segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Neglected Ducks Get Their First Swim


Esse vídeo publicado pela Global Animal mostra um grupo de patos adultos entrando em um lago pela primeira vez em suas vidas. Os animais haviam sido resgatados de um local onde eram criados confinados em gaiolas,  sem alimentação e sem cuidados adequados, e nunca haviam entrado na água.
O meio aquático é um ambiente que faz parte do habitat saudável dos animais desta espécie. A reação desses animais ao “conhecerem” a água é comovente. De início tiveram medo, e foi preciso que os voluntários do Santuário praticamente os forçassem a entrar.
Observando o comportamento dos animais antes e depois, pode-se dizer que antes parecia faltar algo – o andar errante e ansioso, as almas reprimidas; a liberdade de se sentirem e simplesmente estarem na água fez revelar o pulsar da vida em sua totalidade – foi como se nascessem de novo.
A liberdade não é nada mais que o direito básico desses animais, assim como deveria ser para todos.

BALEIAS : confirmado que baleias encalham por alta frequência de sistemas sonares submarinos

Por Juliana Meirelles (da Redação da ANDA)
Campanhas ambientais têm mantido há anos que sistemas sonares usado pelos navios levam ao encalhe de baleias. Mas, agora, uma pesquisa internacional confirmou as suas preocupações pela primeira vez que baleias encalham nas praias quando estão perdidas e desorientadas pela alta frequência do ruído subaquático. As informações são do Daily Mail.
Um painel de revisão científica independente descobriu que os sistemas, utilizados principalmente para o mapeamento subaquático, foram responsáveis ​​pelo encalhe em massa de 100 baleias cabeça de melão em Madagascar, em 2008.
Um painel de revisão científica independente descobriu que os sistemas, utilizados principalmente para o mapeamento subaquático, foram responsáveis ​​pelo encalhe em massa de 100 baleias cabeça de melão em Madagascar, em 2008.
Um painel de revisão científica independente descobriu que os sistemas, utilizados principalmente para o mapeamento subaquático, foram responsáveis ​​pelo encalhe em massa de 100 baleias cabeça de melão em Madagascar, em 2008.
Equipes da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem (WCS) e do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW) foram capazes de resgatar algumas das baleias, mas já era tarde demais para muitas delas.
Enquanto os aspectos do encalhe em Madagascar permanecem desconhecidos, o painel concluiu que um sistema sondador multi-feixe, operado intermitentemente por um navio de pesquisa passando no dia antes do evento foi o mais “plausível e provável gatilho comportamental para os animais inicialmente entrarem no sistema de lagoa”.
Agora há preocupações sobre o impacto do ruído sobre os mamíferos marinhos, afinal os sistemas são comumente utilizados por muitas indústrias.
Um relatório encomendado pelo painel disse: “O potencial de respostas comportamentais e danos indiretos ou mortalidade com o uso de SMF semelhantes [sistemas da sonda multi-feixe] deve ser considerado em futuras avaliações ambientais, planejamento operacional e decisões regulatórias”.
O ruído a partir dos sistemas de alta frequência de sonar, utilizadas pelos navios militares, de transporte e de investigação, pode fazer com que os animais nadem para áreas erradas, e pensa-se que a utilização do sistema leva ao encalhamento no Reino Unido também.
Todos os anos, 800 baleias, golfinhos e botos são encalhados nas praias britânicas, embora não se saiba se os sistemas de sonar são os culpados. Aqui, os mergulhadores britânicos voluntários do Resgate de Vida Marinha inspecionam um com baleia cachalote de 13,5 metros, que morreu na praia de Redcar, em Cleveland em 2011.
Todos os anos, 800 baleias, golfinhos e botos são encalhados nas praias britânicas, embora não se saiba se os sistemas de sonar são os culpados. Aqui, os mergulhadores britânicos voluntários do Resgate de Vida Marinha inspecionam um com baleia cachalote de 13,5 metros, que morreu na praia de Redcar, em Cleveland em 2011.

Todos os anos, 800 baleias, golfinhos e botos são encalhados nas praias britânicas, embora não se saiba se os sistemas de sonar são os culpados.
O Dr. Howard Rosenbaum, diretor do Programa de Gigante do Oceano da WCS, acolheu favoravelmente o relatório e disse: “Estas conclusões se adicionam a um corpo crescente de evidências dos impactos potenciais de ruído antropogênico sobre os mamíferos marinhos”.
“As implicações vão muito além da indústria, uma vez que estes sistemas de sonares são amplamente utilizados a bordo de navios de investigação militar e para a geração de batimetria mais precisa (mapeamento subaquático)”.
“Esperamos agora que estes resultados possam ser utilizados pela indústria, pelas as autoridades reguladoras e outros para minimizar os riscos e para melhor proteger a vida marinha, especialmente espécies de mamíferos marinhos que são particularmente sensíveis ao aumento do ruído do oceano a partir de atividades humanas”.
 O ruído dos sistemas de sonar de alta frequência, utilizado pelos militares, transporte e navios de investigação, (na foto é o quarto de som do HMS Westminster em Portsmouth) pode causar baleias a nadarem para áreas erradas, e pensa-se que o uso do sistema leva a encalhamentos no Reino Unido também.
O ruído dos sistemas de sonar de alta frequência, utilizado pelos militares, transporte e navios de investigação, (na foto é o quarto de som do HMS Westminster em Portsmouth) pode causar baleias a nadarem para áreas erradas, e pensa-se que o uso do sistema leva a encalhamentos no Reino Unido também.
Katie Moore, diretora de resgate de animais da IFAW, disse: “A resposta ao encalhe em massa é um desafio na melhor das circunstâncias”.
“Junto com os indivíduos locais e do governo de Madagascar, nós fornecemos os conhecimentos necessários para resgatar o maior número de animais possível e cuidados médicos para aqueles que encalharam vivos”.
“Igualmente importante foi reunir dados tanto quanto possível dos animais para tratar a causa do encalhe. Temos o prazer de ver o relatório ISRP e as suas conclusões, que esperamos venha a ser utilizado na formação de futuras políticas de conservação”.

Biodiversidade em fragmentos florestais é ainda mais vulnerável do que se pensava

por Fernanda B. Müller, do CarbonoBrasil
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Há décadas, conservacionistas vêm ressaltando que os danos causados pelo desmatamento sobre os ecossistemas vão muito além da área devastada, atingindo profundamente os remanescentes florestais do entorno.
A fragmentação causada pelas manchas de desmatamento é um problema sério em nosso país, em especial na Mata Atlântica. Impactos, como o efeito de borda, que altera a vida presente nas áreas mais exteriores, já são bem conhecidos por ciências como a Biologia da Conservação.
Um novo estudo vem para contribuir na compreensão dessas interações entre o mundo exterior e os pequenos remanescentes florestais de áreas intensamente exploradas pelo homem.
Pesquisadores australianos avaliaram um caso na Tailândia durante 25 anos e concluíram que mamíferos nativos foram extintos neste período com o isolamento de outros fragmentos.
O estudo foi realizado em um conjunto de ilhas recém-constituídas devido à construção de uma hidroelétrica que inundou uma vasta área. Cinco anos após o isolamento, as ilhas com menos de dez hectares haviam perdido quase todos os pequenos mamíferos.
Ao visitar as ilhas 20 anos depois, os pesquisadores descobriram que as ilhas maiores tiveram o mesmo destino. Apenas um mamífero permaneceu em abundância, o rato malaio (Rattus tiomanicus), uma espécie exótica que não se sai bem em florestas maiores.
Duas parecem ter sido as causas da extinção local. Uma é o isolamento, que causou uma pobreza genética e não permitiu a recolonização dos locais com declínio populacional.
Outra é competição que os pequenos mamíferos tiveram que enfrentar com os ratos.
“Tais invasões bióticas estão se tornando cada vez mais comuns em paisagens modificadas pelo homem. Portanto, nossos resultados são particularmente relevantes para outras florestas fragmentadas e indicam que pequenos fragmentos são potencialmente ainda mais vulneráveis à perda de biodiversidade do que se pensava”, alertam os pesquisadores na última edição da revista Science.
* Publicado originalmente no CarbonoBrasil.
(CarbonoBrasil)

Comunidade solar pode ser saída para quem não tem condições de instalar painel em casa

por Redação do EcoD
placa Comunidade solar pode ser saída para quem não tem condições de instalar painel em casa
A iniciativa já é realidade nos Estados Unidos. Foto: Sky’s

A captação de energia solar através de painéis fotovoltaicos em residências já é possível em muitos lugares do mundo, inclusive no Brasil. Porém, o custo ainda é elevado e, por isso, muitas pessoas não conseguem aderir a esse modelo sustentável de consumo de energia. Para melhorar este quadro, norte-americanos apostam no conceito de comunidade solar.
As comunidades solares são uma alternativa de auto-instalação, nas quais em vez de os moradores instalarem seu próprio painel solar, compram um para deixar em um local externo a fim de que outras pessoas possam também utilizar.
O pioneiro neste segmento é Paul Spencer, que se baseou no Coletivo de Energia Limpa – iniciativa que construiu a primeira instalação solar de comunidade em 2010 e agora tem 25 fazendas em quatro estados norte-americanos.
Ele teve a ideia da comunidade solar após trabalhar em uma rede de desenvolvimento habitacional, e descobriu que alguns edifícios não conseguiam manter painéis solares.
Governo, empresas e cidadãos
Em seu primeiro negócio, Spencer entrou em contato com uma concessionária local, onde conseguiu apoio. A ideia era que a instituição investisse em painéis, enquanto ele cuidaria dos materiais e os moradores dos condomínios pagariam uma taxa inicial para a utilização do serviço, reduzindo o valor que pagaria normalmente na conta de energia.
O projeto foi bem aceito e, desde o primeiro projeto, ele conseguiu cerca de duas mil assinaturas pelo serviço, incluindo proprietários pessoais, municípios e empresas. Os valores são diversificados: instituições privadas aderem a iniciativa por até US$ 1 milhão para residências, que pagam aproximadamente 400 dólares iniciais para utilizar o benefício. Pessoas físicas podem comprar um painel de três gigawatt por cerca de US$ 9.000.
Segundo Spencer, as pessoas que aderiram o serviço conseguiram economizar aproximadamente 7% no primeiro ano. Além da taxa inicial os adeptos pagam uma pequena taxa para a manutenção das placas.
“O projeto proporciona energia solar para muito mais pessoas. Você não precisa ter um telhado perfeito porque as placas não ficam situadas lá. Não tem com o que se preocupar”, explicou Spencer ao site Fast.Co Exist. Recentemente, ele recebeu US$ 13 milhões em financiamento privado para triplicar suas instalações nos próximos 18 meses e está negociando com 38 estados norte-americanos.
E então: seria uma boa aqui no Brasil?
* Publicado originalmente no site EcoD

A crise ambiental e a crise do jornalismo



por Roberto Villar Belmonte*
jornalismoambiental A crise ambiental e a crise do jornalismoAs faculdades de jornalismo devem capacitar os jornalistas para que sejam capazes de abordar os temas ambientais além do senso comum e de maneira transversal, em qualquer editoria, não apenas nas seções de meio ambiente. A opinião é do presidente da Federação de Jornalistas da América Latina e do Caribe (Fepalc), Celso Augusto Schröder, 60 anos, que também é vice-presidente da Federação Internacional de Jornalistas (IFJ, na sigla em inglês) e presidente reeleito da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).
Nesta entrevista exclusiva concedida em Lima, capital do Peru, na sexta-feira passada (27/09/13), Celso Schröder, que reside em Porto Alegre (RS), onde leciona jornalismo há 25 anos, na Famecos/PUCRS, fala também sobre a crise no jornalismo, que para ele é artificial. “O tempo do jornalismo não é e nem pode ser o mesmo tempo das redes sociais”, explica. Schröder trata ainda da volta da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão noBrasil e defende a importância de um marco regulatório para as comunicações.
Seguindo o posicionamento da Fenaj, que no ano passado realizou um congresso nacional sobre a temática ambiental, a Fepalc promoveu em Lima, nos dias 26 e 27 de setembro, o seminário Crisis Ambiental: Los Desafíos del Cambio Climático para los Periodistas y sus Sindicatos, com patrocínio da Fundação Friedrich Ebert Stiftung, ligada a social democracia alemã, com apoio da IFJ e da Associación Nacional de Periodistas del Perú (ANP). Em 2014, Lima será sede de mais uma Cúpula do Clima (COP 20).
Celso A crise ambiental e a crise do jornalismo
Celso Schröder encerra seminário em Lima sobre mudança do clima que reuniu dirigentes sindicais e jornalistas do Peru, Chile, Colombia, Panamá, Costa Rica, Brasil e República Dominicana

Blog do Villar: Qual foi a principal constatação do seminário da Federação de Jornalistas da América Latina e do Caribe (Fepalc) sobre os desafios da mudança do clima para os jornalistas e os seus sindicatos?
Celso Schröder: A compreensão geral foi de que a mudança do clima é uma pauta importante e que não estamos fazendo bem a cobertura. Apesar da existência de jornalistas especializados em meio ambiente. Precisamos produzir uma ação conjunta compartilhada entre as organizações de jornalistas, sindicais e não sindicais, para produzir compreensão. É preciso tratar o tema com a complexidade que ele tem através de jornalistas especializados, sem cair na armadilha de simplificações desnecessárias, mas também introduzir o meio ambiente no jornalismo como um todo para que este tema possa ir além de um público especializado e já convencido e mobilizado, e chegar ao outro público, o que tem uma sintonia com o meio ambiente, mas que está imerso no senso comum. Inclusive neste senso comum que é disputado em declarações equivocadas do tipo “como está esquentando a terra se tem neve onde não costuma nevar?”. Neste público está o agricultor preocupado com a sua produção, que se não compreender o impacto da mudança do clima no seu dia-a-dia não vai se preocupar com o tema, ou o empresário que ainda acha que isto é uma bobagem e que, portanto, mudanças no modo de produzir são desnecessárias. Temos que trabalhar para que todos os jornalistas consigam tratar destas agendas transversais.
Blog do Villar: Depois deste seminário da Fepalc, é possível que os sindicatos de jornalistas da América Latina e do Caribe comecem a tratar mais dos temas ambientais?
Celso Schröder: Acredito que sim, pois esta preocupação não surge agora com o seminário da Fepalc, de certa maneira já está presente entre as entidades profissionais. No ano passado, por exemplo, o Congresso Nacional de Jornalistas realizado pela Fenaj em Rio Branco (AC) foi pautado pela temática ambiental. É um tema que os jornalistas inauguraram nos anos 70. E ao longo do tempo houve uma amortização. Os interesses contrários vão produzindo anticorpos e produzem uma espécie de senso comum. E mesmo os jornalistas preocupados com o tema ambiental reduzem sua ação a um nível pessoal, separando lixo, economizando água, com uma adesão ideológica à causa, mas sem uma ação concreta no jornalismo. Acho que agora conseguimos construir uma tese que vai incidir de tal maneira que possamos incluir o tema ambiental nas demais editorias. Não será de uma hora para outra esta mudança de mentalidade, mas a Fenaj e a Fepalc querem contribuir com isso.
“E mesmo os jornalistas preocupados com o tema ambiental reduzem sua ação a um nível pessoal, separando lixo, economizando água, com uma adesão ideológica à causa, mas sem uma ação concreta no jornalismo”
Blog do Villar: A fragmentação e a superficialidade do noticiário ambiental apareceram em vários grupos de trabalho durante o seminário da Fepalc e entre as causas apontadas está a ausência do tema ambiental nos cursos de graduação de jornalismo. Com a reestruturação que será feita nas faculdades de jornalismo no Brasil devido às novas Diretrizes Curriculares Nacionais em Jornalismo homologadas recentemente pelo MEC é possível que a temática ambiental passe a fazer parte da formação dos jornalistas de modo que ele saia da faculdade entendendo o tema de forma transversal?
Celso Schröder: Eu não tenho dúvida. Se já constituímos cultura para acolher o ensino de um jornalismo esportivo, de um jornalismo econômico, de uma assessoria de imprensa na graduação, em relação ao meio ambiente é uma obrigação. Jornalistas que serão especializados em meio ambiente não pararão de estudar nunca, farão mestrado e doutorado sempre pautados por esta preocupação. E produzirão um conhecimento mais sofisticado e terão capacidade de extrair dos especialistas informações mais complexas. Mas isso não é suficiente. Acho que assim como todo jornalista deve saber diagramar uma página, fazer uma matéria para o rádio, enfim, dominar coisas práticas do jornalismo, e assim como tem que saber teorias do jornalismo, teorias da comunicação, noções básicas de legislação, noções profundas de ética, precisa também saber e estar treinado para encontrar fontes capazes de problematizar as questões ambientais.
Blog do Villar: Este conhecimento básico que caberia aos cursos de graduação seria ensinar os alunos a como se movimentar nos principais temas ambientais?
Celso Schröder: Sim, e isto está além do senso comum. O que seria um senso comum em mudança do clima? Atribuir a este problema uma dimensão relativa que ele não tem em função da gravidade dos fatos. Temos que nos mover dentro do debate do meio ambiente, obviamente crítico, com características que o jornalista tem que ter, de investigar, de duvidar, de questionar, mas acima do senso comum constituído sobre as questões ambientais. Este senso comum não é homogêneo, mas me parece que seu resultado é uma passividade frente à crise. Se isso é permitido para um cidadão, para um jornalista o senso comum é inadmissível. Sair da universidade com a compreensão que estamos imersos em uma crise, e que, portanto, temos que nos mover imersos nesta crise, e não por fora. Vejo em alunos e até em jornalistas uma certa resistência irônica e cínica, que é muito própria do jornalismo, e que às vezes é salutar, é boa, faz parte de um certo distanciamento que estabelecemos com os assuntos, mas na questão ambiental este cinismo esta a serviço de interesses muito claros, muito ativos e potentes. Isto é possível minimizar em um curso de graduação.
Blog do Villar: Um jornalista mais capacitado para lidar com a crise ambiental no curso de graduação ajuda a superar a crise atual do jornalismo?
Celso Schröder: Esta postura que ajudaria ao jornalista a ter um conhecimento sobre meio ambiente com um grau de razoabilidade suficiente para que ele possa transitar nesta área sem ser um especialista, mas produzindo um olhar crítico sobre qualquer matéria, ajudaria também aos jornalistas, a universidade e a sociedade a recolocar o jornalismo na dimensão que ele precisa ter. Passa por uma crise que a meu ver é artificial na medida em que não é do jornalismo, é do mau jornalismo. Um jornalismo que se torna obsoleto e desnecessário quando se confunde com os conteúdos produzidos em uma rede que não tem qualificação, cuja única vantagem que tem é de ser muitos e rápida. Isto significa o fim da mediação. Para ter uma informação todos temos que fazer, todos temos que ler. Temos que passar 24 horas circulando em uma rede. Isto é impossível, inadequado e indesejável.
Eu espero que os marceneiros continuem trabalhando, que os padeiros continuem fazendo pão, que a sociedade continue fazendo os seus afazeres e que alguns profissionais, que viverão disso, farão estas atividades. Imaginar que para eu ter informação todos tenhamos que produzir e todos tenhamos que consumir isso o tempo todo seria o colapso da humanidade. Então isso não é possível que aconteça, mas esta ideia da crise está interiorizada, inclusive por muitos jornalistas, na academia e nas organizações dos jornalistas. Muitas vezes se percebe um discurso que aponta para a necessidade de um novo jornalismo, a tal ponto novo que não é mais jornalismo, é uma outra coisa, fruto de uma ansiedade e de uma angustia, em uma disputa impossível de ser realizada de jornalistas disputando velocidade com as redes. Nós perderemos sempre. E temos que perder.
O jornalismo tem uma velocidade tal que exige tempo para se fazer apuração, para se escrever bem, para uma boa foto, um bom programa de televisão, um bom programa de rádio, este tempo é o tempo do jornalismo. O outro tempo é o tempo da conversa. As redes reproduzem com as suas virtudes e os seus defeitos o boteco. Aquilo que se realizou nos cafés da Europa que configurou o que (Jürgen) Habermas chamou de Esfera Pública é o que está acontecendo agora em uma esfera eletrônica. Com uma velocidade muito maior, mas com todas as suas características de injúria, difamação, calúnia…
Blog do Villar: Com um porém, os cafés aos quais o Habermas se refere só eram frequentados por homens cultos…
Celso Schröder: É verdade… A crítica produzida que configurou a opinião pública oriunda desta esfera era de homens esclarecidos que produziam um olhar sobre o Estado. Há uma certa diferença, tens razão. Estamos em um boteco mais desqualificado. Mas com tanta gente que de alguma maneira se produz os cafés daquele período, com todas as suas características de imprecisão, de interesses entremeados, de mentiras, de verdades, de calúnias, de difamações, de generosidades, de infâmias.
Blog do Villar: Já que estamos falando em crise do jornalismo, qual o teu conceito de jornalismo?
Celso Schröder? O jornalismo é uma mediação, é um relato que a sociedade precisa. Eu sempre digo que não foram os jornalistas e nem as empresas jornalísticas que inventaram o jornalismo. Quem inventou o jornalismo foi a sociedade, que precisou, em algum momento, o aval, validou, atribuiu a algumas pessoas esta tarefa de contar as coisas que os outros não viram. E para contar estas coisas que os outros não viram eu tenho que ter um contrato com estas pessoas para quem eu vou contar que eu estou dizendo a verdade. Este contrato é a base da profissão.
Blog do Villar: Um contrato tácito?
Celso Schröder: Sim, um contrato tácito. Por isso que nossa profissão é a única deontologicamente estruturada. É a única profissão que existe a partir de um compromisso moral. De um médico eu espero que ele diga à verdade secundariamente, o que eu espero é que ele acerte o diagnóstico, que ele me cure. O médico mentir ou não mentir, embora seja imoral, é irrelevante na relação que eu estabeleço com ele. Ele precisa me curar. Um engenheiro precisa fazer um bom cálculo estrutural. O que o jornalista precisa é dizer a verdade. Nossa profissão tem este elemento tácito, este contrato social indispensável. A não ser que nós imaginássemos que todas as pessoas estão dizendo a verdade quando entram na rede. Conversando com o Antônio Martins, criador do Le Monde Diplomatique Brasil, ele muito racionalmente e honestamente me dizia que o nosso papel hoje é outro, não é mais informar, mas sim o de fazer as análises profundas porque o relato está dado o tempo todo. E me deu um exemplo. Se há um cavalo na estrada, alguém vai nos avisar. Então caberá ao jornalista interpretar e descobrir por que o cavalo está lá, se é bom ou se não é.
Blog do Villar: Mas interpretar sempre foi a função do jornalista.
Celso Schröder: Sim, mas eu disse para ele que antes de interpretar eu perguntaria se o cavalo está realmente lá. Quem me disse que o cavalo está lá? É prerrogativa da audiência me garantir que o cavalo está lá? Alguém pode dizer que o cavalo está lá porque não quer que eu passe por lá. Esta é a primeira aula de jornalismo: as fontes tem interesses. Tem interesses privados, porque são entes privados, e cabe ao jornalista transformá-la em dimensão pública. Ou seja, nós vamos checar se o cavalo está lá. Antes mesmo da interpretação, que me parece que é prerrogativa do jornalista, o simples relato sobre “o cavalo está lá” exige um compromisso ético que está assentado na verdade.
O jornalismo é uma profissão indispensável e nada indica que ela será substituída. Pelo contrário. Em um mundo cada vez mais embebido, como diria o (Ignacio) Ramonet, num grau de iluminação, para usar uma metáfora do iluminismo, de uma exposição de informações que mais obscurece do que ilumina, mais brilha e me atrapalha a visão do que me permite ver, são necessários mediadores, em todos os níveis, inclusive na área da ciência. Na área do dado comum, da informação singular, eles serão fundamentais. Os jornalistas, apesar de uma certa confusão, inclusive entre os próprios jornalistas em relação ao seu papel, eu não tenho dúvida de que estão e estarão valorizados. Os jornalistas serão valorizados e o jornalismo será valorizado. Seja onde estiver, inclusive nas plataformas eletrônicas.
É impressionante como se confunde as plataformas eletrônicas com os conteúdos produzidos. É engraçado que não se fazia isso com o papel. Ninguém confunde uma folha de jornal com o jornalismo. Mas neste caso a dimensão de redução da informação a impulsos elétricos digitalizados confundiu. E nós ficamos aparvalhados. Numa sensação de que o que estamos fazendo é a mesma coisa do que os outros estão fazendo simplesmente transmitindo dados. Eu contar coisas, eu ter opinião, isso são dados. O que vai transformar isso em jornalismo é eu transformar isso em comunicação. É a interpretação, é a capacidade que eu tenho de checar, de contrapor posições e permitir que o leitor, telespectador, ouvinte, seja lá quem for, tenha possibilidade de constituir sua opinião a partir deste trabalho, sem reduzir isso a minha opinião. Que é uma outra armadilha que o jornalismo entrou, espero que de uma maneira não irreversível. O próprio Habermas já havia anunciado isso, que é uma espécie de refeudalização.
Blog do Villar: Como assim refeudalização?
Celso Schröder: Todos nós de novo, ao invés de falarmos para o grande público, falamos para os nossos, para as nossas tribos. Portanto voltando a uma situação anterior. Por isso o Dominique Volton (no livro Informar não é Comunicar) elogia o grande público. A sociedade contemporânea precisa compartilhar dados, não apenas dados importantes, mas também o jogo de futebol. Na segunda-feira o Brasil precisa discutir o jogo do Flamengo no Rio de Janeiro e o do Inter e do Grêmio em Porto Alegre. E faz isso a partir de quê? De informações compartilhadas massivamente pela comunicação social. Não apenas através das falas da televisão fechada e de grupos. É preciso, ao lado dos espaços privados e destas especializações que são inerentes das tecnologias pontuais, precisamos a difusão desta informação genérica que nos permite a conversa, a comunicação, a convivência e a sociabilidade.
Blog do Villar: Qual a expectativa da Fenaj em relação à volta da obrigatoriedade do diploma de jornalismo no Brasil?
Celso Schröder: Estou muito otimista. Tivemos uma vitória espetacular no Senado fruto de uma percepção que a opinião pública brasileira imediatamente teve ao ser decretado o final do diploma pela decisão de Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal. O seu voto foi tão arrogante e obscurantista que inclusive jornalistas como o (Alberto) Dines contrários ao diploma reconhecem naquela ação elementos obscurantistas anti-civilizatórios. A prova que a sociedade reagiu é que o parlamento brasileiro, o Senado brasileiro, que não é o lugar mais progressista da política brasileira, endossa esta tese e em cinco meses a Proposta de Emenda Constitucional (PEC do Diploma) estava pronta para ser votada. Em dois anos votamos a PEC (33/2009) com uma vitória estrondosa, com 67 votos dos 81 senadores. O que demonstrou um certo consenso constituído. É inadmissível pras pessoas imaginarem que ao retirar um diploma universitário de uma profissão há uma melhora desta profissão. Nós vencemos no Senado e venceremos na Câmara dos Deputados.
Blog do Villar: Ainda este ano?
Celso Schröder: Espero que sim. Se ficar para o ano que vem ficará mais difícil em função das eleições. A minha expectativa é que agora consigamos fazer este debate. Ficamos um pouco temerosos que colasse o debate do chamado Mensalão, com as questões do Marco Regulatório (das Comunicações), que entram no debate da democratização da comunicação. Afastamos um pouco porque é uma outra coisa, nosso diploma nada tem a ver com este debate. Embora estejamos fazendo este debate em uma outra frente de ação. Este princípio da obrigatoriedade do diploma debatido aqui hoje é uma referência internacional. Atualmente este debate é compreendido e reivindicado por países que não tem esta tradição. Nossos companheiros sindicalistas da Inglaterra, por exemplo, que é um país de tradição liberal no tratamento desta questão, já se movimentam para uma situação parecida, principalmente depois da crise do (Rupert) Murdoch, demonstrando que esta profissão precisa ser resguardada e qualificada, e precisa ser garantido ao público que nós estamos fornecendo os melhores profissionais.
Luta pela democratização dos meios de comunicação
“Após os movimentos de junho, é muito forte a ideia, que nós tentamos evitar ao longo destes anos, de que democratizar a comunicação no Brasil seria construir uma Rede Globo de sinal contrário. Seria um equívoco imaginar que simplesmente ao pulverizar e garantir diversidade de vozes estas vozes seriam democráticas.”
Blog do Villar: E como está a luta pela democratização dos meios de comunicação?
Celso Schröder: Estamos em um período difícil, depois de um movimento inédito no mundo, diferente do que a Argentina e a Venezuela fizeram, que foi realizar a Confecom (Conferência Nacional de Comunicação), fruto da compreensão que este tema era tão difícil e tão aprisionado e sequestrado pelas empresas de comunicação, que se negam a debater qualquer tipo de regulação, que nós precisávamos constituir acordos para conseguir produzir uma lei que fosse efetivamente cumprida e respeitada por todos, inclusive e principalmente pelos meios de comunicação. Foram mais de 200 conferências pelo país, municipais e estaduais, uma conferência nacional com dois mil representantes de todo o Brasil. Embora a Rede Globo e seus aliados tenham sabotado e saído no meio da conferência, a Bandeirantes permaneceu com a Rede TV, assim como as empresas de telefonia, que estão entrando neste negócio e estavam lá, legitimando o processo. E o governo brasileiro, em que pese ter realizado este debate, em seguida, atemorizado e tímido, não produziu o marco relatório.
Temos denunciado este imobilismo e aí nos separamos do FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação), que é inclusive um fórum criado por nós nos anos 90 fruto do trabalho do Daniel Herz que promoveu uma compreensão de que nós precisávamos democratizar o sistema de comunicação no Brasil. Saímos da coordenação e estamos disputando numa tensão com o FNDC na medida em que o Fórum, no nosso entendimento, está capitulando para a tese governista. Ou seja, está sintonizado exageradamente com as não-políticas públicas do governo e produzindo uma emenda popular de comunicação. No nosso entendimento, isto desvia a atenção e o foco, que deveria ser o governo federal, passando a responsabilidade para o Congresso Nacional. Dá uma trégua de governabilidade para o governo Dilma para as próximas eleições, que eu espero que consigamos produzir um governo democrático e popular no país, mas que não é nossa responsabilidade neste momento dar conta disso. Precisamos exigir do governo um marco regulatório.
E também começa uma disputa muito preocupante que reduz democratização à posse dos meios. Após os movimentos de junho, é muito forte a ideia, que nós tentamos evitar ao longo destes anos, de que democratizar a comunicação no Brasil seria construir uma Rede Globo de sinal contrário. Seria um equívoco imaginar que simplesmente ao pulverizar e garantir diversidade de vozes estas vozes seriam democráticas. O que nós precisamos garantir é que quem exerça esse serviço tenha a obrigação de garantir a diversidade das vozes. De novo estamos apostando na mediação. Não é a quantidade simplesmente de veículos e de vozes que garantem que estas vozes sejam democráticas.
Blog do Villar: Por que a luta pela democratização dos meios de comunicação é sempre confundida com tentativa de censurar o jornalismo?
Celso Schröder: É porque os meios de comunicação no Brasil tem o mundo que pediram a Deus. É um dos países mais desregulamentados. Quando redemocratizamos o país, produzimos uma Constituição bastante boa em vários aspectos, inclusive meio ambiente. Mas na comunicação fomos derrotados. Aliás, foi o único capítulo que nós não conseguimos acordo dentro da comissão que o tratou, de Ciência e Tecnologia. Foi negociado no Plenário pelo então deputado federal Antônio Britto, que reproduziu interesses da Rede Globo naquele momento. Temos uma herança autoritária no sistema de comunicação do Brasil. É muito cômodo para as grandes redes brasileiras a não regulamentação porque reproduz os privilégios que tiveram ao longo destes anos.
Blog do Villar: Quais privilégios?
Celso Schröder: Por exemplo, a propriedade cruzada. Eu sempre digo que se aplicássemos o modelo dos Estados Unidos no Brasil nós faríamos uma revolução. Repito, o modelo norte-americano, não o argentino, não o chavista, não o da Coréia do Norte, nem o da China comunista. Se aplicássemos aqui o modelo dos EUA, quem tem rádio não poderia ter jornal nem televisão. Este impedimento da propriedade cruzada, que é básico para um sistema de concorrência capitalista inclusive, democrático, no Brasil não existe. Temos uma verticalização e uma concentração inédita no mundo e é óbvio que estes privilégios tendem a se manter. Propaganda, por exemplo, nem um dos seus itens está regulamentado. Impedimento de propaganda de tabaco e álcool para crianças, estas coisas todas que em qualquer país do mundo está regulado, aqui não está.
Blog do Villar: A justificativa é a existência da auto-regulação.
Celso Schröder: O auto-regulado teria que ser regulado por lei. A auto-regulação é interessante. Antes que a lei se aplique a mim eu me regulo. Se eu não me regular, alguém me regula. É igual ao trânsito. Eu sei que eu não posso passar dos 60 km/h. Se eu passar, serei multado.
“Acho que neste momento precisamos juntar forças para fazer a grande defesa do jornalismo. A democracia precisa mais do que nunca de um jornalismo atuante e responsável”
Blog do Villar: Como a Fenaj responde ao argumento de que o objetivo de todo este debate é simplesmente censurar a imprensa?
Celso Schröder: Eu sempre digo que basta olhar os editoriais e os tapes de 1º de abril de 1964 que nós vamos ver quem quer censurar quem. Esta acusação tem um viés quase ingênuo de tratar um tema e faz uma inversão que aposta no desconhecimento e na ignorância. A Fenaj quer, na verdade, é atribuir ao sistema de comunicação brasileiro a dimensão democrática. Que significa garantir concorrência, e, portanto, diversidade de propriedade, garantir que quem tem a propriedade precisa dar guarida a todos os temas relevantes de interesse público do país, significa que independente da posição religiosa desta ou daquela organização, dos credos econômicos, das simpatias políticas, eu preciso garantir o trânsito da informação.
Censura é jornalistas serem impedidos de fazer cobertura econômica de determinados assuntos se os atores não pagam para estar no jornal. Ou jornalistas que cobrem política serem constrangidos de fazer este ou aquele tipo de abordagem porque os candidatos ou políticos aos quais eles estão se referindo são simpáticos ou não ao dono do jornal. Isto sim é inibir as atividades jornalísticas. O jornalismo não é fruto do negócio do jornalismo, é fruto do trabalho do jornalista. Jornalistas terem que fazer 12 pautas por dia, não terem carro para trabalhar, terem que disputar telefone na redação, isto sim são elementos cerceadores do jornalismo.
Acho que neste momento precisamos juntar forças para fazer a grande defesa do jornalismo. A democracia precisa mais do que nunca de um jornalismo atuante e responsável, que investigue, cheque fontes, que compreenda os interesses que estão envolvidos, que traga informações de primeira linha, não um jornalismo de dossiês, que reproduz os interesses das fontes. Este é o jornalismo que nós todos temos que defender. Toda a sociedade sairia ganhando com isso.
* Roberto Villar Belmonte é jornalista e escreve sobre temas ambientais como repórter freelance para o jornal Extra Classe do Sinpro/RS desde 2005. O autor participou do III Fórum Internacional de Mídia, “Meio Ambiente, Caminho de Paz”, a convite da Associação Cultural Greenaccord.
** Publicado originalmente no Blog do Villar.
(Blog do Villar)

Não é só a mobilidade: que faremos com a poluição?

por Washington Novaes*
poluicao2 300x219 Não é só a mobilidade: que faremos com a poluição?
Nas recentes discussões sobre “mobilidade urbana”, custo dos congestionamentos para o usuário em tempo e horas de trabalho, baixo investimento em transporte de massa – todas exacerbadas pela onda de protestos nas ruas -, tem merecido pouca atenção o tema do impacto da poluição do ar (agravado por todas essas causas) na saúde da população e no número de mortes, principalmente nas metrópoles. E foi essa exatamente a discussão sobre a “Avaliação do impacto da poluição atmosférica sob a visão da saúde no Estado de São Paulo”, promovida no início da semana na Câmara Municipal de São Paulo, com base em pesquisa desenvolvida pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade, coordenada pelos professores Paulo Saldiva e Evangelina A. Vormittag, ambos doutores em Patologia, com a participação de mais cinco pesquisadores.
É um trabalho sobre o qual deveriam debruçar-se os administradores públicos da cidade de São Paulo, de sua região metropolitana e de cada uma das cidades paulistas, tantas são as informações que podem orientar seu trabalho. A começar pela conclusão de que, se houvesse uma redução de 10% nos poluentes na capital entre 2000 e 2020, poderiam ser evitados nada menos que 114 mil mortes, 118 mil visitas de crianças e jovens a consultórios, 103 mil a prontos-socorros (por causa de doenças respiratórias), 817 mil ataques de asma, 50 mil de bronquite aguda e crônica, além da perda de atividades em 7 milhões de dias e 2,5 milhões de ausências ao trabalho. Em apenas um ano (2011) a poluição da atmosfera contribuiu para 17,4 mil mortes no Estado.
Ainda é tempo de refletir e mudar, pois, diz a pesquisa, o tráfego e a poluição explicam 15% dos casos de enfarte na cidade de São Paulo. Quem acha que o adensamento habitacional em certas áreas pode aumentar a mobilidade deve prestar atenção a esse mesmo estudo: “O aumento do tráfego em 4 mil veículos/dia numa via até a 100 metros da residência mostrou ser um fator de risco para o desenvolvimento de câncer de pulmão”. E tudo isso embora os programas de controle da poluição do ar por automóveis, implantados a partir da década de 1990, tenham levado a uma redução de 95%, assim como a 85% na de caminhões. Até os cinco primeiros anos desta década, a diminuição de 40% na concentração de poluentes evitou 50 mil mortes e gastos de R$ 4,5 bilhões com saúde – além da redução no consumo de combustíveis e na emissão de poluentes.
Mas, apesar das evidências, ainda prevalece, aqui e no mundo, uma situação dramática. A cada ano, em uma década, 2 milhões de pessoas morreram vitimadas pela poluição do ar em todos os continentes – uma década antes foram 800 mil. E, segundo os pesquisadores, a poluição do ar “deve se tornar a principal causa ambiental de mortalidade prematura”. Com a preocupação adicional, para nós, de que as médias anuais de poluição em todas as estações paulistas onde se coletam dados estiveram, em todos os anos, em 20 a 25 microgramas por metro cúbico de ar, acima do padrão de 10 microgramas por metro cúbico de ar, que é o da Organização Mundial da Saúde. Em São Paulo, o índice é de 22,17 microgramas. E a poluição não é só de material particulado, mas também de ozônio.
Com frequência o noticiário informa que na Região Metropolitana de São Paulo um terço dos veículos não passa por inspeção – e são exatamente os mais antigos, mais poluidores. Mesmo assim, a implantação do controle na capital reduziu em 28% as emissões de material particulado. Se fosse estendida a toda a área metropolitana, poderia evitar 1.560 mortes e 4 mil internações, além de levar a uma redução de R$ 212 milhões nos gastos públicos. Outro dado impressionante da pesquisa: se todos os ônibus a diesel usassem etanol, seria possível reduzir em 4.588 o número de internações e em 745 o número anual de mortes por doenças geradas/agravadas pela poluição. E o sistema de metrô reduz em R$ 10,75 bilhões anuais os gastos com a poluição.
Já passou da hora de implantarmos sistema semelhante ao da Suécia, onde é limitado o número de anos (20) em que um veículo pode ser usado, para não agravar a poluição. Por isso mesmo o comprador de um carro novo já paga uma taxa de reciclagem; e o respectivo certificado passa de proprietário em proprietário; o último, ao final de duas décadas, pode receber a taxa de volta.
Também não há como fugir à questão: que se vai fazer, em matéria de mobilidade e poluição, se continuamos a estimular, com isenção de impostos e outros benefícios, o aumento da frota de veículos (hoje, no País todo, mais de 3 milhões de veículos novos a cada ano)? Eles respondem por 40% das emissões totais, enquanto ao processo industrial cabem 10%. E os veículos respondem por 17,4 mil mortes anuais nas regiões metropolitanas paulistas – 7.932 na de São Paulo e 4.655, só na capital. Ou seja, a cada seis anos morre uma população equivalente à de uma cidade de 100 mil pessoas em consequência da poluição.
O professor Ricardo Abramovay, da USP, lembra (Folha de S.Paulo, 13/7) que nossas emissões do setor de transporte devem dobrar até 2025, como prevê a Agência Internacional de Energia. E o professor Paulo Saldiva afirma, em entrevista ao site EcoD, que “a poluição em São Paulo é um tumor maligno”. Apesar de tudo, o patologista – um dos coordenadores da pesquisa discutida esta semana – considera-se “otimista, porque ninguém muda para melhor ou repensa seus hábitos se não tiver algum tipo de problema antes (…). As doenças costumam fazer as pessoas saírem da zona de conforto. Como estamos insatisfeitos, talvez estejamos criando as bases para melhorar a cidade”. E o problema central, sob esse ângulo – acentua ele -, não é o da mobilidade, pois, “se a frota de carros elétricos correspondesse a 100% da existente, melhoraria a questão da poluição, mas não a da mobilidade”.
Oxalá a realidade das pesquisas faça governantes e governados se moverem de forma mais adequada.
* Washington Novaes é jornalista.
** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.
(O Estado de S. Paulo)

MANCHETES SOCIOAMBIENTAIS - 30/setembro/2013


Resumo diário de notícias selecionadas
dos principais jornais, revistas, sites especializados e blogs,
além de informações e análises direto do ISA
 
 
HOJE:
Água, Amazônia, Constituição, Mineração, Mudanças Climáticas, Pnad, Povos Indígenas, Política Socioambiental
Ano 13
30/09/2013

 

Povos Indígenas

 
  Estão circulando na internet novos vídeos sobre a Mobilização Nacional Indígena, convocada pela Apib, de hoje (30/9) a sábado (5/10), quando a Constituição completa 25 anos - Direto do ISA, 30/9.
  Manifestações estão confirmadas em pelo menos quatro capitais, além de outras cidades e também no exterior. Veja como você pode participar - Direto do ISA, 27/9.
  O líder indígena Davi Kopenawa Yanomami foi recebido sexta-feira (27/9) pelo rei Harald V da Noruega. Pôde retribuir, assim, a visita que o rei fez em abril deste ano à sua aldeia (Watoriki), situada a 150 km de Boa Vista (RR) - Direto do ISA, 27/9.
  "Eu não quero mais morrer outra vez. Deputados, senadores, governadores, todos têm que pensar como o governo vai nos proteger e não deixar mais destruir matas e rios e fazer sofrer os ianomâmis e outros parentes, junto com a floresta. A autoridade tem que respeitar a Constituinte que o governo passado criou. O que fala a OIT, no papel, não pode mudar, não. Tem que ser respeitado. Querem mudar o artigo 231. O projeto [de lei complementar] 227 vai permitir matar nós, não vai mais deixar demarcar terras de nossos parentes. O governo tem que completar o trabalho e demarcar as terras dos povos que ainda estão lutando. Demarcar as terras de quem ainda falta demarcar", artigo de Maria Rita Kehl e Davi Kopenawa - FSP, 29/9, Tendências/Debates, p.A3.
   
 

Amazônia

 
  ISA divulga em nota as razões para não participar da audiência pública que acontece hoje (30/9) em Boa Vista (RR) sobre o Zoneamento Ecológico Econômico do estado - Blog do Rio Negro, 30/9.
  São muitos os caminhos - entremeados por fraudes e ilegalidades - que fazem a Amazônia acabar na sala de sua casa. Ambientalistas, acadêmicos e policiais concordam em um ponto: para coibir crimes e acabar com as madeireiras fora da lei, o primeiro passo é melhorar o Documento de Origem Florestal (DOF). Segundo policiais ambientais e especialistas, o documento que regula troca da mercadoria é vulnerável a fraudes por ser autodeclaratório - OESP, 29/9, Metrópole, p.A30.
   
 

25 anos da Constituição

 
  A Constituição de 1988 completa 25 anos no dia 5 de outubro.A afirmação da dignidade humana como valor constitucional, por meio da garantia de uma série de direitos individuais, é unanimidade na análise sobre os avanços surgidos com a Constituição de 1988. Após duas décadas de ditadura, a conotação humanista e democrática da chamada Carta Cidadã é destacada. Passados 25 anos, o seu legado é comemorado, mas, segundo especialistas, os direitos ainda precisam ser garantidos a todos. Para eles, alguns grupos, como presidiários, moradores de favelas e índios, aguardam para ter suas prerrogativas reconhecidas, embora a Constituição diga que ninguém será submetido a tratamento desumano e degradante - O Globo, 30/9, País, p.3.
  "A Carta de 1988 é igualitária e tem respaldado avanços importantes neste campo, como o reconhecimento da união homoafetiva e da legitimidade das políticas de ação afirmativa para pobres e negros. Porém, a persistência de uma cultura social fundada na desigualdade sabota a Constituição, na medida em que naturaliza ou torna invisíveis as violações de direitos dos grupos mais vulneráveis. Enfim, a Constituição de 88 tem incontáveis virtudes, mas é urgente estender a todos o alcance dos seus princípios civilizatórios, superando as hierarquias que ainda impregnam as nossas relações sociais", artigo de Daniel Sarmento, procurador da República e professor de Direito Constitucional da Uerj - O Globo, 30/9, País, p.3.
   
 

Mudanças Climáticas

 
  O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne especialistas das Nações Unidas, revelou sexta-feira, na Suécia, que a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera da Terra, resultado da queima de combustíveis fósseis, é a maia alta em 800 mil anos, e sua taxa média de crescimento é a mais alta em 22 mil anos. A emissão de gases que aquecem a atmosfera resulta no aumento da temperatura do planeta. Os dados (piores do que todos os estimados até então) revelam a gravidade da intervenção do Homem. A expectativa é de que, no Hemisfério Norte, a temperatura média suba de 1,5oC a 2oC até 2100. A intensificação da acidificação e da elevação do nível dos mares e o derretimento de gelo do Ártico e da Antártida também são consequências do aquecimento global - OESP, 28/9, Metrópole, p.A32, A34 e A36.
 
Novo relatório do IPCC traz cenários sobre o que vai mudar na temperatura, chuvas, cobertura de gelo, nível dos oceanos e outros indicadores em escala global até 2100 com base em quatro modelos de previsão que, pela primeira vez, traçam limites para a emissão de gases do efeito estufa pela Humanidade - um mais otimista, dois intermediários e um mais pessimista. No primeiro, ela deve ficar em 270 bilhões de toneladas de carbono entre 2012 e 2100, enquanto no último em 1,69 trilhão de toneladas. Desde 1750, início da Era Industrial, a ação humana já emitiu 545 bilhões de toneladas de carbono e a taxa atual é de mais de 10 bilhões de toneladas anuais, o que significa que, se tudo continuar como está, o limite para o cenário otimista será atingido em 2040 - O Globo, 28/9, Ciência, p.38.
  Para os líderes do IPCC, a desaceleração na subida de temperaturas terrestres nos últimos 15 anos não viola a tendência de aquecimento global no longo prazo. Segundo os cientistas, os modelos usados para simular o clima só estariam errados se as temperaturas pararem de subir rápido durante mais 15 anos. Segundo o climatologista Thomas Stocker, copresidente do Grupo de Trabalho 1 do IPCC, o aquecimento só desacelerou na medição da temperatura do ar. Os oceanos e as geleiras continuam a se aquecer. Não houve hiato nos mares, que, segundo o novo relatório do IPCC, absorveram mais de 90% da energia extra que a mudança climática aprisionou no planeta entre 1971 e 2010 - FSP, 28/9, Ciência, p.11.
  "O quinto relatório do IPCC traz novas e sérias advertências. Subiu para 95% o grau de certeza entre os cientistas de que o aquecimento global é influenciado pelo homem - portanto, há espaço para ser mitigado. E, se o mundo continuar a queimar combustíveis fósseis no ritmo atual, terá mais cerca de 30 anos antes que as temperaturas atinjam níveis arriscados para a vida na Terra; até o fim deste século, o aquecimento será 'provavelmente superior' a 2 graus Celsius - as chances são de 66% -, superando o limite considerado seguro", editorial - O Globo, 28/9, Opinião, p.18.
   
 

Geral

 
  Taxas baixas de desemprego e escassez de mão de obra qualificada fizeram com que o 1% de brasileiros mais ricos (que ganham acima de R$ 18.889 por mês) tivesse avanço de 10,8% nos rendimentos, enquanto a renda média no país subiu 5,8%. Com isso, a desigualdade que vinha sendo reduzida ano a ano desde 2004, parou de cair. A constatação é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2012, do IBGE. O analfabetismo, que também estava em queda nos últimos 15 anos, ficou estável, com ligeiro acréscimo, oscilando de 8,6% para 8,7% - ou 13,2 milhões de brasileiros. A boa notícia é que mais de 150 mil crianças e jovens de 5 a 17 anos deixaram de trabalhar - O Globo, 28/9, Economia, p.29 a 31; OESP, 28/9, Metrópole, p.A21 a A31; FSP, 28/9, Cotidiano 1, p.C1.
  O projeto de um aeroporto de pequeno porte para aviões executivos, ao lado da represa de Guarapiranga, que abastece com sua água um terço dos paulistanos, tem colecionado inimigos. A prefeitura deu um parecer contrário, por problemas com leis de uso e ocupação do solo. Ambientalistas da zona sul da capital, que brigam pela defesa da represa, criaram o movimento "Aeroporto de Parelheiros Não!". A ONG SOS Mata Atlântica também não aprova proposta de construção. Apesar disso, os obstáculos não têm tirado o ânimo da dupla de empreendedores, formada por André Skaf (filho do presidente da Fiesp, Paulo Skaf) e Fernando Augusto Camargo de Arruda Botelho (da família que controla a Camargo Corrêa) - FSP, 28/9, Cotidiano 2, p.9.
  O novo modelo institucional desejado pelo governo federal para o setor de mineração não deve produzir efeitos práticos no governo Dilma Rousseff. A mudança do Código de Mineração deve sofrer alterações nas próximas semanas no Congresso, e fontes qualificadas do governo admitiram que as novas regras só entrarão em funcionamento plenamente em 2015. Entre os técnicos da área de mineração do governo federal circula um estudo da consultoria legislativa do Senado Federal publicado nos últimos dias que destila diversas críticas ao projeto de lei do governo. No documento, os consultores legislativos apontam que o projeto de lei "em muitos aspectos, nasce mais anacrônico do que o atual código, de 1967" - OESP, 29/9, Economia, p.B5.
  "O planeta buscava um substituto para o petróleo. Parece ter encontrado: o gás de xisto e o carvão mineral. Por causa da produção crescente de gás de xisto nos EUA e de seu baixo preço, companhias brasileiras já suspenderam projetos de construção de hidrelétricas na América Central. A energia hidrelétrica poderá perder competitividade com a termoelétrica. O gás de xisto pode afetar o futuro do pré-sal. Já é real a fuga de investimentos produtivos no setor petroquímico do Brasil para os EUA. Muitos no agronegócio brasileiro discutem combustíveis renováveis, redução das emissões de CO2, pegadas de carbono, agricultura de baixo carbono e propõem programas ambientais em cenários ultrapassados. A era da energia fóssil está longe de acabar. Esses cenários viraram carvão. O Brasil deve renunciar ao pré-sal e à exploração de suas reservas de gás de xisto? Os carbonários do carbono ignoram os impactos desse gás e das novas tecnologias e mudanças associadas a ele", artigo de Evaristo de Miranda - OESP, 30/9, Espaço Aberto, p.A2.
  "O governo Dilma honrará pouquíssimos dos compromissos programáticos apresentados à sociedade em 2010 pela coligação 'Para o Brasil Seguir Mudando'. Eram bons demais para a frouxa coalizão que em dois anos e nove meses só revelou impotência e incapacidade. Muitos dos compromissos foram logo descartados, e sem qualquer explicação à sociedade, notadamente aos quase 56 milhões que votaram Dilma", artigo de José Eli da Veiga - Valor Econômico, 30/9, Opinião, p.A15.
   
 
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