quarta-feira, 30 de março de 2011

A lição dos acontecimentos no Japão, artigo de Maurício Gomide Martins

Defendemos a tese de que os trágicos acontecimentos naquele país, na sua expressão maior, não são de natureza natural. Reafirmamos que tais ocorrências em que se perderam muitas vidas e bens materiais são conseqüência da aplicação extensa dos objetivos equivocados na atual civilização. Excesso de conforto.

Esse meio cultural, em que estamos todos imersos, comprometidos e seduzidos pelos chocalhos reluzentes dos confortos materialistas, mostra que amamos mais as atitudes tecnológicas lucrativos, que o bem maior, a Vida. Escolhemos a aparência, a casca, o deslumbrante, e desprezamos a essência.

Mas na hora da verdade, para a qual os ambientalistas vêm alertando insistentemente, ocorre o oposto. Vimos na TV cenas impressionantes e instrutivas dentro de supermercados: prateleiras de alimentos completamente vazias, enquanto as que continham cosméticos e demais supérfluos continuavam intocadas.

Transcrevemos, a propósito, trecho de uma carta enviada por uma nipo-americana (Anne Fumi Johns Stewart) aos seus familiares: “eu amo este ‘jogar fora’ de coisas não essenciais, vivendo apenas no nível básico do instinto da sobrevivência”. A missivista é sobrevivente de Sendai, onde tem residência em ponto elevado.

O maremoto, fenômeno natural e previsível pela ciência, foi apenas o estopim que causou toda essa destruição, cujo valor total está estimado pelas autoridades nipônicas em 284 bilhões de dólares, fora os prováveis danos radioativos que não têm consistência para uma avaliação, mas têm alcance planetário.

Duras e claras lições podem ser tiradas de tais ocorrências. Ação humana nenhuma é capaz de evitar ou anular os ajustes cósmicos do planeta. Isso é taxativo, definitivo. Assim, num simples exercício de raciocínio lógico, cabe submeter-nos a esses movimentos planetários e agir de forma conseqüente e humilde, reconhecendo nossa inferioridade ante a grandeza e mistério do Criador.

Quais essas atitudes conseqüentes? Como é óbvio, coragem para romper com tabus e reduzir com critério racional a população mundial (controle da natalidade,) porque a Natureza nessas horas o faz sem qualquer critério. Ou o faz de forma abrupta como vimos, ou de modo lento e insidioso pela ação da radiação nuclear liberada das usinas nucleares, essa loucura humana.

Diminuindo-se esse “formigueiro” humano que habita o planeta, diminui-se a produção de bens inúteis, dispensáveis, supérfluos e renunciáveis que, em última instância, são lixos prejudiciais à saúde planetária. Além disso, corta-se o cordão umbilical da relação consumo-crescimento que alimenta a atual civilização baseada na ganância individualista.

Coragem para renunciar a uma vida rodeada de instrumentos de conforto e opção para um viver tão natural quanto possível, com harmonia e respeito à Natureza. Note-se que um terremoto em terras habitadas por silvícolas, que não conhecem o progresso contagioso do modernismo, não causa danos significativos.

Os males e desgraças originários da atual civilização progressista e tecnológica – movimentada pelos interesses gananciosos dessa teia econômica em que estamos embaraçados – estão acumulando numa bomba-relógio o combustível necessário e suficiente para uma tragédia de caráter mundial. O exemplo nipônico está aí para nos abrir os olhos e a mente.

De modo geral, a humanidade não enxerga esse caminho da destruição e não aprende a lição nipônica por estar extasiada pelas ilusões das miçangas multicoloridas que lhe são oferecidas, tal como fizeram aos índios inocentes os gananciosos e perniciosos invasores portugueses.

A humanidade se encontra atualmente refém do destino ignóbil que a espera logo adiante. Manifestações geológicas e seus ramos em estudo ocorrem em todas as partes do mundo. São sismos, furacões, deslizamentos, inundações, vulcões, deslocamentos rápidos de ar, tempestades climáticas, impactos de meteoros e – o mais importante – o fator traiçoeiro da imponderabilidade.

Das 441 usinas nucleares existentes, apenas umas poucas desgovernadas têm potencial suficiente para causar a extinção da vida terrena. O envenenamento radioativo é extremamente severo e de ação prolongada. Não teríamos como escapar dessa situação.

E as principais vítimas de uma civilização que não sabe se comportar serão os inocentes seres da fauna e flora. Os humanos não serão vítimas, serão os autores.
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FONTE : Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista e articulista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.Nota: o livro “Agora ou Nunca Mais“, está disponível para acesso integral, gratuito e no formato PDF. (EcoDebate, 30/03/2011).

Alemanha: fim da energia nuclear ganha força no governo Merkel

Antes a favor das usinas nucleares, coalizão de governo agora debate o fechamento das centrais alemãs. Merkel diz que o desastre no Japão a fez repensar suas posições sobre os riscos da energia atômica.

A coalizão de governo alemão aparentemente quer ganhar de volta a confiança do eleitorado com uma rápida desativação da energia nuclear do país. O secretário-geral do Partido Liberal (FDP), Chris Lindner, pediu nesta terça-feira (29/03) o desligamento permanente das usinas nucleares desligadas pelo governo em caráter temporário. Também na CDU (União Democrata Cristã) cresce o apelo por uma rápida desativação das centrais atômicas.

De acordo com um porta-voz do FDP, Lindner se disse a favor de um acordo imediato com a indústria nuclear para desativar as usinas mais antigas.

Os democrata-cristãos – parceiros dos liberais na coalizão – receberam a sugestão de Lindner com cautela. Um porta-voz do partido lembrou que existe uma moratória de três meses, durante a qual a segurança das centrais nucleares alemãs deve ser verificada. Somente após as avaliações, agendadas para terminarem em meados de junho, o governo alemão deve decidir sobre o futuro das usinas paralisadas.

O assunto é controverso entre os democrata-cristãos. O líder do partido no Parlamento alemão, Volker Kauder, alertou para “decisões precipitadas”. Já o governador da Baixa Saxônia, David McAllister, pediu um rápido desligamento das centrais nucleares. “Devemos renunciar à energia atômica de forma mais rápida do que o planejado atualmente”, afirmou.

O ministro alemão do Meio Ambiente, Norbert Röttgen, confirmou na segunda-feira ser a favor de que a vida útil das usinas nucleares seja reduzida “o mais rapidamente possível”, contanto que a mudança seja “razoável e economicamente viável”.

Já a oposição social-democrata e verde exige que as oito usinas paralisadas permaneçam desligadas e que o fornecimento de energia restante não seja transferido para instalações atômicas mais recentes.

Mudança de política não evitou derrota nas urnas

Após o início da crise nuclear de Fukushima, no Japão, o governo alemão decidira inspecionar a segurança das 17 usinas nucleares do país e desativar temporariamente os sete reatores atômicos mais antigos da Alemanha. Além disso, a central de Krümmel, pertencente à nova geração de reatores, já está desligada desde 2007, em decorrência de uma série de panes.

A decisão não evitou a derrota dos partidos que compõem a coalizão de governo alemão nas eleições regionais realizadas no último fim de semana nos estados de Baden-Württemberg e Renânia-Palatinado. As disputas foram vencidas pela oposição, com amplo crescimento do Partido Verde, em campanhas eleitorais marcadas pela discussão em torno da energia nuclear.

Amplo diálogo político

A chanceler federal Angela Merkel anunciou um amplo diálogo político sobre a futura política energética alemã. Além das verificações de segurança das usinas, devem ser realizadas conversações com a oposição, segundo Merkel. A chanceler lembrou a reunião com todos os governadores do país, agendada para 15 de abril, na qual será discutido um rápido desenvolvimento das fontes de energia renováveis.

“Nas próximas semanas vamos debater de forma intensa uma nova política energética”, declarou a premiê. “Isso inclui decisões fundamentais sobre política energética”. Merkel, que é física, reiterou seu apoio à energia nuclear, mas disse que o desastre no Japão a forçou a repensar os riscos associados à tecnologia.

“Minha percepção sobre a energia nuclear se alterou com os acontecimentos no Japão”, disse a chanceler federal. Ela disse que mudou principalmente seu ponto de vista em relação aos riscos envolvidos e ao que pode acontecer.

Reviravolta teria desagradado eleitores conservadores

O conselho empresarial da CDU alertou o partido contra uma saída precipitada. “É preciso observar todo o contexto da economia, segurança e abertura tecnológica”, disse o presidente da entidade, Kurt Lauk. A mudança da política nuclear do governo provocou, segundo ele, a insatisfação de muitos eleitores tradicionais dos democrata-cristãos.

O deputado democrata-cristão Joachim Pfeiffer, especializado em questões econômicas, é contra o fim rápido das usinas nucleares na Alemanha. Segundo ele, a competitividade da indústria do país pode ficar comprometida com o fim da energia atômica. Ele lembrou que atualmente a Alemanha tem 80% de sua energia de fontes não renováveis.

Já o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, atribui a derrota recente do partido nas eleições regionais em Baden-Württenberg à falta de força de persuasão do governo na política nuclear. O político, também democrata-cristão, vê como correta a moratória nuclear determinada por Merkel. “Foi absolutamente correto e necessário reconsiderar nossa posição após os eventos no Japão. Depois de um evento como esse, não podemos simplesmente continuar como antes”, afirmou.
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FONTE : reportagem da Agência Deutsche Welle, publicada pelo EcoDebate, 30/03/2011

Uma reflexão sobre a guerra urbana no cotidiano das cidades brasileiras

Viver em sociedade pressupõe, um certo grau de tolerância e respeito ao próximo e, muitas vezes, a subordinação de vontades, desejos e interesses particulares, em nome de uma convivência pacífica.

Infelizmente, não é o que vemos com freqüência em nossas cidades, notadamente, as maiores aqui em nosso país. A busca por uma relativa harmonia fica ainda mais prejudicada quando estão nítidos os gravíssimos problemas de infraestrutura, ou melhor, da falta dela, que potencializam dissabores e momentos de irritação de seus habitantes. Se a isso juntarmos a prepotência e arrogância de alguns que acreditam ter mais direitos que outros, o cenário está aí, montado sobre bases de um cotidiano cercado de batalhas e tensões permanentes.

Basta caminhar alguns metros em uma metrópole como São Paulo para flagrar inúmeros e repetitivos casos de desrespeito ao direito coletivo. São calçadas intransitáveis; lixos espalhados e jogados no chão ao lado de lixeiras; praças com bancos quebrados e monumentos depredados; além de ruas e avenidas mal sinalizadas e iluminadas, entre tantos outros problemas facilmente detectáveis.

Mesmo as pessoas menos propensas a atitudes condenáveis, acabam sendo “contaminadas” pela desordem geral, digo isso, porque não posso imaginar que sejamos todos ou a maioria composta de seres com instintos selvagens dispostos a fazer valer as máximas do “vale-tudo” e do “salve-se quem puder”.

Motoristas ensandecidos

Bem, tenho cá minhas dúvidas quanto a bipolaridade entre médico e monstro que acomete cidadãos ao adentrarem as suas máquinas maravilhosas. O pai carinhoso, o amigo fiel, o vizinho gentil e por aí vai, quando se vê solitário dentro de seu veículo, transforma-se como numa maldição, num maligno dr. Hyde pronto a exibir uma ferocidade a qualquer um que ouse manifestar os mesmos direitos.

Os iguais são rechaçados e fustigados o tempo que durar a viagem e apenas mal tolerados, pois a verdade absoluta está sentada naquele banco de motorista e todos os outros sempre estarão errados. Já aos desiguais, a esses não resta absolutamente nenhuma clemência. Pedestres que façam menção de atravessar na faixa reivindicando esse direito serão agredidos e ameaçados verbalmente, quando não atropelados, para que não restem dúvidas de sua insignificância e inferioridade. Bicicletas, também não poderão ter outro destino, vide o caso de Porto Alegre, cuja ousadia foi punida por, blasfêmia maior, reivindicar melhores condições de mobilidade.

Os motoristas histéricos que buzinam escandalosamente nas situações mais triviais, os que agem em flagrante desrespeito as leis e ainda os que colocam a sua vida e dos outros em risco devem estar, sob domínio de algum surto psicótico e têm usado seus veículos com freqüência cada vez mais assustadora, como arma letal. As autoridades do trânsito, bem como os responsáveis pelos testes para aquisição ou renovação da carteira de habilitação deveriam ter condições de punir e prevenir, alguns desses comportamentos inaceitáveis com a perda da licença para dirigir.

Triste resultado

Infelizmente ainda teremos muitas razões para crer que esse quadro deverá se agravar. Uma pesquisa divulgada no mês passado demonstra o quão longe estamos de uma mudança.

Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), um em cada quatro brasileiros afirma que, pasmem, mesmo que o transporte coletivo fosse eficiente, não deixaria de usar o carro como principal meio de deslocamento diário. Entre as diversas argumentações estão o fato dos entrevistados considerarem o transporte coletivo ruim e ineficiente. Quanto a isso não há o que discutir, até porque 44,3% dos ouvidos pela pesquisa são usuários desse tipo de transporte.

Em geral, o que a pesquisa revela, é a falsa ilusão de que todos os problemas serão resolvidos quando o cidadão adquirir seu carro. Apesar de todos os problemas do trânsito caótico das cidades brasileiras, as pessoas ainda sonham com o transporte individual como se com ele, fosse possível alcançar o nirvana, o paraíso, a felicidade suprema. Ledo engano!

A barbárie do eu sozinho

Uma sociedade se constrói com a busca por soluções sustentáveis em que prevaleçam os interesses coletivos sobre os individuais. Obviamente numa democracia baseada nos pilares da livre iniciativa nos quais estamos inseridos, direitos individuais e de minorias devem ser respeitadas. Mas o que preocupa no atual cenário é a motivação, de uma parte significativa da população, pelo desejo de encontrar caminhos pessoais e particulares.

Por seu lado, as nossas autoridades públicas de olho nos votos e no atendimento a essas solicitações, gastam fortunas com obras viárias sem futuro estimulando o uso do transporte individual. Assim, as cidades vão sendo ocupadas, rasgadas e desfiguradas, para, ao invés de servir como espaço de convivência agradável para seus habitantes, transformar-se em vias congestionadas e cada vez mais estressantes e violentas.

Para que tenhamos qualidade de vida no futuro é preciso urgentemente frear esse processo insano e contraproducente. Construir as bases para uma cidade que priorize a implementação de políticas e investimentos de planejamento urbano garantindo a todos direitos iguais de acesso, mobilidade e de uso dos equipamentos e espaços públicos. Ações do poder público que não visem reduzir as enormes desigualdades e que não trilhem o caminho do desenvolvimento sustentável devem ser colocadas em segundo plano ou mesmo descartadas.
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FONTE : Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de comunicação do Greenpeace e coordenador de comunicação do Instituto Akatu. É colunista de Carta Capital e colaborador da Envolverde.
**Artigo publicado originalmente na coluna Cidadania & Sustentabilidade: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/uma-reflexao-sobre-a-guerra-urbana-no-cotidiano-das-cidades-brasileiras-3. (Envolverde/Carta Capital).

segunda-feira, 28 de março de 2011

ESCLARECIMENTO AOS CATARINENSES : INSTITUTO CHICO MENDES (ICMBio) E O ESTALEIRO OSX

NOTA AOS CATARINENSES

Considerando-se as últimas notícias referentes à possível mudança do estaleiro OSX para o estado do Rio de Janeiro em decorrência da negativa do Instituto Chico Mendes (ICMBio) para sua instalação na Baia Norte (município de Biguaçu/SC), vimos por meio deste informar que:

1 O Instituto Chico Mendes (ICMBio) é um órgão do governo federal, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. Foi criado em 2007, resultado da reestruturação do Ibama e tem a missão institucional de “proteger o patrimônio natural e promover o desenvolvimento socioambiental”.

2 O Instituto Chico Mendes (ICMBio) é responsável pela gestão de 310 unidades de conservação federais - o que totaliza aproximadamente 78 milhões de hectares - além de 15 centros de pesquisa relacionados à conservação da biodiversidade e ao uso sustentável dos recursos naturais.

3 Nos processos de licenciamento em que ocorrem impactos às unidades de conservação e seus objetivos, ou às espécies ameaçadas de extinção, o Instituto Chico Mendes (ICMBio) é obrigado legalmente a se manifestar.

4 A implantação do estaleiro OSX, na alternativa locacional proposta, impacta três unidades de conservação federais (Área de Proteção Ambiental do Anhatomirim, Reserva Biológica Marinha do Arvoredo e Estação Ecológica de Carijós), por isso a FATMA solicitou a manifestação do Instituto Chico Mendes (ICMBio).

5 Após criteriosa análise técnica do Estudo de Impacto Ambiental, observou-se que o mesmo identifica uma série de conseqüências irreversíveis e não mitigáveis a estas unidades e a seus objetivos.

6 Reunindo a enorme possibilidade de permanente contaminação biológica dos atributos bióticos da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, os indícios irrefutáveis de modificações nos atributos físicos e bióticos da Estação Ecológica de Carijós (ambas unidades de conservação de proteção integral) e os impactos negativos irreversíveis e diretos (inclusive podendo ocasionar a extinção local) do grupo de indivíduos de golfinhos cinza Sotalia guianensis, que foi o objetivo principal de criação da Área de Proteção Ambiental do Anhatomirim, o empreendimento na alternativa locacional proposta torna-se totalmente incompatível com a existência dessas unidades de conservação.

7 Além do acima exposto, ainda pesam contra a instalação do empreendimento no local todos os outros impactos à biota e às comunidades do entorno e a impossibilidade de mitigação de grande parte desses impactos.

8 Por estes motivos o Instituto Chico Mendes (ICMBio) concluiu pela inviabilidade ambiental do empreendimento e recomendou a não autorização na alternativa locacional proposta.

9 Outrossim, cabe destacar que o mesmo Estudo de Impacto Ambiental apresenta outras três alternativas locacionais para o empreendimento, todas no estado de Santa Catarina. E dentre todas as alternativas locacionais, a escolhida pelo empreendedor é, sem sombra de dúvidas, a mais impactante do ponto de vista ambiental, pois gerará impactos permanentes a três unidades de conservação, cada uma com seus atributos bióticos a abióticos únicos, que suscitaram suas criações. Neste contexto, em verdade, torna-se difícil conceber local mais sensível na costa catarinense para a instalação de empreendimento dessa natureza.

10 Diante do exposto, vimos informar à sociedade catarinense que a posição do Instituto Chico Mendes (ICMBio) não é “contra o estaleiro”, ou “contra Santa Catarina”, como vem sendo exposto em alguns meios de comunicação. Somos contrários ao empreendimento no local proposto para sua instalação (Baía Norte), caracterizado atualmente por uma rica biodiversidade e por atividades de maricultura, pesca artesanal e turismo.

11 Ficamos à disposição para todos os esclarecimentos que se fizerem necessários e reiteramos os compromissos estabelecidos com nossa missão institucional.


APA Anhatomirim

ESEC Carijós

REBIO Arvoredo

Coordenação Regional 09

FONTE :

UNIDADES MARINHO-COSTEIRAS DE SANTA CATARINA
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
Rod. Maurício Sirotsky Sobrinho s/n°, km 02, Jurerê.
CEP: 88053-700 - Florianópolis-SC
Tel. (48)3282-1863 Fax. (48) 3282-9002

Estudantes protestam no Rio contra construção de usinas nucleares

Um grupo de manifestantes se reuniu na manhã deste domingo (27) na orla do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, para protestar contra a construção de usinas nucleares no país. Eles caminharam, de mãos dadas, formando uma corrente humana, em direção à Praia do Arpoador.

A ação foi inspirada na manifestação realizada em algumas cidades da Alemanha, quando milhares de pessoas foram às ruas exigindo o fechamento das centrais nucleares do país, logo após o acidente na Usina Nuclear de Fukushima Daiichi, no Leste do Japão, em consequência de um terremoto seguido de tsunami. Com isso, o governo alemão anunciou o fechamento temporário de sete usinas nucleares no país e a realização de rigorosas vistorias nas unidades.

Para convocar a população, as organizadoras, que são três entidades estudantis do ensino médio, utilizaram a internet. Elas criaram um blog e divulgaram a iniciativa em redes sociais.

De acordo com Manuela Moritz, uma das idealizadoras do movimento, o governo brasileiro deveria investir mais em pesquisas e no desenvolvimento de outras fontes energéticas, como a eólica e a solar.

No blog, elas destacam, em relação ao acidente no Japão, que “as mais graves consequências desta tragédia ainda estão por vir, e prometem perdurar entre gerações e gerações da população japonesa”, referindo-se às contaminações por material radioativo em função das explosões dos reatores da usina.

As estudantes também cobram do governo brasileiro um plebiscito sobre a construção de usinas nucleares. Elas pretendem promover um novo protesto e esperam mobilizar mais gente. Do evento de hoje participaram cerca de 50 pessoas.

“Quase 800 pessoas confirmaram pela internet que viriam à manifestação, então o público não correspondeu às nossas expectativas. Mas foi importante ter plantado essa semente, porque chamamos a atenção de muita gente que estava na praia e muitas pessoas se mostraram solidárias com a nossa causa”.

O Brasil tem as usinas nucleares Angra 1 e Angra 2 em funcionamento. O programa nuclear brasileiro, além de Angra 3, no Rio de Janeiro, que deve ficar pronta em 2015, prevê a construção de mais quatro usinas, duas no Nordeste e duas no Sudeste.
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FONTE : Thais Leitão, da Agência Brasil. Edição: Rivadavia Severo.(Envolverde/Agência Brasil).

ARGENTINA : Vanguarda na proteção

Uma organização não governamental está encarregada de dirigir um governo integrado de todas as áreas protegidas marinho-costeiras da Argentina.

Buenos Aires, Argentina, 28 de março de 2011 (Terramérica).- Governantes, ecologistas e empresários têm pouco menos de quatro anos para estabelecer a gestão conjunta de 43 áreas protegidas da costa atlântica argentina, um dos biomas mais produtivos e melhor conservados do mundo. De Punta Rasa, na oriental província de Buenos Aires, até o austral Canal de Beagle, estas áreas somam 1,6 milhão de hectares, metade mar e metade terra, em quase cinco mil quilômetros de costas no Oceano Atlântico.

Algumas são mundialmente vitais, porque protegem espécies únicas, como 50% das colônias de pinguins de Magalhães (Spheniscus magellanicus) ou o único local costeiro de reprodução da ave petrel gigante do Sul (Macronectes giganteus). Entretanto, são insuficientes. Menos de 1% do mar está protegido, e as porções sob proteção se distribuem de forma desigual entre diferentes regiões biológicas.

Com a finalidade de superar esta e outras debilidades, desde outubro de 2010 está sendo executado um programa para criar o Sistema Interjurisdicional de Áreas Protegidas Costeiro-Marinhas da Argentina. A direção do programa não está com o governo, mas com uma organização não governamental, a Fundação Patagônia Natural, com financiamento do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF) e administração do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

“As áreas protegidas estão divididas, mas a ideia é colocá-las em rede e desenvolver uma estratégia de gestão que possa ser ampliada para todo o espaço costeiro marinho”, explicou ao Terramérica o coordenador do projeto, José María Musmeci. Durante quatro anos, se reunirão governadores das províncias de Buenos Aires, Chubut, Rio Negro, Santa Cruz e Terra do Fogo, e prefeitos dos municípios ribeirinhos. Também participarão os ministérios de Meio Ambiente, Pesca, Turismo e Relações Exteriores do governo argentino.

Na faixa costeira, são 25 cidades com mais de dez mil habitantes, com terminais portuários importantes, como Mar del Plata ou Bahía Blanca, em Buenos Aires, Puerto Madryn, em Chubut, e Ushuaia, na Terra do Fogo. Trata-se de fortalecer os acordos institucionais e sociais da governabilidade das reservas naturais, melhorar as formas de financiamento de longo prazo, e selecionar áreas protegidas para fortalecê-las, redesenhá-las ou ampliá-las. Também é preciso convencer as empresas do valor que tem a biodiversidade.

O cenário atrai pela cor sempre azul de suas águas e suas costas variadas, com pontas rochosas e abruptas. Pinguins, baleias, orcas, cormorões, lobos e elefantes marinhos são exemplos de espécies das costas patagônias. Mar adentro, podem ser encontradas enormes existências de espécies comerciais, como merluzas (Merluccius hubbsi), lulas (Illex argentinus) ou lagostins.

Esta riqueza está ameaçada por exploração de petróleo, pesca, turismo e contaminação urbana e industrial, disse ao Terramérica o oceanógrafo Guillermo Caille, coordenador técnico do projeto. A extração de petróleo produz renda anual de US$ 2 bilhões e responde por 70% da atividade econômica baseada nos recursos naturais da área costeira. A pesca, que contribui com 20% da economia costeira e exporta US$ 500 milhões ao ano, vê diminuir as existências ano a ano por descontrole na captura.

O turismo gera US$ 100 milhões por ano e 10% da atividade econômica. Todos estes setores vivem dos recursos que se busca proteger. Só o avistamento de fauna atrai um milhão de visitantes por ano. Os cruzeiros, cerca de “50 barcos que levam anualmente entre mil e cinco mil passageiros”, atracam em Buenos Aires, Puerto Madryn e Ushuaia, informou Guillermo. Algumas empresas deste ramo realizam boas práticas para conscientizar o pessoal e os turistas.

Outra ameaça são os resíduos sólidos e líquidos das cidades e indústrias. Para Guillermo, no setor público houve “avanços significativos” nos últimos 20 anos, mas no setor privado “faltam maiores progressos”, por isto, esta iniciativa busca um vigoroso intercâmbio com as empresas. Os vazamentos e a contaminação crônica de petróleo são os problemas mais graves da exploração petrolífera. “Os que se beneficiam dos serviços de um ecossistema devem contribuir também para sua conservação”, ressaltou Guillermo.

A empresa de capital argentino e chinês Pan American Energy – segunda produtora de hidrocarbonos deste país e primeira operadora na costa – baixou a guarda. Há dois anos, a Fundação Patagônia Natural capacitou especialistas da companhia e navios de exploração levaram a bordo dois observadores da entidade para que estudassem o impacto da atividade nos mamíferos marinhos, disse ao Terramérica a encarregada de Meio Ambiente da empresa, Elena Vicente.

Agora é preparada nova atividade conjunta: especialistas da Fundação vão monitorar um projeto de exploração a partir de uma plataforma petroleira em alto mar, para prevenir “qualquer contingência”, explicou Elena. O empresário da pesca Gerardo Dietrich, da Alpesca, filial do grupo sul-africano Irvin & Johnson, disse ao Terramérica que sua companhia também acompanhará o esforço.

“Estes projetos sempre são proveitosos porque permitem um conhecimento mais profundo da área”, ressaltou Gerardo. Além disso, a gestão integrada ajudará os governos a tomarem medidas que “disciplinem” todos igualmente, de maneira que o compromisso de conservação não se limite a uns poucos.

* A autora é correspondente da IPS.

Crédito da imagem: Creative Commons

Legenda: Albatroz de sobrancelha negra perto do canal de Beagel, na Argentina.

LINKS

Mar Patagônio um pouco mais preservado
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=port&idnews=3647

Argentina cria seu primeiro parque marítimo
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=port&idnews=1269

Argentina quer ampliar sua fronteira marítima
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=port&idnews=918

Fundação Patagônia Natural, em espanhol
http://www.patagonianatural.org/

Pan American Energy, em espanhol e inglês
http://www.pan-energy.com/

Alpesca, em espanhol e inglês
http://www.alpesca.com.ar/

Irvin & Johnson, em inglês
http://www.ij.co.za
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FONTE : Marcela Valente. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.(Envolverde/Terramérica).

ONU apoia reavaliação do sistema de segurança nuclear

Afirmação foi feita por Secretário-Geral após reunião de alto nível, nesta sexta-feira, em Nova York sobre a resposta internacional à situação da central nuclear de Fukushima Daichi.

As Nações Unidas afirmaram que a crise nuclear no Japão levou a apelos para que a resposta global e o sistema de segurança nuclear sejam reavaliados.

Num encontro de alto nível, nesta sexta-feira, o Secretário-Geral, Ban Ki-moon, disse que apoia estes pedidos. A reunião serviu para discutir a reação da comunidade internacional à crise da central atômica de Fukushima Daichi.

Papel Central

Participaram do encontro, por video conferência, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Aiea, Yukiya Amano, e chefes de outras agências da ONU, incluindo a Organização Mundial de Meteorologia.

Ban lembrou que embora os países sejam os principais responsáveis pela segurança de instalações nucleares, a Aiea tem um papel central a desempenhar na aplicação dos padrões de segurança e de desenvolvimento das centrais atômicas.

Ban disse ao governo e ao povo japoneses que as organizações internacionais que estão participando da resposta, estão ao lado do país asiático na tentativa de se recuperar do desastre causado pelo terremoto e tsunami do último dia 11.

Nesta sexta-feira, o Japão iniciou uma investigação sobre o vazamento nuclear em Fukushima, que levou dois funcionários da usina a serem hospitalizados.

Segundo agências de notícias, a tragédia no Japão matou cerca de 10 mil pessoas. E mais de 17 mil estão desaparecidas.

Para ouvir esta notícia clique: http://downloads.unmultimedia.org/radio/pt/real/2011/1103259i.rm ou acesse:
http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/detail/193834.html
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FONTE : Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU em Nova York.(Envolverde/Rádio ONU).

EUA: Depósito nuclear de Hanford, um dos lugares mais contaminados da Terra

O desastre em Fukushima levantou questões no mundo todo sobre a segurança nuclear. A contaminação, contudo, é muito pior no Noroeste Pacífico dos EUA. A antiga usina de plutônio em Hanford, no Estado de Washington, é um dos lugares mais contaminados da Terra e ainda serão necessárias décadas para que fique limpo.

Os cordeiros nasceram sem olhos ou bocas. Alguns tinham pernas grotescamente unidas; outros, não tinham pernas. Muitos eram natimortos. Trinta e um se perderam em uma única noite. Reportagem de Marc Pitzke, no Der Spiegel.

Em um pasto próximo, uma vaca foi encontrada morta, dura, com os cascos bizarramente esticados para o céu. Mais a jusante, homens da tribo Yakama tiraram salmões de três olhos do rio Columbia. As trutas estavam cobertas com úlceras cancerosas.

E aí os bebês começaram a adoecer.

Na primavera de 1962, o fazendeiro Nels Allison observou que algo estava assustadoramente errado. “Nossa mãe”, disse à esposa. As ovelhas eram sempre “as primeiras a se deitar e morrer” quando algo estava errado na fazenda de Allison perto de Basin City, uma cidade rural perto do rio Columbia no Noroeste dos EUA. Ele começou a se referir àquela noite como “a Noite dos Pequenos Demônios”.

Apesar dos Allison já terem morrido, o choque permanece. O jornalista Michael D’Antonio registrou a história no livro “Atomic Harvest” (colheita atômica), uma das milhares de narrativas de horror que ocorreram na região em torno de Hanford, local da usina de produção de plutônio nos EUA. A usina assusta os moradores até hoje –e os coloca em perigo.

Hanford é o pecado original atômico dos EUA. Nesta gigantesca instalação, espalhada por 1.517 quilômetros quadrados, uma viagem de quatro horas a sudeste de Seattle, no vazio extenso de Washington oriental, os EUA produziram a maior parte da matéria prima para a Guerra Fria. Apesar de ter sido desativada em 1988, a usina continua sendo o local mais contaminado de todo o hemisfério ocidental.

O Departamento de Energia dos EUA recentemente revisou seu programa de descontaminação de Hanford, a maior limpeza ambiental da história americana. A data final foi novamente adiada. Agora, espera terminar sua tarefa hercúlea até setembro de 2052 –mais de 108 anos após a abertura da usina.

“Mapa da morte”

A catástrofe nuclear que está se desdobrando na distante Fukushima levou muitos a levantarem a questão sobre a segurança dos reatores nucleares dos EUA, mas uma das ameaças mais graves está enterradas Hanford, uma das mais teimosas relíquias da Guerra Fria.

Ainda mais preocupante é o fato que uma usina nuclear ativa –a única da região propensa a terremotos do Noroeste Pacífico- fica às margens do local poluído. De fato, Gerry Pollet, diretor executivo do grupo ativista Heart of America Northwest, diz que a combinação do legado de Hanford com a potencial atividade sísmica impõe um “sério risco”.

Essas novas preocupações não são nada novas para o povo de Richland, a cidade mais próxima de Hanford, que tem cerca de 240.000 pessoas vivendo em condados pouco populosos. Seus avós já pagaram o preço da contaminação permanente e da radiação: abortos, defeitos de nascimento e doenças infantis raras.

Nos anos 60, Juanita Andrewjewski, esposa de um agricultor, criou um “mapa da morte” da região em torno de sua casa –com cruzes para doenças de coração e círculos para câncer. Logo, o mapa ficou cheio de cruzes e círculos; em certa altura, havia 67.

O preço da paz?

Stewart Udall, que foi secretário do interior dos presidentes John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson, chamou Hanford de o “capítulo mais trágico na história da Guerra Fria americana”.

A partir de 1943, um enorme projeto de construção criou nove reatores atômicos em Hanford, que ainda surgem na areia do deserto como dinossauros fossilizados. Um deles, o reator B, foi o primeiro do tipo.

Foi ali que os EUA, em condições altamente sigilosas, obtiveram o plutônio usado para o Manhattan Project. Hanford forneceu o material para a primeira explosão de uma bomba atômica, o teste Trinity no terreno de testes White Sands, no Novo México, no dia 16 de julho de 1945. A usina também forneceu os 6,4 kg de plutônio-239 para a “Fat Man”, bomba detonada sobre Nagasaki no dia 9 de agosto de 1945.

Na década que se seguiu, Hanford foi a fonte do plutônio para todo o arsenal nuclear militar americano. A liberdade do mundo ocidental dependia de Hanford, dizia-se. A usina foi instrumental em terminar a Segunda Guerra Mundial e agora estava mantendo fria a Guerra Fria.

Isso era aparentemente mais importante do que a saúde das pessoas.

O legado mortífero

Os EUA tinham orgulho de Hanford. Como agradecimento aos funcionários da usina por seu sacrifício diário, eles receberam broches no formato de uma nuvem de cogumelo. D’Antonia conta como a nuvem de cogumelo também era a mascote do time de futebol da escola de ensino médio de Richland, os Bombers, e como havia lojas chamadas Atomic Bowling, Atomic Foods e Atomic Lawn Care.

Hoje, contudo, esse orgulho se tornou horror. Os agricultores da área, os moradores de Richland e das duas cidades vizinhas, Pasco e Kennewick –conhecidas como as Tri-cities- estão entre os seres humanos mais atingidos por radiação da Terra.

É um legado assustador. Em Hanford, 52 prédios estão contaminados e 620 km quadrados estão inabitáveis devido à radioatividade que se infiltrou pelo solo e lençol freático: urânio, césio, estrôncio, plutônio e outros radionuclídeos. Há mais de 204.000 metros cúbicos de lixo altamente radioativo ainda no local –dois terços do total em todos os EUA.

Em uma área, mais de 216 milhões de litros de dejetos líquidos radioativos e água de resfriamento estão armazenados em tanques com vazamentos. Mais de 100.000 varetas de combustível usadas -2.300 toneladas- ainda estão descansando em tanques próximos ao rio Columbia.

A água de resfriamento para os reatores vinha do rio. Até 1971, a água era secretamente bombeada de volta para o rio, após um tratamento mínimo. Altos níveis de radiação foram medidos a 402 km a oeste, onde o rio Columbia chega ao Pacífico. Os índios americanos foram a principal população a comer os peixes contaminados.

Nuvens radioativas

As usinas também emitiam nuvens radioativas, que foram levadas pelo vento até o Oregon, Idaho e Montana e até o Canadá. As pessoas afetadas pelas partículas radioativas, aquelas que ficavam na direção do vento, sofreram mais durante a fase inicial, entre 1945 e 1951, quando foram irradiadas por iodo-131, que entrava para a cadeia alimentar por meio dos produtos animais, como carne, leite e ovos.

Além disso, milhares e milhares de trabalhadores, moradores e agricultores foram deliberadamente contaminados –a título de teste.

No dia 3 de dezembro de 1949, físicos de Hanford liberaram uma nuvem altamente radioativa pela chaminé da chamada T-Plant, a maior fábrica de plutônio da época. A radiação foi quase 1.000 vezes maior daquela que foi liberada durante a fusão de 1979 em Three Mile Island, na Pensilvânia, o pior acidente nuclear na história dos EUA. A nuvem do experimento, que foi chamado de “Green Run”, chegou até a Califórnia. Pessoas se perguntavam por que subitamente adoeceram.

Estudos eventualmente mostraram que alguns bebês em Hanford foram irradiados duas vezes mais do que as crianças de Chernobyl. Antes do “Green Run”, Tom Bailie, filho amado de dois anos de um fazendeiro, brincava nos campos. Mas então ele sofreu uma paralisia inexplicável; depois, ficou estéril. Toda a família morreu de câncer.

Contudo, foi apenas em 1986 que Bailie, com a ajuda de um repórter determinado do “Spokesman Review”, um jornal local, começou a entender o por quê. Era o início do que se tornou uma batalha de décadas entre as vítimas de radiação e o governo americano. As vítimas processaram o governo e o forçaram a abrir os arquivos secretos. Alguns dos processos foram consolidados e se transformaram em uma ação de classe que ainda está em curso.

“Uma bomba relógio”

Quando a usina de Hanford foi fechada, em 1988, o governo iniciou um enorme esforço de descontaminação, chamado de “o maior projeto de obra civil na história da humanidade”, como se fosse algo para se ter orgulho.

Até hoje, o projeto ainda custa mais de US$ 2 bilhões (em torno de R$ 3,4 bilhões) por ano. Para o ano fiscal de 2013, serão necessários US$ 2,9 bilhões. O trabalho é constantemente interrompido por incidentes de desleixo, dificuldades e acidentes. Em 2008, após duas décadas de limpeza, nem a metade do serviço foi terminada. Somente quatro dos nove reatores foram sepultados. A zona externa deve estar plenamente descontaminada até 2020, os tanques até o fim de 2047.

E depois, é claro, ainda resta o reator ativo. Em operação desde 1984, é considerado um dos menos seguros dos EUA. Após a catástrofe no Japão, seu operador, o consórcio Energy Nortwest, alegou que a usina tem vários sistemas de backup e poderia aguentar um terremoto de 6,9 pontos na escala Richter.

No ano passado, houve 210 terremotos na área de Hanford, sendo o mais forte de 3 pontos. Mas o fato não serem tão severos não serve para assegurar os ambientalistas. “Os tanques subterrâneos vazam, e a água contaminada está se movendo para o rio, o que significa um futuro radioativo para o rio, a não ser que a sujeira possa ser limpa em tempo de evitar um sério desastre radiológico”, diz Glen Spain, diretor das Associações de Pescadores da Costa do Pacífico. “O legado de vastas quantidades de lixo nuclear… ainda é uma bomba relógio”.
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FONTE : Tradução: Deborah Weinberg; Reportagem do Der Spiegel, no UOL Notícias. (EcoDebate, 28/03/2011).

Físico diz que setor saúde deve participar do planejamento nuclear do país

A catástrofe natural que ocasionou o acidente com os reatores do Complexo Nuclear de Fukushima, no Japão, gerou um alerta para que todo o mundo reveja seus projetos nucleares. E, no Brasil, não é diferente. O país conta com um programa nuclear, mas há setores da sociedade contrários a essa opção. O momento, portanto, é de promover um rico debate sobre o tema, com participação intensa do setor saúde e da população. Em entrevista ao Informe Ensp, o físico e pesquisador-visitante do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Tarcisio Cunha contextualiza o acidente ocorrido no Japão, explica as consequências da radiação à população e convoca o setor saúde para discutir o futuro do país em relação ao seu programa nuclear.

No dia 11 de março, um forte abalo sísmico atingiu o nordeste do Japão, com magnitude 8,9 na escala Richter e epicentro no oceano, a aproximadamente 130 km da cidade litorânea Sendai. O evento trouxe diversos transtornos para a população japonesa, entretanto é o acidente com os reatores do Complexo Nuclear de Fukushima que tem causado medo e preocupação em função dos efeitos da radiação. O senhor pode contextualizar a situação do Japão?

Tarcisio Cunha: Em primeiro lugar, o que ocorreu no Japão foi uma catástrofe natural, que atingiu reatores nucleares. Ao contrário do que muitos meios de comunicação vêm divulgando, não se trata de um acidente nuclear, mas sim de um acidente com reatores nucleares. É uma diferença sutil? Talvez. Mas, se quisermos debater o tema com isenção, é preciso colocar as coisas em termos bem claros.

Outras perguntas que muitos fazem: Os reatores atingidos por essa catástrofe estão colocando em risco a saúde da população? Sim, é verdade! Eles podem provocar um desastre como o acidente em Chernobyl, como tem sido divulgado? A resposta é que a probabilidade é muito pequena. Para isso seria preciso que um dos reatores tivesse seu núcleo exposto em consequência de uma rachadura na parede do vaso, e mesmo assim não seria uma explosão nuclear. Reatores nucleares não são bombas nucleares. A necessidade de resfriar os núcleos dos reatores decorre do perigo real da pressão interna provocar danos às paredes de isolamento, liberando para o ambiente altas quantidades de materiais radioativos.

Em Fukushima, são quatro os reatores em operação atingidos pelo cataclismo, e todos foram construídos na década de 80. Embora tenham sofrido algumas atualizações tecnológicas, são de concepção antiga e ainda assim resistiram a dois impactos de grandes proporções ocorridos em sequência: terremoto e tsunami. Apesar de sua longevidade, seus núcleos vêm resistindo bravamente até agora. Houve o risco de um acidente de maiores proporções em Fukushima, mas o pior já passou, e a situação está sendo progressivamente controlada. Um problema é a falta de informação técnica precisa sobre as substâncias liberadas e o estado dos núcleos dos reatores em função da impossibilidade dos técnicos se aproximarem para realizar medições.

Por outro lado, uma grande e boa consequência desse acidente é que todos os projetos de reatores nucleares estão sendo revistos! E, claro, para melhor, com o objetivo de aumentar sua segurança, pois eles são chamados de reatores de terceira geração.

Conforme foi dito, a falta de informação é, em parte, consequência justamente da impossibilidade de funcionários se aproximarem dos reatores para realizar medições. Da mesma forma, foi determinado um isolamento nas imediações da usina para proteger os moradores do local. Quais os riscos à saúde humana decorrentes da exposição às substâncias radioativas liberadas para o ambiente?

Cunha: As substâncias radioativas provocam agravos à saúde humana de duas formas. A exposição por irradiação, que se dá sem contato, e a exposição por contaminação, em que o contato está presente. Esta última pode ser externa ou interna, quando há ingestão de elementos radioativos. Por exemplo, no caso do Japão, uma das informações divulgadas pela imprensa dá conta do vazamento de iodo radioativo para a atmosfera. Essa liberação é prevista em acidentes nucleares, e aprendemos bastante sobre ela com o acidente de Chernobyl. O iodo inalado é absorvido pela glândula tireoide.

Quando há acidentes desse tipo, uma medida preventiva é a administração de iodo inerte à população, em forma de comprimidos. A ideia é saturar a tireoide com iodo inerte para evitar que ela absorva o iodo radioativo. No caso brasileiro, por exemplo, o Ministério da Saúde editou portaria para manter estoques locais de iodeto de potássio em diversos pontos na área das usinas de Angra dos Reis para administração à população caso ocorra emergência com liberação de iodo radioativo. Isso está equacionado em Angra por intermédio da Defesa Civil em colaboração com a Secretaria Municipal de Saúde, que atua na distribuição e administração do medicamento aos cidadãos.

A população japonesa tem se monstrado muito preocupada em relação à sua alimentação. Como se dá essa contaminação?

Cunha: Substâncias radioativas atingem e se diluem na água ou contaminam o solo. Em algumas regiões do Japão, a água potável foi desaconselhada para consumo por crianças de até 1 ano. É uma medida preventiva. A OMS, acatando recomendações da United Nations Scientific Committee on the Effects of Atmomic Radiation (Unscear), estabelece um nível para consumo seguro e outro nível bem maior para intervenção. No caso referido, a água superou o primeiro nível, o de consumo seguro. Por isso, apenas as crianças foram excluídas do consumo.

O solo, quando recebe carga de contaminantes radioativos, pode transferi-los para os vegetais, que, por sua vez, são consumidos pelo homem e pelo gado e, na sequência, passam para a carne e o leite, como aconteceu em Chernobyl. Esse processo foi reportado no caso do Japão, mas as doses são baixas. Países como o Canadá suprimiram totalmente a importação de alimentos do Japão, mas a Europa preferiu apenas monitorar os níveis e prosseguir consumindo aqueles produtos.

Mas o vento também pode transportar essas partículas radioativas, correto?

Cunha: Sim, a dinâmica atmosférica é um fator de dispersão de contaminantes de qualquer tipo, não somente radioativos. No caso do Japão, é preciso notar que essas substâncias não saíram do núcleo do reator em grandes quantidades. Não houve um processo explosivo, elas foram liberadas na quantidade necessária para aliviar a pressão no compartimento de contenção. O vapor liberado contém substâncias que, misturadas ao ar, são levadas por correntes de ar. Toda dinâmica atmosférica tem de ser levada em consideração para saber o destino dessas substâncias. Os instrumentos atuais são extremamente sensíveis, de modo que têm sido reportados aumentos da radioatividade ambiental em diversos lugares, porém em quantidade muito reduzida. A atmosfera conduz, mas também dilui.

Para se ter uma ideia, testes nucleares feitos por EUA, Rússia, França, Grã-Bretanha e outros provocaram aumento da radioatividade geral do planeta. Hoje, quando se calcula a dose que cada cidadão recebe de radioatividade só por viver no planeta Terra, se computa uma parte devida a Chernobyl e outra devida àqueles testes nucleares pela Unscear.

Quais são as principais doenças associadas à exposição às substâncias radioativas?

Cunha: As formas de exposição referidas anteriormente podem ser classificadas pela sua intensidade. Exposição aguda se refere à alta intensidade em curto espaço de tempo. Exposição crônica é de baixa intensidade e duração prolongada. Exposição aguda se manifesta em curto prazo por meio de síndromes cutâneas se forem externas e, se forem internas, dependem do órgão afetado.

A exposição crônica produz as chamadas doenças radioinduzidas. Certas neoplasias e más-formações congênitas são exemplos. Até agora, o acidente que envolveu os reatores de Fukushima produziu exposição aguda apenas em trabalhadores das usinas que estiveram próximos aos reatores e que tiveram seus trajes danificados. Para a população em geral, os impactos ambientais tendem a ser diluídos e, portanto, serão do tipo exposição crônica: consumo de água e alimentos, principalmente, que terão de ser monitorados por algum tempo.

O Brasil tem um programa nuclear civil. De que forma áreas como a da saúde, por exemplo, têm participado das decisões do país nesse aspecto?

Cunha: A situação em Fukushima vai gerar um debate político bastante rico, que não podemos preterir: o que o Brasil quer para seu programa nuclear civil? Hoje, a opção do Estado brasileiro é favorável ao programa nuclear, mas há setores da sociedade que são contrários, e alguns estão aproveitando o momento para aquecer o debate. O que deve ser evitado é o uso de cargos públicos para atrapalhar o desenvolvimento de um programa definido por um Estado livre, democrático, soberano.

O Brasil tem algumas instalações sensíveis dentro do esforço nuclear: a Usina de Angra, a fábrica de combustíveis em Resende, diversos reatores de pesquisa e três minas de urânio. Uma já desativada em Poços de Caldas/MG, uma em operação em Caetité/BA, e outra a ser licenciada em Itataia/CE, e mais três ou quatro reatores estão sendo planejados. O debate sobre a vigilância e proteção à saúde neste parque industrial deve ser amplo e claro para a população, que deve estar ciente do equilíbrio entre importância para o país e segurança para a população. Esse debate é indispensável e urgente, independentemente da discussão sobre os rumos do programa nuclear brasileiro. O servidor da saúde tem de agir independentemente de suas convicções sobre a necessidade ou não de tal programa.

Isso nos conduz à questão central: o setor saúde tem de participar do planejamento de longo prazo do país. Somente assim se conseguirá a abrangência necessária para garantir – como o Japão garantiu – que sua população tivesse uma atuação competente e madura do Estado. Neste ponto, não podemos evitar a pergunta: se o setor saúde for chamado a participar desse planejamento de longo prazo, teria a necessária compreensão e base técnica para contribuir?

Mas os pesquisadores têm, de fato, se inserido nessas discussões? Como atraí-los?

Cunha: Temos excelentes quadros. Especialistas como Nelson Valverde – por favor, sem detrimento de outros de semelhante envergadura – é referencia mundial e colaborador da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea). Entretanto, há uma patente demanda reprimida para profissionais de saúde e pesquisadores nessa área de saúde e radioatividade. O tema nuclear é carregado de um pouco de estigma. Talvez essa seja uma das dificuldades.

Qual a importância da comunicação de risco em casos como esse do Japão? Qual a efetividade dessa estratégia para informar a população de forma competente?

Cunha: Fazemos parte da Fiocruz, uma instituição científica de referência no campo da saúde pública, e devemos redobrar nossos esforços para este aspecto da Comunicação de Risco em Saúde pelo seguinte motivo: há relativamente pouco tempo, dúvidas sobre o impacto à saúde, potencial ou real, trazido por algum fato novo, eram respondidas pela ciência. Hoje em dia prolifera a incerteza científica. Um exemplo contundente é sobre o uso da tecnologia de comunicação sem fio – o telefone celular. Os resultados de pesquisas científicas se dividem entre os que detectam e os que não detectam efeitos nocivos.

Na área da radioatividade natural aumentada, como a que existe nas regiões de mineração de urânio, a situação é semelhante. Há pesquisas que afirmam e outras que negam efeitos nocivos à saúde da população. Apesar dessas situações de incerteza científica, tenho a opinião de que o setor saúde tem a vocação para administrar esse conflito. A comunicação competente de risco em saúde deve ser realizada por profissionais de saúde que tenham a capacidade de conhecer o tema envolvido, a ponto de contribuir para o debate técnico, científico e tecnológico, e ao mesmo tempo sejam capazes de ‘traduzir’ essas questões para a população. Mais importante ainda é compreender que a comunicação de risco em saúde tem, forçosamente, de colher com competência os anseios da população e trazê-los para o debate acadêmico, buscando soluções reais e não apenas acadêmicas.

É particularmente complexa a comunicação quando as respostas aos anseios não são as esperadas, quando contrariam a expectativa geral. Enxergo na comunicação de risco em saúde uma proposta de equilíbrio para lidar com a complexidade das questões sociais envolvendo saúde pública, até mesmo como patamar para o avanço do processo democrático como um todo, centrado nessa ideia de saúde que temos no Brasil. Um modelo de saúde para todos, um modelo dialogal e interativo com a sociedade. Penso que esse é um patamar firme para um desejado aperfeiçoamento democrático.
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FONTE : Entrevista realizada por Filipe Leonel, da Agência Fiocruz de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 28/03/2011.

domingo, 27 de março de 2011

Pingo nos ‘i’s - Silvio Saad

Depois de ler nos jornais, na internet e ainda ouvir nas conversas informais, as diversas versões sobre a reunião (audiência pública) ocorrida no dia 22/01 último, em Canasvieiras, gostaria de contribuir com a minha visão do que considero a realidade.

- O grupo "SOS Canasvieiras" foi formado por moradores indignados com o distrato das autoridades com as condições atuais desse Balneário, que ainda é o mais importante da ilha, na recepção de turistas.

- O grupo tenta atrair todos os interessados nessa luta e elegeu alguns itens básicos, cuja resolução seria fundamental para começar a mudar o "status quo". E é totalmente apolítico.

- Cansados dos discursos das autoridades que somente se interessam em prometer providencias antes das eleições - e simplesmente desaparecem na hora de executá-las, resolveram tomar iniciativas concretas para exigir o que lhes é de direito.

Os 3 alvos iniciais são:

- Trato da água, com fornecimento e saneamento básico.

- Recuperação das praias, que estão desaparecendo.

- Segurança.

- Evidentemente que essa movimentação atraiu vários grupos interessados e atingidos pelos mesmos problemas: os empresários do turismo, os comerciantes, os empreendedores prediais, os políticos, os órgãos de classe, os CONSEGs, as ONGs, etc... E não se limitou a Canasvieiras, pois todo o norte da ilha mostrou-se vivamente interessado e querendo participar, já que os problemas são comuns.

- Nesse embalo, veio o problema da "Arena Multiuso do Sapiens Park", cuja conclusão - ou não -, vai afetar toda região. E esse item foi acrescido nas prioridades a serem discutidas e resolvidas.

- A Secretaria Estadual de Esportes seria a responsável para definir o problema da arena. O secretário se dispôs a vir a uma reunião com todos os envolvidos, para ouvir as reivindicações e incluí-las no projeto. Ou então vê-lo rejeitado pela comunidade.

- Entretanto, o evento ganhou publicidade e cunho político. As diversas facções que disputam o poder municipal se envolveram e vieram participar da reunião. Entre eles o atual 'Primeiro Ministro do Municipio', o ex-secretário regional, os secretários municipais de obras, saneamento, etc. diversos vereadores e possíveis próximos candidatos, e ainda alguns jornalistas mal informados (ou com outros interesses).

- Os temas principais da reunião deveriam ter sido abordados, com ênfase para a multiarena.

- O que vamos descrever agora tem o objetivo de corrigir as notícias que foram veiculadas e que não correspondem à realidade:



1 - O Sr. Sebastião dos Santos é um dos tantos integrantes e não o presidente do "SOS Canasvieiras". Este não possui diretoria e nem um representante oficial permanente. É um grupo atuante de membros da comunidade, sem hierarquia. O Sr. Sebastião foi o apresentador do evento e preside o CONSEG de Canasvieiras, é morador do bairro. E ligado ao DEM.



2 - Os representantes da prefeitura não foram hostilizados ou desrespeitados. Simplesmente, tiveram o mesmo tratamento que dispensaram ao norte da ilha, nos últimos 6 anos.



3 - Apesar de a Multiarena ser uma obra importante, que possui o apoio de todo o "trading " comercial da região, não pode ser implementada sem que outras providências sejam tomadas, para não torná-la inviável. São elas: o acesso rodoviário, estacionamentos, adequação das instalações a todas as necessidades para este tipo de empreendimento e, principalmente, às três principais reinvindicações da comunidade: saneamento básico, segurança e recuperação das praias, aplicadas no bairro todo.



4 - Deve-se pensar também na adequação da rede hoteleira e de restaurantes para esse turismo de eventos (ou de inverno).



5 - Nesse sentido, o Secretário Cesar Souza Jr., demonstrando notável perspicácia percebeu a obviedade das reivindicações e fez uma proposta concreta para ajudar a encontrar a melhor forma de resolver o que estava sendo apresentado.



6 - A Prefeitura, ao tomar conhecimento dessa situação, também deveria envidar seus melhores esforços para ajudar a tirar essa importante região da cidade - são 120 mil moradores - da situação em que se encontra. Caso contrário, pagará o preço nas próximas eleições.



7- Os políticos que estavam presentes ao evento agora deverão mostrar serviço, se não quiserem ver arruinadas suas chances de obter votos na região.



8 – E, finalmente, a CASAN, grande responsável pela maioria dos problemas da região, deveria parar de tentar "tapar o sol com a peneira" e agir efetivamente, sob pena de sofrer sérios revezes. A começar com a suspensão do pagamento da " taxa de esgoto" - serviço pelo qual ela recebe ilegalmente, pois não o executa.

No mais, coloco-me à disposição para esclarecer ou discutir as dúvidas que ainda existam.
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FONTE : Silvio Saad - Eco&Ação - Ecologia e Responsabilidade
www.ecoeacao.com.br

quarta-feira, 23 de março de 2011

O maior erro de Fukushima é a localização de Fukushima

Os centenas de especialistas nucleares, que durante anos teorizaram sobre a energia atômica, minimizaram algo que era uma obviedade: que na costa japonesa, além de terremotos, poderia haver tsunamis. Só dessa maneira se explica a construção de seis reatores semi-enterrados abaixo do nível do mar. Esse foi, segundo os engenheiros nucleares consultados, o grande erro de Fukushima. Isso, sem entrar na conveniência ou não de usar a energia nuclear.

A reportagem é de Rafael Méndez e está publicada no El País, 20-03-2011. A tradução é do Cepat.

“O erro foi colocar seis centrais à beira do mar, na altitude zero. Ao ser um enorme bloco encima, piorou o impacto do tsunami”, opina Antoni Tahull, engenheiro industrial. Este explica que o reator de Vandellòs II, na costa de Tarragona, está 21 metros acima do nível do mar.

Como foi possível colocar uma planta ali? Eduardo Gallego, professor de engenharia nuclear da Universidade Politécnica de Madri, declarou que “houve um excesso de confiança ao avaliar os riscos. Possivelmente, não levaram em conta que os registros históricos eram insuficientes”.

Os engenheiros e físicos nucleares insistem em que a central suportou o terremoto de magnitude 9. Após o terremoto, os reatores 1, 2 e 3 pararam, como estava previsto. Para isso, barras de controle são introduzidas automaticamente no núcleo. Com o terremoto, a planta ficou sem energia elétrica, mas, até aí tudo bem; passou a entrar em ação a refrigeração de emergência, produzida por geradores a diesel.

Até que veio o tsunami, que inutilizou os geradores a diesel utilizados para refrigerar uma central no caso de que fique sem energia elétrica. Esses geradores mostraram ser vitais. Apesar disso, não estavam suficientemente protegidos. “Além da localização, é óbvio que o sistema de refrigeração é muito vulnerável”, afirma Francisco Castejón, físico nuclear e membro de Ecologistas em Acción. Luis Echávarri, diretor da Agência Nuclear da OCDE, admitiu esta semana que uma das lições de Fukushima devia ser a melhoria na proteção desses geradores.

Sem refrigeração no núcleo, começaram a acumular vapor radioativo. Para aliviar a pressão, a empresa começou as ventilações, manobras para liberar gases. A ideia é que se trata de um mal menor, que é melhor liberar gases radioativos de forma controlada do que deixar que a pressão no núcleo aumente de forma incontrolada, o que poderia levar a uma explosão muito mais trágica.

Contudo, a central de Fukushima revelou um problema no sistema de ventilações. Entre os gases que saem está o hidrogênio, que explode em contato com o oxigênio do ar. Mas os gases não saíam diretamente para fora da central, mas ficaram presos entre o edifício do reator e a contenção, a carcaça que rodeia o núcleo do reator. Esse hidrogênio explodiu, como era previsível. Mas aconteceu dentro do edifício do reator. Isso causou as três explosões que destroçaram as centrais e que dificultam agora a colocação em marcha dos sistemas de refrigeração. Nos reatores 5 e 6, o Japão fez buracos nos edifícios antes que explodissem.

Além disso, acima do núcleo deste tipo de usinas nucleares estão as piscinas com combustível usado, altamente radioativo. As explosões deixaram as piscinas ao ar livre – foi possível fotografá-las desde o helicóptero militar com o qual desesperadamente tentavam refrigerar a planta. A situação das piscinas acima do núcleo e fora da contenção é outro ponto, no mínimo, discutível.

Fukushima colocou em evidência também as fragilidades do sistema internacional de comunicação. No sábado, o Conselho de Segurança Nuclear espanhol, que recebe a informação do Organismo Internacional de Energia Atômica (OIEA), informou que Fukushima tinha uma enorme piscina de combustível usado dos seis reatores “sobre o qual não se havia dado informações até agora”. O Japão deu informações imprecisas e com atraso, o que gerou mal-estar nos países da OIEA.
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FONTE : (Ecodebate, 23/03/2011) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Após o desastre nuclear de Fukushima as termelétricas a gás natural são a nova ‘aposta’

O gás natural pode estar vivendo um momento muito favorável, agora que as fontes de energia concorrentes estão em uma fase ruim.

Os graves problemas da usina nuclear acidentada no Japão fizeram com com que surgissem novas dúvidas quanto à segurança da energia nuclear. Após a explosão da plataforma da BP no ano passado, não houve novas iniciativas para a exploração de petróleo no Golfo do México. E existe um sentimento negativo em relação às usinas termoelétricas movidas a carvão porque elas contribuem para o aquecimento global. Reportagem de Jad Mouawad, The New York Times.

Enquanto isso, o gás natural superou dois dos seus maiores obstáculos – os preços voláteis e as incertezas quanto às reservas. Os preços do gás natural têm se mantido em patamares relativamente baixos nos últimos dois anos, em grande parte porque as novas descobertas nos Estados Unidos e no exterior provocaram um aumento significativo das reservas conhecidas.

É muito cedo para afirmar com certeza se os acontecimentos calamitosos no Japão poderão atrapalhar o renascimento em escala global da energia nuclear e provocar uma corrida ao gás natural. E é igualmente cedo para dizer se as autoridades responsáveis pela política nuclear estão apenas aparentando ter controle sobre as questões de segurança desde que teve início o atual desastre nuclear japonês.

Mesmo assim, como existe a previsão de que a demanda global por energia terá um crescimento de dois dígitos nas próximas décadas, os analistas estão antecipando uma nova explosão do consumo de gás natural. Tendo em vista as preocupações crescentes quanto à energia nuclear e a necessidade de reduzir as emissões de carbono, o banco Societe Generale afirmou que o gás natural é a “escolha restante” como combustível.

“Em última análise, quando nos debruçamos sobre a equação de risco e benefício, o gás natural emerge como o combustível vitorioso”, diz Lawrence J. Goldstein, economista da Fundação de Pesquisas de Políticas Energéticas. “É um verdadeiro nocaute técnico”.

Os mercados financeiros já começaram a registrar alterações de preços devido a este novo interesse pelo gás natural. Após o desastre no Japão, o preço do urânio sofreu uma queda de 30%, enquanto que os preços do gás na Europa e nos Estados Unidos registraram uma alta de cerca de 10%. Autoridades de diversos países, incluindo a China, a Alemanha, a Finlândia e a África do Sul, disseram que reavaliarão as suas estratégias nucleares.

As empresas de eletricidade também estão reconsiderando o papel do gás natural na produção de energia elétrica estável, uma função que historicamente é desempenhada pelo carvão e pela energia nuclear. Os executivos do setor de energia elétrica vinham se mostrando temerosos em relação às flutuações dos preços do gás natural, especialmente das duas últimas décadas.

Mas esta situação pode estar prestes a mudar, segundo John Rowe, diretor da Exelon, a maior empresa de energia nuclear dos Estados Unidos. Ele argumenta que uma usina de energia nuclear seria proibitivamente cara, enquanto que novas regras que limitam as emissões de carbono, baixadas pela agência de Proteção Ambiental, fariam com que fossem necessários altos investimentos para a redução das emissões das usinas termoelétricas movidas a carvão. Isso significa que as companhias de energia elétrica farão cada vez mais uma transição para o gás natural.

“O gás natural impera”, disse Rowe em uma palestra no Instituto Americano de Empreendimento, neste mês, em Washington, D.C.

Essa opinião é endossada por um relatório que deverá ser divulgado nesta terça-feira (22/03) pelo Centro de Políticas Bipartidárias e pela Fundação American Clean Skies, que prevê que o consumo de gás natural aumentará devido a uma abundância de novas reservas, incluindo nos Estados Unidos, algo que provavelmente manterá os preços relativamente baixos.

A produção mundial de gás natural aumentou 44% nas duas décadas decorridas entre 1990 e 2010, enquanto que as reservas de gás cresceram 67%. Após ter atingido um valor máximo de US$ 13,58 por mil pés cúbicos em 2008, o preço do gás nos Estados Unidos caiu para uma média de US$ 4,38 no ano passado. Além do mais, o gás natural emite apenas a metade do dióxido de carbono emitido pelo carvão quando este é queimado para a produção de um quilowatt hora de eletricidade.

O mercado imediato para o gás natural provavelmente será o próprio Japão, que está desesperado para aumentar as suas importaçõesde combustível depois que um quinto da sua capacidade nuclear ficou paralisada, incluindo a problemática usina de Fukushima Daiichi.

O Japão já importa um terço do gás natural liquefeito global e os seus terminais de importação, sobremaneira os do sul, não foram danificados pelo terremoto. A energia nuclear e o carvão respondem por um quarto da geração de energia elétrica no Japão, enquanto que o gás natural responde por 30%, de acordo com analistas da companhia financeira Raymond Jones.

“É possível que o terremoto de Honshu venha a ser o catalisador que remodelará fundamentalmente a nossa abordagem em relação à energia global”, opinaram na semana passada os analistas da Bernstein Research.

Muitas companhias petrolíferas anteciparam essa mudança. Na Royal Dutch Shell, a produção de gás natural superou a de petróleo nos últimos anos. A ExxonMobil adquiriu a XTO Energy no ano passado a fim de aumentar a sua presença no mercado crescente de gás de xisto. A companhia também instalou projetos significativos de exploração de gás em Qatar, que possui as terceiras maiores reservas de gás natural do mundo, depois da Rússia e do Irã.

Novos projetos de grande dimensão dedicados ao gás natural liquefeito – nos quais o gás é congelado, comprimido no estado líquido para maior facilidade de transporte, e a seguir transformado novamente em gás nos terminais de importação – têm se multiplicado por todo o mundo nos últimos anos. Na Papua Nova Guiné, a Exxon está liderando um projeto no valor de US$ 15 bilhões (R$ 25 bilhões) para a construção e o desenvolvimento de uma unidade de gás natural liquefeito para abastecer clientes na Ásia. A Chevron recentemente deu início aos trabalhos de engenharia do projeto de gás Gorgon, no valor de US$ 40 bilhões (R$ 66,7 bilhões), na Austrália, juntamente com a Shell e a Exxon. Já a Rússia está pretendendo explorar novos e enormes campos de gás no Ártico.

Mas o gás natural também tem os seus problemas. Para extrair metano das duras rochas de xisto nos Estados Unidos, as companhias de energia utilizam o fraturamento hidráulico, um método que é criticado por poluir as fontes de água, incluindo rios e aquíferos subterrâneos.

Mas é preciso que a política energética encontre um equilíbrio entre esses perigos e as preocupações públicas quanto à energia nuclear, além de levar em conta o problema ainda não solucionado referente ao que fazer com o combustível nuclear usado que permanece radioativo durante centenas de anos.

“A energia nuclear de repente deixou de ser uma parte da solução para uma futura estrutura de energia verde e tornou-se uma perigosa relíquia da guerra fria”, declarou na semana passada, em um relatório, o Deutsche Bank.

Nos Estados Unidos, onde nenhum novo reator foi construído desde o acidente na usina de Three Mile Island, em 1979, o atitude em relação à energia nuclear tem sido ambivalente. No ano passado, o presidente Barack Obama pediu ao Departamento de Energia que fornecesse algum suporte financeiro para operações nucleares, incluindo dois reatores que deveriam ser construídos no Estado da Geórgia.

Mas, após o desastre japonês, o governo norte-americano ordenou uma ampla reavaliação da segurança das usinas nucleares.

Ao mesmo tempo, a indústria nuclear tem constatado que é quase impossível construir e financiar novas usinas. Em dezembro do ano passado, por exemplo, a Exelon cancelou a sua proposta para a construção de uma usina nuclear no Condado de Victoria, no Estado do Texas, devido à oposição da população local.

As companhias de energia elétrica também têm enfrentado dificuldades para a renovação das suas licenças de operação existentes. A Estação de Energia Nuclear Pilgrim, em Plymouth, no Estado de Massachusetts, está aguardando uma nova licença há cinco anos devido aos litígios e atrasos nos tribunais. Autoridades estaduais do Estado de Vermont têm lutado para fechar a usina Vermont Yankee, em Entergy, que começou a operar em 1972.

Existem 104 reatores nucleares nos Estados Unidos, que geram 23% da energia elétrica do país. Segundo a “Bloomberg News”, 20 reatores estão com pedidos pendentes junto aos reguladores federais para ampliarem a vida útil das usinas por até duas décadas.

“É provável que nós façamos em relação às licenças nucleares o mesmo que fizemos com as licenças para exploração de petróleo no mar”, diz Goldstein, da fundação de políticas energéticas. “Nós postergaremos e paralisaremos o processo”
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FONTE : reportagem do New York Times, no UOL Notícias. (EcoDebate, 23/03/2011).

O desastre natural e o desastre nuclear no Japão, artigo de Maurício Gomide Martins

É assunto atualíssimo a ampla tragédia ocorrida no Japão. Ali houve três desastres seguidos que causaram muita destruição e diversos tipos de aflição na população. Mas os acontecimentos não foram exatamente assim. Vamos ampliar um pouco o ângulo de visão para podermos clarear as condições essenciais dos fatos.

Percebemos que houve uma acomodação geológica da placa tectônica do Pacífico a 130 km da costa nipônica, com força classificada de 8,9 pontos na Escala Richter. Previsível pela ciência. Só isso. No âmbito natural, foi apenas isso, sem danos significativos à situação geológica. O mais foi apenas resultado da atuação irresponsável da atual civilização materialista, tecnológica e agressiva.

Aquela acomodação tectônica se manifesta, aleatoriamente, no correr de borda de todas as placas geodinâmicas em que o planeta é dividido. É uma conformação natural, própria e adequada de um planeta vivo. A terra pode ser comparada, para melhor entendimento, a um ovo rachado em diversas partes, no qual as inferiores são cobertas por água e as superiores são secas e chamadas de continentes. A crosta terrestre, constituída de rochas, é proporcionalmente tão fina quanto à do ovo.

Voltemos a analisar as conseqüências do maremoto. Houve, por extensão e concomitantemente, um terremoto em áreas densamente habitadas que teria causado alguns poucos danos se ali não fosse ocupado por tanta gente com seus queridos bens materiais. Esse ajustamento geológico provocou em seguida uma elevação das águas, numa altura de apenas 10 metros, que invadiu o território indevidamente ocupado pelos humanos e suas incontáveis quinquilharias. Produziu um entulho de roupas, móveis, coleções de figurinhas, taças esportivas, aparelhos tecnológicos, carros, casas, arbustos, aviões, barcos e demais invenções e artigos supérfluos, a cujo conjunto damos o nome de lixo civilizatório.

Enquanto isso, os pássaros voavam tranquilamente em seus espaços naturais sem qualquer dano. Se fossem realmente inteligentes e em quantidade muito menor – compatível com os recursos naturais – os homens deveriam alojar-se em nível superior a 100 metros, reconhecendo sua submissão e respeito às manifestações naturais.

Há lamentações por perdas humanas, como é natural nessas ocasiões. Há compaixão e solidariedade com os irmãos de mesma espécie porque tal sentimento é herdado na corrente existencial. Contudo, todos esses danos são, ou consertáveis, ou recuperáveis, ou recompostos, ou conformáveis. Não são eternos. Têm um fim em curto prazo e deixam uma lição muito grande, de ordem socio-administrativa que não cabe aqui desenvolver, mas sobre a qual cada um pode fazer suas próprias ilações.

Mas nosso objetivo central aqui é analisar um aspecto que não está na programação natural e suas conseqüências civilizacionais. O maremoto causou, sem culpa, um mal imenso, com possível extensão à própria humanidade, cuja inserção na tragédia é de responsabilidade exclusiva da ação humana que segue o compasso da atual linguagem econômica na busca insana de progresso e crescimento ilimitados.

Referimo-nos à construção de usinas nucleares para produção de energia elétrica, fator alimentador dos confortos do corpo, objetivo inglório do sistema econômico que desnatura o próprio homem – sem qualquer proveito para as ânsias espirituais. Se pensarmos racionalmente, ante a atual encruzilhada ambiental por que passamos, a energia elétrica é inteiramente dispensável para a normal movimentação dos seres viventes. A Natureza nos proveu das condições próprias de locomoção pelo sistema muscular.

A Natureza nos deu o dia para as atividades normais e simples da vida. E nos deu a noite para o descanso e recomposição das energias despendidas no dia. Viver é incorporar-se ao ciclo próprio que ela nos oferece sabiamente. Os músculos são o repositório das energias vitais necessárias para a movimentação de busca de alimentos. A vida é muito simples para ser vivida. A atual civilização é que a complicou pela corrida aos ganhos materiais e eleição de castas econômicas, valorizando culturalmente o individualismo em detrimento do conjunto de seres vivos.

A construção de uma usina nuclear fica em aproximadamente 10 bilhões de reais. Um desastre nuclear acarreta dispêndios em vidas e bens equivalentes a valor tão grande que se torna incalculável, além de destruir as condições mínimas para existência da ecologia. O desastre da espécie libera na atmosfera elementos radioativos enriquecidos como os isótopos de estrôncio, xenônio, césio, iodo, plutônio, que duram tempo imenso.

O conteúdo da usina de Chernobyl continua vivo, ativo. Só que contido num sarcófago de cimento e ferro. Mas até quando? Ninguém sabe. Não deixa de ser uma bomba com relógio incerto. Nas usinas de Fukushima, ainda não temos uma definição da radioatividade a ser liberada para o envenenamento da vida. Oxalá consigam os nipônicos estancar as fontes incontroladas.

Todos nós, quando criança, aprendemos na pele que “com o fogo não se brinca”. Devíamos saber também que “com a fissão do átomo, não se brinca”. O mundo já tem “na pele” e nos genes suas conseqüências. Qualquer das 441 usinas em atividade está sujeita a provocar a libertação de seu núcleo mortífero e incontrolável. É só entrar em ação o fator da imponderabilidade.

E o lixo proveniente das operações dessas usinas, que é todo radioativo, está sendo lacrado em tambores especiais para uma destinação a que os cientistas ainda não sabem. O lixo atômico americano, depois de encarcerado em tambores de chumbo, está (oh, quanta irresponsabilidade!) sendo lançado no Oceano Pacífico, longe da costa continental. “Longe dos olhos, longe do coração político”. Está sendo jogado dentro da “casa” (hábitat) dos nossos irmãos viventes na água.

Afinal, a força forte contida no íntimo do átomo, que aglomera forças de carga positiva e negativa, constitui um dos segredos da Natureza. A civilização famélica por lucro violou esse sacrário, acorrentando-o em seu proveito, sem o menor respeito e submissão aos mistérios da sábia Natureza. O sistema econômico vigente age e pensa exclusivamente em função do lucro imediato dos tempos presentes. O futuro, eles não conseguem enxergar. Estamos deixando para as gerações vindouras apenas lágrimas para chorar.

As ocorrências naturais do planeta são do conhecimento geral. As tragédias conseqüentes montadas pela ganância do sistema econômico também são previsíveis. A tragédia global proveniente do envenenamento do meio ambiente pelo progresso materialista deveria ser perceptível por toda a humanidade; não somente pelos ambientalistas.

Neste exemplo que estamos vendo no Japão, as pessoas estão fugindo do país. Muito bem. Quando os brinquedos nucleares do mundo – usinas, foguetes militares, submarinos – e as outras atividades irracionais que destroem nosso ar, água e solo entrarem em colapso, ocasionado por causas não previstas pelos “técnicos”, nós vamos fugir para onde?

Só há um lugar: a tumba.

Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista e articulista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.
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Nota: “Agora ou Nunca Mais" - EcoDebate, 23/03/2011

terça-feira, 22 de março de 2011

"Situação vexatória", Doutor ? - Ana Echevenguá

Na audiência pública, promovida pela Comissão do Meio Ambiente da Câmara de Vereadores de Florianópolis*, restou comprovado – finalmente – que as nossas praias estão poluídas com esgoto in natura.

A CASAN tropeçou nos números e comprovou – com gráficos - as falhas do tratamento de esgoto. Exemplos:

- na Lagoa da Conceição – cartão postal de Floripa -, ela coleta esgoto de 2.903 imóveis, atendendo a 9.464 pessoas;

- em Canasvieiras – segundo lar dos argentinos -, coleta esgoto de 7.697 casas e atende 25.092 pessoas; após a fiscalização que o Ministério Público Estadual a obrigou a fazer, descobriu que 80% dos imóveis não estão ligados na rede de coleta. Peguei a calculadora e apurei que só 1.540 residências enviam seu esgoto pra ETE (estação de tratamento de esgoto) de Canasvieiras.

Bom, sobre essa ETE, ninguém sabe muita coisa. Não foi realizada – até o momento - uma perícia técnica confiável no local. Tudo o que a gente sabe é que o projeto está em fase de ampliação. Mas, recebi uma mensagem que diz isso: “enquanto não fica pronta é um terror, nem a cloração da parte que funciona está ligada”.

Voltando aos números: eles são trágicos se considerarmos os dados fornecidos pelo IPUF**. A população de Canasvieiras, em 2011, por exemplo, corresponde a 131.767 (31.937 fixos e 99.830 da chamada população flutuante).

Todos já sabem para onde vai o esgoto produzido por esse povo todo...

O representante da FATMA – órgão estadual cuja missão maior é garantir a preservação dos recursos naturais de SC – alegou que essa situação é vexatória.

Vexatória? Florianópolis joga quase todo o esgoto que produz nas águas e solo e isso é considerado simplesmente vexatório? No mínimo, seria um caso de improbidade administrativa. No mínimo, doutor!

Bom, vexatória foi a solução que ele apresentou para o problema: começar uma discussão direta entre CASAN e FATMA. Ou seja: só blábláblá para que a CASAN entenda que ela precisa cumprir suas obrigações.

Nem vou falar da exposição do plano de saneamento básico pra cidade - a solução encomendada pela prefeitura e CASAN... essa papelada deveria ser queimada em praça pública!

E o contrato CASAN-Prefeitura?

Vamos pensar juntos sobre o contrato que a CASAN e Prefeitura assinaram:

- a CASAN assumiu a obrigação de tratar o esgoto de Florianópolis; no contrato de concessão de serviços estão previstos seus direitos e suas obrigações;

- da parte relacionada aos seus direitos, ela está dando conta: cobra mensalmente – sob pena de corte de fornecimento de água - a tarifa de água e esgoto;

- as suas obrigações ainda estão no papel; em planos de cumprimento de metas; em reuniões de diretoria...;

- só teremos 100% de esgoto tratado em 2030.

Se é assim, e se a única solução para essa merda toda que nos cerca é a continuidade do blábláblá e um plano de saneamento mirabolante, vamos suspender imediatamente o pagamento à CASAN, na parte que trata do esgoto (que ela não trata).

E só vamos pagar essa conta em 2030. Ou seja: a partir do dia em que tivermos esgoto tratado!

A nossa Tolerância Zero a essa fétida situação vexatória contemplará também um pedido de responsabilização e de punição previstas em Lei das pessoas físicas envolvidas.

* - Realizada no dia 16 de março de 2011.

** - Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis
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FONTE : Ana Echevenguá, advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente da ong Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas, e-mail: ana@ecoeacao.com.br, website: www.ecoeacao.com.br

Organizações sociais exigem fim das usinas nucleares

Diante da gravidade da situação no Japão, 30 organizações sociais de países como México, Argentina, Peru, Guatemala, Chile, Canadá e Espanha, entre outros, se manifestaram nesta semana contra o uso deste tipo energia. Em carta aberta, os ativistas pedem que as usinas nucleares sejam desfeitas e que se busquem ‘verdadeiras soluções para os povos’. “Chernobyl e Fukushima são alertas que devem obrigar aos governos a que deixem de insistir em seguir promovendo estes projetos. A energia nuclear para provisionamento de energia e mais ainda com fins bélicos, deve parar”, enfatizam.
Tatiana Felix - Adital

O terremoto de 9 graus na escala Richter, que atingiu o Japão no último dia 11, seguido por tsunami, trouxe sérios danos para o país e conseqüências para o planeta. Isso porque, além dos mais de 5 mil mortos já confirmados e das quase 9 mil pessoas que estão desaparecidas, as catástrofes ambientais danificaram também a usina nuclear de Fukushima, que já registrou explosões em parte de seus reatores.

A explosão em reatores da usina nuclear libera material radioativo para a atmosfera contaminando meio ambiente e população. Os níveis elevados de radiação causam danos à saúde. Diante da gravidade da situação, 30 organizações sociais de países como México, Argentina, Peru, Guatemala, Chile, Canadá e Espanha, entre outros, se manifestaram nesta semana contra o uso deste tipo energia.

Em carta aberta, os ativistas pedem que as usinas nucleares sejam desfeitas e que se busquem ‘verdadeiras soluções para os povos’. “Chernobyl e Fukushima são alertas que devem obrigar aos governos a que deixem de insistir em seguir promovendo estes projetos. A energia nuclear para provisionamento de energia e mais ainda com fins bélicos, deve parar”, enfatizam.

As organizações sociais alertam sobre o perigo que as instalações nucleares trazem para a vida e a segurança do planeta. “Hoje o mundo está mudando, não apenas pelos riscos de desastres naturais como também pelos riscos aos quais estamos submetidos por impactos da mudança climática, que produziu grandes inundações, deslizamentos e alterações severas na habitabilidade do planeta”, relatam.

As organizações comentam que as crises ambientais e a necessidade de energia fizeram com que as grandes corporações e os países desenvolvidos, defendessem a energia nuclear como uma fonte alternativa, limpa e sustentável. No entanto, os ativistas ressaltam que “cada vez fica mais claro que estas são soluções falsas que apenas aumentam o perigo e a vulnerabilidade da humanidade frente às mudanças globais”.

“A energia nuclear está se propondo como uma fonte de energia alternativa e limpa nas negociações de mudança climática, mas está demonstrado que pode ficar fora do controle tanto técnico como humano, e afetar a milhões de pessoas e em particular para as próximas gerações pelo seu potencial efeito nocivo na vida”, contrapõem os ativistas.

Por isso, as organizações sociais “exigem que os governos se concentrem em assegurar a sobrevivência, o direito à habitabilidade, o direito à saúde e à soberania alimentar de milhões de pessoas no mundo, em lugar de debilitar as condições no planeta seguindo o que manda o capitalismo.”

Por causa da catástrofe ambiental, o governo japonês se viu obrigado a desligar 11 centrais nucleares, para evitar que mais desastres ocorram. Mais de 6 milhões de pessoas estão sem energia elétrica no Japão. Além da preocupação com a Central Nuclear de Fukushima, também estão em perigo outras duas plantas nucleares em Onagawa e Tokai.

Devido ao risco de novas explosões, cerca de 200 mil pessoas já foram evacuadas de locais próximos à usina, a fim de evitar a exposição aos efeitos nocivos de um acidente nuclear. (Adital)
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FONTE : CARTA MAIOR, 21/março/2011.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Brasil quer energia nuclear ?

Na USP, debate dos prós e contras da energia nuclear termina com pedido de “mais democracia”.

Não foi só para a França, onde 80% da energia vem de usinas nucleares, que o acidente de Fukushima gerou ansiedade. O Congresso Brasileiro já convocou a Eletronuclear, empresa responsável pelas nossas usinas atômicas, para apresentar a situação do país quanto à segurança nuclear.
As informações sobre essa preocupação brasileira surgiram após a mesa-redonda realizada na Universidade de São Paulo, na ocasião de lançamento do livro “Energia nuclear: do anátema ao diálogo”, organizado pelo economista e professor da FEA-USP José Eli da Veiga. O debate já estava na agenda há alguns meses, mas o acidente japonês fez um público intrigado lotar o auditório da Faculdade de Economia e Administração da USP.

De um lado, o físico do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, José Goldemberg, pediu calma. “Devemos acompanhar essa tecnologia, mas não temos urgência em ampliar nosso parque nuclear”, considerou, pedindo também mais prudência por parte do governo brasileiro. Ele lembra que coisas bem menores que um tsunami já seriam capazes de “provocar” um reator – afinal não foi propriamente o terremoto, mas a interrupção na corrente elétrica o que impediu o resfriamento dos reatores em Fukushima.

“A tecnologia é traiçoeira”, ele alerta antes de arrematar. “O sistema elétrico falha em Itaipu por causa de um raio. É a anedota brasileira”.

Do outro lado do debate está o engenheiro da Eletronuclear Leonam dos Santos Guimarães, que defende o uso de energia nuclear como complementar à hidrelétrica. Segundo ele, o Brasil é o mais modesto país do grupo do BRIC no planejamento de usinas nucleares. “Essa modéstia é um bom sinal: a energia limpa e barata das hidrelétricas continuará predominando”, posiciona-se Leonam, frisando que o seu uso é complementar ao citar o Plano Nacional de Energia 2030, ano para o qual é previsto um aumento de 57000MW de geração de energia de fonte hidrelétrica, enquanto o acréscimo de nuclear deve ser de 4000MW - figurando próximo das previsões para a eólica (mais 3000MW) e biomassa (mais 4500MW).

O engenheiro também alegou que o Brasil tem a 5ª maior reserva de urânio do mundo e é um dos poucos que junto a essa abundância possui a tecnologia para aproveitá-la – só os Estados Unidos e a Austrália também têm a combinação.

No mundo, a nuclear já representa 16% da produção de energia e ainda estão em construção mais 45 usinas e em planejamento outras 47. No Brasil, há estudos para uma instalação no Nordeste, com seis reatores, potência de 6600 MW e investimento previsto de R$ 10 bilhões. A construção de Angra 3, que está em andamento e deve ser concluída até 2015, é alvo de protestos da ONG Greenpeace, embalados pelo susto provocado por Fukushima. Perguntado sobre essa campanha, Leonam ignorou o relatório [R]evolução Energética - publicado pela ONG como alternativa brasileira para uma geração de energia limpa e segura, baseada em renováveis e reforçada pela eficiência nos processos de transmissão. Respondeu apenas que a posição da ONG é “permanentemente ideológica”, acrescentando que ele é “contra radicalismos.”

Enquanto Leonam usa em sua defesa o fato de um dos fundadores do Greenpeace, Patrick Moore, ter afirmado que “a água e o átomo são o par perfeito”; Goldemberg acusa de ser justamente o balanço de carbono da energia nuclear o grande problema. “Ela conquista ecologistas por ser carbono zero”, lamenta o físico, citando James Lovelock, pai da teoria de Gaia, entre os entusiastas que tinham medo do aquecimento global. “Ora, o aquecimento global será um desastre daqui cem anos, a nuclear pode trazer um desastre imediato”, compara, ao que alguém na platéia levanta a mão e aponta que após o acidente de Chernobyl “a natureza se recuperou com mais exuberância”. A resposta de Goldemberg esclarece sua preocupação. “Seres humanos são diferentes de plantinhas.”

Condenar a energia nuclear não é uma tarefa difícil, já que os conhecimentos acerca da segurança e da disposição de resíduos atômicos seguem nebulosos. Mas Goldemberg argumenta com ousadia. Primeiro, ele desmitifica a suposta relação linear entre PIB e consumo de energia; depois, livra do anátema a construção da hidrelétrica de Belo Monte. “A previsão de se desmatar 500km2 não é grave se considerarmos que 5000km2 da Amazônia são desmatados anualmente”, assinala.

A preferência dos brasileiros por Belo Monte, por nuclear ou por energia solar captada do Espaço (como visionou Eli da Veiga em entrevista após o debate) deveria ser levada em conta nos planejamentos energéticos do governo. A opinião é de Eli da Veiga, que perguntou à plateia repleta de pesquisadores e empresários do ramo quantos ali haviam respondido à consulta de opinião feita pela internet durante a elaboração do Plano de Energia brasileiro. Das quase três centenas presentes, quatro pessoas levantaram a mão. “Olha aí, falta democracia”, ele concluiu. “Hoje a gente fica sabendo por um tal de Lobão quantas usinas nucleares ele está pensando em fazer”, ironiza.

Questionado sobre a hipótese de o governo japonês ter camuflado a gravidade do acidente nuclear de Fukushima, Eli da Veiga responde que “o que vimos até agora é o contrário de Chernobyl” – onde o desastre, em solo antidemocrático, só foi anunciado dias depois de a radiação ter se expandido. “No Japão, o ministro se pronunciou quando o vazamento ainda era uma suspeita”, justifica.

Após Fukushima, o diálogo proposto por Eli da Veiga pouco se distanciou do anátema. Mas o que autor do livro defende não está no âmbito energético, mas no do diálogo. Eli da Veiga argumenta que “passam pelo Congresso questões bem menos importantes que o Plano de Energia brasileiro”. Então, que os brasileiros também sejam representados pelos seus deputados na escolha do futuro energético do país. “Quero que a escolha, qual for, seja democrática.”
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FONTE : Ana Carolina Amaral, da Envolverde. (Agência Envolverde).

Desastre japonês pode ser pior que Chernobyl

Um desastre nuclear pior do que o acidente de Chernobyl em 1986 pode estar em gestação no Japão, onde centenas de toneladas de combustível atômico altamente radioativo estão a céu aberto e podem pegar fogo, contaminando a atmosfera. Muitos países aconselharam seus cidadãos a abandonar o Japão. “Isto é território desconhecido. Há 50% de possibilidades de se perder os seis reatores e seus tanques de armazenamento”, afirmou Jan Beyea, físico nuclear da consultoria norte-americana Consulting in the Public Interest.

“Estou surpreso que a situação não tenha se agravado mais rápido. Se não houver progressos, será questão de dias antes que o combustível usado derreta”, disse Ed Lyman, físico da União de Cientistas Comprometidos e especialista em projetos de usinas atômicas. A central de Fukushima Daiichi foi danificada pelo terremoto seguido de tsunami do dia 11.

Calcula-se que há cerca de 1.700 toneladas de combustível atômico usado, mas ainda perigoso, nos tanques de armazenamento próximos aos seis reatores, segundo Kevin Kamps, especialista em lixo radioativo da organização ambientalista norte-americana Beyond Nuclear. Os tanques mantêm há 30 ou 35 anos combustível usado nos reatores 3 e 4, mas perderam sua capacidade de contenção e a maior parte, se não toda ela, da água que era usada para refrigerá-los. Podem pegar fogo, lançando partículas radioativas na atmosfera, disse Kevin à IPS.

Na semana passada, helicópteros japoneses protegidos com chumbo lançaram água do mar sobre os reatores 3 e 4, em um desesperado e perigoso esforço para esfriá-los. Se parte do combustível usado pegar fogo e este se propagar, enormes áreas do Japão “poderão ficar contaminadas com Césio 137 por 30 a 50 anos”, disse Jan à IPS. O Césio 137 permanece radioativo por mais de cem anos. É uma conhecida fonte de câncer e tem outros impactos na saúde. Uma vez liberado, é muito difícil de ser controlado. O césio é a razão pela qual grande parte da região onde houve a explosão de Chernobyl, na Ucrânia, continua inabitável após 25 anos.

Um estudo realizado em 2010 pela Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, mostrou que meninos e meninas que nasceram depois do desastre, mesmo a mais de 75 quilômetros de distância, tinham problemas crônicos em seus pulmões devido à presença de Césio 137 nas partículas de pó e no solo. “As particular de césio foram espalhadas por centenas de milhas durante o fogo intenso em Chernobyl”, explicou Kevin. Só para comparar, Chernobyl tinha no total 180 toneladas de combustível nuclear, enquanto Fukushima Daiichi conta com 560 toneladas em seus reatores, mais 1.700 toneladas de combustível usado.

“A indústria nuclear do Japão e dos Estados Unidos sabia que a perda de refrigeração nos tanques de armazenamento de combustível usado seria um grave problema, mas simplesmente disseram que nada aconteceria”, afirmou Jan, coautor de um estudo de 2004 sobre este tema realizado para o Conselho Nacional de Pesquisas da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Por ter trabalhado na indústria, Jan disse estar convencido de que esta é administrada por engenheiros extremamente confiantes em si mesmos que minimizam ou ignoram as probabilidades de desastre.

Os reatores nucleares geram enorme quantidade de calor, e devem ser constantemente resfriados para impedir que a proteção do combustível pegue fogo e este derreta. Já que uma reação nuclear não pode ser apagada, quando o combustível usado é retirado de um reator ainda continua gerando grande quantidade de calor e deve ser esfriado com água entre cinco e 20 anos.

Todos os reatores possuem tanques de armazenamento com grossas paredes reforçadas de concreto, localizados a 15 metros de profundidade, contendo cerca de 1,5 milhão de água. Logo esta água esquenta e deve ser constantemente substituída por outra fria. A perda de eletricidade e as falhas dos geradores de apoio em Fukushima Daiichi limitaram o fluxo de água para os tanques de armazenamento e reatores.

Os níveis de radiação dentro da usina subiram tanto que é perigoso para os trabalhadores continuarem no local bombeando água marinha. O comum é usar água potável, porque a água do mar contém sais que posteriormente afetam os metais. Mas esta é uma emergência. A radiação atinge níveis mortais quando não há água suficiente para cobrir um tanque de armazenamento, explicou Kevin. “Será muito difícil aproximar-se o suficiente para esfriar os tanques. Se o pior ocorrer, e os seis tanques pegarem fogo, será um desastre inimaginável, podendo ser pior do que Chernobyl”, alertou.

A quantidade de césio que poderia ser liberada em Fukushima é muitos milhares de vezes maior do que a propagada pela bomba lançada sobre a cidade de Hiroshima na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), reconheceu Jan. “O Japão enfrenta enormes impactos potenciais em sua economia, sociedade e saúde do povo”, disse, referindo-se que estes podem durar décadas.
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FONTE : Stephen Leahy, da IPS. (IPS/Envolverde).