 2014. No ano passado, o nível chegou a 35% neste período, e hoje está na faixa de 7,5%. Com 35% no ano passado, entramos no volume morto depois do período seco”, disse Vera Lúcia, que se reunirá amanhã (26) com representantes da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Segundo ela, a meta é que os reservatórios cheguem a 15% em março, mas a situação só pode ser considerada confortável se os reservatórios atingirem 50%.
No dia 24, segundo o boletim diário da ANA, o reservatório de Santa Branca, um dos quatro que compõem a Bacia do Paraíba do Sul, deixou o volume morto, com elevação de seu nível útil de -0,03% para 0,08%. O nível total dos reservatórios, no entanto, caiu de 7,53% para 7,49%, puxado pelo maior reservatório, o Paraibuna, que caiu de 2,01% para 1,93%. O reservatório de Funil, o único que fica dentro do estado do Rio de Janeiro, teve queda no nível útil de 34,56% para 34,43%. Assim como Santa Branca, Jaguari teve pequeno aumento, de 8,15% para 8,26%.
Como o período seco começa depois de março, e os reservatórios estão em níveis ainda mais baixos que no ano passado, uma das medidas para economizar água é reduzir a vazão da barragem da Usina Elevatória de Santa Cecília. A estrutura bombeia parte da água do Paraíba do Sul para o Rio Guandu, onde é tratada e captada para a região metropolitana do Rio. A vazão total, que chega a 200 metros cúbicos por segundo (m³/s) em períodos de cheia, e hoje está em 140 m³/s, vai cair gradativamente para 110 m³/s entre 1º de março e 30 de junho.
A redução será feita integralmente na água desviada para o Guandu, que vão cair de 100 m³/s para 70 m³/s, pois a água que segue ao longo do Paraíba do Sul não pode ficar abaixo de 40 m³/s. “Essa vazão ecológica não pode baixar de forma alguma”, alertou Vera. Ela prevê problemas ambientais se a vazão dos rios cair e o despejo de esgoto se mantiver. “Se você tem um volume de esgoto, que era jogado numa vazão de 190 m³/s, e esse mesmo volume é lançado em 70 m³/s, tem um impacto que ainda não se pode calcular. Isso só vamos conseguir fazer a partir de análises.”
O Ministério Público Federal recomendou que o governo do estado do Rio, a ANA, o Cevaip, o ONS e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apresentem, em cinco dias, uma proposta de plano de contingência para o uso dos recursos hídricos. A vice-presidenta do Cevaip informou que tomou conhecimento da recomendação pela imprensa e disse que o comitê trabalha na elaboração do plano recomendado, com base em um diagnóstico que indica as ações a serem tomadas. A ANA e a Aneel não se pronunciaram sobre a recomendação até o fechamento desta matéria, e o ONS informou que ainda não foi notificado oficialmente.
De acordo com o governador Luiz Fernando Pezão, é preciso olhar a questão com otimismo e obedecer aos acordos com a Justiça e os estados de São Paulo e Minas Gerais para o uso da água do Paraíba do Sul. “A boa notícia é que diversos reservatórios estão se recuperando. Temos que olhar com otimismo também. Ontem, recebi uma foto do reservatório de Funil, que chegou a estar com 3% de sua capacidade, e bateu 33%”, disse o governador.
O Cevaip planeja reunião, no próximo dia 11, com prefeitos e vereadores de municípios do Médio Paraíba do Sul, para sensibilizá-los sobre a necessidade de resgatar a vegetação ao longo do rio. “Precisamos pensar em um corredor ecológico na região”, defendeu Vera, lembrando no trajeto do rio foram estabelecidas muitas áreas de pastagem. (Agência Brasil/Envolverde)
Edição: Stênio Ribeiro.
** Publicado originalmente no site Agência Brasil.

UM "RESPIRO" PARA A FLORESTA

por Redação do Greenpeace Brasil
A Polícia Federal prendeu, no último final de semana, Ezequiel Castanha, considerado o maior desmatador da Amazônia
Área de floresta sendo queimada ilegalmente para dar espaço a criação de gado, na floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, próximo a BR 163. Foto: © Rodrigo Baléia / Greenpeace
Área de floresta sendo queimada ilegalmente para dar espaço a criação de gado, na floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, próximo a BR 163. Foto: © Rodrigo Baléia / Greenpeace

No último sábado a Polícia Federal prendeu, em Novo Progresso, no Pará Ezequiel Antônio Castanha, um conhecido contraventor ambiental, considerado um dos maiores grileiros e desmatadores do Brasil. A gangue de Castanha é acusada de ter desmatado pelo menos 15 mil hectares na Amazônia, num período de dez anos. A prisão foi mais um dos desdobramentos da “Operação Castanheira”, deflagrada no ano passado.
De acordo com o pedido de prisão preventiva expedido pela justiça do Pará, Ezequiel é acusado por crimes como invasão de terras públicas, desmatamento de Unidades de Conservação, furto de bens da União, falsidade ideológica, além de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Castanha acumula, ainda, uma dívida que passa de R$ 30 milhões em multas ambientais.
O bando atuava no município de Novo Progresso-PA, principalmente ao longo da rodovia BR-163, grilando e desmatando terras públicas para depois vendê-las. Na região, Ezequiel liderou por muito tempo o movimento contra a criação da Floresta Nacional (Flona) Jamanxim, junto com Giovany Marcelino Pascoal – também preso na Operação Castanheira.
Operações como essa, que identificam e penalizam pessoas que cometem crimes contra a floresta, são importantes no combate ao desmatamento, mas, isoladas, não resolvem o problema. A Amazônia vem sendo ameaçada por vários fatores, geralmente conectados entre si, como a grilagem, desmatamento, exploração ilegal de madeira e avanço do agronegócio sobre as áreas de floresta. Para piorar, a bancada ruralista no Congresso Nacional vem atuando fortemente para enfraquecer a legislação que garante proteção à floresta e seus povos, em um claro ataque às áreas protegidas e terras indígenas. O objetivo é abrir essas áreas aos seus interesses econômicos – ou tirá-los do caminho de vez. A impunidade, aliada à histórica ausência de Estado na Amazônia, tem perpetuado o ciclo vicioso de destruição da floresta.
Fim do desmatamento exige mudanças profundas
Apesar da ótima notícia para o meio ambiente, sabemos que, com o profundo problema de falta de governança na Amazônia, é bem possível que outras “gangues” ocupem rapidamente a lacuna deixada por Castanha sem serem incomodadas. A grilagem de terras tem sido uma prática comum ao longo de todo o processo de ocupação da Amazônia, que apresenta situação fundiária crítica e caótica.
Na tentativa de promover a regularização fundiária, o governo lançou, em 2009, o programa Terra Legal, criado para regularizar antigas ocupações na Amazônia. O programa abriu espaço para a obtenção de títulos de terras que foram griladas e desmatadas ilegalmente, agravando ainda mais o problema. É um cenário que combina a ação de “mestres” em burlar a lei com brechas legais, ausência de fiscalização e falta de capacidade da justiça para tratar tantos crimes juntos.
É preciso que governos e toda a sociedade passem a olhar com mais atenção para a região e discutam com seriedade os problemas da Amazônia. E todos podem colaborar para isso. O governo deve empenhar esforços para proteger a floresta e atacar de fato o problema da regularização fundiária na Amazônia. É preciso garantir a real implementação das unidades de conservação e terras indígenas existentes, além da criação de novas áreas protegidas, bem como a manutenção integral dos direitos constitucionais dos povos tradicionais ao seu território ancestral. Estudos apontam que as áreas protegidas e terras indígenas são o mecanismo mais eficiente no combate ao desmatamento, garantindo, assim, a proteção do clima.
Empresas que atuam na Amazônia também devem fazer sua parte, banindo o desmatamento de suas cadeias de produção, excluindo fornecedores envolvidos na destruição da floresta e em outros crimes associados, a exemplo daMoratória da Soja e do Compromisso Público da Pecuária.
Por fim, a sociedade pode contribuir pressionando as outras partes para que, juntos, possamos seguir no caminho para um mundo mais saudável e com florestas. Foi seguindo esta trilha que mais de 1 milhão de brasileiros já declarou apoio ao um projeto de lei pelo desmatamento zero, que visa proteger as florestas remanescentes. (Greenpeace/ Envolverde)
* Publicado originalmente no site Greenpeace Brasil.
(Greenpeace Brasil) 

Como no Sudeste, cidades do Mato Grosso correm risco de racionamento de água

por Rafael Govari, do ISA
Estiagem incomum neste início de 2015 e aumento do consumo, aliados a sistemas trabalhando no limite, colocam cidades do Mato Grosso em risco de sofrer racionamento de água. Diminuir o consumo, fazer investimentos e recuperar e manter a floresta são alternativas para evitar a crise hídrica.
A maioria dos mato-grossenses assiste indiferente a falta de água que assola os moradores do Sudeste. As preocupações são outras como a falta de rodovias e outras infraestruturas. Grande parte deles nem imagina que muitos municípios do Mato Grosso podem estar à beira de um colapso no abastecimento de água.
Pesquisa feita pelo ISA (Instituto Socioambiental) no site do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), que tem uma estação do 9º Distrito de Meteorologia de Mato Grosso, localizada a 9 km da cidade de Canarana, verificou que as chuvas estão abaixo da média no atual período. Nas últimas 14 temporadas (que se estendem de junho a maio), a média tem sido de 1.841 mm de chuva. Somando as chuvas que caíram de junho do ano passado a janeiro deste ano, o total é de 1.123 mm em Canarana. seriam necessários ainda 718 mm de fevereiro a maio para alcançar a média, lembrando que na maioria dos anos a chuva cessa no início de abril.
No período chuvoso, as águas do Rio Tanguro costumavam chegar próximo do nível da ponte, bem diferente de agora. Foto: Rafael Govari-ISA
No período chuvoso, as águas do Rio Tanguro costumavam chegar próximo do nível da ponte, bem diferente de agora. Foto: Rafael Govari-ISA

As poucas chuvas deixaram o nível dos rios, em pleno período chuvoso, parecido com os níveis do período da seca. Para Ildo Gromann, responsável de rede da CAB (Companhia Ambiental de Canarana), empresa privada de abastecimento de água, o Rio Tanguro que abastece a cidade e se localiza a 7 km do centro, está menos de um metro acima do nível registrado no período da seca. Ele afirma que se os níveis do rio baixarem muito e as bombas não conseguirem captar água, uma solução seria barrar o Tanguro.
Além disso, apesar de a cidade ter cerca de 500 poços, rasos e artesianos, que não sobrecarregam a CAB, muitos estão secando em plena época chuvosa. Gromann avalia que na seca muitos desses poços estarão sem água e quase toda cidade utilizará o sistema, que terá de captar mais água do Tanguro e não se sabe qual será o seu nível nos meses de seca. Ele lembra que a adutora que traz a água para cidade já está operando com sua capacidade máxima. E, além disso, a cada dia, em média, é feita uma nova ligação de água na cidade,, que está em pleno desenvolvimento.
A colonização da região Araguaia Xingu começou na década de 1970 por sulistas que tinham um perfil agrícola. Seu Natalício Djalmo Kuhn chegou a região em 1976 para trabalhar na agricultura e está assustado :“Em quase 40 anos de Mato Grosso, eu nunca vi uma estiagem como essa”, disse.
Somando-se a chuva abaixo da média, os poços secando, o crescimento populacional e sistema operando no limite, o futuro pode trazer problemas. “Racionamento acho difícil, mas não está descartado”, diz o representante da CAB. Tudo depende de como irá se comportar o tempo e as chuvas até o mês de maio, quando se encerra o período chuvoso. Os institutos de meteorologia, entretanto, não preveem muita chuva até lá.
Abundância não livra o Mato Grosso de uma possível crise hídrica
Conforme notícia publicada em novembro do ano passado no jornal A Gazeta de Cuiabá, o maior de Mato Grosso, o estado pode passar por uma crise de falta de água semelhante à que ocorre em São Paulo em menos de 10 anos. Segundo o periódico, alguns municípios mato-grossenses enfrentam racionamento desde 2013 (saiba mais).
Além da falta de água, há problemas com sua qualidade por conta da contaminação por esgoto, fertilizantes e defensivos agrícolas. “Hoje, Mato Grosso é exportador de água, mas a continuar nesse ritmo de degradação, em menos de 10 anos sofreremos com graves problemas de falta de água, em uma situação idêntica à de São Paulo.
Poços artesianos estão secando em Canarana em pleno período de chuva
Poços artesianos estão secando em Canarana em pleno período de chuva

Com o crescimento das cidades e a impermeabilização dos solos, os lençóis freáticos não absorvem a quantidade necessária da água da chuva. Somado às mudanças climáticas e à poluição dos rios, o cenário é preocupante”, avaliou Décio Siebert, presidente do Comitê do Rio Seputuba e especialista em recursos hídricos.
Para evitar racionamento, em primeiro lugar é preciso de água e para ter água é preciso de chuva. Mas outras medidas podem ser tomadas para ajudar. Uma delas é conscientizar a população a economizar. Em Canarana, a média de consumo diário de água por pessoa, ultrapassa os 250 litros. A ONU considera que uma pessoa pode viver bem com menos da metade, com 110 litros de água por dia.
Edson Prado, secretário de Saneamento e Serviços Urbanos de Querência, cidade vizinha de Canarana, concorda que a população da região precisa urgentemente se conscientizar que a água é um bem finito. A companhia de água da cidade, administrada pela prefeitura, tem estrutura para atender até 35 mil habitantes, quase o triplo da população atual. A situação em Querência, abastecida com a água de sete poços artesianos, é tranquila no momento, mas Prado lembra que os moradores da região precisam começar a economizar. Também precisam ser levados em consideração os investimentos.
Com o crescimento das cidades mato-grossenses, os sistemas de algumas cidades, diferentemente de Querência, estão trabalhando no limite de sua capacidade. Em Canarana, por exemplo, trata-se da construção pela Companhia Ambiental de mais uma adutora para trazer água do Rio Tanguro e que estará concluída este ano.
A proteção da floresta e a recuperação das matas ciliares também são primordiais para a água. É com isso que há mais de 10 anos a Campanha Y Ikatu Xingu (Salva a água boa do Xingu) vem trabalhando, na proteção e recuperação das nascentes do Rio Xingu, na região de Canarana. Estima-se que já foram desmatados quase seis milhões de hectares de vegetação nativa nesta bacia (33% da cobertura vegetal original), causando assoreamento dos rios afluentes do Xingu. Até o momento, já foram restaurados mais de dois mil hectares de matas ciliares que se encontram em diferentes estágios de crescimento. (ISA/Envolverde)
* Publicado originalmente no site Instituto Socioambiental.
(ISA) 

ANA oferece mais de 3 mil vagas em cursos gratuitos sobre recursos hídricos

por Agência Nacional de Águas
Foto: Pedro França/Agência Senado
Foto: Pedro França/Agência Senado
Capacitações acontecem na modalidade a distância e sem tutoria. Seis temas estão disponíveis, como: Lei das Águas, Sala de Situação e comitês de bacias
Estão abertas as inscrições para 3.100 vagas em cursos gratuitos oferecidos pela Agência Nacional de Águas (ANA) na modalidade de ensino a distância (EaD). As inscrições podem ser realizadas através do sitehttp://eadana.hospedagemdesites.ws/ até 1º de março ou antes desta data, caso todas as vagas sejam preenchidas antes. Há capacitações com os seguintes temas: Sala de Situação: Fique por Dentro; Cuidando das Águas; Caminho das Águas; Comitê de Bacias: o que É e o que Faz?; Comitê de Bacias: Práticas e Procedimentos; e Lei das Águas.
Os interessados podem se inscrever em até dois cursos simultaneamente e receberão a confirmação de matrícula no primeiro dia da capacitação. A seleção será feita por ordem de inscrição. Os alunos que conseguirem 60% de aproveitamento nas avaliações terão direito a um certificado, sendo que o tempo de duração das atividades pode ser menor que o previsto, conforme o desempenho de cada um. Para facilitar a aprendizagem, as atividades estão estruturadas através de uma navegação sequencial entre módulos e o material está disponível em formato PDF.
Com quatro turmas e uma carga de quatro horas, o curso Sala de Situação: Fique por Dentro busca apresentar a Sala de Situação da ANA, seu funcionamento e sua importância no contexto de eventos críticos, como cheias e secas. Cada grupo terá 100 alunos e as atividades acontecerão respectivamente nos seguintes períodos de março: de 3 a 8; de 9 a 15; de 16 a 22; e de 23 a 29.
O curso Cuidando das Águas oferece 500 vagas e tem um total de 40 horas. Esta capacitação visa a promover uma reflexão sobre a responsabilidade de cada um no uso sustentável da água. Outro foco é sobre as possibilidades de melhoria da qualidade dos recursos hídricos, em cooperação com os setores usuários, organizações não governamentais, governos e entidades de meio ambiente.
Também com 40 horas de duração, o curso Caminho das Águas tem 600 vagas disponíveis. A capacitação, que vai de 3 a 29 de março, tem como objetivo promover a educação e a conscientização da sociedade a partir de conceitos e práticas relacionados aos recursos hídricos.
Para o curso Lei das Águas, a ANA oferece 800 vagas, divididas em duas turmas. A primeira vai acontecer de 3 a 15 de março e a segunda vai de 16 a 29 de março. Nas 20 horas de atividades, os alunos poderão compreender a Política Nacional de Recursos Hídricos e os conceitos básicos da gestão destes recursos.
De 3 a 15 de março acontecem as 20 horas de atividades do curso Comitê de Bacias: o que É e o que Faz? que tem 400 vagas. O objetivo é ensinar sobre as atribuições e responsabilidades dos comitês e incentivar a participação da sociedade na gestão de recursos hídricos.
Com 20 horas e 400 vagas, a capacitação Comitê de Bacias: Práticas e Procedimentos vai de 16 a 29 de março. Este curso busca ensinar a dinâmica de funcionamento da estrutura organizacional dos comitês para melhorar o processo de gestão nesses colegiados, que funcionam como “parlamentos das águas”.
Capacitação
A ANA realiza capacitações para as entidades que compõem o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH) e para toda a sociedade brasileira. O objetivo dos cursos é estimular a conservação e o uso sustentável da água, além da participação cidadã na implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos. Em 2014, a Agência capacitou mais de 22 mil pessoas. Para 2015, a expectativa é bater este recorde. Saiba mais no Portal da Capacitação da ANA: http://capacitacao.ana.gov.br/Paginas/default.aspx.
(Agência Nacional de Águas) 

Jornalismo sustentável: uma conta no vermelho

por Dal Marcondes*
No final de 2013 escrevi esse texto para um projeto especial da revista Ideia Sustentável. Nele comento o fato de que as mídias que fizeram a opção de trabalhar com pautas ambientais e de sustentabilidade estão enfrentando uma crise de financiamento. Aliás, é um tema recorrente. Releia o artigo completo:
Alguns anos atrás, um executivo de uma grande empresa se aproximou do jornalista Vilmar Berna, um dos ícones da mídia ambiental no Brasil, e queixou-se: “Investi milhões para melhorar o desempenho ambiental da minha empresa e ninguém se importou.” A resposta de Berna saiu em forma de pergunta: “Contou para quem?”
Esse é um dos dilemas do jornalismo que tem a sustentabilidade como eixo transversal. As empresas, mesmo aquelas que alegam “ter sustentabilidade no DNA”, não incorporam esses valores a seus planos de comunicação. As mídias que cobrem o cotidiano da sustentabilidade não recebem recursos para bancar suas atividades, e aquelas que recebem as verbas de publicidade de empresas comprometidas com a sustentabilidade não têm, na maioria das vezes, nenhum compromisso editorial com o assunto.
Grande parte das empresas quer ver suas ações em sustentabilidade em destaque nas mesmas mídias que dão visibilidade a seus resultados econômicos. Muitas vezes esses não são canais comunicantes, ou seja, as iniciativas que agregam valor sob o ponto de vista social e ambiental não são pauta para os meios de comunicação convencionais. Pelo contrário, são poucos os editores de economia que já compreendem os valores da sustentabilidade e não tratam com desdém ações que não estão focadas no estrito resultado financeiro das empresas.
O desafio de se construir cadeias de valor sustentáveis e comprometer empresas com uma economia menos predatória é, também, um desafio que passa pela forma de se comunicar a sustentabilidade, de maneira a mostrar os resultados de ações e investimentos de forma tangível, compreensível para a sociedade em geral, mas, principalmente, compreensível para os investidores, justamente aqueles que precisam acreditar nesses novos valores.
É fato que nos últimos anos as pautas sobre investimentos sociais e ambientais ganharam espaço nas editorias de economia. No entanto, ainda é pouco e, na maior parte das vezes apenas são parte de “projetos especiais”. Esses espaços tendem a se ampliar, mas de forma muito lenta diante da urgência dos desafios ambientais e sociais de classe planetária.
As transformações nos modelos econômicos e empresariais precisam de uma grande escala de informações, de tal maneira que sociedade, acionistas, executivos e empreendedores compreendam quais são os dilemas e como podem enfrentá-los sem comprometer a viabilidade econômica de suas organizações.
Foto: http://www.shutterstock.com/
Foto: http://www.shutterstock.com/
Como todas as revoluções da história, a sustentabilidade também tem suas vanguardas. São líderes, empresas, organizações sociais, intelectuais e, também, meios de comunicação que vão além da estreita visão do resultado financeiro trimestral e ajudam a difundir um modelo de desenvolvimento capaz de oferecer qualidade de vida a todas as pessoas.
Entre essas vanguardas estão alguns jornalistas e meios de comunicação que se dedicam à difusão de informações e conhecimentos que ajudam a estruturar uma economia sustentável. São meios que fizeram a opção por um tipo de jornalismo que não olha a realidade através de retrovisores, mas lançam o olhar à frente e ajudam a formular as questões estruturantes de uma sociedade menos desigual.
Da mesma maneira que as empresas que se lançam na vanguarda da sustentabilidade, os meios de comunicação que abraçam essa pauta pagam o preço do pioneirismo e do desbravamento de mercados. Defendem bandeiras que ainda encontram muitos opositores e desinformação. São meios que abrem espaço a ideias inovadoras e a formadores de opinião que navegam contra a corrente da economia convencional.
Essas publicações, entre as quais se alinham Ideia Sustentável e Agência Envolverde, além de dezenas de outras, deveriam ser canais preferenciais para o aprofundamento do debate social e econômico da sustentabilidade. No entanto, em sua grande parte, estão sufocadas pela falta de oxigênio financeiro.
Financiamento à Informação
Um dos debates importantes para a sociedade brasileira é como o país financia a informação jornalística oferecida à sociedade. Na maior parte das vezes, o modelo de financiamento passa pelo mercado publicitário, ou seja, anúncios de produtos ou serviços são responsáveis pelo financiamento das mídias. Essa prática é comum em diversas partes do mundo; no entanto, em muitos lugares, governos ou organizações da sociedade civil procuram gerar um equilíbrio entre informações que o público deseja e informações de que a sociedade necessita.
O financiamento estrito via mercado publicitário gera distorções, principalmente porque o “anunciante” tem interesses próprios e seu objetivo é atingir o máximo de pessoas possível. Portanto, veículos que atuam com informação qualificada têm dificuldade em receber esse tipo de aporte de recursos, uma vez que atingem públicos altamente qualificados, mas em número limitado.
O aporte de publicidade normalmente é feito por fatores de número de pessoas atingidas e grupos de interesse. Isso dá um alento a mídias que atuam de forma segmentada em nichos profissionais e setoriais, ou seja, setores de interesse de consumo específico. No caso dos meios de comunicação voltados para a sustentabilidade, isso não ocorre, porque não há uma demanda identificável por produtos e serviços que possa atrair a publicidade de grandes empresas.
Entre os jornalistas que atuam na área de sustentabilidade, há um certo consenso sobre a necessidade de que as empresas comprometidas com um modelo de desenvolvimento menos predatório deveriam destinar um percentual de sua publicidade institucional para o fortalecimento da cobertura jornalística com foco nessa nova economia. Dessa forma haveria mais veículos e mais profissionais interessados em cobrir sustentabilidade de uma forma sistêmica.
Há uma preocupação entre editores dessa área em relação à queda das verbas publicitárias aportadas nesses meios após a Rio+20, que ocorreu em junho de 2012. Essa preocupação ganha mais fôlego diante da constatação de que os próximos anos serão tempos de grandes eventos esportivos e, também, de eleições, e o cenário da comunicação deve ter esse viés. Chamar a atenção das empresas para a necessidade de financiar a informação e o conhecimento social da sustentabilidade é uma prioridade para que as transformações na economia ganhem escala.
Dal Marcondes é diretor executivo da Agência Envolverde.
** Publicado originalmente no site Ideia Sustentável, em 4 de dezembro de 2013.

Grilagem e desmatamento contam a história do Jari

por Rogério Almeida, da Agência Pública
O avanço de particulares sobre terras públicas da Amazônia ameaça o território das comunidades tradicionais há mais de um século, sob os olhos cúmplices do Estado
O cearense José Júlio de Andrade é tido como o latifundiário pioneiro da região do Jari. Chegou à Amazônia no apogeu do ciclo da borracha, final do século XIX, e se apossou de uma extensão de terras maior que o território do Jari. Para subordinar a população local o coronel Andrade usava a prática do aviamento, ou seja, comprava borracha, balata ou a castanha em troca do fornecimento de insumos para as populações extrativistas. Como os preços sempre favoráveis ao comerciante, os coletores estavam sempre ao devendo ao dono do barracão, e eram obrigados a trabalhar de graça para ele. O expediente ainda hoje é usado na Amazônia.
Mas os extrativistas se revoltaram, e Andrade teve que fugir para o Rio de Janeiro. Além de comerciante, o grileiro de terras foi prefeito em Almeirim quando Magalhães Barata mandava na política do Pará, e Getúlio Vargas, no país.
Em 1948 um grupo de portugueses e um brasileiro passaram a dominar terras e o mercado deixado por Andrade. Para explorar produtos extrativistas e agrícolas da região, criaram três empresas: a Jari Indústria e Comércio e a Companhia Industrial do Amapá para a comercialização dos produtos, e a Companhia de Navegação Jari S\A, a partir de José Júlio. É deste grupo que o multimilionário Daniel Ludwig adquiriu parte das terras no final da década de 1960. O estadunidense chegou a controlar mais de 200 empresas espalhadas pelo planeta nos setores da finança, do transporte, da mineração e da agroindústria.
O Jari de Daniel Ludwig
Ludwig não foi o primeiro estadunidense a tentar subordinar a floresta Amazônia aos seus interesses. Em 1927 o também milionário Henry Ford fundou seu próprio reino – a Fordlândia – na cidade de Aveiro, às margens do rio Tapajós, oeste paraense. A domesticação da seringueira em grande escala fracassou. Ainda hoje existem vestígios da fábrica, vila e do monocultivo.
O compatriota Daniel bem que poderia ter atentado para a experiência de Ford. Ele chegou na Amazônia no ápice do estado de exceção e, com apoio do governo militar, instalou um complexo agroindustrial que englobava a produção de celulose em grande escala, arroz, criação de gado, e o extrativismo mineral de bauxita e caulim. Aeroporto, porto, rodovia e ferrovia compunham a infraestrutura, além de uma fábrica para a produção de celulose importada do Japão.
As toras de angelim vermelho cortadas na floresta. Foto: Rogério Almeida
As toras de angelim vermelho cortadas na floresta. Foto: Rogério Almeida

O desmatamento de mais de 200 mil hectares de floresta densa, para o cultivo de espécies exóticas – com o objetivo de produzir celulose – foi primeiro ato do polêmico projeto do milionário, que invadiu o território de indígenas e ribeirinhos que viviam do extrativismo no entorno dos rios Paru e Cajari. Os conflitos entre os seguranças da empresa e os moradores tradicionais eram constantes.
Crise do Projeto e Novos Donos
Nos anos 1980 e 1990 o debate ambientalista abriu espaço na agenda política do país, e transbordou as fronteiras nacionais com a militância do seringueiro Chico Mendes, executado em 1988. As críticas contra o Projeto Jari ganharam o mundo.
O jornalista Lúcio Flávio Pinto, que escreveu um livro sobre o assunto (Jari: Toda a Verdade Sobre o Projeto de Ludwig), conta que no início dos anos da década de 1980, os lucros sumiram e o Jari foi transferido a um grupo de 27 empresários brasileiros, liderado pelo Banco do Brasil e por Augusto Trajano de Azevedo Antunes, do Grupo Caemi, em operação coordenada pelo ministro Antônio Delfim Netto. Avalizado pelo governo, o grupo comprometeu-se a pagar a quantia de 280 milhões de dólares em 35 anos.
Mas a crise continuou. Em 1999 o Projeto foi adquirido por dois acionistas de São Paulo da direção do Grupo ORSA, presidido pelo empresário Sérgio Amoroso, pela soma simbólica de 1 dólar – as dívidas totalizavam cerca de 414 milhões de dólares. A negociação com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) durou dois anos. O projeto passou a ter o nome de Grupo Jari, e os empresários firmaram compromisso em sanar passivos sociais e ambientais. (Agência Pública/Envolverde)
Leia também a reportagem Empate no Jari.
* Publicado originalmente no site Agência Pública.
(Agência Pública)